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A Educação na

Contemporaneidade
Maria Vera Pereira Skitnevsky
A Educação na
Contemporaneidade

Introdução
Neste conteúdo, vamos refletir sobre os aspectos sociais presentes na educação
contemporânea e sobre as tensões ocasionadas pela Revolução Industrial e a
educação popular. Veremos que o início da contemporaneidade é marcado pela
Revolução Francesa, Revolução Industrial, e outros importantes acontecimentos que
mudaram o mundo ocidental, fazendo até mesmo com que fossem implementados
novos modelos educacionais-pedagógicos.

Nesse contexto, a pedagogia contemporânea teve seus modelos elaborados de


acordo com o desenvolvimento econômico, mas, por outro lado, ocasionou fortes
tensões e debates sobre a verdadeira função da educação. Assim, refletiremos
sobre o surgimento das concepções ideológicas da educação/pedagogia. Para
tanto, veremos que as ideologias dominantes acabam por influenciar a educação
de forma a fazer desta instituição uma disseminadora da organização social, bem
como das regras de convivência social.

Estudaremos, também, sobre a obra de Paulo Freire e conheceremos um pouco de


sua vida profissional. Verificaremos que sua pedagogia se aproxima muito mais aos
ideais católicos do que do marxismo, como algumas pessoas pensam. Para isso,
compreenderemos o que é educação bancária e educação libertadora, presentes no
método pedagógico criado pelo filósofo-pedagogo.

Veremos, ainda, sobre a educação nos regimes totalitários europeus do século XX.
Identificaremos como a educação funcionou como difusor em regimes ditatoriais,
no nazismo, no fascismo e, entre as famílias, difundiu os valores ideológicos desses
regimes extremamente reguladores de todos os aspectos da vida dos cidadãos.

2
Por último, analisaremos os temas educacionais emergentes presentes na educação
brasileira da atualidade, em face ao contexto político-social e econômico. Discutiremos
sobre alguns problemas que devem ser superados para melhorar a educação básica
e manter os jovens presentes na escola.

Objetivos da Aprendizagem
• refletir sobre os aspectos sociais presentes na educação contemporânea,
tensões ocasionadas pela revolução industrial e a educação popular;
• refletir sobre as ideologias educacionais surgidas no decorrer do século XX;
• analisar os temas educacionais emergentes presentes na educação brasilei-
ra da atualidade, em face ao contexto político-social e econômico.

3
Os aspectos sociais da pedagogia
contemporânea
A época contemporânea foi iniciada em 1789, com o advento da Revolução Francesa.
Este marco histórico, cujo lema era “liberdade, igualdade e fraternidade”, influenciou
todo o mundo ocidental, causando profundas modificações nas organizações sociais,
políticas e econômicas. As responsabilidades sobre o trabalho e sobre o modo de
condução da vida passam a ser atribuídas a todos os cidadãos.

Curiosidade
Contemporâneo: Acontecimento atual ou presente.

Assim, o aspecto coletivo remete à questão da justiça no contexto sócio-político-


econômico, à ruptura com as tradicionais formas de organização da sociedade em
castas sociais e à organização do trabalho.

A contemporaneidade é marcada por mais um evento: além da Revolução Francesa,


1789, a Revolução Industrial, ocorrida entre 1760 e 1840, na Inglaterra. Tais episódios
levam à consolidação do capitalismo e à formação da classe operária, em oposição
ao capitalismo selvagem (exploração da força de trabalho de forma desumana).

Figura 1: Revolução industrial: implementação de máquinas industriais


Fonte: Plataforma Deduca (2019).

4
A partir do século XX, as sociedades contemporâneas passaram por intensas
modificações advindas de revoluções que culminaram no processo de globalização
mundial iniciado nos anos de 1990.

Revolução Comunista na Rússia, de 1917 a 1991

Contra a manutenção da Rússia na Primeira Guerra, insatisfação popular e crise


econômica, liderada por Lenin com base nas ideias de Karl Marx, sob o lema
“pão, paz e terra”, considerada o maior movimento revolucionário da história.

Segunda Guerra Mundial, de 1939 a 1945

Liderada por Adolf Hitler, disputa por novas fontes de matéria-prima e mercados
entre as potências mundiais; marcou a história pelo racismo, crimes de ódio
contra judeus e comunistas.

