Diversity Washing
Diversity Washing
MÍDIA
E CONSUMO
Editores-chefes: Mônica Rebecca Ferrari Nunes, Eliza Bachega Casadei
CATALOGAÇÃO NA FONTE
CDU – 659.1
ESPM
Rua Dr. Álvaro Alvim, 123 Vila Mariana São Paulo SP Brasil
telefone: 55 11 5085-6663
revistacmc@[Link]
Comunicação, mídia
e consumo
Publicação quadrimestral
ano 17 • volume 17 • número 48• jan/abr. 2020
versão eletrônica da revista disponível em:
[Link]
Conselho Editorial Adriana da Rosa Amaral, Universidade do Vale do Rio dos Sinos, UNISINOS; Afonso de Albuquerque, Universidade Federal
Fluminense, UFF; Alberto Efendy Maldonado de la Torre, Universidade do Vale do Rio dos Sinos, UNISINOS; Alexandre Almeida Barbalho,
Universidade Estadual do Ceará, UEC; Amparo Huertas, Universidat Autònoma de Barcelona, Barcelona, Espanha; Ana Carolina Damboriarena
Escosteguy, Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul, PUC/RS; Ana Carolina Rocha Pessoa Temer, Universidade Federal de Goiás, UFG;
Ana Cláudia Gruszynski, Universidade Federal do Rio Grande do Sul, UFRGS; Ana Claudia Mei Alves de Oliveira, Pontifícia Universidade Católica de
São Paulo, PUC/SP; Ana Lucia Silva Enne, Universidade Federal Fluminense, UFF; Ana María Rosas Mantecón, Universidad Autónoma Metropolitana-
Iztapalapa, México, Internacional; Ângela Freire Prysthon, Universidade Federal de Pernambuco, UFPE; Ana Wortman, Universidad de Buenos Aires -
UBA, Buenos Aires, Argentina; Beatriz Brandão Polivanov, Universidade Federal Fluminense - UFF, Niterói, RJ, Brasil; Bruno Roberto Campanella,
Universidade Federal Fluminense, UFF; Carla Fernanda Pereira Barros, Universidade Federal Fluminense, UFF; Carmen Peñafiel , Universidad del País
Vasco, Internacional; Claudia da Silva Pereira, Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro, PUC/RJ; Claudia Irene de Quadros, Universidade
Federal do Paraná, UFP; Claudia Lago, Universidade Anhembi Morumbi, UAM; Cristiane Finger Costa, Pontifícia Universidade Católica do Rio
Grande do Sul, PUC/RS; Cristiane Freitas Gutfreind, Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul, PUC/RS; Daniel Miller, University
College London, Reino Unido; Denise da Costa Oliveira Siqueira, Universidade do Estado do Rio de Janeiro, UERJ; Doris Martinez Vizcarrondo,
Universidad de Puerto Rico, Internacional; Edgard Patrício de Almeida Filho, Universidade Federal do Ceará, UFC; Eduardo Campos Pellanda,
Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul, PUC/RS; Eliseo Colón, Universidad de Puerto Rico, Internacional; Eugenia Maria Mariano da
Rocha Barichello, Universidade Federal de Santa Maria, UFSM; Fabio Fonseca de Castro, Universidade Federal do Pará, UFPA; Fátima Cristina Regis
Martins de Oliveira, Universidade do Estado do Rio de Janeiro, UERJ; Felipe de Castro Muanis, Universidade Federal Fluminense, UFF; Fernanda
Martinelli, Universidade de Brasília, UNB; Fernando Antônio Resende, Universidade Federal Fluminense, UFF; Fernando do Nascimento Gonçalves,
Universidade do Estado do Rio de Janeiro, UERJ; Francisco Paulo Jamil Almeida Marques, Universidade Federal do Paraná, UFP; Francisco Rüdiger,
Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul, PUC/RS; Geane Carvalho Alzamora, Universidade Federal de Minas Gerais, UFMG; Gislene
da Silva, Universidade Federal de Santa Catarina, UFSC; Guilherme Nery Atem, Universidade Federal Fluminense, UFF; Gustavo Daudt Fischer,
Universidade do Vale do Rio dos Sinos, UNISINOS; Herom Vargas Silva, Universidade Municipal de São Caetano do Sul, USCS; Hugo Rodolfo
Lovisolo, Universidade do Estado do Rio de Janeiro, UERJ; Isabel Maria Ferin da Cunha, Universidade de Coimbra, Internacional; Isabel Siqueira
Travancas, Universidade Federal do Rio de Janeiro, UFRJ; Isaltina Maria de Azevedo Mello Gomes, Universidade Federal de Pernambuco, UFPE; Janice
Caiafa Pereira e Silva, Universidade Federal do Rio de Janeiro, UFRJ; Jean Charles Zozzoli, Universidade Federal de Alagoas, UFAL; Jiani Adriana
Bonin, Universidade do Vale do Rio dos Sinos, UNISINOS; João Batista Freitas Cardoso, Universidade Municipal de São Caetano do Sul, USCS; João
Luis de Araujo Maia, Universidade do Estado do Rio de Janeiro, UERJ; Jorge Luiz Cunha Cardoso Filho, Universidade Federal do Recôncavo da Bahia,
UFRB; José Carlos Marques, Universidade Estadual Paulista Júlio de Mesquita Filho, UNESP; José Carlos Souza Rodrigues, Pontifícia Universidade
Católica do Rio de Janeiro - PUC/RJ, Rio de Janeiro, RJ, Brasil; José Eugênio de Oliveira Menezes, Faculdade Cásper Líbero, FCL; Josimey Costa da
Silva, Universidade Federal do Rio Grande do Norte, UFRGN; Juliana Colussi, Universidad del Rosario - Bogotá, Colômbia; Juremir Machado da Silva,
Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul, PUC/RS; Karla Regina Macena Pereira Patriota Bronsztein, Universidade Federal de
Pernambuco, UFPE; Laan Mendes de Barros, Universidade Estadual Paulista Júlio de Mesquita Filho, UNESP; Laura Loguercio Cánepa, Universidade
Anhembi Morumbi, UAM; Liv Rebecca Sovik, Universidade Federal do Rio de Janeiro, UFRJ; Ludmila de Lima Brandão, Universidade Federal de Mato
Grosso , UFMT; Luis Mauro Sá Martino, Faculdade Cásper Líbero, FCL; Luiz Antonio Vadico, Universidade Anhembi Morumbi, UAM; Magali do
Nascimento Cunha, Universidade Metodista de São Paulo, Metodista; Marcelo Kischinhevsky, Universidade do Estado do Rio de Janeiro, UERJ; Marcial
Murciano, Universidade Autônoma de Barcelona, Internacional; Marcio Acselrad, Universidade de Fortaleza, UNIFOR; Marcio de Vasconcellos Serelle,
Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais, PUC/MG; Márcio Souza Gonçalves, Universidade do Estado do Rio de Janeiro, UERJ; Maria
Berenice da Costa Machado, Universidade Federal do Rio Grande do Sul, UFRGS; Maria Cristina Castilho Costa, Universidade de São Paulo, USP;
Maria Cristina Mendes da Ponte, Universidade Nova de Lisboa - Lisboa, Portugal; Maria Inês Carlos Magno, Universidade Anhembi Morumbi, UAM;
Maria Paula Sibilia, Universidade Federal Fluminense, UFF; Marialva Carlos Barbosa, Universidade Federal do Rio de Janeiro, UFRJ; Mariângela
Machado Toaldo, Universidade Federal do Rio Grande do Sul, UFRGS; Marli dos Santos, Universidade Metodista de São Paulo, Metodista; Maurício
Lissovsky, Universidade Federal do Rio de Janeiro, UFRJ; Marta Cantijoch Cunill, Universidade de Manchester, Manchester, Reino Unido; Marta Rizzo
García, Universidad Autónoma de la Ciudad de México - UACM, Ciudad de México, México; Micael Maiolino Herschmann, Universidade Federal do
Rio de Janeiro, UFRJ; Michell Maffesoli, Universidade Paris V, Internacional; Misaki Tanaka - Mii Saki, Pontifícia Universidade Católica de São Paulo,
PUC/SP; Mohammed ElHajji, Universidade Federal do Rio de Janeiro, UFRJ; Nísia Martins do Rosário, Universidade Federal do Rio Grande do Sul,
UFRGS; Nizia Maria Souza Villaça, Universidade Federal do Rio de Janeiro, UFRJ; Octavio Islas, Instituto Tecnológico de Monterrey-Mexico,
Internacional; Patricia Cecilia Burrowes, Universidade Federal do Rio de Janeiro, UFRJ; Paula Regina Puhl, Universidade Feevale (RS); Philippe Meers,
University of Antwerp, Antuérpia, Bélgica; Priscila Ferreira Perazzo, Universidade Municipal de São Caetano do Sul, USCS; Raquel da Cunha Recuero,
Universidade Católica de Pelotas, UCPEL; Raquel Marques Carriço Ferreira, Universidade Federal de Sergipe, UFS; Regiane Miranda de Oliveira
Nakagawa, Universidade Federal do Recôncavo da Bahia, UFRB; Regina Rossetti, Universidade Municipal de São Caetano do Sul, USCS; Ricardo
Ferreira Freitas, Universidade do Estado do Rio de Janeiro, UERJ; Roberto Manuel Igarza, Academia Nacional de Educación, Internacional; Rogério
Luiz Covaleski, Universidade Federal de Pernambuco, UFPE; Ronaldo George Helal, Universidade do Estado do Rio de Janeiro, UERJ; Rosario
Radakocivh , Universidad de la Republica, Internacional; Roseli Aparecida Figaro Paulino, Universidade de São Paulo, USP; Saleta de Salvador Agra,
Universidade de Vigo, Pontevedra, Espanha; Sandra Portella Montardo, Universidade Feevale, Feevale; Sebastião Carlos de Morais Squirra, Universidade
Metodista de São Paulo, Metodista; Simone Luci Pereira, Universidade Paulista, UNIP; Simone Maria Andrade Pereira de Sá, Universidade Federal
Fluminense, UFF; Sofia Cavalcanti Zanforlin, Universidade Católica de Brasília, UNB; Sônia Virgínia Moreira, Universidade do Estado do Rio de
Janeiro, UERJ; Suely Dadalti Fragoso, Universidade Federal do Rio Grande do Sul, UFRGS; Tanius Karam, Universidad Autónoma de la Ciudad de
México - UACM, Ciudad de México, México; Tomás Ariztia, Universidad Diego Portales, Santiago, Chile; Valquíria Aparecida Passos Kneipp,
Universidade Federal do Rio Grande do Norte, UFRGN; Veneza Mayora Ronsini, Universidade Federal de Santa Maria, UFSM; Yuji Gushiken,
Universidade Federal de Mato Grosso , UFMT
DOI 10.18568/cmc.v17i48.2290
EDITORIAL
Em um dos muitos artigos publicados ao longo de sua carreira, Maria
Aparecida Baccega, professora e uma das fundadoras do PPGCOM-
-ESPM, falecida em janeiro deste ano, autora de vasta obra sobre
comunicação-consumo, afirmara que “o processo de socialização, que
envolve várias agências, sobretudo a escolar e a familiar, além da religio-
sa, tem encontrado no aparato midiático (...) uma outra agência, que (...)
envolve a todos”. Além disso, “no âmbito dessas relações, e perpassando
todas elas, emerge a questão do consumo. Pilar da contemporaneidade,
construtor de identidades, o consumo de bens tangíveis e intangíveis
tem se manifestado importante mediação constitutiva do sujeito”1.
Tais palavras materializam o eixo central de estudos desenvolvidos no
PPGCOM-ESPM, a partir dos quais a comunicação e o consumo não
compõem instâncias separadas da vida social, mas aspectos centrais que
permitem fazer a leitura dos mapas culturais do nosso tempo histórico,
bem como das possibilidades de subjetivação e constituição da cidada-
nia. É por isso que o PPGCOM-ESPM possui uma eterna dívida com o
pensamento da professora Baccega e os artigos que compõem a presente
edição da CMC, ao partirem destes mesmos pressupostos, são também
uma homenagem a esse pensamento basilar para a constituição da nossa
área de pesquisa.
A R T I G O
DOI 10.18568/CMC.V17I48.2247
descriptively the digital competence in knowledge and use of the TIC in the social
communication and collaborative learning, competences of use for the search and
data processing, as well as the interpersonal competences of their use between
young and major of the Faculty of Educational Sciences at University of Grana-
da (Spain). There has been in use a descriptive quantitative methodology using
the questionnaire as tool to obtain information. The results throw an enormous
difference to the competences studied between both generations.
Keywords: citizenship; inclusion; digital literacy; seniors; young people.
comun. mídia consumo, são paulo, v. 17, n. 48, p. 11-33, jan./abr. 2020
ana amaro agudo | erika gonzález garcía | nazaret martínez-heredia 13
A R T I G O
Introducción
No cabe duda del auge e importancia que están teniendo en la actua-
lidad los estudios en torno al tratamiento y uso de las Tecnologías de la
Información y la Comunicación (TIC). Éstas han tomado un papel pri-
mordial en la interactividad, virtualidad y flujo de información a todos
los niveles y edades, tanto en el ámbito laboral como en el interpersonal.
En este contexto de auge tecnológico, consideramos de suma importan-
cia estudiar el uso que se hace de Internet, las competencias 2.0 de los
estudiantes universitarios jóvenes y personas mayores y qué problemáti-
cas se nos plantean.
En el informe de investigación que presentamos concurren dos vías
de disertación: por un lado, el uso de Internet y las competencias 2.0 en
jóvenes y mayores universitarios y, por otro, el estudio empírico realiza-
do a través de un cuestionario sobre la temática que abordaremos a lo
largo del artículo.
La sociedad actual se caracteriza, entre otras razones, porque nun-
ca antes tanto la información como el conocimiento habían estado
al alcance de la mayor parte de la población mundial, aunque somos
conscientes de que aún queda mucho camino por recorrer, pues sigue
existiendo una enorme brecha digital no sólo entre generaciones sino
también entre diferentes países que están menos desarrollados en
cuanto al acceso a las tecnologías. Por otro lado, teniendo una serie de
competencias digitales y los recursos tecnológicos necesarios, cualquier
ciudadano puede comunicarse (GONZÁLEZ-REYES, 2009), acceder
desde cualquier lugar del mundo e incluso autoformarse. Por medio de
Internet podemos realizar gran parte de las actividades diarias que nos
facilitaban otras tecnologías (HEREDIA y GARCÍA, 2017; DOMÍN-
GUEZ, 2009; ÁLVAREZ, 2011; MARTÍNEZ, CABECINHAS y
LOSCERTALES, 2011; DAGHAN, 2017). En este aspecto y de acuerdo
con Castells (2000), la Sociedad de la Información supone una nueva
revolución industrial. En esta panorámica de conexiones/desconexiones
virtuales cohabitan dos generaciones diferentes; la llamada generación
“before computer” (FREIXA, 2006) y aquella que ha nacido y crecido
comun. mídia consumo são paulo, v. 17, n. 48, p. 11-33, jan./abr. 2020
14 desafíos para una ciudadanía inclusiva
A R T I G O
Marco Conceptual
Uso de internet e inclusión social
El uso de los equipos tecnológicos por parte de la población es cada vez
más alto, para formarse, comunicarse, trabajar o distraerse. Internet no
se limita a la mera transmisión de información, sino que se convierte
en un poderoso mecanismo de socialización, de transmisor de ideas y
de valores (FAINHOLC, 2006; XAVIER y CABECINHAS, 2000). La
sociedad de la información y el conocimiento exige una alfabetización
digital de sus ciudadanos cada vez mayor. La educación, en ámbitos
formales e informales, tiene un rol destacable al intentar favorecer la
inclusión y la inserción social, puesto que ayuda a desarrollar compe-
tencias que permiten acceder, a los contenidos en la red, de manera
autónoma, crítica y responsable y para ello los gobiernos deben ser fa-
cilitadores de los recursos necesarios (ŞAHIN, 2018; CANTABRANA,
ESTEBANELL y TEDESCO, 2015). La finalidad de su aparición fue
alcanzar información segura, rápida y económica para facilitar la co-
municación, hoy se ha convertido en un medio que puede ser causa de
cambios significativos en las personas y en la sociedad.
Estudios recientes lanzan datos evidentes en torno al papel cru-
cial que tienen las tecnologías como mediadoras emocionales que
sientan bases estratégicas y estructurales de relaciones significativas,
enriqueciendo las líneas emergentes de debate existentes en torno a la
aplicación de las Tecnologías de la Información y la Comunicación en
el desarrollo socioafectivo (COLÁS-BRAVO, GONZÁLEZ-RAMÍREZ
y DE PABLOS-PONS, 2013; ESPINOZA, 2015; CALVO y SAN FA-
BIÁN, 2018).
En el año 2016, a nivel mundial, 3.500 millones de personas estaban
utilizando Internet, de los cuales 2,5 millones eran de países en desar-
rollo (ITU, 2017). En consecuencia, consideramos que toda nuestra
comun. mídia consumo, são paulo, v. 17, n. 48, p. 11-33, jan./abr. 2020
ana amaro agudo | erika gonzález garcía | nazaret martínez-heredia 15
A R T I G O
actividad está ligada de un modo u otro al mundo digital, hasta tal punto
que se vuelve impensable afrontar la vida sin estas nuevas herramientas.
Esta oleada tecnológica no está exenta de flaquezas y riesgos, se mani-
fiesta en un mundo donde existe una gran brecha entre las diferentes
partes del planeta, desigualdad en cuanto a sexo, edad, cultura, etc. De
acuerdo con esta premisa, se han llevado a cabo numerosos estudios con
el objetivo de analizar la influencia de Internet en los más jóvenes, por
considerarlos un sector prioritario y más vulnerable. De este modo, se
ha intentado conocer tanto los efectos positivos o negativos que Internet
pueda tener, como los usos que se realizan (LIVINGSTONE y HELS-
PER, 2010; YANG y TUNG, 2007; RUÍZ-CORBELLA y DE JUANAS,
2013; BALLESTEROS y MEGÍAS, 2015).
En el panorama español y según fuente del Instituto Nacional de
Estadística (2017), el 84,6% de la población de 16 a 74 años ha usado
Internet en los tres últimos meses. El 69,0% lo hace a diario, este porcen-
taje es ligeramente superior (1,3 puntos) al del año pasado. Las persona
de entre 65 y 74 años que usan Internet son un 46.5%, frente a los jóve-
nes de entre 16 a 24 años que usa Internet un 98.0%, es decir más del
doble que las personas más mayores. Pese a estos resultados, tal y como
muestra el estudio realizado por Linne (2015), se pone de manifiesto
que los estudiantes universitarios españoles no son adictos, a su juicio,
de Internet y más concretamente de las redes sociales. Investigaciones
recientes (LLORENTE, VIÑARÁS y SÁNCHEZ, 2015; MARTÍNEZ,
CABECINHAS y LOSCERTALES, 2011), muestran que las personas
mayores universitarias se conectan a Internet frecuentemente, a diario
o entre dos o tres veces por semana. Destacan la importancia que tiene
Internet para estar actualizados, para contactar con la familia y los ami-
gos, para el uso académico y para consultar la prensa. Consideran que
la red es de fácil uso pero podrían vivir sin ella. Es decir, no es algo im-
prescindible en su vida como pueda serlo para los jóvenes universitarios.
El progresivo envejecimiento de las sociedades ha llevado a los
organismos internacionales y europeos a desarrollar programas de en-
vejecimiento activo, capaces de construir una nueva cultura sobre el
comun. mídia consumo são paulo, v. 17, n. 48, p. 11-33, jan./abr. 2020
16 desafíos para una ciudadanía inclusiva
A R T I G O
comun. mídia consumo, são paulo, v. 17, n. 48, p. 11-33, jan./abr. 2020
ana amaro agudo | erika gonzález garcía | nazaret martínez-heredia 17
A R T I G O
exclusión social entendiéndose ésta como aquello que impide el pleno
desarrollo de las personas según sus verdaderos deseos y capacidades
(DUQUE, 2016; PAVON, 2000; ROMÁN, ALMANSA y CRUZ, 2016).
La sociedad de la información y el conocimiento exige una alfabe-
tización digital de sus ciudadanos cada vez mayor. La enseñanza de la
ciudadanía debería ir más allá de los comportamientos éticos y llegar a
la raíz de la conducta humana, cultivando hábitos relacionados con la
inteligencia y la voluntad para que la toma de decisiones realmente esté
orientada hacia el bien individual y colectivo.
En el ámbito formal e informal, la educación tiene un rol destacable
al intentar favorecer la inclusión y la inserción social. Ayuda a desarrol-
lar las competencias que permiten acceder, registrar, editar, publicar y
compartir contenidos en la red, de manera autónoma, crítica y respon-
sable. En este sentido, cabe señalar que los gobiernos deben facilitar los
recursos necesarios para que esto pueda ser posible (CANTABRANA,
ESTEBANELL y TEDESCO; 2015; DUQUE 2016).
En un estudio reciente (MARTÍNEZ, CABECINHAS y LOS-
CERTALES, 2011), se ha puesto de manifiesto los principales usos y
motivaciones de los mayores activos para utilizar Internet, así como las
principales barreras para aquéllos que no la utilizan. Destacan entre
los usos que hacen de la misma la búsqueda de información, la acti-
vidad académica, la lectura de la prensa y también la navegación sin
ningún propósito específico. Con respecto a los que no la utilizan, se
debe principalmente a que les falta un empuje para hacerlo, no ven una
limitación en la edad ni por la pérdida de tiempo entre otros factores.
comun. mídia consumo são paulo, v. 17, n. 48, p. 11-33, jan./abr. 2020
18 desafíos para una ciudadanía inclusiva
A R T I G O
comun. mídia consumo, são paulo, v. 17, n. 48, p. 11-33, jan./abr. 2020
ana amaro agudo | erika gonzález garcía | nazaret martínez-heredia 19
A R T I G O
En la actualidad los cambios vertiginosos que se están sucediendo
hacen necesaria una mejora en la formación y un acceso a la misma a lo
largo de la vida que, son necesarias una serie de habilidades y competen-
cias que permitan adaptarse a una sociedad de cambios; la relación del
individuo con la información ha cambiado, por ello el sector educativo
plantea nuevas formas de llevar a los estudiantes a un buen desarrollo
dentro de la Sociedad del Conocimiento (CHÁVEZ, CANTÚ y RO-
DRÍGUEZ, 2016; GONZÁLEZ, ESPUNY y GISBERT, 2012).
Entendemos por tanto por competencia digital la conjunción de lo
que muchos autores entienden por competencia TIC y competencia
informacional. En la sociedad del conocimiento no tiene sentido hablar
solo de herramientas para el almacenaje, acceso y recuperación de la
información, sino que debemos trabajar, también, las habilidades y las
destrezas necesarias para usar adecuadamente esta información y trans-
formarla después en conocimiento, con el objetivo final de compartirlo.
Que en definitiva es lo que va a ayudar a jóvenes y mayores a ser hábiles
y competentes socialmente hablando en cualquier momento y entorno.
comun. mídia consumo são paulo, v. 17, n. 48, p. 11-33, jan./abr. 2020
20 desafíos para una ciudadanía inclusiva
A R T I G O
comun. mídia consumo, são paulo, v. 17, n. 48, p. 11-33, jan./abr. 2020
ana amaro agudo | erika gonzález garcía | nazaret martínez-heredia 21
A R T I G O
cambian a un ritmo vertiginoso (GISBERT, ESPUNY y GONZÁLEZ,
2012).
Como recoge Abad (2014, p. 174) los datos contemplados en los In-
dicadores de la Agenda Digital 2011 dedicado a competencia digital
muestran “que mientras el 90% de las personas entre 16 y 24 años son
usuarios habituales de Internet, sólo lo son el 46% de las personas com-
prendidas entre los 55 y 64 años disminuyendo esta proporción al 25%
entre las personas entre 65 y 74 años. Este segmento baja especialmente
al 20% cuando se trata de personas de entre 55 y 74 años con niveles
bajos de educación”.
Comprobamos de esta forma la existencia de una brecha digital de
carácter generacional, entendida como las diferencias en cuanto al ac-
ceso y uso de las TIC en diferentes entornos sociales. Esta fractura entre
jóvenes y mayores, generada por la discriminación en el acceso a las
TIC, se ha convertido en uno de los grandes retos para la ONU y la
Comisión Europea (LLORENTE, VIÑARÁS y SÁNCHEZ, 2015). Ac-
tualmente, no se ha analizado en profundidad cómo puede afectar a
nuestros mayores, en su día a día, la “brecha digital”. No es la tecnología
la que construye la sociedad, sino que es un elemento que la caracteriza
y le ayuda en sus propósitos de cambio sociocultural (ARRIDO-LORA,
BUSQUEt y MUNTÉ, 2016).
La competencia digital según Hernando (2013, p. 14) “no se adquie-
re por “inmersión tecnológica” y es necesario aprender a aprender, pero
esta capacidad es socialmente desigual y, entre otros aspectos, está li-
gada a la edad. La “brecha digital” además de estar relacionada con
diferencias socioeconómicas también lo está, y mucho, con la edad,
especialmente en grupos de edad más alejadas de las generaciones digi-
tales como son las personas mayores de 60 años”.
Una de las consecuencias más importantes del fenómeno es la mo-
dificación o inversión del proceso educativo. Si históricamente eran los
adultos quienes transmitían los conocimientos, valores y costumbres a
los menores, a partir de la segunda mitad del siglo XX se invierte este
principio, limitándose claramente el control efectivo de los más jóvenes
comun. mídia consumo são paulo, v. 17, n. 48, p. 11-33, jan./abr. 2020
22 desafíos para una ciudadanía inclusiva
A R T I G O
Metodología
El objetivo principal de nuestra investigación es comparar descriptiva-
mente la competencia digital en conocimiento y uso de las TIC en la
comunicación social y aprendizaje colaborativo, competencias de uso
para la búsqueda y tratamiento de la información, así como las compe-
tencias interpersonales de su uso entre jóvenes y adultos mayores de la
Facultad de Ciencias de la Educación y del Aula Permanente de Forma-
ción Abierta ambas de la Universidad de Granada (España).
Para la consecución del objetivo propuesto, partiremos de una
metodología cuantitativa, de corte descriptivo, la cual nos ayudará
a cuantificar y analizar la información para así establecer posteriores
comparaciones entre el alumnado con edades comprendidas entre 18-
22 años y 80-85 años.
Muestra
La investigación fue desarrollada durante el curso académico 2017-
2018. La muestra participante de nuestro estudio ha estado formada
por los alumnos del tercer curso del Grado en Educación Social de la
Facultad de Ciencias de la Educación de la Universidad de Granada y
comun. mídia consumo, são paulo, v. 17, n. 48, p. 11-33, jan./abr. 2020
ana amaro agudo | erika gonzález garcía | nazaret martínez-heredia 23
A R T I G O
alumnos mayores del Aula Permanente de Formación Abierta también
pertenecientes a la Universidad de Granada (España). Se ha seguido
un muestreo aleatorio y estratificado. El total de la población estaba
compuesta por 200 estudiantes matriculados, 100 del tercer curso de
Educación Social y 100 del Aula Permanente. De este modo, se obtuvo
una muestra final de n=200 sujetos (119 mujeres y 81 hombres en total),
los cuales 61 son mujeres y 39 hombres del tercer curso del Grado en
Educación Social y, 58 mujeres y 42 hombres del Aula Permanente de
Formación Abierta. Tratamos con una muestra significativa superando
los sujetos necesarios de la muestra calculados a través de un intervalo
de confianza del 95% y cuyos resultados precisaban la participación de,
al menos, 81 estudiantes. La elección de esta población se debe, princi-
palmente, a la experiencia de los alumnos tras haber cursado tres años
en la Facultad de Ciencias de la Educación y, por tanto, poseer una
madurez terminológica y una actitud crítica para ayudarnos a solventar
nuestro problema de investigación, siendo éste el conocimiento de las
diferencias existentes ante la competencia digital en conocimiento y uso
de las TIC en la comunicación social y aprendizaje colaborativo, com-
petencias de uso para la búsqueda y tratamiento de la información, así
como las competencias interpersonales de su uso entre jóvenes y mayo-
res en la Universidad, para poder reducir la brecha digital existente en
nuestros mayores.
Instrumento
Para la recogida de información hemos utilizado un cuestionario de
competencias básicas digitales adaptado del cuestionario “Competen-
cias básicas digitales 2.0 de estudiantes universitarios” COBADI 2013
(Marca registrada: 2970648) de escala Likert (1 completamente inefi-
caz; 2 ineficaz; 3 eficaz; y 4 completamente eficaz) validado por medio
de un juicio de expertos, donde los alumnos valorarán, por un lado, la
competencia digital en conocimiento y uso de las TIC en la comunica-
ción social y aprendizaje colaborativo, las competencias de uso para la
comun. mídia consumo são paulo, v. 17, n. 48, p. 11-33, jan./abr. 2020
24 desafíos para una ciudadanía inclusiva
A R T I G O
comun. mídia consumo, são paulo, v. 17, n. 48, p. 11-33, jan./abr. 2020
ana amaro agudo | erika gonzález garcía | nazaret martínez-heredia 25
A R T I G O
Resultados
En este apartado exponemos los resultados obtenidos atendiendo a cada
una de las dimensiones tratadas en el cuestionario, teniendo en cuenta
la distinción de jóvenes y adultos mayores.
