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Paraiso 33 Rework

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Paraíso 33

— Infanto, dizia um homem.

— Acorda já, estão a chamar.

— Quem chama?

— Os de baixo, os de baixo!

Acordei tenso e acuado, sentei-me na minha cama por um momento, tentava me


lembrar de algo, um sonho que navegou pela minha mente.

— Veste-te rápido, vamos descer, descer!

Mal pude ver-me trocando de roupa, e muito menos me vi correndo aos trotes
rumo ao elevador com o meu colega. Apenas pude notar a existência do meu ser
quando jazia no elevador.

— Sinto algo estranho, Charlie.

— O que sentes?

— É como se algo estivesse errado, a minha mente está nublada, vagueando


como se não me apoiasse nos meus próprios pés.

— Isso é medo! Não temas, pare de ter tanto medo! – disse Charlie em desespero.

As portas se abriram. Foi então que eu percebi: eu ainda estava sonhando.

Um grupo de seres baixos envoltos em sombras aproximava-se de nós.


Estávamos num subsolo onde existia um misto de construções arcaicas e uma
flora selvagem. Sobre as nossas cabeças, havia uma espécie de sol cercado por
um domo. A sua luz era fraca, porém bastava para iluminar aquele subsolo.

— Eles estão aqui, estão aqui!

— Eu vejo, Charlie.

Ficamos rente àquele grupo de seres baixos. Não podia ver os olhos deles, só
sabia que eles me observavam com um olhar soberbo. A voz deles era como o
ruído de uma serpente; eu não entendia nada, mas compreendia tudo.
Chamavam-nos para um castelo que existia nas profundezas daquela caverna
lúgubre, um lugar onde apenas cantigas de maldição podiam ser ouvidas ou
criadas.

— O lugar! O lugar! Esse é o lugar!

— Reconheço, Charlie.
Avançamos seguindo aquele grupo, desprendendo-nos daquelas construções
arcaicas e adentrando uma floresta sombria.

— As trevas sobrevoavam esta floresta, as trevas!

— Estou ciente, Charlie.

Os raios daquele sol fraco já não alcançavam aqui, aqui restava apenas a
escuridão.

— Lá, la, lá! Aqui é o lugar onde paixões podem engendrar, lá, la, lira, ofensas você
pode disfarçar.

Ouvi um coro cantar. Minha alma começava a saltitar, eu senti que aquilo poderia
me matar.

— Ninfas da noite! Ninfas da noite estão a cantar.

— Ouço bem, Charlie. Sinto que o castelo está próximo.

— Ele está, ele está! Mas veja, olhe para lá!

Olhei na direção, e vi o castelo sobre uma montanha. Os pequenos seres


pararam. Foi quando eu notei um precipício que nos separava da montanha. A
escuridão já nos rodeava, mas aquilo... aquilo era a morte.

O chilrear das cobras mandava-nos pular. Meu amigo entrou em pânico.

— Pular é morrer!

— Eu sei, Charlie, mas precisamos.

— Não!

— Então irei sozinho.

Então eu pulei, lançado à morte, e a contemplei. No ponto culminante da queda,


pude observá-la: Dona Morte, assim sempre foi chamada. Dentro dela,
redemoinhos de quedas. Entre uma delas, vislumbrava como ela pode ser tão
bela. Mas a minha visão, na contramão, entrava em dissolução. Porém uma
vontade impediu a minha iniquidade. E essa queda, dessa bela beldade, trouxe
uma vivacidade. Nos ínferos do meu negrume, achei o paraíso da minha morte.

Então, contando com a sorte, avancei para um norte. Dentro do seu centro
dissoluto e alucinante, rodava em giros constantes. Senti-me agarrado, e
tomaram-me pela mão, uma mão amiga para o meu abalo. Raios verdes fugiram
para os céus, e foi então que despertei, diante do grande forte.
[a delegacia]

Mister Ignis, você esconde algo.

— Revelei-te toda a verdade.

— Bom, vamos repassar novamente. Comece do ponto em que disse que estava
na encosta do Lago Profundo.

— Estava apenas a pescar. E o dia parecia-me calmo. Um azul-marinho


transportava todo o céu. E foi assim até ao seu lusco-fusco.

— Você ficou na encosta até a sua partida?

— Como eu disse, não. Em dado momento, cansei-me da pesca. Queria explorar


um pouco da flora. Deixei os peixes num isopor ao lado das minhas tralhas e parti
para uma trilha que eu conhecia, levando apenas um pequeno caderninho de
desenhos e um lápis.

— Por que carregava isso?

— Porque não me contento em apenas ver.

— Necessitava dominar? Colocar tudo dentro dos parâmetros limitados de um


papel, controlado e reconhecido por completo por ti?

— Onde quer chegar com isso?

— Apenas confabulo se você tem tendência a controlar. Continue.

— Eu tomei a trilha que levava a um morro elevado; de lá era possível ver todo o
contorno do lago. O caminho era um tanto traiçoeiro, mas valia a pena.

— Conte sobre o caminho.

— Tomava pelo lado noroeste, cercado pela mata em uma trilha estreita. A mata,
por aquelas partes, era mais densa que em outras. As árvores também eram
maiores, e a trilha pendia como uma serpente, pegando do noroeste ao leste, até
o centro, onde tinha a colina das árvores de nozes.

— Fixou-se no caminho o tempo todo?

— Sim...

— Você mente.
— Há um eremita que circula pela flora, vive em um casarão perto da colina. Ele
me disse que não o viu pelo caminho.

— Eu posso ter passado num momento que ele não estava.

— Ele meditou o dia todo no dia do incidente funesto.

— Eu peguei um atalho.

— Conte o porquê de ter desviado do caminho? O motivo real. Um homem que


gosta de padrões como você não desviaria por uma simples trivialidade de tempo.

— Eu vi um passarinho.

— Como?

— Vermelho, de bico preto e olhos negros como a noite. Tilintava de maneira


torpe, como uma gralha. Eu o segui mata adentro. Por horas, se me lembro bem.
Até que ele pousou sobre uma pedra.

— Por quê?

— Porque não o reconhecia. Eu o desenhei em meu caderninho; foi algo


minucioso, e ao terminar, amaldiçoei o desenho por não captar toda a essência
daquele ser.

— Você matou o pássaro?

— Sim.

— Por quê? Quis expurgá-lo do mundo?

— Quis outorgá-lo à minha própria limitação.

— Você não acha que a sua história perambula num limiar estranho? Como um
sonho. Já se questionou sobre o sonhador?

— Como? O que quer dizer com isso?

— Quem é o sonhador?

— Eu não sei do que está falando, pare com isso!

— Quem é o sonhador?

— Pare!
Acordou em sua cama. A sua mente anuviava entre o sono e o despertar. Ele se
levantou da sua cama. O piso era escuro e gélido, como uma rocha polida que se
assemelhava a uma obsidiana. O quarto era grande, tinha apenas uma cama à
frente da sua, no outro extremo do quarto, e mais nenhum móvel. Ao meio, havia
uma sacada com uma porta de vidro. Ele a deslizou e foi até o parapeito da
sacada, onde se viu diante de um mar insondável. Estava acima dele, numa
gigantesca torre negra megalítica. No alto dela, havia uma luz intensa que dava
voltas em si mesma como um farol e produzia um barulho característico de um.
"Onde está Charlie?", falou. "Quem é Charlie?", pensou. Ao olhar para o lado, havia
uma escada metálica que rumava ao topo da torre. Ele a tomou sem pensar duas
vezes. Ao topo, viu-se diante da luz, o barulho intensificava-se a ponto de se tornar
insuportável. A luz brilhava mais, exalando um lastro de fumaça proveniente dela.
O homem, então, sentiu uma dor aguda invadi-lo, e gritou num urro atroz.

[O Eremita]

Era uma mata densa e fechada, tomada pela noite, desprovida do Sol que já
mergulhara na morte ao poente. Os orvalhos eram enegrecidos, tanto pelo escuro
ao qual fora submetido, quanto por uma coloração natural que fora assimilada
pelas qualidades da terra onde suas raízes se fincavam.

Uma chuva abatia-se contra a floresta. Intensa, como se personificasse um


demônio sádico que almejava a tortura daqueles a quem suas águas tocavam. Os
raios sibilavam, dançavam ameaçadoramente aos ventos como se o próprio Zeus
ameaçasse cobrar uma dívida que somente seria paga com sangue.

Um homem de compleição dura seguia pela mata. Trajava um sobretudo escuro


com capuz. Com a mão direita estendida contra as trevas da noite, segurava
firmemente um Lampião; um Lumine etéreo se detinha em seu interior, emitindo
tal brio que somente poderia remeter ao fragor numinoso do fogo que dançava
serpentinamente aos céus. O homem era chamado de Eremita.

Ele mergulhou no fundo, sujara suas botas no lamaçal pegajoso, seguindo por
uma estreita trilha, que cada vez mais se estreitava. Na floresta, ouviu o som de
uma coruja, como se avisasse que algo estava vindo. Ele adentrou na mata,
deixando a trilha e escondendo-se em um arbusto; ocultou sua luz com seu
sobretudo, mas nunca a apagou.

Ele viu uma fera saindo daquela escuridão. Ela caminhava sobre duas patas, sua
pelagem era negra como o mais profundo abismo, a orla de seus olhos era
vermelha, mas suas pálpebras eram pálidas como neve. Seus chifres remetiam a
uma noite densa e funesta, afiados e grandes, tal como os de um alce. O Eremita
disse a si mesmo: "Ainda não". E esperou que a fera passasse.

A fera rondou por aquela região por certo período. Mas, quando percebeu que
nada ali encontraria, ela se foi. O Eremita então pensou: "Pela estrada eu não vou,
pela estrada eu não volto; na estrada estou visível, fora dela sou invisível." E assim
ele o fez. Caminhou por horas, sem rumo racional ou direção, seguindo o Lumine
eterno de seu Coração.

O Sol então desabrochou. Numinosos raios foram lançados; ele então pôde
observar um monte alto e íngreme. Ele, com esforço, alcançou seu cume. De
cima, pôde ver um lago, o Lago Profundo. Tomou mais uma vez o caminho do
arvoredo, até sua chegada nas margens ocidentais do lago. Ele se banhou dentro
dele, e de sua água bebeu.

Então, observou um monte de pedra e calcário que ficava proeminente sobre as


águas. Ele o escalou até sua ponta. Lá, sentou-se na posição de lótus e meditou.
Ele cantou o mantra OM. De maneira tão profunda, que sentiu como se fosse a
força vetora de toda a criação do Universo.

Então, sentiu cindir em seu ser dois polos, que antes eram um. Ele caiu. Uma
queda vertiginosa e aterradora. Sentiu a Morte que agora penetrava seu corpo
imortal, sentiu esvair-se, viu o perpetuum movimento da essência vital relegado a
si. Então veio o desespero. A certeza de que a única coisa certa é o vazio que no
homem habita. Então, abriu seus olhos e caiu ao chão em desalento. Pensou que
não havia esperanças, pensou no fim.

Até que, no ponto meridiano do Sol, ao Eterno meio-dia, viu na encosta Leste do
lago dois meninos. Um deles temia a água, reconhecia seu perigo. O outro atirou-
se nela, mas não sabia nadar. Ambos gritaram por ajuda. O garoto a se afogar
debatia-se, mas afundava cada vez mais. Era certa a sua morte, não havia sinal de
ajuda, e nem o Eremita sequer conjecturava ajudá-lo. Então, da selva, pulou uma
menina vibrante, com um cabelo vermelho pulsante; ela se jogou nas águas,
nadou até o menino e puxou-o para fora, enquanto este ainda se debatia. O
Eremita pensou: "Essa é a nossa salvação".

[ Tribunal]

— Senhor Ignis – uma mulher decrépita falou –, o senhor está sendo acusado de...
oh, meu Deus (começou a chorar), de ter matado... ninguém!

Uma onda de choro e revolta irrompeu na plateia.

— Ordem! Ordem! Ordem no tribunal!

— Diga, Senhor Ignis, como pôde? – a velha voltou a falar.


— Eu não matei ninguém!

— As provas estão contra você.

— Que provas?

— Ora, as provas! Confesse e a sua pena poderá ser reavaliada.

— Se queres tanto que eu assuma, senhores, então confesso... Eu matei


ninguém.

Um grito de horror ecoou por todos os arredores. Em uníssono, eles perguntaram:


“Por quê?”. Ele então contou:

— Queimava em labaredas,

Desejava a minha amada, que me enfeitiçava.

O meu fogo, ela assoprava, e isso a atiçava.

Mas ninguém a detinha, a ela, ele pertencia.

E a solidão, minha amiga,

Me aconselhou ao amor.

Então matei!

E a arma guardei,

Era uma espada, feita de nada.

Mas o meu amor, ainda

Não chegou à minha amada...

Uma saraivada de aplausos e emoções se instaurou, seguida por uma saraivada


de tiros sobre o matador.

[O nada]

Eu estava em um tribunal, mas antes, em um castelo, onde me encontro agora?

—Não se encontra vertido no centro?

Eu não sei, sinto que culmino desse centro, mas olho para o relento que
predomina deste centro, e percebo que não vejo.

—E quem seria capaz de enxergar na escuridão?

Onde estamos?
— No paraíso. Onde mais seria?

[A queda]

Eu estava dormindo e tive um belo sonho. Nesse sonho, eu via uma floresta densa
e ouvia o chilrear de um passarinho. As árvores quase se prostravam no chão pela
potência dos ventos. Então os ventos pararam, e o silêncio reinou por alguns
momentos. Ao longe, vi um homem de andrajos sujos, ensanguentado e com uma
espada em mãos. Fixei o meu olhar no rosto dele e espantei-me ao perceber que
se tratava de meu marido. Um medo estrondoso começou a trespassar-me. Ele
caminhou para a floresta, queimando em puro ódio. Então, com força, bateu
contra uma árvore, e a floresta começou a queimar. Desesperei-me e gritei em
pânico. Implorei para que parasse, mas ele não cessou. O fogo continuava a
alastrar-se, tudo estava morrendo, tudo iria queimar. Foi naquele momento,
gritando em desespero, que acordei, na minha cama, encharcada de suor.

— Mulher, olhe que horas são! – olhou de soslaio para o relógio – 3:33! O que
aconteceu? Teve um pesadelo?

Olhei apavorada para o seu rosto, e ele percebeu. Rapidamente, o seu olhar de
irritação foi trocado por um olhar mais terno.

— Vamos, me diz, o que se passa?

Vagarosamente, ele colocou os braços sobre a minha cintura e puxou-me


levemente para o seu peito, abraçando-me com ternura. Senti-me protegida por
um momento. Naquela época, era como se fôssemos um só. Eu abracei-o com
força, ainda chorando, e comecei a contar.

— Sonhei contigo. Estavas com raiva, com muita raiva. E em chamas, me atacou
com uma espada. Senti dor, muita dor, mas não parava, continuava a me bater. Eu
implorava para que parasse, mas você...

Afastei-me dos braços dele, olhei nos seus olhos e senti raiva, tanta raiva que não
me consegui conter. Dei-lhe um tapa no rosto e comecei a atacá-lo.

— você não parou, por que não parou?

— Se acalme, mulher, se acalme!

Ele segurou-me, agarrando-me com força nos seus braços.

— Me solta, larga-me agora!

Eu gritava em desespero, entre lágrimas e uma raiva voraz. Ele largou-me e


afastou-se em silêncio. Esse silêncio durou tanto. Ele apenas fitava-me, incrédulo,
quase horrorizado. Eu não suportava aquele silêncio, não suportava aquela
pressão. De forma quase estridente, comecei a chorar. Desta vez, não houve
abraços, mas ele tentou consolar-me. Estendeu a sua mão e pousou-a sobre o
meu ombro esquerdo enquanto se aproximava.

— Não me toque!

Eu gritei furiosa. Ele distanciou-se rapidamente. Coloquei as mãos sobre os meus


lábios num gesto como se quisesse calar-me. Olhei-o em desespero, com
lágrimas no meu rosto borrado de medo.

— Desculpa-me, perdoa-me, amor. – Tentei aproximar-me dele, mas ele recuou.

— Mas que porra está acontecendo?

— Sinto muito, sinto muito mesmo, não me abandone. Eu te imploro.

Tentei me aproximar, o abracei, e mesmo resoluto, ele correspondeu. Puxei-o de


volta para a cama, onde nos deitámos. Comecei a sussurrar:

— Perdoa-me.

— Está tudo bem... Eu só não entendo.

[Cafeteria Central]

A cafeteria, de nome Cafeteria Central, era simples. Havia mesinhas dispostas do


lado de fora, e, na parte interna, um piso de madeira, uma temática de cores que
lembravam café e um balcão onde se pagava. Uma garçonete saía, pegando e
entregando pedidos. Ela se aproximou de um casal e perguntou os pedidos deles.
O homem pediu um café expresso, e a mulher pediu café com leite. O homem
vestia um traje social preto, tinha um aspecto sombrio, detinha cabelos cor de
negrume, um tom de pele pálida, e olhos castanhos. A mulher, era vibrante, seus
cabelos lisos e vermelhos eram como fogo fatum que voava ao vento, ela portava
um belo vestido simples vermelho que se delineava em seu corpo esbelto. Após
beberem, eles falaram sobre trivialidades até que a garçonete finalmente retornou
com o pedido. Ambos começaram a beber. A mulher perguntou-o:

— Não o incomodo eu ter o convidando tão cedo?