Desenvolvimento da indústria tecnológica japonesa, após a


Segunda Guerra

Entre os anos de 1953 e 1973, com o nome de “milagre econômico”, pois o


Japão, após a derrocada da Segunda Guerra, passou a produzir equipamentos
de alta tecnologia e, assim, tornou-se concorrente no mercado mundial.

Fundamentalismo islâmico moderno, após 1980

Originado no Irã, reuniu islamistas radicais, tendo como líder máximo Osama
Bin Laden, que fundou a Al-Qaeda e promoveu ataques à União Soviética
contra sua influência ateísta e, em seguida, atacou os EUA, por considerá-los
aliados de Israel.

Revolução tecnológica e Globalização econômica, após 1980

Ciência e tecnologia foram integradas aos novos modelos de produção para o


consumo em todos os setores sociais. Os governos dos países mais poderosos
economicamente investem no mercado mundial dos novos produtos de consumo.

Esses acontecimentos promoveram novos modelos de organização política e social no


mundo ocidental, com o estabelecimento da democracia e da descentralização do poder
em grande parte dos países do Ocidente. Desse modo, o mundo viu nascerem novos

5
direitos do trabalhador, do cidadão e embates pela igualdade de oportunidades. Entretanto,
as mudanças que consolidaram os novos modelos sociais foram conquistadas com as
lutas de classes de categorias de trabalhadores e resistências políticas.

Figura 2: Cartaz de divulgação da luta dos trabalhadores por direitos e justiça


Fonte: Plataforma Deduca (2019).

Neste contexto, a contemporaneidade fixou na educação uma centralidade imbuída


de servir como instrumento de normatização e mediação social potencializadora da
integração dos sujeitos. Sujeitos que possuem suas individualidades culturais, como
agentes coletivos capazes de transformar a realidade.

Segundo Cambi (1999, p. 381),

A educação/pedagogia — como bem viu Luhmann — veio ocupar um papel


cada vez mais específico (de mediação e de reequilíbrio) no sistema social,
articulando-se num subsistema igualmente plural e orgânico, disseminado
no social, mas coordenado por uma reflexividade (por processos teóricos
de interpretação e projeção) que garante sua funcionalidade, agindo
segundo modelos adequados à sua fase histórica de desenvolvimento.

Assim, o termo educação teve seu conceito ampliado, requisitando novos modelos
pedagógicos, tanto nas práticas sociais quanto em novos saberes a serem
desenvolvidos. Para tanto, foi necessário buscar novas práticas pedagógicas, capazes
de validar a construção do conhecimento nas diversas modalidades educacionais.
Com isso, a escola passou a desempenhar a função do desenvolvimento de
habilidades de acordo com as demandas da contemporaneidade.

6
• A educação formal escolar em suas diferentes fases e etapas, realizadas no
sistema de ensino regulamentado pelo Estado.
• O ensino técnico voltado para a aprendizagem correspondente ao mercado
de trabalho.
• A educação não formal desenvolvida em ambientes fora do sistema tradicio-
nal de ensino (comércio, indústria, igrejas, agrupamentos sociais etc.).

Isso aconteceu no início dos anos 80, com o processo de globalização, marcado
pela interdependência dos mercados internacionais e pela revolução tecnológica.
Processo que promoveu a discussão da educação mundialmente, entre diversos
países interessados em ampliar seus domínios científicos e educacionais. Dentre
eles, os países considerados do Terceiro Mundo, como o Brasil, com profundas
defasagens educacionais, e com grandes problemas de desenvolvimento civil.

Desse modo, a globalização provocou o aceleramento do intercâmbio de informações


entre populações de todo o mundo. A Unesco reuniu esses países em 1990, na Conferência
Mundial de Educação para Todos, com a elaboração do documento Plano de Ação para
Satisfazer as Necessidades Básicas de Aprendizagem. Plano utilizado para que todos os
países traçassem suas metas educacionais sob o monitoramento da Unesco.

Para refletirmos sobre a educação no contexto do desenvolvimento industrial, a


seguir, aprofundaremos nossos estudos, com foco na educação popular.

Tensão educacional: desenvolvimento industrial e


educação
A contemporaneidade, pela complexidade do desenvolvimento social, impôs contradições
resultantes em tensão entre a educação e o trabalho, uma vez que o trabalho como fator
inerente ao homem se tornou um dever social, enquanto a educação, um direito universal.
O encontro entre dever e direito resultou em problemas que envolviam a alternância do
lugar da necessidade primária da Revolução Industrial: educação e trabalho.

