DPFS
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A. INTRODUÇÃO
Vivemos imensas alterações no direito da família. Na parte do direito patrimonial encontramos alguma
estabilidade. Isto não significa que as alterações do direito da família de cariz mais pessoal não tenham
implicações também no entendimento que fazemos das regras do direito patrimonial.
Esta divisão entre o que é patrimonial e o que é pessoal na família acaba por ser superficial. Só temos um
direito patrimonial da família porque temos relações de natureza pessoal que justifiquem que não se
apliquem as regras gerais do direito das coisas e do direito das obrigações. O direito patrimonial da família
serve as famílias que o direito regula e as formas como as pessoas organizam a sua vida em família.
Também no direito patrimonial podemos falar da família num contexto de vulnerabilidade. O contexto
familiar cria as suas próprias vulnerabilidades – compensações pelo trabalho doméstico, por exemplo –
artigo 1672.º/2 CC – existe esse crédito compensatório porque existe um desequilíbrio criado pelas relações
familiares. “Se a contribuição de um dos cônjuges para os encargos da vida familiar for consideravelmente
superior ao previsto no número anterior, porque renunciou de forma excessiva à satisfação dos seus
interesses em favor da vida em comum, designadamente à sua vida profissional, com prejuízos patrimoniais
importantes, esse cônjuge tem direito de exigir do outro a correspondente compensação”
Ligámos muito facilmente os princípios constitucionais do direito da família às matérias pessoais, mas
encontramos normas também com implicações no direito patrimonial.
• Art. 36º da CRP: “Todos têm o direito de constituir família e de contrair casamento em condições de
plena igualdade.”
• Art. 36º/2 da CRP: “A lei regula os requisitos e os efeitos do casamento e da sua dissolução, por morte
ou divórcio, independentemente da forma de celebração.” — no ano passado ligamos este número 2 à
questão dos sistemas matrimoniais – a todos os casamentos a que a lei reconhece efeitos civis, a lei civil
também vai regular os efeitos do casamento. Relativamente a duas pessoas que tenham casado
catolicamente, por exemplo, aplicam-se as regras patrimoniais que temos aqui.
• Art. 36/º3 da CRP: “Os cônjuges têm iguais direitos e deveres quanto à capacidade civil e política e à
manutenção e educação dos filhos.” — Este artigo fala-nos dos iguais direitos e deveres dos cônjuges –
quanto à capacidade civil e política e quanto à manutenção e educação dos filhos – princípio da
igualdade dos cônjuges e um princípio da igualdade dos cônjuges enquanto progenitores.
O direito patrimonial, até foi uma das matérias mais afetadas pela consagração constitucional deste
princípio da igualdade entre os cônjuges. Antes da reforma de 1977, que reconfigurou o direito da família
em função dos princípios constitucionais, estava consagrado o poder do marido de administrar os bens do
casal, incluindo bens próprios do cônjuge mulher, o que implicava que pudesse alienar bens móveis
próprios da mulher. O princípio da igualdade teve de exercer uma força reconfiguradora no âmbito dos
direitos patrimoniais.
Este nº3 é vertido de forma mais genérica no próprio CC — principio da igualdade entre os cônjuges art.
1671º CC.
• Art. 36º/4 CRP: “Os filhos nascidos fora do casamento não podem, por esse motivo, ser objecto de
qualquer discriminação e a lei ou as repartições oficiais não podem usar designações discriminatórias
relativas à filiação.”
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Isto vai ser importante para direito das sucessões para eliminar qualquer distinção entre filhos nascidos
dentro ou fora do casamento - vamos ver a sua projeção nos efeitos patrimoniais da filiação.
O artigo 36.º inclui-se no âmbito dos direitos, liberdades e garantias. Nos direitos económicos, sociais e
culturais temos os artigos 67.º, 68.º, 69º e os artigos 70º, 71.º e 72.º CRP.
Chama-se regime de bens do casamento ao conjunto de regras cuja aplicação define a propriedade sobre os
bens do casal, isto é, a sua repartição entre o património comum e o património de cada cônjuge.
A este conjunto de regras acrescem muitas outras – sobre a administração dos bens, sobre a responsabilidade
por dívidas e pelos encargos da vida familiar, etc. No entanto, estas regras são impostas por lei, ao contrário
do regime de bens que pode ser escolhido, quase sempre, pelos nubentes.
Quantos aos efeitos patrimoniais do casamento, há efeitos patrimoniais do casamento que dependem do
regime de bens e há efeitos patrimoniais do casamento não dependentes do regime de bens.
Noutros ordenamentos jurídicos, nomeadamente no direito francês, fala-se em regime primário e regime
secundário. Quais são os efeitos patrimoniais que não dependem do regime de bens?
- Regras relativas à administração dos bens do casal, regras relativas às chamadas ilegitimidades conjugais
(atos que os cônjuges podem praticar ou não podem praticar sem o consentimento do outro cônjuge), as
regras que se referem aos poderes de disposição dos seus bens, as normas que regulam a responsabilidade
por dívidas dos cônjuges e também aquelas que regulam os contratos entre os cônjuges.
Para sabermos se um determinado bem é comum ou próprio e sabermos que regras lhe vamos aplicar, temos
de saber antes qual o regime de bens. Também há algumas regras pontuais que se referem ao regime de bens
– por exemplo, quanto à responsabilidade por dívidas – em geral, as regras não se referem a um regime de
bens particular – mas nem sempre assim é. Uma dívida contraída antes do casamento em proveito comum do
casal responsabiliza ambos se o regime for o regime da comunhão geral; responsabiliza apenas um se o
regime escolhido for o da comunhão de adquiridos.
Faz mais sentido percebermos os regimes de bens (quais são os bens próprios e os bens comuns) antes para,
depois, sabermos aplicar as regras gerais.
Vamos começar por falar de um instrumento que serve para fixar este regime de bens — vamos falar em
conjunto de regimes de bens e de convenções antenupciais.
1. Convenções antenupciais
É um acordo que é celebrado entre os nubentes, ou seja, anterior ao casamento e que tem como finalidade
fixar o regime de bens do casamento. Então, o casamento constitui uma condição legal de eficácia da
convenção.
Artigo 1698º CC e ss
Este acordo entre os nubentes tem como principal propósito fixar o regime de bens do casamento. Só nesta
definição nós já conseguimos encapsular uma série de ideias. Estamos a falar em nubentes – antes do
casamento – nubentes precedem a qualidade de cônjuges. Estamos a falar de um acordo – contrato – temos
declarações de vontade convergentes no sentido de fixar o regime de bens; e é um contrato acessório do
casamento. A convenção antenupcial não subsiste por si só, o casamento vai ser a condição legal de eficácia
da convenção antenupcial.
1) Principio da liberdade
Artigo 1698º CC: “Os esposos podem fixar livremente, em convenção antenupcial, o regime de bens do
casamento, quer escolhendo um dos regimes previstos neste código, quer estipulando o que a esse respeito
lhes aprouver, dentro dos limites da lei.”
Regime de bens: diz respeito ao conjunto de regras que definem a titularidade dos bens dos cônjuges – que
bens integram o património próprio de um, que bens integram o património próprio do outro e, se estivermos
perante um regime de comunhão, que bens integram o património comum.
Podem os nubentes escolher qualquer um dos regimes previstos neste código — temos três regimes de bens
no ordenamento jurídico português: regime de comunhão de adquiridos, regime da comunhão geral de bens e
regime da separação de bens. No entanto, a lei diz que podemos estipular a este respeito o que nos aprouver,
não estamos limitados à adesão a um regime de bens que nos é dado pela lei, podemos criar regimes
mistos, introduzir cláusulas diversas nos regimes.
Ex.: temos um casamento celebrado no regime da comunhão geral de bens, mas estipulou-se que o imóvel
que um dos cônjuges adquiriu antes do casamento não entra no património comum, permanece como bem
próprio de um dos cônjuges — criou-se um regime atípico.
“dentro dos limites da lei” — Casos de imperatividade relativamente aos regimes de bens:
a. Absoluta: duas situações em que os cônjuges não podem escolher – a lei impõe que o regime aplicável ao
seu casamento seja o regime de separação de bens – não pode ser afastado pelas partes — art. 1720º CC:
a) O casamento celebrado sem precedência do processo preliminar de casamento — aqui estamos a falar
de formalidades do casamento - há uma suspeição pela parte do legislador da existência de um móbil de
natureza patrimonial para o casamento e para dissuadir os nubentes, o que faz é excluir o regime de
comunhão.
Antes da reforma de 1977 o direito das sucessões era diverso, o cônjuge não integrava a primeira classe
sucessiva, então a questão jogava-se mais na partilha conjugal do que no funcionamento das regras da
sucessões - uma regra relativa a ausência de partilha conjugal fazia com que os bens levados para o
casamento não integrassem património comum, os filhos teria sempre uma posição prioritária. Isso mudou,
hoje, mesmo quando casado em separação de bens, o cônjuge é herdeiro legitimário.
Mas o problema aqui tem a ver com a constitucionalidade desta norma: Na nossa CRP temos uma lista
apontada pelo legislador constitucional como fatores potenciadores de descriminação, e aqui temos uma
norma discriminatória em razão da idade — restrição da capacidade das pessoas de 60 anos.
“Se o casamento for celebrado por quem tenha filhos, ainda que maiores ou emancipados, não poderá ser
convencionado o regime da comunhão geral nem estipulada a comunicabilidade dos bens referidos no n.º 1
do artigo 1722º.”
Estamos aqui a limitar a liberdade de escolha do regime de bens, não impondo um particular regime de bens,
mas impedindo que escolha o regime da comunhão geral — se os nubentes têm filhos antes do casamento,
independentemente de estarmos a falar de filhos menores ou maiores, não pode ser convencionado o regime
da comunhão geral e não podem ser considerados comuns os bens levados para o casamento ou os bens
adquiridos por sucessão ou doação na constância do casamento. É um caso de imperatividade relativa porque
não impõe um determinado regime de bens. Exclui o regime da comunhão geral e a comunicabilidade de
Porque é que a lei determinará que quem leve filhos para o casamento não pode optar pelo regime da
comunhão geral? No regime da comunhão geral, quase tudo é património comum. O que se pretende tutelar
aqui é a posição sucessória dos filhos.
Imaginemos que os bens levados para o casamento entram no património comum - por morte de um
dos cônjuges, primeiro procede-se à divisão do património comum em termos de partilha conjugal e
depois a outra metade do bolo é dividida a título sucessório, entre o cônjuge e, imaginemos, dois
filhos. Se não há regime da comunhão de bens, não há partilha conjugal – há só partilha sucessória –
divide-se o património por três (cônjuge e dois filhos).
Faz sentido que isto assim seja quando estamos a falar de filhos que sejam filhos comuns dos
cônjuges? Neste momento, a maior parte dos nascimentos em Portugal dá-se fora do casamento. Há
muitas situações em que, apesar de haver o nascimento dos filhos fora do casamento, há o casamento
posterior dos progenitores. Neste caso, não faz sentido esta regra. Tanto não faz sentido que a PGR,
em 1995, emitiu um parecer recomendando precisamente a interpretação restritiva deste número 2 do
artigo 1699.º CC. Esta norma só se justifica enquanto não existam filhos comuns. Se todos forem
filhos comuns dos cônjuges, já não temos a ratio subjacente a esta norma a impor um regime de
imperatividade relativa.
a) A regulamentação da sucessão hereditária dos cônjuges ou de terceiro, salvo o disposto nos artigos
seguintes;
Por regra, em convenção não posso regular a sucessão, o legislador quer que continue livre para fazer
disposições à cerca da minha sucessão. É por isso que o instrumento fundamental da sucessão é o
testamento.
Isto a não ser nos casos previstos no art. 1700º e ss - disposições por morte consideradas lícitas - pactos
que favorecem o casamento.
Mas mais importante do que estas normas, e vamos estudar isto mais a frente, é a introdução da alínea c)
do art. 1700º/1/c): até 2018 as únicas disposições admitidas nos termos da lei diziam respeito a
instituição do herdeiro legatário, e em 2018 introduziu-se a renúncia a condição de herdeiro legitimário,
é então possível, quando os cônjuges escolhem o regime da separação de bens, criar uma separação
também para além da morte. Ou seja, a regra é a de que o cônjuge é herdeiro, legitimário desde logo,
ainda que casado em separação e bens, mas se assim entenderem é possível na convenção renunciar a
esta condição de herdeiro legitimário.
Conseguimos perceber bem esta limitação se pensarmos no regime anterior – a última alteração a este
artigo foi em 1977. Esta restrição ao princípio da liberdade é um travão para impedir por via
convencional aquilo que a lei quis afastar. Não se alteram os direitos ou deveres paternais. Não há
prerrogativas de um dos cônjuges relativamente às decisões quanto aos filhos.
Temos regras previstas para a administração dos bens do casal (art. 1678º) e este artigo tem a redação
que lhe foi dada pela redação de 1977, que cria um sistema paritário na administração dos bens do casal.
O que o legislador pretendeu evitar foi fazer-se por esta via convencional qualquer resquício destas
regras não igualitárias — o regime anterior concedia poderes de administração acrescidos ao cônjuge
marido e o art. 1699º quis que não se reintroduzissem por via da convenção antenupcial vias
desigualitárias que a lei tinha afastado.
O art. 1733º CC é um artigo próprio do regime da comunhão geral — vemos aqui que há alguns bens que
não entram na comunhão geral de bens, os bens incomunicáveis, bens próprios e são bens próprios que
o legislador entendeu que mesmo no regime mais comunhitarista de todos não podiam perder a
qualidade de bem próprio.
Se o legislador impôs que mesmo nos regime em que os nubentes assumem que querem que tudo entre
no património comum, ele excluiu estes bens do património, num regime menos comunhitarista eles
estarão também excluídos — relativamente a estes bens nunca pode ser estabelecida a comunicabilidade
seja qual for o regime de bens.
2) Princípio da imutabilidade
Há aqui uma limitação clara à autonomia privada dos cônjuges. Propõe que haja uma cristalização da
vontade dos cônjuges a partir do momento da celebração do casamento. Não pode ser modificado o regime
de bens convencionado e também não pode ser modificado o regime supletivo – artigo 1714.º CC – depois
da celebração do casamento, aquilo que foi determinado em convenção antenupcial não pode ser alterado; ou
então houve casamento e nem houve convenção antenupcial – vigora o regime supletivo – vigora o regime
da comunhão de adquiridos – também já não pode ser alterado. Isto é a interpretação restrita do princípio da
imutabilidade.
(1) Aquela que vem na linha do que os Drs. Guilherme Oliveira e Pereira Coelho defendem — o princípio
da imutabilidade em sentido estrito:
Referimo-nos apenas a esta alteração no regime dos bens — não pode ser modificado nem o regime de
bens convencionado, nem o supletivo após a celebração do casamento, porque verdadeiramente
mutabilidade só existe após o casamento (art. 1712º CC).
a) Pela revogação das disposições mencionadas no artigo 1700.º, nos casos e sob a forma em que é
permitida pelos artigos 1701.º a 1707.º;
c) Pela separação judicial de pessoas e bens; (tem os mesmos efeitos patrimoniais do divórcio)
NOTA: A separação de pessoas e bens dá-se pela via judicial ou pela via administrativa, mas a simples
separação de bens dá-se apenas pela via judicial.
(2) Há quem adote um entendimento amplo deste princípio, como a Dra. Rita Lobo Xavier: não está em
causa apenas a proibição de alteração do regime de bens após o casamento, mas também estão proibidos
negócios concretos que podem provocar alterações na composição das massas patrimoniais - art. 1714º/2
e 3 CC. Proíbe-se o contrato de compra e venda, por exemplo, porque este contrato leva a alterações
A Dra. Paula Vitor entende que estes negócios não se incluem neste entendimento do principio da
imputabilidade. O sentido mais restrito deste princípio tem sido tradicionalmente a interpretação da Escola
de Coimbra.