— Não. ando com muito tempo livre, tirei algumas semanas de folga, tinha muita
coisa acumulado.

—Fico feliz que possamos conversar um pouco, nos últimos tempos mal nos
falamos, você sempre usava a desculpa do trabalho.

— Lise, vamos para o motivo central pelo qual você me convidou. Sei que não foi
apenas pela conversa; você quer me contar algo que não se atreve a contar a Luis.
— Direto como sempre, e certeiro também. Você sempre conseguiu me ler muito
bem.

— É, eu sei.

Ela olhou-o nos olhos, com um certo receio.

— Sei que Luis é seu melhor amigo, praticamente um irmão. Mas peço que não
conte a ele.

— Sabe que nunca espalho os seus segredos sem a sua permissão. Não precisa
ter receio, pode me contar.

— Eu tenho tido sonhos estranhos, tão vívidos. Sempre que tenho esse tipo de
sonho, algo terrível acontece.

— Seus prelúdios oníricos. Você nunca se preocupou com eles, julgava que você
tomava-os como mera curiosidade. O que mudou?

— Eu não sei dizer, só estão mais reais e intensos, de uma forma estranha.

—Como eles são?

— São muitos, a maioria acaba em tragédia, me fazendo acordar suando durante a


noite. Mas há um que tive há alguns dias, cujas imagens eram tão reais que não se
apagaram da minha memória.

— Conte como era.

— Eu estava num quarto. Havia uma luz fraca de uma vela. Um homem muito ruim
estava em cima de mim. Ele me enforcava, era tão forte e doía tanto. Atrás dele,
havia outro, meio corcunda, que olhava para a cena em desespero. Eu pedia ajuda
a ele, tentava debater-me e gritar, mas ele nada fazia além de implorar para o
homem mau me soltar.

Ela olhou para o seu copo, com um olhar de angústia, mas ao mesmo tempo, ele
apresentava certos contornos de ternura. Por algum motivo, aquele relato tocou
Finn, e ela percebeu. Ele perguntou:

— Você culpa esse outro homem por não ter agido?

— Não, eu não o culpo. Eu sinto pena dele.

Aquilo o machucou, e ele sentiu vergonha da sensação. Para mitigar o sentimento,


quis mudar de assunto para um que se aproximava do cerne da questão.

— Você acha que algo vai acontecer com você?

— Acho que sim. E acho que Luis o fará.


— Você viu isso em um sonho?

— Sim, eu vi.

— Ele tem um temperamento virulento que ultrapassa o agressivo, as vezes, mas


ele o ama. Ele nunca a machucaria.

— Você é amigo dele, você se sente obrigado a ver o melhor dele, mas nunca viu o
pior.

— Acredite, eu vi.

— A coisas que só uma mulher pode ver.

— Nisso eu lhe dou razão.

Ele disse, terminando com uma leve risada, que foi correspondida por ela. Ambos
se olharam, amistosos, quase contemplativos um para o outro, em um breve
silêncio. Em seguida, ela passou a sua mão sobre a dele com ternura e disse:

— Por quê se afastou tanto? Sei que tivemos complicações, mas... Sempre fomos
amigos, não fomos?

Ele retirou a mão da dela.

— Acho que essa é a última coisa que eu queria para gente.

O clima da mesa tornou-se nebuloso. Ambos sentiram-se constrangidos e


melancólicos com o momento. Ele disse:

— Acho que seria melhor você ir.

— Você tem razão, sinto muito.

Ele parou-a por um momento, segurando o seu pulso com leveza.

— Só quero dizer antes que, quando as sombras que regem esse mundo pelos
bastidores cessarem, eu torço para que você, enfim, possa ser livre,
verdadeiramente livre.

— E o que isso deveria significar?

— Eu não sei...

[Under dreams]

Luís era um homem alto, ruivo com cabelos liso tal seda e penteado com gel,
puxado para trás, ele não tinha barba, e mantinha seu cabelo em altura média. Ele
sentava-se de maneira despojada em seu escritorio, por mais que permeasse em
sua alma uma aflição, que era amalgamada pelos dizeres que quase tomavam a
forma de mantra: "está tudo ok". Ele escapava de seus pensamentos, admirando
uma pequena escultura decorativa de Kali dançando ao centro da roda de
Samsara, selvagem e lasciva. De uma maneira visceral, que escapava a
compreensão racional de Luis. Aquilo o assombrava, mas atraia sua atenção. De
chofre, tudo foi interrompido pela entrada de um homem com demasiado
sobrepeso em sua sala. Um típico engravatado, com um rombo que trespassava a
entrada de sua testa até o final de sua nuca, onde deveria estar o seu couro
cabeludo. Ele era dotado de um tom de pele branco-rósea, suava, fatigado pelo
pouco que andara. Ele falou assim que entrou:

— Veja se não estou diante de uma estrela em ascensão!

Falou em um tom de brincadeira. Luís correspondeu com um sorriso amigável e


falou:

— Rudolf! Como é bom ver um amigo a quem tanto persegui a cabeça!

— Aposto que já desejou que eu acordasse morto, pelo meu cargo, não?

— Pode apostar sua alma nisso!

Ele se levantou de sua cadeira, abraçou amigavelmente Rudolf e pediu para que
se sentasse. Assim que ambos sentaram, Rudolf continuou:

— Mas você nunca encontrou limites para tua ambição. Sênior em 2 anos e agora
quer ser vice-presitente!

— Aposto que na minha idade era um homem de altas pretensões também.

— É claro que era, mas o feito que você conseguiu em meros 5 anos eu não fiz em
10!

— Fui apenas um pouquinho mais ousado que você, mas e quanto a você, não
ambiciona algo mais? Como a presidência?

— Aquele velho do Wagner está lá desde que eu tinha cabelo. Já larguei a toalha;
além disso, estou velho. Nem meu pinto sobe mais! Preciso descansar. Me
aposentar, ir para o interior, viver uma vida mansa com os netos... já cansei desses
negócios, é um ninho de cobras a céu aberto.

— Ei, me diga, já está tudo certo com a diretoria? Sobre mim?

— É claro que está! Depois do lucro que você trouxe com aquele esquema com o
Shelly Group, seria impossível não estar. 15% a mais no faturamento, trazidos pelo
seu projeto. Não há como não estar.

— Fico feliz de ouvir isso.


— E qual será o próximo passo? Tirar a coroa do velho do Wagner? Talvez nem será
preciso, o velho está com os pés na cova mesmo. A propósito — ele desviou o
olhar para a estátua —, o que seria isso aqui? É muito bizarro.

— Foi o Finn que me deu na comemoração de 3 anos de casamento com a Lise.


Sinto não ter te chamado, era só para amigos íntimos.

— Sem problemas, mas o Finn, hein? Sujeito esquisito. Vive falando com um
palavreado difícil e sobre essas babaquices depressivas e eruditas. Isso aí
realmente combina com ele.

— Não fale assim, eu o conheço desde a infância. Há muito tempo, realmente há


muito tempo...

Algo o deixou pensativo naquela frase. Mas foi interrompido por Rudolf.

— Bem, tenho que ir. Antes que me esqueça, aquele viado do Lúcio está o
chamando. Deve ser algo sobre a contabilidade, eu sei lá. Bem, já me despeço,
hoje é meu último dia aqui.

— Adeus, Rudolf. Tenha uma ótima aposentadoria.

Assim que Rudolf saiu, ele jogou-se sobre sua cadeira, apoiou ambos os pés sobre
a mesa, e respirou profundamente. "Terei de conversar com ele", era o que
passava por sua cabeça. A peculiaridade e bizarra alegria de Lúcio era algo
irritante para Luis e para qualquer outro que já tivesse o prazer de conhecê-lo.
Baixo, sem barba, cabelos curtos olhos azuis cintilantes como estrelas,
bochechas risadas, sempre bem humorado, demasiadamente bem humorado.
Andava alegre pelos corredores, quase saltitante. E alguns o acusavam de
displicência. O que sempre o manteve intacto em seu posto, era o gosto do velho
Wagner por ele. Não pelos seus trejeitos, e sim, pois ele era bom no que fazia e
confiável. E isso preocupava Luis.

Após refletir por breves momentos, levantou-se de sua cadeira e saiu de seu
escritório. Caminhou até o escritório de Lúcio. As paredes eram brancas, assim
como o piso. As portas eram de um marrom-carvalho, mas feitas de alguma
madeira de péssima qualidade e pintadas por cima. A sala de Lúcio ficava no final
de um corredor que desembocava em dois corredores paralelos direcionados em
sentidos opostos. Ela ficava no centro dessa bifurcação. A placa ao centro da
porta tinha os dizeres: "Gerente de conciliação de custos logísticos".

Ele bateu e, em seguida, ouviu "entre!", de uma maneira estranhamente alegre. Ele
entrou e foi recebido com um sobressalto; ele o cumprimentara alegremente e,
em seguida, mandou-o sentar. Logo passava a perguntar como estavam os filhos,
e Luís respondia que não os tinham. O que era recebido com um tom de surpresa,
seguido da pergunta: "então quando terá?". "Como já dito anteriormente" — essa
conversa já se repetira algumas vezes —, "isso é um assunto de natureza íntima,
entre mim e minha esposa". "Esposa... Ah, sim, esposa!", disse Lúcio. "É como
plantar uma árvore e ter que podá-la eventualmente, mas não se pode cortar
demais, senão pode queimá-la! Você entende, não?". "Acho que entendo... Sim,
não, espera, o que diabos você está falando?", respondeu Luís. "Nada, nada! Não
se preocupe com isso".

Ele se sentou em sua cadeira, passou seus olhos sobre as pilhas desarrumadas
de papel em sua mesa, olhou tabelas e gráficos em seu computador, mais uma
vez retornou aos papéis, organizou-os e de novo tornou ao computador. Era como
se Luís deixasse de existir. Luís emulou um tossido, o que passou despercebido;
logo, tossiu mais alto, o que foi recebido com um "saúde". Então ele ponderou a
situação e, percebendo que sua presença mal era notada, passou a se levantar
com o intuito de sair, mas Lúcio o deteve dizendo: "espera!". Luís olhou iracundo
para ele.

— O que deseja?

— Existia um boi (pense nesse boi, ele será muito útil mais para a frente), ele tinha
um sistema de irrigação complexo e maravilhoso! Esse sistema se baseava...

— Sinto interromper, mas poderia ir direto ao ponto?

— É claro, sem detalhes técnicos então.

— Não foi o que quis dizer...

— Basicamente o boi vivia em terras secas, e ele tinha que desviar o fluxo de dois
rios para torná-las férteis. E foi assim que ele fez. Até certo ponto! As águas desses
rios tinham uma concentração de sal maior do que a média e, como seu
mecanismo sofisticado não previa uma drenagem, o sal aos poucos incrustou-se
na terra e a tornou infértil. Então o boi teve de ir embora e abandonar sua terra,
agora salinizada.

— Ok, agora me diga, o que quer dizer com tudo isso?

— O boi eram os sumérios, e a terra...

— Eu não quero explicações simbólicas, quero a razão de estar aqui!

— Muito simples! A terra eram os poços petrolíferos de nossa Under Dreams,


antigos poços, melhor dizendo, pois como na analogia, tornaram-se inférteis, sem
nenhum barril furado! E os sumérios, bem, eles eram nós!

Um frio na espinha acometeu Luis. Ele passou a suar frio, mas manteve a
compostura. Ele sentou-se novamente na cadeira, tentava desviar o olhar dos
cintilantes e agora penetrantes olhos de Lúcio.
— Está bem?

— Claro, só quero que me diga o que quer dizer com isso.

— Na Suméria antiga, longe das maravilhas tecnológicas com que fomos


abençoados, eles só puderam sair, assim como nós saímos. No entanto, diferente
deles, nós temos maravilhosos servidores e guardamos todo tipo de informação
por lá: pagamentos, faturamentos, lucros e, o que nos importa aqui, dados
sísmicos sobre terras que exploramos ou almejamos explorar. E isso inclui as já há
muito tempo descartadas. Como você deve saber, esses dados são valiosíssimos;
os de terras produtivas, é claro. E é plenamente compreensível a venda desses
dados por valores exorbitantes. Mas o estranho seria vender dados obsoletos de
terras improdutivas a preços exorbitantes, não concorda?

— Eu concordo...

— E você foi o principal encabeçador das vendas de ativos sísmicos para o


maravilhoso Shelly Group, estou correto?

— Óbvio que está. O que quer dizer com isso?

— Quero dizer que, revisando esses ativos, percebi uma coisinha. Tive que fuçar
aqui e acolá, mas notei um padrão. 50% a 60% dos ativos vendidos eram lixo. O
que é estranho uma empresa séria comprar tanto ativo lixo. Não há uma vistoria?
Nem uma consulta com uma empresa especializada? (Que bobinhos!). Então fui
atrás deles: uma empresa antiga, mas não muito bem conceituada, mas que,
porventura, agora passa por uma nova administração, comprada há uns 3 ou 4
anos. O que me fez questionar: como uma empresa tão mal das pernas, que teve
que se vender pra não falir, pode fazer tão obscenas compras? Você saberia me
informar como?

— Não...

— Mas eu saberia: por empréstimos! Isso é lógico, não? O que não é lógico aqui é
de onde saíram tais empréstimos. Descobri que era por uma tal de Even Oil,
subsidiária direta de nossa amada Under Dreams. Que é gerenciada por John
Thomazoli. Um certo amigo seu, pelas minhas pesquisas.

— O que está insinuando! — Luís disse em tom de pura fúria. Ele levantou-se,
olhou nos olhos de Lúcio, ele queimavam tal qual labaredas, mas Lúcio, ainda
mantinha um olhar sereno de amabilidade. Lúcio disse:

— Nadica de nada, ainda...

— Eu conheço pessoas.
— Olha que coincidência, eu também conheço pessoas. Tem a Aline (um amor de
pessoa por sinal), que me atende na lanchonete ao lado da empresa. Também
tem um tal de Antônio (acho que era esse o nome dele), um dos zeladores desse
prédio. E tem o...

— Não é desse tipo de pessoas que me refiro!

— Então qual é?

— Eu posso te destruir!

— E por quê? O que eu fiz pra você!? — ele falou com uma surpresa quase infantil,
que até parecia não ser emulada. Luis então disse:

— Não me provoque mais! Você não sabe com quem está se metendo.

— Eu sei?

Então Luís saiu batendo a porta com força.

O telefone tocou e logo foi apanhado. Uma voz ressoou com um tom calmo e
complacente, que tocava as bordas da melancolia; ela dizia: "Quem é?". De
imediato foi respondida: "Finn, precisamos conversar". Finn retrucou: "Creio que já
marcamos de beber hoje à noite. A situação com a Lisa está tão ruim ao ponto de
querer adiantar?".

"Não é sobre isso", Luís respondeu, "é algo mais grave. Não posso falar por aqui,
precisamos nos encontrar pessoalmente. Estou indo para sua casa. Em 20
minutos estou aí". Ele então desligou. De imediato, um pensamento pairou sobre
Finn: "Nem em férias posso me livrar de seus problemas".

Ele reclinou-se sobre sua cadeira, afastando-se de supetão de sua escrivaninha,


onde deixou às avessas o livro Visão do Paraíso, de Sérgio Buarque de Holanda,
que tratava sobre os sonhos edênicos dos colonos. Seu quarto de estudos
consistia em duas prateleiras abarrotadas de livros, postas em ambos os lados,
adornadas de esculturas que remetiam desde a Grécia ao Oriente. Ao centro,
havia sua escrivaninha, simples, porém bem feita, talhada nas bordas com grafias
labirínticas gregas. Nas paredes do fronte direito, a tonalidade das cores era um
azul-celeste, que transitava para o escuro na parede adjacente.

Ele colocou sua mão esquerda na têmpora e passou a massageá-la em um


movimento giratório. Matutava sobre o possível problema que teria de resolver.
Sabe-se lá por que motivo, suas intuições sempre o levavam a Lisa. Seus cabelos
cor de flama impregnavam-se em sua mente; os sorrisos serenos, que ora tangiam
o mais doce e infantil, e outra ora podiam turvar-se no mais maligno e aterrador
dos sorrisos. Como se fossem velados por mil máscaras rubras que moldavam a
face e, de cada uma delas, emanava uma sensação divergente em seu ser.

Ele ouviu batidas em sua porta. Notou pelo relógio em seu pulso que já se passara
cerca de 20 minutos. Assustou-se por perder-se tão rápido nos próprios devaneios
e desceu para o andar de baixo. Lá, abriu a porta; era Luís, nitidamente nervoso.
Cerrava os punhos e aliviava-os em movimentos repetitivos e, por vezes, revirava a
cabeça velozmente aos lados. Ele falou:

— Temos que conversar.

— Sim, eu sei. Entre.

Ele entrou. Em seguida, Finn fechou a porta e logo tomou o caminho para a sala de
estar, onde Luís já se sentara de maneira meio rígida e aflita. Finn jogou-se no sofá
adjacente, inclinou a cabeça para trás e respirou profundamente. Então, olhou
para Luís e disse:

— O que houve? Aconteceu algo com a Lise?

