Entre Algoritmos e Territórios: Uma Revisão de Escopo Sobre Saúde Digital e Inteligência Artificial Na Atenção Primária
Entre Algoritmos e Territórios: Uma Revisão de Escopo Sobre Saúde Digital e Inteligência Artificial Na Atenção Primária
Como citar Lopes Júnior JEG, Ferreira TS, Garces TS, Maia PHM, Jorge MSB. Entre algoritmos e territórios: uma revisão de escopo sobre
saúde digital e inteligência artificial na atenção primária. Rev Panam Salud Publica 2025; 49:e126. [Link]
RPSP.2025.126
Resumo Esta revisão de escopo sintetizou a produção científica recente sobre o uso de tecnologias digitais móveis na Aten-
ção Primária à Saúde (APS) no contexto do Sistema Único de Saúde (SUS). A pesquisa foi conduzida com base na
metodologia do Joanna Briggs Institute e nas diretrizes PRISMA-ScR, incluindo estudos publicados entre 2020 e
2025 nas bases PubMed, SciELO, LILACS e Biblioteca Virtual em Saúde. Foram selecionados 30 artigos que abor-
daram diversas soluções digitais, como aplicativos de autocuidado, chatbots, plataformas de gestão clínica, jogos
educativos e ferramentas de Inteligência Artificial (IA). Os principais achados indicam contribuições na amplia-
ção do acesso, personalização do cuidado, qualificação da gestão e fortalecimento da educação em saúde.
No entanto, foram identificadas barreiras significativas como desigualdades digitais, falta de interoperabilidade,
lacunas na formação digital dos profissionais e desafios éticos no uso da IA. Conclui-se que o uso responsável e
equitativo de tecnologias digitais móveis, quando articulado com as diretrizes da Estratégia de Saúde Digital e aos
princípios da Política Nacional de Atenção Básica, pode fortalecer a APS e a efetividade do SUS.
Palavras-chave atenção primária à saúde; saúde digital; aplicativos móveis; inteligência artificial; sistema único de saúde.
A Atenção Primária à Saúde (APS) é a base da organiza- plataformas de telessaúde e sistemas informatizados têm sido
ção do Sistema Único de Saúde (SUS), sendo responsável por aplicadas na gestão do cuidado, no monitoramento de condi-
ordenar as redes de atenção e coordenar o cuidado longitudi- ções de saúde e na educação em saúde (6).
nal (1,2). Desde sua criação, o SUS buscou superar modelos A pandemia de COVID-19 impulsionou ainda mais o uso de
fragmentados e verticalizados, promovendo a universalidade e tecnologias digitais, evidenciando a necessidade de respostas
a integralidade (3). Neste processo, a APS assume papel central rápidas e remotas para garantir a continuidade do cuidado (7).
na estruturação de um cuidado contínuo e próximo do territó- Neste contexto, soluções acessíveis por dispositivos móveis
rio, especialmente em contextos de vulnerabilidade social. passaram a desempenhar papel estratégico na ampliação do
Com o avanço das tecnologias digitais, novas possibilida- acesso e na adaptação dos serviços às demandas emergenciais.
des passaram a ser incorporadas à organização dos serviços A APS, como porta de entrada preferencial do SUS, foi direta-
na APS. A Política Nacional de Saúde Digital (4) e o e-SUS mente impactada por esta transformação.
APS (5) representam esforços estruturantes voltados à infor- Apesar dos avanços, a incorporação destas tecnologias
matização, ampliação do acesso e promoção da equidade apresenta desafios importantes. Barreiras relacionadas à infra-
digital. Ferramentas como aplicativos móveis, jogos digitais, estrutura, conectividade, letramento digital e desigualdades
1
Universidade Estadual do Ceará, Fortaleza, Ceará, Brasil.