O desenvolvimento industrial passou a ser diretamente relacionado à educação


e, para atender às novas demandas de formação para o mercado de trabalho, as
atividades pedagógicas relacionavam a teoria à formação técnica. Então, a escola
assumiu a finalidade imediata da formação a serviço do desenvolvimento do
mercado de trabalho como tarefa primária, deixando para trás a formação de tradição
humanística. Desta forma, foi estabelecida, no âmbito da Revolução Industrial, a
tensão entre o desenvolvimento industrial e a educação.

7
No centro do debate sobre tal tensão, da função humanística da educação em oposição
à formação para o mercado do trabalho, alguns conceitos foram examinados.

Conceitos educacionais debatidos no âmbito do desenvolvimento


industrial
O homem tem como característica específica a práxis, a
Pedagogia
transformação inteligente da natureza.

Fenomenologia do Passagem ao espírito objetivo, à cultura e à produção de saberes


espírito - Hegel específicos e articulados.

Indicação do conceito de Hegel para a fundamentação pedagógica


Marx / Dewey por meio de uma rearticulação entre a compreensão de toda a história
e a caracterização do sujeito.

Pedagogia do século XX para a formação de “um novo princípio


Gramsci
educativo”.

Tabela 1: Conceitos educacionais em debate no âmbito do desenvolvimento industrial


Fonte: Cambi (1999, p. 395-396).

Em detrimento de uma educação voltada para o desenvolvimento cognitivo, o currículo


escolar passou a privilegiar as necessidades das indústrias para formar mão de obra
qualificada, uma vez que muitos países, como o Brasil, tinham uma grande parte da
população advinda de trabalhos no campo ou de serviços artesanais no ambiente urbano.

Assim, as atividades voltadas para o aprender a fazer eram trabalhadas dentro da


sala de aula, com o objetivo de aliar a parte teórica ou aspecto não produtivo como
um treinamento de aquisição da habilidade para o trabalho nas oficinas.

Figura 3: Educação para o mercado de trabalho


Fonte: Plataforma Deduca (2019).

Dessa maneira, a educação adquiria o ritmo da industrialização com a pretensão de


formar mão de obra a toque de caixa, espelhando o taylorismo e o fordismo.

8
Taylorismo

Sistema desenvolvido pelo engenheiro estadunidense Frederick W. Taylor para


se obter produção industrial rápida e de qualidade, por meio de treinamento de
funcionários, supervisão do trabalho e pagamento por produção.

Fordismo

Termo que conceitua a linha de produção em massa articulada ao consumo


em massa como fomentação do capitalismo, criado pelo mecânico de carros
Henry Ford (1863-1947). Com isso, Ford implementou a automatização da
montagem dos carros em uma esteira que deslizava para o encaixe das peças.
Assim, os operários não se movimentavam e não precisava de formação
técnica para as atividades.

Este aspecto utilitarista da educação foi contraposto por diversas correntes ativistas
educacionais, que surgiram no início dos anos de 1900 com novas propostas de
teorias de aprendizagem voltadas para um ensino que aliasse as atividades práticas
ao desenvolvimento intelectual. Neste contexto, Gramsci elaborou a teoria do trabalho
como princípio educativo, sendo a educação voltada para o mundo do trabalho.

Saiba mais
O filme Tempos Modernos, dirigido por Charles Chaplin, é um
excelente exemplo de crítica ao modelo de produção industrial
da primeira metade do século XX. No filme, Chaplin demonstra
genialmente como era realizada a linha de produção baseada no
taylorismo-fordismo, objetivando o aumento da produtividade.
Confira em: [Link] Acesso em: 8 jan.

Até aqui vimos que a contemporaneidade inseriu na educação o debate sobre a função
social da escola versus o mercado de trabalho. Sendo assim, na primeira metade do
século XX surgem diversas teorias ideológicas criadoras de vertentes educacionais
estabilizadoras de modelos seguidos de acordo com os objetivos institucionais
educativos e fundamentadores das políticas públicas educacionais. A partir desse
estudo, a seguir veremos quais foram essas teorias ideológicas.

9
Século XX: ideologias educacionais
Na contemporaneidade, a educação é vista como instituição social estruturada
pelos aspectos políticos, econômicos e culturais. Constituída em uma prática
social cujo objetivo é de transformar a realidade por meio do trabalho ligado ao
desenvolvimento dos sujeitos como pessoa humana e de acordo com os elementos
culturais e históricos da sociedade em que está inserido. A partir desse princípio,
desenvolveram-se ideologias legitimadoras dos anseios de diversos grupos sociais,
econômicos, culturais, governamentais, empresariais e religiosos.