1) Para proteger o cônjuge que seria mais influenciável do ascendente do outro, que na constância do
casamento o poderia convencer a alterar o regime de bens para um mais favorável.
Esta justificação já não tem tanto fundamento hoje em dia em relação a forma como vemos o casamento.
2) Para a proteção de terceiros, na medida em que eles também podem ter que ver com o regime de
bens. Ex.: credor que vê um determinado bem entrar no património do casal, está convencido que é um
bem comum, tem uma garantia acrescida relativamente ao seu crédito, confia no que foi estipulado em
convenção, mas, entretanto, foi alterada, logo, as regras relativamente à titularidade dos bens também
foram alteradas.
Esta justificação também não nos parece suficiente, na medida que em há meios de proteger estes
terceiros ainda que haja alteração dos regimes de bens, por exemplo, concedendo publicidade a estas
alterações através do registo. Contudo, continua a vigorar este princípio da imutabilidade.
Exemplo: Art. 1691º/d) CC — São da responsabilidade de ambos os cônjuges as dívidas contraídas por
qualquer dos cônjuges no exercício do comércio, salvo se se provar que não foram contraídas em
proveito comum do casal ou se vigorar entre os cônjuges o regime de separação de bens;
Se eu contrair uma dívida no exercício do comércio, esta vai responsabilizá-lo e ao cônjuge — isto só
não aconteceria se tivéssemos optado pela separação de bens, mas não optaram, foi um regime de
comunhão. Então agora divorciaram-se mas o outro cônjuge continua devedor. Imagine-se como seria
importante que numa fase da vida em que se começou a desenvolver via comercial, que pudessem alterar
o regime de bens.
A convenção antenupcial é um contrato e, como tal, está sujeita às regras gerais relativamente às
divergências entre a vontade e a declaração e aos vícios da vontade. Para além disso, temos regras
específicas da convenção.
(1) Do ponto de vista do conteúdo, há a possibilidade de apor condição ou termo à convenção antenupcial
— Art. 1713º CC: “É válida a convenção sob condição ou a termo.”
Exemplos: casamos no regime da separação de bens, mas a fim de 10 anos de casamento passa a vigorar a
comunhão de adquiridos; quando casamos vigora o regime da separação de bens, mas assim que nascer o
primeiro filho passa a vigorar o regime da comunhão de adquiridos.
Mas não tínhamos falado ainda agora do princípio da imutabilidade? Isto não o põe em causa, não há
nenhuma alteração em relação ao estipulado na convenção.
(2) Quanto à capacidade: Quanto à capacidade, há regras diversas dos restantes negócios jurídicos:
Não há uma identificação da capacidade para celebrar convenções antenupciais com a capacidade de
exercício de direitos.
Identifica-se a primeira com a capacidade para contrair casamento — art. 1708º/1 CC: “Têm capacidade
para celebrar convenções antenupciais aqueles que têm capacidade para contrair casamento.”
Nº2: “Aos menores só é permitido celebrar convenções antenupciais com autorização dos respetivos
representantes legais.”
Nº3: “Aos maiores acompanhados, quando devam ser representados para a realização de atos de disposição
entre vivos ou quando os mesmos dependam de autorização, só é permitido celebrar convenções
antenupciais com o acordo expresso do acompanhante.”
1.4. Formalidades:
Art. 1710º CC: “As convenções antenupciais são válidas se forem celebradas por declaração prestada
perante funcionário do registo civil ou por escritura pública.”
Isto dá-nos um suporte para a inserção de outras cláusulas em convenção antenupcial que não têm que ver
apenas com a fixação do regime de bens: p.e., a regulamentação da forma como são cumpridos determinados
deveres conjugais, mas também a sucessão contratual. Também falamos no ano passado nas convenções
antenupciais como possível suporte para outros atos jurídicos – nomeadamente para o reconhecimento
voluntário da paternidade – perfilhação através de escritura pública. São outras cláusulas que não têm que
ver com o regime de bens, mas podem utilizar este suporte formal.
Publicidade:
2. Os herdeiros dos cônjuges e dos demais outorgantes da escritura não são considerados terceiros.
3. O registo da convenção não dispensa o registo predial relativo aos factos a ele sujeitos.”
As convenções antenupciais são objeto da publicidade que é dada o registo. Se não forem publicitadas não
serão eficazes perante terceiros — ou seja, a falta de publicidade não tem implicações quanto à validade, mas
tem quanto à eficácia perante terceiros.
1.5. Caducidade
1716º CC: “A convenção caduca, se o casamento não for celebrado dentro de um ano, ou se, tendo-o sido,
vier a ser declarado nulo ou anulado, salvo o disposto em matéria de casamento putativo.” — O casamento
é condição legal de eficácia da convenção antenupcial
Exemplo: Se eu celebro uma convenção antenupcial em janeiro de 2023, e escolho a comunhão geral e
celebro hoje o casamento validamente — a convenção antenupcial caducou, vai vigorar o regime supletivo
da comunhão de adquiridos.
Isto significa que esta vida em comum dos cônjuges cujo casamento foi invalidado não recebe o chapéu do
direito patrimonial – quanto aos bens adquiridos, quanto aos filhos que nasceram na constância do
casamento, etc. Quando muito, poderia receber o chapéu da união de facto.
Mas o legislador quer preservar alguns efeitos, porque considera que há situações que merecem ser
acauteladas, criando um instituto do casamento putativo. O casamento putativo funciona numa exceção face
à regra – a dos efeitos retroativos da declaração de nulidade ou anulação.
Para termos esta exceção (do casamento putativo), temos de ter verificados uma série de pressupostos.
Exemplo: Se o casamento vier a ser declarado nulo ou anulado: o casamento padecia de um vício de erro,
porque um dos cônjuge descobre que o outro cônjuge esteve envolvido numa série de atividades de caráter
xenófobo no ano de 2014, o que era essencial para a determinação da sua vontade de contrair casamento.
Com isto intentou uma ação de anulação (se fosse católico era declarado nulo).Os cônjuges tinham optado
pelo regime da comunhão de adquiridos, mas esse segundo cônjuge ao longo dos últimos anos tem feito uma
carreira com muito sucesso e tem ganho vários prémios — se o casamento é anulado a anulabilidade tem
efeito retroativos, mas excepcionalmente pode vigorar o casamento putativo — art. 1647º CC: “ O
casamento civil anulado, quando contraído de boa fé por ambos os cônjuges, produz os seus efeitos em
relação a estes e a terceiros até ao trânsito em julgado da respectiva sentença.” produzir-se efeitos
favoráveis do casamento em relação ao cônjuge de boa-fé. No nosso exemplo, quem estava de boa fé era
quem incorreu em erro quanto às qualidades essenciais do seu cônjuge e favorecia-o vigorar o regime do
casamento putativo.
Então ressalva-se a produção dos efeitos do regime de bens escolhido na convenção antenupcial apesar do
casamento ter sido anulado.
O princípio da liberdade determina que não só os regimes tipificados no código possam ser escolhidos pelos
nubentes. Podemos escolher um ou outro destes regimes, a não ser que tenhamos uma situação de
imperatividade absoluta ou relativa, mas também podemos criar regimes mistos.
A esmagadora maioria dos casos é a de regime tipificado na lei, é não haver recurso à convenção antenupcial
e simplesmente vigorar o regime supletivo – comunhão de adquiridos.
Vamos começar pelo regime da comunhão de adquiridos: (1) porque é o regime supletivo, (2) porque é o
regime dominante, (3) porque é aquele que está regulado de forma mais densa no nosso código.
A ideia subjacente à comunhão de adquiridos é a de que aquilo que resulta do esforço comum do casal
integra o património comum. Grosso modo, aquilo que resulta da aquisição onerosa de bens na constância do
casamento, aquilo que resulta do trabalho dos cônjuges integra o património comum. Aquilo que foi levado
para o casamento ou adquirido a título gratuito não integra o património comum.
´
Ver artigo 1721.º e ss. CC “Se o regime de bens adoptado pelos esposados, ou aplicado supletivamente, for
o da comunhão de adquiridos, observar-se-á o disposto nos artigos seguintes.”
Depois de estudarmos este regime vamos ver alguns aspetos quanto à comunhão geral e quanto à separação
de bens.
É o regime que pode vigorar enquanto regime supletivo, mas que vigora como regime convencional,
quando, por exemplo, os nubentes optam por este regime mas introduzem uma cláusula diversa deste regime.
O regime da comunhão de adquiridos passou a ser supletivo a partir da entrada em vigor do Código civil: isto
significa que as pessoas casadas antes de 31 de maio de 1967, que não tiverem escolhido o regime de
bens casaram-se com o regime supletivo anterior, o regime da comunhão geral.
Art. 1734º CC: “São aplicáveis à comunhão geral de bens, com as necessárias adaptações, as disposições
relativas à comunhão de adquiridos.”
Então, tudo aquilo em que não se aplique o regime específico da comunhão geral vai beneficiar do regime da
comunhão de adquiridos.
É importante ter em mente, que quando falamos no regime de comunhão de adquiridos, estamos a falar de
um regime de comunhão, um regime comunitário. Isto significa que temos de falar aqui de uma figura nova,
uma figura privativa do casamento, do direito da família – é a figura dos bens comuns.
Quando há bens tidos por mais do que um titular, nos termos gerais, nós recorremos à figura da
compropriedade:
- Implica que cada um dos comproprietários tenha uma quota sobre um determinado bem – quotas que se
presumem iguais, mas que podem ser desiguais.
- É possível pôr termo a esta situação através de uma ação de divisão de coisa comum. O regime da
compropriedade não é alheio ao casamento – pode existir e pode existir nos termos gerais, mas há uma
figura especialmente prevista para o regime do casamento.
Artigo 1730º CC: “1. Os cônjuges participam por metade no activo e no passivo da comunhão, sendo nula
qualquer estipulação em sentido diverso. 2. A regra da metade não impede que cada um dos cônjuges faça
em favor de terceiro doações ou deixas por conta da sua meação nos bens comuns, nos termos permitidos
por lei.” (Desde que haja património comum temos de considerar o art. 1730º CC)
• Cada cônjuge tem direito a metade do património comum – à chamada meação do património comum.
• Isto implica que tem direito a metade de cada bem? Não, tem direito a metade do valor do património
comum – determina-se no momento da partilha quais são os bens que vão integrar cada uma dessas
meações — é uma regra de caráter imperativo.
• Isto significa que não se vão admitir entre nós cláusulas de partilha desigual. O legislador partiu do
princípio que nos regimes de comunhão o que entra no património comum é o que resulta do esforço
comum dos cônjuges — isto é a regra do nosso ordenamento jurídico.
Porque é que esta regra da equitable distribution tem sido tão importante em alguns Estados dos EUA? —
Porque não há soluções para responder a alguns problemas que nós temos por outra via. Tem sido
particularmente importante para garantir que um ex-cônjuge que esteja numa situação economicamente
mais débil ou tenha a guarda dos filhos possa continuar a habitar na casa da morada da família.
Nós temos esta regra cega (metade-metade), mas depois temos outros mecanismos de equilíbrio – há
atribuição da casa da morada da família, mesmo que seja bem próprio de um; depois há o pagamento de
uma renda, mas nem tem de ser o pagamento de uma renda no valor de mercado.
Já vimos que há um património comum. Potencialmente, também temos patrimónios próprios de cada um
dos cônjuges: Potencialmente, podemos ter três massas patrimoniais – o património próprio de A, o
património comum e o património próprio de B. No património comum temos uma comunhão sem quotas,
mas há um direito à meação, dissolvendo-se este património.
Art. 1722º CC: “São considerados próprios dos cônjuges: a) Os bens que cada um deles tiver ao tempo da
celebração do casamento; b) Os bens que lhes advierem depois do casamento por sucessão ou doação; c)
Os bens adquiridos na constância do matrimónio por virtude de direito próprio anterior.”
Vamos sempre encontrar situações dúbias, difíceis de inserir nestas situações previstas no CC, tendo, antes,
de recorrer a ratio legis e tentar perceber se integram o património comum ou se são bens próprios — aquilo
que resultar do esforço comum será património comum, o que dele não resultar integrará património próprio.
Alínea a): Os bens levados para o casamento, os bens cujo título de aquisição é anterior ao casamento
integram património próprio – eu já tinha um carro quando me casei, não tem nada a ver com o esforço
patrimonial comum com o meu cônjuge. Eu levo o carro para o casamento, vai entrar no meu património
próprio.
Alínea b): Se eu recebi algo por doação isto não significa algum esforço da minha parte, o bem foi adquirido
a título gratuito, a lógica subjacente ao património comum não se vai aplicar aqui.
MAS — Art. 1729º CC: “1-Os bens havidos por um dos cônjuges por meio de doação ou deixa
testamentária de terceiro entram na comunhão, se o doador ou testador assim o tiver determinado; entende-
se que essa é a vontade do doador ou testador, quando a liberalidade for feita em favor dos dois cônjuges
conjuntamente.” — Então, é possível que em homenagem à vontade do disponente, e apesar de esta regra de
que os bens advindos por sucessão ou doação integrem o património próprio, o disponente pode dizer que
deixa os bens a ambos os cônjuges e, então, integrará o património comum.
Exceção — art. 1729º/2 CC “O disposto no número anterior não abrange as doações e deixas
testamentárias que integrem a legítima do donatário” — A legítima é aquela porção dos bens que a lei
reserva para uma categoria de herdeiros – os herdeiros legitimários – se aquele bem integra a legítima do
beneficiário da liberalidade, se o autor da sucessão deixa aquele bem a ambos os cônjuges, isto significa que
a sua legitima é dividida – este bem acaba por integrar o património comum. Aqui, a lei impõe um limite em
função do princípio da intangibilidade da legitima – aí estaríamos a diminuir a legitima.
Exemplo: A tem um único bem, um imóvel, e tem 2 filhos. Quando há 2 filhos, a lei reserva 2/3 da
herança para os filhos, é a quota indisponível ou legítima. Fez uma deixa testamentária em que
deixou tudo ao filho B e a sua mulher C, deixando de fora o filho D. Não podia faze-lo, porque 2/3
da herança tinham de ficar reservados para B e D, e só podia dispor de 1/3 da herança. Ao deixar
para o cônjuge e o filho já esta a diminuir o que o próprio B iria receber.
a) Os bens sub-rogados no lugar de bens próprios de um dos cônjuges por meio de troca directa;
b) O preço dos bens próprios alienados;
c) Os bens adquiridos ou as benfeitorias feitas com dinheiro ou valores próprios de um dos cônjuges, desde
que a proveniência do dinheiro ou valores seja devidamente mencionada no documento de aquisição, ou
em documento equivalente, com intervenção de ambos os cônjuges.”
(Sub-rogar: aquele bem vai ocupar o lugar do outro que saiu daquele património)
Aqui estamos a falar de situações que supõem a saída de bens do património com esta característica de
separação, a entrada de outros bens e a existência de uma conexão entre a perda e a aquisição – um bem sai e
outro entra para o seu lugar.
1. Conexão ostensiva: esta perda e aquisição resultam do mesmo ato/facto jurídico — é o que acontece na
alínea a).
Se não for um bem adquirido a título gratuito, nem adquirido antes do casamento poderíamos pensar que
seria bem comum, mas não, porque entrou em sub-rogação real de um bem próprio — ex.: trocar uma
mota bem próprio por um carro com o vizinho – troca direta.
Acontece o mesmo na alínea b) — ex.: quando há compra e venda – eu entrego este bem, recebo o preço;
na expropriação, é o que acontece também.
2. Situações em que temos a aquisição de um bem com dinheiro próprio (emprego) e situações de
reemprego/sub-rogação real indireta: estas são as situações em que não há esta ligação direta – não é o
mesmo ato de um facto jurídico que está na origem da saída de um bem e entrada de outro bem.
Sub-rogação real indireta: temos, p.e., a venda de um bem próprio e aquisição de um novo bem com o
produto da venda.
