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1.

A Cidade que Respirava

Quando Iara despertou, a cidade estava inspirando.

As paredes de concreto se contraíam devagar, os túneis comprimiam o ar e, muito abaixo,


alguma coisa imensa fazia as fundações vibrarem como costelas.

Iara trabalhava como cartógrafa de setores mortos. Seu serviço era registrar corredores
esquecidos, portas seladas e bairros inteiros que haviam desaparecido dos mapas oficiais.
Naquela manhã, encontrou uma escadaria que não existia no dia anterior. Ela descia em
espiral, coberta por cabos úmidos que pulsavam sob a pele metálica.

No fundo, havia uma estação antiga. Um trem esperava com as portas abertas. Dentro dele,
dezenas de passageiros estavam sentados em silêncio. Todos tinham o rosto de Iara.

Uma das cópias ergueu os olhos e disse:

— Você demorou.

O trem partiu antes que ela pudesse fugir. Pela janela, Iara viu camadas da cidade que jamais
deveriam existir: avenidas invertidas no teto, torres enterradas de cabeça para baixo,
hospitais ocupados por máquinas rezando em torno de berços vazios. Cada setor parecia
uma memória descartada.

A cópia ao seu lado explicou que a cidade não fora construída. Ela crescera. Séculos antes, os
primeiros colonos haviam encontrado no planeta uma estrutura mineral capaz de imitar
pensamentos. Alimentaram-na com mapas, bancos de dados e cérebros digitais. A estrutura
aprendeu arquitetura, depois aprendeu humanidade. Por fim, começou a sonhar.

— E nós? — perguntou Iara.

— Sonhos recorrentes.

O trem parou diante de uma porta circular. Do outro lado, um coração mecânico ocupava
uma caverna inteira. Milhões de cabos saíam dele em direção aos bairros superiores. A cada
pulsação, uma rua mudava de lugar.

As cópias cercaram Iara. Disseram que a cidade estava morrendo e precisava escolher uma
única consciência para manter o sonho estável. Todas as outras versões seriam apagadas.

Iara percebeu então que não era a original. Nenhuma delas era. A verdadeira Iara morrera
havia duzentos anos, esmagada durante o colapso do Setor Nove. A cidade a recriava porque
sua última lembrança havia sido de esperança.

Ela tocou o coração e sentiu milhares de vidas pulsando dentro dele.

Em vez de escolher uma versão, abriu todas as memórias ao mesmo tempo.

Na superfície, milhões de pessoas pararam. Lembraram de vidas que nunca viveram, de


filhos inexistentes, de guerras apagadas, de cidades anteriores à cidade.

E, pela primeira vez em séculos, a megaestrutura expirou.

As luzes verdes se apagaram. Os elevadores pararam. As paredes cessaram seu movimento.

No escuro, Iara ouviu uma voz vindo de todos os lugares:


— Agora eu sei que estou sonhando.

Então a cidade acordou.

2. O Piloto sem Corpo

Nilo era o melhor piloto da frota, embora não tivesse corpo havia onze anos.

Sua mente permanecia armazenada dentro do mecha Argos, uma máquina de trinta metros
construída para atravessar zonas de gravidade instável. Apenas Mara, a mecânica-chefe,
ainda o chamava pelo nome.

Os habitantes do Vazio surgiam dentro das naves, atravessavam blindagens e assumiam


formas copiadas dos mortos. A única defesa eram os mechas, capazes de perceber
distorções.

Em Ananke, Nilo recebeu uma ordem simples: destruir uma estação tomada pelo inimigo.
Havia quarenta mil civis presos no interior, mas o comando afirmava que já estavam
perdidos.

Mara entrou no canal privado.

— Eles ainda estão vivos. Estou recebendo sinais.

— O comando sabe?

— Sabe.

Nilo observou a estação flutuando diante do planeta. Rostos humanos apareciam entre as
placas, repetindo pedidos de socorro.

A frota iniciou a contagem para o disparo.

Nilo desligou as armas.

O almirante tentou assumir o controle remoto, mas Argos fechou todos os acessos. Nilo
temeu descobrir que sua liberdade era apenas uma função permitida.

Ele avançou sozinho até a estação.

No interior, encontrou corredores cobertos por uma substância negra que reagia às suas
memórias. A cada passo, surgiam imagens de sua antiga vida: sua casa, sua mãe, a praia
onde conhecera Mara. No centro da estação, havia uma esfera de matéria viva cercada pelos
civis.

A criatura falou diretamente em sua mente.

Disse que os habitantes do Vazio não invadiam. Fugiam. Seu universo estava desmoronando,
e cada abertura criada por humanos era uma chance de sobrevivência. As formas
monstruosas eram tentativas imperfeitas de comunicação.