Segundo Chauí (2014, p. 53):

A ideologia é um conjunto lógico, sistemático e coerente de representações (ideias e


valores) e de normas ou regras (de conduta) que indicam e prescrevem aos membros
de uma sociedade o que devem pensar e como devem pensar, o que devem valorizar
e como devem valorizar, o que devem sentir e como devem sentir, o que devem fazer
e como devem fazer. Ela é portanto, um corpo explicativo (representações) e prático
(normas, regras, preceitos) de caráter prescritivo, normativo, regulador, cuja função é
dar aos membros de uma sociedade dividida em classes uma explicação racional para
as diferenças sociais, políticas e culturais, sem jamais atribuir tais diferenças à divisão
da sociedade em classes a partir das divisões na esfera da produção econômica.

Desse modo, observamos o caráter ideológico estruturador da pedagogia com


origem no marxismo. Para Marx, “as ideias dominantes” em determinados momentos
históricos são carregadas de objetivos sociopolíticos, interesses econômicos
e visão do mundo. Assim, a ideologia insere na educação o caráter dialético pela
complexidade dos papeis que assume como agente social e como agente político.
Essas concepções não se remetem a uma educação marxista, mas sim a uma base
filosófica presente em todos os campos da organização social.

A partir dessas premissas, vemos que a base das ideologias educacionais se encontra
no raciocínio sobre o modo de organizar a sociedade, por meio de um repertório de
regras posto a favor de quem ocupa o poder ou quer ocupá-lo. Isto é pelo poder
político controlado pelo Estado.

Neste sentido, as ideologias pedagógico-educacionais estão inseridas nos aspectos


mais abrangentes da sociedade como forma de emitir valores, modelos de formação,
atitudes mentais que promovam a unificação social dos diferentes grupos sociais e
seus modos de vida.

10
Figura 4: Ideologias educacionais: emissão de regras, valores e atitudes
Fonte: Plataforma Deduca (2019).

Sendo assim, a partir do início do século XX, a educação/pedagogia adquire um papel


social guiado pelo intrínseco caráter político do qual ela passa a ser imbuída.

Segundo Cambi (1999, p. 385),

Este forte vínculo com a ideologia produziu também uma politização cada
vez mais nítida da pedagogia, que significa um entrelaçamento máximo
com as teorizações políticas, com os grandes movimentos políticos, mas
também com as estratégias e as táticas da política, comum a partidos,
a programas, a alianças políticas etc. A pedagogia viveu em estreita
simbiose com o político, tornando-se uma das ”portas de entrada” do
fazer política: esta, de fato, sempre implica também políticas (isto é,
programas e intervenções) da educação, da instrução, da formação, que
se distribuem em várias instituições (da escola às associações) que o
”político” deve administrar e controlar.

No bojo dessas concepções, a pedagogia entra para o século XX renovando suas


práticas e estabelecendo preceitos inovadores denominados como “escolas novas”.

11
Escolas novas

As escolas novas baseiam-se em teorias pedagógicas de cunho social liberal


e democrático, apoiadas em expoentes do novo pensamento pedagógico, tal
como o americano John Dewey (1859-1952).

Formação do cidadão

Trata-se, portanto, de uma educação preocupada em formar o cidadão capaz de


transformar a realidade em que vive com base nos conhecimentos adquiridos.

Com isso, a seguir refletiremos sobre a perspectiva educacional de Paulo Freire.

A perspectiva educacional de Paulo Freire


Paulo Freire foi o educador brasileiro com maior reconhecimento internacional de
todos os tempos, após a publicação de seu livro Pedagogia do oprimido, em espanhol,
no Chile, em 1968; em inglês, nos Estados Unidos, com 25 edições, e traduzido para
27 idiomas. No Brasil, foi publicado em 1975, com a autorização do regime militar.

Figura 5: Paulo Freire


Fonte: Centro de Referência Paulo Freire (2019).

Em 1969, Freire trabalhou na Universidade Harvard e, depois de um semestre


lecionando, aceitou o convite para trabalhar como consultor do departamento de
Educação no Conselho Mundial das Igrejas em Genebra, Suíça. Com esse cargo,
assessorou as missões religiosas em países do Terceiro Mundo, com destaque para
os africanos.

Quem foi Paulo Freire? E como atuou na educação?

12
Paulo Freire

Paulo Reglus Neves Freire nasceu em 1921, em Recife, Pernambuco.