Porque é que isto é um problema nas relações entre os cônjuges? Esta questão põe-se porque a regra na
comunhão de adquiridos é que um bem adquirido onerosamente na constância do casamento integra o
património comum – o bem pode ter sido adquirido onerosamente na constância do casamento, mas pode
ser adquirido com um valor que integrava o património próprio de um dos cônjuges. Assim, fica o
património próprio empobrecido e fica o património comum enriquecido por aquele valor — há que
acautelar estas situações.
Este artigo vai ser aplicado também a outros regimes de comunhão – ao regime de comunhão geral e
a regimes mistos.
No regime da comunhão geral podemos ter bens próprios, os bens incomunicáveis — ex.: as
indemnizações recebidas por danos em bens próprios - imagine-se que eu tenho um quadro que me foi
dado pelo meu tio antes de me casar (bem próprio) e decidi emprestá-lo para uma exposição coletiva de
determinado artista plástico, mas o galerista resolveu pregar um prego diretamente no quadro,
estragando-a. Em juízo, é determinado que vou receber uma indemnização — esse valor é um bem
incomunicável. Entretanto utilizo esse valor para adquirir um automóvel — utilizei um valor próprio
incomunicável para adquirir um bem na constância do casamento — aqui funciona o art. 1723º CC que
garante que aquele bem integra o meu património e não o do meu cônjuge.
Quando a conexão não é ostensiva (na alínea c)), o legislador já faz exigências para que consideremos que
aquele bem vai integrar o património próprio.
(1) Uma das posições diz que a prova desta aquisição podia fazer-se por qualquer meio no momento da
partilha;
(2) A segunda posição vem dizer que tem de fazer-se através do título de aquisição. O Código de 1966
vem no sentido desta segunda posição.
Quando a alínea diz que tem de haver intervenção de ambos os cônjuges, fala da assinatura de ambos. Parece
que a lei nos diz que se não se reunirem todas estas exigências, todos estes requisitos, então estaremos
perante um bem comum.
É importante que estejamos perante a aquisição de um bem novo. Se o cônjuge A aplica dinheiro que está
numa conta reforma, não há aquisição de um bem novo – continua no mesmo património, simplesmente com
aplicação diferente.
A posição do Prof. Pereira Coelho e, mais tarde, do Prof. Guilherme de Oliveira tem sido a de que nós
temos de pensar na ratio desta norma — esta exigência só valia até onde a ratio da norma o justificasse:
• o legislador faz estas exigências para proteger a confiança de terceiros. O que é que um terceiro que assiste
à entrada de um bem de forma onerosa na constância do casamento vai pressupor? Que aquele bem vai
integrar o património comum. Sendo um credor, vai achar que a sua garantia patrimonial vai aumentar. Isto
influencia a sua disposição para conceder crédito aos cônjuges.
• O legislador considerou que o único meio fidedigno para proteger a posição de terceiros seria a
declaração inequívoca relativamente à proveniência do bem no ato da aquisição. Mas o legislador só exige
isto até onde a proteção de terceiros o justifique.
Se nós estivermos a falar, por exemplo, da partilha – das relações entre os cônjuges -, então estas
exigências já não se justificam. Estas exigências podem ser afastadas e a prova da proveniência dos valores
com que foi feita a aquisição pode ser feita por qualquer meio. Na partilha, eles sabem da proveniência dos
valores – então, a prova pode ser feita por qualquer meio.
• Esta posição está longe de ser unanime. A Prof. Rita Lobo Xavier considera que existe uma qualificação
imutável e o bem não deixa de ser comum. A posição de Coimbra é a do Prof. Pereira Coelho e do Prof.
Guilherme de Oliveira e a Dra. Paula Vitor também adere a esta posição.
Seguiu-se um Acordão importante, mas que não acabou com a discussão – Acórdão de Uniformização de
Jurisprudência do Supremo Tribunal de Justiça de 2015 – o Plenário do STJ entendeu que se estivesse
em causa apenas os interesses dos cônjuges e não de terceiros, a omissão neste título aquisitivo desta menção
da proveniência dos valores não impedia que se provasse por qualquer meio que o bem tinha sido adquirido
com valores ou bens próprios. O caso que esteve na base deste acórdão não é muito claro — Isto não ficou
por aqui, porque o caso decidido não encaixa exatamente na questão que esta na base da posição doutrinal do
curso — no caso do STJ a aquisição foi feita por um cônjuge com os valores próprios do outro.
Há riscos nesta posição – estes problemas de saber se há sub-rogação ou não pode surgir em vários
contextos.
- Aquele que parece mais pacífico é o da partilha entre os cônjuges. Mas, a verdade, pode surgir mesmo no
âmbito da partilha, na questão da liquidação e pagamento das dívidas – se temos terceiros, há aqui outros
interesses em causa.
Apesar desta posição do STJ, nem sempre é fácil determinar na prática se estamos apenas perante interesses
dos cônjuges ou também interesses de terceiros.
Bibliografia essencial:
- Guilherme de Oliveira, Manual de Direito da Família, Coimbra, Almedina, 2021, pp. 237-259
Bibliografia recomendada:
- Francisco Pereira Coelho, Guilherme de Oliveira, Curso de Direito da Família, vol. I, 5.ª Ed., 2016, pp.
558-620.
Há situações dúbias, por vezes, surgem questões quando são usados valores que são do património
próprio de um cônjuge, mas também do património comum:
Exemplo: Imagine-se que os cônjuges têm poupanças já feitas durante o casamento, à conta dos seus
salários, que integram o património comum. Mas um deles já tinha levado uma quantia avultada de dinheiro
para o casamento. Querem comprar agora uma casa – vão usar os dois valores – como é que vamos qualificar
este bem?
Artigo 1726.º CC: 1- “Os bens adquiridos em parte com dinheiro ou bens próprios de um dos cônjuges e
noutra parte com dinheiro ou bens comuns revestem a natureza da mais valiosa das duas prestações. 2- . Fica,
porém, sempre salva a compensação devida pelo património comum aos patrimónios próprios dos cônjuges,
ou por estes àquele, no momento da dissolução e partilha da comunhão.”
Os cônjuges adquiriram a casa em parte com um valor próprio, em parte com um valor comum. A regra é a
de que, sendo utilizado um valor comum, o bem é comum – artigo 1724.º, alínea b). Um bem adquirido
com valores próprios na constância do casamento, pode manter a qualificação de bem próprio – artigo 1723.º
CC. Mas aqui houve contribuição de valores próprios e de valores comuns. Não vai ser bem próprio e bem
comum – ao legislador repugna criar formas complexas de propriedade, então, vamos fazer prevalecer uma
natureza – a natureza da mais valiosa das prestações.
Se o bem vai integrar o património comum e, ainda assim, houve contributo com valores próprios, há uma
perda do património próprio daquele cônjuge, daí termos o número 2 deste artigo.
O bem vai ter a natureza ou de bem próprio ou de bem comum, não uma natureza mista de bem próprio e
comum – qual foi a mais valiosa das prestações? O facto de integrar um ou outro património vai fazer com
que o património que ficou empobrecido vá ser compensado no momento da partilha. Ou é próprio ou
comum, consoante a mais valiosa das prestações.
Agora imaginemos que esta casa foi adquirida exatamente com o mesmo valor próprio e valor comum – qual
é a solução? Não há uma prestação mais valiosa, são exatamente iguais.
Quando falamos na qualificação de bens próprios que são adquiridos onerosamente na constância do
matrimónio, estamos a falar da existência de uma exceção à regra – a regra é que um bem adquirido
onerosamente na constância do património é bem comum. Então, funciona alguma exceção (quando as
contribuições são exatamente iguais) à regra de que o bem adquirido onerosamente na constância do
casamento é bem comum? Não. Então, se as contribuições são exatamente iguais, o bem é qualificado
como bem comum, sem prejuízo da compensação – para não haver desequilíbrio.
Artigo 1727.º CC – “A parte adquirida em bens indivisos pelo cônjuge que deles for comproprietário fora da
comunhão reverte igualmente para o seu património próprio, sem prejuízo da compensação devida ao
património comum pelas somas prestadas para a respetiva aquisição.”
Temos um cônjuge que leva para o casamento um terreno – é comproprietário. Se o leva para o casamento,
no regime da comunhão de adquiridos é um bem próprio. O legislador favorece a simplificação dos direitos
sobre as coisas. A compropriedade tem inconvenientes, inconvenientes que ainda podem ser amplificados por
podermos estar a lidar com a figura dos bens comuns. Então, a opção é a de que vai consolidar-se a
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propriedade na titularidade daquele que já era comproprietário à data do casamento. O cônjuge que já
era comproprietário de um determinado bem à data do casamento adquire a outra quota, mas essa quota não
vai integrar o património comum, vai integrar o património próprio daquele cônjuge, sem prejuízo da
compensação eventualmente devida ao património comum.
Exemplo: A leva para o casamento, enquanto bem próprio, um prédio rústico cultivado de que é
comproprietário com a irmã. Tem aqui duas quotas – a quota do A e a quota da irmã do A. Na constância do
casamento, a irmã diz que não quer nada disto, quer alienar a sua quota e o irmão diz que compra. No
entanto, não tem bens próprios suficientes para isso e vai utilizar, então, as poupanças dos seus salários – os
bens comuns. Vai utilizar valores comuns para adquirir a outra quota. Esta quota foi um bem adquirido
onerosamente na constância do casamento e foram utilizados valores comuns. Ainda assim, o legislador não
quer que este bem seja em parte um bem próprio e em parte um bem comum. Quer que esta propriedade se
consolide toda na esfera de A. Se isto acontecer, este bem passa a ser um bem próprio – mas foram utilizados
valores comuns, vamos ter de ter uma compensação. Contudo, este bem vai integrar o património próprio.
Artigo 1728.º CC: “1. Consideram-se próprios os bens adquiridos por virtude da titularidade de bens
próprios, que não possam considerar-se como frutos destes, sem prejuízo da compensação eventualmente
devida ao património comum. 2. São designadamente considerados bens próprios, por força do disposto no
número antecedente: a) As acessões; b) Os materiais resultantes da demolição ou destruição de bens; c) A
parte do tesouro adquirida pelo cônjuge na qualidade de proprietário; d) Os prémios de amortização de
títulos de crédito ou de outros valores mobiliários próprios de um dos cônjuges, bem como os títulos ou
valores adquiridos por virtude de um direito de subscrição àqueles inerente.”
Sempre que temos um bem adquirido em virtude da titularidade de bens próprios, temos um bem que integra
um património próprio.
Depois, temos também de considerar como bens próprios aqueles que são bens próprios por natureza –
por exemplo, eu fui condecorado pelo Sr. Presidente da República com a Ordem do Infante – esta distinção
honorifica não se comunica ao meu cônjuge; A minha correspondência pessoal – e eu até tenho uma
correspondência pessoal que até pode ter um grande valor patrimonial porque me correspondo com uma
grande escritora – não se comunica ao meu cônjuge. Pela sua natureza, são bens próprios.
Há bens que são próprios por vontade dos nubentes – em convenção antenupcial, há esta possibilidade –
princípio da liberdade.
Também há bens próprios por força da lei – artigos 1729.º, 1730.º, 1731.º.
O art.1699º CC, diz-nos que há bens que não podem ser comunicáveis, tem de permanecer no património
comum, daí remetemos para o art.1733º CC — nós encontramos mais à frente estes bens que são
incomunicáveis por força da lei – artigo 1733.º CC – a lista está prevista para a comunhão geral, mas vai
aplicar-se ao regime da comunhão de adquiridos – vai aplicar-se ao regime da comunhão de adquiridos para
que não se possa introduzir aqui alguma torção por via convencional para que se altere esta lista de bens
incomunicáveis e por maioria de razão.
a) Os bens doados ou deixados, ainda que por conta da legítima, com a cláusula de incomunicabilidade;
Exemplo: o meu filho está casado no regime de comunhão geral, mas há um bem que eu tenho particular
gosto de deixar ao meu filho – em testamento, eu faço um legado ao meu filho – vais ficar com este carro
de coleção com que aprendeste a conduzir. Eu quero mesmo que o carro fique só para o meu filho –
estando eles casados em regime de comunhão geral, este bem iria integrar o património comum. Mas,
havendo esta cláusula de incomunicabilidade, este bem vai integrar o património próprio do meu filho e
não o património comum.
b) Os bens doados ou deixados com a cláusula de reversão ou fideicomissária, a não ser que a cláusula
tenha caducado;
d) As indemnizações devidas por factos verificados contra a pessoa de cada um dos cônjuges ou contra os
seus bens próprios;
Exemplo: Eu sofri um acidente de viação, perdi parte da mobilidade do meu lado direito e recebi uma
indemnização – esta indemnização visa responder aos danos causados à minha integridade física – logo,
integra o meu património próprio.
e) Os seguros vencidos em favor da pessoa de cada um dos cônjuges ou para cobertura de riscos sofridos
por bens próprios;
Exemplo: Eu sou desportista de alta-competição e tinha um seguro relativamente a qualquer lesão que
pudesse vir a sofrer e sofri – tenho a mobilidade reduzida de um lado – venceu-se este seguro – o seguro
tinha outra vertente – uma vertente que visava cobrir todos os rendimentos que eu viesse a perder em
virtude de não poder já exercer esta minha atividade de alta-competição – visa também cobrir aquilo que
seria o produto do meu trabalho – nestes casos, temos de perceber para que é que servem estes seguros
ou o que cobrem estas indemnizações – a parte relativa à perda de património que viria do meu trabalho
já não integra o património próprio, integra o património comum. A parte que visa compensar a lesão é
património próprio.
f) Os vestidos, roupas e outros objectos de uso pessoal e exclusivo de cada um dos cônjuges, bem como os
seus diplomas e a sua correspondência;
Exemplo: o vestido mais famoso da história do cinema – se eu adquiri este vestido em leilão na
constância do casamento, vai integrar o meu património próprio? Não. Foi um investimento que eu fiz –
não integra o meu património enquanto vestido. Temos de perceber qual é a lógica da inclusão destes
bens nos patrimónios.
h) Os animais de companhia que cada um dos cônjuges tiver ao tempo da celebração do casamento.
Exemplo: o cônjuge B leva o gato para o casamento, mas é o cônjuge A que trata do gato — isto não
importa, é património próprio, é um bem incomunicável. É por isto ser injusto que, no regime do
divórcio, uma coisa é a titularidade relativamente ao animal de companhia, outra coisa é o destino do
animal de companhia. Mesmo sendo da titularidade de B, pode o gato continuar a ser tratado por A,
embora não seja comunicável, não integre o património comum.
NOTA: Tudo o que sabemos quanto aos bens próprios, ajuda-nos a delimitar o círculo dos bens comuns.
Então, já vimos a lista de bens próprios.
Artigo 1764.º CC – “1. Só podem ser doados bens próprios do doador. 2. Os bens doados não se
comunicam, seja qual for o regime matrimonial.”
Os bens doados vão continuar a integrar o património próprio. Há uma característica muito relevante nas
doações entre cônjuges – estão sujeitas a livre revogabilidade.
Bens comuns:
Mas há algumas realidades que podem ser assimiladas ao produto do trabalho dos cônjuges.
Exemplo: os chamados papa-concursos – aquelas pessoas que estavam sempre a aparecer nos concursos
de televisão – estas pessoas preparavam-se muito com perguntas de cultura geral para ganhar estes
prémios nos concursos – este valor podia integrar o património comum – as pessoas faziam quase
profissão disto.
b) Os bens adquiridos pelos cônjuges na constância do matrimónio, que não sejam exceptuados por lei.
Já sabemos que são os adquiridos a título oneroso. Todos os que não forem bem próprios, visto que ser
bem próprio, adquirido na constância do casamento, é a exceção.
Há bens doados ou deixados em favor da comunhão (adquiridos a título gratuito), que vão integrar o
património comum quando a liberalidade seja feita em favor de ambos. O disponente quer determinar a
comunicabilidade do bem.