En primer lugar, respecto al consumo de la tecnología, en los jóve-
nes se ha obtenido un consumo total del 100%, por lo que el alumnado
joven posee ordenador y tablet y dispone de internet tanto en casa como
en la facultad, conectándose habitualmente en casa y en la universidad.
Sin embargo, con nuestros adultos mayores no ocurre lo mismo, un 30%
asume que posee medios tecnológicos e internet mayoritariamente en
casa quedando un 70% restante sin conexión habitual a internet y sin
poseer tablet u ordenador. En la Figura 1 podemos observar la distin-
ción entre jóvenes y adultos mayores.
140%
120%
30%
100%
80%
Adultos-Mayores
60% Jóvenes
100%
40%
20%
0%
Consumo de la tecnología
comun. mídia consumo são paulo, v. 17, n. 48, p. 11-33, jan./abr. 2020
26 desafíos para una ciudadanía inclusiva
A R T I G O
comun. mídia consumo, são paulo, v. 17, n. 48, p. 11-33, jan./abr. 2020
ana amaro agudo | erika gonzález garcía | nazaret martínez-heredia 27
A R T I G O
mayores poseen una competencia de uso adecuada, aunque en el caso
de las personas mayores se debe trabajar aún más.
comun. mídia consumo são paulo, v. 17, n. 48, p. 11-33, jan./abr. 2020
28 desafíos para una ciudadanía inclusiva
A R T I G O
Discusión y conclusiones
Este trabajo pone de manifiesto la importancia de conocer las diferen-
cias entre la competencia digital en conocimiento y uso de las TIC en
la comunicación social y aprendizaje colaborativo, competencias de uso
para la búsqueda y tratamiento de la información, así como las com-
petencias interpersonales de su uso entre jóvenes y adultos mayores de
la Universidad de Granada. El trabajo con nuestros mayores en lo que
a competencia digital se refiere debe ser una prioridad y un objetivo
a conseguir como eje fundamental en la educación a lo largo de la
vida. Culver y Jacobson (2012) explican que la alfabetización digital
de las personas mayores para su inclusión en la sociedad actual debe
promoverse para mejorar su calidad de vida durante el proceso de enve-
jecimiento, ayudando a nuestros mayores a poseer una vida social más
activa y participativa.
Los datos arrojados en nuestra investigación ponen de manifiesto re-
ducir la brecha digital en nuestros mayores, siendo la esencia que ha
caracterizado nuestra investigación. En este sentido procederemos a
realizar unas conclusiones, que siguen las líneas de nuestro trabajo de
investigación.
Haciendo referencia al consumo de la tecnología, los jóvenes poseen
un consumo total del 100%, por lo que el alumnado joven dispone de
internet tanto en casa como en la facultad, conectándose habitualmente
comun. mídia consumo, são paulo, v. 17, n. 48, p. 11-33, jan./abr. 2020
ana amaro agudo | erika gonzález garcía | nazaret martínez-heredia 29
A R T I G O
en ambos espacios. Sin embargo, en nuestros mayores no ocurre lo
mismo, obtienen un 30% asumiendo una escasa conexión habitual a
internet.
La competencia digital en conocimiento y uso de las TIC en la co-
municación social y aprendizaje colaborativo obtiene una media total
de 3,66 sobre 4 en los alumnos de Educación Primaria y 1,50 sobre 4
en los alumnos mayores, destacamos que nuestros jóvenes poseen una
competencia digital atendiendo al uso y conocimiento de las TIC bas-
tante elevada, en cambio, nuestros mayores la poseen en menor medida.
En cuanto a las competencias de uso para la búsqueda y tratamiento
de la información hemos hallado una media total de 3,52 sobre 4 en los
alumnos de Educación Primaria y 2,66 sobre 4 en los alumnos mayores.
Ambos colectivos, poseen una competencia de uso adecuada, aunque
en el caso de las personas mayores se debe trabajar aún más.
Por último, atendiendo a las competencias interpersonales de su
uso hemos obtenido una media total de 3,64 sobre 4 en los alumnos
de Educación Primaria y 2,62 sobre 4 en los alumnos mayores, por lo
que podemos decir que nuestros jóvenes y nuestros mayores poseen una
competencia de interpersonal adecuada, aunque en el caso de las perso-
nas mayores se debe trabajar aún más.
Atendiendo a las cuatro grandes categorías de análisis, en general
observamos una mayor competencia digital en los jóvenes que en los
adultos mayores, por lo que aún queda mucho por trabajar para la in-
clusión de nuestro alumnado mayor en el uso de las Tecnologías de
la Información y la Comunicación dentro y fuera de la universidad.
Para ello, podemos poner en práctica proyectos de educación interge-
neracional, para que los jóvenes transmitan dichos conocimientos a los
alumnos de edad proyecta, creando un vínculo educativo entre distintas
generaciones.
Como miembros de la sociedad tenemos la responsabilidad com-
partida de promover que los mayores que utilizan Internet saquen el
mayor beneficio posible a la red y extiendan las funciones y ámbitos
para los que la usan, y respecto a los que no lo hacen aún, facilitarles
comun. mídia consumo são paulo, v. 17, n. 48, p. 11-33, jan./abr. 2020
30 desafíos para una ciudadanía inclusiva
A R T I G O
Referencias
ABAD, L. Diseño de programas de e-inclusión para alfabetización mediática de perso-
nas mayores. Comunicar, v. XXI, n. 42, p. 173-180, 2014.
ÁLVAREZ, G. T. Las redes sociales, recursos de autoformación de docentes. En J.
Hernández, P. Fruscio, D. Sobrino y A Vázquez (coords). Experiencias educativas en las
aulas del siglo XXI: innovación con TIC (pp. 373-375). Barcelona: Ariel, 2011.
ARRIDO-LORA, M.; BUSQUET DURAN, J.; MUNTÉ-RAMOS, R. De las TIC a las
TRIC. Estudio sobre el uso de las TIC y la brecha digital entre adultos y adolescentes en
España. Anàlisi. Quaderns de Comunicació i Cultura, n. 54, p. 44-57, 2016.
BALLESTEROS, J. C.; MEGÍAS, I. Jóvenes en la red: un selfie. Madrid: Centro Reina
Sofía sobre Adolescencia y Juventud Fundación de Ayuda contra la Drogadicción
(FAD), 2015. Disponible en: [Link]
[Link] (consultado 14 de junio de 2018).
BENNETT, S.; MATON, K. Beyond the ‘digital natives’ debate: towards a more nu-
anced understanding of students’ technology experiences. Journal of Computer Assisted
Learning, v. 5, n. 26, p. 321-331, 2010.
BULLEN, M. M.; TANNIS; QAYYUM, A. Digital Learners in Higher Education: Gen-
eration is not the issue. Canadian Journal of Learning and Technology, v. 1, n. 37, p.
1-24, 2011.
CALVO, S.; SAN FABIÁN, J. L. Redes Sociales y Socialización Afectiva de las Personas
Jóvenes: Necesidades Docentes en Educación Secundaria Obligatoria. REICE. Revista
Iberoamericana sobre Calidad, Eficacia y Cambio en Educación, v. 16 , n. 2, p. 5-20,
2018. Disponible en: [Link]
CASTELLS, M. La era de la información. Vol. 1. La sociedad red. (2ª edición), Madrid:
Alianza, 2000.
CHÁVEZ, F.; CANTÚ, M. C.; RODRÍGUEZ C. Competencias digitales y tratamiento
de información desde la mirada infantil. Revista electrónica de investigación educativa,
v. 1 n. 18, p. 209-220, 2016.
COBADI. Competencias básicas digitales 2.0 de estudiantes
universitarios. 2013. Disponible en: [Link]
comun. mídia consumo, são paulo, v. 17, n. 48, p. 11-33, jan./abr. 2020
ana amaro agudo | erika gonzález garcía | nazaret martínez-heredia 31
A R T I G O
wspX1rmhW1XUUQTl_FUz16OujR0JnquyGNvg2nepwEbR0w/
viewform?formkey=dHZhcFk5NUZEN1FDVjItX21XaGpmRnc6MQ#gid=0
COLÁS-BRAVO, P.; GONZÁLEZ-RAMÍREZ, T.; DE PABLOS-PONS, J. Juventud y
redes sociales: Motivaciones y usos preferentes. Comunicar. Revista Científica de Comu-
nicación y Educación, v. 20, n. 40, p. 15-23. 2013.
CULVER, S.; JACOBSON, T. Alfabetización mediática como método para fomentar la
participación cívica. Comunicar, n. 39, p. 73-80, 2012.
DAGHAN, G. Views of Students about Technology, Effects of Technology on Daily
Living and Their Professional Preferences. Turkish Online Journal of Educational Tech-
nology-TOJET, v. 4 n. 16, p. 187-194, 2017.
DIARIO OFICIAL DE LA UNIÓN EUROPEA. Recomendación del Parlamento Eu-
ropeo y del Consejo de 18 de diciembre de 2006 sobre competencias clave para el
aprendizaje permanente. Bruselas: DOUE, 2006.
DOMÍNGUEZ, R. La sociedad del conocimiento y los nuevos retos educativos. Étic@
net, v. 8, n. 8, p. 1-19, 2009.
DUQUE, E. T. Adquisición de competencias digitales para la inclusión social. Opción,
v. 9, n. 32, p. 610-630, 2016.
ESPINOZA, J. Reconfigurando el amor: Mediación tecnológica y relaciones afectivas.
Question, v. 1 , n. 45, p. 86-96, 2015.
ESTEVE, F.; GISBERT, M. La competencia digital en la educación superior:
instrumentos de evaluación y nuevos entornos. Enl@ce: Revista Venezolana de
Información, Tecnología y Conocimiento, v. 10, n. 3, p. 29-43, 2013.
FAINHOLC, B. La lectura crítica en Internet: evaluación y aplicación de sus recursos.
Comunicar, n. 26, p. 155-162, 2006.
FERRARI, A. Digital competence in practice: An analysis of frameworks. Luxembourg:
Publications Office of the European Union, 2012. Disponible en: [Link]
FREIXA, C. Generación XX. Teorías sobre la juventud en la era contemporánea. Re-
vista Latinoamericana de Ciencias Sociales, Niñez y Juventud, v. 4, n. 2, p. 1-18, 2006.
GALLARDO, E. Hablemos de estudiantes digitales y no de nativos digitales. Revista de
Ciències de l’Educació, p. 7-21, 2012.
GISBERT, M.; ESPUNY, C.; GONZÁLEZ, J. Incotic. Una herramienta para la @
utoevaluación diagnóstica de la competencia digital en la universidad. Revista de cur-
rículum y formación del profesorado, v. 1, n. 15, p. 75-90, 2011.
GONZÁLEZ-REYES, R. El internet como espacio de producción de capital social: una
reflexión en torno a la idea de comunidad informal de aprendizaje. Revista mexicana de
investigación educativa, v. 14, n. 40, enero-marzo, p. 175-190, 2009
GONZÁLEZ, J. E.; CINTA DE CID IBEAS, M. J.; GISBERT, M. INCOTICESO.
Cómo autoevaluar y diagnosticar la competencia digital en la Escuela 2.0. Revista de
Investigación Educativa, v. 2, n. 30, p. 287-302, 2012.
HEREDIA, N.; GARCÍA, E. Posibles riesgos del uso de las redes sociales en adoles-
centes. Revista de Estudios e Investigación en Psicología y Educación, n. 13, p. 11-15,
2017.
comun. mídia consumo são paulo, v. 17, n. 48, p. 11-33, jan./abr. 2020
32 desafíos para una ciudadanía inclusiva
A R T I G O
comun. mídia consumo, são paulo, v. 17, n. 48, p. 11-33, jan./abr. 2020
ana amaro agudo | erika gonzález garcía | nazaret martínez-heredia 33
A R T I G O
XAVIER, P.; CABECINHAS, R. Learning about Social Psychology by Researching on
Computer Mediated Communication. IAMCR 2000 Conference. Singapore Procee-
dings, 2000.
YANG, S.; TUNG, C. J. Comparison of Internet Addicts and non-Addicts in Taiwanese
High School. Computers in Human Behavior, n. 23, p. 79-96, 2007.
comun. mídia consumo são paulo, v. 17, n. 48, p. 11-33, jan./abr. 2020
COMUN. MÍDIA CONSUMO, SÃO PAULO, V. 17, N. 48, P. 34-60, JAN./ABR. 2020
A R T I G O
DOI 10.18568/CMC.V17I48.2212
A R T I G O
Abstract: This study is on the awareness and perception media practitioners
in South-East Nigeria have about the use of e-governance. The survey method
was used; and from a population of 2,671, a sample of 1,340 was chosen through
stratified proportional sampling. Theoretical framework was hinged on the De-
velopment Communication Theory. Findings were analysed using the SPSS. The
study concluded that there is a low level of knowledge on operations of e-gov-
ernance among media practitioners in South-East Nigeria. Recommendations
made included that media practitioners should imbibe the culture of periodic
upgrading of their knowledge.
Keywords: communication; e-governance; media practitioners; perception;
South-East Nigeria.
comun. mídia consumo são paulo, v. 17, n. 48, p. 34-60, jan./abr. 2020
36 media practitioners’ perceptions of e-governance
A R T I G O
Introduction
Mass media is central in the existence and success of any modern so-
ciety. It is true that the media are indispensable in the development
of any society. Apart from the widely acclaimed indispensability of the
media in the existence and success of a society, diverse literature on
media indispensability seem to agree on the common denominator of
the mass media being pivotal in the success of virtually all programmes,
policies and activities that are geared towards human development and/
or societal benefits.
Interestingly, e-governance is a trending communication initiative
in which effective implementation may also be a direct function of
knowledge, awareness and perception (KAP) of media practitioners.
That is why this research was set up to investigate the postulation that
the acceptability, believability and effective implementation of e-gover-
nance within the South-East zone of Nigeria may have a relationship
with the knowledge, awareness and perception of media practitioners in
the area. It follows that any innovation the media practitioner has low
knowledge of suffers great setbacks in acceptability. Therefore, what are
the levels of knowledge on e-governance operations among media prac-
titioners in South-Eastern Nigeria? What are the perceptions among the
media practitioners about e-governance? To what extent do media prac-
titioners’ attitudes influence their assessing e-governance operations?
How do the knowledge, attitude and perceptions of e-governance affect
dissemination of government policies and programmes? And what are
the likely impediments to the application of e-governance among media
practitioners? These constitute the core of this work.
Research Questions
The following research questions were formulated for this study:
1. What is the level of knowledge on e-governance operations among
media practitioners in South-East Nigeria?
comun. mídia consumo, são paulo, v. 17, n. 48, p. 34-60, jan./abr. 2020
patrick ene | cosmos chukwudi | chidinma joan | uzoma chukwuemeka 37
A R T I G O
2. To what extent do the Knowledge, Attitude and Perceptions of media
practitioners on e-governance affect the dissemination of govern-
ment policies/programmes in the mainstream media?
3. What are the impediments to the application of e-governance opera-
tions or services in Nigeria?
Research Hypotheses
The following hypotheses were formulated to guide the outcome of this
research:
H01: There is no significant relationship between media practitioners’
knowledge of e-governance and their attitude to the practice.
H02: There is no significant relationship between media practitioners’
perceptions of e-governance and dissemination of government policies
and programmes.
comun. mídia consumo são paulo, v. 17, n. 48, p. 34-60, jan./abr. 2020
38 media practitioners’ perceptions of e-governance
A R T I G O
comun. mídia consumo, são paulo, v. 17, n. 48, p. 34-60, jan./abr. 2020
patrick ene | cosmos chukwudi | chidinma joan | uzoma chukwuemeka 39
A R T I G O
net-enabled operations, information technology and communications
to optimise government’s service delivery, consistency participation
and governance. The use of information technologies and new busi-
ness processes to transform how governments interact with citizens and
businesses is considered e-governance. As seen by the World Bank, e-
-governance is expected to minimise corruption, provide increased
transparency, afford greater convenience, improve revenue and reduce
cost. (GODSE & GARG, 2009).
comun. mídia consumo são paulo, v. 17, n. 48, p. 34-60, jan./abr. 2020
40 media practitioners’ perceptions of e-governance
A R T I G O
comun. mídia consumo, são paulo, v. 17, n. 48, p. 34-60, jan./abr. 2020
patrick ene | cosmos chukwudi | chidinma joan | uzoma chukwuemeka 41
A R T I G O
of e-government while 70% were still very much in the publish stage.
These States were Lagos and Imo and the Federal Capital Territory,
Abuja, which provide services that invite citizens to interact with them
and give online feedback.
An interesting finding by Awoleye (2008) is that a huge percentage of
both government and non-government employees are aware of e-gover-
nance in the States, and these governments have achieved this high rate
of awareness through mass media. In spite of this high rate of awareness,
only half of the population could be said to have proficiency in the use
of e-government. The perception, level of awareness, stage of imple-
mentation, as well as the challenges of e-governance differ in States and
regions of Nigeria due to lots of peculiar factors (OLUFEMI, 2012).
As observed by Ifinedo (2004), Nigeria has an e-governance develo-
pment index of 1.02, which is below the UN’s benchmark 1.62. The
emergence of e-governance in Nigeria can be traced to the advent of
democracy in 1999. The first real activity in this regard was the develo-
pment of government websites. These efforts were un-coordinated and
only a few agencies with the resources could establish an online pre-
sence. In pursuance of this objective, the government established the
National Information Technology Development Agency (NITDA) un-
der the Ministry of Science and Technology to champion development
of information technology in Nigeria and midwife implementation of
the national IT policy (AJAYI, 2003). NITDA is also charged with the
responsibility of implementing e-governance initiative using National
e-Governance Strategies (NeGSt), a public-private-partnership (PPP) as
a special purpose vehicle with the mandate to facilitate, drive and imple-
ment the Nigerian e-government programme (NITDA, 2007).
As noted by Nkanga (2014), some components of e-governance have
already commenced in Nigeria, such as the Nigerian Customs ASSY-
CUDA Programme, the computerisation of resident permit by the
Nigerian Immigration Services, and computerisation of land and certifi-
cate of occupancy in the Federal Capital Territory Administration. The
e-payroll of staff, online checking of West Africa Examination Council,
comun. mídia consumo são paulo, v. 17, n. 48, p. 34-60, jan./abr. 2020
42 media practitioners’ perceptions of e-governance
A R T I G O
Theoretical Framework
The Development Communication Theory is found relevant to this
study. This theory mainly focuses on the use of the mass media to facili-
tate development. Earlier postulations of the theory by McQuail (1987)
made reference to the need of media restriction and state intervention
in media affairs for development sake. These postulations were criticised
for intruding on press freedom. Hence, scholars like Domatob and Hall
(1983) and Forlarin (1998) modify some of McQuail’s postulations to
accommodate respect for press freedom in the task of using the media
comun. mídia consumo, são paulo, v. 17, n. 48, p. 34-60, jan./abr. 2020
patrick ene | cosmos chukwudi | chidinma joan | uzoma chukwuemeka 43
A R T I G O
for development. Forlarin (1998) redefines the development principles
of media theory as follows:
I. Media should accept and carry-out positive development tasks in line
with nationally established policy or ideology without prejudice to
their national functions of information, education and entertainment.
II. Media should also accept and help in carrying out the special develo-
pment tasks of national integration, socio-economic modernisation,
promotion of literacy and cultural creativity.
III. Media should carefully identify and give due attention in foreign
news to links with other countries with similar socio-cultural orienta-
tion and/or political and economic aspirations.
IV. In order to safeguard the ideas of press freedom, journalists and
other media workers should always faithfully fulfil their obligations
and stoutly defend their rights in the course of their information-
-gathering and disseminating tasks.
V. The State, with its systems, has a duty to ensure that media or
journalists presumed to have contravened any national dissemina-
tion tasks conveniently face prosecution, expecting a fair speedy trial.
In relation to this study, it is observed that the knowledge and percep-
tions of media practitioners affect or influence their attitude towards the
media coverage they give on an issue. Hence, their knowledge, attitudes
and perceptions can either position the media for development or rob
the media of their development functions. E-governance is a national
development practice and the media should encourage and support it.
Carrying out this function by the media bothers, to a large extent, on
media practitioners’ knowledge, attitudes and perceptions.
Research Design
The research design used for this study is the survey method. The popu-
lation was 2,671 registered media practitioners in the five South-Eastern
states, namely: Abia - 526, Anambra - 674, Ebonyi - 545, Enugu – 531,
comun. mídia consumo são paulo, v. 17, n. 48, p. 34-60, jan./abr. 2020
44 media practitioners’ perceptions of e-governance
A R T I G O
and Imo - 395 (Source: NUJ and RATTAWU Secretariats in the five
states, 2016).
The larger the sample size, the more representative the sample is
of the population. Some authors have recommended sample sizes or
sampling proportions for specific population sizes. Nwana (1981, p.72)
recommends “at least, 50% of a population of few thousands”. Comrey
and Lee (1992) as well as Wimmer and Dominick (2000) prefer the per-
centage to be based on such contingency factors as population, project
types, project purpose, complexity, time and financial constraints, etc.
Based on the observations, this study adopted the percentage-population
recommendation of 50% in determining the sample size, which was
approximately 1,340.
The stratified proportional sampling was used. The choice of this
procedure was made largely by the characteristics of the population,
chiefly among which is the availability of a comprehensive and functio-
nal list of all members of NUJ and RATTAWU in the five States.
The measuring instruments were questionnaire and personal inter-
view schedule. The 1,340 copies of questionnaire were distributed as
follows: Abia State – 264, Anambra – 338, Ebonyi – 274, Enugu – 266,
and Imo – 198. Also, 10 members of NUJ and RATTAWU were inter-
viewed during the joint quarterly meeting of the bodies held in Enugu
on May 20, 2016.
In order to make for uniformity in the data gathering, the Likert ra-
ting scale was used given that the research is quantitative.
comun. mídia consumo, são paulo, v. 17, n. 48, p. 34-60, jan./abr. 2020
patrick ene | cosmos chukwudi | chidinma joan | uzoma chukwuemeka 45
A R T I G O
Research Question 1 – What is the level of knowledge on the opera-
tions of e-governance among media practitioners in South-East Nigeria?
comun. mídia consumo são paulo, v. 17, n. 48, p. 34-60, jan./abr. 2020
46 media practitioners’ perceptions of e-governance
A R T I G O
In Table 1 above, out of 16 items, only two (or 12.5%) are significant.
This shows that 87.5% is not significant. Hence, it is concluded that ma-
jority of the practitioners have no knowledge on e-governance.
Some aspects of knowledge in the operations of e-governance among
the respondents are highlighted. Most of them said that e-governance
is more applied by Government ministries, departments and agencies
which is the practice in Nigeria. Also, the use of mobile phone for gathe-
ring of information among the respondents is high as majority of them
agreed that the multimedia mobile phones are most handy in informa-
tion gathering. The use of Facebook in disseminating information on
e-governance is high among the respondents.
comun. mídia consumo, são paulo, v. 17, n. 48, p. 34-60, jan./abr. 2020
patrick ene | cosmos chukwudi | chidinma joan | uzoma chukwuemeka 47
A R T I G O
Research Question 2 - To what extent do the ‘KAP’ of media practi-
tioners on e-governance affect the dissemination of government policies/
programmes in the mainstream media?
The table above reveals some information about the relationship bet-
ween the knowledge, attitude and perceptions of e-governance by media
comun. mídia consumo são paulo, v. 17, n. 48, p. 34-60, jan./abr. 2020
48 media practitioners’ perceptions of e-governance
A R T I G O
comun. mídia consumo, são paulo, v. 17, n. 48, p. 34-60, jan./abr. 2020
patrick ene | cosmos chukwudi | chidinma joan | uzoma chukwuemeka 49
A R T I G O
Since every mean in Table 3 is above 2.5, it follows that the items sig-
nificantly contribute as impediments to the application of e-governance.
From the table, literacy and accessibility are identified as the greatest im-
pediments. Literacy here means ability to use and operate e-governance.
This is on the part of government, which is supposed to have the techno-
logical knowledge and ability to operate the e-governance technology.
Accessibility refers to citizens’ ability to reach, afford and operate the
technology that drives e-governance, which is essentially driven by ICT.
But even with the popularisation of ICT in Nigeria, majority of Nige-
rians, especially in rural areas, have no access to ICT. Worse still, ICT
is enabled to work with electricity and this obviously is a major challen-
ge in Nigeria. Other factors such as interest and infrastructure, though
equally significant, are less significant than literacy and accessibility as
impediments to the application of e-governance in Nigeria.
Test of Hypotheses
The study had two hypotheses and they were tested using SPSS for
analysis. The tabulations for both hypotheses are presented below:
Hypothesis 1: There is no significant relationship between media prac-
titioners’ knowledge of e-governance and their attitude to the practice.
To test the hypothesis above, we made the following assumptions: Let
X represent the media practitioners’ mean knowledge of e-governance
obtained from the last column of Table 7 and let Y represent their mean
attitude to the practice obtained from Table 4.
X 2.19 1.72 2.06 2.00 1.17
Y 2.92 4.10 3.61 3.44 1.33
Using SPSS for analysis, these results emerged: the correlation coef-
ficient (R) between media practitioners’ knowledge of e-governance and
their attitude to the practice was 0.675, and the coefficient of determi-
nation (R2) was 0.456. This implies that only 45.6% of their attitude to
the practice was explained by their knowledge of e-governance. Also,
the ANOVA in Regression showed that the regression was not significant
comun. mídia consumo são paulo, v. 17, n. 48, p. 34-60, jan./abr. 2020
50 media practitioners’ perceptions of e-governance
A R T I G O
Using SPSS for analysis, these results emerged: the correlation coef-
ficient (R) between media practitioners’ perception of e-governance
and their responses on KAP and dissemination of government policies
and programmes is 0.357 while the coefficient of determination (R2)
is 0.127. This implies that only 12.7% of their responses on KAP and
dissemination of government policies and programmes was explained
by their perception of e-governance. The ANOVA in Regression showed
that the regression was not significant (p>0.5). This implies that there is
no significant relationship between media practitioners’ perception of e-
-governance and dissemination of government policies and programmes.
It is agreed that there is insignificance of media practitioners’ perception
of e-governance as far as their attitude towards KAP and dissemination of
government policies and programmes is concerned, since t =0.661 lies
between the 95% confidence intervals of -3.758 and 5.729.
comun. mídia consumo, são paulo, v. 17, n. 48, p. 34-60, jan./abr. 2020
patrick ene | cosmos chukwudi | chidinma joan | uzoma chukwuemeka 51
A R T I G O
Discussion of Findings
The findings of this study are discussed based on the research questions
and the two hypotheses tested.
comun. mídia consumo são paulo, v. 17, n. 48, p. 34-60, jan./abr. 2020
52 media practitioners’ perceptions of e-governance
A R T I G O
comun. mídia consumo, são paulo, v. 17, n. 48, p. 34-60, jan./abr. 2020
patrick ene | cosmos chukwudi | chidinma joan | uzoma chukwuemeka 53
A R T I G O
ICT Info-structure and Public Private Partnerships. The third feature
is the “blueprint for e-governance” which implies that there should be
a natural e-governance master plan resulting from the articulation of
stakeholders’ statement of requirements and baseline assessments for
e-governance. The fourth feature is “implementation” – a combined
project-management and change management process for e-gover-
nance. Change Management may be perceived as a critical aspect of
enabling the implementation of an e-governance master plan. “The
change management process is engineered by the media and projected
in such a way that the citizens buy into it” (p.21). These opinions of
Adeyemo remain a mirage in Nigeria’s South-East region arising from
the existing gap in knowledge.
comun. mídia consumo são paulo, v. 17, n. 48, p. 34-60, jan./abr. 2020
54 media practitioners’ perceptions of e-governance
A R T I G O
McBride (1980, p.20), “there is no doubt the mass media – press, radio
and TV – do have a capacity not only to reflect but also to shape opinion
and to play a part in forming attitudes”. In the past, the communication
system has been seen as an isolated phenomenon within society, rela-
ted essentially to technology, relatively divorced from other aspects of
society. The media’s place in shaping perceptions and attitudes of the
public on any issue is tied to the perceptions and attitudes of media
practitioners in their reporting and covering as well as framing of such
issues. Media practitioners personify the media, and media influence
begets media practitioners’ influence on the society.
In view of the observation above, therefore, one can say that the KAP
of media practitioners on e-governance affects the dissemination of go-
vernment policies and programmes. The extent of this influence can
be understood from the knowledge level, perceptions and attitude of
media practitioners on e-governance. However, it can be deduced from
the data gathered and analysed that the KAP of media practitioners on
e-governance directly affect the dissemination of government policies
and programmes in the mainstream media. We are talking of two sepa-
rate media here – the new media on which e-governance thrives and the
mainstream media. Invariably, the attitude of the subjects to e-governan-
ce in terms of accessing and covering e-governance is commensurate
with media influence on dissemination of government policies and pro-
grammes. We could consider some factors in this respect.
First, the level of implementation and or adoption of e-governance in
Nigeria is still a work-in-progress. This can be ascertained when we con-
sider the fact that though virtually all the States in Nigeria and security
agencies claim to be operating e-governance, only a few like Abia, La-
gos, Enugu, Imo, Delta, Economic and Financial Crimes Commission,
Independent Corrupt Practices Commission, just to mention a few, are
seen as effectively operating e-governance. This is reflected in the ran-
king of Nigeria on the adoption of e-governance (ADEYEMO, 2012).
