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Pierre

Uma lore de um personagem meu de rpg, gosto muito dele, muito, muito mesmo, muito mesmo. Sério, tipo, demais.

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Pierre

Uma lore de um personagem meu de rpg, gosto muito dele, muito, muito mesmo, muito mesmo. Sério, tipo, demais.

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Pierre Durand Martin​


Pierre Durand Martin nasceu em Paris, na França, em uma madrugada chuvosa que ele
jamais poderia lembrar. Sua mãe, Alice Martin, morreu durante o parto. O único vestígio que
lhe restou dela foi uma fotografia antiga guardada dentro de uma caixa de sapatos e
algumas histórias vagas que seu pai contava quando estava sóbrio o suficiente para
lembrar.​

Seu pai, Bernard Durand, trabalhava constantemente. Era um homem duro, distante e
incapaz de demonstrar afeto. Quando Pierre tinha seis anos, os dois se mudaram para o
Brasil devido a uma oportunidade de trabalho. O garoto não compreendia exatamente o que
estava acontecendo. Apenas sabia que havia deixado para trás sua casa, sua língua e tudo
que conhecia.​

A adaptação foi um desastre.​

Na escola, Pierre mal conseguia conversar com os colegas. As palavras pareciam se
embaralhar em sua cabeça. Enquanto os outros alunos brincavam e corriam pelo pátio, ele
passava os intervalos sozinho, tentando entender o que as pessoas falavam ao seu redor.​

Em casa, as coisas eram ainda piores. Bernard raramente estava presente. Quando estava,
geralmente chegava bêbado. Desde pequeno, Pierre aprendeu a cozinhar porque não tinha
outra escolha. Fazia seu próprio almoço todos os dias e preparava o jantar para si mesmo e
para o pai. Enquanto outras crianças aprendiam a andar de bicicleta, Pierre aprendia a não
deixar a comida queimar.​

Com o passar dos anos, Bernard afundou ainda mais nos vícios. Álcool, cigarros, drogas.
Algumas noites ele chegava acompanhado de mulheres desconhecidas. Outras vezes
chegava apenas procurando um motivo para descontar sua raiva.​

E Pierre quase sempre era esse motivo. Os castigos eram constantes, tapas, socos,
empurrões e queimaduras de cigarro. Toda vez que Bernard se irritava, o corpo do filho se
tornava um lembrete físico de sua frustração.​

O pior aconteceu quando Pierre tinha apenas onze anos. Enquanto limpava a cozinha, uma
garrafa de bebida escorregou de suas mãos e se espatifou contra o chão. O silêncio que
veio depois foi pior do que qualquer grito. Bernard observou os cacos espalhados pelo piso
e apontou para eles.​

“Ajoelha.”​

Pierre tentou explicar, tentou pedir desculpas, tentou dizer que havia sido um acidente. Mas
Bernard não queria ouvir. O garoto passou três horas ajoelhado sobre os cacos de vidro
enquanto o pai saía para beber.
Quando Bernard voltou, encontrou o filho chorando em silêncio, incapaz de levantar
sozinho. As cicatrizes permaneceram em suas pernas pelo resto da vida. Mas as marcas
invisíveis foram muito mais profundas. Quando completou quatorze anos, tudo mudou, ou
pelo menos pareceu mudar.​

Foi nessa época que conheceu Helena. Ela estava escondida atrás do ginásio da escola,
fugindo da diretora depois de ser pega fumando, Pierre estava escondido exatamente no
mesmo lugar, fugindo dos valentões. Os dois ficaram alguns segundos em silêncio, então
Helena ofereceu um cigarro.