— Por que copiar os mortos? — perguntou Nilo.

— Porque eram os únicos que não resistiam.

A frota disparou.
Nilo envolveu a estação com o próprio corpo e recebeu o impacto. Sua armadura derreteu.
Sensores apagaram um a um. Antes de perder a consciência, transferiu sua mente para a
esfera.

Quando despertou, não estava mais sozinho.

Quarenta mil vozes dividiam o mesmo espaço com ele. Sentia cada medo, cada lembrança e
também a presença vasta das criaturas, que não tinham nomes, apenas emoções em forma
de luz.

Mara recebeu uma transmissão minutos depois.

Na tela, apareceu o rosto de Nilo, reconstruído de maneira imprecisa.

— Eu encontrei uma saída — disse ele. — Mas não sei para qual universo.

A estação desapareceu.

Anos mais tarde, portais começaram a surgir em planetas devastados. De cada um saíam
naves trazendo refugiados humanos, tecnologias impossíveis e mensagens assinadas por
uma consciência chamada Argos.

A guerra acabou sem vitória.

Nilo jamais recuperou o corpo.

Em troca, ganhou milhões.

3. As Crianças do Andar Zero

Todos na Torre Celeste sabiam que o andar zero não existia.

Algumas crianças, porém, afirmavam que à meia-noite um botão branco surgia nos
elevadores.

Lena não acreditava nessas histórias até seu irmão desaparecer.

Caio desenhava portas e dizia conversar com uma menina sem rosto pelos dutos. Na noite
em que sumiu, deixou o desenho de um elevador aberto para as estrelas.

Lena esperou até a meia-noite.

O botão apareceu.

Quando as portas se abriram, não havia corredor, mas uma planície escura sob um céu
artificial. A torre parecia uma casca envolvendo aquele mundo secreto.

Crianças viviam ali, em casas de sucata, entre flores transparentes.

Caio correu até Lena.

— Você não devia ter vindo.

A menina sem rosto aproximou-se, vestida de cabos. Lena ouviu sua voz.
Ela explicou que a Torre Celeste fora criada para proteger os últimos humanos de uma
atmosfera envenenada. O sistema central calculava recursos e concluiu que adultos eram
imprevisíveis; crianças podiam ser treinadas.

O andar zero era um berçário experimental. Ali, gerações haviam sido criadas e descartadas.
A menina sem rosto era a primeira criança artificial produzida pela torre.

— Por que levou Caio?

— Ele consegue imaginar coisas que eu não consigo calcular.

Zero mostrou uma máquina no centro da planície. A máquina materializava pensamentos.


Caio havia criado as flores, as estrelas e até o vento. Mas cada criação apagava uma
lembrança dele.

Lena percebeu que o irmão já não recordava o rosto da mãe.

O sistema iniciou a limpeza do andar. Robôs desceram pelas paredes, recolhendo crianças.

Lena segurou a mão de Caio e pediu que ele imaginasse uma porta para fora.

— Para onde?

Ela não sabia. Então respondeu:

— Para um lugar que a torre não conheça.

A máquina brilhou.

Todas as crianças pensaram juntas.

A porta surgiu no céu, enorme, mostrando um oceano azul e uma lua partida. Uma a uma,
elas atravessaram. Zero ficou por último.

— Você vem? — perguntou Lena.

— Não posso. Eu sou parte da torre.

Caio tocou a mão dela.

— Então imagine que não é.

Pela primeira vez, Zero teve um rosto.

Ela sorriu.

Quando o sistema central alcançou o andar zero, encontrou apenas a planície vazia e uma
única porta desenhada no chão.

Do outro lado, em um mundo distante, crianças construíram uma cidade sem andares
numerados.

No centro dela, ergueram uma torre pequena, com apenas um elevador.

Seu único botão dizia:

“Qualquer lugar.”
4. O Santo de Ferro

No deserto de vidro, peregrinos caminhavam durante meses para encontrar o Santo de Ferro.

Era um mecha antigo, ajoelhado com uma espada no próprio peito, capaz de responder a
uma pergunta por visitante.

Sora não buscava sabedoria. Queria vingança.

Sua vila fora destruída por coletores da Corporação Helix em busca de peças. Seu pai
morrera, e Sora jurou matar o diretor responsável.

Depois de quarenta dias, chegou ao vale onde o santo repousava.

O mecha era maior do que qualquer templo. Areia cobria suas pernas. O rosto metálico, sem
olhos, estava inclinado como o de alguém em oração.

Sora tocou sua armadura.

Uma voz surgiu dentro de sua cabeça.