If we had a high level of implementation, it would have translated to a
comun. mídia consumo, são paulo, v. 17, n. 48, p. 34-60, jan./abr. 2020
patrick ene | cosmos chukwudi | chidinma joan | uzoma chukwuemeka 55
A R T I G O
situation where almost all government information was accessible on
the internet. However, this is not the case in Nigeria.
Second, most government-owned media organisations are, by certain
laws guiding their establishments, under the obligation to dissemina-
te government policies and programmes whether they have positive
knowledge, attitude and perception towards e-governance or not. And
the fact is that almost all State governments in Nigeria have both broad-
cast and print outfits. As a result, government policies and programmes
are always disseminated irrespective of what obtains in their KAP to-
wards e-governance.
comun. mídia consumo são paulo, v. 17, n. 48, p. 34-60, jan./abr. 2020
56 media practitioners’ perceptions of e-governance
A R T I G O
comun. mídia consumo, são paulo, v. 17, n. 48, p. 34-60, jan./abr. 2020
patrick ene | cosmos chukwudi | chidinma joan | uzoma chukwuemeka 57
A R T I G O
in Nigeria’s South-East region, despite being confronted by devastating
effects of low literacy, poor infrastructure, limited accessibility and low
interest, still have positive perceptions and commendable ideas towards
the application of e-governance in their day-to-day businesses.
Based on the conclusion, the following recommendations are made:
1. Media practitioners in the South-East and their counterparts in other
regions should periodically upgrade their knowledge through atten-
ding seminars, conferences and workshops that would school them
in the rudiments of e-governance applications.
2. Media practitioners should be encouraged and willing to play more
active roles in the e-governance initiatives such as accessing govern-
ment information on the internet, covering/reporting e-governance
in order to ensure mass awareness on e-governance in Nigeria and
the South-East.
3. Media practitioners should canvas that the legislative vacuum bet-
ween policy formulation and implementation on e-governance be
properly closed by National Assembly and State Houses of Assembly
for easy accessibility and implementation of ICT centres in various
ministries, departments and agencies (MDAs).
4. Media practitioners should effectively play their roles as social mo-
bilisers and change agents through framing of reports on the roles
expected of MDAs and security agencies in order to awaken them to
full consciousness of their responsibilities.
References
ADEYEMO, A.B. E-government implementation in Nigeria: An assessment of Nigeria’s
e-governance ranking. Journal of Internet and Information System, v.2, n.1, p.11-19,
2011.
AJAYI, G.O. E-governance in Nigeria’s e-strategy. A paper presented at the 5th Annual
African Compiling and Telecommunications Summit, Abuja, Nigeria, 2003.
AMAEFULE, E. Nigeria ranks 143 in e-government index. Retrieved from www.
[Link], 2019.
AWOLEYE, F. Talking telecommunication in Nigeria, dynamic export. Retrieved from
[Link], 2008.
comun. mídia consumo são paulo, v. 17, n. 48, p. 34-60, jan./abr. 2020
58 media practitioners’ perceptions of e-governance
A R T I G O
comun. mídia consumo, são paulo, v. 17, n. 48, p. 34-60, jan./abr. 2020
patrick ene | cosmos chukwudi | chidinma joan | uzoma chukwuemeka 59
A R T I G O
NCHUCHUWE, F.F. & OJO, A.D. Challenges and prospects of implementing e-go-
vernance in Nigeria. Retrieved from [Link], 2015.
NIGERIAN COMMUNICATIONS COMMISSION. Industry statistics. Retrieved
from [Link] 2019.
NITDA. National Information Technology Development Agency (NITDA) Act. Retrie-
ved from [Link] 2007.
NKANGA, A. Nigeria’s e-governance progress report. Development Quarterly, v.6, n.1,
p.7-27, 2014.
NWAHURUNANYA, C.I. & AKANGWA, U.N. A practical guide to research & project
writing. Owerri: Springfield, 2008.
NWANA, O.C. (1981). Educational statistics and research. Enugu: Layman Press.
NWOGU, A. ICT and economic development in Africa digital space. Journal of Deve-
lopment Studies, v.2, n.1, p.20-31, 2014.
OKUGO, C.U & ONWUKWE, D.C. Unveiling the shrouds of secrecy: A study of
South- Eastern Nigeria media practitioners’ awareness of the Freedom of Information
Act. Africa Media and Dormancy Journal, v.1, n.1, p.120-134, 2012.
OLATOKUN, A. & ADEBAYO, R. E-governance practice in Nigeria: The experiences
& lessons. Development Quarterly, v.2, n.1, p.70-156, 2012.
OLUFEMI, A.J. Electronic governance: Myth or opportunity for Nigerian public admi-
nistration? International Journal of Academic Research in Business and Social Science,
v.2, n.9, p.290-384, 2912.
OMEIRE, E. & OMERIE, C. New wine in old wine skin: An exploration of major
constraints to e-government implementation in Nigeria. European Scientific Journal,
v.10, n.14, p.481-487, 2014.
UBABUKOH, O. Nigeria ranks 141 in UN e-government indices. The Punch Newspa-
per, p.20, June 28, 2014.
UNITED NATIONS. Global e-government readiness report: From e-government to
connected governance. London: UN Department Press, 2008.
UNESCO. E-government report. Retrieved from [Link]/webworld/en, 2011.
UWAJEH, A. ICTs and economic development in South-East Nigeria. Journal of Social
Sciences, v.2, n.1, p.31-48, 1999.
WIMMER, R.D. & DOMINICK, J.R. Mass media research. NY: Wadsworth, 2000.
WILSON, J. Adoption of ICT for development in Kenya. Journal of Kenyan Communi-
cation Studies, n.3, p.60-31, 1997.
YUSUF, M. Information and communication technology, and education: An analysis
of the Nigerian national policy for information technology. Int’l Education Journal, v.6,
n.3, 2005.
comun. mídia consumo são paulo, v. 17, n. 48, p. 34-60, jan./abr. 2020
60 media practitioners’ perceptions of e-governance
A R T I G O
comun. mídia consumo, são paulo, v. 17, n. 48, p. 34-60, jan./abr. 2020
COMUN. MÍDIA CONSUMO, SÃO PAULO, V. 17, N. 48, P. 61-83, JAN./ABR. 2020
A R T I G O
DOI 10.18568/CMC.V17I48.2080
by the works of Erving Goffman, which had provided some initial insights for
field research: (a) is there a ‘goffmanian’ method for micro-observation? (b) How
to observe the micro-scale events and simultaneously being part of it? (c) How to
register the observation findings’ in a valid description of what have been seen?
This paper addresses these questions as part of a epistemological discussion on
communication research methods.
Keywords: organizational communication; research methods; fieldwork;
Goffman.
comun. mídia consumo, são paulo, v. 17, n. 48, p. 61-83, jan./abr. 2020
luis mauro sá martino 63
A R T I G O
Introdução
Este artigo nasce de uma questão prática de pesquisa, surgida ainda du-
rante os primeiros estágios de seu planejamento e realização. Trata-se
de uma pesquisa de pós-graduação sobre comunicação organizacional,
focalizando nas interações face a face em reuniões e encontros sociais
no ambiente de trabalho. O objetivo era observar as modalidades de
comunicação no ambiente organizacional a partir das interações face a
face entre funcionários de uma empresa do setor elétrico, discutida em
outros momentos – por exemplo, em Santos (2018).
Dentre as várias autoras e autores que poderiam ser acionados para
um estudo desse tipo, e entendendo, com Braga (2011), o processo
de pesquisa como “tomada de decisões”, optou-se desde o início por
uma aproximação com os estudos de Erving Goffman, sobretudo pela
perspectiva metodológica adotada, a observação em escala micro. Essa
opção, se por um lado parecia ser coerente em termos da dimensão do
objeto de pesquisa, por outro lado levantava uma série de questiona-
mentos sobre os aspectos práticos da pesquisa.
A pesquisa de campo, realizada entre agosto de 2018 e fevereiro de
2019, provocou alguns tensionamentos entre o cotidiano das observa-
ções e as questões metodológicas estudadas, que podem ser expressas na
forma de três questões: (1) existe um método “goffmaniano” para obser-
vação em escala micro? (2) Como observar os eventos de microescala e
fazer parte dela? (3) Como registrar os achados da observação em uma
descrição válida do que foi visto? No que se segue, este texto procura
delinear essas perguntas – mais do que indicar qualquer resposta fecha-
da – articulando os problemas práticos que surgiram durante a pesquisa
de campo com indicações metodológicas pensadas a partir da obra de
Goffman.
Valem, de saída, algumas notas.
Há vários trabalhos relacionados à observação e à pesquisa partici-
pante, como Brandão (1999), Lüdke e André (1986), Gajardo (1986)
e Vianna (2003), entre outros, que dimensionam pontos importantes
sobre práticas metodológicas, oferecendo um suporte conceitual e
comun. mídia consumo são paulo, v. 17, n. 48, p. 61-83, jan./abr. 2020
64 questões metodológicas da pesquisa de campo em comunicação organizacional
A R T I G O
comun. mídia consumo, são paulo, v. 17, n. 48, p. 61-83, jan./abr. 2020
luis mauro sá martino 65
A R T I G O
do campo, em uma preocupação dialógica com as questões de método,
que se compartilham estas questões.
comun. mídia consumo são paulo, v. 17, n. 48, p. 61-83, jan./abr. 2020
66 questões metodológicas da pesquisa de campo em comunicação organizacional
A R T I G O
comun. mídia consumo, são paulo, v. 17, n. 48, p. 61-83, jan./abr. 2020
luis mauro sá martino 67
A R T I G O
entre os funcionários de uma organização do setor elétrico. Naquele
ano, a empresa iniciou um processo de mudança no modelo de ges-
tão, aqui intitulado “Programa”. A iniciativa, segundo a companhia,
procurava reformular processos, instaurar novas práticas e transformar
a cultura organizacional, mudando a maneira de as pessoas trabalha-
rem e se relacionarem dentro e fora da instituição, com o objetivo de
tornar a atuação da empresa mais orientada às necessidades dos clientes
externos.
Esse processo seria implementado a partir de uma série de reuniões,
conduzidas preferencialmente pelo líder do projeto, com sua equipe
principal, secundada por participações adjacentes. O sucesso do pro-
jeto estava, portanto, ligado às condições, momentos e contradições
existentes em vários momentos, mas focados principalmente durante
as reuniões – daí a escolha metodológica de observar essa interação e
algumas outras que gravitam em torno dessa, como momentos de des-
contração (“pausa para um café”) e encontros de corredor.
Enquanto as comunicações mediadas pelas tecnologias contam com
um diversificado aparato teórico-metodológico para suportar investiga-
ção dos fenômenos, o que temos em mãos para apreender o processo
comunicacional quando a face de um humano encontra a face do outro?
Goffman parece ser, sobretudo, um pesquisador da interação face a
face. Dentro dos procedimentos comuns de orientação, quando se de-
finiu a proposta de pesquisa como sendo “o lugar da comunicação face
a face” em situações do universo da Comunicação Organizacional, a
própria escolha do vocabulário parecia remeter a Goffman.
Como observa Winkin (1999), em um curioso arco, a produção de
Goffman começa e termina com textos intitulados “Interação Social”.
A expressão aparece em um capítulo de sua tese de doutorado sobre as
ilhas Hébridas, na Escócia, e é também o título do que seria a confe-
rência inaugural como presidente da Associação Norte-Americana de
Sociologia – Goffman faleceu antes de proferi-la. O conceito reapare-
ce sistematicamente em vários momentos de sua obra, seja de maneira
explícita, como no livro Ritual de Interação, seja como fundamento
comun. mídia consumo são paulo, v. 17, n. 48, p. 61-83, jan./abr. 2020
68 questões metodológicas da pesquisa de campo em comunicação organizacional
A R T I G O
comun. mídia consumo, são paulo, v. 17, n. 48, p. 61-83, jan./abr. 2020
luis mauro sá martino 69
A R T I G O
A opção se mostrou absolutamente necessária, uma vez que esta pes-
quisadora trabalha na Empresa e faz parte do programa, atuando como
analista de comunicação institucional.
Schegloff (1988, p. 101) indica também essa proximidade entre su-
jeito e objeto no centro da própria metodologia de Goffman, sobretudo
no sentido de permitir invocar, durante sua leitura, nossas próprias expe-
riências. Essa pergunta metodológica também é feita por Blitvich (2013,
p. 9) em um estudo sobre face e identidade, destacando não o aspecto
de “método”, mas uma “prática” das teorias de Goffman.
O momento da observação e a imersão no campo parecem se
apresentar para Goffman como oportunidades de encontrar sentidos
inicialmente invisíveis nas trocas e interações, mas que se mostram fun-
damentais na elaboração das relações cotidianas como marcadores de
sentidos, posições e ações no mundo social.
A identificação de significados desvela o que o cotidiano encobre
– todo um jogo de sinalizações, indicações, ancoragens, elaboração e
reelaboração de argumentos, estratégias para construir as percepções de-
sejadas a respeito de si (e evitar qualquer elemento que rompa com esse
“script” previamente definido), delimitação de territórios, atribuições e
autoatribuições de valor e importância expressos nos mínimos gestos e
atitudes.
Dessa maneira, dentro de uma perspectiva de Goffman, seria possível,
a título de exemplo, encontrar expressões de poder – ou de resistência
a ele – no ato de cruzar os braços e recostar-se na cadeira durante uma
reunião, respirar mais fundo durante um diálogo ou sistematicamente
dirigir o olhar para outros pontos que não seu interlocutor ao longo de
uma conversa.
O primeiro passo foi obter o consentimento formal do responsável
legal da organização, o presidente do Conselho de Administração da
Empresa; do líder do programa a ser observado, o gerente executivo de
Atendimento; e da gerente executiva de Comunicação. Todos assinaram
um termo de autorização.
comun. mídia consumo são paulo, v. 17, n. 48, p. 61-83, jan./abr. 2020
70 questões metodológicas da pesquisa de campo em comunicação organizacional
A R T I G O
comun. mídia consumo, são paulo, v. 17, n. 48, p. 61-83, jan./abr. 2020
luis mauro sá martino 71
A R T I G O
As estratégias de observação: pensando com Goffman
Uma estratégia para lidar com esta questão foi elaborar um instrumento
de coleta que direcionasse o olhar para as questões a serem investigadas.
A necessidade de um instrumento específico também se deu pelo desa-
fio de observar os fluxos comunicacionais nas interações face a face. Há
uma multiplicidade de fenômenos simultâneos que ocorrem na comu-
nicação direta, desde a configuração espacial, os objetos, as roupas, os
gestos, as posturas, os humores, o tom das vozes e tantos outros elemen-
tos e interditos. É fácil se perder, daí a importância de saber para onde
olhar.
Não perder de vista os propósitos investigativos do estudo de caso
também foi uma preocupação. Antes de entrar em cada reunião, escre-
víamos no caderno as perguntas norteadoras da pesquisa. Na infinidade
dos microacontecimentos, não se podia esquecer o objetivo de apreender
o papel de cada participante na interação e suas táticas comunicacionais;
se foram bem-sucedidas ou não; como a reação de um afetava ou muda-
va a tática do outro; quais eram os momentos de tensão e, finalmente,
que vínculos se formavam ao final de uma dinâmica interacional.
A opção pela observação de uma situação fechada procura levar em
consideração a delimitação de uma situação específica, definida de ma-
neira semelhante pelas pessoas que participam dela, daí a opção por
estudar interações relativamente limitadas no tempo e no espaço, pro-
curando ver como, no fragmento da interação, emergem mudanças,
significados, expectativas, os turnos de interação, reelaboração de repre-
sentações, revelação de bastidores ou compartilhamento de inferências
entre os participantes – e estas afirmações pautam-se parcialmente em
Sanders (2012). Como indica Marta Dynel (2011, p. 463), Goffman
se concentra no todo das situações sociais, procurando ver o conjunto
como uma composição de detalhes.
A observação conduzida por Goffman em suas análises parece envol-
ver, em primeiro lugar, um longo período de campo, com uma imersão
parcial, quando não inteira, em seu universo de pesquisa. Trata-se de
observações minuciosas de longo prazo, procurando encontrar as formas
comun. mídia consumo são paulo, v. 17, n. 48, p. 61-83, jan./abr. 2020
72 questões metodológicas da pesquisa de campo em comunicação organizacional
A R T I G O
comun. mídia consumo, são paulo, v. 17, n. 48, p. 61-83, jan./abr. 2020
luis mauro sá martino 73
A R T I G O
“Micro” não é o tamanho do campo, mas do recorte do olhar sobre o
objeto – as interações sociais – em uma dada situação.
Assim, as categorias de Goffman foram essenciais na construção des-
se instrumento de coleta, no qual combinamos conceitos que o autor
apresentou nas obras A Representação do Eu na Vida Cotidiana (1985)
e Comportamentos em Lugares Públicos (2010).
Foram adicionados ainda alguns elementos específicos para apreen-
der as relações de poder e como o espaço físico influenciava as dinâmicas
– uma parte do instrumento que não tinha relação direta com Goffman,
mas que entendemos importantes para investigar as questões formuladas.
Usamos o quadro 1 abaixo para sugerir o caminho da observação em
cada encontro e conduzir as anotações que, juntas, formaram o diário
de campo deste estudo:
comun. mídia consumo são paulo, v. 17, n. 48, p. 61-83, jan./abr. 2020
74 desenvolvimento da situação
A R T I G O
comun. mídia consumo, são paulo, v. 17, n. 48, p. 61-83, jan./abr. 2020
luis mauro sá martino 75
A R T I G O
passávamos as informações para o instrumento, exercício que nos pro-
vocava a lembrar de mais detalhes, complementando os dados não
anotados primeiramente.
comun. mídia consumo são paulo, v. 17, n. 48, p. 61-83, jan./abr. 2020
76 outras observações
A R T I G O
da interação podem ter sido ignorados por conta deste direcionador, que
possivelmente pré-moldurou o exercício de apreensão.
Também vale ressaltar o esforço contínuo para, na medida do possí-
vel, se afastar e observar a cena, ainda que estivéssemos nela. No diário
de campo, registramo-nos como participante, anotando as próprias
manifestações e papéis assumidos ao longo da interação. É como se a
persona “observadora” estivesse registrando os movimentos da persona
“analista de comunicação”: essa foi a tentativa.
Certamente, em suas obras, Goffman reserva um considerável espaço
dedicado à descrição de situações, interações, atitudes e comportamen-
tos. Esse procedimento parece estar quase sempre ligado à possibilidade
de apreensão crítica imediata para, a partir daí, construir uma análise:
talvez não seja de todo errado observar nisso certa herança fenomeno-
lógica, ainda que indireta, relacionada à condição de pensar a descrição
do fenômeno como primeira etapa de sua apreensão, partindo em segui-
da para a reflexão crítica sobre o empírico.
Esse procedimento parece ocupar um considerável espaço em to-
das as obras de Goffman: com exceção de Os quadros da experiência
cotidiana, Goffman raramente desenvolve uma obra a partir de uma
elaboração conceitual mais filigranada, preferindo, na maior parte das
vezes, construir uma trama conceitual a partir do que mostra uma si-
tuação analisada. A perspectiva metodológica de Goffman parece se
ancorar, entre outros fatores, na percepção dos fenômenos mediada, o
tempo todo, pelo trabalho analítico de abstração a partir do qual são
construídos os conceitos que, por sua vez, contribuem para a interpre-
tação do objeto.
No entanto, à medida que Goffman se dirige ao detalhamento dessas
situações, o descritivo reveste-se de caráter analítico e, mais para frente,
conceitual, revelando nuances desconhecidas, ou mesmo deixadas de
lado, no momento inicial ou na observação assistemática. Isso leva a ver
outros ângulos do objeto, retrabalhado à exaustão em cada uma de suas
pesquisas até que sua apreensão compreensiva seja completa.
comun. mídia consumo, são paulo, v. 17, n. 48, p. 61-83, jan./abr. 2020
luis mauro sá martino 77
A R T I G O
A produção de sentidos comunicacionais, em Goffman, parece se
desenvolver em termos de uma apreensão global de situações a partir da
costura dos mínimos elementos presentes em uma situação de interação,
o que não exclui a interação de leitura – além do prefácio mencionado,
esse tipo de microleitura da produção de sentidos acontece também em
Gender Advertising ou em Forms of Talk.
A descrição, nesses casos, é problematizada em relação ao conjun-
to maior no qual estão inseridos – isto é, a pesquisa desenvolvida por
Goffman em determinado momento, seja no espaço delimitado de um
hospital, seja na delimitação de um tipo específico de interação.
Observando um episódio de interação face a face, foi surpreendente
perceber como as categorias de Goffman funcionam bem como instru-
mento de observação. A separação entre a equipe de atores e a plateia,
os elementos do espaço físico configurados em um cenário, as pessoas
assumindo fachadas, os níveis de interação da plateia (ativa ou especta-
dora), os engajamentos de face e o ethos que se forma no grupo; todos
esses conceitos emolduram o que está sendo observado na cena.
Pelas fachadas conseguimos apreender as relações de poder entre os
participantes e como cada comportamento é, de certa forma, dado pelo
papel que se assume. Por exemplo: enquanto os gestores se sentiam mais
confortáveis para falar, divergir e negociar, os analistas atuavam como
“coro” de seus chefes, complementando seus pontos de vista. Como
afirma Velho (2008, p. 146), “os indivíduos desempenhando papéis estão
sempre procurando expressar-se e, para que isso tenha sucesso sociopsi-
cológico, é necessário que os atores com quem estejam interagindo se
impressionem com o que está sendo transmitido”.
Por fim, a análise conjunta das cenas nos possibilitou identificar algu-
mas regularidades, no sentido indicado por Bourdieu (1990), que, não
sem algo de paradoxal, singularizavam o conjunto de interações. O qua-
dro 2 procura identificar essas observações:
comun. mídia consumo são paulo, v. 17, n. 48, p. 61-83, jan./abr. 2020
78 outras observações
A R T I G O
Hierarquia dosa a expressão Regra social implícita determina quem pode se expres-
sar mais (presidente/gestores) e quem pode se expressar
menos (demais funcionários).
Isso permite talvez retomar o que foi dito acima a respeito de sua
elaboração conceitual: se há o que parece ser uma unidade no olhar
metodológico, que busca incidir sobre as interações sociais, a especifi-
cidade de cada uma delas desafia a formulação de uma teoria geral ao
mesmo tempo que permite a observação, em cada nova pesquisa, de
novas nuances do que está sendo visto. Utilizando uma definição epis-
temológica formulada por Vera França (2014), seria possível dizer que o
olhar de Goffman incide sobre diversos objetos empíricos – comunida-
des, instituições, locais públicos – no sentido de aperfeiçoar e filigranar
aspectos de seu objeto de conhecimento, as interações sociais.
Conceitos como o de “palco” e “bastidor”, “enquadramento” ou
“instituição total”, empregados em algumas de suas obras principais,
retornam esporadicamente, mas não se constituem como um repertó-
rio conceitual e hermenêutico apto a ser aperfeiçoado na medida em
que se tornam presentes, ou ao menos visíveis, em situações específicas.
comun. mídia consumo, são paulo, v. 17, n. 48, p. 61-83, jan./abr. 2020
luis mauro sá martino 79
A R T I G O
Ao que parecem, em Goffman os conceitos estão em constante choque
com uma realidade que se mostra inapreensível em sua generalidade,
mas que, ao mesmo tempo, revela algumas repetições, semelhanças e
mesmo “padrões” – palavra usada aqui com cuidado, referente a uma
herança da antropologia de origem em Goffman – em sua escala de
observação, o espaço microssocial.
Considerações finais
A microssociologia de Goffman não parece se referir propriamente ao
tamanho das situações analisadas, mas ao olhar metodológico dirigido
aos momentos de interação, sublinhando cada uma de suas filigranas,
nuances e detalhes responsáveis pela construção dos sentidos – a comu-
nicação – na relação com os outros. Em Goffman parece haver todo um
mundo a desvelar no insignificante – categoria, por sua vez, que aparen-
temente deixa de existir dentro de sua perspectiva metodológica, uma
vez que os detalhes se tornam, muitas vezes, protagonistas das situações
de interação.
Isso leva a outra questão: em que se constitui, efetivamente, a delimi-
tação do espaço de observação em Goffman? É relativamente comum
ver o nome de Goffman associado à ideia de “microssociologia”, da qual
ele seria o criador e, por considerável tempo, único representante. É
possível questionar, em termos metodológicos, o que pode existir efe-
tivamente de “micro” em suas análises. Para tanto, vale retomar alguns
aspectos de suas elaborações e interesses teóricos.
Na medida em que estes conceitos nascem da pesquisa de campo
sistemática, e são por ela informados, retomados e corrigidos, poderia
existir, em uma leitura inicial, a tentativa de classificar Goffman como
um empirista pouco interessado na elaboração de um repertório teórico-
-crítico em relação à realidade observada. No entanto, essa sua busca
pelo empírico não o encerra em termos do que poderia ser considerado
um relato do momento ou do material observado.
A observação das questões metodológicas envolvidas na observa-
ção das microinterações não deixa de se apresentar dentro de uma
comun. mídia consumo são paulo, v. 17, n. 48, p. 61-83, jan./abr. 2020
80 outras observações
A R T I G O
perspectiva mais ampla que se revela nessa escala, como ressalta Maria
Teresa S. Garraza (2001). Em sentido semelhante, Camila P. Castro
(2012, p. 204) assinala algumas perguntas como perguntas motivadoras
do trabalho elaborado a partir de Goffman: “que princípios estruturais
informam contatos rituais nas interações? Ou ainda, como as caracterís-
ticas da ordem da interação podem ser conectadas a estruturas sociais?”.
A análise das interações em escala micro no contexto organizacional,
na perspectiva de Goffman, parece requerer uma discussão metodoló-
gica sempre renovada, sobretudo na medida em que o método, como
recorda Lucrécia D’A. Ferrara (1996), não se constitui como conjunto
de técnicas ou receituário, mas a composição de indagações elaboradas
no enfrentamento do real que se procura estudar. Dessa maneira, não se
fala aqui do “método em Goffman” ou em uma “metodologia” a partir
do autor, mas procurar pensar “com” algumas de suas perspectivas.
Carlos B. Martins (2008, p. 140) ressalta que “tais relações que os
indivíduos travam entre si em situações sociais concretas constituem um
domínio de investigação analiticamente distinguível – a ordem de inte-
ração –, que possui estruturas, processos e regularidades específicas, não
podendo ser reduzida a situações macrossociais e cujo método adequa-
do de investigação repousa na microanálise”.
A prática metodológica de Goffman parece oferecer uma perspectiva
metodológica na qual o conhecimento é construído a partir do respeito
às características próprias de cada situação, articuladas com sua proposta
de ver, aí, os procedimentos de interação social.
Não há, portanto, o que poderia ser visto como uma espécie de so-
lipsismo do objeto empírico na análise de Goffman, algo que impediria
qualquer desenvolvimento posterior, mas a busca por um cuidado me-
todológico que respeite as características das interações presentes em
cada situação de pesquisa ao mesmo tempo que permite observar, em
contraste e tensionamento, alguns dos elementos já apontados por ele
em suas pesquisas: assim, não parece ser possível “aplicar Goffman”,
algo que nem ele mesmo fazia, como sugere sua recusa em transpor
conceitos entre obras, mas construir um olhar metodológico “a partir de
comun. mídia consumo, são paulo, v. 17, n. 48, p. 61-83, jan./abr. 2020
luis mauro sá martino 81
A R T I G O
Goffman” como procedimento epistemológico na prática de pesquisa
em Comunicação.
Referências
BLITVICH, P. G-C. Face, identity and im/politeness. Journal of Politeness Research, v.
9, n. 1, p. 1-33, [Link], P. Erving Goffman, descobridor do infinitamente
pequeno. In: GASTALDO, E. (Org.). Erving Goffman, desbravador do cotidiano. Porto
Alegre: Tomo Editorial, 2004.
BOURDIEU, P. Questões de Sociologia. Rio de Janeiro: Marco Zero, 1983.
BRAGA, J. L. Dispositivos Interacionais. Trabalho apresentado no 20º Encontro da
Compós. Anais... Porto Alegre: UFRGS, junho de 2011.
BRAGA. J. L. A prática da pesquisa em Comunicação: abordagem metodológica como
tomada de decisões. E-Compós, v. 14, n. 1, jan.-abr., 2011.
BRANDÃO, C. R. Pesquisa Participante. São Paulo: Brasiliense, 1999.
CASTRO, C. P. Ordem da interação, embaraço e agência do self na obra de Erving
Goffman. Teoria e Sociedade, v. 1, n. 20, p. 198-2017, jan.-jun., 2012.
CORAZZA, S. M. Labirintos da pesquisa, diante dos ferrolhos. In: COSTA, M. V. Ca-
minhos investigativos. Porto Alegre: Ed. Mediação, 1996.
DYNEL, M. Revisiting Goffman’s postulates on participant statuses in verbal interac-
tion. Language and Linguistics Compass 5/7 (2011): 454–465
FERRARA, L. D’A. Olhar periférico. São Paulo: Edusp, 1996.
FERREIRA, D. A. Ator sincero e ator cínico: a análise das interações comunicacionais
no contexto organizacional a partir da perspectiva dramatúrgica de Erving Goffman.
Dispositiva, v. 7, n. 11, p. 123-137.