“Você fuma?”​

“Não.”​

“Quer começar?”​

Pierre aceitou, Helena deu de ombros e lhe estendeu o cigarro, e assim nasceu uma
amizade. Ela era tudo que ele não era, confiante, impulsiva, corajosa e bonita. Enquanto
Helena afastava os valentões, Pierre a ajudava nos trabalhos e provas. Ela mal conseguia
prestar atenção nas aulas. Ele aprendia rápido quando finalmente entendia o conteúdo.​

Os dois se tornaram inseparáveis. Passavam tardes inteiras conversando sobre qualquer
assunto, compartilhavam segredos, medos e sonhos. Ficavam sentados em telhados
durante a madrugada observando a cidade. Pierre frequentemente fugia de casa para
dormir na casa de Helena quando Bernard estava particularmente agressivo. ​

Foi ao lado dela que ele experimentou álcool pela primeira vez, foi ao lado dela que fumou
seu primeiro cigarro, foi ao lado dela que sentiu que talvez existisse alguém no mundo que
realmente se importava com ele. Com o tempo, a amizade se transformou em algo mais,
nenhum dos dois precisou dizer quando aconteceu. Simplesmente aconteceu.​

Após terminarem o ensino médio, Helena apresentou Pierre a um grupo de amigos.
Traficantes, criminosos, pessoas que viviam completamente fora da lei. Inicialmente, Pierre
não demonstrou interesse. Mas então voltou para casa, voltou para seu pai, voltou para os
gritos, para os socos, para a miséria. E decidiu que preferia qualquer outra vida, mesmo
sendo uma vida criminosa. ​

Seu talento apareceu rapidamente. Pierre possuía uma facilidade assustadora para
química, ele se lembrava das aulas de ciência. Das fórmulas, das reações, das
temperaturas, das proporções. Em poucos meses estava produzindo drogas melhores que
veteranos do ramo. Anos de estudo involuntário e obsessão por detalhes finalmente
serviam para alguma coisa, mas, a ruptura definitiva aconteceu pouco tempo depois.
Bernard encontrou pacotes de drogas escondidos debaixo da cama do filho.

A discussão se transformou em agressão, e pela primeira vez na vida, Pierre revidou. O


homem que passou anos aterrorizando seu filho descobriu que aquele garoto assustado
não existia mais. Os dois trocaram socos, empurrões, sangue. Até que Pierre explodiu.​

“Se minha mãe tivesse sobrevivido, eu preferia morrer de fome todos os dias ao lado dela
do que viver mais um dia com você!”​

Bernard ficou em silêncio. Pierre também. Pegou suas coisas, abriu a porta e foi embora,
sem olhar para trás. Nunca mais pisaria naquela casa.

Os anos seguintes foram os mais lucrativos de sua vida, e também os mais sombrios. Ele e
Helena abandonaram seus antigos contatos e passaram a trabalhar por conta própria.
Enquanto Helena fabricava armas, Pierre produzia drogas, mas, logo descobriu algo que o
fascinava muito mais. ​

Explosivos. Havia algo elegante em uma explosão. Uma ciência brutal, cada componente,
cada cálculo em cada reação. Tudo precisava estar perfeito, e Pierre era perfeito no que
fazia. Logo seu nome começou a circular entre criminosos, mercenários e contrabandistas.
Se alguém precisava de uma bomba impossível de rastrear, chamava Pierre, se alguém
precisava de um laboratório clandestino, chamava Pierre. O dinheiro nunca pareceu tão
fácil.​

Até que Helena chegou em casa com uma nova tatuagem e uma bolsa cheia de objetos
estranhos, raízes, frascos, símbolos, componentes que não faziam sentido. Ela explicou
que um cliente ocultista havia pago daquela forma, e que, em troca, havia lhe ensinado
algo. Um ritual. Pierre riu, achou que era brincadeira, até ver funcionar, naquela noite seu
mundo mudou. O paranormal existia, era real, e estava muito mais próximo do que
imaginava.​

Os pedidos começaram a mudar, primeiro foram objetos estranhos, depois componentes
raros, depois partes de corpos. Cinzas, órgãos, relíquias, motores, objetos carregados de
significado. Quanto mais estranho o pedido, mais dinheiro recebiam, e Pierre nunca
recusava dinheiro, nem Helena. ​