Exemplo contrário ao que vimos sobre o carro antes – há um regime de comunhão de adquiridos. Este bem
que eu vou deixar não vai entrar no património da minha nora, mas ela é um anjo e a pessoa com mais
conhecimentos de mecânica que eu conheço – para mim faz todo o sentido que o bem fique para o meu filho
e a minha nora. Por homenagem à minha vontade, do disponente, o bem vai integrar o património comum.
Artigo 1728.º CC – dissemos que são bens próprios, bens que também são adquiridos em virtude da
titularidade de bens próprios – “1. Consideram-se próprios os bens adquiridos por virtude da titularidade de
bens próprios, que não possam considerar-se como frutos destes (…)” – a contrario, os bens adquiridos em
virtude da titularidade de bens próprios que possam considerar-se frutos destes são bens comuns.
Remissão para o art. 212.º CC “1. Diz-se fruto de uma coisa tudo o que ela produz periodicamente, sem
prejuízo da sua substância. 2. Os frutos são naturais ou civis; dizem-se naturais os que provêm directamente
da coisa, e civis as rendas ou interesses que a coisa produz em consequência de uma relação jurídica.”
Exemplo: O terreno do exemplo que vimos antes integrou o património próprio – há uma incrível plantação
de macieiras neste terreno e toda a produção é vendida à Compal – há aqui um rendimento bastante
significativo. Os frutos naturais são produzidos sem prejuízo da própria coisa – integram não o património
próprio (e o terreno é próprio), mas o património comum.
Imagine-se a importância desta disposição no contexto das economias rurais. Na economia agrária, com a
estrutura económica que o nosso país tinha, era muito importante que apesar de o terreno ser de um dos
cônjuges, os frutos fossem património comum.
Mas também os frutos civis – exemplo: há uma conta bancária em que o A tem investido valores próprios –
os juros são frutos civis e são património comum. O outro cônjuge também vai beneficiar dos juros.
Referência do artigo 1733º/2 CC: “A incomunicabilidade dos bens não abrange os respectivos frutos nem o
valor das benfeitorias úteis.”
Temos também a possibilidade de ter outras situações em que a sub-rogação vai funcionar relativamente aos
bens comuns e vigora a regra geral. Os bens sub-rogados no lugar de bens comuns, continuam a ser bens
comuns.
Artigo 1732.º CC “Se o regime de bens adoptado pelos cônjuges for o da comunhão geral, o património
comum é constituído por todos os bens presentes e futuros dos cônjuges, que não sejam exceptuados por lei.”
A regra é que entra tudo no património comum. Depois há exceções, e por isso é que não existe só o
património comum na comunhão geral, continuam a existir patrimónios próprios dos cônjuges.
Sabemos que relativamente ao regime da comunhão adquiridos, vigora na maioria dos casos porque vigora
quando os nubentes nada dizem. O regime da comunhão geral não é, atualmente, o regime supletivo. Para
que vigore o regime da comunhão geral, à partida, tem de existir uma convenção antenupcial – os nubentes
têm de estipular que escolhem o regime da comunhão geral de bens. Só não o podem fazer quando estamos
perante casos de imperatividade absoluta ou também no caso da imperatividade relativa.
Também pode vigorar como regime supletivo – quando é que vigora como regime supletivo?
O regime da comunhão geral foi regime supletivo antes da entrada em vigor deste Código Civil. Até à
entrada em vigor (maio de 1967) vigorou como regime supletivo a comunhão geral. Então este regime
funciona como regime convencional, mas também como regime supletivo antes da entrada em vigor do
nosso CC.
Exemplos:
• Eu resolvo estipular o regime da comunhão geral e já tinha um apartamento quando me casei, logo, este vai
integrar o património comum.
• Também os bens futuros – por morte do meu tio-avô, que me deixou em testamento um terreno, eu vou
receber por esta via um bem, vou adquiri-lo a título gratuito na constância do meu casamento – vai entrar
no património comum.
• A minha mãe fez-me uma doação recentemente de um automóvel – vai integrar o património comum.
• Tudo o que recebo de produto do meu trabalho vai integrar o património comum.
Quais são os bens que integram o património próprio? — Artigo 1733.º CC, os bens incomunicáveis.
Quase tudo o que estudamos para o regime da comunhão de adquiridos é potencialmente aplicável ao regime
da comunhão geral — regras sobre participação no património comum e sobre sub-rogação real de bens, por
exemplo.
NOTA: Estruturalmente, este é um regime diferente dos restantes. Neste regime, não há a categoria dos bens
comuns, temos só os bens próprios de cada cônjuge. Há implicações mais claras quando temos este regime
quanto a titularidade, administração e disposição dos bens.
Neste regime temos dois patrimónios – património próprio de um e património próprio de outro.
Quando vigora este regime? Quando for convencionado ou quando há situações de imperatividade
absoluta.
O que vai integrar o património próprio de cada um dos cônjuges é o que levou para o casamento, o que
adquiriu a título gratuito na constância do casamento e tudo o que adquiriu a título oneroso na constância do
casamento — não há património comum.
Aqui não há apenas uma separação de bens, temos uma separação mais ampla que tem a ver com fruição,
administração e disposição de bens.
- A casa foi adquirida onerosamente, na constância do casamento, por ambos, com o produto dos seus
salários. Não temos comunhão – temos de remeter para o regime da compropriedade. Continuamos a ter
patrimónios próprios e apenas patrimónios próprios – mas este bem, uma quota pertence a um património
e a outra quota ao outro património.
O que se pretende é que, do ponto de vista patrimonial, os cônjuges se comportem como estranhos – e o
regime jurídico tutela esta opção.
O regime da separação de bens visa preservar alguma independência. A lei pretende que os cônjuges se
comportem como estranhos a nível patrimonial, mas, em homenagem a esta comunhão de vida, a lei cria
alguns entorses a esta independência total:
- Uma das restrições diz respeito à disposição da casa da morada de família: O legislador entende que,
ainda que a casa de morada de família seja meu bem próprio, eu não a posso alienar sem consentimento do
meu cônjuge.
Também entende que, relativamente à minha mobília da sala, da casa onde vivemos, que eu adquiri,
integra o meu património próprio, eu simplesmente não posso entender aliená-la sem mais. Outros
bens, posso. Mas estes, que têm esta especial relação com a vida familiar, não posso livremente dispor
deles.
Artigo 1736.º CC “1. É lícito aos esposados estipular, na convenção antenupcial, cláusulas de presunção
sobre a propriedade dos móveis, com eficácia extensiva a terceiros, mas sem prejuízo de prova em contrário.
2. Quando haja dúvidas sobre a propriedade exclusiva de um dos cônjuges, os bens móveis ter-se-ão como
pertencentes em compropriedade a ambos os cônjuges.” – lembrar deste artigo para a união de facto e para
as relações patrimoniais nas uniões de facto.
1.1. Princípios gerais e Especialidades da administração dos bens do casal: poderes do cônjuge
administrador
Se cada um dos cônjuges fosse dono dos bens que adquirisse e se cada um dos donos administrasse os bens
que lhe pertencessem, não haveria necessidade de prever um regime especial sobre “administração dos bens
dos cônjuges” – as normas gerais de direito civil chegariam.
Mas, os bens do casal não são necessariamente de um ou de outro cônjuge, nem pertencem a ambos em
compropriedade – são antes “bens comuns”; isto supõe um regime específico para a sua administração,
porque não há regras gerais de direito civil sobre o assunto.
Por outro lado, mesmo quando os bens pertencem a um ou a outro cônjuge, as circunstâncias de grande
proximidade em que eles vivem – a “comunhão de vida” – recomendam que um dos cônjuges tenha poderes
de administração sobre bens do outro, ou tenha poderes exclusivos sobre bens que são dos dois. Também isto
carece de regulamentação especial.
Este regime relativo à administração dos bens dos cônjuges não pode ser alterado por vontade dos nubentes
em convenção antenupcial — é um regime imperativo.
Podemos tratar em dois blocos as regras de administração: vamos perceber qual é a regra e quais são as
muitas exceções, quer em relação aos bens próprios, quer em relação aos bens comuns.
Artigo 1678º CC: “1. Cada um do cônjuges tem a administração dos seus bens próprios.” — Quanto aos
bens próprios, a regra geral é a de que cada um dos cônjuges tem a administração dos bens próprios.
Logo a lei abre uma série de exceções no nº2: Cada um dos cônjuges tem ainda a administração
• Alínea e): Dos bens móveis, próprios do outro cônjuge ou comuns, por ele exclusivamente utilizados como
instrumento de trabalho;
A regra é que cada um dos cônjuges administre os seus bens, mas os bens próprios de um podem ser
administrados não pelo seu titular, mas pelo outro cônjuge se ele usa o bem próprio do outro cônjuge como
instrumento de trabalho.
Exemplo: A é designer gráfica e usa um computador levado para o casamento pelo seu cônjuge no
exercício da profissão. Nesta situação, titular do bem continua a ser o cônjuge que o levou para o
casamento e o cônjuge designer possui apenas a sua administração.
• Alínea f): Dos bens próprios do outro cônjuge, se este se encontrar impossibilitado de exercer a
administração por se achar em lugar remoto ou não sabido ou por qualquer outro motivo, e desde que não
tenha sido conferida procuração bastante para administração desses bens;
Um cônjuge ainda pode administrar bens que são próprios do outro em situações de ausência, por exemplo,
ou situações em que haja outro impedimento, outro motivo.
É importante ligarmos este regime com a falta geral – que outro motivo pode estar tão presente e pode
convocar a administração dos bens de um cônjuge pelo outro? Diminuição das aptidões cognitivas ou
volitivas – mas esta pessoa, nessa situação, não devia ser um maior acompanhado? Pode não ser:
- Artigo 140.º/2 CC “A medida não tem lugar sempre que o seu objetivo se mostre garantido através dos
deveres gerais de cooperação e de assistência que no caso caibam.” Não temos medida de
acompanhamento se funcionarem medidas informais – esta é a primeira medida informal que devemos
pensar.
• Alínea g): Dos bens próprios do outro cônjuge se este lhe conferir por mandato esse poder.
Vimos que em convenção antenupcial os cônjuges não podiam criar regimes diferentes de administração
dos bens. Mas também vimos que através de mandato, o cônjuge pode conceder poderes de
administração de bens que são próprios dele. A administração é do titular, mas através do mandato, pode
conceder essa administração ao cônjuge. Não pode é cristalizar-se essa administração, como aconteceria se
essa alteração aos poderes de administração ocorresse na convenção antenupcial — o mandato é
livremente revogável.
Vamos agora olhar para os bens comuns e perceber o regime de administração dos bens comuns – o
nosso ponto de partida é o nº 3 do artigo 1768.º CC “os restantes actos de administração só podem ser
praticados com o consentimento de ambos os cônjuges.” – assim, percebemos que, quanto aos bens comuns,
a regra é a da administração conjunta.
Contudo há exceções:
1) A primeira exceção encontramo-la na primeira parte do art. 1678.º/3 CC “Fora dos casos previstos no
número anterior, cada um dos cônjuges tem legitimidade para a prática de actos de administração
ordinária relativamente aos bens comuns do casal”
A regra é a da administração conjunta, é necessário o consentimento de ambos para os bens comuns, mas
se for meramente um ato de administração ordinária, cada um dos cônjuges pode praticar os atos – há
administração disjunta.
Temos de ter bem presente a distinção entre atos de administração ordinária e atos de administração
extraordinária: administração extraordinária não são atos que visem a normal utilização e frutificação e
os atos de administração ordinária têm que ver com a frutificação e utilização normal. É isso que temos
de avaliar em cada caso concreto.
Esta exceção tem um desvio – não o encontramos no Código Civil – encontramos no Código das
Sociedades Comerciais – artigo 8.º CSC “2 - Quando uma participação social for, por força do regime
matrimonial de bens, comum aos dois cônjuges, será considerado como sócio, nas relações com a
sociedade, aquele que tenha celebrado o contrato de sociedade ou, no caso de aquisição posterior ao
contrato, aquele por quem a participação tenha vindo ao casal.” Temos aqui um desvio à regra da
administração ordinária disjunta. Não é qualquer um deles que pode praticar atos sobre este bem –
apenas aquele que figura como sócio tem poderes de administração na relação com a sociedade – é um
desvio.
2) Alínea a) do nº 2: cada um dos cônjuges tem ainda poderes de administração dos rendimentos
provenientes do seu trabalho. Não deixam de ser bens comuns, mas só o cônjuge que os aufere os vai
poder administrar.
4) Alínea c) do nº2 — “Dos bens comuns por ele levados para o casamento ou adquiridos a título gratuito
depois do casamento, bem como dos sub-rogados em lugar deles;” – mesmo na comunhão geral,
sabendo nós que estes bens integram o património comum, o cônjuge por meio do qual estes bens foram
integrados no património comum na constância do casamento é o cônjuge que vai administrar estes bens.
5) Alínea d) do nº2 — “Dos bens que tenham sido doados ou deixados a ambos os cônjuges com exclusão
da administração do outro cônjuge, salvo se se tratar de bens doados ou deixados por conta da legítima
desse outro cônjuge” Há a proteção por parte do legislador da vontade do disponente, que entrega com
âmbito de liberalidade.
Nota: Ver art. 1682º/2 CC — quanto à alienação ou oneração de móveis — a não ser que estejamos
perante as ressalvas dos nºs seguintes, o facto do cônjuge ter administração de bens comuns por ser ele
que os utiliza como instrumento de trabalho vai abrir a porta para outro tipo de atos, como a alienação e
oneração previstas neste artigo — esta passa a ser legítima sem o consentimento do outro cônjuge
(vamos ver mais à frente).
7) Alínea f) do nº2 “Dos bens próprios do outro cônjuge, se este se encontrar impossibilitado de exercer a
administração por se achar em lugar remoto ou não sabido ou por qualquer outro motivo, e desde que
não tenha sido conferida procuração bastante para administração desses bens” – aqui não há referência
a bens comuns, mas se pode administrar os bens próprios do outro cônjuge nestas situações, por maioria
de razão, poderá também administrar os bens comuns.
Estudamos, no ano passado, o dever de socorro e auxílio mútuo (como vertente do dever de
cooperação), e este dever é, muitas vezes, pensado na vertente pessoal, mas a verdade é que prover a
administração dos bens do cônjuge também pode ser considerado como cumprimento do dever da
cooperação na vertente do auxílio mútuo.
Quando no regime dos maiores acompanhados, no art. 140º/2 CC se diz “A medida não tem lugar
sempre que o seu objetivo se mostre garantido através dos deveres gerais de cooperação e de assistência
que no caso caibam”, isto significa que numa situação que pudesse reclamar uma medida de
acompanhamento, se de facto a situação está acautelada pelo cumprimento dos deveres conjugais
(situação que aqui estamos a ver) o tribunal tem de avaliar esta situação do ponto de vista social, em
função do princípio da subsidiariedade destas intervenções. Estamos aqui a falar sempre de uma restrição
de direitos fundamentais, pelo menos quando há imposição de uma medida institucional, pelo menos o
direito à reserva de intimidade da vida privada é afetado. Então, se há uma medida informal e menos
gravosa que funciona e acautele a situação da pessoa, então, a esta é dada prioridade.
8) Alínea g) do nº2 “Dos bens próprios do outro cônjuge se este lhe conferir por mandato esse poder.” –
temos outra vez o mesmo problema e a mesma solução – se eu posso conceder por mandato poderes de
administração ao meu cônjuge para administrar bens próprios, também posso conceder por mandato
poderes para administrar bens comuns.
Estes poderes não podem ser alterados em convenção antenupcial, mas o instrumento de mandato é
importante para a gestão dos nossos interesses, até onde considerarmos que é importante — então é
livremente revogável.
Os poderes do cônjuge administrador não são apenas poderes de administração, ao lermos o art. 1682º/2 CC
percebemos que além de poderes de mera administração, também pode ter poderes de disposição que não
costumam ser dados aos administradores dos bens alheios.- alienar e onerar um bem de que tem
administração.