FERREIRA, D. A. Os estudos de representações sociais e suas contribuições para o
entendimento das estratégias de interação no contexto das organizações. Trabalho Apre-
sentado no 11º Abrapcorp. Belo Horizonte: Anais… 15 a 19 de maio de 2017.
FLECHA, V. O.; MACHADO, M. N. M. Organização, controle e representação: estu-
do de um processo de interação entre consultor e empresário. Trabalho apresentado no
XXXII Encontro da Anpad. Anais… Rio de Janeiro: 6 a 10 de setembro de 2008.
GAJARDO, M. Pesquisa participante na América Latina. São Paulo: Brasiliense, 1986.
GAMA, M. G. A fabricação da imagem social da empresa. Atas do IV SOPCOM. Mi-
nho: Sopcom, 2005.
GARRAZA, M. T. S. Origen, aplicación y limites de la “Teoria del encuadre” en co-
municación. Comunicación y Sociedad, v. XIV, n. 2, p. 143-175, [Link], E.
Goffman e as relações de poder na vida cotidiana. Revista Brasileira de Ciências Sociais,
v. 23, n. 68, p. 149-153, out. 2008.______. Introdução. In: _____. (Org.). Erving Goff-
man, desbravador do cotidiano. Porto Alegre: Tomo Editorial, 2004.
GOFFMAN, E. A representação do eu na vida cotidiana. Petrópolis: Vozes, 1985.
______. Comportamento em lugares públicos. Petrópolis: Vozes, 2014.
______. Os quadros da experiência social. Petrópolis: Vozes, 2010.
comun. mídia consumo são paulo, v. 17, n. 48, p. 61-83, jan./abr. 2020
82 outras observações
A R T I G O
Sobre o autor
Luis Mauro Sá Martino – Formado em Jornalismo pela Cásper Líbero, fez
Mestrado e Doutorado em Ciências Sociais na PUC-SP, com pós-doutorado
na Universidade de East Anglia (Norwich, UK) em 2008. Na Cásper Líbero,
comun. mídia consumo, são paulo, v. 17, n. 48, p. 61-83, jan./abr. 2020
luis mauro sá martino 83
A R T I G O
é professor de Comunicação Comparada no Curso de Jornalismo desde o ano
2000. É professor e pesquisador do Mestrado, vinculado à Linha de Pesquisa
“Processos Midiáticos: Tecnologia e Mercado”, e lidera o Grupo de Pesquisa
“Teorias e Processos da Comunicação”.
comun. mídia consumo são paulo, v. 17, n. 48, p. 61-83, jan./abr. 2020
COMUN. MÍDIA CONSUMO, SÃO PAULO, V. 17, N. 48, P. 84-107, JAN./ABR. 2020
A R T I G O
DOI 10.18568/CMC.V17I48.2069
A R T I G O
concept of diversitywashing, understanding that many brand strategies camou-
flage inconsistent practices, especially in relation to the productive routines of
advertising and the traces of image and textual stereotypes, which reveal a con-
tradiction of what they discursively expose. Thus, it is proposed here to discuss the
contemporary demands on the relationship between media and diversity, concep-
tualizing the notion of diversitywashing and pointing to six common features of
this practice (inadequate representations; attribution of neutrality; contradictory
backstage; limited diversity; incoherent behaviors; and past life) in light of theo-
retical assumptions about self-performatization, management of impressions and
expressive coherence.
Keywords: diversitywashing; diversity; advertising; brand; expressive coherence.
comun. mídia consumo são paulo, v. 17, n. 48, p. 84-107, jan./abr. 2020
86 diversitywashing: as marcas e suas (in)coerências expressivas
A R T I G O
Introdução
No final da década de 1990 e início dos anos 2000, enquanto os im-
pactos ambientais do aquecimento global e os desequilíbrios ecológicos
provenientes da crise do petróleo eram discutidos nos âmbitos político e
econômico, o conceito de greenwashing se fortalecia em meio aos estu-
dos de comunicação, marcas e sociedade (ATHANASIOU, 1996). Aos
esforços científicos em comunicação, o termo era e ainda é relevante,
porque envolve a construção de uma camada discursiva dissimulada
sobre as práticas comerciais, reconhecendo que os apelos da sustentabi-
lidade são estímulos potentes ao consumo.
Se as estratégias de greenwashing, portanto, surgem no contexto da
emergência de demandas de mercado por empresas ambientalmente
responsáveis, vive-se na conjuntura contemporânea fenômeno seme-
lhante: na tentativa de chamar a atenção de público consumidor ávido
por representações mais acuradas da realidade social, marcas constroem
discursos publicitários repletos do signo da diversidade. No entanto, en-
quanto algumas propostas são bem recebidas, uma vez que parecem
representar um avanço na construção discursiva do imaginário sobre
os corpos e as identidades sociais, muitas fazem emergir a dúvida: há
mesmo a construção de uma cultura da diversidade no ambiente empre-
sarial ou apenas iniciativas superficiais que maquiam a realidade nada
diversa da marca? Isto é, há, de fato, preocupação marcária com a diver-
sidade ou apenas diversitywashing?
Entende-se que, embora a temática da diversidade esteja em pauta
(HOFF, 2009; SILVA; GONÇALVES, 2017), possibilitando que, por
exemplo, indivíduos negros estejam mais frequentes nas imagens publi-
citárias (SACCHITIELLO, 2018), na verdade esta iniciativa não avança
da superfície discursiva, uma vez que apenas 4,7% dos cargos executivos
das 500 maiores empresas brasileiras são ocupados por pessoas negras e
somente 3,9% das empresas oferecem alguma forma de ação afirmativa
para aumentar a presença negra no ambiente de trabalho (SCRIVANO,
comun. mídia consumo, são paulo, v. 17, n. 48, p. 84-107, jan./abr. 2020
fernanda carrera | chalini torquato 87
A R T I G O
2016). Essa realidade é repetida na conjuntura de outras minorias3,
como mulheres (BOCCIA, 2018), idosos (LAPORTA; CAVALLINI,
2018) e pessoas com deficiência (LISBOA, 2018).
Ao compreender, entretanto, a importância da identificação destas
discrepâncias para a localização da estratégia discursiva no plano das
táticas de diversitywashing, propõe-se aqui um aprofundamento da
discussão e do domínio conceitual do termo, ainda carente de proble-
matização científica. Parte-se do pressuposto de que não somente a
maquiagem da diversidade se manifesta nesta discrepância, como ela
pode ser inscrita no próprio domínio textual e imagético da estratégia
publicitária. Entende-se que a perspectiva da diversidade se tornou uma
dimensão da performance marcária de si, na qual estão impressas dinâ-
micas interacionais que dão à audiência o poder sobre, especialmente,
suas percepções. Nesse sentido, a marca é inserida no plano das intera-
ções sociais, no qual não basta reconhecer-se em uma identidade, mas
gerenciar as impressões identitárias que causa no outro (GOFFMAN,
1985).
Sendo assim, este trabalho busca problematizar o conceito de diver-
sitywashing, compreendendo suas dimensões complexas e dependentes
dos efeitos de sentido de suas estratégias dentro das percepções da au-
diência. Inserindo a marca no campo interacional, propõe-se aqui um
olhar conceitual sobre estas táticas sob a égide da noção de “coerência
expressiva” (SÁ; POLIVANOV, 2012), compreendendo que a identida-
de de marca “diversa” se constitui enquanto projeto de si (GIDDENS,
2002), em um constante e flexível gerenciamento das impressões que
causa nos seus públicos (GOFFMAN, 1985).
3 Entende-se minorias aqui sob a luz sociológica, que pressupõe “coletividades que são discri-
minadas e estigmatizadas, consubstanciando um quadro de subordinação cultural, política ou
socioeconômica a um grupo de domínio, independentemente do número de sujeitos que a
compõem em relação à totalidade populacional” (RONDON FILHO, 2013, p. 269), isto é,
grupos que ocupam lugares inferiores nas relações de poder cotidianas.
comun. mídia consumo são paulo, v. 17, n. 48, p. 84-107, jan./abr. 2020
88 diversitywashing: as marcas e suas (in)coerências expressivas
A R T I G O
Mídia e diversidade
Na esteira de ativismos sociais de mídia livre e de alterglobalização – a
exemplo da Cúpula Mundial pela Sociedade da Informação de Gene-
bra (2003) e Tunísia (2005) e, mais recentemente, Primavera Árabe e
o Occupy Wall Street (2011), – movimentos sociais contemporâneos,
fortalecidos pelas novas ferramentas, erguem suas barricadas contra ra-
cismo, xenofobia, estereótipos, sexismo, homofobia e outras violações,
reivindicando estruturas sociais mais democráticas. São dinâmicas que
desconfiam das estruturas políticas institucionalizadas, mas também
fazem um forte questionamento à mídia, buscando construir novas ver-
sões dos fenômenos sociais. Nesse sentido, afirma Castells (2012, p. 23),
“[...] a disputa de poder fundamental é a batalha pela construção de
significados nas mentes”, ou seja, uma disputa de narrativa voltada para,
segundo o autor, reprogramar as instituições sociais para valores mais
democráticos.
No que se refere à mídia tradicional como instituição, é necessário
ter em mente o potencial de sua estrutura na normatização cotidiana de
valores sociais. Entendida como a profissional da construção narrativa
da verdade social pública, a grande responsável pela massificação de
informações nas sociedades populosas contemporâneas, torna-se funda-
mental colocá-la sob a lente analítica de como ela conduz a construção
de um inconsciente coletivo. Na medida em que o desconhecido sobre
a alteridade é mediado pelos discursos midiáticos, portanto, é funda-
mental exercitar o olhar crítico atento sobre o condicionamento ou a
legitimação de visões de mundo e qual seu impacto na estruturação de
sociabilidades contemporâneas – pacíficas, mediadoras de tolerância ou
conflitivas, promotoras de exclusão social. Isso é importante, por exem-
plo, no que se refere aos estereótipos, supergeneralizações construídas
socialmente e que são colocadas como arquétipos de determinados gru-
pos sociais, limitando seu significado e a interpretação social sobre o
outro (MERSKIN, 2011).
A construção própria de mensagens destinadas ao público massivo dia-
loga com uma normatização de percepções, reforçando cotidianamente
comun. mídia consumo, são paulo, v. 17, n. 48, p. 84-107, jan./abr. 2020
fernanda carrera | chalini torquato 89
A R T I G O
o que é compreendido como “normal” ou “desejável”, numa relação
muito mais negociada e sedutora, do que impositiva. Trata-se da for-
ça reprodutora da violência simbólica de padrões ideais (BOURDIEU,
1989) que, na mesma medida em que estabelece o que é normal, es-
tabelece também o que não é. Assim, discutir estereótipos de mídia é
entender as maneiras com que a visão das pessoas é construída sobre os
Outros e como a sua marginalização se torna imperceptível ou banali-
zada no ambiente da mídia. Esses construtos sociais, transmitidos como
sendo a “verdade”, são concedidos socialmente e reproduzidos institu-
cionalmente em várias esferas, de modo que as percepções de mundo da
cultura dominante se vendem como algo natural, óbvio, unanimemente
acordado, definindo, assim, as crenças, rituais e os atos numa ordem
social.
É através da reprodução de padrões limitados, por exemplo,
sobre gênero, raça, classe, sexualidade e religião que arquétipos
(visões multidimensionais, símbolos fluidos de personalidade) são
transformados em estereótipos (signos unidimensionais e concretizados
sobre a Alteridade), sendo potencialmente capazes de difundir valores
que justifiquem o ódio coletivo, a perseguição e atrocidades políticas
contra determinados grupos (MERSKIN, 2011). Assim, o contato
cotidiano com mensagens midiáticas estereotipadas reproduz e reforça
socialmente preconceitos – uma antipatia baseada numa generalização
distorcida e inflexível, uma atitude avessa ou hostil a uma pessoa que
pertence a um grupo simplesmente por ela pertencer a este grupo – e dis-
criminação – o comportamento que resulta do preconceito, envolvendo
tratamento injusto aos indivíduos, baseado em algumas características
estigmatizadas, como raça, classe, gênero, idade, etnia, religião, natura-
lidade, orientação sexual, visões políticas, possuir deficiência, etc.
Por se tratar de um sistema excludente e perpetuador de conflitos
sociais, iniciativas que indicam sua superação costumam ser comemo-
radas pelos ativistas ávidos por uma transformação social. Por isso que,
conteúdos disruptivos, alternativos e questionadores podem ser infini-
tamente compartilhados, apropriados e utilizados como uma luz de
comun. mídia consumo são paulo, v. 17, n. 48, p. 84-107, jan./abr. 2020
90 diversitywashing: as marcas e suas (in)coerências expressivas
A R T I G O
comun. mídia consumo, são paulo, v. 17, n. 48, p. 84-107, jan./abr. 2020
fernanda carrera | chalini torquato 91
A R T I G O
Autenticidade percebida e as (in)coerências
expressivas da marca
Uma das chaves de observação relevantes para avançar na presente
análise é a percepção de autenticidade das construções subjetivas e os
processos de validação identitária que são continuamente mobilizados
no contexto interacional e podem auxiliar na compreensão das intera-
ções comunicacionais entre públicos e marcas. Parte-se do pressuposto
de que, mesmo ao construir discursos empresariais e mercadológicos,
estes sujeitos marcários estariam subordinados a aparatos relacionais
semelhantes àqueles aos quais os indivíduos seriam submetidos, abran-
gendo táticas de construção de si, negociações identitárias, percepções
de alteridade e legitimação, assim como as problemáticas que emergem
das relações de poder.
Sob a perspectiva sociológica, a autenticidade seria um construto
negociado, em um processo de autorreflexão (GIDDENS, 2002) assujei-
tado aos trâmites interacionais. Não seria, portanto, a autenticidade um
fenômeno concreto, mas uma abstração dependente do retorno social,
isto é, “o conceito de autenticidade deve ser entendido não enquanto
verdade ontológica, mas como uma ‘história partilhada’”, construída
pelo ator e negociada com os outros (SÁ; POLIVANOV, 2012, p. 581),
em um sistema contínuo de legitimação e deslegitimação.
A esta percepção de autenticidade identitária, Sá e Polivanov (2012)
dão o nome de “coerência expressiva”, ou seja, a constância subjetiva
que os indivíduos buscam nos outros e em si mesmos para a validação
de quem são e de quem são seus interagentes. Contradições com-
portamentais e intensas transformações poderiam produzir efeitos
deslegitimadores, definindo para os indivíduos maior ou menor “com-
petência social como agentes da interação” (SMITH, 2006, p. 97-98).
Sendo assim, o objetivo final da construção identitária seria, portanto,
“saber se será acreditado ou desacreditado” (GOFFMAN, 1985, p. 231).
Constituinte de processos interacionais elementares, este regime de
validação da autenticidade é reforçado pelas dinâmicas da cultura digital
e das materialidades contemporâneas. Boyd (2008) aponta para quatro
comun. mídia consumo são paulo, v. 17, n. 48, p. 84-107, jan./abr. 2020
92 diversitywashing: as marcas e suas (in)coerências expressivas
A R T I G O
comun. mídia consumo, são paulo, v. 17, n. 48, p. 84-107, jan./abr. 2020
fernanda carrera | chalini torquato 93
A R T I G O
social, do pertencimento e da saúde psicológica; no caso da conjuntura
das marcas, o que está em jogo é sua imagem corporativa, que implica
em gerenciamento de uma identidade em prol da permanência mer-
cadológica e da fuga constante dos penosos gerenciamentos de crise.
Dessa forma, a percepção das rupturas performáticas se manifesta, na
conjuntura das marcas, em percepção de “washing”, ou seja, em dissi-
mulação percebida ou evidente incoerência expressiva. Nesse sentido,
todo o aparato discursivo e operacional que envolve o funcionamento da
empresa (por ex., publicidade, pontos de venda, embalagens, produtos,
parceiros, fornecedores, funcionários e processos de contratação) pode
ser utilizado como reforço ou empecilho para a manutenção da sua coe-
rência expressiva.
Para avançar neste debate, portanto, são discutidos aqui os seis
traços mais comuns de incoerência expressiva, no contexto do atri-
buto da diversidade, que podem fazer a marca cair na percepção de
“diversitywashing”.
comun. mídia consumo são paulo, v. 17, n. 48, p. 84-107, jan./abr. 2020
94 diversitywashing: as marcas e suas (in)coerências expressivas
A R T I G O
Representações inadequadas
Uma vez que a comunicação publicitária é um dos modos de constru-
ção de identidade marcária que menos implicam em transformações
estruturais da empresa, manifestar apoio a causas da diversidade parece
um simples empreendimento. No entanto, a falta de compreensão das
narrativas diversas que compõem cada corpo ali utilizado para fins co-
merciais, além do pouco esforço em busca desse discernimento crítico a
respeito das suas ideias criativas, contribui para a construção de discur-
sos publicitários muitas vezes superficiais e, sobretudo, problemáticos e
estereotipados.
É o caso da campanha “Somos Todos Paralímpicos” desenvolvida
pela agência de publicidade Africa para a Vogue, mostrando os atores
Paulo Vilhena e Cléo Pires como atletas amputados. O contrassenso
na ideia de representatividade desta peça foi alvo de críticas na inter-
net alcançando o topo dos Trending Topics na época (agosto de 2016),4
pois ela optou por “dar visibilidade” a atletas com deficiência, retirando
exatamente estes sujeitos das peças publicitárias e colocando em seus
lugares dois corpos padronizados com “deficiências” construídas via edi-
ção de imagens.
Outro exemplo é a campanha “Be true to your pleasure” da Mag-
num protagonizada por transexuais, travestis e drag queens. Ao associar
o sorvete e o ato de comê-lo aos rituais de sensualidade impressos nos
corpos ali expostos, a marca recai sobre o desconhecimento das dife-
renciadas narrativas vivenciadas por estes corpos (PELÚCIO, 2005);
sobre uma hipersexualização já cristalizada, que impede o acesso destas
pessoas a outros espaços profissionais senão à prostituição (JIMENEZ;
ADORNO, 2009).
Estes exemplos, portanto, demonstram a problemática comum das
representações inadequadas nas propostas publicitárias e fazem emergir
debates relevantes sobre os limites possíveis da compreensão sobre as
narrativas de sujeitos que não fazem parte da produção criativa e da
comun. mídia consumo, são paulo, v. 17, n. 48, p. 84-107, jan./abr. 2020
fernanda carrera | chalini torquato 95
A R T I G O
aprovação das peças. Se há no contexto da criação publicitária e na
gestão das agências de publicidade uma predominância de homens he-
terossexuais, de classe média alta (SACCHITIELLO; LEMOS, 2016;
MAIA, 2018) e brancos (DOURADO, 2015), assim como é a mesma
a realidade dos cargos de chefia das empresas brasileiras (IBGE, 2014,
2016; GOMES, 2018), a iniciativa pelo aprofundamento da compreen-
são sobre aquele que se representa sob a égide da diversidade deveria ser
um esforço amplificado.
Atribuição de neutralidade
A atribuição de neutralidade a corpos específicos se manifesta na es-
colha de alguns sujeitos para representarem o padrão, compondo um
pano de fundo supostamente invisível para a marcação dos corpos que
seriam “diferentes”. Esse tipo de traço é comum nas campanhas publi-
citárias que propõem uma representação racial “diversa”. Em anúncios
que intentam representar indivíduos diferentes e sugerem estar cientes
da pluralidade de raças na conjuntura brasileira, deixam escapar que a
diversidade se materializa no não branco e o branco se torna invisível
em sua racialização. Ou seja, em geral, quando permitem a existên-
cia de indivíduos de outras raças em suas campanhas, essa permissão
se manifesta em um ou dois modelos em meio a uma maioria bran-
ca, corroborando para a acepção de que há uma “certeza intemporal”
(FRANKENBERG, 2004, p. 310) e uma “visibilidade não-marcada”
(MACHADO, 2018) da branquitude.
Em dezembro de 2016, a modelo negra Deddeh Howard expôs, em
projeto intitulado Black Mirror,5 a realidade das campanhas de grandes
marcas e sua associação com agências de modelo. Recriando diversas
fotografias de campanhas famosas em que modelos brancas protagoni-
zavam, Deddeh desejava mostrar os modos do racismo publicitário e
as problemáticas da visão desracializada da branquitude: “Even though
I was told by those agencies that I have an amazing look and wish they
5 Ver: [Link]
comun. mídia consumo são paulo, v. 17, n. 48, p. 84-107, jan./abr. 2020
96 diversitywashing: as marcas e suas (in)coerências expressivas
A R T I G O
could represent me, they already have a black model. Besides having an
abundance of white models” (HOWARD, 2016).6 Com a denúncia, a
modelo descortinou a rotina produtiva da publicidade e realçou de for-
ma contundente a “suposta neutralidade da identidade racial branca
que faz com que grande parcela da sociedade tenha privilégios, mas não
os perceba” (SHUCMAN, 2014, p. 92). Essa neutralidade pode ainda
ser percebida nos anúncios abaixo:
Fonte: Coleta em ambiente digital marcário (sites e mídias sociais, como Facebook e Instagram, da
Quem Disse Berenice, Arezzo, Hering Kids, Itaú, Dove, Natura e Renner)
6 “Mesmo me dizendo que eu tinha um visual incrível e que adorariam poder me contratar,
estas agências diziam que já tinham uma modelo negra. Embora tivessem uma abundância de
modelos brancas” (tradução nossa).
comun. mídia consumo, são paulo, v. 17, n. 48, p. 84-107, jan./abr. 2020
fernanda carrera | chalini torquato 97
A R T I G O
invisibilidade, pouco se realiza em torno da suposta transformação enun-
ciativa da publicidade em torno da diversidade, e o que se vê é mais uma
manifestação de incoerência expressiva, uma vez que se constrói uma
maquiagem discursiva diversa em primeiro plano que é desvelada em
sua padronização em um olhar mais atento; ou seja: diversitywashing.
Bastidores contraditórios
Em maio de 2019, a loja Três, empresa de moda com lojas no Rio de
Janeiro e em São Paulo, que se apresenta sob o slogan “Por trás de peças,
pessoas”, exibe em suas etiquetas o rosto da costureira de cada peça e
tem em seu quadro de vendedoras mulheres negras de cabelo crespo,
teve que explicar por que esse discurso não se manifestava em suas prá-
ticas cotidianas (GONZALEZ, 2019). De acordo com o apurado pelo
Portal Universa, o cotidiano na empresa, na verdade, era repleto de ra-
cismo, gordofobia e assédio moral dos donos e sócios da empresa. Após
a rápida repercussão negativa em redes sociais, a marca publicou uma
nota afirmando: “Nosso apreço pela diversidade nunca foi de fachada,
como agora nos acusam”.
O termo “fachada”, empregado pela nota da Loja Três, admite a com-
preensão dos trâmites que regem o diversitywashing, ou seja, pressupõe
uma construção identitária da marca que se apresenta para apreciação
do público e outra que a deslegitima se for descoberta. Nesse sentido, a
teoria goffmaniana a respeito das interações sociais cotidianas propõe a
metáfora do teatro, dividindo a vida social em palco e bastidores, isto é,
em espaço de exposição de si e em espaço de ocultamento. Analista das
interações face a face, Goffman postulou que todo ator social tem como
ponto de partida a representação que se apresenta à sua frente, mas a
compreensão e os comportamentos se dão não somente pelo conteúdo
do que se diz, mas a partir daquilo que se deixa escapar (GOFFMAN,
1985).
A quebra deste sistema de montagem encenada por aquele que
assiste a representação é chamada de “intromissão inoportuna” (GOF-
FMAN, 1985, p. 192), isto é, quando a plateia entra nos bastidores da
comun. mídia consumo são paulo, v. 17, n. 48, p. 84-107, jan./abr. 2020
98 diversitywashing: as marcas e suas (in)coerências expressivas
A R T I G O
Diversidade limitada
Este traço dialoga com as noções de expressões transmitidas e expressões
emitidas, da perspectiva goffmaniana, uma vez que são ações significan-
tes do processo de gerenciamento de si relevantes para a manutenção do
quadro representativo que se deseja. De acordo com Goffman (1985),
as primeiras são aquelas de caráter proposital que, por meio de signos
conhecidos por sua plateia, fazem eficiente a ação comunicativa. As se-
gundas, por sua vez, incluem movimentos que parecem sintomáticos,
não intencionais do ator, e que podem trazer a impressão de que há
outros sentidos para aquela informação que fora assim transmitida.
A C&A e a marca estadunidense Plus Size Baby protagonizaram
casos de diversidade limitada recentemente. Em 2017, a loja de depar-
tamento brasileira lançou uma campanha com o objetivo de “promover
empoderamento” (IZQUIERDO, 2016), com textos que diziam “sou
negra, sou loira”, “sou menina, sou menino” e “sou gorda, sou sexy”.
Este último texto acompanhava uma fotografia da modelo Malu Men-
des, autodenominada de “curvy model”. No entanto, a repercussão da
campanha foi negativa pela escolha de uma modelo curvilínea, mas não
representativa das mulheres, de fato, gordas. Já a Plus Size Baby, em
abril de 2019, fez um post no Twitter com o texto “#bigsize #curvygirls
Sexy Lace Panties for Plus Size Women”, com uma fotografia de um cor-
po magro que esticava a peça para mostrar seu tamanho. Nesses casos,
comun. mídia consumo, são paulo, v. 17, n. 48, p. 84-107, jan./abr. 2020
fernanda carrera | chalini torquato 99
A R T I G O
portanto, o discurso da diversidade e da valorização dos corpos diversos
se dá no plano das expressões intencionais. No entanto, deixam escapar,
isto é, “emitem” exatamente o contrário do que desejavam, com um
movimento significante que revela uma proposta de diversidade muito
limitada.
No contexto dos sujeitos negros, esse traço da diversidade limitada já
é bem conhecido. Marcas preferem ilustrar a negritude em suas cam-
panhas com corpos de negros de pele clara e traços pouco negroides
(GOMES, 2006). Há, comumente, uma tentativa de embranquecimen-
to do negro como modo de tornar palatável sua existência nesse espaço
discursivo de poder. Assim, é o corpo miscigenado (preferencialmente
mais branco do que preto) que interessa à publicidade, aquele represen-
tante perfeito das dinâmicas do colorismo (NORWOOD; FOREMAN,
2014) e representado pela figura da “mulata”: aquela mulher que preser-
va algumas características negras, mas está “a um passo da branquitude”
(CRAVEIRO; CARVALHO, 2017, p. 65). Nesse sentido, embora enve-
lopadas por um aparente enaltecimento do discurso da diversidade, estas
escolhas denunciam a incoerência expressiva destas marcas, que emitem
como efeito de sentido de si a ideia de praticantes de diverstywashing.
Comportamentos incoerentes
Em março de 2016, a C&A lançou a coleção “Tudo lindo & misturado”
em um vídeo publicitário que apresentava um modelo masculino co-
locando um vestido, numa intenção discursiva genderless. No entanto,
embora a campanha tenha causado furor pela proposta de vanguarda,
rapidamente foi deslegitimada pelo público, que expôs a contradição da
marca no seu próprio aparato comunicacional e de marketing: a divisão
de gênero feminino e masculino continuava em todos os outros espaços
da empresa, como no site e nas lojas, assim como a nova coleção não
considerava em seus tamanhos a possibilidade de, realmente, as peças
serem misturadas, como afirmava o slogan (GIUSTI; PAUL, 2016).
Diferente do traço de diversitywashing que pressupõe a entrada
nos bastidores da representação (bastidores contraditórios), aqui a
comun. mídia consumo são paulo, v. 17, n. 48, p. 84-107, jan./abr. 2020
100 diversitywashing: as marcas e suas (in)coerências expressivas
A R T I G O
Vida passada
Em março de 2017, no contexto brasileiro, a Skol apresenta sua cam-
panha Reposter,7 que marcaria o reposicionamento da marca de cerveja
em prol, agora, de narrativas publicitárias mais inclusivas e diversas.
Reconhecendo seu passado machista, que impregnava seus anúncios
de mensagens de hipersexualização feminina, a Skol propõe neste
comun. mídia consumo, são paulo, v. 17, n. 48, p. 84-107, jan./abr. 2020
fernanda carrera | chalini torquato 101
A R T I G O
momento a reformulação dos seus antigos cartazes por ilustradoras fe-
ministas. Pouco tempo depois, a marca lança a campanha Skolors, que
apresentava uma edição limitada de embalagens com “as cores de nossa
pele”,8 trazendo latas de cores diferentes para simbolizar a diversidade
racial do Brasil.
Com uma repercussão majoritariamente positiva, sobretudo no
ambiente digital (SILVA e GONÇALVES, 2017), a marca de cerveja,
então, se “apropria do social” numa tentativa de apagamento do seu pas-
sado discursivo, que, fundamentalmente, reforçava padrões de opressão,
sobretudo em relação à objetificação feminina (BRAGAGLIA, 2019,
p. 86). Nesse sentido, optando agora por essa “ideologia de consumo”
(BRAGAGLIA, 2019, p. 95) que enaltece corpos, sujeitos e narrativas de
existências diversas, a Skol conseguiria, de fato, dissipar do imaginário
do seu público a associação da marca a discursos discriminatórios ou
seria constantemente relembrada, em um processo de contínua verifica-
ção da autenticidade das suas novas iniciativas?