Eles sequestravam, roubavam, torturavam, matavam e vendiam componentes ritualísticos
como quem vende água. O remorso nunca apareceu, ou talvez estivesse escondido em
algum lugar que ambos se recusavam a olhar. Helena mergulhou completamente no
paranormal, seu corpo se encheu de tatuagens ritualísticas, ela falava sobre o Outro Lado
com fascinação.​

Pierre observava tudo de longe, ele gostava da ciência, dos explosivos, da lógica. Não
queria marcas paranormais gravadas na pele, achava que aquilo era um caminho sem
volta, e ele estava certo. A mudança aconteceu durante um trabalho aparentemente
simples.​

Uma invasão, uma família, um pagamento, nada diferente do habitual. Pierre arrombou a
porta, Helena preparou as armas e entraram. Silêncio. Nenhuma pessoa, nenhum sinal de
resistência, até encontrarem o porão. As paredes estavam cobertas por aparelhos
eletrônicos. Fios, monitores, cabos, luzes roxas pulsavam por toda parte, no centro da sala
estavam os corpos de um homem e uma mulher. Ou o que restava deles.​

Carbonizados, fundidos à estrutura metálica, e então as telas começaram a gritar, os gritos
dos dois ecoavam por todos os monitores. Algo saiu das telas: criaturas feitas de energia
pura, luz roxa condensada em formas impossíveis. As balas atravessavam seus corpos, os
rituais de Helena falhavam. A dupla recuou para o andar superior.​

Enquanto Helena tentava ganhar tempo, Pierre desmontava aparelhos eletrônicos em
busca de componentes. Precisava improvisar, precisava pensar, precisava sobreviver. Foi
então que ouviram o barulho dentro do armário. Quando abriram a porta, encontraram duas
crianças, uma menina de aproximadamente nove anos e um bebê. Os dois choravam,
assustados e aterrorizados, a menina protegia o irmão com o próprio corpo.​

Naquele momento algo quebrou dentro de Pierre, e pela primeira vez ele enxergou todas as
vítimas invisíveis que havia deixado para trás. Todas as famílias destruídas, todas as
crianças órfãs, todos os inocentes. Helena percebeu a mesma coisa.​

“Termina essa porra logo, Pierre!”​

Ela empurrou as crianças para perto dele.​

“Protege eles!”​

E saiu do quarto. Os sons da batalha ecoaram pelo corredor: explosões, gritos, rituais e
descargas elétricas. Até o silêncio. Quando Pierre finalmente terminou sua granada de
choque e olhou para fora, viu apenas o corpo carbonizado de Helena, caído no chão,
imóvel, morta. Seu mundo acabou naquele instante. Sem pensar, sem respirar, sem
raciocinar, ele ativou a granada, arremessou e abraçou as crianças.​

A explosão de energia percorreu a casa inteira, as criaturas desapareceram. Mas a onda de
choque foi devastadora, a cama atrás da qual estavam escondidos foi arremessada contra
eles. Quando Pierre acordou, estava vivo. As crianças não. Com lágrimas escorrendo pelo
rosto, ele pegou o corpo de Helena nos braços e saiu da casa. O amanhecer começava a
surgir no horizonte.​

Pela primeira vez em muitos anos, Pierre chorou, não por si mesmo, mas por todos que
havia condenado. Naquela manhã, fez uma promessa. Nunca mais mataria inocentes,
nunca mais seria apenas um criminoso, nunca mais fecharia os olhos para as
consequências de suas ações.​

Desde então, Pierre Durand Martin passou a usar o mesmo conhecimento que antes servia
para destruir. Química, engenharia, explosivos, improvisação, tudo. Agora direcionado para
salvar vidas, porque algumas pessoas buscam redenção. Pierre não. Ele sabe que nunca
poderá apagar seus pecados, mas pretende passar o resto da vida pagando por eles.

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