— Como eu já disse, não. Há coisas mais importantes que ela no momento.

— Não creio que haja algo mais importante que ela no momento...

— De onde veio isso?

— Eu não sei, intuição, talvez...

— O Lúcio... ele sabe.

— De seu esquema envolvendo o Shelly Group?

— Nosso esquema!

— Seu. Eu meramente o instruí. Não participei diretamente disso, e era óbvio que
ele descobriria; o esquema era grosseiro.

— Então por que me guiou nele?

— Eu já lhe adverti sobre ele em diversos momentos. No entanto, você almejava


uma ascensão rápida na Under Dreams.

— Porra! Isso...

Luís tornou-se mais inquieto.

— Eu preciso da sua ajuda, cara.

— E quando eu não o ajudei?

— Preciso que justifique tudo isso.


— Eu sempre justifico suas ações...

— O que quer dizer?

— Eu não sei, isso apenas veio, ignore. Lúcio apenas reconhece de onde vem o
dinheiro, mas necessita provar a ilegalidade da transação. A linha de crédito, que
instruí que fosse criada como "incentivo à inovação de fornecedores", é difundida
com empréstimos a fornecedores legítimos. O que mitiga o campo em que ele
pode atuar para atacá-la. Sem contar que a exposição de um escândalo desses é
grave para a imagem da empresa. Mesmo se chegar aos ouvidos de Wagner, no
pior dos cenários, ele varrerá tudo para debaixo do tapete.

— Mas nisso é provável que eu perca o emprego.

— É, sim, provável.

— Porra, temos que fazer algo. Difamar aquele viado... a gente acha alguma coisa
sobre ele, ele é estranho pra caralho. Deve ter algum podre macabro.

— Não é de todo má essa ideia. Vá em frente com ela, peça a seus contatos para
executá-la. Tentarei apelar com o velho, colocá-lo em nossa órbita de influência.
Sabe-se lá por que, ele parece nutrir respeito por mim.

— Ok, está decidido então. Tentaremos isso. Vou fazer umas ligações. E antes que
me esqueça, ainda vamos beber essa noite. Preciso conversar sobre a Lisa em um
momento mais apropriado. Se tudo ocorrer bem, não tocaremos sobre esse
assunto essa noite.

— Está bem.

Fazia frio. As nuvens cobriam o céu e derramavam sobre a terra gotículas de água,
mas não havia sinal suficiente de piora aparente do clima. Finn destinava-se a
mansão do velho Wagner, andava na extremidade oeste da cidade de Winterville,
perto da Rua Denver. Um local de certa antiguidade e esquecido prestígio. Ele
cruzava uma ponte quando notou, a alguns metros de distância, um homem na
parte rasa do rio. Ele puxava consigo um cachorro morto, que já demonstrava um
nítido estado de decomposição avançada. Seu couro preto cedia lugar em sua
barriga para suas costelas expostas. Ele não sangrava; seu sangue já coagulara há
muito. E, em seus olhos, abrigava apenas um negro orifício.

O homem que o puxava não parecia estar em situação muito melhor. Era sujo,
trajes cinza que tomaram uma tonalidade perpetuamente preta. Cabelos
compridos cobertos por uma touca, mas que a varavam em certos pontos, onde
demonstravam ser pretos e desgrenhados. Sua barba era cheia e igualmente mal
cuidada. Ele era branco e apresentava uma palidez que beirava o doentio.
Finn sentiu uma certa curiosidade sobre a situação. Ele cruzou a ponte e
caminhou rumo à margem de que o mendigo fazia seu destino. Parou ante um
pequeno cercado que o separava da área verde que precedia o rio. Ele fitou o
mendigo com curiosidade, enquanto esse já saíra do rio, puxando a carcaça do
cão. Finn passava a formular o que dizer, mas as palavras escapavam de sua
língua; afinal, ele sequer tinha uma razão racional para estar ali. O mendigo notou
sua presença enquanto jogava o cão na margem. Ele o olhou de volta e disse:

— Está curioso, senhor?

— Creio que um pouco, espero não estar incomodando. Sabe o que houve com o
cão? Se ele caiu acidentalmente?

— Posso te garantir algo, senhor: ele não caiu acidentalmente, foi jogado.

— E como pode ter tanta certeza disso? Por acaso você...

— Oh não, não pense isso de mim, senhor. Eu apenas observei e guardei em


minha mente.

— E você não fez nada?

— Não o fiz. Esse é o tipo de coisa que acontece sempre, e com esse, não foi a
primeira.

— Isso é sério? Então ele sobreviveu na primeira?

— Não, senhor. Ele não sobreviveu.

— Então como ele pôde ser jogado outra vez? Tomaram-no do rio apenas para
lançá-lo de novo?

— Não, senhor. Quando foi lançado ele estava vivo. Ele estava em todas as
inúmeras vezes que o foi.

— Como?

Aquilo o perturbou um pouco. Era uma ideia inconcebível e irracional. Para Finn,
ela apontava uma confusão mental daquele mendigo. Ele delineou certas
hipóteses sobre o caso; em algumas delas, era apontada a possibilidade de o
próprio mendigo ter sido autor do crime ou quiçá um coautor. Entretanto, ao final
de seu processo mental, era constatada a falta de relação dele com o caso. E ele
mitigava qualquer senso de dever que era suposto ter ao presenciar tal crime.

— Creio que isso não seja problema meu. Adeus, peço perdão pelo incômodo.

— Creio, talvez, quiçá. Acho que você não é um homem de muitas certezas,
senhor Finn. É um homem de hipóteses, na certa!
Ele olhou para o mendigo com certa desconfiança.

— Não me lembro de ter te falado meu nome. Como o sabe?

— E isso importa para o caso aqui? O caso subjaz no fato de você julgar que não
tem relação com ele!

— Como? Eu não sei o que quer dizer com isso.

— É, não o sabe, mas tenho certeza de que criará muitas hipóteses sobre isso.

Ele o olhou com mais desconfiança e receio. O seu âmago urdia como se
estivesse diante de uma ameaça existencial. Algo irracional, incompreensível.
Mas ele sentia que restava uma certa pergunta a ser feita, algo que não podia
escapar. Ele perguntou:

— O que fará com o corpo do cão?

— Eu abrirei uma cova rasa, não muito longe daqui, lá o enterrarei, e seu corpo
será devorado e digerido pela terra. Assim, um dia, ele voltará. Tudo para ser
jogado de novo sobre uma ponte. Talvez não essa, talvez uma outra, mas ainda
assim será jogado, descartado quando não mais necessário por seu dono. Tal
como um cão.

— Isso é ilógico...

— Profundamente, mas é essa a questão que deveria perguntar?

— Eu creio que não, mas talvez... Há um jeito de impedir? Quebrar o ciclo?

— Será que há?

Assim que o mendigo proferiu sua última sentença, Finn sentiu uma força
magnética demandando que partisse. Ele se afastou, olhou para trás uma última
vez, e não viu o mendigo nem o cão. Mas sentiu que seu olhar o perpassava.

Parou em frente a um portão metálico, que guardava uma trilha de pedra maciça
que serpenteava por um extenso jardim; tal trilha era adornada por sebes
espessas e bem podadas. A trilha fluía para praças internas que jaziam no
domínio do terreno, fontes com cupidos nus em seu centro, um labirintesco
jardim que era precedido por uma estátua de Hermes em sua entrada e, por fim,
no centro de tudo, estava uma imensa mansão à moda vitoriana.

Finn tocou o interfone. Foi respondido por uma voz agradável feminina. Ela
perguntou o intuito de sua visita; ele respondeu que era Finn Suivento chefe do
departamento de contabilidade da Under dreams corporate e que marcara de
última hora uma pequena reunião com o senhor Wagner Wilhelm. Então,
mandaram um empregado buscá-lo na entrada e o guiaram pelo caminho, até ser
levado à entrada da mansão, onde esperou na entrada principal por poucos
minutos. Em seguida, foi conduzido a uma sala reservada onde encontraria o
velho Wagner.

No meio dos corredores, passava quase saltitando Lúcio; ele olhou para Finn em
seu singular tom amigável. Levantou o braço em um gesto de cumprimento. Finn
cordialmente acenou com um gesto de cabeça. Logo, aquela cena evolou
perguntas em sua mente. "Talvez ele tenha mandado aquele mendigo para me
desestabilizar", "ele contou a Wagner?". Se sim, ele acreditou? Se acreditou, então
por que aceitou falar comigo, dado meu claro envolvimento fraterno com Luis?

Ao final de seus devaneios, ficou diante da porta. Feita de mármore, delineada por
grafias finas e esbeltas e detalhes dourados na maçaneta. Finn a abriu. O
ambiente transitou de magnânimo para aconchegante. Um tapete de mosaico se
estendia ao centro da sala; três poltronas de couro logo acima, separadas por
uma pequena mesinha de madeira e dispostas de maneira triangular. E por fim,
em uma janela que dava vista a um extenso jardim de pétalas de rosa com uma
pracinha central, contornado por um clima nebuloso, estava um senhor,
contemplativo, como se exaurisse uma fragrância indelével e incorpórea de um
néctar introspectivo.

O tempo encravou suas mazelas sobre esse homem. Em seu cabelo, que noutra
hora emitia um brio dourado como o nascer do Sol, agora estava tingido por uma
tonalidade branca e pálida, despida do viço de sua juventude. Sua compleição era
dura feito mármore, simétrica, porém fria e séria. De seus olhos, que antes
cintilavam um azul sereno, restara um cinza, sombrio e moribundo. De seus trajes,
havia uma grande dignidade, sobretudo belo, como se estivesse pronto a sair a
qualquer momento.

Ele virou-se a Finn e disse: "senta-te". E assim ele o fez. Sentia algo grave em seu
tom, não algo fora do habitual, mas um tanto abatido.

— Estaria sendo direto demais se lhe questionasse o que esteve discutindo com
Lúcio?

— Estaria.

Disse Wagner, enquanto se sentava na poltrona central. Ele olhou com firmeza
para Finn, mas logo aplacou seu olhar. Finn mantivera a calma o tempo todo.

— E se incomodaria se eu perguntasse mesmo assim?

— Não. Mas creio que já sabe. Não que isso tenha uma real importância. Em breve
serão sombras parvas que se dissolvem no passado.
— E o que quer dizer com isso?

— Você já pôde observar dissonâncias?

— Dissonâncias? O que quer referir-se com isso?

— Lembro-me que, em minha infância, escutara um caso macabro. Múltiplos


assassinatos ligados a um aristocrata que morava em uma mansão perto da rua
Denver. Seus alvos eram sempre mulheres jovens, ruivas, e parecia ter um fraco
por virgens, mesmo que sua lista fosse composta quase inteiramente por damas
da noite. Lembro-me dos mínimos detalhes sobre esse caso, pois me fascinara.
Sempre saía de casa pelas manhãs rumo às bancas de jornais para me pôr a par
das atualizações sobre o caso, e na época eu detinha por volta de 11 anos. Não
entendo por que me levava àquilo, a qual impulso devia aquela sensação
alucinante de querer ver mais, eu uma criança pueril e infantil. Mas ora aquilo
cessou, e esqueci sobre o caso. Até que me recordei dele alguns anos atrás. Fui
atrás de uma caixa na qual depositei recordações de infância, e me recordo
vividamente que todo o material coletado sobre o caso, eu guardei nesta caixa.
Mas nela, eu não encontrei menção alguma a isso. Investiguei a fundo, fui atrás de
materiais da época, mas nada pude encontrar. Absolutamente nada. Então
encaminhei-me aonde lembrava que ficava a mansão, perto da rua Denver, onde
já passara inúmeras vezes no passado, admirando em horror e fascínio seu estado
decrépito e decadente; não vi nada além de um grande terreno baldio. Pensei que
fora demolida, procurei registros do terreno, perguntei sobre ele a locais, mas tudo
que soube é que, nos últimos 40 anos, nada fora erguido ou demolido naquele
local. Era como se nada daquilo tivesse existido. Como se nada tivesse
acontecido.

— Dissonâncias — Finn falou de maneira pensativa, como se deliberasse sobre


algo. — Creio que já presenciei algo similar, mas isso não é o mais importante,
gostaria de falar sobre a Shelly Group...

— Isso não importa. — disse em tom grave —, eu sei de tudo, Lúcio já me pôs a
par. Mas não importa. Se serve de consolo, nada será feito quanto a isso. Tudo
terminará em breve... E recomeçará novamente.

Finn o olhou consternado. Tentava entender o que se passava; talvez uma


tentativa de desestabilização para posteriormente coletar mais informações sobre
o caso? Tentava abaixar sua guarda? Então, Wagner continuou:

— Quero que conte sua experiência com o assunto. Algo me impõe que eu
pergunte. Algo desperta minha sede sobre isso.

— Eu não entendo aonde quer chegar com isso, senhor.

— Apenas conte, eu exijo isso, conte e tudo estará perdoado. Conte!


Algo rasgara seu coração. Memórias passavam a fluir entre suas veias. Preferia
reprimi-las, mas sentiu-se constrangido a liberá-las, não por Wagner, mas por algo
a mais.

— Eu tive um sonho, ou não... Confesso que não sei ao certo. Eu conheci Lise em
uma festa organizada por um amigo. Ela era tão bela, a mais bela das beldades
desse Mundo e de Outro. Fiquei enfeitiçado por seu encanto e disparei-me a ela.
Conversamos a noite toda, na mesma noite a chamei para sair, e saímos. Tivemos
uma noite juntos, entramos em um relacionamento. Eu a amava, eu a amo. Foram
bons anos juntos, pensava em pedi-la em noivado. Então, um dia acordei. Minha
cama estava vazia, não havia fotos espalhadas pela casa. Não havia sinal dela. Eu
liguei pra amigos, perguntei se haviam tido notícias dela. Eles estranhamente se
perturbaram com a situação, não pelo seu desaparecimento, e sim por não saber
sobre ela. Eles contaram-me que ela vivia com Luis. Fui até sua casa, onde a
encontrei. Luis estava confuso e preocupado, e eu mais ainda, e ela... Estava
magnífica como sempre, quanta ternura existia naquela confusão. Mas senti meu
coração dilacerado quando descobri que ela não era minha, e nunca fora. Ela
casara com Luis. E eu a apresentei a ele na festa de anos atrás. Nós nunca sequer
nos beijamos. Quando assimilei isso, pensei ter vivido um bizarro estado
dissociativo, ou um sonho tão realista, diabolicamente realista. De alguma forma,
todos pareciam compreender ou não entender por completo o caso; de qualquer
modo, ao final, tudo voltou aos eixos, tão rápido, como se meus devaneios nunca
tivessem acontecido...

Recaiu-se um silêncio de morte. Wagner, com sua mão ao queixo, parecia tentar
se lembrar de algo. Quando ele disse:

— Tinha alguém que levava as mulheres para ele. Eu me lembro, ele se chamava...
Ele se chamava... Como ele se chamava?

Finn o olhou de maneira melancólica, disse:

— Talvez não importe. Os que andam pelas soleiras jamais serão lembrados, e não
merecem.

— Não está certo sobre isso. Mas a razão aqui não importa.

— E algo nesse mundo importa?

— O amor importa. Em seu âmago, você sente, pela sua mais pura intuição, o que
de fato importa.

— Acho que devo ir.

— Lembro-me que um Eremita disse-me uma vez que tudo voltará ao que foi. Que
o passado é uma serpente branca translúcida, que insere-se sobre as amálgamas
do tempo, chafurdando-se no negrume e esquecimento, apenas para voltar, de
novo brio, numinoso mais uma vez, de maneira a que todos julgam diferentes. Em
um eterno ciclo vicioso.

— Como um eco distante e incorpóreo?

— Como a vibração de uma cisão cósmica. Criadora de tudo o que vivemos.

— Entendo...

Finn então passou a caminhar para a saída, quando foi interrompido por palavras
que pareciam ecoar pelo Universo: "tudo voltará a ser".

Finn saiu da mansão. Passou a andar pelas mesmas trilhas que antes cruzara, só
que agora, sozinho. Ele desviou um tanto de seu percurso. Pegou uma ramificação
da trilha que levava ao labirinto da mansão. Tinha o desejo de vê-lo de perto, mas
não de entrar.

Ele chegou à entrada do labirinto, que era precedida por uma estátua de mármore
puro. Hermes vestia uma capa que cobria seu corpo nu; em sua cabeça, jazia seu
capacete circular, onde habitavam duas asas opostas uma à outra. Ele levava o
braço até a boca, onde mantinha seu dedo indicador em seus lábios duros e frios,
fazendo um sinal de silêncio, mas com um leve sorriso, quase irônico. Havia uma
placa aos seus pés, em sua base. Estava gravado nela em latim: "Silentium est
aureum".

Ele a contemplou por um tempo, até que por fim a entrada labiríntica passou a
chamar sua atenção. Escuro, mais do que deveria. Um terror insondável parecia
se manter ao centro daquele labirinto. Então, do absoluto nada, ouviu alguém a
cantarolar. Não havia letra, eram sons pré-verbais que soavam tão dóceis e
infantis. Finn escutou atentamente, até encontrar sua origem. O labirinto. Sua
respiração se tornou levemente irregular. Seus punhos se cerraram; ele temia
aquilo. Temia o que quer que fosse sair daquele labirinto.