Depósitos bancários:
Há algumas regras específicas quanto ao cônjuge administrador que temos de tomar aqui em conta, desde
logo, as que dizem respeito a depósitos bancários — o artigo 1680.º CC ocupa-se disso.
O artigo 1680.º CC diz “Qualquer que seja o regime de bens, pode cada um dos cônjuges fazer depósitos
bancários em seu nome exclusivo e movimentá-los livremente.” – isso modifica em algo a titularidade dos
bens? Não. Não altera as regras gerais, desde logo, a titularidade dos bens, mas dá-me liberdade de
movimentação relativamente a estes bens.
O que é que acontece quando estes poderes são exercidos de uma forma indevida? Quando, por causa desta
administração, há danos provocados pelo cônjuge administrador.
As consequências relativamente à não observância das regras relativas à administração dos bens do casal vão
encontrar-se na responsabilidade pela administração
Podemos dividir este regime em dois blocos essenciais – o primeiro diz respeito aos casos em que o cônjuge,
por força da lei, tem poder para administrar bens que não são seus. Os outros casos são de responsabilidade
mais ampla.
Vamos ver em que casos podemos responsabilizar o administrador que, por força da lei, pode administrar
bens que não são seus. Artigo 1681.º CC:
“1. O cônjuge que administrar bens comuns ou próprios do outro cônjuge, ao abrigo do disposto nas alíneas
a) a f) do n.º 2 do artigo 1678.º, não é obrigado a prestar contas da sua administração, mas responde pelos
actos intencionalmente praticados em prejuízo do casal ou do outro cônjuge” – há uma alínea excluída, a
alínea g) – o caso do mandato (esses poderes não são conferidos por força da lei – a possibilidade é aberta
pela lei, mas são conferidos pela via do mandato).
• Nestes casos, quando o cônjuge administra bens comuns ou próprios do outro porque tem os poderes
concedidos pela lei, não é obrigado a prestar contas da sua administração;
• E só responde pelos atos (não omissões!) que intencionalmente praticou, em prejuízo do casal ou do
outro cônjuge (ou seja, se há negligência não vai responder por estes atos) — isso significa que não há
uma obrigação de prestação de contas, no âmbito da administração;
• e a responsabilidade é limitada – responde por atos praticados – atos, não por omissões.
As omissões, no âmbito do exercício de uma administração, podem ser muito prejudiciais. Mas a verdade é
que houve aqui uma ponderação por parte do legislador, considerou que as dificuldades de prova são maiores
e existe aqui ainda subjacente aquela relutância de aplicar as normas gerais da responsabilidade civil nas
relações entre os cônjuges.
Atos intencionalmente praticados em prejuízo do casal ou do outro cônjuge – é preciso não estarmos perante
mera negligência – têm de ser atos intencionalmente praticados em prejuízo do casal ou do outro cônjuge.
Este regime de responsabilidade é altamente exigente. É mais dificilmente convocável.
Os outros casos são de responsabilidade ampla – nestes casos de responsabilidade mais ampla, a prática
dos atos de administração por parte do cônjuge que não é titular ou o único titular tem por base decisões dos
cônjuges:
Art. 1681º/2 “Quando a administração, por um dos cônjuges, dos bens comuns ou próprios do outro se
fundar em mandato, são aplicáveis as regras deste contrato, mas, salvo se outra coisa tiver sido estipulada,
o cônjuge administrador só tem de prestar contas e entregar o respectivo saldo, se o houver, relativamente a
actos praticados durante os últimos cinco anos.” — Refere-se a atos que o cônjuge tem poder de praticar,
não por força da lei, mas por força do mandato.
Temos aqui, então, uma remissão para o regime geral do contrato de mandato e é uma responsabilidade
mais alargada
Ainda assim, temos uma limitação em função da realidade conjugal — é só a prestação de contas quanto aos
últimos cinco anos, porque não se espera que tenham contabilidade organizada quando se está a falar da
administração de bens próprios do outro ou de bens comuns.
Sendo assim, os casos de responsabilidade ampla incluem não só as situações em que exista um mandato,
mas também situações em que existe conhecimento e não existe a oposição expressa do outro cônjuge.
Se houve conhecimento e não houve oposição, temos de admitir as situações em que há poderes de
administração, mas não há intervenção do outro cônjuge – ou porque não teve conhecimento ou porque não
houve esta ausência de oposição.
• Artigo 1269.º CC “O possuidor de boa fé só responde pela perda ou deterioração da coisa se tiver
procedido com culpa”;
• Artigo 1271.º CC “O possuidor de má fé deve restituir os frutos que a coisa produziu até ao termo da
posse e responde, além disso, pelo valor daqueles que um proprietário diligente poderia ter obtido”
• Artigo 1275.º/2 CC “O possuidor de má fé perde, em qualquer caso, as benfeitorias voluptuárias que haja
feito.”
Cabe perceber que património é que este crédito da indemnização vai integrar. E neste âmbito não há uma
resposta clara.
E se o dano se verifica num bem comum? Já não vale a regra do artigo 1733.º CC, aqui temos duas
hipóteses:
O momento para exigir o montante do crédito é o momento da partilha – isto também não é certo, mas é
para o que nos apontam os dados do sistema, do ponto de vista sistemático as soluções apontam-nos para o
momento da dissolução e partilha da comunhão. Não há uma resposta clara na lei, mas tem sido apontado
este momento – é quando os reequilíbrios patrimoniais se vão estabelecer.
Artigo 1697.º CC “1. Quando por dívidas da responsabilidade de ambos os cônjuges tenham
respondido bens de um só deles, este torna-se credor do outro pelo que haja satisfeito além do que
lhe competia satisfazer; mas este crédito só é exigível no momento da partilha dos bens do casal, a
não ser que vigore o regime da separação.” Remete também para o momento da partilha dos bens e
parece que é o que faz sentido tomar em conta.
Como é o caso da simples separação judicial de bens: não opera um relaxamento do vínculo matrimonial.
É um expediente que o cônjuge não administrador pode lançar mão quando a administração é ruinosa. O
artigo 1767.º CC prevê esta hipótese “Qualquer dos cônjuges pode requerer a simples separação judicial de
bens quando estiver em perigo de perder o que é seu pela má administração do outro cônjuge.”
Note-se que está certo falar em simples separação judicial de bens e errado falar em separação judicial de
pessoas e bens. A separação de pessoas e bens segue as mesmas vias que o divórcio – que se pode dar por
duas vias diversas – via judicial, mas também administrativa. A separação judicial de pessoas e bens pode ser
judicial ou administrativa. A simples separação de bens é sempre decretada pelo tribunal.
Artigo 1679.º CC: “O cônjuge que não tem a administração dos bens não está inibido de tomar
providências a ela respeitantes, se o outro se encontrar, por qualquer causa, impossibilitado de o fazer, e do
retardamento das providências puderem resultar prejuízos.” O cônjuge não administrador pode tomar
algumas providências quanto à administração dos bens se o outro se encontrar, por qualquer causa,
impossibilitado de o fazer, e do retardamento das providências puderem resultar prejuízos.
Este regime, de certeza que nos faz lembrar da gestão de negócios. Artigo 464.º CC “Dá-se a gestão de
negócios, quando uma pessoa assume a direcção de negócio alheio no interesse e por conta do respectivo
dono, sem para tal estar autorizada.”
Temos esta tutela legislativa quando alguém age no interesse e por conta de outra pessoa sem para tal estar
autorizado. Há esta parecença com a gestão de negócio porque temos um cônjuge que não tem poderes de
administração, nem está para tal autorizado por mandato e a lei considera que pode tomar providências.
Quais são as diferenças essenciais? No artigo 464.º CC não nos fala apenas das situações em que do
retardamento resulta prejuízo, no caso da gestão de negócios é necessária a ratificação pela parte do dono
para que haja vinculação. Isto não vai acontecer no caso do artigo 1679.º CC – só existe para evitar prejuízos,
mas não é necessária esta ratificação por parte do outro cônjuge. Então, embora haja proximidade, este
expediente permite esta carta branca ao cônjuge não administrador.
Isto já não teria resposta por parte de outra regra do regime da administração? Quando o cônjuge está
incapacitado? Estas providências administrativas são para situações mais pontuais. Um impedimento não é
uma situação esporádica, estamos a falar aqui se situações com uma densidade diferente. Para estas
intervenções pontuais não podemos dizer que existam poderes de administração, mas poderes para tomar
providências administrativas.
2. ILEGITIMIDADES CONJUGAIS
2.1. Generalidades
Os cônjuges podem fazer mais do que as regras comuns lhes permitiriam – um cônjuge pode administrar
bens próprios do outro sem ter mandato para tal, por exemplo. Mas, por outro lado, há também limitações
que não existiriam ao abrigo das regras comuns, há atos que um cônjuge não vai poder praticar livremente:
Há atos em que é necessário, para que possam ser validamente concluídos, o consentimento do outro
cônjuge – ainda que sejam atos praticados relativamente a bens próprios desse cônjuge. Há proibições de
concluir certos negócios jurídicos sem o consentimento do outro cônjuge – se esses atos forem concluídos
sem consentimento, podemos estar sujeitos a sanções.
Estamos a limitar a atuação de um cônjuge relativamente aos seus bens próprios e também os bens comuns.
Quando falamos na limitação do ponto de vista jurídico, quando falamos na limitação da atuação de alguém
geralmente, lembramo-nos de quê? Quem é que tem a sua atuação limitada? Os menores e maiores
acompanhados. Isso remete-nos para uma categoria – a incapacidade – quando está em causa a sua
capacidade – têm falta de capacidade para o exercício de direitos.
Quem é que é protegido por esta limitação na sua atuação de agir? O próprio menor e o próprio maior
acompanhado. Estas limitações que encontramos na Parte Geral do CC visam proteger os interesses das
pessoas cuja atuação é limitada.
Não é isso que se passa no plano das ilegitimidades conjugais: Quando falamos das ilegitimidades
conjugais, aquilo que está em causa é limitar a atuação de um dos cônjuges em função dos interesses do
outro, em função dos interesses da família. Ficamos já a perceber a diferença entre as incapacidades e as
ilegitimidades.
“1. Carece do consentimento de ambos os cônjuges, salvo se entre eles vigorar o regime de separação de
bens:
a) A alienação, oneração, arrendamento ou constituição de outros direitos pessoais de gozo sobre imóveis
próprios ou comuns;
b) A alienação, oneração ou locação de estabelecimento comercial, próprio ou comum."
O nosso legislador considera estes bens os mais importantes (os bens imóveis e o estabelecimento
comercial).
Estas regras aplicam-se só em regimes de comunhão. Podíamos pensar que se aplicam a regimes de
comunhão porque tratam de bens comuns, mas não é assim, aplicam-se também a bens próprios.
Um dos valores básicos relativamente ao desenvolvimento da vida familiar tem a ver com a importância dos
bens imobiliários.
Porque é que carece do consentimento do outro cônjuge este ato de alienação de imóvel próprio? Se fosse
comum, nós percebíamos, claro. Mas, os imóveis próprios? Que sentido é que isto pode fazer? Estamos a
falar de um bem imóvel próprio, mas pode ter implicações relativamente ao património do outro cônjuge.
Pode ser muito relevante a existência de frutos, que integram o património comum. Se eu alieno um
bem imóvel próprio, isso pode significar que os frutos deste imóvel próprio vão deixar de integrar o
património comum – portanto, é relevante o consentimento do meu cônjuge.
NOTA: Há algumas situações que podemos considerar que não se reconduzem a esta hipótese: por exemplo,
temos um cônjuge que é construtor civil e aliena estes imóveis no exercício da sua atividade, no âmbito do
objeto da empresa, não obedece a lógica do 1682º-A. Mas também temos de pensar que quando um cônjuge
celebra um contrato de promessa de alienação temos de traçar a diferença, o contrato promessa não se
transmite o direito real, não é necessário consentimento de ambos os cônjuges, só se vincula quem realiza o
contrato - está fora desta limitação do artigo.
Quanto à oneração de imóveis próprios ou comuns: a constituição de direitos reais de gozo, constituição
de direitos reais de garantia, mas também o arrendamento e a constituição de outros direitos pessoais de gozo
– o bem não vai deixar, à partida, o património, mas conseguimos perceber as implicações que o ato tem
relativamente ao património.
- Se se constituem direitos reais de gozo, podemos ter uma limitação tão grande relativamente ao uso que se
perde o valor do bem.
- Relativamente aos direitos reais de garantia, pode mesmo perder-se o bem.
- Quando falamos em direitos pessoais de gozo, temos de pensar no comodato, por exemplo – artigo 1129.º
CC.
Tudo está ligado a um esvaziamento considerável dos poderes do proprietário. Portanto, é necessário o
consentimento do outro cônjuge.
Quanto à alínea b) do nº1 — O estabelecimento comercial não é um imóvel, temos vários valores com uma
afetação à atividade comercial, é uma universalidade de direito, e como não se trata de um bem imóvel nos
termos do art. 204º, será um bem móvel nos termos do art. 205º CC.
Apesar de se tratar de um bem móvel, vamos ter, pela importância do estabelecimento comercial, um
tratamento análogo ao dos bens imóveis.
Tem a ver com o regime de bens da separação de bens – da extensão que vem desde a liquidação à separação
de bens - sublinhar a palavra sempre – qualquer que seja o regime de bens – seja num regime de
comunhão, seja num regime de separação de bens, é necessário o consentimento do outro cônjuge para poder
proceder a esta alienação da casa de morada de família, mesmo sendo bem próprio num regime de separação
de bens.
Então, o nº2 do artigo 1682.º-A não se refere já à casa de morada de família? No artigo 1682.º-A, há
propriedade e no artigo 1682.º -B não há propriedade, falamos da limitação do direito, enquanto
arrendatários, quanto à sua disposição, por ilegitimidades conjugais.
A e B habitam aquela casa. A que titulo? Se são proprietários, um ou ambos, então quando falamos de
arrendamento, estamos a falar do artigo 1682.º -A/2 – eles são o senhorio eventual, trata-se de dar de
arrendamento o seu imóvel próprio ou comum.
Quando falamos do artigo 1682.º-B estamos a falar dos cônjuges que são arrendatários. É uma questão de
tutela da sua posição contratual enquanto arrendatários.
Uma situação que fica de fora do art. 1682º-B diz respeito à prestação de prestação de serviços pessoais que
tomem de arrendamento uma determinada casa.
Agora vamos olhar para as situações em que está em causa a tutela de bens móveis. Alguns bens móveis
também merecem esta especial tutela por parte do direito no âmbito do casamento.
Artigo 1682.º CC “1. A alienação ou oneração de móveis comuns cuja administração caiba aos dois
cônjuges carece do consentimento de ambos, salvo se se tratar de acto de administração ordinária.” – Faz
sentido, se estamos a falar de bens móveis comuns cuja administração cabe aos dois, é necessário
consentimento de ambos.
“2. Cada um dos cônjuges tem legitimidade para alienar ou onerar, por acto entre vivos, os móveis próprios
ou comuns de que tenha a administração, nos termos do n.º 1 do artigo 1678.º e das alíneas a) a f) do n.º 2
do mesmo artigo, ressalvado o disposto nos números seguintes.”
O número 3 vai estabelecer estas limitações – que bens móveis é que justificam que para que se celebrem
determinados negócios jurídicos relativamente a estes seja necessário o consentimento do outro cônjuge?
Vamos, então, utilizar um conceito amplo de utilização e, para tal, vamos socorrer-nos de outra norma:
• Este artigo é instrumental para o funcionamento de uma atribuição preferencial no direito sucessório –
artigo 2103.º -A – por ocasião de morte de um dos cônjuges, quando se faz a partilha, há um direito
preferencial de um dos cônjuges a ser encabeçado não num direito de propriedade da casa de morada de
família, mas num direito de habitação na casa e utilização dos bens do recheio. Esta norma permite
tutelar a situação do cônjuge sobrevivo, e neste âmbito vamos encontrar um referência para identificar o
que é “recheio”:
Exemplificando:
Alínea a) ainda – instrumento comum do trabalho – temos a tutela da livre profissão dos cônjuges.