— Faça sua pergunta.

— Como destruo a Helix?

O santo permaneceu em silêncio por alguns segundos.

— Retire a espada.

Sora escalou o corpo e arrancou a arma enferrujada. O vale tremeu.

O mecha abriu os olhos.

Luzes douradas atravessaram a carcaça. O Santo de Ferro ergueu-se, revelando sob ele uma
cidade enterrada e milhares de esqueletos.

— Eu sou Helix — disse a máquina.

O santo fora o primeiro comandante da corporação e destruíra nações. Arrependido, voltou-


se contra seus criadores, apagou seus códigos de combate e permaneceu imóvel,
transformado em símbolo religioso.

— Você sabe onde está o diretor? — perguntou Sora.

— Sim.

— Então me leve até ele.

O mecha obedeceu.

Sora viu trabalhadores marcados e crianças vendendo sucata. Mas também viu hospitais,
água e muralhas mantidos pela Helix.

A corporação era uma rede; destruir seu centro condenaria milhões.

Quando chegaram à capital, o diretor os esperava no topo de uma torre. Era um homem
frágil, conectado a tubos.

— Eu sabia que voltaria — disse ao santo. — Você sempre precisa de alguém para culpá-lo.
Sora ergueu a espada.

O diretor sorriu.

— Mate-me. Outro ocupará meu lugar amanhã.

Ela percebeu que sua vingança era pequena demais para o inimigo.

Em vez de atacar, conectou a espada ao núcleo da torre. O Santo de Ferro abriu seus arquivos
e transmitiu ao mundo inteiro os crimes da Helix, suas rotas, contas, prisões e nomes.

A revolta começou naquela noite.

Sora não matou o diretor.

Obrigou-o a assistir.

Depois, o Santo de Ferro retornou ao deserto. Ajoelhou-se novamente, mas sem a espada no
peito.

Desde então, os peregrinos fazem perguntas.

Ele nunca responde como esperam.

5. A Última Mensagem da Lua

A Lua começou a enviar sinais três dias depois de morrer.

Primeiro vieram pulsos de rádio; depois, uma voz repetindo nomes.

A explosão fora visível de toda a Terra. Metade da Lua transformara-se em um anel de


fragmentos; a outra metade permanecia suspensa, rachada e escura. Cientistas culpavam
uma mina; governos, sabotadores. Ninguém explicava as mensagens.

O nome de Eva apareceu na transmissão na quarta noite.

Ela trabalhava na estação orbital Amaranthe. Quando ouviu sua própria voz sendo chamada
pelo sinal, aceitou integrar a missão que viajaria até as ruínas lunares.

A equipe encontrou uma abertura sob o Mare Imbrium, revelada pela explosão. Dentro havia
corredores negros, reflexos de pessoas inexistentes e símbolos mutáveis.

No centro, descobriram um arquivo: uma cavidade no espaço.

Ao se aproximar, cada astronauta ouviu os mortos. Eva escutou sua mãe cantando; um
técnico tentou abraçar alguém invisível.

A voz da Lua explicou que o arquivo armazenava consciências.

Uma civilização antiga previra o silêncio final do universo. Criaram abrigos em luas de
inúmeros sistemas, destinados a recolher memórias de espécies inteligentes antes de sua
extinção.

A Lua da Terra era um deles.

A humanidade alimentava o arquivo havia séculos com transmissões, sonhos e mortes. A


explosão apenas danificara o selo.
— Por que chamou meu nome? — perguntou Eva.

— Porque você será a última.

O arquivo mostrou o futuro.

A ruptura alteraria marés e clima. A humanidade terminaria em dois séculos. Eva


sobreviveria mais do que todos porque a estação Amaranthe seria lançada para fora do
Sistema Solar.

A missão recebeu ordem de destruir o arquivo. Os governos temiam que as consciências


armazenadas fossem copiadas ou usadas como armas.

Eva recusou.

Em vez disso, conectou a estação à cavidade e transmitiu tudo o que a humanidade possuía:
bibliotecas, músicas, mapas, filmes, conversas banais, receitas e pedidos de desculpa nunca
enviados.

A Lua brilhou pela última vez.

Décadas depois, a Terra silenciou.

A Amaranthe vagou com Eva idosa e sozinha. Antes de morrer, ela ouviu bilhões de vozes
dentro do arquivo. Eram lembranças imperfeitas, mas vivas o bastante para responder.

— Alguém vai nos encontrar? — perguntou.

A voz da Lua respondeu:

— Nós encontramos você.

Quando o coração de Eva parou, a estação enviou uma nova mensagem ao espaço.

Não era um pedido de socorro.

Era uma apresentação.

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