Então, saltando de supetão da entrada do labirinto para fora, como um guepardo,


surgiu Lúcio, gritando: "Buh!". Finn manteve a compostura e fingiu que não teve
medo daquilo, mas mentia. Lúcio reconheceu isso. Ele em seguida perguntou em
um tom jocoso:

— O assustei?

— Não.

— Não parece!

— O que deseja alcançar com essas brincadeiras infantis?

— Que isso! Está estressado. Desanimado com alguma coisa?


— Suma!

— Acalme-se, acalme-se. Não tenha medo, sou só eu. — Ele se aproximou de Finn
pelo flanco direito, deu tapinhas fortes em suas costas dizendo: — Passou!
Passou!

— Tu não regulas bem. É louco.

— E você é um perdido! Está completamente perdido. Mas entendo você. Sabe o


que eu faço quando estou perdido? Conto do zero ao três. Nesta ordem: zero,
um...

— O que diabos você quer comigo?

— E precisamos de motivos para querer conversar com alguém? Tão racional!

— Apenas fale o que quer falar.

— Se eu fosse falar algo, definitivamente seria para a posteridade, seria algo


como: a vida é um intenso roda-viva, é como se todos estivéssemos a girar em um
giro alucinante! — Ele literalmente começou a girar. — Bem assim, olhe bem.

Então Finn passou a caminhar para a saída, quando Lúcio disse, como se dissesse
a si mesmo: "Que plateia difícil!". Então correu atrás de Finn. Ele o interceptou e
recomeçou dizendo:

— Sabe que não pode fazer nada, né? Deveria abandoná-lo. O que está feito está
feito. Você nunca pôde fazer algo sobre isso, não nessa vida. Deixe o fluxo seguir
até o final, não corra atrás dele como um cão correndo atrás do dono! A propósito,
que analogia interessante, agora eu sou o cão!

— Você não sabe de nada.

— Nisso concordamos! Mas escute, você sabe bem o que acontece com cães
imprestáveis, não é?

— Foi você então?

— Eu o quê?

— Que colocou aquele maldito mendigo em meu caminho! — Bradou com fúria,
perdendo sua paciência. — Era para me desestabilizar? Para que eu não possa
interceder por Luis?

— Deixa disso! Não me importo com os assuntos corporativos. Só quero ajudar


um amigo de profissão, por assim dizer.

— Não quero e não preciso de sua ajuda.


— Uma pena! Talvez você nunca pudesse evitar a sua sina de qualquer maneira.
Adeus!

Lúcio, sem dizer palavra, apenas saiu saltitante e alegre, cantarolando, sem olhar
para trás, como se estivesse embriagado pela própria vida. Já Finn, olhou-o com
raiva por um tempo, que logo se aplacou. Então seu olhar mudou, talvez o
invejasse. Seus olhos o acompanharam enquanto Lúcio desaparecia no horizonte.
Logo, Finn seguiu o mesmo exemplo e tomou o rumo fora da propriedade de
Wagner.

Ele retornou à sua casa, exausto. Jogou-se na própria cama e rapidamente perdeu
a consciência. Ele sonhou que andava por uma escada interminável, em espiral,
dentro de um tipo de torre medieval. Quanto mais andava, mais a luminosidade
do local diminuía, até tornar-se puro breu. Ele continuou a subir, mas parecia não
haver muita perspectiva de alcançar algo, até que ouviu uma chuva que batia
sobre as paredes de pedra. A água começou a entrar. As escadas se encharcaram.
Passaram a ficar escorregadias. Finn diminuiu a passada, andando lentamente,
temendo escorregar. Até que, saído do profundo nada, um pequeno brilho
iluminou o local; ele não sabia sua origem, apenas ouvia seu chamuscar. Então
veio um grande estrondo de trovão, o brilho aumentou com volúpia, e Finn
escorregou e caiu em um profundo abismo. Então, ele acordou.

Estava assustado. Olhou para os lados, como se procurasse encontrar algum sinal
de anomalia que lhe indicasse ainda estar dormindo. Logo, levantou-se. Notou
que passara das 7 e estava atrasado para o encontro com Luis.

[Deflagração]

Finn, por fim, chegou ao bar. Era um ambiente um tanto enxuto, porém amigável.
O local providenciava uma temática rústica. O piso era de madeira; as paredes, de
um vermelho que beirava o vinho. Havia um grande balcão que ficava logo à frente
da entrada e se estendia até o meio do estabelecimento. Uma série de bebidas
alcoólicas estava disposta atrás dele. Mesas e cadeiras estavam colocadas
ordenadamente pelo estabelecimento e, ao fundo, havia sofás de canto, tendo no
centro uma mesa de madeira. O local estava um tanto cheio, mas Finn logo
encontrou Luis ao fundo. Ele se aproximou e notou uma garrafa já colocada, que já
havia sido parcialmente esvaziada. Ele começou enquanto se sentava:

— Quantas tomou até agora?

— Umas três, no máximo.

— Não creio que isso seja verdade.


— Cale-se e sirva-se.

E assim Finn fez: encheu um copo que estava à sua disposição e tomou um leve
trago. Em seguida, observou Luis; notou que era evidente que tomara muito mais
que só uns 3 drinks.

— Não vamos falar sobre a empresa. Não esta noite — decretou Luis.

— Eu concordo. Isso não importa por agora.

— Sim, não importa. O que importa é minha amada mulher. Ela é o que importa,
não é verdade, Finn?

— Suponho que sim. Afinal, lembro-me de você ter me falado que queria
conversar a respeito dela.

— E falei. Mas não entendi o porquê de você ter dado tanto destaque a isso ao
longo do dia.

— Não entendo o que quer dizer com isso.

— Nada, nada...

— Apenas prossiga no que queria dizer.

— Ela é uma vadia. Agressiva e lasciva. E gostava dessa última parte... Oh, Finn,
você não tem ideia de como eu gostava dessa última parte. — Ele olhou com
rancor nos olhos de Finn.

— Sei... — Ele tentou fingir que não percebeu aquele olhar.

— Eu a conhecia, eu a conheço. Mas há um problema crescente. Não a foda;


ainda fodemos muito. Mas ela está cada vez mais agressiva. Acorda com
pesadelos, às vezes distante, e, nesses dias, ela me bateu.

— Acho que exagera. E mesmo que não, deveria dar uma trégua a ela. Sabe que
ela se sente sufocada nos últimos tempos.

— Trégua? Ela me bateu por um sonho estúpido. Pela porra de um sonho. Acordou
gritando feito louca e, quando tentei consolar, ela começou a me estapear.

— Estou apenas dizendo, Luis. Ambos sabemos que Lisa é um dos poucos seres
neste mundo que são capazes de suportar os seus acessos de raiva.

— Acaso se acostumou a apanhar, Finn?

— São só alguns dias ruins. Não representa nada além disso.

— Mas eu acho que representa algo além. Acho que ela está confusa.

— Confusa? Com o quê?


— Talvez com certas amizades. Amizades pelas quais ela tem um carinho maior
do que deveria ter.

— O que está tentando insinuar?

— E você ainda pergunta? Você chega na porra de meu apartamento parecendo


um drogado, não fala nada com nada, e pergunta desesperado por Lisa? Sua
esposa?

— Aquilo... Já faz mais de um ano. Eu... Eu não estava bem na época, era um
estado dissociativo estranho. Achei que tinha deixado para lá.

— Ah, sim, deixado para lá! — Ele falou tão alto que quase foi um grito e, em
seguida, virou mais um copo.

— Luis, se acalme. Abaixe o tom, alguns estão olhando.

— Eu não sou cego, Finn. Eu vejo como você a olha. Mas saiba que aquele olhar
com o qual ela o olha não é retribuição. É pena. Ela sente pena de você, Finn.

O que Finn sentia era como se uma adaga trespassasse seu coração, deixando
sangrar, como uma sangria. Fluindo, à deriva, ao mar. Mal pôde manter a postura.
Mal pôde saber o que pensar. Mas ele falou:

— Você está bêbado. E não sabe do que está falando. Não conhece o que se
passa no coração dela. Você não sabe de nada.

— Eu não sei? Ela se jogará em meus braços quando eu entrar em casa. Como
sempre. Disso eu tenho certeza.

Luis se levantou e tomou o rumo da saída, quando, de supetão, um senhor bêbado


tropeçou e caiu sobre ele. Todos no bar pararam para olhar. O senhor balbuciava
coisas sem sentido algum. Luis olhou para o velho com um ar arisco de desprezo.
Deu de ombros, quando o senhor o agarrou. Desnorteado, ele falou em lamúrias:

— Ignis, meu filho. Como podes ainda andar sobre os vivos? Não reconhece o seu
próprio pai? Meu filho, meu amado filho.

Tentou abraçá-lo, mas Luis o empurrou com brutalidade, gritando: "Não me toque,
velho louco". Quase no mesmo instante, um outro senhor veio intervir.

— Perdoe-o, bom senhor, ele não sabe o que faz; está com o juízo desregulado
desde a morte do filho.

— Eu não dou a mínima para isso. Se esse velho decrépito me encostar


novamente, eu o mato.

— Luis! — disse Finn, aproximando-se rapidamente para o apartar da confusão. —


Olhe a cena, controle-se, por favor...
Todos no bar olhavam diretamente para Luis. Ele, com um ar ríspido, deu de
ombros. Não falou uma palavra, apenas saiu. Finn o seguiu. Tentava acompanhá-
lo, seguindo logo atrás. Mandava-o parar, mas este não parava. A calçada pela
qual Luis seguia se estreitava, ao ponto de só caber uma pessoa no caminho. Finn,
para acompanhá-lo, teve de andar sobre a rua. Esta estava esburacada; ele
tropeçava tentando acompanhar a velocidade de Luis. Finn disse:

— Você está bêbado e agressivo. O que foi aquilo no bar? Você tem que parar. Não
pode voltar para casa assim.

— Você não manda em mim.

— Luis, pare! Isso vai acabar em tragédia!

Finn o segurou no braço, tentando impedir seu avanço. Mas logo Luis o retribuiu
com um soco. Punhos cerrados, com energia e toda força que Luis continha. E
ainda o pegara desprevenido. Finn caiu de costas no chão. Naquele momento, ele
pôde reconhecer o estado patético no qual se encontrava.

— Eu fiz tudo por você... Desde criança. E sou agradecido com um soco?

Luis seguiu adiante. Ele não olhou para trás. Em nenhum momento. Por mais que
em seu coração carregasse um peso. Um peso que era aplacado pela força de seu
ódio.

Caminhou pela noite na cidade. Tardava o seu regresso a casa. Não queria voltar,
por isso, andou a esmo. As ruas estavam quase vazias. As luzes cintilavam por
toda a parte: comércios, prédios, faróis e carros que transitavam de um lado a
outro. Tudo aquilo produzia uma sinfonia quebrada, desregulada e não rítmica, o
que era típico de uma cidade. No entanto, o cheiro da fumaça dos escapamentos
e os barulhos típicos de ambientes urbanos não o perturbavam. Pelo contrário,
parecia que até o agradavam de certa maneira. Quase como se tudo aquilo lhe
devesse crédito, de uma maneira estranha.

Então, uma borboleta de coloração amarelo-alaranjado trespassou aquelas ruas


imundas e parou sobre o capô de um carro vermelho, estacionado ao lado de um
beco. Aquilo chamou a sua atenção. Sentindo-se oprimido pela mera presença da
borboleta, uma estranha mistura latente gerou-se em seu peito: raiva, desprezo e
um leve medo.

— Inexpugnável.

Disse uma voz cuja origem era o beco. Luis olhou para a origem. Era um homem de
aproximadamente 40 e poucos anos, com uma expressão que demonstrava que o
tempo não lhe outorgou misericórdia. Fatigado notoriamente, ele tinha uma
presença auspiciosa, com um ar lacônico. As suas roupas eram imundas. A sua
barba, volumosa e malcuidada. O cabelo era negro e estava tapado por um gorro
surrado e escuro.

— Falou comigo? – disse em tom nítido de desprezo.

— Não, creio que fiz um pouco mais do que isso.

— Troças comigo?

— Mas do que já foi troçado pela vida? Impossível.

Uma raiva aflorou-se em Luis. Ele a controlou, estalando a língua e cerrando os


punhos. “Não perderei o meu tempo com gente da sua laia”, disse e começou a
seguir o seu caminho. De repente, o senhor falou: “Não ficou, sequer, curioso
sobre como o filho daquele velho morreu?”. Aquelas palavras o perturbaram.

— Como?

— Oh, agora está disposto a perder tempo com gente da minha laia?

— Como sabe disso? – ele se aproximou, furiosamente.

— Eu sei de muita coisa, Luis.

Luis agarrou-o pela gola da camisa e jogou o homem contra a parede. Iracundo,
disse:

— Como sabe o meu nome? Quem, caralhos, é você?

— Um espelho. O que mais um miserável vagabundo poderia ser?

Luis apertou-o com mais força contra a parede. “Quem é você?”, disse Luis. “Em
vez de perder tempo com a minha identidade, não quer ouvir algo mais
interessante? Sabe como Ignis morreu?”. Luis, a contragosto, com um nítido
receio, quase como se soubesse a resposta, falou:

— Conte.

— Uma execução, hehe.

— O que ele fez?

— Não sabe a resposta?

— Evidente que não.

— Eu conheço o seu tipo. Você mente.

— Como?
— Você é o tipo que se desvia do cerne principal. Não deveria estar questionando,
o que você fará?

— O que, caralhos, você está dizendo?

— Eu, eu a estrangulei. Por Deus, o que eu fiz? O que foi que eu fiz? – ele emulava
um pranto falso de maneira jocosa. – Ho, ho, o que foi que eu fiz? Hihi.

— O que se passa com você? O que se passa com você, porra? Cale a boca!

Ele passou a rir ainda mais. Luis pressionou-o com ainda mais força. Porém, as
suas risadas não cessaram. Elas se alastravam cada vez mais: mais alto, mais
vigorosas. Até que, num acesso completo de fúria, Luis o socou. Os seus punhos,
com firmeza, acertaram em cheio no rosto do mendigo. Este, combalido pelo
impacto, caiu sobre uma lata de lixo ao seu lado. Um dente havia sido perdido. Um
leve lastro de sangue caía da sua boca, num pequeno fluxo. Um leve silêncio se
fez, até que ele tornasse a rir. Mais uma vez, o homem tornou-se iracundo, e socou
o seu estômago. O mendigo gemeu de dor, mas os seus risos não cessaram. Ele
bateu de novo no seu rosto, e de novo. Não o parou de o sovar. Quando o mendigo
caiu de vez, ele passou a chutá-lo. No entanto, ele não parou de rir, mesmo no
momento mais extremo da sova. Luis parou. Distanciou-se do mendigo. Este,
deitava-se rindo baixo em posição fetal no chão. “Patético”, disse Luis. Ele voltou a
caminhar de volta para a sua rota. O mendigo, quase como se tivesse em delírios,
gritou:

— Essa foi uma boa piada. Vai entender quando a hora chegar, vai entender!

[Tormento]

Finn andava perdido. Não sabia ao certo por onde caminhava, só mantinha em
seu peito uma certeza ominosa: uma tragédia iria acontecer. A imagem de Lise
surgia em sua mente, transbordando em seu peito uma sensação funesta. Ele
parou, olhou ao seu redor; estava sobre uma ponte de pedra, sob a qual corria um
rio. Uma luz cintilava em um poste na extremidade oposta da ponte. Ele enfim
percebeu que estava na rua Denver.

“Intuitivamente estou me levando para cá? Por quê?”, ele pensou. “Isso não
importa. Meu peito ruge e me diz que algo vai acontecer; preciso ir para o
apartamento de Luis”.

Não era possível ver estrelas na noite, o tempo estava fechado, e uma leve garoa
começou a pingar sobre ele. Ele acelerou a marcha. Tomou um atalho por um
beco e sentiu algo que o observava lá. Mas ignorou, apenas acelerou. Ele ia a
trotes; estava perto, já podia ver o prédio em que Luis e Lise viviam. Tão perto
estava, tão longe parecia sua estrada. Ele estava sobre a rua que descambava no
prédio. Bastava andar mais alguns poucos metros e assim ele o fez; no entanto,
não sentia que avançara. Neste ínterim, soava sobre sua cabeça a voz de Lúcio.
Lembrava do que falou, lembrava do conselho de apenas abandonar. Ele ignorou.
Começou a correr. Entretanto, o caminho sempre parecia não findar em seu
destino. Ele correu com toda a força do seu ser; a voz de Lúcio voltou a ecoar,
demandava que o parasse, mas ele ignorou.

Por fim, pôde chegar em frente ao prédio. Havia uma portaria metálica, porém o
porteiro não estava, e a porta se encontrava entreaberta. Algo instintivo nele se
acendeu. Um temor profundo. Seus ossos se enrijeceram. Mesmo após sua
intensa corrida, sentia um frio de morte. Tinha certeza de que um abismo indizível
estava reservado a si no momento em que seus pés cruzassem aquela porta. E
eles a cruzaram.