José Evaldo Gonçalves Lopes Júnior evaldoljr@[Link]
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regionais ainda limitam o pleno potencial da saúde digital. estudos deveriam abordar diretamente o uso de tecnologias
Além disso, há lacunas na formação dos profissionais de saúde, digitais móveis no cuidado, prevenção ou promoção da saúde
bem como preocupações éticas relacionadas ao uso da inteli- no âmbito da APS vinculada ao SUS.
gência artificial em ambientes de cuidado. Foram excluídos artigos de opinião, editoriais, revisões
Este estudo apresenta uma contribuição inédita por meio de narrativas, relatórios exclusivamente técnicos, estudos volta-
revisão de escopo que sintetizou a produção científica recente dos à gestão administrativa, e publicações sem relação direta
sobre o uso de tecnologias digitais móveis na APS no contexto com a prática assistencial. Além disso, também foram excluí-
do SUS, com foco especial nas aplicações de Inteligência Artifi- das pesquisas com foco temático dissociado do objeto central
cial (IA), chatbots, jogos digitais e plataformas de autocuidado. da pesquisa (como abordagens voltadas à gestão, organização
Diferentemente de revisões anteriores, esta pesquisa articula institucional ou modelos administrativos), ausência de tec-
os achados à Política Nacional de Saúde Digital e à Política nologias digitais diretamente aplicadas ao cuidado, e falta de
Nacional de Atenção Básica (PNAB), oferecendo uma análise descrição de efeitos práticos ou obstáculos enfrentados em sua
integrada dos benefícios, riscos e desafios éticos dessas tecnolo- implementação.
gias no cuidado em saúde. A seleção dos estudos foi realizada por dois revisores de
A originalidade do estudo reside tanto na delimitação tem- forma independente, em três fases sequenciais: leitura dos
poral e temática quanto na abordagem metodológica adotada, títulos, análise dos resumos e leitura integral dos textos. Diver-
que proporciona subsídios inéditos para o desenvolvimento de gências foram resolvidas por consenso. Os dados extraídos
políticas públicas e práticas clínicas inovadoras voltadas à APS. de cada estudo foram organizados em planilhas do Microsoft
Excel®, com base em instrumento adaptado das recomendações
MÉTODOS do JBI (8), e incluíram informações como: autor, ano, título, tipo
de estudo, população-alvo, contexto de aplicação, objetivo(s) e
Este estudo é uma revisão de escopo, realizada conforme principais contribuições identificadas.
o método proposto pelo Joanna Briggs Institute - JBI (8) que A análise dos dados foi conduzida por meio de análise
prevê as seguintes etapas: definição do objetivo e da pergunta temática, conforme a abordagem de Braun e Clarke (10), bus-
da revisão, delimitação dos critérios de elegibilidade, plane- cando identificar padrões, categorias recorrentes e lacunas na
jamento e execução da busca, seleção dos estudos, extração e produção científica. Os estudos foram agrupados em eixos
análise dos dados e apresentação dos resultados. A elaboração temáticos previamente definidos a partir da leitura exploratória
do manuscrito seguiu a diretriz PRISMA-ScR (Preferred Repor- dos dados: (1) uso da inteligência artificial em saúde mental;
ting Items for Systematic Reviews and Meta-Analyses Extension for (2) impacto de chatbots e assistentes virtuais; (3) saúde digital e
Scoping Reviews) (9). O protocolo foi previamente registrado na gestão do cuidado na APS; (4) barreiras, desigualdades e equi-
plataforma Open Science Framework (OSF) com o seguinte DOI dade digital; e (5) tecnologias voltadas a grupos específicos.