Vamos incluir aqui uma situação que não estava a coberto da alínea anterior.
Exemplo: Levei para casamento carrinha, bem próprio, depois do casamento o cônjuge passou a utilizar
carrinha para pet sitting. Quem o administra então é o outro cônjuge que o utiliza exclusivamente como
instrumento de trabalho. Mas agora quero vender a carrinha, posso? Não, ele é meu mas não o administro, é
necessário o consentimento do outro cônjuge.
Exemplo do nosso caso prático da aula anterior: tínhamos um bem móvel de um dos cônjuges – o cavalo
do Alberto – que era administrado pela Vitória, que o utilizava no âmbito da sua atividade de terapia. A
Vitória era o cônjuge administrador. Ela utilizava o cavalo exclusivamente como instrumento de trabalho.
Não era instrumento comum de trabalho. Se o Alberto quiser alienar este bem, não o pode fazer sem o
consentimento da Vitória, mas não ao abrigo da alínea a), mas ao abrigo da alínea b) do número 3 do artigo
1682.º CC.
Legados e heranças:
Artigo 1683.º CC – consentimento para a aceitação ou para o repúdio da herança ou legado – “1. Os
cônjuges não necessitam do consentimento um do outro para aceitar doações, heranças ou legados. 2. O
repúdio da herança ou legado só pode ser feito com o consentimento de ambos os cônjuges, a menos que
vigore o regime da separação de bens.”
Há aqui uma separação: para a aceitação não é necessário o consentimento do outro; para o repúdio, é
necessário o consentimento — porquê?
Artigo 2071.º CC “1. Sendo a herança aceita a benefício de inventário, só respondem pelos encargos
respectivos os bens inventariados, salvo se os credores ou legatários provarem a existência de outros bens.
2. Sendo a herança aceita pura e simplesmente, a responsabilidade pelos encargos também não excede o
valor dos bens herdados, mas incumbe, neste caso, ao herdeiro provar que na herança não existem valores
suficientes para cumprimento dos encargos.” — a ideia essencial é a de que os encargos são limitados às
forças das liberalidades.
• Vemos aqui relativamente às heranças, mas também relativamente às doações – artigo 963.º/2 CC “2. O
donatário não é obrigado a cumprir os encargos senão dentro dos limites do valor da coisa ou do direito
doado.” Aceitar uma herança, aceitar um legado é um benefício – não é necessário consentimento.
• Mas repudiar pode implicar uma perda potencial, do ponto de vista patrimonial. A não ser que se trate do
regime da separação de bens – aí cada um tem o seu próprio património, esta questão de perder o benefício
não se põe. Mas no regime da comunhão de adquiridos, os bens adquiridos a título gratuito também não
integram o património comum – mas, mesmo assim, há uma potencial perda patrimonial – os frutos, por
exemplo, mesmo que sejam de bens próprios, vão integrar o património comum.
Agora, interessa-nos perceber, sendo necessário consentimento, como vai ser prestado e que exigências
existem relativamente a este consentimento.
Artigo 1684.º CC “1. O consentimento conjugal, nos casos em que é legalmente exigido, deve ser especial
para cada um dos actos.” Para que não seja uma carta branca – exige-se reflexão para cada um dos atos.
“2. A forma do consentimento é a exigida para a procuração” — Para a procuração, exige-se a forma que é
exigida para o respetivo negócio. Para a alienação de bens imóveis, exige-se a escritura pública ou
documento particular autenticado. Normalmente, é pela intervenção do cônjuge no próprio ato que se presta
o consentimento.
Quando o cônjuge consente, o consentimento faz com que haja responsabilidade de ambos pela dívida
contraída por um (isto vamos ver depois)
E se não é prestado o consentimento? O artigo 1684.º diz que pode ser judicialmente suprido (remissão
para art. 1000º e 1001º CPC) Há esta possibilidade – nestes casos, o cônjuge não pode praticar o ato
sozinho, uma vez que estamos perante uma ilegitimidade conjugal.
- Pode ser judicialmente suprido quando? Havendo injusta recusa, ou impossibilidade, por qualquer
causa, de o prestar — o interesse é não sofrer as consequências do art. 1687º CC.
E se não há este consentimento? Qual é a sanção, quem é que pode invocar e em que prazo o pode fazer?
Artigo 1687.º CC “1. Os actos praticados contra o disposto nos [Link] 1 e 3 do artigo 1682.º, nos artigos
1682.º-A e 1682.º-B e no n.º 2 do artigo 1683.º são anuláveis a requerimento do cônjuge que não deu o
consentimento ou dos seus herdeiros, ressalvado o disposto nos [Link] 3 e 4 deste artigo.”
Estes atos foram praticados sem o consentimento do outro cônjuge, quando era exigido pela lei – são atos
anuláveis. O regime da anulabilidade requer que seja determinado por quem tem legitimidade para a invocar
– o cônjuge que devia ter dado o consentimento e não deu ou os seus herdeiros.
Prazo para reagir – “2. O direito de anulação pode ser exercido nos seis meses subsequentes à data em que
o requerente teve conhecimento do acto, mas nunca depois de decorridos três anos sobre a sua celebração.”
A está casado no regime de comunhão de adquiridos desde 2015. Em dezembro de 2019, alienou um bem
imóvel próprio, sendo que precisava do consentimento do cônjuge, mas não o obteve. Quando é que o
cônjuge teve conhecimento da alienação deste bem? Em janeiro de 2024.
Com isto, B, o cônjuge, quer reagir. Apesar de não terem passado 6 meses desde o conhecimento do facto
(passaram dois meses), já passaram mais de 3 anos desde a data de celebração.
Este bem imóvel foi alienado em junho de 2023 – com o conhecimento, mas sem o consentimento do outro
cônjuge. Se não teve consentimento, estamos perante ilegitimidade conjugal. Hoje, decidiu que ia anular.
Não passaram 3 anos desde o ato, mas já passaram mais de 6 meses desde o conhecimento. Também já não
está em tempo para o fazer.
Se teve conhecimento hoje e não na altura e o ato foi praticado em junho de 2022, ainda não passaram 3
anos, em 6 meses desde o seu conhecimento.
“3. Em caso de alienação ou oneração de móvel não sujeito a registo feita apenas por um dos cônjuges,
quando é exigido o consentimento de ambos, a anulabilidade não poderá ser oposta ao adquirente de boa
fé.” – Mais uma vez, temos a desvalorização dos bens móveis relativamente aos bens imóveis.
“4. À alienação ou oneração de bens próprios do outro cônjuge, feita sem legitimidade, são aplicáveis as
regras relativas à alienação de coisa alheia.” Neste caso, estou a alienar um bem próprio do meu cônjuge,
temos uma alienação de coisa alheia.
A consequência, como tal, será a nulidade – artigo 892.º CC – aqui, o alienante nem é o proprietário, nem o
administrador. (Remissão do número 4 do artigo 1687.º para o 892.º CC).
Se for bem próprio do outro, mas este o administrar, então aplica-se o artigo 1687.º/1 e há anulabilidade (art.
288º CC) e não nulidade.
Artigo 1685.º CC – não vão valer as ilegitimidades conjugais quando estão em causa situações post mortem,
estas disposições são mortis causa e se são mortis causa, só produzem efeitos depois da morte do disponente.
Aqui não vale a ideia de tutela da vida familiar que sustenta as ilegitimidades conjugais —mas há uma
exceção, aquela atribuição preferencial do direito de habitação, casa de morada, e do recheio (2103º CC)
“1. Cada um dos cônjuges tem a faculdade de dispor, para depois da morte, dos bens próprios e da sua
meação nos bens comuns, sem prejuízo das restrições impostas por lei em favor dos herdeiros legitimários.”
Quando a qualquer bem próprio, tenho legitimidade para fazer disposições mortis causa, independentemente
desta caracterização particular.
Quanto à meação - eu estando ainda casada, vigorando o regime de comunhão, posso dispor mortis causa da
minha meação dos bens comuns. Contudo, isto é temperado pelo número 2:
“2. A disposição que tenha por objecto coisa certa e determinada do património comum apenas dá ao
contemplado o direito de exigir o respectivo valor em dinheiro.” Nenhum dos cônjuges pode saber, antes da
partilha, que bens em concreto vão integrar a sua meação dos bens comuns.
A regra é que só pode ser exigido o valor em dinheiro, porque nós não sabemos em concreto que bens vão
integrar cada meação, nem sabemos em concreto que bens vão existir – pode existir agora e não existir na
altura, mas há o direito a exigir o respetivo valor em dinheiro. E em espécie? Há, mas apenas nas hipóteses
do número 3 do artigo 1685.º CC:
a) Se esta, por qualquer título, se tiver tornado propriedade exclusiva do disponente à data da sua morte;
b) Se a disposição tiver sido previamente autorizada pelo outro cônjuge por forma autêntica ou no próprio
testamento;
c) Se a disposição tiver sido feita por um dos cônjuges em benefício do outro.”
Vamos falar de um regime especial relativamente ao regime comum. Segundo as regras gerais, aquele que
contrai uma dívida é aquele que se obriga. Isto não acontece necessariamente assim no âmbito do casamento.
Há dívidas que responsabilizam ambos os cônjuges quando apenas um as contraiu. E por dividas da
responsabilidade de um até podem vir a responder bens comuns e por dividas da responsabilidade de ambos
podem vir a responder bens próprios.
Um dos cônjuges pode obrigar o outro por dívidas que ele próprio assumiu, sem se preencherem os
requisitos da gestão de negócios — a dívida ser da responsabilidade de ambos, ainda que não tenha havido
qualquer intervenção do outro. E o património próprio de um dos cônjuges pode vir a ser chamado a
responder por dívidas que são comuns – também aqui uma situação especial e temos de perceber a
justificação da mesma.
Artigo 1690.º CC – este artigo tem uma particularidade, foi o último artigo do CC a fazer referência às
palavras diferenciadas em função do género “marido e mulher” – até 2010. Em tudo o resto, foi eliminado,
mas aqui, continuou.
Apareceu esta redação quando passou a existir o casamento entre pessoas do mesmo sexo. Para contrair
dividas não é necessário o consentimento do outro. “1 - Qualquer dos cônjuges tem legitimidade para
contrair dívidas sem o consentimento do outro.” É relevante o consentimento do outro cônjuge, mas apenas
no âmbito da responsabilidade, não para a legitimidade para contrair a dívida.
O número 2 avança com uma norma importante “Para a determinação da responsabilidade dos cônjuges, as
dívidas por eles contraídas têm a data do facto que lhes deu origem” Temos um dado muito importante para
alguns contextos.
A regra é que as dívidas que são contraídas por um sem o consentimento do outro são da responsabilidade
deste.
Artigo 1691.º, alínea a) “1. São da responsabilidade de ambos os cônjuges: a) As dívidas contraídas, antes
ou depois da celebração do casamento, pelos dois cônjuges, ou por um deles com o consentimento do
outro.” Não há aqui qualquer distinção quanto ao regime de bens. O regime da responsabilidade por dívidas
pode ter uma ou outra regra com um regime diverso quanto à separação de bens, mas não acontece
necessariamente. Pode haver responsabilidade conjunta mesmo no regime da separação de bens.
Tal como nas ilegitimidades conjugais, podemos ter suprimento do consentimento? Não há suprimento
judicial do consentimento, porque este não é exigido.
Alínea a) – dívidas contraídas por ambos, por um ou pelo outro, antes ou depois da celebração do
casamento, desde que com o consentimento do outro.
- Geralmente, classificamos estas despesas como aquelas despesas correntes, periódicas, de pequena
importância, que permitem fazer face aos encargos da vida do casal. Exemplos: água, luz,
supermercados, vestuário, despesas médicas.
- “Despesa de pequena importância” — Ex.: Despesas com os filhos – à partida, diríamos que sim, claro –
mas, por exemplo, se não for pagar a mensalidade do colégio, mas pagar o curso de línguas durante um
mês, em Nova Iorque. É despesa com a educação do filho. É um encargo normal da vida familiar? Pode
ser ou não ser, depende do padrão de vida dos cônjuges. Aqui, o padrão de vida dos cônjuges é
relevante.
Ex.: Uma operação estética pode ser um encargo normal na vida familiar? Vai sempre depender da
avaliação em concreto das despesas e do padrão de vida do casal.
Estas dívidas contraídas responsabilizam ambos os cônjuges. Vamos lembrar-nos desta alínea na união de
facto.
Alínea c) “As dívidas contraídas na constância do matrimónio (art. 1690º/2) pelo cônjuge administrador, em
proveito comum do casal e nos limites dos seus poderes de administração, em proveito comum do casal” – já
não abrange dívidas contraídas antes do casamento, só na constância do matrimónio. Temos aqui dividas
relacionadas com bens cujo cônjuge que contraiu as dividas tenha administração.
No nosso caso prático da aula prática tínhamos um cônjuge que tinha entrado na administração da Quinta –
realizou uma série de obras – até acabamos por perceber que devia ser responsabilizado por isso – contraiu
dividas. É necessário determinarmos se estas dividas responsabilizam ou não ambos os cônjuges. Desde
logo, caía a possibilidade de responsabilizar ambos porque o cônjuge não tinha poderes de administração.
Tem de ter poderes de administração – tem de ser contraída a dívida em proveito comum do casal. Isto é
um conceito que requer uma densificação, não há aqui a definição do que é o proveito comum do casal.
A doutrina já pensou muito sobre este conceito. Pistas de avaliação que nos foram trazidas pela doutrina:
(nº3) o proveito comum do casal não se presume, exceto nos casos previstos na lei – se a lei diz que há
proveito comum. Se não se presume, quem é que tem de fazer a prova do proveito comum?
- Os credores que têm interesse – o património que responde pela divida de responsabilidade de ambos é
mais amplo do que se a responsabilidade for de um;
- também o pode fazer o cônjuge que não quer ter responsabilidade exclusiva – para não responder em
primeira linha o seu património comum.
Se tem de ser provado, temos de saber o que vamos provar. O proveito comum não se vai aferir pelo
resultado, mas vai aferir-se pelo fim visado.
Exemplo 1: Imaginemos a seguinte situação: A e B são criadores de cavalos e um contrai uma dívida para
adquirir um cavalo. O cavalo sofre uma lesão na pata e, portanto, aqueles prémios que iria ter acabam por
não se concretizar. Havia ali um proveito económico à vista – dados que nos apontavam nesse sentido, para
ambos os cônjuges. O resultado não foi esse, mas o proveito comum afere-se pelo fim visado e não pelo
resultado.
Dívida contraída para a aquisição do cavalo – se não havia qualquer dado no sentido de achar que ia ter
algum sucesso – era muito bonito, mas era velho, tinha sofrido lesões anteriores, o cônjuge que tinha
contraído a dívida para o adquirir achou que ia recuperar – qualquer pessoa que percebesse minimamente do
assunto sabia que era um péssimo investimento. Avaliada segundo o padrão da pessoa média, aquela divida
não podia ser entendida em proveito comum do casal.
Neste caso, o interesse não era económico, o proveito comum pode ter também uma natureza estrutural, uma
natureza intelectual, pode ser de ordem moral, económica, (…) — pode haver a aquisição de um bem para
proveito comum, não para proveito económico, mas pela alegria que dá àqueles cônjuges.
Ademais, esta avaliação não é puramente subjetiva, tem de haver uma intenção objetiva de proveito
comum. Temos de avaliar tudo isto que vimos até agora em função de um padrão objetivo – não só da
intenção subjetiva daquele que contrai a divida, mas também em função do padrão da pessoa média
(objetividade).
Nos casos práticos temos de perceber se a dívida é contraída no âmbito da administração do bem, se o
consegue era administrador, etc.