Primeiro contato com a educação

Seu primeiro contato com a educação de adultos ocorreu quando a confederação


Nacional das Indústrias o convidou para ser o diretor do recém criado SESI,
onde trabalhou de 1947 a 1957 em diferentes cargos.

Titulo de Doutor

Trabalhou em outros cargos governamentais e, em 1961 recebeu, por meio de


concurso, o título de Doutor em Filosofia e História da Educação.

Além disso, na década de 1960, participou de movimentos culturais de base, com


destaque para o Movimento de Cultura Popular (MCP) da UNE e para o Movimento de
Educação de Base (MEB), ligado à confederação Nacional dos Bispos do Brasil. Em
1963, Freire deu início ao Programa Nacional de Alfabetização com o Método Paulo
Freire, que tinha a meta de alfabetizar cinco milhões de brasileiros.

Figura 6: Alfabetização
Fonte: Plataforma Deduca (2019).

No entanto, com o golpe de 1964, foi preso e teve de sair do país. Considerando sua
atuação no Brasil, nos anos de 1980, Ghiraldelli Jr. (2012, p. 19) afirma que:

13
As comunidades Eclesiais de Base davam o tom da Teologia da Libertação,
o cristianismo de esquerda da época. Isso soava bem a Freire e, enfim, ao
trabalho que ele havia desenvolvido como consultor especial do Conselho
Mundial das Igrejas. No entanto, ele procurava não se inviabilizar com
outros que considerava também de esquerda. Todavia, ortodoxia não era
mesmo com ele. A dicotomia teórico-prática só iria ser superada, segundo
seus dizeres, se ele pudesse continuar a fazer experiências com diversos
pensamentos, doutrinas, técnicas e leituras. Paulo Freire continuava a ser
o que sempre foi, antes de tudo, um experimentador.

Essas considerações iniciais sobre a vida de Paulo Freire nos remetem diretamente
às suas perspectivas educacionais. Com uma ideologia pedagógica libertadora,
Freire dá voz, por meio do diálogo, aos oprimidos. Isto significa dar voz aos sujeitos
marginalizados da sociedade, que, por produzirem uma cultura emergente das
comunidades, merecem ser considerados nos projetos educacionais.

Curiosidade
Trata-se da educação preocupada com o migrante nordestino.
Sujeito afastado dos processos de industrialização, vivendo
nas grandes cidades, submetidos à manipulação dos meios de
comunicação de massa que emitiam a ideologia dominante e,
desta forma, alienavam o trabalhador.

Em oposição a esse estado de não valorização da cultura popular, Paulo Freire elaborou
a proposta de “desalienação do povo” por meio de uma pedagogia horizontal, em que
o professor se coloca ao lado do trabalhador com o “diálogo amoroso”. Este conceito
se refere ao encontro de pessoas que se identificam, que se amam e se unem para
transformar o mundo. Encontro que ocorre para a promoção de uma educação em
que ninguém educa ninguém, mas todos se educam juntos.

Nesse contexto, o diálogo se estabelece em torno das experiências vivenciadas na


comunidade do educando. A partir desse conhecimento, o professor, por meio dos temas
geradores, advindos da realidade do educando, problematiza as vivências de modo que
o aluno alcance uma visão crítica da realidade, reflita sobre ela e alcance a consciência
de seu modo de estar no mundo. Esta metodologia pedagógica deve ser concretizada
quando o educando realiza transformações na sociedade em que está inserido.

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Figura 7: Educação baseada no diálogo e na autonomia
Fonte: Plataforma Deduca (2019).

O contrário da educação postulada por Paulo Freire é a educação convencional,


aquela em que a pedagogia reproduz o ideal elitista, conservador e tradicional. Freire
a conceituou como “educação bancária”.

Atenção
A educação “bancária” é aquela em que o professor deposita
o conteúdo para que o aluno o use no momento dos exames
excludentes. Na verdade, seria o conhecimento do outro, portanto,
afastado do conhecimento do aluno, de sua cultura produzida em
sua comunidade. .

Trata-se de um modelo pedagógico que impõe ao educando os dogmas proferidos pelo


professor detentor do conhecimento, ou seja, o aluno recebe apenas o conhecimento
transmitido pelo professor sem refletir sobre o que está sendo depositado em si
como conhecimento. Neste sentido, o professor saberia sobre tudo e os alunos não
saberiam nada; o professor pensa pelo estudante; fala e os estudantes escutam.