[Link] O percurso metodológico adotado foi sintetizado graficamente
A construção da pergunta norteadora baseou-se na estratégia em um fluxograma adaptado do modelo PRISMA-ScR (9), deta-
PCC: População – usuários e profissionais da Atenção Primária lhando o número de estudos identificados, triados, excluídos e
à Saúde; Conceito – adoção de tecnologias digitais móveis (como incluídos, conforme os critérios de elegibilidade previamente
aplicativos, plataformas interativas, jogos e ferramentas com definidos.
inteligência artificial); e Contexto – serviços do SUS, com ênfase Por se tratar de revisão de literatura sem coleta de dados pri-
na Atenção Primária à Saúde. A pergunta orientadora definida mários, não foram aplicados critérios de aprovação por comitês
foi: “Quais são os efeitos e desafios da adoção de tecnologias de ética em pesquisa. No entanto, todas as etapas seguiram
digitais em dispositivos móveis por profissionais da Atenção rigor metodológico, com respeito aos princípios da transparên-
Primária à Saúde nos serviços do Sistema Único de Saúde?”. cia, reprodutibilidade e citação adequada das fontes utilizadas.
A busca foi realizada entre janeiro e julho de 2025 nas bases de
dados PubMed, SciELO, LILACS e Biblioteca Virtual em Saúde RESULTADOS
(BVS). A escolha das bases permitiu não apenas abrangência
internacional e multidisciplinar das buscas, como também A busca nas bases de dados SciELO, Biblioteca Virtual em
cobertura da literatura latino-americana e brasileira, com foco Saúde (BVS/LILACS) e PubMed, realizada entre os meses de
na Atenção Primária à Saúde no SUS. Utilizou-se combinação janeiro a julho de 2025, resultou num total inicial de 20.902 regis-
de descritores DeCS e MeSH, como “atenção primária à saúde”, tros. Em todas as bases foram aplicados filtros quanto ao idioma
“saúde digital”, “tecnologias móveis”, “aplicativos móveis”, (português, inglês e espanhol) e ao período de publicação (2020
“e-SUS” e “inteligência artificial”, combinados com os operado- a 2025), a fim de garantir a atualidade e relevância dos estudos
res booleanos AND e OR. As estratégias foram adaptadas para selecionados. No SciELO, a aplicação destes filtros resultou em
cada base e complementadas por busca manual nas listas de 109 artigos elegíveis para triagem inicial, a partir de um total
referências dos estudos incluídos. de 461 registros identificados. Na BVS, a busca retornou 19.169
Foram incluídos estudos primários, empíricos, com aborda- estudos, dos quais 349 foram mantidos após aplicação adicio-
gem quantitativa, qualitativa ou mista, publicados entre 2020 e nal de filtros por tipo de publicação (revisões sistemáticas e da
2025, nos idiomas português, inglês ou espanhol, disponíveis literatura) e por assunto principal. Já no PubMed, a combinação
em texto completo. O recorte temporal justifica-se por contem- dos filtros gerais com os específicos para tipo de estudo e acesso
plar pesquisas mais recentes que refletem a contemporaneidade, aberto ao texto completo reduziu os 1.272 registros iniciais para
marcada por avanços na infraestrutura digital e expansão de 47 artigos elegíveis.
políticas públicas com esse enfoque, que foram impulsiona- Após a consolidação das buscas, não foram encontrados arti-
dos pelas demandas advindas da pandemia de COVID-19. Os gos duplicados, portanto não foi necessário excluir nenhum
outro artigo. Em seguida, foi realizada a triagem por leitura de tratamento em saúde pública, além de evidenciar os potenciais
título e resumo dos 536 estudos restantes, conforme descrito na benefícios e desafios associados a estas inovações.
metodologia. A análise dos 30 artigos científicos permitiu identificar três
Os 89 artigos que permaneceram após esta etapa foram sub- grandes eixos temáticos interconectados: (1) Aplicações da
metidos à leitura na íntegra, culminando na inclusão de 30 IA em Saúde Mental; (2) Ampliação do Cuidado por meio da
estudos para análise final, sendo 22 provenientes do SciELO, Saúde Digital na Atenção Primária; e (3) Potencial Transforma-
cinco da BVS/LILACS e três do PubMed. A amostra resultante dor dos Dados Móveis e Assistentes Virtuais na prática clínica.