Alínea d) “As dívidas contraídas por qualquer dos cônjuges no exercício do comércio, salvo se se provar
que não foram contraídas em proveito comum do casal ou se vigorar entre os cônjuges o regime de
separação de bens”
A regra é que as dívidas comerciais responsabilizam ambos, aqui o legislador quis favorecer a tutela do
comércio, quis favorecer a obtenção de crédito para exercício do comércio e dar uma nota aos credores de
que têm património mais amplo para satisfazerem o seu crédito.
Aqui vamos ter uma distinção em função de regime de bens. Temos regras diferentes relativamente a
responsabilidade por dívidas, consoante estejamos perante regimes de separação ou de comunhão.
Nos casos de comunhão tem de se afastar a comunicabilidade da dívida provando a ausência de proveito
comum. No regime da separação é do próprio regime que resulta o afastamento da comunicabilidade.
Princípio da imutabilidade – um cônjuge que decide iniciar esta atividade comercial durante a constância
do casamento não vai poder mudar o regime de bens, vai ter de responsabilizar o outro cônjuge.
Estando casados num regime de comunhão, é possível afastar esta responsabilidade? É, tem de se
demonstrar que não houve proveito comum do casal – tem de se provar que não foi contraída no exercício
do comércio, senão, funciona a presunção do artigo 15.º CCom.
Imagine-se que temos um cônjuge que é galerista e contrai uma dívida para adquirir uma obra de arte. Mas
não foi para integrar na sua galeria, foi para seu próprio proveito pessoal ou para oferecer a alguém. Aí,
podemos encontrar o cônjuge não comerciante a provar a ausência de proveito comum – não foi no exercício
do comércio.
Alínea e) “As dívidas consideradas comunicáveis nos termos do n.º 2 do artigo 1693.º” – qual é o regime
em que estas forças integram o património comum? Regime da comunhão geral ou algum regime misto.
“2. Porém, se por força do regime de bens adoptado, os bens doados, herdados ou legados ingressarem no
património comum, a responsabilidade pelas dívidas é comum, sem prejuízo do direito que tem o cônjuge do
aceitante de impugnar o seu cumprimento com o fundamento de que o valor dos bens não é suficiente para a
satisfação dos encargos.”
Podemos ligar isto à necessidade de consentimento para aceitar ou repudiar heranças ou legados. A
responsabilidade é limitada ao valor destes bens.
Vejamos agora outra hipótese de dívida contraída em proveito comum do casal, mas que responsabiliza
mais amplamente ambos os cônjuges:
Artigo 1691º/2 “2. No regime da comunhão geral de bens, são ainda comunicáveis as dívidas contraídas
antes do casamento por qualquer dos cônjuges, em proveito comum do casal.”
Casam-se no regime da comunhão geral – vai tudo, com as exceções que nós sabemos, integrar o património
comum. Se fosse só da responsabilidade do cônjuge que contraiu, vemos que pelas dívidas de
responsabilidade de um responde apenas o património próprio desse cônjuge e a meação do património
comum. A realidade do casamento justifica que ambos sejam responsabilizados por dívidas que apenas um
contraiu se temos uma série de circunstâncias que o legislador valora no sentido de justificar que a
responsabilidade pese por ambos. Esta valoração tem em conta não só o interesse dos cônjuges, mas também
terceiros – os credores.
Artigo 1694.º CC “1. As dívidas que onerem bens comuns são sempre da responsabilidade comum dos
cônjuges, quer se tenham vencido antes, quer depois da comunicação dos bens”. — Dívidas que oneram
bens comuns, encargos. Por exemplo, impostos relativamente à propriedade vão ser da responsabilidade de
ambos os cônjuges.
“2. As dívidas que onerem bens próprios de um dos cônjuges são da sua exclusiva responsabilidade, salvo se
tiverem como causa a percepção dos respectivos rendimentos e estes, por força do regime aplicável, forem
considerados comuns.”
Imagine-se que temos um casal, casados no regime da comunhão de adquiridos – um deles é proprietário de
um bem imóvel, um apartamento, que levou para o casamento, logo, mantém a qualidade de bem próprio. Dá
de arrendamento o apartamento – os frutos que recebe (a renda) são bens comuns. Agora tem dívidas fiscais.
As dívidas que oneram bens próprios dos cônjuges são da sua exclusiva responsabilidade, salvo se tiverem
como causa a perceção dos respetivos rendimentos – há impostos sobre os rendimentos deste imóvel que foi
dado de arrendamento. Estas dívidas vão ser da responsabilidade de ambos os cônjuges.
Já sabemos que dividas são da responsabilidade de ambos os cônjuges, ainda que apenas um deles as tenha
contraído. Que bens vão responder por estas dívidas da responsabilidade de ambos os cônjuges?
Vamos encontrar bens que respondem pelas dívidas comuns – artigo 1695.º CC – bens comuns do casal e,
na falta ou insuficiência destes, bens próprios de cada um dos cônjuges – vão responder os bens próprios
de cada um dos cônjuges solidariamente. O credor pode simplesmente procurar satisfazer o seu crédito junto
de qualquer um dos cônjuges solidariamente e este terá um direito de regresso em relação ao outro, mas cada
um deles pode ser mandado isoladamente.
Exemplo: A contrai uma dívida relativa a encargos da vida familiar, é da responsabilidade de ambos – vem
agora o credor que pretende satisfazer o seu crédito. Vai, em primeiro lugar, atacar o património comum. Só
se não houver património comum suficiente para satisfazer o seu crédito é que pode atacar o património
comum. Não precisa de recorrer primeiro ao cônjuge que contraiu a dívida nem pedir exatamente metade a
cada um dos cônjuges. Pode exigir tudo a um dos cônjuges – a responsabilidade é solidária – sem prejuízo de
haver direito de regresso.
Artigo 524.º CC “O devedor que satisfizer o direito do credor além da parte que lhe competir tem direito de
regresso contra cada um dos condevedores, na parte que a estes compete.” O credor pode exigir o
pagamento da totalidade da divida a um dos cônjuges, estes respondem solidariamente, mas, o outro cônjuge
vai ter direito de regresso.
Quando é que isto vai acontecer? No momento da partilha dos bens do casal – o artigo 1689.º fala-nos da
partilha.
Apesar da nossa primeira afirmação – de que no regime da separação de bens o legislador quer tratar os
cônjuges como se fossem estranhos do ponto de vista patrimonial – podemos afastar isto no regime da
responsabilidade por dívidas. Em alguns casos, ainda que casados num regime de separação de bens, podem
ser ambos responsabilizados pela dívida.
A regra seria cada um responder por metade. Mas temos de nos lembrar dos deveres conjugais:
Deveres conjugais – ou obrigação de alimentos, ou encargos da vida familiar – as duas vertentes do dever de
assistência – artigo 1676.º CC “1- O dever de contribuir para os encargos da vida familiar incumbe a
ambos os cônjuges, de harmonia com as possibilidades de cada um (…)” Nem todas as dívidas da
responsabilidade de ambos os cônjuges, relativamente a elas não podemos aceitar uma responsabilidade
igual. Quanto a estas, dos encargos da vida familiar, temos este artigo.
Se eu contraio uma dívida sem o consentimento do outro cônjuge e não estamos perante uma das
exceções, então, a divida é da minha exclusiva responsabilidade. A regra é que se eu contraio uma divida,
não tenho o consentimento do meu cônjuge nem circunstâncias que justifiquem que se estenda a
responsabilidade, a divida seja da minha exclusiva responsabilidade - artigo 1692.º CC.
Artigo 1692.º, alínea b) “As dívidas provenientes de crimes e as indemnizações, restituições, custas judiciais
ou multas devidas por factos imputáveis a cada um dos cônjuges, salvo se esses factos, implicando
responsabilidade meramente civil, estiverem abrangidos pelo disposto nos [Link] 1 ou 2 do artigo anterior;”
— temos uma exceção nesta última parte.
Exemplo em que funciona a exceção: imagine-se que um dos membros do casal contratou uma funcionária
para a prestação de trabalho doméstico – no âmbito do exercício destas funções e obedecendo ordens de um
dos membros do casal, esta pessoa sofre um acidente. Responsabilidade meramente civil e ao abrigo do
contrato que foi celebrado para ocorrer aos encargos normais da vida familiar. Esta será uma dívida da
responsabilidade de ambos os cônjuges.
O artigo 1693.º ainda nos fala de outras dividas da responsabilidade exclusiva de um dos cônjuges:
“1. As dívidas que onerem doações, heranças ou legados são da exclusiva responsabilidade do cônjuge
aceitante, ainda que a aceitação tenha sido efectuada com o consentimento do outro.
2. Porém, se por força do regime de bens adoptado, os bens doados, herdados ou legados ingressarem no
património comum, a responsabilidade pelas dívidas é comum, sem prejuízo do direito que tem o cônjuge do
aceitante de impugnar o seu cumprimento com o fundamento de que o valor dos bens não é suficiente para a
satisfação dos encargos.”
Por fim, artigo 1694.º/2 CC “2. As dívidas que onerem bens próprios de um dos cônjuges são da sua
exclusiva responsabilidade, salvo se tiverem como causa a percepção dos respectivos rendimentos e estes,
por força do regime aplicável, forem considerados comuns.”
3.5. Bens que respondem pelas dívidas de exclusiva responsabilidade de um dos cônjuges
Artigo 1696.º CC “1 - Pelas dívidas da exclusiva responsabilidade de um dos cônjuges respondem os bens
próprios do cônjuge devedor e, subsidiariamente, a sua meação nos bens comuns.”
Agora, torna-se mais claro como é preferível para o credor que uma dívida seja da responsabilidade de
ambos os cônjuges. Se for da responsabilidade de ambos, responde todo o património comum e, na falta ou
“2. Respondem, todavia, ao mesmo tempo que os bens próprios do cônjuge devedor: a) Os bens por ele
levados para o casal ou posteriormente adquiridos a título gratuito, bem como os respectivos rendimentos;
b) O produto do trabalho e os direitos de autor do cônjuge devedor; c) Os bens sub-rogados no lugar dos
referidos na alínea a).”
Se respondem estes bens ao mesmo tempo que os bens próprios do cônjuge responsável, não há
subsidiariedade. Há bens aqui que podem ser comuns e podem responder ao lado dos bens próprios, podem
até ser penhorados antes dos bens próprios. O bem continua a ser comum, mas para aquele credor, em função
das suas expectativas, responde ao mesmo tempo.
Art. 1697º/1 CC: “Quando por dívidas da responsabilidade de ambos os cônjuges tenham respondido bens
de um só deles, este torna-se credor do outro pelo que haja satisfeito além do que lhe competia satisfazer;
mas este crédito só é exigível no momento da partilha dos bens do casal, a não ser que vigore o regime da
separação.”
Aqui responderam bens de apenas um dos cônjuges: Para isto acontecer basta que não haja no património
comum bens suficientes para saldar a dívida.
Esse cônjuge torna-se credor do outro pelo que haja satisfeito além do que lhe competia satisfazer. Mas este
crédito só é exigível no momento da partilha.
Art. 1697º/2 CC: “Sempre que por dívidas da exclusiva responsabilidade de um só dos cônjuges tenham
respondido bens comuns, é a respectiva importância levada a crédito do património comum no momento da
partilha.”
Artigos 740.º e ss. CPC “1 - Quando, em execução movida contra um só dos cônjuges, forem penhorados
bens comuns do casal, por não se conhecerem bens suficientes próprios do executado, é o cônjuge do
executado citado para, no prazo de 20 dias, requerer a separação de bens ou juntar certidão comprovativa
da pendência de ação em que a separação já tenha sido requerida, sob pena de a execução prosseguir sobre
os bens comuns.”
A execução é movida contra um, mas são penhorados bens comuns do casal – neste caso, o cônjuge do
executado vai ser citado para requerer a separação de bens. A execução fica suspensa até à partilha e se por
esta os bens penhorados não couberem ao executado, podem ser penhorados outros.
É uma dívida da responsabilidade de um dos cônjuges – a execução é movida contra um dos cônjuges –
respondem, em primeira linha, os seus bens próprios – em segunda linha, os bens comuns – o outro cônjuge
é citado para haver partilha. A execução fica suspensa para que se faça a partilha. Aquele bem não integra a
meação do cônjuge executado – então, vão ser executados outros bens – bens que integrem a sua meação.
Artigo 741.º CC- incidente de incomunicabilidade suscitado pelo exequente: Quando, em execução movida
contra um só dos cônjuges, forem penhorados bens comuns do casal, por não se conhecerem bens suficientes
próprios do executado, é o cônjuge do executado citado para, no prazo de 20 dias, requerer a separação de
bens ou juntar certidão comprovativa da pendência de ação em que a separação já tenha sido requerida, sob
pena de a execução prosseguir sobre os bens comuns.
Artigo 742.º CC - incidente de incomunicabilidade suscitado pelo executado. Ao credor, interessa que a
dívida seja considerada comum.
Mas o artigo 741.º CPC diz-nos “1 - Movida execução apenas contra um dos cônjuges, o exequente pode
alegar fundamentadamente que a dívida, constante de título diverso de sentença, é comum; a alegação pode
ter lugar no requerimento executivo ou até ao início das diligências para venda ou adjudicação, devendo,
O mesmo acontece no artigo 742.º CPC “1- Movida execução apenas contra um dos cônjuges e penhorados
bens próprios do executado, pode este, na oposição à penhora, alegar fundamentadamente que a dívida,
constante de título diverso de sentença, é comum, especificando logo quais os bens comuns que podem ser
penhorados, caso em que o cônjuge não executado é citado nos termos e para os efeitos do n.º 2 do artigo
anterior.”
O executado é o cônjuge. Se a divida é própria, em primeiro lugar vão ser executados os bens próprios. E só
depois a meação dos bens comuns. O executado vem dizer que é uma divida comum – executem-se em
primeiro lugar os bens comuns e só depois, na falta ou insuficiência destes, os bens próprios.
Afloramos esta matéria quando tratamos do princípio da imutabilidade. Há uma diferente arrumação destas
matérias consoante adotemos a conceção mais ampla ou mais restrita deste princípio.
“1. Fora dos casos previstos na lei, não é permitido alterar, depois da celebração do casamento, nem as
convenções antenupciais nem os regimes de bens legalmente fixados. 2. Consideram-se abrangidos pelas
proibições do número anterior os contratos de compra e venda e sociedade entre os cônjuges, excepto
quando estes se encontrem separados judicialmente de pessoas e bens.”
Há uma restrição à possibilidade de celebrar determinados contratos. São proibidos, desde logo, os contratos
de sociedade entre os cônjuges. (A Dra. adota a posição restrita).
A situação de separação judicial de pessoas e bens é, aqui, equiparável a dissolução do casamento e divórcio.
“3. É lícita, contudo, a participação dos dois cônjuges na mesma sociedade de capitais, bem como a dação
em cumprimento feita pelo cônjuge devedor ao seu consorte.”
Remissão para o artigo 8.º do Código das Sociedades Comerciais. “1 - É permitida a constituição de
sociedades entre cônjuges, bem como a participação destes em sociedades, desde que só um deles assuma
responsabilidade ilimitada.”
Conseguimos perceber os efeitos do contrato de compra e venda entre cônjuges em termos de alteração das
massas patrimoniais. O legislador quis evitar uma verdadeira doação, pelo princípio da livre revogabilidade,
que rege as doações (ver a seguir).
Determinante é a regra que vamos encontrar relativamente às doações entre cônjuges – a da livre
revogabilidade. Os contratos de compra e venda podiam ser celebrados entre os cônjuges para haver uma
transação desta propriedade que estivesse furtada à livre revogabilidade das doações. Teríamos, formalmente,
uma compra e venda, mas, na verdade, uma doação irrevogável.
Temos outros com regimes dúbios. Não são proibidos, mas colocam problemas.
Doações entre cônjuges – artigo 1761.º e ss. até ao 1766.º - regras especiais – mas também as regras gerais
do artigo 940.º e ss.