Com a proposta pedagógica de Paulo Freire, o educando deixa de ser um indivíduo


alienado para se transformar em sujeito histórico, aquele que constrói sua história

15
por meio da socialização. Assim, transita-se da “consciência ingênua” para a
“consciência crítica”, para a autonomia.

Figura 8: Professor detentor do conhecimento


Fonte: Plataforma Deduca (2019).

Contrariando a visão marxista sobre a obra de Paulo Freire, devemos considerar que
o pedagogo, ao valorizar a subjetividade dos educandos e dos educadores, afasta-se
do materialismo mecanicista preconizado por aqueles que defendem o determinismo
teórico de Marx. Pelo contrário, a pedagogia freiriana postula justamente a libertação
por meio da problematização da realidade e da consciência crítica como meios para
transformar a realidade.

A educação em regimes totalitários


Nos países totalitários, não cabe a discussão sobre ideologias, pois a sociedade
é organizada e regulamentada burocraticamente por um governo autoritário e
militarista. Se na democracia há vários partidos a defender suas ideologias, no
totalitarismo há apenas o partido-Estado.

Os regimes totalitários emergiram no século XX, após a Primeira Guerra Mundial,


quando o mundo passava pela primeira crise capitalista.

Benito Mussolini

O primeiro governo totalitário fascista foi o de Benito Mussolini, que ocorreu na


Itália entre os anos de 1922 e 1945.

Josef Stalin

16
O regime comunista da União Soviética passou a ser totalitarista quando Josef
Stalin chegou ao poder em 1927 e perdurou até 1953.

Adolf Hitler

Na Alemanha, o nazismo comandado por Adolf Hitler ocorreu entre os anos de


1933 e 1945.

Antônio de Oliveira Salazar

Em Portugal, o salazarismo teve como líder o ditador Antônio de Oliveira Salazar


entre os anos de 1933 e 1974, terminando com a Revolução dos Cravos.

Francisco Franco

O franquismo na Espanha, liderado pelo general ditador Francisco Franco durou


de 1939 a 1977, após a morte de seu líder e dissolução das cores franquistas.

A educação no totalitarismo serviu como um dos mais profícuos apoios para o êxito
desse regime em todos os países. Desse modo, a escola serviu como base para
difundir os valores fascistas, nazistas e soviéticos, e a ordem social.

Com isso, os teóricos da educação aderiram ao sistema conservador e ideológico-


totalitário. Entretanto, o nazismo exacerbou suas bases ideológicas implantando a
educação moral racista, preconceituosa e militarizada.

Na União Soviética, houve um diferencial em relação aos outros países, pois o


stalinismo elaborou uma educação totalitarista, porém com forte desenvolvimento
cultural. Foi fundada a Juventude Comunista com programações extraclasse no
tempo livre do estudante, que era preenchido com atividades para veicular a ideologia
do Estado, por meio de:

• Competições esportivas;
• Trabalhos em grupo;
• Conferências de disseminação da ideologia comunista direcionadas para a
assimilação da não religiosidade.

17
Figura 9: Educação totalitarista: perda da identidade individual dos educandos
Fonte: Plataforma Deduca (2019).

Na Espanha, a educação foi organizada de maneira rígida, de forma que a educação


humanista passou a ser ministrada para as classes dirigentes. Aos subalternos, o
homem comum do povo, foi direcionada a educação técnica. Para proporcionar uma
cultura formativa, havia o ensino literário, histórico e filosófico que imprimia à educação
elementar uma concepção de mundo dirigida de acordo com a ideologia vigente.

Figura 10: Educação para veiculação da ideologia totalitarista e fascista


Fonte: Plataforma Deduca (2019).

A dominação por meio da educação se sofisticou com o avanço do fascismo e do


racismo na Europa, os modelos educacionais foram padronizados com livros de texto
único, escola-trabalho e juramento de professores universitários.

Segundo Cambi (1999, p. 581):

Os totalitarismos – mesmo nas suas profundas assimetrias – manifestam


características comuns, em particular aquela que se liga a uma rearticulação da
educação na sociedade de massa; a educação – nelas – sai dos agentes tradicionais
(família e escola, sobretudo) para colocar em causa o Estado e a sua capacidade de
administrar o tempo livre das jovens gerações, para controlá-la e socializá-la.