contemplou diferentes enfoques metodológicos e contextos
de aplicação, contribuindo para uma compreensão ampla das 1. Predição e Monitoramento de Saúde Mental com IA
potencialidades e limitações das tecnologias digitais no âmbito
da saúde pública. Diversos estudos demonstraram o uso de IA para fins predi-
O processo de identificação, triagem e elegibilidade dos estu- tivos e de triagem em saúde mental. Modelos de aprendizado
dos está sintetizado no fluxograma PRISMA-ScR (9), adaptado de máquina foram aplicados a dados passivos de smartphones,
conforme as recomendações do JBI (8). Este modelo gráfico sensores e dados de fala, com destaque para a acurácia na iden-
apresenta, de forma transparente, o percurso metodológico tificação precoce de sintomas depressivos (11-15).
adotado até a composição final da amostra, conforme a Figura 1.
O Quadro 1 apresenta uma síntese destes estudos, destacando 2. Chatbots, Assistentes de Voz e Ferramentas
o título, os objetivos, a metodologia utilizada e os principais Conversacionais
resultados encontrados. Os estudos foram publicados em inglês
(16; 55,2%) e português (13; 44,8%). Quanto ao país de origem, Foram avaliadas as promessas e limitações de tecnologias
foram identificadas pesquisas no Brasil (13; 44,8%), China (3; conversacionais para rastreamento e aconselhamento em saúde
10,3%), Estados Unidos (3; 10,3%), Alemanha (2; 6,9%), Espa- mental, incluindo os desafios éticos e regulatórios (16-20).
nha (2; 6,9%), Irlanda (1; 3,4%), Noruega (1; 3,4%), Portugal (1;
3,4%), Finlândia (1; 3,4%), Singapura (1; 3,4%), Reino Unido (1; 3. Aplicativos moveis e Saúde digital
3,4%) e um multicêntrico (3,4%). Esta sistematização visa ofere-
cer uma visão panorâmica das contribuições científicas recentes Os estudos apontam o impacto positivo de aplicativos no
sobre o uso de tecnologias digitais no cuidado, prevenção e monitoramento, autocuidado e vigilância em saúde, com ênfase
FIGURA 1. Fluxograma do processo de busca, exclusão e seleção dos artigos. Adaptação do PRISMA-ScR (9)
SciELO: 461
Artigos removidos antes da triagem pelos critérios
IDENTIFICAÇÃO
BVS/LILACS: 19.169
de filtragem (idioma, período, tipo de publicação e
PubMed:1272
assunto principal): 20.396
Total: 20.902 estudos identificados nas
bases de dados.
Artigos excluídos após leitura preliminar por
1) foco temático dissociado do objeto central da
pesquisa (como abordagens voltadas à gestão,
Artigos selecionados organização institucional ou modelos
SELEÇÃO
Artigos selecionados: 30
INCLUSÃO
na gestão do cuidado na APS brasileira. Ferramentas como o de saúde em todas as etapas de desenvolvimento e imple-
e-SUS APS, IST Nurse®, ICOPE e aplicativos educativos mostra- mentação, bem como a formulação de políticas públicas que
ram ganhos em resolutividade e acesso (21-25). assegurem acesso equitativo, ético e universal ao cuidado em
saúde (4,20). A análise dos estudos selecionados foi organizada
4. Barreiras e Desigualdades em quatro temas principais que resumem os achados e desa-
fios do uso de tecnologias digitais na APS. A análise mostrou
Foram identificadas limitações como baixa alfabetização mudanças e desafios, que podem ser divididos em quatro áreas
digital, exclusão tecnológica de idosos, falta de padronização interligadas: aumentar o acesso, educação em saúde, melhorar
de dados e riscos de iniquidades (26-28). A saúde digital, se não a gestão e desenvolver habilidades profissionais (6,23,24). Estes
for orientada por princípios de equidade, pode reforçar desi- achados estão alinhados com os princípios do SUS de universa-
gualdades existentes. lidade, integralidade e equidade (29).