Um tremor luziu, como se o próprio universo se convulsionasse. Sentiu como se


um intenso fluxo de energia fosse diretamente direcionado para seu cérebro, pura
agonia. Era uma dor que aniquilava as portas da sensibilidade corpórea. Todos os
seus sentidos explodiam, uma hipersensibilidade elevada à décima potência.
Cada membro de seu corpo, cada órgão, cada molécula, sentia tudo sendo
energizado violentamente. Ele gritou de dor. Ambas as mãos pararam sobre as
têmporas. Andava curvado, mas não cessou os passos. Apoiava-se sobre as
paredes da entrada, tentava recuperar-se da dor súbita. Ia na direção do elevador,
quando outra convulsão cósmica o acometeu. Desta vez, caiu de joelhos.
Guinchou, como se engasgasse com a própria dor. Levantou-se, caminhou mais
alguns metros; o elevador estava ao seu alcance, elevou sua mão para apertá-lo.
Então, foi como se nunca estivesse lá. Sua mão estendia-se ao ar. À sua frente
estava a rua; ele via o prédio, tão perto.

Ele não entendia. Nenhuma hipótese foi erguida ou sequer era possível se erguer.
No entanto, Finn deu mais um passo, não tencionava desistir. Apenas pensava em
Lise. Seus cabelos vermelhos ao vento, sua fragrância de cerejas, a sensação de
sua pele. Tão vívida, tão palpável, como se ela estivesse ao seu lado a todo
momento. Então, mais uma vez, uma outra convulsão cósmica o arrebatou. Mais
intensa do que antes. Como se o próprio Sol infligisse seu ódio e morticínio contra
ele. Tombou novamente. Gemeu alto em tormento. E novamente se levantou.

Nesse instante, ouviu uma risada estridente. Alucinada e sádica. Das sombras
saía um ser imundo. Gorro surrado e sujo. Andrajos imundos. Pálido, mas com
grandes manchas negras de imundície em seu rosto. As orlas de seus olhos eram
vermelho-sangue. Seu sorriso era um puro êxtase diabólico.

— Não lhe foi outorgado este poder, Suivento. As bordas que tangem sua
influência findam ali — disse o mendigo.
— Cale-se! — gritou Finn.

Finn tentou socá-lo múltiplas vezes, mas seus punhos encontraram sombras que
se desfaziam sobre eles. O mendigo projetou-se atrás de Finn, encostou
grotescamente sua cabeça sobre a dele. Ele tentou desgarrá-lo, mas nada o
desvencilhava. Suas mãos tocavam as sombras, sem em nada retê-las. O
mendigo continuou a falar:

— Achou que seria diferente? Achou que poderia impedir isso? Você já viu o que
acontece.

— Pare!

Uma outra convulsão cósmica o penetrou. Ele urrou enlouquecidamente de dor.

— Tudo termina assim! Atirando-se em torrentes violentas de águas, tendo seu


corpo destroçado pelas pedras. Cada osso arrebentado, cada carne dilacerada!
Cada agonia sentida, revivida inúmeras vezes.

— Não! Por Deus, não!

Múltiplas convulsões em sequência trespassavam seu ser. Ele gritou:

— Deus! Minha alma queima. Pare! Chega! Por favor, pare!

Ele andou urrando e gritando em milhares de convulsões. Caminhava para o


prédio, mas, à sua frente, tudo se transmutava. A estrada transformava-se em
barro, após isso, pura mata, então em pedra lascada. Os postes piscavam e
apagavam, tornavam-se lampiões, então era breu. Os carros desapareciam e
davam lugar a carroças e cavalos, apenas para que, de súbito, tornassem mais
uma vez a ser carros. E à sua frente voltava a rua Denver. O véu da realidade se
desvencilhava diante de seus olhos.

“Esta é a sua sina. Você sabe como acabar com a dor”.

Tudo se intensificara de novo, tudo girava em um turbilhão. Carros. Barulho.


Brilhos de Lumines. Estrelas que pareciam que caíam do céu. Seus próprios gritos
ensurdecedores.

“Você sabe como acabar com a dor”.

A voz ressoou com mais estrondo. Ele subiu no parapeito da ponte. Uma chuva
mortuária surgiu. A água sacudia violentamente. Agredia com brutalidade tudo o
que tocava.

“Isso tem que ser diferente na próxima vez. Isso tem que ser diferente na próxima
vez!”, gritou, enquanto se afogava em mil gritos de pura insanidade. Então, quase
como se fosse empurrado por uma força indizível, jogou-se nas águas. Seu corpo
foi arrastado com fúria pela correnteza. Foi arremessado contra as pedras; cada
osso de seu corpo foi arrebentado. Cada carne, dilacerada.

[A mulher]

Envolvida em seu leito, com o olhar fadigado, quase de uma morta. Os ponteiros
do relógio a provocavam emoções terríveis, o barulho de seu pendor tinha uma
aflição auspica. Ele voltaria às seis, ela o aguardava. Porém, o sentimento era
dúbio, anuviava-se entre um amálgama de contradições. Hora existia
animosidade, hora medo. Hora uma saudade nostalgia. O ponteiro, por fim,
apontou-se para as seis. Ela já podia vê-lo entrando pela porta, como se sua
sombra já a rodeasse. Ela esperou 5 minutos, depois mais 2 minutos, que se
transformaram em 20, e foi-se indo substantivamente. Após as horas de espera, o
humor dela enfim encontrou seu alicerce, fixando-se em raiva com um leve aroma
de ciúmes.

Por fim, ele chegou. Ao abrir da porta, ele já notara o peso do clima. Sua adorável
mulher que outra hora tomou como costume recebê-lo a abraços e beijos, não
estava pulando em seus braços. Isso o irritou, profundamente.

—Estou em casa!

Manteve-se na entrada esperando que ela viesse cumprimentá-lo. No entanto,


não houve nada, apenas um silêncio atroz.

Por fim, percebendo que de nada valia a espera, avançou pela casa. Passou pela
cozinha, sala e nada de encontrá-la. Logo, tomou a direção do quarto, onde enfim
a encontrou. Estava deitada em seu leito, ambos os joelhos se encontravam em
seu busto, quase em posição fetal. Seu olhar amargurado, o ignorava e retinha-se
fixo em uma janela ao lado.

—O que passa com você, Lise? Por que me ignora?

—Onde estava? Por que demorou?

—Houveram alguns imprevistos no trabalho, isso me deteve por mais tempo que o
habitual.

—Você cheira a álcool.

—O que quer dizer com isso?

Existia um ar áspero em sua voz, perturbava-se pela falta de controle sobre ela. Se
angustiava por sua falta de ternura.

—Você bebeu, não foi? – Olhou-o nos olhos com um sorriso de deboche.
—Atente-se à maneira como me trata! – Uma fúria subia em sua voz. – Lembra-se,
tu me pertence.

—Eu te pertenço? – Começou a gargalhar estridentemente, em um furor incomum,


como se reprimisse essa risada a séculos, tentava atenuar sua risada com as
mãos, o que não tinha efeito. Engasgava-se em seu surto de risos, seus olhos,
estavam ensandecidos.

O homem paralisou-se ante ela, um misto estranho de cólera e medo, tomava seu
peito. Suas feições foram tomada por um pânico, suas mãos tremiam levemente,
sentiu um impulso que o levava a recuar dela. Ele, em seu leve recuo, parou de
supetão. Sentiu-se imobilizado, uma fraqueza invadia seus músculos enquanto
contemplava aquele surto psicótico. “Tenho medo?”, pensou ele, “estou com
medo dela?”, “não, não, não! Eu não a temo! Não temo ninguém!”.

—Cale a boca!

Com mais rigor e vigor, ela passou a rir, debulhava-se em sua cama, girando de um
lado ao outro em fúria, ele assegurou por ambos os braços, colocou-lhe-a,
sentada, a sua frente.

—Você está tremendo? Me segura com tanta força, mas ainda treme!

Os risos tornaram a ficar mais extremos, ele, não conseguindo conter sua cólera
mais, com suas mãos abertas, estapeou-a. Com força, com o tapa, ela se jogou
sobre a cama não pelo impacto do tapa em si, esse, mesmo sendo forte, não
carregava a potência necessária para derrubá-la, o que a levou a se jogar, foi um
impulso obscuro, que a levava a atuação.

Os risos pararam, o silêncio invadiu o lugar. Ele a olhou, passivamente de costas


sobre a cama, desviando seu olhar do dele. Como um animal com medo e
indefeso. Ele subiu sobre ela, agarrou, com ambas as mãos e as atirou de seus
rostos, no mesmo impulso, forçou seus quadris sobre os dela. Então, ao atirar
suas mãos e contemplar seu rosto, pôde ver um sorriso diabólico formar-se. O
susto, foi tão grande que de supetão, saltou de sua cama, para ir de costas ao
chão, sentiu dor no impacto, mas mesmo a dor não pôde fazer desviar seus olhos
temerosos dela.

Ela levantou-se, aproximou-se e ajoelhada sobre o leito, olhou-o em sua cama, de


cima para baixo o observou caído ao chão com aquele sorriso pérfido malogrado
numa ternura maligna.

—Tem medo de mim?

—Não.

— Você mente.
— Você realmente consegue amar alguém? – ele disse quase em delírio.

— Sou a mais pura expressão do amor.

— Se você é a expressão do mais puro amor, por que seus olhos parecem tão
malignos?

Ela saiu da cama, aproximando-se dele, então, empurro-o com força contra o
chão, deitou-se sobre ele, levando seus lábios a sua boca, atrelando seus braços
sobre seus pescoços, em caricias lambendo seus lábios, arrastou sua língua até
sua orelha, onde surrou em um estranho tom de êxtase vitorioso:

— Me diga, quem controla quem?

Um medo ainda maior o assaltou, não conseguia se mover, a fragrância de âmbar


dela o enfeitiçava, sua mente se nebulava, como se aos poucos fosse tomado
pelas correntes do mar, prostrado ante sua potencia, e puxado ao mais profundo
dos abismos. Logo o peso do corpo dela sobre o seu, passava a tornar-se
insuportável. Sentia como se sua vida se esvaísse em cada lúgubre beijo de seus
lábios gélidos. Então como uma fera ante a morte reuniu todas suas forças, em
um único impulso, com raiva e medo, atirou-a sobre o chão, com ambas as mãos,
torceu-lhe o pescoço.

— Você não vai me controlar, não vai me consumir!

Ela debateu-se em pânico enquanto sufocava, lançava suas mãos contra o rosto
de seu agressor, arranhava-o, estapeava-o, enquanto observava seus olhos
cravados em um estupor alucinante e temeroso. Suas mãos sem força, caíram
sobre o chão, seu olhar, cedendo a morte, sentia que precipitava seu fim. Porém o
destino quis, que uma garrafa de álcool, rolasse a sua mão devido ao impacto, ela
a sentiu, tomou-a, e golpeou-o com força, o sangue espalhou sobre o quarto, o
rubro escarlate jorrou sobre a cena, ele retumbou-se e caiu de costa sobre uma
cômoda.

Aproveitando a chance, ela levantou-se e correu, logo, ele recuperou-se e correu


ao seu encalço. Ela disparou sobre a porta da entrada. Ele também, ela abriu e
saiu, ele a seguiu, correndo pelo corredor, viu uma porta vermelha, uma saída de
emergência, ela trespassou-lhe, a atravessou com ele logo atrás. Nas escadas, ele
a alcançou-a, ela perdeu o equilíbrio e iria cair, mas não sozinha. Puxou-o consigo.
E ambos caíram juntos, na morte.
[Seus olhos se abriram]

Por que caio?

—Já te contei sobre esta história.

Por que vivo? Respiro? Por quê?

—Porque a roda continua a girar. Morte, sangue, lutas. Isso é o que alimenta a
roda. É a eterna guerra de Troia, em que seus atores estão condenados a repetir o
mesmo processo.

Quem eu sou?

—Já teve muitos nomes, por isso, chamo-o apenas de o homem.

—Porque vejo que tudo se repetirá de novo, e de novo, e de novo?

—Porque seus olhos se abriram. Agora, estamos na parte mais fechada do círculo.
A espiral se estreita. Aproximamo-nos dos últimos segundos. Em breve, a comédia
começará de novo.

[colecionador de corpos]

Em 1888 em Riverland, um homem curvado, meio corcunda, carregava um saco


preto suspeito em suas costas. Andava por uma estrada pavimentada de pedra,
no breu da noite. Apenas alguns postes iluminavam aqui e acolá. Ele caminhava
rumo a um pequeno cemitério chamado Spiritfree. Tinha dificuldade em andar
pelo peso, porém já parecia acostumado a esse tipo de situação. No caminho, não
encontrou alma viva. Apenas ele atrevia-se a vagar por aquelas terras à noite. Ao
chegar rente ao portão que dava acesso à entrada principal, cuidadosamente
colocou o saco sobre o chão, demonstrando um estranho respeito. Tirou de seu
sobretudo um amontoado de chaves, selecionou uma, fincou no cadeado e abriu
o portão. Fez apenas uma pequena abertura, nem de mais, nem de menos.
Apenas para sua passagem e para que não se levantassem suspeitas. Tomou o
saco sobre o lombo novamente e adentrou. Apartava-se da frente, tomando a
direção dos fundos, onde sabia que encontraria covas já abertas, com pás ao
lado. Ele mais uma vez fez um movimento para colocar o saco no chão, no
entanto, escorregou e o deixou cair num tombo. O saco se rasgou levemente em
sua parte superior, revelando um couro cabeludo ruivo. Ele levantou-se, olhou
para o corpo, imagens horríveis que perturbavam sua mente vieram à tona. Em um
brando e parco suspiro, deixou que escorressem algumas gotas de lágrimas por
seu rosto. "Peço perdão, minha cara, você não merecia isso", falou em um leve
pranto. Logo após, ele passou a cavar a cova rasa, deixando-a o mais profundo
que poderia. Então, depositou o cadáver sobre ela, com o máximo de respeito que
a situação poderia provir, o que evidentemente não seria muito. Ele jogou a terra
sobre o corpo e partiu logo em seguida.

Na noite, não podia-se ver estrelas, o céu estava completamente tomado pelas
nuvens e ameaçava chover. Ele não parecia se importar com isso. Com ambas as
mãos no bolso, andava curvado, evitando olhar para os lados. O ar gélido dançava
em aspetos de vapor que saía de sua boca. Não pensava em nada, ou pelo menos
tentava não pensar. Sua noite silenciosa só fora quebrada momentaneamente por
um mendigo que acabara de acordar na rua. Este encontrava-se abraçado ao
manto ralo que usava para se proteger do frio. Os passos de Charlie, que
ecoavam, chamaram sua atenção. Ele ajeitou-se, desengonçado, e apoiou-se
numa parede da qual estava próximo. Olhou para Charlie, meio curvado, e disse:

— Uma moedinha, senhor?

Havia aí um tom estranhamente jocoso em seu pedido. Charlie espantou-se com


aquele chamado; estava imerso na própria mente e aquilo serviu como um
despertar. Levou a mão direita ao bolso, colheu uma moeda e jogou-a para o
mendigo.

Este, por sua vez, deu uma leve risada. Charlie não percebeu, apenas continuou
caminhando, quando de súbito o mendigo falou:

— O patrão te cobrou muito?

Charlie respondeu:

— Acho que sim...

— É claro que sim! É nítido em sua cara, tão amargurada e tensa. Deve ter passado
por umas e boas.

Charlie olhou para o chão. Pousou seus olhos sobre uma poça escura que o
refletia, mesmo através daquela escuridão. Ele disse:

— Tu nem tens ideia.

— É claro que sequer tenho — disse de maneira jocosa. — Talvez sofra até mais do
que eu. Ao menos, tem algo próprio para sofrer; quanto a mim, além da minha
própria situação, só posso sofrer pelos desígnios dos outros!
— O que quer dizer com isso?

— Nada que seja de tamanha importância assim, Charlie.

O servo congelou. Seus olhos se fixaram no mendigo; eles encararam aquela


criatura horrenda e corcunda que tinha a audácia de não apenas conhecer seu
nome, como proferi-lo. Ele disse em semipânico:

— Como sabe meu nome?

— Eu sei mais de uma coisa a seu respeito.

— O-o que sabe? — ele disse, gaguejando.

— Sei como sofre, Charlie. Pobre Charlie, sofre tanto. Mas não é como se tivesse
escolha, não é mesmo?

— O que diabos você sabe?! — elevou a voz tentando impor um ar de raiva, mas
apenas refletia medo.

— Você tem escolha, Charlie?

O mendigo olhou-o fixamente. Charlie o olhou de volta nos olhos, mas, de chofre,
se virou. Tomou o caminho que lhe fora ordenado. Andou calmamente por ele,
mesmo estando em um estado de pânico. Virou-se, olhou novamente onde o
mendigo deveria estar, mas ele já não estava mais lá. Voltou a andar. E tentou
esquecer.

Chegou a um casarão de arquitetura vitoriana pertencente a um nobre chamado


Guilles Defont. Ele parou por momentos ante um portão, parecia refletir sobre
algo. Não queria entrar, mas se viu constrangido a isso. Deu o primeiro passo a
contragosto, seguido do segundo, e assim foi adiante. Até chegar rente ao portão,
tomar seu amontoado de chaves, escolher uma dentre estas, selecioná-la e fincá-
la no cadeado para destrancá-lo.