No âmbito do gerenciamento das situações sociais e das represen-
tações de si, pode-se dizer que “a vida passada e o curso habitual das
atividades de determinado ator contêm [...] fatos que, se fossem in-
troduzidos durante a representação, desacreditariam ou, no mínimo,
enfraqueceriam as pretensões relativas a sua personalidade” (GOFF-
MAN, 1985, p. 192). Esse resgate de comportamentos anteriores
pode ser continuamente mobilizado, como forma de deslegitimar al-
guma estratégia identitária vigente, como pode ser visto no comentário
abaixo feito por um usuário do Facebook:
comun. mídia consumo são paulo, v. 17, n. 48, p. 84-107, jan./abr. 2020
102 diversitywashing: as marcas e suas (in)coerências expressivas
A R T I G O
Fonte: Facebook.
Considerações finais
Ao aproximar a realidade identitária da marca às dinâmicas de cons-
trução de si dos indivíduos, a discussão aqui proposta expõe um olhar
comun. mídia consumo, são paulo, v. 17, n. 48, p. 84-107, jan./abr. 2020
fernanda carrera | chalini torquato 103
A R T I G O
alternativo àqueles que em geral buscam compreender as estratégias de
marca apenas sob o viés dos seus objetivos de mercado. Nesse sentido,
noções como autenticidade e coerência expressiva, comuns nos estudos
sobre interações sociais, podem ser importantes operadores analíticos
para o entendimento das relações muitas vezes conflituosas entre in-
tenção comunicativa de marca, expectativas da audiência e efeitos de
sentido que emergem destas conexões.
Entende-se aqui que o conceito de diversitywashing dialoga com
pressupostos sociológicos já estabelecidos para o estudo da vida social
dos indivíduos, uma vez que insere disputas simbólicas entre os efei-
tos do que se diz e os efeitos do que se pratica, em um jogo constante
de legitimação e deslegitimação dos discursos de marca, assim como
nas negociações interacionais cotidianas. Dessa forma, a proposta aqui
apresentada visa articular conceitualmente a noção de diversitywashing
sob esse aparato teórico-metodológico, construindo um mapeamento
primário para a compreensão das suas manifestações.
No contexto da comunicação midiática em relação ao conceito de
diversidade, é importante reconhecer, ainda, que quando o processo de
mercadorização tem como objetivo tão somente a venda e o lucro, o
pressuposto essencial tende a ser esvaziado e os cidadãos poderão ter
seus valores instrumentalizados, bem como suas histórias de vida expro-
priadas. A estrutura produtiva faz atores individuais normativos terem
que se adaptar, isso pode ser visto como um primeiro avanço, mas ape-
nas quando de fato esses espaços forem ocupados pelos corpos diversos,
narrativas podem ser disputadas, e novas histórias contadas.
Referências
ATHANASIOU, T. The age of greenwashing. Capitalism Nature Socialism, v. 7, n. 1,
p. 1-36, 1996.
BATISTA, L; LEITE, F (Org.). O negro nos espaços publicitários brasileiros: perspectivas
contemporâneas em diálogo. São Paulo: Escola de Comunicações e Artes/USP: Coorde-
nadoria dos Assuntos da População Negra, 2011.
BOCCIA, S. IBGE: número de mulheres em cargos de liderança caiu nos últimos 4
anos. Época Negócios, 2018. Disponível em: [Link]
comun. mídia consumo são paulo, v. 17, n. 48, p. 84-107, jan./abr. 2020
104 diversitywashing: as marcas e suas (in)coerências expressivas
A R T I G O
Bolsa-de-Valores/noticia/2018/09/ibge-numero-de-mulheres-em-cargos-de-lideranca-
-[Link]. Acesso em 16 abr. 2019.
BOURDIEU, P. O poder simbólico. Rio de Janeiro: Bertrand, 1989.
BOYD, D. Why Youth Love Social Network Sites: The Role of Networked Publics in
Teenage Social Life. In: BUCKINGHAM, D (Ed.). Youth, identity, and digital media.
Cambridge: The MIT Press, 2008. p. 119-142.
BRAGAGLIA, A. P. A apropriação do social pela publicidade: Skol Reposter e suas ideo-
logias de consumo. Signos do Consumo, v. 11, n. 1, 2019.
CASTELLS, M. Redes de Indignación y esperanza. Madrid: Alianza, 2012.
CORRÊA, F. Moda sem gênero? Estadão, 24 de março de 2016. Disponível em: https://
[Link]/blogs/moda-na-pratica/moda-sem-genero/. Acesso em: 25 mai.
2019.
CRAVEIRO, C.; CARVALHO, C. A um passo da branquitude: o que dizem os corpos
das mulatas brasileiras? Interfaces Científicas-Humanas e Sociais, v. 6, n. 2, p. 65-76,
2017.
DOURADO, D. A presença dos negros nas agências de publicidade: um olhar para
a liderança das agências do Brasil. Disponível em: [Link]
br/2015/10/25/a-presenca-dos-negros-nas-agencias-de-publicidade/. Acesso em: 2 abr.
[Link], R. A miragem de uma branquitude não marcada. In: WARE,
V. (Org.), Branquidade, identidade branca e multiculturalismo. Tradução de V. Ribeiro.
Rio de Janeiro: Garamond 2004, p. 307-338.
GIDDENS, A. Modernidade e identidade. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 2002.
GIUSTI, I.; PAUL, F. Tentamos criar looks sem gênero com a nova coleção da C&A.
Buzzfeed. Disponível em: [Link]
Acesso em: 25 mai. 2019.
GOFFMAN, E. A representação do eu na vida cotidiana. Petrópolis: Vozes, 1985.
GOMES, A. P. O negro em propagandas televisivas de produtos de higiene e beleza: refor-
mulações da imagem e transformações sociais. Caxambu: Anpocs, 2006.
GOMES, E. Brancos são maioria em empregos de elite e negros ocupam vagas sem
qualificação. G1. 14 de maio de 2018. Disponível em: [Link]
noticia/brancos-sao-maioria-em-empregos-de-elite-e-negros-ocupam-vagas-sem-qualifi-
[Link]. Acesso em: 25 mai. 2019.
GONZALEZ, M. Racismo, gordofobia e assédio moral: funcionários denunciam mar-
ca carioca. Portal Universa, 20 mai. 2019. Disponível em: [Link]
noticias/redacao/2019/05/20/racismo-gordofobia-e-assedio-moral-funcionarios-denun-
[Link]. Acesso em: 25 mai. 2019.
HALL, S. Que “negro” é esse da cultura popular negra? In: HALL, S. Da Diáspora:
identidades e mediações culturais. Belo Horizonte: Editora UFMG, 2003.
HOFF, T. M. C. et al. O corpo imaginado na publicidade. Cadernos de Pesquisa, v. 1,
n. 1, p. 9-64, 2009.
comun. mídia consumo, são paulo, v. 17, n. 48, p. 84-107, jan./abr. 2020
fernanda carrera | chalini torquato 105
A R T I G O
IBGE. Demografia das empresas. Estudos e pesquisas. Informação econômica, IBGE,
Coordenação de Metodologia das Estatísticas de Empresas, Cadastros e Classificações.
Rio de Janeiro: IBGE, 2014.
_____. Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (PNAD), 2016. In: SILVEIRA, D.
Cai a participação de mulheres em cargos gerenciais no Brasil em 2016, aponta IBGE.
G1. 7 mar. 2018. Disponível em: [Link]
noticia/cai-a-participacao-de-mulheres-em-cargos-gerenciais-no-brasil-em-2016-aponta-
-[Link]. Acesso em: 25 mai. 2019.
IZQUIERDO, T. C&A se envolve em polêmica em campanha com modelo plus size.
Veja SP. 7 de setembro de 2016. Disponível em: [Link]
-de-blog/c-038-a-se-envolve-em-polemica-em-campanha-com-modelo-plus-size. Acesso
em: 26 mai. 2019.
LAPORTA, T.; CAVALLINI, M. Idosos ampliam espaço no mercado de trabalho, mas
só 1/4 tem carteira assinada. G1, 2018. Disponível em: [Link]
concursos-e-emprego/noticia/2018/11/18/idosos-ampliam-espaco-no-mercado-de-traba-
[Link]. Acesso em: 16 abr. 2019.
LISBOA, A. P. Deficiência x Mercado trabalho. Correio Braziliense, 2018.
Disponível em:[Link]
reira/2018/04/01/tf_carreira_interna,670201/[Link].
Acesso em: 16 abr. 2019.
MACHADO, E. S. Visibilidade não marcada da branquitude: discursos de mulheres
brancas acadêmicas. Revista da Associação Brasileira de Pesquisadores/as Negros/as
(ABPN), v. 10, p. 375-398, 2018.
MAIA, F. Entrevista concedida a Cláudia Penteado: Baixa presença de negros na publici-
dade é uma questão histórica e social. Disponível em: [Link]
baixa-presenca-de-negros-na-publicidade-e-uma-questao-historica-e-social. Acesso em:
25 mai. 2019.
MERSKIN, D. Media, minorities and meaning. New York: Peter Lang Publishing, 2011.
NORWOOD, K. J.; FOREMAN, V. S. The ubiquitousness of colorism. In: Color mat-
ters: Skin tone bias and the myth of a postracial America, p. 9-28, 2014.
POLIVANOV, B.; CARRERA, F. Rupturas performáticas em sites de redes sociais: um
olhar sobre fissuras no processo de apresentação de si a partir de e para além de Goff-
man. Intexto, Porto Alegre, UFRGS, n. 44, p. 74-98, jan./abr. 2019.
RONDON FILHO, E. B. Polícia e minorias: Estigmatização, desvio e discrimina-
ção. Dilemas – Revista de Estudos de Conflito e Controle Social, v. 6, n. 2, p. 269-293,
2013.
SÁ, S.; POLIVANOV, B. Auto-reflexividade, coerência expressiva e performance como
categorias para análise dos sites de redes sociais. Contemporanea – Revista de Comuni-
cação e Cultura, v. 10, n. 3, p. 574-596, 2012.
SACCHITIELLO, B. Cresce o número de protagonistas negras em comerciais. Meio
e Mensagem, 2018. Disponível em: [Link]
comun. mídia consumo são paulo, v. 17, n. 48, p. 84-107, jan./abr. 2020
106 diversitywashing: as marcas e suas (in)coerências expressivas
A R T I G O
comunicacao/2018/12/13/cresce-o-numero-de-protagonistas-negras-nos-comerciais.
html. Acesso em: 16 abr. 2019.
____; LEMOS, A. Mulheres são 20% da criação das agências. Meio e Mensagem. Dis-
ponível em: [Link]
[Link]. 12 jan. 2016. Acesso em: 25
mai. 2019.
SCRIVANO, R. Negros e mulheres ocupam menos de 20% dos cargos altos das
empresas. O Globo, 2016. Disponível em: [Link]
-mulheres-ocupam-menos-de-20-dos-cargos-altos-das-empresas-19277091. Acesso em:
16 abr. 2019.
SILVA, T.; GONÇALVES, E. Diversidade de corpos na publicidade: o contexto inter-
pretativo nas campanhas Skolors e Reposter da Skol no Facebook. Tríade: Comunicação,
Cultura e Mídia, SP, v. 5, n. 10, p. 95-112, dez. 2017.
SMITH, G. Erving Goffman. New York: Routledge, 2006.
SPIVAK, G. Pode o subalterno falar? Belo Horizonte: Editora UFMG, 2010, 133 p.
Sobre as autoras
Fernanda Carrera – Professora da Escola de Comunicação da Universidade
Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Professora do Programa de Pós-graduação
em Comunicação da Universidade Federal Fluminense (UFF) e do Programa
de Pós-graduação em Estudos da Mídia (PPgEM/UFRN). Líder do grupo de
pesquisa LIDD – Laboratório de Identidades Digitais e Diversidade (UFRJ).
Doutora em Comunicação pela Universidade Federal Fluminense (UFF).
Mestre em Comunicação e Cultura Contemporâneas pela Universidade Fe-
deral da Bahia (UFBA). No presente artigo, a autora participou da concepção
do desenho da pesquisa, do desenvolvimento da discussão teórica, da coleta e
interpretação dos dados, da redação do manuscrito e da revisão do texto.
comun. mídia consumo, são paulo, v. 17, n. 48, p. 84-107, jan./abr. 2020
fernanda carrera | chalini torquato 107
A R T I G O
UFRJ. No presente artigo, a autora participou do desenvolvimento da discussão
teórica, da coleta e interpretação dos dados, da redação do manuscrito e da
revisão do texto.
comun. mídia consumo são paulo, v. 17, n. 48, p. 84-107, jan./abr. 2020
COMUN. MÍDIA CONSUMO, SÃO PAULO, V. 17, N. 48, P. 108-127, JAN./ABR. 2020
A R T I G O
DOI 10.18568/CMC.V17I48.2009
Resumo: Este artigo tem como objetivo tratar da inspiração, como elemento
que identifica os processos comunicacionais relacionados com a cultura empreen-
dedora. Nesse sentido, a publicização dos ideais, valores, prescrições dos agentes
identificados com o empreendedorismo parte de um modelo comunicacional bem
delimitado, cuja função principal é inspirar, ou seja, transformar o outro, que
compõe seu auditório social (BAKHTIN, 1997). Essa transformação desejada
seria, em última instância, a promoção do engajamento no capitalismo contem-
porâneo em sua face mais sedutora, que McGuigan (2009) define como cool
capitalism. Em síntese, procuramos discutir as intersecções entre inspiração, em-
preendedorismo e o capitalismo neoliberal, ou sociedade neoliberal (conforme
DARDOT; LAVAL, 2016).
Palavras-chave: comunicação e consumo; cultura empreendedora; discurso so-
cial; inspiração; sociedade neoliberal.
Abstract: This article aims to deal with inspiration as an element that iden-
tifies the communicational processes related to the entrepreneurial culture. In
this sense, the publicity of the ideals, values, prescriptions of agents identified
with entrepreneurship starts from a well-delimited communicational model whose
A R T I G O
main function is to inspire, that is, to transform the other, that composes its social
auditorium (BAKHTIN, 1997). This desired transformation would ultimately be
the promotion of engagement in contemporary capitalism in its most seductive
face, which McGuigan (2009) defines as cool capitalism. In summary, we try
to discuss the intersections between inspiration, entrepreneurship and neoliberal
capitalism, or neoliberal society (according to DARDOT; LAVAL, 2016).
Keywords: communication and consumption; entrepreneurial culture; social dis-
course; inspiration; neoliberal society.
comun. mídia consumo são paulo, v. 17, n. 48, p. 108-127, jan./abr. 2020
110 crítica da inspiração nos processos comunicacionais do capitalismo cool
A R T I G O
Introdução
A inspiração se tornou um termo recorrente em nosso tempo. Sua pre-
sença é tão frequente, e ao mesmo tempo tão banalizada, que temos a
impressão de que todo mundo pensa em si mesmo como uma possível
narrativa inspiracional, como uma trajetória de vida a ser replicada pelo
outro. O compartilhamento na mídia digital de frases emblemáticas, de
imagens emocionantes, de exemplos de gestos humanos dos mais diver-
sos, em comunidades como o Facebook, é outra face dessa verdadeira
cultura da inspiração. Diante dessa miríade de discursos que assumem
o objetivo de inspirar, as perguntas a serem respondidas no âmbito deste
trabalho são: como compreender a inspiração como expressão da cultura
empreendedora de nosso tempo? Qual o papel da inspiração na dissemi-
nação da ideologia do neoliberalismo? Como o ato de inspirar se molda
a modelos comunicacionais bem delimitados, tomando parte de estraté-
gias de agentes identificados com o campo do empreendedorismo? Para o
desenvolvimento desse estudo, nos apoiamos nos preceitos teórico-me-
todológicos do discurso social, propostos por Marc Angenot (2010): de
acordo com o autor, os discursos podem constituir hegemonias, quando
se configuram como um paradigma demarcado em termos sociais, cul-
turais e históricos. Ou seja: o discurso social corresponde ao horizonte
do que é pensável, dizível em dado momento histórico, e se concretiza
em certas regularidades discursivas, em certos padrões que são repeti-
dos, atualizados, mas que mantêm uma identidade em relação a essa
hegemonia.
A concepção do discurso social é interdependente da perspecti-
va dialógica da linguagem, no sentido bakhtiniano. Dessa forma, “ao
construir discursos que explicam, organizam e classificam o mundo, o
locutor estabelece relações e dependências, expressa valores e visões de
mundo, dialoga com enunciados anteriores e posteriores” (PISTORI;
BANKS-LEITE, 2010, p. 131). Nesse processo social de interação é que
se constituem o locutor e o seu interlocutor. O auditório social é esse
outro projetado a partir da enunciação; o dizível e o pensável são de-
marcados historicamente, e essa delimitação corresponde ao auditório
comun. mídia consumo, são paulo, v. 17, n. 48, p. 108-127, jan./abr. 2020
vander casaqui 111
A R T I G O
social imaginado no contexto em que os enunciados se estabelecem dia-
logicamente. Os agentes da cultura empreendedora e seus discursos,
que caracterizam nosso objeto de pesquisa, evidenciam esse processo
interacional da linguagem, ao conceberem a si próprios como seres ins-
piradores e ao seu auditório social como um conjunto de indivíduos a
serem inspirados. Para esse estudo, selecionamos expoentes notórios da
cultura da inspiração no Brasil contemporâneo, que tanto representam
agentes que constituem suas narrativas biográficas em chave motiva-
cional, quanto demonstram institucionalidades que estabelecem como
missão organizacional o objetivo de inspirar. Essa diversidade de casos
está a serviço do objetivo de evidenciar a amplitude e as nuances cor-
respondentes ao estudo da cultura da inspiração, em sua relação com o
espírito do capitalismo contemporâneo.
Em um cenário de flexibilização e precarização do trabalho, como
aponta Sennett (2007), como vivemos atualmente, em tons dramáticos,
especialmente nas economias em desenvolvimento – como é o cenário
latino-americano –, emergem simultaneamente os discursos que pro-
movem e positivam a cultura empreendedora, como antídoto a esse
estado de coisas. Dessa forma, diante de uma situação de desemprego,
de desamparo em relação às políticas sociais de Estado, de crise em
sentido amplo, essa cultura se coloca como solução que, em última ins-
tância, atribui ao indivíduo a responsabilidade por transformar o próprio
destino, o fracasso em sucesso, a atitude de sujeito “comum” em atitu-
de empreendedora. A proposta de análise crítica do discurso social de
Angenot, mais do que uma metodologia com procedimentos bem deli-
neados, é aplicada nesta pesquisa como a análise do espírito do tempo
concretizado em teias discursivas complexas, que correspondem a um
momento histórico e a uma sociedade específicos. Este trabalho enten-
de o empreendedorismo como discurso social, e procura identificar a
amplitude e a difusão de seus preceitos pela tomada de voz de uma mul-
tiplicidade de agentes que falam em nome da cultura empreendedora
– simultaneamente atualizando-a e reiterando sua ideologia.
comun. mídia consumo são paulo, v. 17, n. 48, p. 108-127, jan./abr. 2020
112 crítica da inspiração nos processos comunicacionais do capitalismo cool
A R T I G O
comun. mídia consumo, são paulo, v. 17, n. 48, p. 108-127, jan./abr. 2020
vander casaqui 113
A R T I G O
– as características psicológicas e morais atribuídas a esse sujeito –, so-
brepõe-se à sua habilitação técnica para realizar um empreendimento.
Diante de um cenário social que Sennett (2007) define como capitalis-
mo flexível, em que os sujeitos estariam à deriva diante das mudanças
constantes, dos riscos contínuos, da flexibilidade como exigência pri-
mordial e como modelo paradigmático para o mundo do trabalho, dos
fluxos de curto prazo, dos valores efêmeros, “a instabilidade pretende
ser normal, o empresário de Schumpeter aparecendo como o Homem
Comum Ideal” (SENNETT, 2007, p. 33).
O principal empreendimento em nosso tempo é conceber a pró-
pria vida como algo a ser gerenciado, otimizado, performatizado, em
compatibilidade com o cenário dinâmico, flexível e competitivo, como
bem aponta o Blog Geração de Valor, um dos agentes dessa cultura
da inspiração que atua no Brasil. Em uma de suas publicações que
mais evidenciam esse cenário, temos a imagem em close de um ca-
sal, homem e mulher, mirando-se, olhos nos olhos, caracterizando um
momento romântico, iluminado pelos reflexos da luz solar. A imagem
afetiva do par é ressignificada pela sobreposição de uma frase, uma má-
xima assinada acompanhada pelo logotipo do blog: “Sua vida, seu maior
empreendimento”. Dessa forma, os próprios relacionamentos amorosos
são passíveis de gerenciamento. Illouz (2009), ao tratar da utopia ro-
mântica no contexto contemporâneo, explicita a relação dessa utopia
com a cultura gerencial correspondente ao capitalismo neoliberal. O
casamento bem-sucedido, por exemplo, é um ideal propagado na so-
ciedade, que corresponde a um mercado bastante vigoroso, ou seja,
promove o consumo e mobiliza uma série de agentes que trabalham em
função dessa utopia, tornada mercadoria. O casamento também é uma
empresa, uma vez que os sujeitos envolvidos na relação podem utilizar
a sua inteligência emocional, definir metas, procedimentos, promover a
divisão social do trabalho na própria casa para atingirem seus objetivos
de felicidade. Essas medidas e procedimentos, propagadas por gurus,
coachs especializados no tema, são derivados diretamente da cultura ge-
rencial que constitui uma hegemonia articulada ao capitalismo de nosso
comun. mídia consumo são paulo, v. 17, n. 48, p. 108-127, jan./abr. 2020
114 crítica da inspiração nos processos comunicacionais do capitalismo cool
A R T I G O
comun. mídia consumo, são paulo, v. 17, n. 48, p. 108-127, jan./abr. 2020
vander casaqui 115
A R T I G O
seja, a cura de todos os males, a solução de qualquer problema, no
âmbito macro ao microssocial, da falência do Estado à vida interior
dos indivíduos. É preciso frisar: essa é a macroproposição (VAN DIJK,
1978, p. 62-63) derivada da cultura empreendedora, que é defendida
e divulgada por uma gama bastante diversa de agentes. Dessa forma,
a abordagem comunicacional do empreendedorismo que corresponde
ao nosso estudo escapa a uma visão restrita do empreendedor, como
um agente econômico que concebe um negócio, que desenvolve um
projeto, uma mercadoria, que produz inovação para atender e transfor-
mar as demandas do mercado. Entendemos que, sob a noção ampliada
da cultura empreendedora, que é publicizada por suportes midiáticos,
os indivíduos de nosso tempo são convocados a serem empreendedores
de si mesmos, em qualquer esfera da vida cotidiana. É essa perspecti-
va do empreendedor, como signo construído midiaticamente, que se
conecta com a cultura da inspiração. No âmbito deste trabalho, o em-
preendedorismo é tratado em perspectiva crítica, ou seja, é visto em suas
tramas discursivas como um tema a ser desconstruído, observado com
distanciamento, discutido à luz das teorias sociais, que problematizam
as questões do mundo do trabalho, os sentidos do empreendedorismo e
seus desdobramentos na vida cotidiana.
“Eu tenho visto muitas entrevistas e matérias sobre empreendedores
na mídia em geral”. Essa afirmação, com a qual concordaram 56% dos
entrevistados na pesquisa da Endeavor Brasil, intitulada “Cultura em-
preendedora no Brasil” (ENDEAVOR, 2014, p. 9), oferece pistas para
compreender que o empreendedorismo é um tema onipresente em nosso
tempo. O “espírito empreendedor” se tornou um traço comportamen-
tal positivo de qualquer trabalhador, quando consideramos os modelos
ideais difundidos atualmente. Sua presença midiática, bem como sua
percepção como algo recorrente no cotidiano, são sintomas de um pro-
blema de delimitação do que significa empreender atualmente. Como
diz Foucault (2008), o empreendedor é também um empreendedor de
si mesmo; para além do clássico self-made man, o modelo mítico da cul-
tura norte-americana, o empreendedor de si é o sujeito que incorpora as
comun. mídia consumo são paulo, v. 17, n. 48, p. 108-127, jan./abr. 2020
116 crítica da inspiração nos processos comunicacionais do capitalismo cool
A R T I G O
comun. mídia consumo, são paulo, v. 17, n. 48, p. 108-127, jan./abr. 2020
vander casaqui 117
A R T I G O
ocupar espaços na mídia para contar sua história de sucesso no Vale
do Silício e reiterar sua condição de garota prodígio – autorizada para
assumir o discurso competente sobre empreendedorismo e a gestão do
próprio capital humano – foi confrontada com a desconstrução de seus
“feitos” narrados e sofreu duras críticas nas redes sociais. A evidência
desse choque entre a narrativa heroica e a apuração dos fatos está re-
gistrada na cobertura do site de notícias e variedades UOL: Pesce, em
2012, contou sua história em duas entrevistas feitas pelo site. Em 2016,
vieram à tona as inconsistências de seu relato, que foi corrigido por erra-
tas, como se pode ver no trecho:
A empreendedora Bel Pesce tem duas graduações no MIT, e não cinco.
Ela se formou em “administração” e “engenharia elétrica e ciências da
computação” (este último é um curso só, e não dois, como dava a enten-
der). [...] Ela não foi a única nem a principal fundadora da empresa dos
EUA Lemon (aplicativo de finanças pessoais), como dava a entender a
reportagem. Ela foi membro da equipe fundadora, à qual se juntou pouco
depois de formada a equipe original. (GAMA, 2016).
comun. mídia consumo são paulo, v. 17, n. 48, p. 108-127, jan./abr. 2020
118 crítica da inspiração nos processos comunicacionais do capitalismo cool
A R T I G O
comun. mídia consumo, são paulo, v. 17, n. 48, p. 108-127, jan./abr. 2020
vander casaqui 119
A R T I G O
Augusto da Silva tem uma trajetória bastante conhecida. Seus passos,
seus desafios, suas histórias. Mas será que você já conhece tudo?”.
Flávio Augusto, por meio de seu blog Geração de Valor, projeta sua
narrativa de vida como modelar, como líder de uma geração, o exem-
plo do sucesso a ser seguido, o modelo para os aspirantes a sujeitos de
alta performance. Empresário bem-sucedido, dono de uma rede de es-
colas de línguas, a Wise Up, seu sucesso só pode ser compreendido no
paradigma do mercado capitalista, ou seja, a partir dos lucros obtidos,
da participação significativa em um mercado concorrido, dos resulta-
dos quantificados como forma de legitimar o valor das conquistas. No
entanto, sua atuação a partir do blog o projeta como líder inspirador
e visionário, como alguém que seria traduzido por uma narrativa de
vida exemplar, de acordo com as ideias de Buonanno (2011). Não à
toa, Bel Pesce e Flávio Augusto foram identificados como expoentes da
cultura empreendedora no Brasil em tempos recentes, por sua entrada
na cena midiática, por terem se tornado celebridades empreendedoras,
ou empreendedores-celebridades.
comun. mídia consumo são paulo, v. 17, n. 48, p. 108-127, jan./abr. 2020
120 crítica da inspiração nos processos comunicacionais do capitalismo cool
A R T I G O
comun. mídia consumo, são paulo, v. 17, n. 48, p. 108-127, jan./abr. 2020
vander casaqui 121
A R T I G O
A busca da cura da narrativa, da solução para esse impasse, parece re-
sultar no ato de voltar para a sua própria interioridade, de encontrar em
si mesmo o sentido da coerência. No âmbito da cultura da inspiração,
isso passa pela incorporação de modelos narrativos a seguir, das histó-
rias de vida exemplares a replicar em nossas vidas. Em última instância,
esse é um processo de produção e consumo de narrativas, que implica
transformação do sujeito consumidor para se adequar ao modelo de su-
cesso. Nesse ponto, o empreendedorismo e o mercado da autoajuda, no
sentido de Illouz (2011), estão alinhados. A tarefa de empreender a si
mesmo pode ser desencadeada pela inspiração gerada pela história do
outro, que traz algo de coerente, de heroico, de épico, baseado na força
interior que se sobrepõe aos obstáculos do mundo, quaisquer que sejam
– basta haver vontade e fé para a superação. Há algo de místico, tanto
mágico quanto terapêutico, nesse processo comunicativo da inspiração,
no espectro do empreendedorismo de si mesmo.
De acordo com Gallouj, na apresentação do curioso Journal of Ins-
piration Economy, editado pela University of Bahrain desde 2014, a
inspiração é um fenômeno complexo, difícil de definir, que “descreve
uma dinâmica psicológica particular, um estalo criativo casual” (2014,
p. 4, tradução nossa), entre outros significados usualmente atribuídos ao
termo. O autor aponta que, etimologicamente, o termo está baseado no
latim “in spiritum”, que significa “ter o Espírito (quer dizer, Deus) em
você” (Gallouj, 2014); essa noção tem correspondência com o entendi-
mento da inspiração na Grécia Antiga, onde os artistas eram inspirados
pelas Musas, filhas de Zeus e Mnemosine.
Gallouj (2014) discute as relações entre a tradição artística e religio-
sa da noção de inspiração, e seus usos na esfera econômica. Ao passo
que a primeira tradição tem uma natureza transcendente, a economia
da inspiração é de caráter relacional, interacional, em que os níveis
individuais, corporativos, municipais, regionais, nacional de dada socie-
dade são articulados em “recíprocas relações de inspiração” (2014, p.