Os resultados indicam que a Inteligência Artificial e a Saúde Estudos como os de Sousa et al. (22) e Maia & Marin (32) mos-
Digital podem transformar a Atenção Primária à Saúde, ao traram que tecnologias como aplicativos de celular, mensagens
ampliar o acesso, qualificar a gestão e fortalecer o cuidado. SMS e plataformas digitais podem ajudar a levar mais informa-
Contudo, sua adoção deve seguir princípios éticos e as dire- ção e serviços de saúde às pessoas, especialmente aquelas que
trizes de universalidade, integralidade e equidade do SUS, têm dificuldade de ir até os postos de saúde. Mas ainda existem
assegurando que os avanços tecnológicos reduzam desigual- problemas como a falta de acesso à internet e barreiras geográ-
dades e fortaleçam a APS como coordenadora do cuidado ficas que dificultam o uso destas tecnologias. O primeiro ponto
(15,20,27). A Política Nacional de Atenção Básica valoriza o é aumentar o acesso e a inclusão digital. Aplicativos de celular,
cuidado contínuo, completo e eficaz, que pode ser melhorado plataformas interativas e sistemas como o e-SUS têm ajudado
com estas tecnologias (1,4, 21,29). No entanto, existem desafios a superar barreiras geográficas e a aproximar as pessoas dos
como privacidade, explicação dos algoritmos, regulação de IA serviços de saúde. No entanto, a exclusão digital ainda é um
e formação profissional. Para empregar a IA na APS de forma problema, especialmente em áreas remotas ou com limitada
responsável, é preciso mais do que tecnologia. São necessárias conexão à internet, como mencionado por Paim (3).
regras claras, treinamento em habilidades digitais e formas de
monitorar os impactos (20,27,30). Educação em Saúde e Mudança de Comportamento
Pesquisas destacam os perigos de preconceitos em algoritmos,
falta de clareza e problemas psicológicos se estas tecnologias forem Tecnologias educacionais, como jogos sérios e aplicativos vol-
usadas sem a devida validação ética e técnica. A equidade digi- tados à promoção da saúde mostraram-se eficazes em contextos
tal é crucial: tecnologias como aplicativos móveis e ferramentas diversos, como a educação sexual na adolescência (33), cuida-
automáticas apenas serão úteis se estiverem disponíveis também dos com o recém-nascido (24) e promoção de hábitos de vida
para populações vulneráveis (26,28,31). A exclusão digital, ligada saudáveis (34). A personalização e o engajamento interativo são
ao baixo conhecimento tecnológico, reduz os benefícios destas elementos chave para o sucesso destas ferramentas, embora sua
inovações e aumenta as desigualdades no cuidado de saúde. Para disseminação dependa de estratégias educativas abrangentes.
fortalecer o SUS, é necessário que a digitalização siga os princípios O segundo eixo se refere ao potencial pedagógico das tecno-
de universalidade, equidade e integralidade (4). logias digitais no campo da educação em saúde e promoção
A incorporação de IA e soluções digitais deve seguir as dire- de hábitos saudáveis. Jogos educativos e aplicativos demons-
trizes do SUS, priorizando a participação ativa dos profissionais traram efetividade no engajamento de adolescentes, pais de
recém-nascidos e idosos, promovendo autonomia e mudança importante que os investimentos em saúde digital ajudem
de comportamento (23,33,34). populações vulneráveis, como as que vivem em áreas remo-
tas, periferias urbanas e povos originários. Os resultados
Fortalecimento da Gestão e Monitoramento em também destacam a importância da APS como coordenadora
Saúde das Redes de Atenção à Saúde, integrando práticas inovado-
ras com base territorial e comunitária. Como afirmam Mendes
Ferramentas como o Prontuário Eletrônico do Cidadão e o (2) e Bousquat et al. (1), fortalecer a APS é essencial para
e-SUS Notifica (35) ajudam a monitorar ações de saúde em tempo garantir cuidado completo e resolver problemas nos siste-
real, especialmente em emergências. Estas iniciativas melhoram mas de saúde regionais. Assim, as tecnologias digitais devem
a vigilância epidemiológica e a tomada de decisões baseadas em ser compreendidas como ferramentas que ampliam a prática
dados, mas enfrentam problemas técnicos e de integração entre clínica, qualificam a vigilância em saúde e potencializam o
sistemas. No gerenciamento e monitoramento, o uso destas tec- cuidado centrado nas pessoas e nos territórios, e não como
nologias é promissor para melhorar a vigilância em saúde e tomar soluções tecnocráticas desvinculadas da realidade do SUS. É
decisões rápidas. Elas permitem maior rastreamento, rapidez e essencial treinar os trabalhadores do SUS para usar estas fer-
segurança da informação, mas enfrentam desafios de integração ramentas de forma ética, crítica e colaborativa, especialmente
entre sistemas e falta de treinamento técnico das equipes. no contexto do Previne Brasil e das estratégias nacionais de
Telessaúde. Os resultados desta revisão ajudam a criar, moni-
Desenvolvimento de Competências Profissionais torar e avaliar políticas públicas para inovação tecnológica na
APS, visando um cuidado mais acessível, eficiente e justo em
Para integrar totalmente a saúde digital na APS, é preciso todo o país.