Ele passou por um pequeno jardim que estendia o caminho para a entrada
principal que se dispunha no centro. Ele adentrou, seguiu caminho por um breve
corredor cujos contornos eram um papel de parede branco com lumes azulados
espalhados por ele, candelabros sobre o teto e um tapete vermelho que se
estendia por todo o corredor. Ele foi até onde desaguava uma escada que levava
aos cômodos superiores. Ele a subiu, cruzou à esquerda, onde dava-se ao maior
quarto da casa. Chegou à porta feita de mármore fino, com entalhes esbeltos e
soberbos, e bateu gentilmente. "Entre", ele ouviu e logo em seguida entrou. Com
as mãos grudadas, quase num gesto estranho de súplica, andando sempre
corcunda de cabeça baixa, ele falou quase sussurrando: "Está feito". O Homem
trajado com uma camisa branca de linho e calças pretas o olhou. Seus cabelos
eram pretos, lisos e um tanto estufados, porém tinha leves entradas frontais em
seu couro capilar. Seu rosto era simétrico, olhos castanhos e um nariz aquilino.
"Agradeço, Charlie. Você é um bom servo", ele replicou. "Senhor Guilles, eu...",
Charlie começou a falar, mas foi interrompido, "Já basta por hoje. Vá para seu
quarto, descanse. Amanhã, passe na feira, traga nozes para mim". "Certo,
senhor...".

Ele saiu silenciosamente, desceu as escadas, percorreu pelos corredores até o


fundo da casa, onde havia um pequeno cômodo. Abriu, entrou. Não tinha muito
espaço, mal cabia uma cama, muito menos caberia uma escrivaninha. Entretanto,
ainda assim, detinha uma. Posta logo à frente da cama, ela impedia a plena
abertura da porta, por isso, só se conseguia abri-la até a metade e, em seguida,
espremer-se para entrar. Como o local era minúsculo, antes de sair, era
necessário colocar sua cadeira acima de sua cama para não barrar o caminho.
Apesar da estreiteza, era impreterível a existência daquela pequena escrivaninha.
Gostava de ler sobre ela e nela escrevia cartas aos parentes e poucos amigos que
tinha. Quando entrou no quarto, notou uma carta ao chão, passada por debaixo da
porta em sua ausência. Ela tinha como remetente Sofia. Ele a tomou, deu-lhe um
leve beijo de cordialidade, colocou-a com reverência sobre a mesa, em seguida
sentou-se e a abriu. A carta dizia:

"Ao meu caro amigo, Charlie Dacon.

Espero que esta carta possa te encontrar em um bom estado de saúde e espírito.
Eu a envio, pois sinto que andas a evitar-me. Nossas longas conversas que sempre
agradaram minha alma deram lugar a meros acenos de cabeça seguidos de
escapadas por sua parte. Mesmo quando nos encontramos no mercado, vejo que
evita falar comigo. O que me impele a questionar o motivo. Em nossa última
conversa, não me lembro de tê-lo ofendido ou magoado de alguma forma, pelo
menos, não percebi se o fiz. Caso o tenha, quero desculpar-me. Tu sabes o quanto
me importo contigo, o quanto sua presença me apraz, me dá alegria, mesmo nas
tardes mais tristes dessa cidade. Sabe também que mesmo após um ano e meio,
não me adaptei por completo. Sinto-me uma estranha deslocada do mundo, sinto
falta de minha vila, das colinas do bosque, de amigos que deixei e do ar doce
florido dos campos. Você é um dos poucos seres com quem pude
verdadeiramente me entender, o único que posso chamar de amigo, pois sei que
entende o que passo, já que esteve na mesma situação. Não irei mais me alongar
e nem lhe incomodar com meus lamúrios juvenis. Peço apenas que aceite se
encontrar comigo. Estou em um momento que necessito da companhia de um
bom amigo.

Para sempre sua fiel amiga, Sofia Water."

Ele forçou-se para não chorar enquanto lia. Lamentava-se por fazer falta a uma
criatura que tanto lhe era cara. Não queria vê-la sofrer e sabia que precisava de
ajuda, mas temia algo. Temia que não a pudesse proteger de um ser demoníaco e
temia mais ainda que pudesse atraí-lo a ela.

Na manhã do dia seguinte, Charlie se encontrava numa pequena feira, não muito
longe do casarão do senhor Defont. Estava cheia, abarrotada de gente em
andrajos dos mais variados tipos e cores. Não havia um marcador social muito
bem definido naquele lugar. Entretanto, era frequentado principalmente por
servos e pessoas de classe baixa e média. Ele não foi para repor estoque, como
era de costume, e sim para satisfazer um gosto paliativo específico de Defont. Ele
havia acabado de comprar um pequeno saco de nozes e já rumava de volta ao
casarão. Até que foi interrompido. Uma jovem ruiva, que não passava dos 20,
gritou por seu nome. Ele a notou, mas fingiu que não e partiu tentando se apartar
dela. Ela deu um leve trote e o alcançou. Então, segurou pelo seu cotovelo.
"Charlie!", ela disse. "Sim?", replicou meio constrangido.

—Você leu minha carta?

—Eu a li...

—Podemos conversar um pouco?

—Eu estou com um pouco de pressa...

—Por favor, conte-me o que há, por que me evita?

—Eu não evito.

—Sim, evita, está fazendo isso agora. —ela o olhou com um olhar levemente
deprimido— Eu fiz algo a você que lhe ofendeu?

—Não, por Deus, não. Você não fez nada a mim.

—Então podemos conversar por um momento? Há uma pequena pracinha aqui


perto, é menos movimentado, vamos até lá.

Ele estava meio hesitante, sabia que deveria declinar, mas ele aceitou o convite. A
doçura juvenil e inocente dela o encantava. Eles chegaram em pouco tempo na
praça, se sentaram. O clima era um tanto constrangedor, demoraram um pouco
até que um deles passasse a falar.

—Por que estava na feira? —falou ele.

—Fui comprar vegetais, até que o vi.

—Eu entendi... Eu soube do seu pai, meus mais sinceros pêsames. Eu queria estar
lá, mas...

—Eu queria que estivesse lá...


—Me desculpe.

—Não precisa se desculpar. Eu sei que devo estar te atrapalhando de alguma


forma.

—Você não me atrapalha de maneira alguma.

—Então por que tem me evitado? Não é por medo de rumores estranhos?

—Eu não ligo para rumores, é só que é algo complicado de se dizer. Eu só ando um
tanto ocupado.

—Não acho que seja só isso.

—Vocês andam bem?

—Andamos do melhor jeito que dá para andar nessas circunstâncias. A morte do


pai foi devastadora para os pequenos. Minha mãe agora passa a maior parte do
tempo tecendo para cobrir as contas. Eu a ajudo no que posso, mas vejo que não
cobrirá as finanças por muito tempo. Eu vou conseguir um emprego em uma
fábrica que aceite mulheres. Um parente meu está me ajudando nisso.

—Não faça isso! —falou num tom anormal— Essas fábricas vão destruí-la. Você
vai roer em fuligem.

—Precisamos do dinheiro, não tenho outra escolha.

—Você disse que tinha amigos, no antigo vilarejo que vivia eles poderiam te ajudar
a voltar.

—Eu tenho dois bons amigos por lá, mas não quero sentir que estou me
aproveitando da boa vontade deles.

—Eu posso conversar com uns amigos que servem na mansão dos Gray. Posso ver
se convenço o patrão a contratá-la como empregada.

—Você poderia ver com o senhor Defont, ouvi que ele confia muito em você.

—Não! —disse em quase pânico — digo... Eu não quero soar grosseiro. Eu só


quero dizer... Eu conheço aquele homem desde que era garoto, o cuidei desde
seus 14 anos. Ele não é boa gente.

—Tudo bem... Pode continuar conversando? Promete que parará de me evitar?

—Sim, eu prometo.

Era noite. Guilles olhava do parapeito da sacada do seu quarto. Via no céu lumes
fuscos de luz que brilhavam e cintilavam, mas não havia lua alguma. Na cidade,
mesmo de noite, feixes de luz incidiam por toda parte. Mesmo imersa ante as
trevas da noite, aquela cidade recusava o sono. Transeuntes passavam pelas
calçadas, algumas carroças trespassavam as ruas agitadamente, como se fosse
imbuídas de tarefa mui importante. Charlie abriu a porta em silêncio, não se
atreveu a bater, pois conhecia que naquela hora seu chefe usava para matutar,
sabe-se lá o que. Ele parou ainda dentro do quarto, sem ultrapassar a sacada,
esperando que sua presença fosse notada hora ou outra. O que não demorou
muito para isso.

—Já fazem 3 semanas.

—Não faz tanto tempo assim...

—Sim, faz. Preciso de você. Preciso que faça.

—Senhor, sabe que me dói fazer isso, tenho pena. Não posso continuar fazendo
isso.

Com um leve sorriso irônico lapidando-lhe o rosto, ele falou:

—A cumplicidade em fato é a pior das culpas.

—O que quer dizer com isso?

—De maneira não muito longa: que você não tem escolha, fará o que quero, assim
como sempre o fez.

Ele tornou a entrar no quarto, se aproximou de um armário, retirou de uma gaveta


um saco de moedas e depositou nas mãos de Charlie. "Vá", disse-lhe. Charlie saiu
com o mesmo ar servil que entrou.

Ainda era noite quando Charlie chegou. A rua tinha poucos transeuntes.
Entretanto, era abarrotada por um tipo específico de pessoas. As estradas eram
sujas, as calçadas mal iluminadas e as pessoas que circulavam faziam de
maneira discreta. Mulheres em pontos específicos vestidas predominantemente
com vestidos com anquinhas, tentavam emular algum charme sensual para cada
passageiro que por ali passava. Exibiam os corpos de maneira voluptuosa. Outras,
sem qualquer senso de decoro, despiam o busto, mostrando seus seios; meras
mercadorias para o prazer libidinoso. Charlie frequentava esporadicamente o
local, não como consumidor, mas como um simples intermediário. Ele tomava o
rumo de um salão de prazer específico, o qual conhecia a cafetina. Uma megera
que não se importava com nada além da quantidade de tostões que receberia ou
deixaria de receber. O salão era decrépito, assim como tudo, não havia placas
indicando o local, deixando implícito que todos os que o visitam, visitavam por
indicação, ou por encontrar pelo mero acaso em explorações suspeitas. Ele
passou por um grupo de mulheres que o instigaram sexualmente, ignorou-as e
seguiu seu caminho, até uma pequena sala que ficava aos fundos. Havia um
segurança, alto meio moreno, com um olhar intimidante. Ele o viu e reconheceu,
abrindo-lhe passagem. Ele entrou. Na sala, viu a cafetina, vestia o mesmo que as
outras damas da noite, só com um tanto mais de decoro. Um pouco mais de meia-
idade, cabelos castanhos com fios brancos espalhados esparsamente. Olhos
negros como a noite e uma cara assaz desprezível, como se estivesse
perpetuamente emulando uma careta de descontentamento.

—Então os desejos de nosso cliente misterioso se afloram novamente?

Ela falou tentando transpor uma voz sedutora. No entanto, seja pela voz
levemente rouca derivada do uso constante e excessivo do tabaco, ou pela clara
aura fastidiosa de sua pessoa, a tentativa falhou.

—Sim... Sinto muito.

—Não sinta, eu não ligo. O tipo que ele gosta não dura muito mesmo nas ruas. Vá
ao final da rua, você vai encontrar Sara, a deixei num lugar pouco movimentado
especialmente para o nosso galanteador misterioso. Não sei se é virgem, mas não
teve programa algum até agora.

—Certo.

Ele com um quê de culpa e constrangimento, tirou do bolso a bolsinha abarrotada


de moedas. Pôs na mesa e saiu. Ao fim da rua, ele a encontrou, ruiva, bonita e
com não mais que 20 anos. Ela era assustadiça, notoriamente sem qualquer
experiência. Ele se aproximou dela, perguntou pelo nome:

—É a Sara, certo?

—Sim. Quer meus... Serviços?

—Tenho um cliente que os quer. Quero que vá para a rua Denver, não muito longe
daqui, tu tomará uma carruagem que estará esperando você. Ela o levará para o
local.

—Isso parece suspeito.

—Esse cliente tem uma imagem a ser zelada, por isso o mistério.

—Eu não sei...

—Sua cafetina já liberou sua passagem. O pagamento será 3 vezes maior que o
habitual.

Ela o olhou pensativa, sentia um estranho medo latente. Nunca havia


experienciado esse tipo de situação, mas como era inexperiente, não sabia se era
uma abordagem comum. Ela também percebia que por parte dele, havia algo
estranho, como se tivesse cometido um pecado mortuário por estar ali.
Receosamente, ela aceitou.
A carruagem a levou até a parte dos fundos da mansão. Ela carregava um pequeno
papelzinho que dizia por onde ela devia entrar e por onde passar quando estivesse
lá dentro. Ela entrou por uma porta metálica que estava aberta. Passou por um
jardim mal cuidado, seguindo uma pequena trilha, entrou pelas portas do fundo
da mansão, caminhou por um corredor vazio. Até o presente momento, não havia
encontrado alma viva lá dentro. Ao meio do corredor, viu uma porta. Gravada ao
seu meio com um triângulo de vértice central virada para cima. Era lá que deveria
entrar. Quando entrou, viu Guilles, sentado em uma cadeira posicionada reta à
parte horizontal direita da cama. Ele fumava um cigarro. Assim que a notou,
apagou em um cinzeiro.

—É você? —ele disse.

—Sim. —falou timidamente.

—Perfeito. Feche a porta, a chave está na maçaneta, tranque-a e coloque a chave


na cômoda a sua esquerda.

Ela o fez. Eles se entreolharam. Ele a observou de baixo para cima. Seu vestido
vermelho com detalhes brancos, decotes à mostra, um ar juvenil e inocente.
"Você é perfeita", ele disse. Logo em seguida, se levantou, ficou logo à frente dela
e falou:

—Quero que diga seu nome.

—É Sara. E o seu?

—O meu particularmente não importa. Dispa-se.

Ela passou a obedecê-lo. Entretanto, ele tomou seu rosto com uma leve
agressividade, levou a poucos centímetros do seu, e disse:

—Você deve dizer sim. A cada ato que eu te pedir para fazer, deve se comprometer
a dizer sim antes de executá-lo. Me entendeu?

—Sim.

—Ótimo, continue.

—Sim.

Ela com certa dificuldade, tirou seu vestido, devagar, julgando que assim teria um
efeito afrodisíaco maior sobre o cliente. Após isso, ele voltou a se sentar sobre a
cadeira. Ele disse: "Quero que dance".

—Como?

—Eu não disse para responder com perguntas. Diga sim e faça o que eu mando. —
disse em entonação iracunda.
Ela o fez, tentava dançar, mas era desengonçada. Não tinha ritmo ou fluidez, se
quer tinha experiência com dança na vida. Envergonhava-se disso, por outro lado,
aquela vergonha parecia aprazê-lo. "Fique de quatro", "Sim", ela disse, Prostrando-
se ao chão. "Ponha o rosto sobre o chão, e suas mãos sobre as costas", ela o fez.
Ele tomou uma corda que estava guardada sobre uma gaveta ao seu lado,
amarrou. Ela passivamente o permitiu. Então, com certa rudeza, pôs seus pés
sobre sua cabeça. "Pare", ela falou. Ele pisou com mais força e fúria, e disse num
lapso nervoso, "Não diga o que eu devo fazer". Então ele a levantou violentamente,
pôs sua mão direita sobre seu pescoço, dizendo: "Está me entendendo?
Consegue me entender?", "Sim", ela falou entre lágrimas que deambulavam sobre
seu rosto. Então ele a estapeou com força. Levou-a agressivamente para um canto
do quarto, onde havia uma cômoda com um espelho. "Coloque seu joelho direito
aqui", "Sim", ela disse. Ele agarrou seus cabelos presos à sua nuca, com força o
suficiente para machucar. A fez olhar seu reflexo enquanto sua outra mão,
apertava sua garganta. Ela viu seu rosto borrado pelas lágrimas que distorcia a
maquiagem, como raízes negras que se retorciam ante seus olhos. A respiração
dele passou a ficar mais áspera e rítmica, ele lambeu em volúpia suas lágrimas,
então gritou, como uma maldita fera demoníaca saída dos ínferos. Com as mãos
firmes em sua nuca, ele bateu a cabeça dela contra o espelho, com o máximo de
força que lhe era possível. O espelho se rachou em mil pedaços, sangue escorria
de sua face, ela passou a gritar em pânico. Ele a arremessou ao chão, fazendo-a
tombar. Subiu por cima dela, abriu suas pernas e a penetrou. Enquanto
forçosamente realizava o ato, suas mãos pararam sobre seus frágeis pescoços, e
passou a torcê-los. "Socorro! Alguém me ajuda", ela disse em pânico enquanto
sufocava. Isso o deixou ainda mais iracundo, apertou mais forte. "Não, por favor...",
ela disse nos últimos suspiros, mas suas preces não foram ouvidas.

