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A CONSTRUÇÃO DA IDENTIDADE SURDA E O LETRAMENTO CULTURAL EM

TIBI E JOCA: UMA HISTÓRIA DE DOIS MUNDOS

Análise Literária

No panorama da literatura infantojuvenil voltada para o público surdo, a produção


de obras frequentemente se apoia em processos de tradução ou adaptação de textos
concebidos originalmente sob a lógica ouvinte. A mera transposição linguística ou a simples
inserção de personagens que utilizam a língua de sinais em narrativas clássicas tendem a
perpetuar uma perspetiva fonocêntrica. É nessa conjuntura que a obra Tibi e Joca: uma
história de dois mundos, de Cláudia Bisol com a colaboração de Tibiriçá Maineri, destaca-se
como um divisor de águas. Conforme os estudos na área de Literatura Surda brasileira, o livro
consolidou-se como um marco por se caracterizar estritamente como um processo autêntico
de criação original, distanciando-se de modelos utilitários de tradução e operando de forma
profunda no letramento cultural e na identidade da criança surda.

A classificação da obra como um processo de criação decorre da sua génese


ontológica. O livro não se baseia em nenhuma matriz literária pré-existente do universo
ouvinte; pelo contrário, a narrativa emerge diretamente da experiência visual, social e
existencial da surdez. A estruturação do enredo e a sua composição estética foram concebidas
a partir da vivência do sujeito surdo frente a uma sociedade organizada privativamente pelo
som. Essa originalidade manifesta-se na economia textual e no impacto das ilustrações, que
retratam a transição entre a "Felicidade" inicial do nascimento e o corte abrupto provocado
pelo diagnóstico. O som do sino expresso pela onomateia "BLEM BLEM BLEM!" introduz
um hiato comunicativo representado pela conjunção adversativa "Mas...", seguida por termos
de caráter clínico como "Dúvidas", "Surdo!" e "Culpa".

A originalidade criativa da obra evidencia-se sobretudo na representação visual do


isolamento do personagem. O ambiente ouvinte surge saturado pela repetição de "Blá, Blá,
Blás" desprovidos de significado, o que culmina nos sentimentos de "Tristeza" e "Solidão".
Esta escolha estética não constitui uma simulação ouvinte da surdez, mas sim a tradução
artística da opressão linguística vivida pelo indivíduo privado de uma língua acessível. Trata-
se, portanto, de uma criação literária autónoma, que converte a experiência visual em matéria-
prima estética e descentraliza a hegemonia da cultura ouvinte.

A amizade construída entre Tibi e Joca atua como o eixo propulsor para o
letramento cultural do leitor. O primeiro encontro entre os personagens não é romantizado; ele
introduz um conflito interacional explícito sob a legenda "Difícil!!". Longe de ser um
elemento narrativo puramente negativo, esse estranhamento inicial é fundamental, pois valida
e reflete as reais barreiras de comunicação enfrentadas cotidianamente por crianças surdas

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inseridas em contextos familiares ou escolares ouvintes. Ao observar a dificuldade partilhada
pelas personagens, o jovem leitor experiencia um processo de espelhamento e legitimação das
suas próprias frustrações diárias.

O ponto de viragem da narrativa ocorre com a introdução da "Língua de Sinais",


momento em que a paleta de cores e o tom da obra se modificam. Onde antes imperava o
esvaziamento provocado pelo ruído incompreensível, estabelece-se o sentido e a ligação
interpessoal. O livro trabalha a construção identitária ao retratar de forma pedagógica a
coexistência dos mundos de "Ouvintes" e "Surdos". Demonstra-se que, para edificar uma
identidade positiva, a criança surda necessita, primordialmente, consolidar as suas referências
e raízes no interior da sua comunidade linguística, compreendendo a surdez não como uma
patologia ou um défice, mas como uma modalidade cultural e visual rica em possibilidades.

Por fim, a resolução da trama e a consolidação da amizade entre Tibi e Joca


oferecem uma lição sobre alteridade e empatia. O desfecho articulado pelo sentimento do
"Amor" e pelo abraço mútuo demonstra que a harmonia entre os dois mundos não exige a
anulação das especificidades linguísticas de nenhum dos lados. Para o leitor surdo, a obra
proporciona um cais seguro de pertença e orgulho cultural. Para o leitor ouvinte, constitui um
exercício de descentramento cultural, evidenciando que a oralidade é apenas uma das formas
possíveis de inserção no mundo. Ao afirmar a potência do canal visual-gestual, Tibi e Joca
corrobora a perspetiva de que a Literatura Surda é um espaço político e artístico de afirmação
existencial, provando que o silêncio não representa ausência, mas sim uma forma legítima e
plena de linguagem.

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