treinar profissionais com habilidades técnicas, éticas, críticas e cul-
turais. Segundo Rodrigues et al. (25) e Almeida Filho (36), urge CONCLUSÃO
oferecer treinamento contínuo às equipes de saúde, focando em
habilidades gerais e no uso consciente da tecnologia. É importante Este estudo permitiu sintetizar a produção científica recente
unir ferramentas digitais e práticas presenciais para garantir um sobre o uso de tecnologias digitais móveis na APS no contexto
cuidado humano e eficaz. Além disso, é preciso desenvolver habi- do SUS. Estes instrumentos foram utilizados para fins diversos,
lidades digitais nos profissionais da APS. A saúde digital exige como monitoramento clínico, educação em saúde, triagem de
habilidades técnicas, éticas e críticas, que vão além do uso de ferra- sintomas, gestão de dados e apoio à decisão clínica. As ferra-
mentas e incluem a capacidade de combinar o cuidado presencial mentas mais recorrentes incluíram aplicativos móveis, jogos
e virtual. Esta revisão encontrou falhas na formação e gestão do digitais, plataformas de telessaúde, sistemas informatizados e
conhecimento em saúde digital (25,36), o que requer políticas de dispositivos com IA aplicados ao cuidado no contexto brasileiro
educação contínua alinhadas às Diretrizes Curriculares Nacionais. e nos países da América Latina e Caribe.
Estes quatro eixos mostram como as tecnologias digitais Os principais efeitos observados na prática assistencial
podem mudar a APS, mas também apontam os desafios estru- incluem a ampliação do acesso por populações vulneráveis, o
turais, sociais e de formação que precisam ser enfrentados. fortalecimento da autonomia dos usuários, a personalização do
Para que a saúde digital se consolide no SUS, é necessário ter cuidado, a qualificação da gestão e a vigilância em tempo real.
políticas públicas inclusivas, financiamento adequado e a par- Além disso, as tecnologias demonstraram potencial pedagógico
ticipação ativa de usuários e trabalhadores do sistema. A saúde na educação em saúde e contribuição para a formação profissio-
digital na APS precisa de dois movimentos: investir em tecno- nal em competências digitais.
logias que sejam seguras, interoperáveis e focadas no usuário, e Entretanto, desafios relevantes foram identificados para a
fortalecer o cuidado que seja territorial, colaborativo e humani- efetivação destas tecnologias na APS. Entre eles, destacam-se
zado. Como destacam Bousquat et al. (1), a coordenação eficaz a exclusão digital de populações em territórios periféricos, a
do cuidado na APS depende da união entre inovação tecno- baixa interoperabilidade entre sistemas, lacunas na formação
lógica e compromisso social. Sem isso, o SUS digital pode se ética e tecnológica dos profissionais e riscos relacionados a vie-
tornar mais uma barreira do que um avanço. ses algorítmicos, falta de transparência e impactos psicossociais
do uso de inteligência artificial.