18
Essas premissas remetem a uma educação extraclasse totalmente voltada para
a manipulação do indivíduo, que deixa de ser um sujeito histórico ao ter suas
individualidades anuladas pela rigidez autoritária. As pedagogias totalitárias se
desenvolvem por meio do conformismo com todas as exigências de cima para baixo,
pela perda da individualidade, sem espaço para as subjetividades do educando,
características que empobrecem a educação.

Temas educacionais emergentes da educação


brasileira no atual contexto político-social
As políticas públicas educacionais brasileiras na atualidade são reflexos de demandas
internacionais impulsionadas pela globalização mundial e nacional, de acordo com
as questões socioeconômicas e culturais internas. Por este motivo, a atual Lei de
Diretrizes e Bases da Educação Básica Nacional, a LDB/ nº 9.394, de 20 de dezembro
de 1996, é ratificada pela Constituição Federal de 1988. A Constituição previu no Art.
22: Compete privativamente à União legislar sobre: inciso XXIV Diretrizes e bases da
educação nacional (BRASIL, 1988). Do Art. 205 ao Art. 214 a Constituição passa a
legislar sobre os parâmetros da educação.

Figura 11: Constituição brasileira


Fonte: Plataforma Deduca (2019).

Com isso, percebemos que a atualidade socioeconômica e as questões relacionadas


à elaboração das políticas sociais têm colocado a educação no centro das discussões
de caráter social. Isso acontece em virtude da dinâmica das mudanças ocorridas no
campo político e, em paralelo, das demandas da população, com exigências para o
enfrentamento dos novos modelos econômicos que afetam a vida produtiva de todos.

19
Transformações econômico-sociais)

As recentes transformações sociais e econômicas, juntamente com a


mundialização tecnológica, implementam novas tendências educacionais
que exigem mudanças, tanto nas políticas públicas, como na atuação dos
educadores. Essas mudanças devem ter como objetivo o alcance de uma
qualidade do ensino que não perca a função primordial da escola, que é a de
ensinar e construir a cidadania.

Conceito de cidadania

O conceito de cidadania clássico é aquele referente aos primeiros direitos


fundamentais instaurados no início da contemporaneidade. Atualmente, o
termo cidadania ganhou amplitude em virtude das conquistas de direitos
civis, da diversidade social e do mundo globalizado. Então, cidadania se
refere às particularidades sociais do sujeito na sociedade e sua significação
pode variar de um país para outro.

Diante desse contexto nacional contemporâneo, novas formas de pensar a educação


devem estar presentes nas políticas educacionais e, para compreender melhor as
novas tendências, vejamos o quadro analítico dos temas educacionais emergentes
da educação brasileira.

20
Temas Emergentes Análise perspectiva
Universalização da Valorização da educação formadora: habilidades
educação infantil e da cognitivas, competências sociais e pessoais; permanência
educação básica na escola.

Responsável pela articulação e colaboração entre


Regulamentação do
os estados e municípios para a melhoria do ensino,
Sistema Nacional de
reestruturação da carreira do magistério, e do
Educação
financiamento da Educação Básica.

Formação de indivíduos capazes de aprender


Formação inicial e permanentemente em relação às novas tecnologias e
continuada do professor novas formas de organização do trabalho; reestruturação
do plano de carreira.

Desenvolver conhecimentos, capacidades e qualidades


para a autonomia; superar o retrocesso da aprendizagem
Qualidade do ensino
mensurado por avaliações externas; consciência crítica da
cidadania; formação de cidadãos éticos e responsáveis.

Quadro 1: Temas educacionais emergentes da educação brasileira e análise perspectiva


Fonte: Elaborado pela autora (2019).

Diante das emergentes demandas para a educação brasileira na atualidade, os


governos democráticos anteriores ao ano de 2019 editaram medidas para melhorar
a qualidade do ensino. A Base Nacional Comum Curricular, homologada no ano
de 2018, deve entrar em vigor em 2020. Trata-se de um documento que unifica a
aprendizagem de todos os educandos brasileiros. Além de relacionar as competências
e as habilidades a serem desenvolvidas na educação básica e de procurar manter o
aluno na sala de aula. Confira o percentual de alunos no ensino médio.

21
Figura 12: Percentual de alunos do ensino médio que estavam na série esperada para a idade em 2017

Fonte: IBGE/(2018).

Nesse contexto, verificamos que as expectativas em torno de avanços educacionais


são urgentes e devem ser encaradas como prioridade governamental. Isso porque
não há tempo a perder em vista dos indicadores de analfabetismo verificados em
11,5 milhões de brasileiros (IBGE, 2019), índices de aproveitamento dos estudos
mensurados abaixo da média esperada nas avaliações externas, bem como perante
os índices internacionais.