Após o ato, ainda ofegante, ele se forçou sobre o cadáver da vítima mais algumas
vezes. Vestiu-se então e saiu do quarto. Se deparou com Charlie, com um saco
grande em suas mãos. Ele tinha o mesmo aspecto serviçal de sempre, mas com
olhos perturbados, como se pudesse imaginar cada cena de horror que se
passava naquele quarto. Guilles deu um leve riso. E falou: "Agora faça teu
trabalho". Charlie entrou naquele quarto e caiu de joelhos ante a cena. Arrastou-se
pateticamente para perto da vítima. Tocou seu rosto e chorou. Entre lágrimas
copiosas, ele desculpava-se, como se isso de alguma forma pudesse redimi-lo ou
livrá-lo de sua culpa.

[Inexorável destino]

Ele estava deitado em sua cama. Remoía aquelas imagens grotescas e horríveis
que de forma tão vivida, agora perturbavam em sua mente, quase como se ele
mesmo as cometera. A única coisa que lhe provinha qualquer tipo de alívio agora,
era lembrar-se de seus encontros com Sofia. Ele lembrava-se que haviam
combinado de se encontrar em uma pequena cafeteria chamada "Central Coffee".
Mas sua mente não o permitia dormir. Ela o torturava a cada segundo com sua
inexorável culpa nos acontecimentos que se seguiram.

Eles se encontraram no meio da tarde. Sentaram numa mesinha ao ar livre.


Charlie tinha um nítido aspecto debilitado, olheiras que saltavam à vista, andar
cansado e arrastado, parecia exaurido por algo. E isso foi rapidamente notado por
Sofia.

—O que há contigo, Charlie? — ele disse com um olhar preocupado e uma voz de
pura ternura.

—Não há nada, só ando meio cansado.

—Ele te fez trabalhar até a madrugada de novo?

—Sim, fez, mas não se preocupe, estou acostumado a isso — um olhar pesaroso
se formou ao dizer a última frase.

—Eu quero fazer algo por você, você tem sido tão bom comigo desde que nos
conhecemos. Eu tenho dois ingressos de uma apresentação de circo.

Ela tirou de sua bolsa dois ingressos e botou na mesa. Charlie os olhou, se
interessou pelas grafias, um grande círculo que tinha a aparência de uma cobra
que mordia a própria cauda. Em seu centro, havia um grande olho, com aspecto
egípcio, lembrando os olhos de Hórus. Logo abaixo do desenho, havia um nome
que transpassava a cédula toda, "Serpent of Eyes".

—Eles devem ter sido bem caros, você não deveria ter gastado dinheiro com essas
futilidades. Ainda mais dada a situação financeira da sua família.

—Não se preocupe com isso, estamos bem desde que você me arranjou um
emprego de empregada na casa do senhor Defont. Ele paga muito bem.

Ele a olhou perplexo, com olhos assustados.

—Espera, como assim? Eu falei com um amigo que trabalhava nos Gray. Isso...
Isso não faz sentido.

—Charlie, você está bem?

—Não foi isso que aconteceu? Eu escutei errado?

—Charlie, você tinha me dito que conversou com Defont sobre minha
contratação. Faz dois meses que ele me empregou. Charlie, que cara é essa? Você
está bem?
—Não, isso não foi o que aconteceu... Você tem que sair, você não pode continuar
lá. —ele falou em um pânico amedrontador.

—Charlie, você está me assustando.

—Eu não quero assustá-la, eu só...

Ele a olhou, mas ela já não estava lá. O dia tornou-se noite. Ele agora estava em
cima do parapeito de uma ponte, quase como se fosse pular. Ante ele, um rio
imenso de correnteza agitada se aplacava furiosamente. Havia uma tempestade
que jorrava contra a terra. Ventos uivavam como espectros sussurrantes de
Hades. Ele, assustado, tombou de costas sobre a terra, ganiu de dor pelo impacto.
Olhou ao seu redor sem entender como havia parado ali. Mas sentia um
pressentimento péssimo. Se localizou se utilizando de placas, viu que não estava
longe da mansão de Defont. Correu no breu noturno, não tinha viva alma em seu
caminho. As luzes dos postes pifaram e apenas reconhecia o caminho por
memória muscular. Chegou no portão de aço da mansão, lá havia uma luz. Tentou
abri-lo, mas estava trancado. Conferiu os bolsos, mas não havia chave alguma.
Pensou em pular, mas temeu levantar suspeitas caso passasse alguém. Então
rumou à porta dos fundos. Ela estava aberta. Um fluxo medonho atravessou seus
ossos nesse instante, ele sabia o que aquilo significava. Entrou na mansão,
passou pelo jardim e adentrou na parte dos fundos dela. Molhado, ele começou a
caminhar vagarosamente, rumo à porta. Quando chegou, olhou pela brecha da
chave da maçaneta. Viu se desenrolar a cena.

—Por que pediu para eu entrar pelos fundos? —disse Sofia.

—Isso não importa. Você entende a situação em que está?

—Eu não sei... Você me quer?

—Quero tê-la sobre meu completo domínio. Mas há um jeito específico cujo quero
dominá-la.

—Eu não sei se me sinto confortável com isso. Você tem sentimentos por mim?

—Doce e inocente —ele sorriu—, você é perfeita.

—Nós mal nos conhecemos, você sempre foi gentil, mas mesmo assim.

—Vamos mudar isso então. Conte sobre sua família, como veio para Riverland?

—Meu pai tinha um pequeno pedaço de terra na minha vila natal. Mas ele queria
mais, as notícias de fábricas e riqueza nas cidades o seduziram. Ele vendeu suas
terras, levou-nos à cidade e abriu uma pequena imprensa de tecelagem. Ela não
deu certo, ele adoeceu e morreu.

—Sente raiva dele?


—Não.

—Deveria. Sente falta de sua vila?

—Muito. Eu tinha dois bons amigos por lá. Na infância, eu vivia os arrastando em
confusão, sempre íamos a um lago chamado de Lago Profundo, foi lá que nos
conhecemos.

—Por que não voltou quando seu pai morreu?

—Não tínhamos recursos. Minha mãe insistiu para que eu pedisse ajuda para um
dos meus amigos, ele era muito rico para os parâmetros da vila. Mas eu não queria
sentir que estava me aproveitando de sua boa fé. Ele amava-me, eu não queria
usar seu amor sem poder retribuí-lo.

—Mas não vê problema em me usar, não é tão inocente assim —ele sorriu com
compleições malévolas.

—Eu não queria dar a entender isso.

—Não queria? Você veio à noite a um quarto com um homem. Que


convenientemente é seu patrão. É mais do que evidente que você quer favores,
em troca de um favor.

—Não, não é isso!

—É isso sim, minha cara, está tudo bem sendo assim. Eu a desejo, quero que
aceite esse dinheiro em troca desse favor que lhe requeiro. —ele deu-lhe um saco
volumoso de libras, que só no total era um montante de 20£.

—Isso é muito...

Ele levava seus lábios aos dela, mas ela declinou e se afastou. Em seguida, disse
não.

—Não?

—Eu não posso aceitar isso. Eu sinto muito.

Uma raiva se apossou dele. De maneira ríspida, em um tom iracundo, disse:

—Irei demiti-la.

—Se assim o desejar.

—Irei falar que roubou-me, espalharei isso nos meus círculos sociais, e entre a
plebe. Você não encontrará emprego em lugar algum. Também falarei do
envolvimento de sua mãe. Irei incrustar dúvidas severas sobre a honra de sua
família. Seus irmãozinhos passarão fome. Sua mãe morrerá enferma e você terá
que se sujeitar à prostituição se quiser sobreviver dentro dessa cidade maldita.
Ela o olhou atônita. Não sabia o que falar, toda a máscara que tinha sobre ele foi
dissolvida.

—Por que? —disse entre prelúdios de lágrimas.

—Porque sou assim.

—Porque sou assim. Vai aceitar meu dinheiro?

Ela tremia em um leve medo. Com receio, disse: “Sim”. Ele forçou um beijo, ela
tremia, mas não declinou dessa vez. “Dispa-se”, ele disse, “não”, disse ela. Ele
com a parte externa da mão, a estapeou. “Dispa-se”, ele disse, “por favor, Guilles,
não”. Ele a surrou novamente. Dessa vez, ela pareceu que iria obedecer, começara
a levar as mãos para desabotoar o vestido, quando em um momento de distração
dele, ela correu para a porta. Tentou abri-la, mas sem sucesso. Guilles a pegou
pelos ombros e a lançou ao chão, e subiu sobre ela. Ela começou a se debater.
Charlie, não suportando mais ver a cena, passou a bater na porta. Falava: “por
favor, patrão, ela não, senhor Guilles, eu te imploro, ela não”. Ele começou a surrar
sua face mais forte, rasgou seu vestido, ela se debatia e o arranhava e tentava
furar seus olhos, mas sem sucesso. Charlie chutou a porta, inúmeras vezes, até
que enfim, ela cedeu. Ele adentrou no quarto, a viu implorando por sua vida. Mas
ele ficou paralisado, olhando a cena a menos de um metro, com as costas
arqueadas e olhos lamuriosos. Ele implorava com as mãos juntas, como um
escravo. Ele dizia: “meu senhor, eu lhe arrumo outra (os olhos enchiam de
lágrimas), por favor, meu senhor, eu estou lhe implorando. Sofia sufocava, nas
garras de uma fera atroz, suas súplicas foram ouvidas, mas não atendidas. Os
braços cederam, as chamas de sua vida, foram tomadas por trevas funestas. Um
lume florescente de uma rosa escarlate se apagou.

Em 1888 em Riverland. Um homem curvado, meio corcunda, carregava um saco


preto suspeito em suas costas. Andava por uma estrada pavimentada de pedra,
no breu da noite. Apenas alguns postes iluminavam aqui e acolá. Ele caminhava
rumo a um pequeno cemitério chamado Spiritfree. Tinha dificuldade em andar
pelo peso, porém já parecia acostumado a esse tipo de situação...

[Risadas]
Quem ri?

—O público.

Quem o são?
— O que tange e toca o prisma
por quê tantos enigmas?

—Chega de perguntas, em breve tudo reiniciará, esteja pronto para isso.

Um momento, espere! Existe uma saída? Há maneiras de romper o ciclo?

—Sim.

[Feira de Nozes]
Um homem chamado Jonatas caminhava por uma feira, comprava nozes em uma
barraca de um velho ancião. Quando ao fundo, ouviu-se um tumulto. Movido pela
mera curiosidade, ele foi verificar, se deparou com uma roda de pessoas envolta
de uma senhora que chorava aos prantos. Ela tentava entrar em uma casa, mas
um homem a impedia com o máximo de delicadeza que a situação permitia. A
senhora jogava-se aos chãos, gritava por sua filha. O homem alertava que agora
aquilo se tornara uma cena de crime, a entrada no local, apenas dificultaria a ação
das autoridades competentes. Jonatas olhou tudo aquilo com extrema
curiosidade. Até que o mendigo, um tanto longe, falou:

—Acho que alguém perdeu o fôlego, hein.

Estranhamente, ninguém além do Jonatas pareceu escutá-lo.

—Pobre mulher, o que será que fará quando descobri que sua filha já não era mais
virgem nos seus últimos momentos. Será que ela julgará que o inferno a
arrebatará?

Aquilo o revoltou. Ele se aproximou do mendigo para tirar satisfações, ele disse:

—Será que não tem humanidade? Esta senhora acaba de perder a filha.

—Creia-me, sou o mais humano daqui.

—Você é um monstro.

—Estranhamente isso não contradiz o que falei.

Jonatas o olhou com desprezo.

—Quero que suma já daqui.

—É claro, eu sumo já. Mas antes, quero lhe fazer uma pergunta. Sabe o que
realmente assusta na morte? No momento mais derradeiro dela, naquele último
suspiro, quando já não há mais esperanças.
—O que diabos está falando?

—Apenas responda.

—Eu sei lá, eu não sei.

—A dissolução. Você entende, não entende?

Sabe-se lá por que, aquilo o perturbou muito. Ele o olhava, olhava para a velha
senhora, então tornava seu olhar ao mendigo.

—Eu não entendo.

—Vai entender.

[O assassino]

—Eu preciso saber, Guilherme. Você não tem o direito de ocultar a verdade de
mim.

O homem manteve-se quieto sobre a penumbra de olhar sorumbático, em suas


vestes pretas, fixava o olhar a esmo. Sem demonstrar qualquer tipo de reação ao
interlocutor, apenas mantinha seu olhar moribundo, alheio ao mundo e a vida. O
rapaz a sua frente, insuflava-se de impaciência, mesmo tentando transpor uma
falsa aura de calma. A sola de seu pé esquerdo, em um tique nervoso, batia ao
chão. Seu olhar ora volvia o rosto de seu amigo, ora pairava-se ao longe,
trespassando a translucidez de uma janela ao fundo, e fixando na copa de uma
árvore.

—Tu sabes a gravidade, tu sabes o quanto me arrisco por abrigá-lo, dado o teor de
tamanha barbare que é acusado. Sim, eu sei dos rumores que permeiam a cidade.

Os olhos de Guilherme deram um sobressalto, por momentos, sua boca tremeu


levemente, desejava falar, mas não ousava proferir.

—Tu és inocente, eu sei disso, te conheço desde tenra idade – uma angústia se
engasgava em sua voz – mas preciso ouvir de sua boca, pelos céus, eu preciso
disso!

—Eu... Quero água.

Em um estrondo, um trovão se abateu sobre a árvore. O observador caiu em


espanto, dando um pequeno ganido de dor. A árvore, em um pequeno lapso de
tempo, passou a queimar. O homem de olhar moribundo, passou a olhar a árvore.
Um terror estranho apossava-se de seu rosto, era como se uma memória antiga
se aflorasse em sua alma. O observador olhou com certo espanto aquilo.

—O que há Guilherme?
—Jonatas... Você tem medo do fogo?

—Que tipo de pergunta é essa?

—Perdoe, é apenas algo que me veio a cabeça...

Uma náusea de súbito invadiu Guilherme como um soco. Em um movimento


quase involuntário ele rapidamente, se pôs de joelhos, com ambas as mãos em
sua boca, segurando o máximo a vontade de vomitar.

—O que há Guilherme? Passas mal?

Jonatas corre para acudir o amigo, mas logo, esse volve-lhe com um olhar de
desespero.

—Diga-me, diga-me meu amigo, qual é o meu nome?

—Mas o que raios passas com você?

—Por favor, diga!

—Guilherme, Guilherme Barões de Oliveira.

Um alívio tolheu seu olhar.

—Isso é bom, sim, muito bom.

Perturbado, Jonatas olhava para Guilherme.

—Vou pegar um copo d’água, volto já.

Jonatas afastou-se com passos lentos e vagarosos, cruzando o corredor onde


havia a janela que revelava a árvore que agora estava em chamas.

—Que frio é esse que trespassa minha espinha?

Tentou ignorar a imagem da árvore, passou então em direção a cozinha. Onde


estava dominada por uma penumbra negra, a medo enrijecia seus ossos, porém,
não parou. Tomou um copo e uma garrafa d’água, logo, de maneira meio trêmula,
derramou a água sobre o copo, enchendo-o até perto da borda. De súbito, no
canto de seus olhos, no outro extremo esquerdo da cozinha, viu uma sombra
feminina. Ela não se mexia, calava, apenas observava. Petrificou-se pelo medo,
tentava convencer-se de que era ilusão, uma materialização de seu medo intenso,
pela possível culpa de seu amigo. aos poucos o tempo discorria, enquanto ele
chafurdava em covardia. “Isso não vai sumir se eu não olhar”, tal pensamento
pairou sobre sua mente, “apenas olhe, apenas olhe”, passou a reunir forças,
passou a buscar por um simples lapso de coragem, mesmo que breve. entretanto,
os músculos de seu pescoço, enrijecidos, abnegaram-se do movimento. No
entanto, ainda observando pelo canto do olho, notou uma movimentação
daquela sombra. Um micro-movimento, ou talvez apenas impressão. Seja o que
for uma onda intensa de medo destrinchou-se por seu ser. Seu corpo mal
suportava o próprio peso. Tudo o impelia para baixo por instantes, seu ser pendia
para uma perda de consciência. Doravante Tirou-lhe forças, sabe-se lá de onde, e
em um movimento veloz, olhou.

Nada encontrou a sua frente. Um desidioso alívio percorreu-lhe o corpo.


Entretanto, foram breves seus momentos de alívio, de chofre, um ar gelado,
deitou-lhe sobre as costas. Uma presença sombria ali se instaurava. Uma
respiração pesada, abatia-se sobre seu pescoço. A criatura, tentou falar, no
entanto, como se sua voz não se proliferasse em sua corda vocal e soltasse por
sua boca, gemeu, um gemido agastado, rasgado. Aos poucos, esse gemido,
ganhava-se forma, uma pequena conjectura ia se formando. Enfim, tornou-se
algo compreensível. “Matou-me”, falava a sombra, em uma voz feminina,
desfigurada por todas as maneiras possível. A palavra repetia-se, arrastava-se, até
que então, de súbito, um raio branco, de tamanha luminosidade, sobreveio sobre
o cômodo. Tirando qualquer traço da escuridão, e no processo, cegando,
brevemente, Jonatas. Tão rápido quanto veio, tão rápido se foi recolhendo-se as
trevas novamente, levando consigo todas as criaturas que nas sombras habitam.