Implicações para a Atenção Primária no SUS Foram identificadas lacunas na produção científica, especial-
mente a escassez de estudos que avaliem os impactos do ponto
Esta revisão mostra que as tecnologias digitais, quando usa- de vista dos usuários, a ausência de análises com abordagem
das na Atenção Primária à Saúde, podem melhorar o cuidado interseccional e a pouca representação de populações específi-
contínuo, a vigilância e a educação em saúde. Ferramentas cas, como povos indígenas, ribeirinhos, pessoas com deficiência
como aplicativos móveis, jogos digitais, prontuários eletrônicos e comunidades quilombolas. Além disso, são raras as investi-
e sistemas de telessaúde podem aumentar o acesso, melhorar gações que acompanham longitudinalmente os efeitos destas
os processos clínicos e ajudar na tomada de decisão dos profis- tecnologias sobre os desfechos em saúde.
sionais da APS. Estes dispositivos estão alinhados às diretrizes É possível concluir que as tecnologias digitais móveis,
da Política Nacional de Saúde Digital 2020–2028, que destaca a quando implementadas de forma ética, equitativa e alinhada
importância da APS na transformação digital do SUS (4). às diretrizes da Política Nacional de Saúde Digital e da PNAB,
Os dados mostram que o uso destas tecnologias ainda não representam uma oportunidade concreta de fortalecimento da
é equitativo. A ampliação de seu escopo depende de infra- APS. A consolidação de um SUS digital dependerá da articu-
estrutura, conectividade e treinamento contínuo das equipes. lação entre inovação tecnológica e compromisso social com a
Para evitar aumentar desigualdades sociais e territoriais, é inclusão, a integralidade e a resolutividade do cuidado.
LIMITAÇÕES DO ESTUDO achados com cautela para outros contextos da Atenção Primá-
ria à Saúde.
Esta revisão apresenta limitações metodológicas que devem
ser consideradas na interpretação dos achados. A seleção foi Contribuição dos autores. JEGLJ e TSF contribuíram na con-
restrita a estudos publicados entre 2020 e 2025, disponíveis ceitualização, curadoria de dados e análise formal e redação
em português, inglês e espanhol, com acesso aberto ao texto do artigo. PHMM, TSG e MSBJ contribuíram na investigação,
completo. Esta delimitação pode ter excluído contribuições metodologia, supervisão e validação. Todos revisaram e con-
relevantes na literatura cinzenta, em artigos disponíveis por cordaram com a versão final e aceitaram a responsabilidade por
assinatura, em idiomas não incluídos ou em períodos anterio- todos os aspectos do trabalho.
res ao recorte temporal. A ausência de documentos técnicos,
normativos e relatórios governamentais como fontes com- Conflito de interesses. Os autores declaram não haver conflito
plementares também limita a profundidade da análise sobre de interesses na realização deste estudo.
políticas públicas e práticas institucionais relacionadas à digi-
talização da APS no SUS. Financiamento. Esta pesquisa foi realizada sem apoio finan-
Além disso, embora o processo de análise tenha seguido o ceiro externo. Todas as despesas relacionadas à coleta, análise
rigor metodológico proposto pelo Joanna Briggs Institute, não e publicação dos dados foram custeadas com recursos próprios
foi realizada avaliação da qualidade dos estudos incluídos, o dos autores.
que pode impactar na robustez das conclusões. Aliado a isso,
a inclusão da maioria dos artigos produzidos no Brasil, publi- Declaração. As opiniões expressas no manuscrito são de res-
cados português, pode implicar em vieses regionais, o que ponsabilidade dos autores e não refletem necessariamente as
demonstra a necessidade de interpretar e generalizar estes opiniões ou política da RPSP/PAJPH e/ou OPAS/OMS.
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Keywords primary health care; digital health; mobile applications; artificial intelligence; unified health system.
Palabras clave atención primaria de salud; salud digital, aplicaciones móviles, inteligencia artificial; sistema único de salud.