5, tradução nossa). Nesse sentido, “mesmo num ambiente competiti-
vo, os produtores inspiram uns aos outros, os consumidores inspiram
comun. mídia consumo são paulo, v. 17, n. 48, p. 108-127, jan./abr. 2020
122 crítica da inspiração nos processos comunicacionais do capitalismo cool
A R T I G O
comun. mídia consumo, são paulo, v. 17, n. 48, p. 108-127, jan./abr. 2020
vander casaqui 123
A R T I G O
“Inspirar e capacitar” é um objetivo resultante da atividade de comparti-
lhamento de “histórias e aprendizados práticos” de empreendedores de
alto impacto, que “trocam conhecimento” com os mentores da rede En-
deavor – os mediadores desse saber prático que deve ser replicado para
cumprir a missão de inspirar e capacitar novos empreendedores associa-
dos ao mundo construído pela organização. Por outro lado, o estímulo
às mudanças é baseado na “visão de quem está na linha de frente do
empreendedorismo”; a adesão à ideologia empreendedora é evidente,
bem como a visão hierárquica, “de cima para baixo”, ou seja, dos líderes
de um campo, daqueles empreendedores bem-sucedidos alinhados com
o projeto de sociedade empreendedora capitaneado pela Endeavor.
Aparentemente mais complexo que o modelo de produção de narra-
tivas inspiracionais de agentes individuais e seus efeitos ambicionados,
o gráfico da Endeavor reitera esse modelo unidirecional, com vistas
à construção de um Brasil empreendedor. A Endeavor compartilha
“histórias e aprendizados práticos” para inspirar e capacitar empreen-
dedores; do universo de empreendedores brasileiros, implicitamente
produzidos por sua ação, seleciona e “potencializa” aqueles que serão
reconhecidos como “empreendedores de alto impacto” – novos líde-
res inspiradores, que terão suas histórias compartilhadas para inspirar
futuros empreendedores. Ao mesmo tempo, esse corpo de notáveis, de
sujeitos de alta performance, são posicionados como mentores na linha
de frente da ação de “provocar mudanças no ambiente empreendedor”.
Sendo assim, “inspirar e capacitar” por um lado, e “provocar mudanças”
por outro, são ações com um objetivo comum: produzir uma sociedade
empreendedora, uma nação de empreendedores que se alinham aos flu-
xos e lógicas da sociedade positiva, conforme problematiza Byung-Chul
(2013). A rede Endeavor, representada na imagem dos homens ao cen-
tro do gráfico, configura uma hierarquia, baseada na centralidade do
empreendedor de alto impacto – que é demonstrado visualmente como
irradiador e como líder legítimo de uma “nova economia”, baseada na
utopia pragmática da sociedade empreendedora.
comun. mídia consumo são paulo, v. 17, n. 48, p. 108-127, jan./abr. 2020
124 crítica da inspiração nos processos comunicacionais do capitalismo cool
A R T I G O
Considerações finais
Na (in)conclusão deste artigo, retomamos os três questionamentos lan-
çados no início, a fim de, mesmo que parcialmente, respondê-los. Em
relação ao primeiro (como compreender a inspiração como expressão da
cultura empreendedora de nosso tempo?), procuramos discutir como a
inspiração, no contexto atual, corresponde a estratégias comunicacio-
nais que interpelam os sujeitos, como forma de convocação biopolítica,
para que se transformem continuamente, sejam sempre mais sujeitos do
desempenho, gestores eficazes de si mesmos.
Buonanno (2011), ao discutir sobre o fenômeno contemporâneo da
profusão de heróis de todos os dias, ou seja, da possibilidade de qualquer
um se reconhecer e ser reconhecido como tal, conclui que numa era em
que todos podem ser heróis, ninguém efetivamente é herói. Em nosso
estudo, identificamos que os heróis de nosso tempo são sujeitos capa-
zes de produzir a si mesmos como narrativas inspiradoras. Num mundo
onde todo mundo pode ser inspirador, há dúvidas sobre quem inspira
quem, quem é inspirador e quem efetivamente é inspirado. Bel Pesce
e Flávio Augusto são exemplos desse processo da produção de si como
líder inspirador, mobilizador, transformador, entre outras denominações
atribuídas a esses sujeitos modelares da cultura empreendedora. Eis um
mercado que, analisado criticamente, tem muito a dizer sobre o espírito
do tempo.
Sobre a segunda questão (qual o papel da inspiração na disseminação
da ideologia do neoliberalismo?), podemos afirmar que a ideologia neoli-
beral permeia todo o fenômeno da inspiração, no recorte delimitado por
esse estudo. A noção de capitalismo “cool” corresponde à forma seduto-
ra com que as lógicas dessa ideologia são transmitidas, como mensagens
inspiradoras. A lógica da concorrência, a transformação do sujeito em
empreendimento, a vida como objeto da gestão, os modelos de negó-
cios aplicados a processos comunicacionais, e, principalmente, o projeto
de sociedade empreendedora materializado pelos exemplos analisados
– todos esses elementos são publicizados, por meio da estratégia comu-
nicacional da inspiração. O capitalismo contemporâneo sonha, inspira,
comun. mídia consumo, são paulo, v. 17, n. 48, p. 108-127, jan./abr. 2020
vander casaqui 125
A R T I G O
mobiliza, transforma – e quando produz lucro, soma a ele o propósi-
to, que é a expressão-coringa do idealismo que redime o capitalista de
sua ambição de reprodução ilimitada do capital. A concepção do em-
preendedorismo como discurso social (ANGENOT, 2010) é a tradução
e atualização dos preceitos capitalistas a um universo de possibilidades
de transformação abertas pelos meios técnicos disponíveis, como as re-
des digitais, mas que vivem esse movimento ambíguo de representar
a expansão do sistema para a gestão das mentalidades. As plataformas
digitais, que são o suporte para diversos discursos aqui analisados e tantos
outros, têm se configurado como um braço simbólico importante para a
difusão dos ideais e imperativos neoliberais.
Por fim, tratamos da terceira questão (como o ato de inspirar se molda
a modelos comunicacionais bem delimitados, tomando parte de estraté-
gias de agentes identificados com o campo do empreendedorismo?). Por
meio de duas categorias de exemplos, os agentes empreendedores indivi-
duais (Bel Pesce e Flávio Augusto) e o agente corporativo (representado
pela Endeavor Brasil), discutimos como o trabalho de ambos se baseia
em processos comunicacionais, em que a inspiração é o efeito produzi-
do por suas ações e discursos. Dessa forma, há uma estratégia implícita
de autolegitimação, de produção do próprio agente como líder de uma
sociedade supostamente utópica, que ele imagina ser a melhor para o
futuro de todos – a expressão do “bem comum”, o resultado dos esforços
e da devoção da “gente de bem”.
O capitalismo “cool”’ é a face sedutora de um projeto de sociedade
positiva em que o outro, o estranho, aquele que atrapalha os acelerados
fluxos comunicacionais, estabelecidos entre iguais, sem ruídos pre-
vistos, deve ser excluído. A teia social baseada na rede de inspirações
mútuas, como defende Galouj (2014), é uma leitura fundada nessa ver-
são positiva do mundo. Uma leitura derivada do projeto de sociedade
empreendedora, que, apesar de se autoproclamar defensora do bem co-
mum, parece ter acima desse ideal abstrato o objetivo de construir um
mundo baseado no pensamento único. Uma monocultura empreende-
dora – que, obviamente, exclui de seus fluxos comunicacionais aqueles
comun. mídia consumo são paulo, v. 17, n. 48, p. 108-127, jan./abr. 2020
126 crítica da inspiração nos processos comunicacionais do capitalismo cool
A R T I G O
Referências
ANGENOT, M. El discurso social: los limites históricos de lo pensable y lo decible.
Buenos Aires: Siglo XXI, 2010.
ARFUCH, L. O espaço biográfico: dilemas da subjetividade contemporânea. Rio de Ja-
neiro: EdUERJ, 2010.
BAKHTIN, M. (Voloshinov). Marxismo e filosofia da linguagem. São Paulo: Hucitec,
1997.
BOLTANSKI, L.; CHIAPELLO, È. O novo espírito do capitalismo. São Paulo: Martins
Fontes, 2009.
BUONANNO, M. Histórias de vida exemplares. Biografias. MATRIZes, ano 5, n. 1, p.
63-84, 2011.
BYUNG-CHUL, H. Sociedade do cansaço. Petrópolis, RJ: Vozes, 2015.
_______. La sociedad de la transparencia. Herder Editorial: Barcelona, 2013.
DARDOT, P.; LAVAL, C. A nova razão do mundo: ensaio sobre a sociedade neoliberal.
São Paulo: Boitempo, 2016.
DRUCKER, P. F. Inovação e espírito empreendedor: prática e princípios. São Paulo: Cen-
gage Learning, 2011.
ENDEAVOR. Cultura empreendedora no Brasil, 2014. Disponível em: [Link]
[Link]/os-perfis-dos-empreendedores-brasileiros. Acesso em: 11 abr. 2019.
EHRENBERG, A. O culto da performance: da aventura empreendedora à depressão ner-
vosa. Aparecida – SP: Idéias & Letras, 2010.
FOUCAULT, M. Birth of biopolitics. New York: Palgrave Macmillan, 2008.
GALOUJ, F. “Inspiration Economy”: A New Journal. Journal of Inspiration Economy:
an International Journal, vol. 1, issue 1, sept 2014, p. 7-13. Disponível em: [Link]
[Link]/JIE/contents/volume-39/articles/article-838. Acesso em: 15 ago. 2018.
GAMA, R. Empreendedora Bel Pesce dá 10 dicas para sucesso na carreira. UOL, São
Paulo, 1 jun. 2012 – atualizada em 5 set, 2016. Disponível em: [Link]
[Link]/noticias/redacao/2012/06/01/talento-brasileiro-nos-eua-bel-pesce-da-10-dicas-
-[Link]. Acesso em: 18 nov. 2019.
ILLOUZ, E. O amor nos tempos do capitalismo. Rio de Janeiro: Zahar, 2011.
______. El consumo de la utopía romántica: el amor y las contradicciones culturales del
capitalismo. Espanha: Katz, 2009.
comun. mídia consumo, são paulo, v. 17, n. 48, p. 108-127, jan./abr. 2020
vander casaqui 127
A R T I G O
MCGUIGAN, J. Do populismo cultural ao capitalismo legal. Revista Contracampo, v.
28, n. 3, dez.-mar. Niterói: Contracampo, p. 5-25, 2013.
______. Cool capitalism. New York: Pluto Press, 2009.
PESCE, B. A menina do vale: como o empreendedorismo pode mudar sua vida. São
Paulo: Enkla, 2015a.
______. A sua melhor versão te leva além. São Paulo: Enkla, 2015b.
PISTORI, M. H. C.; BANKS-LEITE, L. Argumentação e construção de conhecimento:
uma abordagem bakhtiniana. Bakhtiniana, São Paulo, v. 1, n. 4, p. 129-144, 2. sem.
2010.
PRADO, J. L. A. Convocações biopolíticas dos dispositivos comunicacionais. São Paulo:
Educ/Fapesp, 2013.
SCHUMPETER, J. Capitalism, socialism, and democracy. New York: Harper & Bros,
1942.
SENNETT, R. A corrosão do caráter: consequências pessoais do trabalho no novo capi-
talismo. Rio de Janeiro: Record, 2007.
SILVA, F. A. A realidade que inspira. In Pesce, B. A menina do vale: como o empreende-
dorismo pode mudar sua vida. São Paulo: Enkla, 2015. p. 11-14
VAN DIJK, T. A. La ciencia del texto. Barcelona: Paidós, 1978.
Sobre o autor
Vander Casaqui – Professor do Programa de Pós-Graduação em Comunica-
ção Social da Universidade Metodista de São Paulo. Doutor em Ciências da
Comunicação pela Universidade de São Paulo, com Pós-Doutoramento pela
Universidade Nova de Lisboa.
comun. mídia consumo são paulo, v. 17, n. 48, p. 108-127, jan./abr. 2020
COMUN. MÍDIA CONSUMO, SÃO PAULO, V. 17, N. 48, P. 128-147, JAN./ABR. 2020
A R T I G O
DOI 10.18568/CMC.V17I48.2132
Resumo: Apresentamos, aqui, a análise das sessões saúde do jornal Zero Hora
do ano de 1990 – ano de publicação das leis nº 8.080/90 e nº 13.257/90 –, bus-
cando evidenciar sentidos de Gênero, Saúde e Infância ali veiculados. Utilizamos
como instrumentos teórico-metodológicos o Construcionismo Social e as Teorias
de Gênero Pós-Estruturalistas, com foco na Análise de Discurso. A partir de eixos
temáticos, refletimos sobre as (des)articulações discursivas veiculadas no jornal
com os princípios do ECA e do SUS, no intuito de compreender os sentidos dados
às temáticas evidenciadas naquele cenário.
Palavras-chave: infância; mídia; gênero; saúde; políticas públicas.
Abstract: Here, we present, an analysis of the health sessions of the Zero Hora
newspaper of the year 1990 – year of publication of laws 8.080/90 and 13.257/90
– seeking what meanings of Gender, Health and Childhood are communicated
there. We use as theoretical-methodological instruments the Social Construction-
ism and post-structural Gender theories, focusing on Discourse Analysis. From
thematic axes, we reflect on how the discursive (dis) articulations conveyed in
the newspaper with principles of ECA and SUS, in intention to understand the
meanings of some discussions evidenced by that scenario.
Keywords: childhood; media; gender; health; public policies.
1 Universidade Regional Integrada do Alto Uruguai e das Missões (URI). Erechim, RS, Brasil.
[Link] E-mail: heloisadallanora@[Link]
2 Universidade Regional Integrada do Alto Uruguai e das Missões (URI). Erechim, RS, Brasil.
[Link] E-mail: cadonaeliane@[Link]
heloísa derkoski | eliane cadoná 129
A R T I G O
Introdução e aportes teóricos
Objetivamos, com esta pesquisa, evidenciar os possíveis processos de
subjetivação envolvidos na construção de conceitos de Infância, Gênero
e Saúde no ano de 1990, por intermédio da análise da Mídia Impressa.
Um dos mais influentes meios de comunicação da Modernidade, o jor-
nal ainda ocupa lugar nas discussões sobre produção de subjetividade
e na maneira como nossa sociedade se organiza e, consequentemente,
produz sentidos no cotidiano (THOMPSON, 2014; SPINK; SPINK,
2006).
Os primeiros passos da investigação consistiram em analisar como
aconteceu a veiculação dos conceitos de Gênero, Saúde e Infância nas
sessões saúde do jornal Zero Hora, do ano de 1990, até a data de pu-
blicação da Lei Federal nº 8.069 (BRASIL, 1990a), dia 13 de julho do
mesmo ano, que regulamenta o Estatuto da Criança e do Adolescente
(ECA). Neste mesmo ano também foram aprovadas as Leis Federais nº
8.080 e nº 8.142 (BRASIL, 1990b; BRASIL, 1990c), que versam sobre
os princípios e diretrizes do Sistema Único de Saúde (SUS) e controle
social. Dessa forma, abordaremos aqui como eram discutidos e veicu-
lados conceitos-chaves para o entendimento de Leis, em iminência de
serem aprovadas, com visões de sujeito tão diferentes das em vigência
até então.
O ano de 1990 foi importante e contraditório para o País no que diz
respeito à publicação de políticas públicas e à fase de redemocratização
pela qual passava. Isso porque as Leis acima referidas são aprovadas em
um contexto de adoção de inúmeras políticas de Estado neoliberais.
Mesmo com a mudança legislativa para um modelo democrático, a cos-
movisão do liberalismo imperava não somente nas práticas de Estado,
mas também na visão de sujeito da sociedade como um todo.
Souza (2016) entende que a aprovação do Estatuto da Criança e do
Adolescente e das Leis Orgânicas da Saúde só foi possível devido ao pro-
cesso de redemocratização que o Brasil vivia. A retomada da democracia
aconteceu em um momento em que uma pequena parcela da popula-
ção detinha muito mais da metade dos meios de produção. No cenário
comun. mídia consumo são paulo, v. 17, n. 48, p. 128-147, jan./abr. 2020
130 sobre infância, saúde e gênero
A R T I G O
comun. mídia consumo, são paulo, v. 17, n. 48, p. 128-147, jan./abr. 2020
heloísa derkoski | eliane cadoná 131
A R T I G O
Como referencial teórico para discutir esse assunto escolhemos o
Construcionismo Social (GERGEN, 2009; IÑIGUEZ, 2002; SPINK,
2013; SPINK, 2013) e os Estudos de Gênero de abordagem pós-es-
truturalista (BUTLER apud SALIH, 2013; LOURO, 2003; STREY;
CADONÁ, 2012). Com essa visão de mundo, entendemos que o sujeito
se constrói nas relações que estabelece e no modo como dá sentido a
elas, sendo o papel da ciência investigar na história como determina-
dos conceitos foram investidos por diversos mecanismos de produção
de subjetividade. A partir dessa base epistemológica, entendemos a
importância do estudo do Tempo Presente (PADRÓS, 2004), com fins
de propor novos olhares para como damos sentido às nossas relações e
conceituações.
Como norte da pesquisa, a fim de compreender os objetos de estudo,
fazemos uso do Construcionismo Social (GERGEN, 2009; IÑIGUEZ,
2002). Essa escolha se deu por entendermos que os temas estudados
aqui precisam ser vistos como construções sociais, originadas através de
um longo e dialógico processo que envolve a relação dos sujeitos com o
mundo, estando marcada por tempos e lugares. Dessa forma, essa teoria
nos dá suporte para discutirmos a produção de subjetividade que envol-
ve e é consequência dessa construção, tendo influência no modo como
vivemos hoje e como as pessoas se relacionam consigo mesmas e com
o mundo.
Um dos principais autores que escrevem sobre a construção da in-
fância, bem como da família, é Philippe Ariès. Em suas pesquisas, ele
destaca a estreita conexão entre esse processo de descoberta das crianças
com o cristianismo e a arte. Através da análise das obras de arte me-
dievais, Ariès (1981) retrata a evolução na representação da infância.
Segundo Souza (2016) é indispensável que se volte na história para en-
tender o presente, sendo que este é também fruto de uma sociedade
hierarquizada, não só na esfera federal, mas também em uma perspec-
tiva global.
Até o fim do século XIII, ainda não existia uma imagem que repre-
sentasse a criança. Isso não quer dizer que essa figura estivesse ausente
comun. mídia consumo são paulo, v. 17, n. 48, p. 128-147, jan./abr. 2020
132 sobre infância, saúde e gênero
A R T I G O
nessa época, mas que era diferente do que conhecemos hoje, pois estava
estreitamente ligada ao adulto, sendo percebida como uma miniatura
dele. Existe um lento processo até a diferenciação dessas fases do desen-
volvimento, que foi retardado pelas condições demográficas da época,
onde a taxa de mortalidade infantil era extremamente alta. É só no sé-
culo XVIII que essas condições começam a mudar. Com a adoção de
alguns métodos contraceptivos e uma melhora nas condições de vida, a
indiferença em relação à infância começa a se transformar em uma va-
lorização dessa etapa como algo puro. Durante esse processo, podemos
citar a imagem dos anjos e do menino Jesus como contribuições para tal
consequência (ARIÈS, 1981).
No cenário nacional de políticas públicas, devemos voltar à roda dos
expostos, uma herança do Brasil colonial que teve fim apenas em 1950.
Dispositivo que permitia o abandono das crianças para casas de miseri-
córdias assumirem seus cuidados, a roda pode ser considerada como a
primeira iniciativa de juntar o público com o privado, já que, através de
uma lei, os municípios puderam se eximir da obrigação de cuidar dessas
crianças, que ficaram sob a responsabilidade de tais instituições (CRUZ;
HILLESHEIN; GUARESCHI, 2005).
Outro fator importante a ser destacado é a formulação do conceito de
trabalho como enobrecedor. Trazida com a imigração europeia, a insti-
tucionalização desse conceito foi o começo da reserva de mão de obra,
e resultou em muitas crianças e adolescentes nas ruas. Esse movimento
foi considerado a causa do aumento da criminalidade e, sendo assim,
com uma lógica higienista, o governo direcionou esses jovens para Ca-
sas de Correção, iniciando, dessa forma, o sequestro da subjetividade
desse público, com a proposta de prevenção, visando educá-los para o
trabalho. Nesse momento já é possível entender que existiu a criação
de duas infâncias distintas. O primeiro Código de Menores, de 1927,
reforça isso quando faz uma distinção entre os menores em situação
irregular, caracterizados por abandonados, delinquentes e viciados. É
nessa época que o termo menor é adotado como sinônimo de infância.
Não podemos esquecer o papel que a escola exerceu como produtora de
comun. mídia consumo, são paulo, v. 17, n. 48, p. 128-147, jan./abr. 2020
heloísa derkoski | eliane cadoná 133
A R T I G O
subjetividades docilizadas nesse cenário, já que ela incorpora discursos
científicos, como os da Psicologia, no intuito de medir, testar e quan-
tificar os/as alunos/as. É no período de 1931 a 1934 que ela se insere
definitivamente nas escolas brasileiras e, através das testagens, também
auxilia nesse processo, cumprindo um papel de separar os aptos dos não
aptos, acentuando ainda mais essas diferenças (CRUZ; HILLESHEIN;
GUARESCHI, 2005).
Segundo Guareschi e Hilleshein (2007) é necessário que enten-
damos que a imagem da infância até hoje é narrada por adultos. Já a
origem latina da palavra Infância está relacionada à ausência de lingua-
gem. Na história da construção da infância, podemos encontrar a ideia
de criança como um ser incompleto, que apenas será concluído quando
alcançar a vida adulta (SOUZA, 2016). Destacamos a contradição des-
se pensamento com a proposta liberal que incentiva a meritocracia e,
assim, a ideia de que o sujeito é fruto de seus próprios esforços desde
a infância para sua ascensão econômica e social. Lembramos que, em
uma sociedade marcada pela desigualdade, que não oferece, através da
efetivação de políticas públicas, subsídios para que isso aconteça, essa
crença acaba responsabilizando o indivíduo pelo próprio fracasso.
Nesse sentido, entendemos que o ECA vem como uma forma de
igualar infâncias desiguais. Não podemos negar que o Estatuto possui vá-
rios avanços em relação às políticas sociais antes dele publicadas, como
reconhecer crianças e adolescentes como pessoas de direito e substituir
o termo menor, na tentativa de descriminalizar a infância pobre. Porém,
ele não deixa de ser uma forma compensatória de resolver a dicotomia
Infância Normal versus Infância de Risco, reforçando essas diferenças
(BRASIL, 1990a; CRUZ; HILLESHEIN; GUARESCHI, 2005).
Instrumentalizar crianças e adolescentes sobre os próprios direitos
é uma das maneiras mais efetivas de pôr o Estatuto em prática (VIA-
NA, 2016). É assim, através da produção da autonomia, que políticas
públicas como o ECA e o SUS encontraram ferramentas para serem
legislações mais funcionais. Destacamos também que, a partir de meca-
nismos semelhantes aos já discutidos aqui, com a Modernidade também
comun. mídia consumo são paulo, v. 17, n. 48, p. 128-147, jan./abr. 2020
134 sobre infância, saúde e gênero
A R T I G O
Método
A referida pesquisa tem natureza qualitativa, com um delineamento do-
cumental. Para a sua realização, foram investigados, nas sessões saúde
do jornal Zero Hora do ano de 1990, os sentidos de Gênero, Saúde e
Infância ali veiculados. Todo o acervo contendo essas publicações está
comun. mídia consumo, são paulo, v. 17, n. 48, p. 128-147, jan./abr. 2020
heloísa derkoski | eliane cadoná 135
A R T I G O
disponível para o público no Museu de Comunicação Hipólito José da
Costa, em Porto Alegre, Rio Grande do Sul, local onde foram fotogra-
fadas as páginas do jornal que, posteriormente, compuseram o corpus
desta investigação.
Para a coleta, adotamos palavras-chave para nos auxiliar nos critérios
de inclusão das reportagens, escolhidas a partir dos aportes teóricos usa-
dos e do que preconiza o próprio ECA, sendo elas: Família; Criança;
Infância; Pré-Natal; Gestação e Bebê. A única exceção, que não está
de acordo com o ECA, mas que foi incluída como critério, é a pala-
vra Menor, pois, como já existe uma familiarização das pesquisadoras
com os materiais e sendo este um termo muito utilizado quando se fala
em infância, entende-se que sua exclusão acarretaria na perda de dados
importantes.
Ainda, escolhemos fazer a pesquisa com os meses que antecedem a
publicação do ECA. Dessa forma, foram inclusos os meses de janeiro
a julho do ano de 1990. A Sessão Saúde dos jornais se divide entre as
notícias do dia e a coluna Viva Melhor, onde um profissional da saúde
responde perguntas aos/as leitores/as. No domingo, além da Sessão Saú-
de, também existe a editoria “Ciência e Saúde”.
A análise das práticas discursivas para a compreensão dos sentidos
cotidianos dados à infância, à família e às questões de gênero no ano
de 1990 foi inspirada em autores/as que articulam a análise de discur-
so com a perspectiva construcionista (SPINK, 2013a; SPINK, 2013 b;
SPINK et al., 2014; SPINK et al., 2013).
A seleção e posterior análise do material foi feita, primeiramente, por
cada um dos cinco membros do grupo de pesquisa, individualmente.
Posteriormente, as seleções foram compartilhadas e, então, em conjun-
to, selecionados os 33 textos a serem analisados.
Para análise dos materiais elaboramos uma tabela levando em con-
sideração os objetivos que constavam no projeto de pesquisa (Quadro
1). Além de dados de identificação, como título, data e palavra-chave,
incluímos nela espaço para identificação de quais discursos de gênero,
saúde e infância apareciam na reportagem, quais as (des)articulações
comun. mídia consumo são paulo, v. 17, n. 48, p. 128-147, jan./abr. 2020
136 título:
A R T I G O
Título:
Data: Palavra-chave: Página: Editoria:
O que fala:
Discursos de gênero/saúde/infância:
Articulação com ECA/SUS:
Como aborda o cuidado e a família:
comun. mídia consumo, são paulo, v. 17, n. 48, p. 128-147, jan./abr. 2020
heloísa derkoski | eliane cadoná 137
A R T I G O
um pensamento linear ao analisar um contexto histórico, já que a rea-
lidade não se faz apenas por acontecimentos e datas, mas também pelo
sentido que o sujeito dá aos mesmos. O cotidiano não é algo dado, algo
natural na vida do humano, mas sim construído através das significa-
ções. Para Hennigen (2006), o sujeito dá sentido ao seu cotidiano através
de discursos, que usa para conhecer a si e ao mundo. Nesse processo,
toma-os como verdade e, ao se reconhecer neles, (des)constrói o mundo
e a si mesmo.
A mídia faz parte desse processo, na medida em que é um dos mais
importantes veículos de produção de subjetividade. Também conhece-
mos o mundo através do que lemos nos jornais e assistimos nas novelas.
Apesar de não ser possível uma comunicação com o/a interlocutor/a (no
caso da mídia impressa), o sujeito que lê um jornal tem a possibilidade
de significar seu conteúdo de diferentes formas. Por isso, destacamos
que não somos passivos/as diante das relações midiáticas, sendo sempre
possível um movimento de resistência e questionamentos das verdades
ali postas (THOMPSON, 2014).
A partir da construção dos quadros, foram elaborados três eixos temá-
ticos, com base nas propostas de Spink et al. (2013). Em meio a eles,
escolhemos um para ser apresentado neste artigo. Destacamos que, para
facilitar a leitura e compreensão do texto, elegemos uma pequena quan-
tidade de notícias e propagandas para aqui exemplificar o universo em
análise, sendo elas as mais representativas para a discussão e que possibi-
litavam a articulação entre o todo e as partes analisadas.
comun. mídia consumo são paulo, v. 17, n. 48, p. 128-147, jan./abr. 2020
138 como aborda o cuidado e a família:
A R T I G O
comun. mídia consumo, são paulo, v. 17, n. 48, p. 128-147, jan./abr. 2020
heloísa derkoski | eliane cadoná 139
A R T I G O
novas configurações familiares e a educação que “em nome da liberda-
de se faz licenciosidade com as crianças” (ZERO HORA, 1990, p. 23).
Há, em meio ao jornal, um rechaço a novos modos de viver, e uma
tentativa de adequar as famílias à norma, destacando as consequências
caso se opte pelo contrário. Vale destacar que, seguindo a lógica posi-
tivista, o jornal autoriza apenas algumas pessoas a falarem sobre esses
temas. Dentro da área da saúde, observamos a prevalência do/a pediatra
e do/a psiquiatra para falar sobre temas como o desenvolvimento e a
relação da criança com os pais. Inclusive, algumas notícias falam sobre
eventos voltados para profissionais da área da saúde com palestras minis-
tradas por psiquiatras.
Consequentemente, pela valorização que se deu ao discurso cien-
tífico (FOUCAULT, 2002), foi enaltecido junto com ele o/a seu/a
porta-voz: o/a cientista, o/a expert (BAREMBLIT, 2002), excluindo-se o
saber popular e todo o conhecimento gerado pela comunidade.
Colocamos ainda aqui em questão a aplicabilidade dos princípios
do ECA em um contexto onde os resquícios de uma ciência dura ain-
da possui maior status. Acreditamos que a contradição entre a visão de
infância encontrada dentro desse eixo em questão, cristalizada e ainda
marcada pelo discurso da diferença, vai de encontro ao que preconiza o
Estatuto, que pensa na construção da infância como um conceito que
vem se modificando ao longo do tempo (CRUZ; HILLESHEIN; GUA-
RESCHI, 2005).