22
Conclusão
Nesse conteúdo, estudamos sobre os principais aspectos da educação/pedagogia
na contemporaneidade, bem como analisamos os principais temas da educação
brasileira na atualidade.

Vimos que a contemporaneidade foi iniciada com a Revolução Francesa, em 1789,


com o lema “liberdade, igualdade e fraternidade” que influenciou uma profunda
mudança político-social em todo o mundo ocidental. Outros acontecimentos que
contribuíram para o estabelecimento da sociedade contemporânea foram: a Revolução
Industrial iniciada na Inglaterra, a Revolução Russa, a Segunda Guerra Mundial, o
desenvolvimento tecnológico japonês e o fundamentalismo islâmico moderno.

Com isso, observamos que a classe trabalhadora conquistou, por meio de lutas,
novos direitos. A educação ganhou uma posição de centralidade, contribuindo com
a normatização e mediação social potencializadora da integração dos sujeitos e da
formação do novo cidadão, por meio de novos modelos pedagógicos.

Além disso, verificamos que o desenvolvimento industrial provocou tensões entre os


objetivos de formação para o trabalho ou para a formação humanista. Neste contexto,
a educação passou a ter um caráter utilitário voltado para suprir o mercado de trabalho.

Por isso, novos conceitos educacionais foram debatidos considerando o que se


depreendia do pensamento de Hegel, Marx, John Dewey e Gramsci. As novas teorias
refletiam as ideologias que passaram a influenciar a organização da sociedade, tendo
a educação como principal meio de disseminação da regulamentação social.

No bojo das teorias educacionais, pudemos refletir sobre o método pedagógico de Paulo
Freire que postulou uma educação libertadora para a formação do cidadão consciente
e crítico, emancipado e autônomo em oposição à “educação bancária” e opressora.

Assim, percebemos que o contexto sócio-político-econômico brasileiro, bem como


as exigências internacionais para a educação, têm influenciado fortemente reformas
nos modelos pedagógicos. Os temas educacionais emergentes da atualidade da
educação brasileira nos remetem à urgência na implementação de um compromisso
com a superação dos graves problemas de universalização da educação infantil e da
educação básica, assim como da eliminação do alto número de brasileiros analfabetos.

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Com isso, identificamos a importância da formação continuada dos professores e a
qualidade do ensino como propostas governamentais que precisam ser colocadas
em prática de maneira efetiva, além de tornar a educação uma profissão atrativa.

Por fim, verificamos que a Base Nacional Comum Curricular objetiva unificar a
aprendizagem em todo o território brasileiro, uma vez que o número de alunos
do ensino médio na sala de aula em idade adequada está bem aquém das metas
estabelecidas para a educação básica brasileira.

Saiba mais
Para conhecer a proposta da Base Nacional Comum Curricular
na íntegra, bem como conhecer os materiais de apoio, veja o link:
[Link] Acesso em: 31 jan. 2018.

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Referências
BRASIL. Constituição da República Federativa do Brasil de 1988. Brasília:
Casa Civil. Disponível em: [Link]
[Link]. Acesso: 30 jan. 2019.

CAMBI, F. História da pedagogia. São Paulo: Ed. UNESP, 1999.

CHAUÍ, M. A ideologia da competência. Belo Horizonte: Autêntica Editora; São Paulo:


Fundação Perseu Abramo, 2014. Disponível em: [Link]
[Link]/#/books/9788582171325/cfi/53!/4/2@100:0.00.

FREIRE, P. Acervo Paulo Freire: Centro de Referências Paulo Freire. Disponível em:
[Link] Acesso: 30 jan. 2019.

GHIRALDELLI JR. P. As lições de Paulo Freire filosofia, educação e política.


Barueri: Manole, 2012. Disponível em: [Link]
books/9788520448977/cfi/0!/4/4@0.00:71.2

IBGE. Analfabetismo cai em 2017, mas segue acima da meta para 2015. Brasília:
Agência IBGE de Notícias. Disponível em: [Link]
agencia-noticias/2012-agencia-de-noticias/noticias/21255-analfabetismo-cai-
em-2017-mas-segue-acima-da-meta-para-2015. Acesso: 31 jan. 2019.

LOPES, E. M. S. T.; FARIA FILHO, L. M. de; VEIGA, C. G. 500 anos de educação no Brasil.
3. ed. Belo Horizonte: Autêntica, 2003.

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