Atônito se encontrava o Jonatas, o medo passou-se, tudo que se manteve, foi a


profunda falta de compreensão dos eventos que se desenvolveram-se ante ele.
Momentos após, recuperando-se do choque, com um certo receio da escuridão,
tomou o copo em um movimento semimecânico, e rumou fora da cozinha,
voltando a sala, encontrou Guilherme, sentava-se ainda sobre a cadeira, ambas
as mãos sobre as têmporas, curvava-se a coluna, e detinha um profundo olhar de
desespero.

—Guilherme, tome um pouco.

Ele em um semipânico, pegou-lhe da mão o copo, e sorveu-se em sofridão,


Jonatas sentou-se no sofá ao seu lado, em preocupação, examinava seu amigo,
de longe, queria aliviar a amálgama funesta que pairava sobre suas cabeças, ao
mesmo tempo, em que era abatido por uma terrível curiosidade.

—Guilherme, consegues falar agora?

Não obteve resposta alguma. Decidiu-se optar por uma nova abordagem.

—Ainda lembra-se de Sofia?

Aquilo chamou sua atenção, despertava uma memória nostálgica.

—Lembro.

—Vivíamos sempre com ela, meu irmão. Lembra-se quando a conhecemos?


—Sim, em um lago.

—Exato, um ainda com um nome estúpido, era algo como profundo... Profundo
alguma coisa...

—Lago profundo – deu-se uma leve risada – um nome que esbanja criatividade.

—Sim! E tu lembras bem do dia em que fomos?

—E como esquecer? Nossos pais proibiram-nos de ir aquele lugar, tivemos que ir


às escondidas. No raiar da manhã, você esperava-me atrás de uma árvore, saí
escondido de minha casa, e desta árvore, fomos até o lago.

—E era um lugar bem escondido, atravessávamos colinas e bosques, pra chegar


lá, mas quando chegamos, foi magnifico, nunca tinha visto tanta água antes.

—Era esplendido aquele amontoado de água.

—E lembra-se do momento que a conhecemos?

—Foi um momento desesperador. Eu, como um parvo, me joguei no lago,


esquecendo-me de que não sabia nadar. Tu entrou em desespero, pois assim
como eu, tu não sabias nadar. Você passou a gritar como um tolo por ajuda.

—Eu tinha certeza que ela viria.

—E eu, na morte, mas ela veio, Sofia.

—Uma menina estranha pulou no lago e lhe salvou. Me lembro bem da cena dela
gritando pra tu se acalmar, ou o largaria.

—Haha, eu gritava como uma galinha em desespero.

—Foi uma cena hilária.

—Após isso, ficamo-nos amigos dela. Ela era tão vigorosa e selvagem. ela nos
ensinou a nadar, e vivia nos arrastando em confusão... Ela foi meu primeiro amor.

—O meu também. Sofremos muito quando ela se foi...

—Não vamos falar sobre isso...

Aquela pequena conversa, foi aliviante ao Guilherme, a visita a memórias


nostálgicas sempre promove um alívio, mesmo que momentâneo, doravante, não
se pôde perdurar esse momento por mais tempo. Uma batida forte ressoou sobre
a porta, acompanhada dela, um grande trovão, uma chuva intensa começava-se
a abater contra a terra.

—Esperas alguém?

—Não, mas não se aflija. Vejo quem é e o mando embora rápido.


Ele rumou para a entrada principal, ruminando em sua mente sobre quem seria a
visita. No entanto, no fundo, ele já nutria uma desconfiança de sua origem. Ao
chegar a porta, ele a abriu levemente, somente o suficiente para ver os visitantes.
Dois guardas, trajes azuis e um chapéu. Ambos detinham um bigode volumoso,
entretanto, havia uma diferença de idade gritante entre eles. O da esquerda, era
velho e carrancudo, cabelos grisalhos, dentes amarelados e uma expressão
profunda. O direito era jovem, mas nem tanto, já não era mais dotado de suas
marcas fenotípicas juvenis, possuía cerca de trinta e poucos anos.

—Jonatas Vicente? – falou o velho.

—Falas com ele. A que devo a honra da visita? ainda mais em um dia tão
agradável como esse – falou jocosamente.

—Podemos entrar? – disse o jovem ensopado.

—Não!

—É sério? olhe o temporal que estamos! E tu tens olhos, vês que somos guardas!
– disse iracundo o jovem.

—Tens mandato?

—Não.

—Então nossa conversa continuará aqui.

—Ora, seu!

—Acalma-te, Alex! – disse o velho – Acabaremos logo com isso. Sou David, David
Pereira, chefe da guarda de investigação local, este é Alex Nogueira, meu
assistente. Estamos aqui apenas para fazer algumas perguntas.

—Investigação? Aconteceu algo grave?

—Não queremos propagar pânico a toa, então tudo jaz no mais austero segredo,
portanto, omitiremos o ocorrido apenas responda nossas questões e partiremos
brevemente.

—Omitir! Estão a brincar com minha cara? Vocês vem a minha casa me
incomodar em um clima de tempestade e nem me dão o motivo central do
porque?

—Guilherme Barões, dizem que este é um amigo íntimo seu, desde tenra idade.
Procede esta informação?

—Sim, procede. Ele está bem? Fez algo?


—Quanto tempo faz desde seu último encontro com ele? Encontrou-o
recentemente?

—Ora, essa! Faz meses que nós não vemos um ao outro! Agora diga, ele está
bem? Fez algo de errado?

—São informações confidenciais, senhor, apenas podemos dizer, que até onde
tange nosso conhecimento, ele está vivo. Caso o encontre, peço-o que ligue para
nós de imediato – ele tirou de seu casaco um cartão e o entregou.

—Viu, não foi tão difícil – disse o jovem desdenhosamente.

—É só isso?

—Sim.

Jonatas fechou a porta bruscamente assim que ouviu estas palavras. Agora, parte
de suas dúvidas foram sanadas. Guilherme fez algo grave, ao ponto de envolver
uma investigação criminal. Ele não entregaria o amigo, nem passara sobre a sua
cabeça isso, apesar de ser grave o ocorrido, e nebuloso seu envolvimento e
extensão com ele. Ele retornou ao seu amigo. Sem arredios, dessa vez, optou por
ser direto. “eram guardas”, falou. Um silêncio formou-se no ar por momentos, até
que Guilherme, finalmente falou.

—Atrás de mim?

—Sim, mas omitiram o porquê.

—Entendo...

—Pelos demônios, Guilherme! – disse em um fragor de fúria – Sei que sofres por
algo, és nítido, mas preciso ouvir o porquê de sua boca. Estou ciente do rumor,
mas o que diabos posso pensar sobre isso? Tu és meu irmão, não consigo dar-
lhes créditos aos rumores sem mais, nem menos, mesmo com fortes evidências.

—Diga o que contam...

—Estou farto de falar! Quero ouvir de ti o que ocorreu.

—Eu... Perdi-me... Não sei como explicar, eu estava lá, mas não estava... Deus!
Aquela não era eu, não era eu! – falava quase convulsionando.

—Isso de nada significa pra mim, pelo amor de Deus, perdeste o juízo? Isso que o
levou a...

Guilherme saltou sobre Jonatas e atirou-o contra a parede, segurando seu


colarinho, semilouco, com uma expressão que se anuviava entre medo e
confusão. Ele disse, “tem que entender...”, ele foi empurrado e tombou no chão.
—Que porra foi essa? Você não regula bem, enlouqueceu!

—Irmão por favor, tu tens que entender eu pulei de um precipício, mas antes
desci a um reino subterrâneo. Através de algo que parecia um pequeno cômodo.
E ele descia, Jonatas, ele descia! Então, depois de uma floresta pulei, o sol era
tomado por um domo, eu estava ante um castelo. Tu estava comigo, antes, não...
estava? Porra, depois, depois eu estava, eu a acho que estava casado. Ela, ela
atacou-me, ou eu a ataquei? Era Sofia... O tribunal julgava-me pela morte de
ninguém, eu, eu a esganei. Por Deus, o que eu fiz, o que foi que eu fiz?

Jonatas levou sua mão a cabeça concluindo, “está louco”, “ele perdeu-se nos
subúrbios da própria mente”.

—Guilherme, a culpa não foi sua, mas precisamos ir as autoridades.

Um ranger de passos ecoou pela casa, e na cena, entraram os dois guardas de


armas em punho.

—Achamos ouvir algo na casa— disse o velho — e bem, como diz a praxe,
podemos entrar sem um mandato caso haja a expressão manifesta de ameaça
para nós ou terceiros. E como deixou a porta dos fundos aberta, concluímos que
não se incomodaria se verificássemos.

— Achou mesmo que podia nos enganar?! – disse o jovem em um ar de


petulância.

—Ele não está em si, está louco.

—Sim, claro, todos estão.

Então, de supetão, uma gargalhada rouca e estridente se impõe. Seu autor tira
lentamente um revólver de sua calça, ele é agressivamente advertido, mas não
para o movimento. Ele leva o revólver a sua têmpora. Então, cessa as risadas.
Turva o rosto algo calamitoso, lágrimas deambulam sobre sua face, e uma
confissão surge: “eu a matei e a estuprei”, um som seco e alto ecoa, uma leve
fumaça esvoaça-se aos céus, um corpo morto tomba ao chão.

[Redenção]

O Homem acordou soterrado em neve. Confuso, porém em um estado mais pleno


de consciência. Ele levantou-se e a neve que o cobria deslizou sobre seu corpo,
esparramando-se no chão. Ele pisava em um solo que era coberto, por pelo
menos, um pé de neve. A sua frente, ele via uma colossal montanha que se
retorcia como uma estranha espinha dorsal. com neve em todo o seu relento. E
uma pequena flora que a seguia até a sua metade. No seu cume, havia uma
extensa árvore, que quase parecia ter o tamanho da montanha. Quando o Homem
olhou ao seu redor percebeu que havia uma cadeia de montanhas, que parecia
circundar a montanha central causando uma sensação labiríntica. Ele percebeu
que, logo ao seu lado, atrás dele, a menos de alguns metros de distância, havia
outro Homem; caído ao chão, destituído de vida. Ele se aproximou dele, notou
aspectos semelhantes a si. Ele o agradeceu, pois parecia propício, passou então a
subir a montanha. Seus pés, afundavam-se quase até seus joelhos. O gelo era
cortante e o sol estava contra seus olhos.

Após horas de caminhada exaustiva, avistou um Homem. Andrajos sujos, barba


estufada, um gorro que cobria seu cabelo, um ser de aspecto imundo. O mendigo
recostava as costas sobre uma pequena colina ao notar a presença do Homem
que se aproximava. O mendigo sorriu, ele disse:

—Ora, ora, não é que é verdade que o bom filho sempre a casa torna. Lembra-se
de mim?

— Sim.

— Bom, excelente. Diga-me, agora você entende, não entende?

— Eu entendo.

O mendigo bateu palmas em júbilo.

—Ótimo! Ótimo! Bem, não gostaria de acabar essa conversa agora, mas creio que
você tem um bom caminho pela frente. E não se preocupe com a questão do
alimento, pois ainda hoje de minha carne você comerá.

—Preferiria evitar isso.

Mas não pode, não lhe foi incumbido esse poder. Ei, agora que notei você tem algo
afiado entre as calças. – Ele fez uma careta de galhofa.

O Homem percebeu que tinha um revólver de tambor de seis balas em seu bolso.

—Vamos, não tenha dó. Há uma tempestade a caminho, você deve ir rápido. E não
se preocupe, eu ainda volto para te matar antes que a noite caia.

O Homem então mirou no mendigo, deu-lhe 3 tiros em seu peito após isso, voltou
a subir. Vazio. Como havia prognosticado o mendigo, uma tempestade de neve se
formavou, e logo, está se abatia contra o Homem. Sua caminhada se tornara mais
pesarosa. Arfava de maneira aspira, o vapor de sua boca mal se projetava para
fora e já era tomado por um turbilhão de vento, o lançando para trás. Já não
conseguia pensar direito, mas seus pés não cediam, mesmo com o cansaço.

Entretanto, em certo ponto da subida, viu de maneira turva uma pedra que se
projetava para fora do chão, em imponência. com grande resiliência ante a
tempestade, ele alcançou a pedra, e a tomou como abrigo temporário. Sentou-se
quase desfalecido, de costa a pedra gelada, enquanto respirava profundamente.
Enquanto descansava, ele passou a analisar a pedra viu um desenho antigo, um
homem com o Sol aos seus pés, ao lado dele, uma mulher que pisava sobre a lua.
Entre ambos, havia o desenho de uma rosa. A cena era acompanhada por uma
escrita.

“Sub omnibus caelis surgeret rosa,

Semper in plena floritione,

Lux eius in Trinitate fulget,

Et Deus cum ea induitur.”

Assim que percebeu que a tempestade se mitigava, ele voltou a subir. No


caminho, começou a notar mais sobre a flora que parcialmente o ocupava a
montanha. As árvores de estendia ao alto, brancas como a neve, desprovidas de
qualquer traço de folhas. Por elas pequenas criaturas selvagens passavam entre
aquelas árvores secas e recoberta de neve. As criaturas tinham uma aparência um
tanto atroz. Suas pelagens eram escuras, seus comportamentos eram mais
agressivos que o habitual. Continuou a subir até que chegou num limiar onde
acabava-se a floresta. Daí em diante era apenas neve e gelo.

Ele continuaria, mas o bufar de uma fera o chamou a atenção. A criatura tinha o
aspecto de um alce, porém sua pelagem era completamente negra. Seus olhos,
um rubro de sangue. Sua arcada dentária, mais se assemelhava à de um lobo. Em
seu maxilar, proeminentemente, delineava-se um par de chifres, negros e
pontudos. Em sua cabeça tinha chifres habituais de um alce, com a divergência
que eram negros como todo o corpo.

A fera avançou sobre o Homem. Este em punho com a arma, atirou por 3 vezes na
fera, uma atingiu o peito, outra seu olho esquerdo, a última atingiu ao lado da
primeira. A fera rugiu de maneira demoníaca pela dor, sangue maculava o branco
puro da neve, mas a fera não cessou o avanço, com seus imensos chifres, o
golpeou, jogando-o ao longe. Ele voou por mais de 3 metros, caiu com força sobre
o chão. Tentou se levantar rapidamente, mas a criatura foi mais rápida. Ela pulou
sobre o Homem o mantendo-o caído. Então, em fúria, mordeu seu ombro
esquerdo, enfocando seus dentes até o osso, passou a chacoalhá-lo, na volúpia
daqueles movimentos repetitivos, um dos chifres do maxilar da fera, trespassou o
globo ocular direito do Homem, quase como se fosse uma vingança soberba. O
Homem debatia-se, tentou afastar a cabeça da fera com seu braço direito. A fera
se desvencilhou de seu ombro, e enfiou sua mandíbula em seu pulso. Em seguida,
pôs as patas dianteira sobre os ombros do Homem. E num movimento veloz e com
força, arqueou suas costas, estufando seu peito e arrancou seu antebraço.
Ele caiu, empurrando seu punho a frente, rasgando o antebraço do Homem. Ele
gritou na mais pura dor, seu sangue jorrava-se aos montes. Então percebeu que
em sua mão, direita, já não havia mais uma pistola, esta transformara-se em uma
espada. Ele a enfiou no plexo solar da fera. A lâmina perfurou sua pele, chegando
ao centro do seu coração. O Homem remexeu a lâmina no peito da fera. Com a
força que lhe restava, ele a derrubou. Então montou sobre ela, providenciando
múltiplas estocadas. A fera urrou uma, duas, três vezes. tombando assim de vez
ante a morte. O Homem percebeu que sua lâmina se partira no peito da criatura.

O Homem jogou-se ao lado da criatura, sangrava muito, seu ombro estava


estraçalhado, seu antebraço faltava, seu olho esquerdo, viu seu último lampejo
nos chifres negros que lhe trespassara. Caído ao chão, olhava o céu agora era
noite. A fome passava a atormentá-lo. Sabe-se lá com qual força, ele conseguiu
se pôr de joelhos ante a fera morta, com o braço bom, empunhou sua espada
quebradiça, e fez um corte vertical do tórax ao estômago. Ele a estripou, então
passou a devorara-la, como um animal selvagem. As criaturas daquela flora, se
aproximaram do corpo. Todos passaram a comê-lo, como uma grande comunhão
macabra.

Andava-se alquebrado, de espada em riste. Um negrume sanguíneo incrustava a


pele. Pendulava a cada passo, sentia que cairia em pedaços. Ao alto, viu o que já
era próximo, a Grande Árvore da Vida. Dela, saia água fluviais em uma corrente,
que ele já observara. Aproximou do pequeno rio descendente, jogou-se, tomando
um caminho ascendente. Viu-se imaculado. Jazia no Centro do Lago Profundo.
Olhou para baixo, apenas água, mas ele caminhava sobre elas. Na parte mais
central do lago, brotava uma rosa, acima dela, um cálice que orbitava. De bronze
era feito, incrustado ao redor de rubis. Ele tomou o cálice em suas mãos, e disse

—Dos delíquios da morte já me sorvi, sorvo-me de novo, pelo meu amor a vida.

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