No que diz respeito aos aspectos de gênero, a lógica binária impressa
no jornal está retratada no exercício de veiculação de enunciados que
tratam de papéis parentais e dos cuidados da criança. Dentro da família,
o ZH dá destaque à maternidade e à paternidade por intermédio da (re)
produção e/ou demarcação de papéis diferenciados.
A maternidade é extremamente valorizada nas reportagens, na medi-
da em que aparece em boa parte das colunas analisadas. A mãe é trazida
como principal agente de cuidado quando se trata da infância e existe
um forte apelo emocional envolvido no discurso para manter essa lógica
comun. mídia consumo são paulo, v. 17, n. 48, p. 128-147, jan./abr. 2020
140 como aborda o cuidado e a família:
A R T I G O
comun. mídia consumo, são paulo, v. 17, n. 48, p. 128-147, jan./abr. 2020
heloísa derkoski | eliane cadoná 141
A R T I G O
e o próprio jornal é registro deste fato. O que existe são várias formas de
se expressar o cuidado e discursos autorizados pela ciência proferidos por
especialistas que procuram padronizar essas diferentes manifestações da
maternidade. Na tentativa de reconhecer essas diferentes manifestações,
a ciência faz um movimento parecido com o que já discutimos acima
com as dicotomias, e esses modos de cuidado são classificados em gru-
pos, ditos “normais” ou “de risco” (STREY; CADONÁ, 2012).
Em meio a tais argumentações, uma das figuras de cuidado na vida
da criança acaba ficando apagada. A paternidade, nas reportagens que
foram analisadas, pouco apareceu. Os pais surgem algumas vezes cita-
dos como dupla parental quando se fala na educação de crianças mais
velhas, e não recém-nascidas. Nas reportagens o jornal fala sobre gravi-
dez e acompanhamento durante esse período e, mesmo assim, o papel
do pai não é destacado.
Saldanha, Muhlen e Strey (2012) apontam que os avanços no mun-
do contemporâneo, com o declínio do patriarcado, principalmente
impulsionado pelos movimentos feministas, vêm causando mudanças
no cenário da família moderna. Em ritmo diferente da maternidade, o
conceito de paternidade também sofre mudanças, assim como o papel
que o homem ocupa na sociedade.
Apesar dessas mudanças, a referência de família encontrada nos
jornais ainda é de marido, mulher e filhos/as, a mesma que ainda pre-
domina nas sociedades ocidentais contemporâneas. Marcondes (2012)
discute sobre como as relações sociais que originaram esse modelo de
família surgiram de uma divisão dicotômica de gênero entre a esfera
pública e privada. A esfera privada era atribuída socialmente à mulher,
que ficaria com o cuidado dos/as filhos/as e com a organização domés-
tica. Já na esfera pública, a responsabilidade por sua manutenção seria
do homem, que exerceria autoridade sobre a mulher, provendo a famí-
lia, e exercendo atividades sociais, como o trabalho. Esse é um modelo
pautado na assimetria de gênero, onde o masculino exerce predomínio
sobre o feminino, e que deixou marcas nas relações sociais que podem
ser vistas até hoje.
comun. mídia consumo são paulo, v. 17, n. 48, p. 128-147, jan./abr. 2020
142 como aborda o cuidado e a família:
A R T I G O
Conclusão
O fim da década de 1980 e o início da década de 1990 têm como carac-
terística um marco no que diz respeito à aprovação de políticas públicas.
Além da Constituição Federal (BRASIL, 1988) e das Leis Federais tra-
balhadas neste artigo, SUS e ECA, em 1993 é aprovada a Lei Orgânica
da Assistência Social (BRASIL, 1993). Todas essas legislações têm em
comum uma ruptura com visões de mundo e de sujeito de publicações
que as antecediam. Nossa pesquisa se preocupou em se questionar e
responder, dentre outras, a pergunta: é possível pôr em prática os prin-
cípios do ECA e do SUS em meio às publicações midiáticas da época?
Devemos destacar que a conjuntura midiática é apenas um recorte
da realidade que vivia a população de 1990, portanto, nossa análise não
apresenta uma verdade única sobre o contexto da época. Não é nossa
intenção fechar a discussão, ou esgotá-la com os materiais de análise,
mas sim abrir a reflexão para uma realidade complexa que interfere até
hoje no modo como duas importantes políticas públicas são postas em
práticas em nosso País.
comun. mídia consumo, são paulo, v. 17, n. 48, p. 128-147, jan./abr. 2020
heloísa derkoski | eliane cadoná 143
A R T I G O
Sabemos, como já discutimos antes, que a melhor forma de apli-
car políticas como o ECA e o SUS é através da instrumentalização do
público. É na autonomia que tais legislações encontram forças (VIA-
NA, 2016). Nas reportagens analisadas, principalmente nas que dizem
respeito ao modo como o Estado lida com a saúde na infância, encon-
tramos um modo autoritário de intervenções, fugindo bastante do que
preconizam as duas legislações estudadas.
A própria ênfase em um discurso biologicista, que autoriza apenas o
profissional da medicina a falar sobre as questões do desenvolvimento
infantil, como um expert, coloca em xeque os princípios e diretrizes
do SUS. Sabemos que o mesmo preconiza o trabalho multidisciplinar,
onde o/a próprio/a usuário/a é considerado/a o/a maior conhecedor/a do
que está passando, e, portanto, as informações não são dadas de maneira
prescritiva, como vimos nos jornais.
Em relação às questões de gênero, conseguimos visualizar uma dispa-
ridade no que diz respeito à visibilidade dos papéis da maternidade e da
paternidade. Embora a sociedade venha evoluindo, ainda dicotomiza-
dos e cristalizados, esses papéis refletem uma realidade onde mães ainda
são vistas como as principais cuidadoras dos filhos, enquanto os pais são
responsáveis por prover o sustento da casa.
Guattari e Rolnik (1996) destacam a importância da análise da pro-
dução de subjetividade usando o exemplo de que quando uma potência,
como os Estados Unidos da América, quer implantar algum tipo de pos-
sibilidade de expansão econômica em um País de terceiro mundo, ela
começará trabalhando os processos de subjetivação. Podemos trazer isso
para a pesquisa pensando que para que as políticas públicas fossem im-
plantadas com sucesso uma das maneiras de trabalhar a produção de
subjetividade na época era através da mídia impressa, que como veri-
ficamos ia de encontro, na maioria das vezes, com o que as mesmas
preconizavam.
Para concluir, fazemos uma reflexão sobre o processo de pesquisa e
seu fim, com o sentimento de que ele não deve terminar por aqui. Mui-
tas vezes, dentro do universo da pesquisa, nos deparamos com barreiras
comun. mídia consumo são paulo, v. 17, n. 48, p. 128-147, jan./abr. 2020
144 como aborda o cuidado e a família:
A R T I G O
e práticas que vão contra nossa visão de mundo, e que nos levam a sen-
timentos de frustração. Infelizmente, muitas pesquisas acabam ficando
apenas no papel e não cumprem com seus objetivos, nunca retornando
a quem lhes pertence: a comunidade.
Acreditamos que a pesquisa não deve ter um fim nela mesma. Nos-
sos resultados devem ser incorporados a nossas práticas, debatidos com
profissionais das áreas interessadas, e, por que não, usados como justi-
ficativas para bons projetos de extensão? Por exemplo, um dos modos
de levar a pesquisa para fora da universidade seria transformá-la em um
programa de extensão para discutir com os/as profissionais da área da
saúde sobre as origens do SUS e as repercussões até hoje em suas prá-
ticas. Dessa forma, a pesquisa cumpre seu papel de transformadora da
realidade.
“Se podes olhar, vê. Se podes ver, repara”, disse José Saramago (1997,
p. 9) em Ensaio sobre a cegueira. Em outras palavras, temos as ferramen-
tas para mudar a realidade em que vivemos, e agora precisamos usá-las
com mais inteligência. De modo contrário, continuaremos vendo sem
reparar.
Referências
ARIÈS, P. História social da criança e da família. 2. ed. Rio de Janeiro: LTC, 1981.
BADINTER, E. Um amor conquistado: o mito do amor materno. Rio de Janeiro: Nova
Fronteira, 1985.
BAREMBLITT, G. Compêndio de análise institucional e outras correntes: teoria e práti-
ca. 5. ed. Belo Horizonte: Instituto Felix Guattari, 2002.
BRASIL. Constituição Federal de 1988. Disponível em: [Link]
vil_03/constituicao/[Link]. Acesso em: 23 set. 2019.
______. Lei n. 8.069, de 13 de julho de 1990a. Dispõe sobre o Estatuto da Criança
e do Adolescente e dá outras providências. Disponível em: [Link]
ccivil_03/leis/[Link]. Acesso em: 23 set. 2019.
______. Lei n. 8.080, de 19 de setembro de 1990b. Dispõe sobre as condições para a pro-
moção, proteção e recuperação da saúde, a organização e o funcionamento dos serviços
correspondentes e dá outras providências. Disponível em: [Link]
ccivil_03/leis/[Link]. Acesso em: 23 set. 2019.
comun. mídia consumo, são paulo, v. 17, n. 48, p. 128-147, jan./abr. 2020
heloísa derkoski | eliane cadoná 145
A R T I G O
______. Lei n. 8.142, de 28 de dezembro de 1990c. Dispõe sobre a participação da
comunidade na gestão do Sistema Único de Saúde (SUS) e sobre as transferências in-
tergovernamentais de recursos financeiros na área da saúde e dá outras providências.
Disponível em: [Link] Acesso em: 23 set.
2019.
______. Lei n. 8.742, de 07 de setembro de 1993. Dispõe sobre a organização da As-
sistência Social e dá outras providências. Disponível em; [Link]
ccivil_03/leis/[Link]. Acesso em: 23 set. 2019.
BUENO, E. Brasil: uma história: cinco anos de um país em construção. Rio de Janeiro:
Leya, 2012.
BUTLER, J. Variações sobre sexo e gênero: Beauvoir, Wittig e Foucault. In: BENHA-
BIB, S.; Cornell, D. (coord.). Feminismo como crítica da modernidade. Rio de Janeiro:
Rosa dos Tempos, 1987.
BUTLER, J. Problemas de gênero: feminismo e subversão da identidade. Rio de Janeiro:
Civilização Brasileira, 2008.
CADONÁ, E. et al. Conceitos de saúde e cuidado na mídia impressa brasileira: uma
análise do ano de 1990. Curitiba: CRV, 2017.
CAMPOS, G.; CAMPOS, R. Co-construção de autonomia: o sujeito em questão.
In:______. Tratado de saúde coletiva. São Paulo: Hucitec, 2012.
CRUZ, L.; HILLESHEIN, B.; GUARESCHI, N. M. F. Infância e políticas públicas:
um olhar sobre as práticas psi. Psicologia & Sociedade, Porto Alegre, v. 17, n. 3, p. 42-49,
set.-dez. 2005.
FOUCAULT, M. Microfisica do poder. 17. ed. Rio de Janeiro: Edições Graal, 2002.
GERGEN, K. J. O movimento do construcionismo social na psicologia moderna. Re-
vista Internacional Interdisciplinar INTERthesis, Florianópolis, v. 6, n. 1, p. 299-325,
jan.-jul. 2009.
GUARESCHI, P. Psicologia social crítica: como prática de libertação. Porto Alegre:
EDIPUCRS, 2004.
GUATTTARI, F.; ROLNIK, S. Micropolítica: cartografias do desejo. 4. ed. Petrópolis:
Vozes, 1996.
HENNIGEN, I. Subjetivação como produção cultural: fazendo uma outra psicologia.
Psicologia & Sociedade, Porto Alegre, v. 18, p. 47-53, maio-ago., 2006.
HILLESHEIN, B.; GUARESCHI, N. M. F. De que infância nos fala a psicologia do
desenvolvimento? Algumas reflexões. Psicologia da educação, São Paulo, v. 25, p. 75-92,
2. sem. 2007.
IÑIGUEZ, L. et al. Manual de análise de discurso em ciências sociais. Petrópolis: Vozes,
2014.
IÑIGUEZ, L. A Pós-modernidade: O novo Zeitgeist de Nosso Tempo. In: MARTINS,
J. B. (Org.). Temas em análise institucional e em construcionismo social. São Carlos:
Fundação Araucária, 2002.
comun. mídia consumo são paulo, v. 17, n. 48, p. 128-147, jan./abr. 2020
146 como aborda o cuidado e a família:
A R T I G O
LARA, L. Saúde pública e saúde coletiva: investindo na infância para produção de ci-
dadania. 2009. 81f. Tese (Doutorado em Programa de Pós-Graduação em Psicologia).
Porto Alegre: Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul, 2009.
LOURO, G. L. Gênero, sexualidade e educação: uma perspectiva pós-estruturalista. 6.
ed. Petrópolis: Vozes, 2003.
MARCONDES, G. S. As trajetórias dos homens de família: os significados da vida
conjugal e parental masculina. In: STREY, M. N. et al. (Orgs.). Gênero e ciclos vitais:
desafios, problematizações e perspectivas. Porto Alegre: Edipucrs, 2012.
PADRÓS, E. S. Os desafios na produção do conhecimento histórico sob a perspectiva
do Tempo Presente. Anos 90, v. 11, n. 19/20, jan.-dez., 2004.
RODRIGUES, M. A década de 80: Brasil: quando a multidão voltou às praças. São
Paulo: Ática, 1992.
SALDANHA, M.; MUHLEN, B. K. Von; STREY, M. O homem maternante: mudanças
à vista? In: STREY, M. N. et al. (Orgs.). Gênero e ciclos vitais: desafios, problematizações
e perspectivas. Porto Alegre: Edipucrs, 2012.
SALIH, S. Judith Butler e a teoria queer. 1. ed. Belo Horizonte: Autêntica Editora, 2013.
SARAMAGO, J. Ensaio sobre a cegueira. São Paulo: Companhia das Letras, 1995.
SOUZA, M. A. 25 anos do Estatuto da Criança e do Adolescente: História, política e so-
ciedade. In: CONSELHO FEDERAL DE PSICOLOGIA. MOREIRA, J. O.; SALUM,
M. J. G.; OLIVEIRA, R. T. (Orgs.). Estatuto da criança e do adolescente: refletindo sobre
sujeitos, direitos e responsabilidades. Brasília: CFP, 2016.
SPINK, M. J.; SPINK, P. Introdução. In: MEDRADO, M.; PASSARELLI, C.; LIMA,
H.; MIRIAM, L.; SPINK, M.; FREZZA, R.; MENEGON, V. Práticas cotidianas e a
naturalização da desigualdade. São Paulo: Cortez, 2006.
SPINK, M. J. et al. Práticas discursivas e produção de sentidos no cotidiano. Rio de Ja-
neiro: Cortez, 2013a.
SPINK, P. Análise de documento de domínio público. In: SPINK, M. J. (Org.). Práticas
discursivas e produção de sentidos no cotidiano. Rio de Janeiro: Cortez, 2013b.
SPINK et al. A produção de informação na pesquisa social: compartilhando ferramentas.
Rio de Janeiro: Centro Edelstein de Pesquisas Sociais, 2014.
STREY, M. N.; CADONÁ, E. A construção do sujeito materno: problematizando práti-
cas à luz dos estudos feministas. In: STREY, M. N. et al. (Orgs.). Gênero e ciclos vitais:
desafios, problematizações e perspectivas. Porto Alegre: Edipucrs, 2012.
THOMPSON, J. B. A mídia e a modernidade: uma teoria social da mídia. Petrópolis:
Vozes, 2014.
VIANA, M. A psicologia escolar, o ECA e o enfrentamento à teoria do capital humano.
In: CONSELHO FEDERAL DE PSICOLOGIA. MOREIRA, J. O.; SALUM, M. J. G.;
OLIVEIRA, R. T. (Orgs.). Estatuto da criança e do adolescente: refletindo sobre sujeitos,
direitos e responsabilidades. Brasília: CFP, 2016.
ZERO HORA. Coleção de publicações do ano de 1990. Porto Alegre: Zero Hora, 1990.
comun. mídia consumo, são paulo, v. 17, n. 48, p. 128-147, jan./abr. 2020
heloísa derkoski | eliane cadoná 147
A R T I G O
Sobre as autoras
Heloísa Derkoski Dalla Nora – Graduada em Psicologia pela Universidade
Regional Integrada do Alto Uruguai e das Missões – Campus de Frederico
Westphalen (URI-FW). Pós-Graduanda em Terapia Familiar Sistêmica pela
Universidade do Oeste de Santa Catarina (UNOESC – Chapecó). Fez parte
do Grupo de Pesquisa em Psicologia da URI-FW, atuando na linha de pesquisa
em Políticas Públicas, Saúde e Produção de Subjetividade em Contextos Ins-
titucionais, sendo bolsista do projeto de pesquisa intitulado "Sentidos de
Gênero e Saúde no Cenário de Publicação das Leis n. 8.080 e n. 8.142: Uma
Análise da Sessão Saúde do Zero Hora. No presente artigo, a autora participou
da concepção do desenho da pesquisa, do desenvolvimento da discussão teóri-
ca, da coleta e interpretação dos dados, da redação do manuscrito e da revisão
do texto.
comun. mídia consumo são paulo, v. 17, n. 48, p. 128-147, jan./abr. 2020
COMUN. MÍDIA CONSUMO, SÃO PAULO, V. 17, N. 48, P. 148-168, JAN./ABR. 2020
A R T I G O
DOI 10.18568/CMC.V17I48.1912
A R T I G O
their narrative roles before the discursive and critical textual construction, about
Brazilian machismo, intended by the short film.
Keywords: found footage; metacritical voice-over; essay-film; collage; Seams
(film).
comun. mídia consumo são paulo, v. 17, n. 48, p. 148-168, jan./abr. 2020
150 da montagem ao collage: found footage, voz-over e filme-ensaio
A R T I G O
Introdução
A reflexão aqui proposta interessa-se pelo diálogo entre a voz-over, o
found footage e o filme-ensaio como forma de ampliar a nossa com-
preensão do procedimento de montagem em obras que se valham
parcialmente ou em sua totalidade de materiais de arquivo. À luz de
Seams (Karim Aïnouz, 1993), objetiva-se investigar o papel operado pela
montagem ao colocar esses três elementos em diálogo.
Seams é um filme-ensaio em curta-metragem que, a partir de uma
perspectiva subjetiva, reflete sobre a problemática da opressão femini-
na no contexto brasileiro. Conduzida por uma voz over masculina e
analítica, a narrativa mescla entrevistas, com sequências encenadas e
uma ampla variedade de imagens de arquivo, fazendo uso da técnica de
found footage. Sendo assim, enquanto o filme se propõe a realizar um
retrato afetivo (e das afetividades) da avó do diretor e suas quatro irmãs,
simultaneamente traz à tona uma reflexão que transcende o universo do
sujeito enunciador e alcança o mundo social: o machismo na sociedade
brasileira.
Por essa perspectiva, o problema de pesquisa a que nos dedica-
mos questiona, à luz de Seams, como a voz-over, o found footage e o
filme-ensaio são colocados em relação, bem como se comportam en-
quanto práticas criativas autônomas, em obras que reutilizem imagens
de arquivo.
Partimos da hipótese de que a aproximação entre esses elementos se
dá, sobretudo, por meio do procedimento de montagem, encontrando-
-se frequentemente conectado com a noção de collage, “uma técnica
criativa que é também um método crítico” (WEES, 1993, p. 52, tra-
dução nossa). Por ser “regido pelos princípios de descentralização e
dispersão, o collage ‘está dominado por múltiplas posições de observa-
ção: cada fragmento é móvel e aberto à interação com uma multidão
de contextos semânticos, simbólicos, estéticos etc.’” (ELENA, 2009, p.
217, tradução nossa). Por meio das práticas coincidentes da voz-over, do
found footage e do filme-ensaio, as imagens de arquivo parecem assumir
comun. mídia consumo, são paulo, v. 17, n. 48, p. 148-168, jan./abr. 2020
rafael de almeida 151
A R T I G O
um caráter de fragmento que permite sua articulação por meio da mon-
tagem compreendida como collage.
Isso porque partimos da compreensão de que o collage pode ser
percebido como um procedimento compositivo em que a montagem
“transcende sua dimensão puramente técnica de justaposição de pla-
nos para alcançar uma dimensão estética que pressupõe uma vontade
evidente de enfatizar a heterogeneidade dos materiais utilizados, de
fazê-los entrar em conflito, de estabelecer entre eles uma relação dia-
lética” (VAQUERO; LÓPEZ, 2009, p. 26, tradução nossa). Ou seja,
embora reconheçamos que toda montagem pressuponha certa dimen-
são estética, em geral ela busca mais invisibilizar que realçar as conexões
entre os planos. O collage, como veremos, irá na contramão disso.
Interessados em compreender os procedimentos de montagem em
Seams a partir desses três elementos – a reflexão em torno da técnica de
found footage; a discussão acerca da voz-over; e o estudo sobre a forma
e as características do filme-ensaio – analisaremos a obra por meio de
uma investigação formal e analítica de determinadas sequências do fil-
me, precedida de uma decupagem. A partir disso, pretendemos verificar
como a montagem, compreendida pela perspectiva do collage, põe tais
elementos em relação e contribui para a construção discursiva do filme.
Pretendemos em um primeiro instante refletir sobre o collage en-
quanto um dos tipos de montagem para filmes de found footage. Logo
em seguida, desejamos perceber o uso da voz-over como um proce-
dimento de montagem, por meio da exploração do conceito de voz
metacrítica. Com esse plano de fundo em vista, partiremos para uma
compreensão de Seams enquanto filme-ensaio, construído por meio do
comentário verbal e da montagem compreendida como collage.
comun. mídia consumo são paulo, v. 17, n. 48, p. 148-168, jan./abr. 2020
152 da montagem ao collage: found footage, voz-over e filme-ensaio
A R T I G O
Fonte: Reprodução
Fonte: Reprodução
comun. mídia consumo, são paulo, v. 17, n. 48, p. 148-168, jan./abr. 2020
rafael de almeida 153
A R T I G O
Figura 3 – Frames do filme Seams
Fonte: Reprodução
Plano 10: jarros de cerâmica sobre uma mesa em fast motion, as flores
tremulam. Plano 11: menino de uns dois anos se apoia em grades de
ferro, se coloca de pé, se vira e aponta para a câmera. Plano 12: avião de
pequeno porte taxiando.
Fonte: Reprodução
Fonte: Reprodução
comun. mídia consumo são paulo, v. 17, n. 48, p. 148-168, jan./abr. 2020
154 da montagem ao collage: found footage, voz-over e filme-ensaio
A R T I G O
2 Para mais informações sobre os modos de leitura, sugerimos a leitura de “A questão do público:
uma abordagem semiopragmática”, de Roger Odin.
comun. mídia consumo, são paulo, v. 17, n. 48, p. 148-168, jan./abr. 2020
rafael de almeida 155
A R T I G O
levando a uma leitura estética, como nos filmes de vanguarda, apoia-
dos por uma tendência estética moderna.
3. com a metodologia de apropriação, o found footage manusearia as
imagens de arquivo por sua condição de simulacro, por sua capaci-
dade de falsamente imitar a realidade, direcionando a uma leitura
artística somente, como em clipes musicais, sustentados por uma
tendência estética pós-moderna.
A partir do exposto, fica evidente que o collage diferencia-se da
montagem tradicional por se tratar de uma das três metodologias es-
pecíficas de montagem para filmes realizados por meio da técnica de
found footage. Wees defende que a metodologia de collage “possui o me-
lhor potencial para criticar, desafiar, e possivelmente subverter o poder
das imagens produzidas, e distribuídas, por meio da mídia corporativa”
(WEES, 1993, p. 33, tradução nossa).
Acredita-se que todas as imagens em preto e branco de Seams, ro-
dadas na década de 1930, são parte da coleção Ford Motor Company,
incorporada pelo Arquivo Nacional americano em 1963 (MACHADO;
BLANK, 2015). A intenção original das imagens, portanto, era fazer
publicidade de Henry Ford e sua companhia no contexto do frustra-
do projeto de desenvolvimento da cidade de Fordlândia, uma company
town no Pará, às margens do Rio Tapajós, então construída para explorar
a borracha das seringueiras.
Ora, se se tratam de imagens publicitárias vinculadas à imagem ins-
titucional de uma empresa multinacional, em seu contexto original a
maioria dos planos descritos acima enaltecia a figura do homem en-
quanto desbravador. A imagem viril de um homem capaz de explorar
percursos inóspitos dentro das matas, lidar com animais ferozes e pro-
teger-se deles, extrair recursos naturais das árvores, manejar armas de
fogo com segurança e domesticar animais do campo. No entanto, Ka-
rim parece fazer uso da metodologia de collage do found footage, o que
subverte os sentidos planteados originalmente e promove uma postura
crítica e analítica em relação às imagens e seus usos.
comun. mídia consumo são paulo, v. 17, n. 48, p. 148-168, jan./abr. 2020
156 da montagem ao collage: found footage, voz-over e filme-ensaio
A R T I G O
comun. mídia consumo, são paulo, v. 17, n. 48, p. 148-168, jan./abr. 2020
rafael de almeida 157
A R T I G O
realidade (como previsto pelo filme de apropriação4). Nos filmes-ensaio
que se valem do collage “existe um questionamento, ou ceticismo, cons-
tante acerca do significado das imagens de arquivo” (ARTHUR, 2008, p.
171), em geral materializado por uma voz-over analítica e crítica.
Fonte: Reprodução
comun. mídia consumo são paulo, v. 17, n. 48, p. 148-168, jan./abr. 2020
158 da montagem ao collage: found footage, voz-over e filme-ensaio
A R T I G O
Fonte: Reprodução
Fonte: Reprodução
comun. mídia consumo, são paulo, v. 17, n. 48, p. 148-168, jan./abr. 2020
rafael de almeida 159
A R T I G O
Figura 9 – Frames do filme Seams
Fonte: Reprodução
Fonte: Reprodução
comun. mídia consumo são paulo, v. 17, n. 48, p. 148-168, jan./abr. 2020
160 da montagem ao collage: found footage, voz-over e filme-ensaio
A R T I G O
significa big shoes, mas também significa dyker, que significa queer. No
nordeste a palavra lésbica quase nunca é usada. Puta significa whore. É a
pior coisa de que alguém pode chamar uma mulher se quiser insultá-la.
Se alguém quiser insultar um homem o chama de veado, que significa
faggot. Toda menina teme ser chamada de puta. Eu temi a palavra veado
desde que eu era pequeno. (Seams, Karim Aïnouz, 1993, tradução nossa)
comun. mídia consumo, são paulo, v. 17, n. 48, p. 148-168, jan./abr. 2020
rafael de almeida 161
A R T I G O
técnica de found footage, Karim nos impede de vincular tal imagem aos
seus propósitos publicitários originais.
Descontextualizado, o plano assemelha-se a um registro doméstico,
em que podemos imaginar um pai filmando seu filho cercado pelos
amigos, sentados na escadaria da escola. O dispositivo da câmera im-
pulsiona o beijo entre dois meninos: como um jogo, como algo que não
pudesse ser feito, como algo que “prejudicasse” a imagem daquele que
é beijado. Ao reciclar esse plano, Karim parece empreender, portanto,
uma crítica à maneira como as imagens publicitárias materializam as
demonstrações de afeto entre dois meninos. Found footage. Crítica.
Simultaneamente, ouvimos uma voz jovial masculina dizer: “Eu
temi a palavra veado desde que eu era pequeno”. A voz-over assemelha
debruçar-se sobre a imagem que temos diante de nossos olhos para revê-
-la, reexaminá-la, reavaliá-la. A conclusão a que o realizador chega é
compartilhada conosco por meio do comentário verbal. Desse exercício
fica evidente ao sujeito enunciador que não caberia qualquer demons-
tração de afeto entre dois meninos, a não ser que ela estivesse coberta
pela lógica do jogo e do improvável. Sobretudo se algum deles imagi-
nasse sentir-se atraído sexualmente pelo mesmo sexo, como parece ser
o caso do sujeito que narra o filme. Voz-over metacrítica. Crítica da
crítica.
Nesse contexto, a performance da crítica de uma crítica – comentário
verbal da voz-over que examina os arquivos visuais do found footage,
que depreciam os padrões discursivos dos mass media – garante a con-
cepção da voz-over metacrítica (RASCAROLI, 2009). “Essa distância
crítica frequentemente se assemelha ao posicionamento do cineasta no
texto fílmico, que se afasta de trás da câmera, de sua função criativa, e se
torna um metacrítico – das imagens, da sociedade que as produz, de seu
próprio texto e de seu papel nisso” (RASCAROLI, 2009, p. 52, tradução
nossa).
Dessa maneira, a voz-over metacrítica ensaística analisa “metodica-
mente sem método” (ADORNO, 2003, p. 30) as estruturas de sentido
que sustentam o discurso visual das imagens de arquivo do filme de
comun. mídia consumo são paulo, v. 17, n. 48, p. 148-168, jan./abr. 2020
162 da montagem ao collage: found footage, voz-over e filme-ensaio
A R T I G O
Fonte: Reprodução
comun. mídia consumo, são paulo, v. 17, n. 48, p. 148-168, jan./abr. 2020
rafael de almeida 163
A R T I G O
Plano 4: uma menina dá cambalhota estrelinha (repetição do plano
3). Plano 5: mulheres, de longos vestidos brancos e chapéus, correndo
entre arbustos em direção à câmera. Plano 6: as mesmas mulheres pu-
lam uma cerca e correm.
Fonte: Reprodução
Fonte: Reprodução
comun. mídia consumo são paulo, v. 17, n. 48, p. 148-168, jan./abr. 2020
164 da montagem ao collage: found footage, voz-over e filme-ensaio
A R T I G O
Fonte: Reprodução
comun. mídia consumo, são paulo, v. 17, n. 48, p. 148-168, jan./abr. 2020
rafael de almeida 165
A R T I G O
pelo servilismo e pelo abandono dos homens que passaram por suas vi-
das. Embora tenha crescido rodeado por mulheres, o ambiente em que
viveu foi marcado pelo machismo e pela opressão. Em um ambiente
com tais características, não há espaço para outros tipos de masculini-
dade, que não a do homem que naturalmente cresce como “macho”.
A metodologia do collage proveniente do found footage deixa isso evi-
dente, ao contrastar elementos desiguais. Não há espaço para meninos
como o do plano 10 da sequência descrita: que sejam príncipes, delica-
dos e afetuosos, características destinadas somente às meninas. Muito
menos para homens que dancem juntos, envolvendo com os braços uns
a cintura dos outros, como no plano 11. Parece haver espaço somente
para aqueles meninos que, desde a infância, lidem com o sexo oposto
enquanto um corpo submisso, ainda que pela lógica da “brincadeira”,
como vimos no plano 7, em que a menina é constrangida. Para sobre-
viver em um ambiente como esse, só resta ao homem gay a negação da
própria afetividade. E os homens dançam, enquanto o narrador nega:
“Não, não tenho [namorada]. Não exatamente!”. Mas o desejo talvez
seja de explodir (a si próprio ou a esse universo), como representado
pelo plano 12.
Ao alcançar a estética ensaística do cinema, por meio do collage e da
voz-over, Seams opera um trânsito reflexivo entre a homossexualidade
declarada do realizador, em relação ao seu universo afetivo familiar, e
o mundo social, onde há possibilidade de identificação e diálogo com
espectadores igualmente oprimidos, em um largo espectro. Por meio do
collage as imagens de Fordlândia são libertas “da lógica da propaganda
e do capitalismo industrial” e “apresentadas a partir de uma perspectiva
íntima que nada tem a ver com seu contexto de produção e, dessa forma,
ganham uma dimensão poética e política” (MACHADO; BLANK,
2015, p. 89). Por meio da voz-over a reflexão crítica ganha corpo por
meio da possibilidade de voltar a ver e a examinar as imagens emprega-
das, bem como das colisões entre a banda sonora e imagética, que não
dissimulam os contornos entre esses sons e imagens.
comun. mídia consumo são paulo, v. 17, n. 48, p. 148-168, jan./abr. 2020
166 da montagem ao collage: found footage, voz-over e filme-ensaio
A R T I G O
Considerações finais
Pelo caminho delineado até aqui pensamos ter evidenciado que a
aproximação entre a voz-over, o found footage e o filme-ensaio se dá,
sobretudo, por meio do procedimento de montagem compreendido
como collage, em obras que reciclem imagens de arquivo. Além disso,
entendemos que, enquanto práticas criativas autônomas: 1) o collage
pode ser compreendido enquanto metodologia de montagem da técnica
de found footage; 2) a voz-over metacrítica performa uma crítica da crí-
tica ao reexaminar as imagens de arquivo reutilizadas; 3) o filme-ensaio
de collage apoia sua reflexão crítica simultaneamente no contraste das
comun. mídia consumo, são paulo, v. 17, n. 48, p. 148-168, jan./abr. 2020
rafael de almeida 167
A R T I G O
imagens de found footage coletadas e na divisão entre som-imagem, re-
forçada pela presença da narração.
Sendo assim, o collage é o responsável não apenas por colocar em
relação criativa a voz-over, o found footage e o filme-ensaio, mas por
garantir que esses elementos potencializem seus papéis narrativos diante
da construção textual discursiva e crítica pretendida pela obra, ao con-
trastar imagens de arquivos em sua heterogeneidade. Imagens tratadas
pelo filme-ensaio pela perspectiva de uma “estética do fragmento” (AL-
MEIDA, 2017), que as percebe tão somente como imagens residuais de
outro tempo, marcadas pelo contexto semântico em que foram criadas,
porém livres para criticar sua circunstância original de produção e con-
sumo, e gerar novos sentidos em outros contextos.
Referências
ADORNO, T. O ensaio como forma. In: Notas de literatura I. São Paulo: Duas Cidades;
Ed. 34, 2003.
ALMEIDA, R. Entre a chegada e a partida: reciclagens do cinema doméstico no filme-
-ensaio. Matrizes, v. 11, n. 2, p. 271-286, 31 ago. 2017.
ARTHUR, P. En busca de los archivos perdidos. Archivos de la Filmoteca, Valencia,
España, feb, 2008.
ARTHUR, P. Essay questions: from Alain Resnais to Michael Moore. Film Comment, v.
39, n. 1, jan. 2003.
ELENA, A. Una estética del collage: documental, ensayo y vanguardia. In: VAQUERO,
L. G.; LÓPEZ, S. G. (Org.). Piedra, papel y tijera: el collage en el cine documental.
Madri: Ocho y medio libros de cine, 2009.
MACHADO, P.; BLANK, T. A outra vida das imagens: elaborando memórias de um
Brasil invisível. Devires, Belo Horizonte, v. 12, n. 2, p. 68-93, jul.-dez. 2015.
ODIN, R. A questão do público: uma abordagem semiopragmática. In: RAMOS, F.
(Org.). Teoria contemporânea do cinema, volume II: documentário e narratividade fic-
cional. São Paulo: Senac, 2005.
RASCAROLI, L. The personal camera: subjective cinema and the essay film. New York:
Wallflower Press, 2009.
VAQUERO, L. G.; LÓPEZ, S. G. Introducción. In: VAQUERO, L. G.; LÓPEZ, S. G.
(Org.). Piedra, papel y tijera: el collage en el cine documental. Madri: Ocho y Medio
Libros de Cine, 2009.
WEES, W. C. Recycled images: the art and politics of found footage film. Anthology
Film Archives, Nueva York, 1993.
comun. mídia consumo são paulo, v. 17, n. 48, p. 148-168, jan./abr. 2020
168 da montagem ao collage: found footage, voz-over e filme-ensaio
A R T I G O
Sobre o autor
Rafael de Almeida – Doutor em Multimeios pela Universidade Estadual de
Campinas (Unicamp). Professor do curso de Cinema e Audiovisual da Univer-
sidade Estadual de Goiás (UEG).
comun. mídia consumo, são paulo, v. 17, n. 48, p. 148-168, jan./abr. 2020
COMUN. MÍDIA CONSUMO, SÃO PAULO, V. 17, N. 48, P. 169-192, JAN./ABR. 2020
A R T I G O
DOI 10.18568/CMC.V17I48.2094
Abstract: This article discusses how the movie “Get Out”, directed by Jordan
Peele, introduces sensitive experiences about horror and racism in contemporary
societies. The concept of horror its understood through Eugene Thacker, for whom
the genre fruition occurs by the thinking in an unthinkable world, non-human
and unknown. Considered as the other in the Western society, the condition of
being black, category created during the slavery and colonization process for the
comun. mídia consumo, são paulo, v. 17, n. 48, p. 169-192, jan./abr. 2020
ana maria acker | deivison moacir 171
A R T I G O
Introdução
O horror é um gênero que circula em diversos nichos da cultura de
massa: filmes, programas e seriados de televisão, jogos eletrônicos, lite-
ratura, vídeos na internet, entre outros. No audiovisual, é um fenômeno
que se adaptou aos novos meios de consumo (CONRICH, 2010) diante
da crise das salas de exibição. Na última década, se intensificou a pro-
dução dos found footage de horror, filmes que simulam documentários
e são realizados por suportes diversos. Essas produções aprofundam as
discussões da relação entre tecnologia e horror (ACKER, 2017), embora
esses tensionamentos já ocorram no gênero há mais tempo. Diante da
variedade de estilos e propostas, a crítica tem destacado certas obras3
que, além de números expressivos em bilheteria, suscitaram debates em
festivais e premiações – caso de Corra! (Get Out), de Jordan Peele, ven-
cedor do Oscar de Melhor Roteiro original em 2018. Não entramos no
debate sobre a tentativa de categorização dos filmes recentes, uma vez
que na trajetória do gênero são comuns os períodos de crescimento de
títulos e a repercussão em torno deles (HUTCHINGS, 2004).
Primeiro filme dirigido por Peele, Corra! gerou polêmica especial-
mente pela abordagem do racismo na sociedade norte-americana.
Ashlee Blackwell destaca que a obra aborda o horror que pessoas não
brancas sentem “em espaços que sugerem que suas cores e culturas se-
jam educadamente suavizadas no melhor dos casos, e inviabilizadas nos
piores” (BLACKWELL, 2019, p. 124). Porém, essa não é a única leitura
possível. A produção foca em, ao menos, dois caminhos para o horror
a partir dos conflitos do personagem Chris (Daniel Kaluuya), que vai
conhecer os pais da namorada Rose (Allison Williams) durante um final
de semana e acaba lutando para salvar a própria vida.
Neste texto, o conceito de horror é entendido a partir de Eugene
Thacker (2011 e 2015) para quem a fruição com o gênero se dá no ato
de confrontar um mundo impensável, não humano e desconhecido.
3 Filmes como Raw (2016), de Julia Ducournau, It:A Coisa (2017), de Andy Muschietti, Ao Cair
da Noite (2017), dirigido por Trey Edward Shults, A Bruxa (2016), de Robert Eggers, Um Lu-
gar Silencioso (2018), de John Krasinski, e Hereditário (2018), de Ari Aster, podem ser citados
como exemplos.
comun. mídia consumo são paulo, v. 17, n. 48, p. 169-192, jan./abr. 2020
172 as relações entre horror e racismo no filme corra!
A R T I G O
comun. mídia consumo, são paulo, v. 17, n. 48, p. 169-192, jan./abr. 2020
ana maria acker | deivison moacir 173
A R T I G O
cristalizar determinadas caraterísticas do horror e sua conexão com o
racismo.
Mesmo não sendo um filme de horror, O Nascimento de uma Nação
(2015), de D. W. Griffith, ajudou a moldar a narrativa e a estética do
cinema clássico. Mesmo assim, o apuro técnico não minimiza os pro-
blemas que a trama traz ao contar a história de duas famílias durante
a Guerra Civil. O grupo racista Ku Klux Klan aparece para julgar e
condenar negros. Aliás, os perseguidos são representados no filme por
atores brancos com pintura blackface (COLEMAN, 2019). Um dos per-
sonagens da trama é acusado de tentativa de abuso contra uma menina
branca, como salienta Coleman: “O filme foi feito numa época em que
o mero olhar de um homem negro na direção de uma mulher branca
(‘olho do estupro’) resultava em um linchamento” (COLEMAN, 2019,
p. 68). Tal desconfiança da relação entre um homem negro com uma
mulher branca é retomada por Peele em Corra!, como abordamos neste
texto.
A ideia do Outro como praticamente um monstro é retomada em
muitos filmes – em King Kong (1932), nativos são mostrados como sel-
vagens fanáticos. O descontrole em rituais aparece, principalmente, em
produções que representam o vodu haitiano. Entretanto, essa prática re-
ligiosa é associada pelo cinema ao zumbi e, conforme Coleman, há um
motivo consistente para isso: “Foi o impacto do Haiti na branquitude que
gerou o horror” (COLEMAN, 2019, 108), pois o país caribenho aboliu
a escravidão em 1794 após a Revolução Haitiana, liderada por Toussaint
L’Ouverture, um líder praticante de vodu. Logo, o vodu passou a ser
representado no cinema como algo mau, uma forma de estigmatizar o
povo haitiano que desafiava o colonizador (COLEMAN, 2019).
O monstro zumbi foi usado inúmeras vezes para se pensar as relações
humanas com a diferença, classe e gênero, conforme podemos iden-
tificar no clássico de George Romero A noite dos mortos-vivos (1968).
Durante um ataque de zumbis, um homem negro, Ben (Duane Jo-
nes), toma a iniciativa e organiza a defesa de um grupo de pessoas em
uma casa abandonada, todavia o protagonista tem um fim trágico: é
comun. mídia consumo são paulo, v. 17, n. 48, p. 169-192, jan./abr. 2020
174 as relações entre horror e racismo no filme corra!
A R T I G O
comun. mídia consumo, são paulo, v. 17, n. 48, p. 169-192, jan./abr. 2020
ana maria acker | deivison moacir 175
A R T I G O
brancos tinham o objetivo particular de punir aqueles mais próximos:
famílias brancas e não urbanas (rurais ou suburbanas). Os pais brancos
eram julgados por não cuidarem de suas crianças [...]” (COLEMAN,
2019, p. 249). Personagens negros passam por um período de invisibi-
lidade ou estão nos filmes apenas para serem vítimas desses monstros,
terem seus corpos sacrificados em benefício de pessoas brancas, como
ocorre com o cozinheiro Dick Hallorann (Scatman Crothers) de O Ilu-
minado (1980) (COLEMAN, 2019).
Corra! se insere, portanto, no contexto de relações entre racismo e
horror, fundamentalmente pela problematização do medo constante
que os negros sentem em uma sociedade que os enxergam como o Ou-
tro, a ameaça, além da exploração de seus corpos. Podemos estabelecer,
ainda, conexões entre essas formas de medo e horror com as teorias de
Eugene Thacker.
comun. mídia consumo são paulo, v. 17, n. 48, p. 169-192, jan./abr. 2020
176 as relações entre horror e racismo no filme corra!
A R T I G O
Percurso metodológico
A investigação de aspectos da experiência estética com o horror no cine-
ma e as relações destes com fenômenos culturais e sociais demandam
procedimentos metodológicos que busquem problematizar a tradição
hermenêutica das Ciências Humanas (GUMBRECHT, 2010). Desse
comun. mídia consumo, são paulo, v. 17, n. 48, p. 169-192, jan./abr. 2020
ana maria acker | deivison moacir 177
A R T I G O
modo, intentamos a realização de ensaios audiovisuais (video essays)
como suporte para a análise fílmica. É recorrente o argumento de que
os instrumentos são construídos ao longo da pesquisa e essa necessidade
se aprofunda nas reflexões acerca da dimensão sensível da experiência:
“[...] o cinema possui meios de propor certas experiências estéticas em
razão de seus processos maquínicos. É justamente a relação desses apa-
ratos com criações humanas que estreita a fruição do espectador com
as imagens em telas” (ACKER, 2014, p. 5). Logo, a percepção das li-
mitações de um texto na descrição e interpretação do audiovisual é
fundamental nas pesquisas que enfrentam esses desafios.
Os vídeo-ensaios (video essays), ou ensaios audiovisuais, se expandi-
ram nos últimos anos com as transformações de ferramentas tecnológicas
cada vez mais acessíveis. Conforme Catherine Grant (2013), o video
essay é uma prática performativa de estudos fílmicos: “Eles usam técni-
cas de reenquadramento, remixagem, aplicadas em filmes e trechos de
imagens em movimento” (GRANT, 2013). A partir dessa perspectiva,
produzimos dois vídeos, Corra! e os horrores do lugar submerso e Corra!
e os horrores do racismo4, que auxiliam no estudo analítico e no cruza-
mento com as duas leituras propostas do filme.
comun. mídia consumo são paulo, v. 17, n. 48, p. 169-192, jan./abr. 2020
178 as relações entre horror e racismo no filme corra!
A R T I G O
comun. mídia consumo, são paulo, v. 17, n. 48, p. 169-192, jan./abr. 2020
ana maria acker | deivison moacir 179
A R T I G O
Ao comentar sobre aspectos da obra de Lovecraft, Thacker argumen-
ta que: “O horror não veio do que você viu, mas do que você não podia
ver, e mesmo além disso, do que você não podia penetrar, o que não po-
dia pensar” (THACKER, 2015, p. 13, tradução nossa). Essa é a atitude
de Chris em relação à morte da mãe, uma dor tão profunda que escapa
ao pensamento (Figura 2). Ashlee Blackwell (2019) argumenta que o
desespero de Chris se amplia porque o mal que o cerca ataca justamen-
te a perda da estabilidade familiar, suas referências no mundo:
Porque uma vez que pessoas negras saem da segurança de suas casas,
famílias e comunidades e vão para um mundo repleto de microagres-
sões raciais e comportamentos discriminatórios, há uma verdadeira e
consciente angústia em relação à perda de identidade e extinção. Essa
angústia foi incorporada em nosso DNA por meio de traumas geracionais
(BLACKWELL, 2019, p. 14).
comun. mídia consumo são paulo, v. 17, n. 48, p. 169-192, jan./abr. 2020
180 as relações entre horror e racismo no filme corra!
A R T I G O
comun. mídia consumo, são paulo, v. 17, n. 48, p. 169-192, jan./abr. 2020
ana maria acker | deivison moacir 181
A R T I G O
À medida que a conversa avança, o prisioneiro da família compreende
o que ocorrerá e tem flashes das pessoas que encontrou e que se porta-
vam de maneira estranha, pois já haviam sido submetidas à experiência
(Figura 4).
De acordo com Thacker, a vida sem ser é algo comum nas tradições
do horror:
“A infame pergunta ‘O que é a vida?’ parece sempre ser ocultada pela
questão ‘O que é ser?’ E ainda que a própria ideia de Vida sem Ser pa-
reça um absurdo para a filosofia... entretanto, como vimos, não é para
o horror” (THACKER, 2011, 132, tradução nossa). A permanência no
lugar submerso é justamente a existência de uma vida sem ser e Chris se
tornará algo semelhante a um zumbi, monstro do horror reconfigurado
diversas vezes para a abordagem de questões sociais e políticas no cinema,
conforme discutido neste texto. A essência do rapaz irá para Jim, que al-
meja justamente o talento dele como fotógrafo, o olhar. A imagem final
do ensaio audiovisual destaca uma fusão entre os dois rostos, pois, mesmo
comun. mídia consumo são paulo, v. 17, n. 48, p. 169-192, jan./abr. 2020
182 as relações entre horror e racismo no filme corra!
A R T I G O
que de forma limitada, Chris seguirá vivo, o que nas circunstâncias apre-
sentadas é mais assustador do que a morte.
comun. mídia consumo, são paulo, v. 17, n. 48, p. 169-192, jan./abr. 2020
ana maria acker | deivison moacir 183
A R T I G O
realização de um transplante de cérebro. A noção de um duplo em um
corpo não é estranha à cultura afro-diaspórica e africana, no entanto,
essa possibilidade está ligada ao Sagrado (ANGRAS, 2008). O outro
mundo desconhecido é a possibilidade de relações desracializadas. Para
construir o universo do filme, o roteirista e cineasta adota a perspectiva
de que os brancos se valem para compreender o universo e os indivíduos
negros. Ele projeta sua imaginação em corpos brancos para mostrar
como esses pensam o corpo negro.
O começo da obra faz três indicações às diferentes formas como o
racismo se manifesta historicamente e nas relações cotidianas. Na pri-
meira cena, ocorre o sequestro de um homem negro que caminha em
uma rua de um subúrbio dos Estados Unidos – relação direta à caça de
escravizados em África durante o período colonial. Ele é atacado por
um mascarado, colocado no porta-malas de um veículo e desaparece
(Figura 5).
Cada integrante da família ocupa um papel bem claro na caça, es-
vaziamento e transplante para os corpos negros. Nas ações dos irmãos,
Jeremy (Caleb Landry Jones) utiliza a violência e Rose, a sedução para
a caçada. A mãe Missy mostra-se conciliadora e organizadora da família,
mas o verdadeiro papel é o de esvaziamento do corpo. O pai, Dean (Bra-
dley Whitford), brincalhão e interessado na cultura negra, ocupa-se de
preencher o corpo vazio através do transplante de cérebro.
A cabeça do veado exposta na casa da família faz alusão à valorização
da caçada e o uso da carcaça como prêmio (Figura 5). Chris e o animal
são colocados frente a frente em dois momentos de quebra da narrativa.
O acidente, no qual o personagem rememora o drama de infância que é
explorado para sua captura; e quando ele reage à condição de submissão
que lhe foi imposta.
comun. mídia consumo são paulo, v. 17, n. 48, p. 169-192, jan./abr. 2020
184 as relações entre horror e racismo no filme corra!
A R T I G O
Figura 6 – O convite para visitar os pais de Rose provoca um debate sobre casais
inter-raciais nos EUA.
comun. mídia consumo, são paulo, v. 17, n. 48, p. 169-192, jan./abr. 2020
ana maria acker | deivison moacir 185
A R T I G O
A terceira sequência, já na viagem para a casa dos pais de Rose,
mostra uma abordagem policial. Além da batida do carro no bicho ter
despertado a memória de Chris sobre o acidente que causou a morte da
mãe, aponta para mais um ato de racismo cotidiano. O policial pergunta
informações sobre o acidente para a mulher, mas pede os documentos
do homem negro que não estava dirigindo o veículo. A namorada reage
indignada, o que provoca uma tensão com o policial (Figura 7). A cena
faz referência ao elevado número de mortes, ao encarceramento e à
violência contra os negros, o que tem causado protestos, muitas vezes
violentos, pelo território norte-americano.
comun. mídia consumo são paulo, v. 17, n. 48, p. 169-192, jan./abr. 2020
186 as relações entre horror e racismo no filme corra!
A R T I G O
comun. mídia consumo, são paulo, v. 17, n. 48, p. 169-192, jan./abr. 2020
ana maria acker | deivison moacir 187
A R T I G O
primeiro encontro com Jeremy, ele questiona Chris sobre a prática de
esportes, como MMA, e refere que com aquele “porte e mapa genético,
se tivesse treinado de verdade seria um monstro”. Da mesma forma, o
caseiro Walter (Marcus Henderson) passa os dias em atividades físicas,
como cortar grama e lenha, e à noite corre pelo jardim (Figura 8).
comun. mídia consumo são paulo, v. 17, n. 48, p. 169-192, jan./abr. 2020
188 as relações entre horror e racismo no filme corra!
A R T I G O
comun. mídia consumo, são paulo, v. 17, n. 48, p. 169-192, jan./abr. 2020
ana maria acker | deivison moacir 189
A R T I G O
vive. Essa camada, mesmo não sendo a narrativa mais aparente do filme,
é a que carrega a proposta do diretor, pois mostra o horror das relações
raciais nas sociedades contemporâneas.
O desfecho da trama, com Chris sendo salvo por Rod, faz menção ao
final de A noite dos mortos-vivos (1968), de George Romero. No clássico
da década de 1960, o personagem negro, único sobrevivente do ataque
zumbi, acaba assassinado pela polícia. Rose, em agonia, tenta usar o
mecanismo racista de acusar o namorado ao ver uma sirene. Todavia,
o carro que se aproxima é o do amigo segurança. Peele sinaliza, assim,
que as coisas são um pouco diferentes para os negros norte-americanos
que há 50 anos. A referência ao personagem Ben é uma homenagem
ao legado desse filme e ao que ele representa para o “cinema negro” de
horror.
Considerações finais
As experiências estéticas propostas pelo filme Corra! estão nas diferen-
tes camadas narrativas apresentadas pelo filme. Utilizando-se de marcas
do gênero horror, o diretor Jordan Peele levanta questões que afetam
o cotidiano dos negros nos Estados Unidos, mas de maneira geral nas
sociedades contemporâneas. Com isso, o filme ganha profundidade e,
a partir de uma proposta de afetação, produz reconhecimento para os
afro – mesmo em um suposto contexto inverossímil.
As teorias de Eugene Thacker se mostram um referencial teórico im-
portante para a compreensão e análise sensível de um gênero que cada
vez mais suscita reflexões acerca do desconhecido e tensiona múltiplas
formas de estranhamento, desconforto. O filme Corra! oferece, a partir
dessas camadas narrativas, diferentes leituras.
Este texto apresenta, portanto, dois momentos de observação que se
complementam. O primeiro expõe a conexão da obra com aspectos do
desconhecido e o impensável, a partir de Thacker (2011 e 2015). No
segundo, há o aprofundamento do debate em torno do contexto racial
que a obra de Peele problematiza.
comun. mídia consumo são paulo, v. 17, n. 48, p. 169-192, jan./abr. 2020
190 as relações entre horror e racismo no filme corra!
A R T I G O
Referências
ACKER, A. M. 2017. O dispositivo do olhar no cinema de horror found footage. 214 f.
Tese (Doutorado em Comunicação e Informação), PPGCOM, Universidade Federal do
Rio Grande do Sul, Porto Alegre. 2017.
______. Estudo da experiência estética no cinema: possibilidades e limites da análise
fílmica. Revista Orson, Pelotas, n. 7, p. 66-81, 2014.
______. Experiências estéticas do horror no audiovisual contemporâneo. Atas do VIII
Encontro da AIM, Aveiro, 2018.
ANGRAS, M. O duplo e a metamorfose. A identidade mítica em comunidades nagô. 2.
ed. Petrópolis: Ed. Vozes, 2008.
BLACKWELL, A. Como chegamos aqui? In: COLEMAN, R. R. Means. Horror Noire:
a representação negra no cinema de terror. Rio de Janeiro: DArkSide Books, 2019.
CAMPOS, D. M. C. Que Bloco é Esse, Ilê Aiyê? Uma metáfora do desafio de tornar-se
negro no Brasil. In: 41º CONGRESSO BRASILEIRO DE CIÊNCIAS DA COMUNI-
CAÇÃO. 2018. Joinville. Anais... Joinville: Intercom, 2018.
COLEMAN, Robin R. Means. Horror Noire: a representação negra no cinema de terror.
Rio de Janeiro: DArkSide Books, 2019.
CONRICH, I. Horror zone: The Cultural experience of contemporary horror cinema.
London: I.B Tauris, 2010.
CORRA!. Direção: Jordan Peele. Produção: Couper Samuelson, Edward Hamm Jr.,
Jason Blum, Raymond Mansfield, Sean McKttrick. Intérpretes: Daniel Kaluuya, Alli-
son Williams, Bradley Whitford, Catherine Keener, Betty Gabriel, Marcus Henderson.
Roteiro: Jordan Peele. Los Angeles: Blumhouse Productions, 2017. 1 DVD, (104 min.),
color.
COVRE, G. Diretor de “Corra!” não curtiu o filme ser comédia no Globo do Ouro.
PapelPop, São Paulo, 17 nov. 2017. Disponível em [Link]
jordan-peele-corra-globo-de-ouro/. Acesso em: dez. 2018.
FANON, F. Pele Negra, Máscaras Brancas. Salvador: EDUFBA, 2008.
comun. mídia consumo, são paulo, v. 17, n. 48, p. 169-192, jan./abr. 2020
ana maria acker | deivison moacir 191
A R T I G O
GILROY, P. Entrecampos – Nações, culturas e o fascínio da raça. São Paulo: Anab-
lumme, 2007.
GRANT, C. How long is a piece of string? On the practice, scope and value of video-
graphic film studies and criticism. In: AUDIOVISUAL ESSAY CONFERENCE, 2013,
Frankfurt Film Museum/Goethe University, 2013.
GUMBRECHT, H. U. Produção de presença: o que o sentido não consegue transmitir.
Rio de Janeiro: Contraponto/PUC-Rio, 2010.
______. Atmosfera, ambiência, Stimmung: sobre um potencial oculto da literatura. Rio
de Janeiro: Contraponto: Editora PUC Rio, 2014.
HUTCHINGS, P. The Horror film. London: Routledge, 2004.
KITTLER, F. Mídias ópticas. Rio de Janeiro: Contraponto, 2016.
MAUSS, M. Sociologia e Antropologia. Vol. II. São Paulo: Edusp, 1974.
SANSONE, L. Negritude sem etnicidade: o local e o global nas relações raciais e na
produção cultural negra do Brasil; Tradução: Vera Ribeiro. Salvador: Edufba; RJ: Pallas,
2007.
THACKER, E. In the Dust of this Planet. [Horror of Philosophy, v. 1]. Washington,
USA: Zero Books, 2011.
______. Starry Speculative Corpse. [Horror of Philosophy, v. 2]. Washington, USA: Zero
Books, 2015.
______. Tentacles Longer Than Night. [Horror of Philosophy, v. 3].
Washington, USA: Zero Books, 2015.
Sobre os autores
Ana Maria Acker – Doutora em Comunicação e Informação pela Universidade
Federal do Rio Grande do Sul – UFRGS e mestre pela mesma instituição. Pro-
fessora do curso de Jornalismo da Universidade Luterana do Brasil – ULBRA. É
bacharel em Comunicação Social – Jornalismo e especialista em Cinema pela
Universidade do Vale do Rio dos Sinos – Unisinos. No presente artigo, a autora
abordou os aspectos teóricos do horror no contexto contemporâneo, sobretudo
a partir de Eugene Thacker e Robin Coleman. A concepção do primeiro ensaio
audiovisual de análise (Corra! e os horrores do lugar submerso) e o respectivo
texto também foram.
comun. mídia consumo são paulo, v. 17, n. 48, p. 169-192, jan./abr. 2020
192 as relações entre horror e racismo no filme corra!
A R T I G O
comun. mídia consumo, são paulo, v. 17, n. 48, p. 169-192, jan./abr. 2020