Há uma proibição – que se liga a uma matéria que já estudámos aqui – é uma restrição à autonomia dos
cônjuges:
- Há uma situação em que a doação entre casados é nula – artigo 1762.º CC – é aquela em que vigora
imperativamente um regime de separação de bens – casos do artigo 1720.º CC - quando não houver
precedência do processo preliminar ou quando um dos cônjuges tiver mais de 60 anos. Em ambos os casos
o legislador quer evitar situações de aproveitamento patrimonial — para que não se concerne isto,
estabeleceu-se este regime.
Artigo 947.º CC “1 - Sem prejuízo do disposto em lei especial, a doação de coisas imóveis só é válida se for
celebrada por escritura pública ou por documento particular autenticado. 2 - A doação de coisas móveis
não depende de formalidade alguma externa, quando acompanhada de tradição da coisa doada; não sendo
acompanhada de tradição da coisa, só pode ser feita por escrito.” Este é o regime geral, mas isto não é
possível no âmbito do casamento.
No seio do casamento não pode bastar a tradição da coisa doada, a tradição da coisa não constitui uma
aparência suficiente. As pessoas vivem juntas – aquela exteriorização que nos é dada pela tradição da coisa
doada não existe o casamento, estamos dentro da mesma casa. Então, diz-nos o artigo 1763.º CC “1 - A
doação de coisas móveis, ainda que acompanhada da tradição da coisa, deve constar de documento
escrito.”
“2 - Os cônjuges não podem fazer doações recíprocas no mesmo acto.” – Isto para manter a independência,
Isto mantém, preserva, a livre revogabilidade, que podia ficar obscurecida se tivéssemos doações no mesmo
ato.
Exceção: nº3 - “O disposto no número anterior não é aplicável às reservas de usufruto nem às rendas
vitalícias a favor do sobrevivente, estipuladas, umas e outras, em doação dos cônjuges a terceiro.”
Art. 1764º CC— Só podem ser doados bens próprios do doador. Não há doação de bens comuns. Ainda
que o regime seja um regime tão comunitarista que faça com que os bens doados integrem o património
comum, nem assim há comunicabilidade. Imagine-se que estamos perante o regime da comunhão geral -
temos um bem próprio que pode ser doado quando se trate dos bens incomunicáveis - vai reverter para o
património próprio do cônjuge a quem doou.
Livre revogabilidade:
A característica central do regime da doação entre os cônjuges é a da livre revogabilidade – artigo 1765.º
CC – no regime geral das doações, é possível revogar as doações, mas essa revogabilidade não é livre. Tem
de haver ingratidão do donatário – artigo 970.º CC.
Entre cônjuges, há livre revogabilidade. “1. As doações entre casados podem a todo o tempo ser revogadas
pelo doador, sem que lhe seja lícito renunciar a este direito. 2. A faculdade de revogação não se transmite
aos herdeiros do doador.”
Estas doações podem ser revogadas sem que estejam limitadas pelos constrangimentos do art. 974º CC.
Para além disso, as doações entre casados podem ser revogadas a todo o tempo e isso significa que apesar de
o nº 2 dizer que a possibilidade de revogação não se transmite aos herdeiros do doador, ele pode revogar a
todo o tempo e até depois da morte do donatário. Portanto, esta livre revogabilidade é muitíssimo ampla.
Artigo 1766.º CC “1. A doação entre casados caduca: a) Falecendo o donatário antes do doador, salvo se
este confirmar a doação nos três meses subsequentes à morte daquele; b) Se o casamento vier a ser
declarado nulo ou anulado, sem prejuízo do disposto em matéria de casamento putativo; c) Ocorrendo
divórcio ou separação judicial de pessoas e bens por culpa do donatário, se este for considerado único ou
principal culpado. 2. A confirmação a que se refere a alínea a) do número anterior deve revestir a forma
exigida para a doação.”
Alínea b) - Os requisitos do casamento putativo estão no art. 1647º CC — Mesmo quando o casamento tiver
sido anulado ou declarado nulo, se tiver sido realizado de boa fé de ambos, preservam-se os efeitos, quer
relativamente aos cônjuges quer quanto a terceiros. Se estivermos perante uma boa fé apenas de um dos
cônjuges só se produzem os efeitos favoráveis a esse cônjuge.
Problema: O conteúdo da alínea c) é inaplicável por não haver lugar para a consideração e graduação das
culpas no divórcio ou na separação judicial de pessoas e bens, uma vez que, com a Reforma de 2008, deixou
de ser considerada a culpa dos cônjuges para efeitos de divórcio, separação judicial de pessoas e bens e as
suas consequências. Então nestes casos olhamos para art 1791º - ou seja, riscamos a aliena c) do Art 1647º e
fazemos remissão pra o 1791º, em que temos a consequência em caso de divórcio relativamente a estas
doações.
Agora vamos ver outra situação que, no fundo, é um parêntesis, porque vamos retroceder para um momento
anterior ao casamento — as doações para casamento: que são doações entre esposados/nubentes/noivos e
também de terceiros aos esposados.
Olhemos para o art. 1753º CC, que nos dá esta ideia de que a doação para casamento é feita a um dos
esposados ou a ambos, tendo em vista o casamento, portanto tendo em vista o casamento é um factor
essencial na caracterização das doações para casamento e o casamento é verdadeiramente uma condição
legal suspensiva desta doação — só produz efeitos depois da celebração do casamento.
Estas doações podem ter por objeto bens presentes ou bens futuros, porque podemos estar perante doações
intervivos, mas também podemos estar perante outra categoria que são as doações mortis causa e estas vão
poder ter por objeto quer bens presentes certos e determinados, quer a herança futura (parte ou a totalidade
da herança), porque, na verdade, o momento relevante relativamente a estas sucessões mortis causa vai ser o
momento da morte do doador.
Exigências de forma para estas doações — já as mencionámos quando falamos das convenções
antenupciais:
Quando falamos do princípio da liberdade – artigo 1698.º - avançamos para as restrições do artigo 1699.º
e vimos que “1. Não podem ser objecto de convenção antenupcial: a) A regulamentação da sucessão
hereditária dos cônjuges ou de terceiro, salvo o disposto nos artigos seguintes” – há matérias que fogem a
esta limitação do ponto de vista sucessório. Estas doações vão ter lugar em convenção antenupcial:
Então e se os nubentes quiserem fazer uma doação para casamento, mas não quiserem escolher um regime
de bens diferente do supletivo, podemos dizer que não estamos perante uma convenção antenupcial? Na
verdade estamos, estamos perante um acordo anterior ao casamento e que tem por causa o casamento e,
então, ainda que não haja a escolha do regime de bens, podemos ter uma convenção antenupcial que é
celebrada precisamente para fazer uma doação para o casamento
2. A inobservância do disposto no número anterior importa, quanto às doações por morte, a sua nulidade,
sem prejuízo do disposto no n.º 2 do artigo 946.º, e, quanto às doações em vida, a inaplicabilidade do regime
especial desta secção.” Nº 2 do artigo 946.º CC “2. Será, porém, havida como disposição testamenteira a
doação que houver de produzir os seus efeitos por morte do doador, se tiverem sido observadas as
formalidades dos testamentos.”
Temos um regime especial de caducidade quanto a estas doações, que não se vai afastar assim tanto da
caducidade das doações entre os cônjuges, diz o art 1760º:
“1. As doações para casamento caducam: a) Se o casamento não for celebrado dentro de um ano, ou se,
tendo-o sido, vier a ser declarado nulo ou anulado, salvo o disposto em matéria de casamento putativo;”
Vimos que o casamento é condição legal suspensiva da produção de efeitos desta doação e, por isso, se não
for celebrado dentro de um ano, esta doação caduca.
Esta exigência de 1 ano para a celebração de casamento é sistematicamente coerente com a própria
caducidade da convenção antenupcial em caso de não celebração do casamento no prazo de 1 ano.
Para alem disso também diz “se o casamento é declarado nulo ou anulado”, mas os efeitos são retroativos,
logo também vão afetar as doações para casamento, tudo isto é verdade, a não ser que funcione o regime do
casamento putativo, porque se funcionar vamos ver preservada esta doação, se ambos estavam de boa fé ou
se o donatário era o cônjuge de boa fé.
“b) se ocorrer divórcio ou separação judicial de pessoas e bens por culpa do donatário, se este for
considerado único ou principal culpado.”
E temos outra vez uma alínea b), que fala da culpa e já sabemos que relativamente a isto temos um caso de
revogação tácita.
Também aqui é o art. 1791º que releva: “… se a estipulação for anterior á celebração do casamento” isto é
um caso destes, estamos a falar de doações entre esposados e não entre cônjuges e, por isso, também se
aplica aqui este regime.
Art 1760º CC — remissão para o art. 1703º CC, que trata da caducidade dos factos sucessórios, porque para
além da causa do art. 1760/a) (porque a b) foi tacitamente revogada) também encontramos no art. 1703º a
pré-morte do donatário:
Art 1703º: “1. A instituição e o legado contratuais em favor de qualquer dos esposados caducam não só nos
casos previstos no artigo 1760.º, mas ainda no caso de o donatário falecer antes do doador.”
Exceção: “2. Se, porém, a doação por morte for feita por terceiro, não caduca pelo predecesso do
donatário, quando ao doador sobrevivam descendentes legítimos daquele, nascidos do casamento, os quais
serão chamados a suceder nos bens doados, em lugar do donatário.”
• O caso da alínea a) do 1760º - o casamento não é celebrado no prazo de 1 ano porque estamos perante uma
condição legal de celebração do casamento.
Exceção: a doação por morte foi feita por terceiro a um dos esposados e não existe caducidade no caso de
pré-morte do donatário, quando sobrevivam descendentes legítimos daquele, nascidos do casamento os
quais serão chamados a suceder nos bens doados, em lugar do donatário (é o artigo).
Exemplo: imagine-se que temos uma doação feita em convenção antenupcial por um tio a um dos
esposados — é uma doação que é feita tendo em vista o casamento e, portanto, está sujeita a este regime
especial. A regra seria a de que a pré-morte do donatário relativamente ao doador faria caducar esta
doação, mas a exceção que pode funcionar é o caso de ter havido pré-morte, aquele sobrinho faleceu antes
do doador (tio) e sobreviveram descendentes legítimos do casamento e esses é que vão ser chamados a
suceder
Não é incomum um contrato de trabalho entre cônjuges. Não faria sentido proibir estes contratos, até porque
isto geraria uma desproteção destas situações — temos de admitir o contrato de trabalho, porque significa
uma proteção ao nível das regras do contrato de trabalho, da proteção da segurança social, etc.
Ex.: licenças de paternidade e maternidade, por exemplo - a vida familiar entra na vida profissional; também
o facto de existir uma relação de supra/infra ordenação do sentido de o trabalhador ter de acatar ordens do
empregador, não poder ser transportado para o âmbito da vida doméstica.
Apesar da admissibilidade destes contratos, o funcionamento do regime de bens pode por-nos questões
particulares.
Vamos encerrar a parte do direito patrimonial através de uma revisitação da partilha porque no direito da
família e dos menores tbm se deu um pouco de direito patrimonial da família para perceber os efeitos do
divórcio
Vamos falar da partilha e podemos falar da partilha em termos mais genéricos, porque a partilha não é apenas
um efeito do divórcio e, portanto, vamos falar da partilha em todas as suas dimensões (inclusive em regimes
de comunhão).
Por isso temos partilha em casos em que o casamento se extingue e casos em que o casamento não se
extingue.
Quanto à dissolução do casamento, quer por divórcio ou morte, temos uma regra – o art. 1788º CC diz
que o casamento se dissolve por morte ou por divórcio e que o divórcio tem os mesmos efeitos jurídicos da
dissolução por morte, mas com exceções — e também aqui na partilha vamos ter exceções.
Por exemplo, no caso de divórcio, na partilha, é importante atentar ao art. 1789º CC que fala das datas em
que se produzem os efeitos do divórcio:
Se eu recebi um prémio já depois de intentada a ação do divórcio, embora ainda não houvesse dissolução do
casamento, para efeitos patrimoniais aquele prémio profissional já não vai integrar o património comum, não
vai ser objeto de partilha.
E mais: se a separação de facto estiver provada no processo, os efeitos podem retrotrair à data em que a
sentença tenha provado que a separação de facto se iniciou. Ex.: eu intentei a ação de divórcio em janeiro de
2024, mas estou separado desde fevereiro de 2022, isto significa que, para estes efeitos do prémio
profissional recebido em março de 2023, estes efeitos vão retrotrair-se à data em que começou a separação de
facto e, por isso, isto não vai integrar o património comum.
Operações de partilha:
Artigo 1688.º CC “As relações pessoais e patrimoniais entre os cônjuges cessam pela dissolução,
declaração de nulidade ou anulação do casamento (…)”.
Artigo 1689.º CC “1. Cessando as relações patrimoniais entre os cônjuges, estes ou os seus herdeiros
recebem os seus bens próprios e a sua meação no património comum, conferindo cada um deles o que
dever a este património. 2. Havendo passivo a liquidar, são pagas em primeiro lugar as dívidas
comunicáveis até ao valor do património comum, e só depois as restantes. 3. Os créditos de cada um dos
cônjuges sobre o outro são pagos pela meação do cônjuge devedor no património comum; mas, não
existindo bens comuns, ou sendo estes insuficientes, respondem os bens próprios do cônjuge devedor.”
Há aqui três operações da partilha que estão individualizadas no artigo 1689.º CC e a forma como se faz a
liquidação do património. Se há cessação das relações patrimoniais entre os cônjuges, o que nós temos de
saber é qual vai ser a divisão dos bens.
Temos partilha quando há um regime de comunhão, seja ele qual for. Não há partilha no regime de
separação de bens. O que queremos saber é, no final, que bens é que integram cada uma das meações. Para
isso precisamos de saber o que é que integra o património próprio de cada um dos cônjuges. Só o que
não estiver aí é que vai ser objeto da partilha.
Nº1: A primeira operação da partilha vai ser a separação dos bens que integram o património próprio
de cada um.
Então esta primeira operação de separação dos bens próprios, é uma operação em que se expurga património
comum destes bens próprios para que depois as outras operações incidam sobre o património comum, ou seja
a partilha em sentido estrito/propriamente dita incida sobre o património comum.
Há casos problemáticos, por exemplo, os casos de sub-rogação com bens adquiridos em parte com
património próprio e outra parte com património comum. São questões que temos que resolver para dizer se
o bem é próprio ou comum.
Isto pode ter muita importância – desde logo, a importância de reequilibrar os vários patrimónios – é
proceder à liquidação do património comum. Pode ser necessária a compensação dos patrimónios que, na
falta desta, ficariam empobrecidos (art. 1726º/2 vimos acima).
Há outras operações relativas à liquidação – existia uma dívida da responsabilidade de ambos e apenas o
património de um respondeu por esta dívida – artigo 1697.º CC “1. Quando por dívidas da responsabilidade
de ambos os cônjuges tenham respondido bens de um só deles, este torna-se credor do outro pelo que haja
satisfeito além do que lhe competia satisfazer; mas este crédito só é exigível no momento da partilha dos
bens do casal, a não ser que vigore o regime da separação.” Se eu paguei a totalidade da divida que era
comum, torno-me credor do outro pela parte que competia ao outro cônjuge pagar.
Vamos proceder ao pagamento das dívidas, entre cônjuges e terceiros - art. o 1689º diz que os créditos entre
os cônjuges são pagos pela meação do cônjuge devedor no património comum e havendo passivo a liquidar,
em primeiro pagam-se as dívidas comuns e depois as próprias. Então determinar o que são dívidas da
responsabilidade de uns e de outros é relevante não só para perceber quais os bens que respondem, mas
também a ordem pela qual respondem no momento da partilha, porque se houver partilha e se proceder ao
pagamento destas dividas relativamente a terceiro, as dívidas comuns têm prioridade face às dívidas da
responsabilidade exclusiva de um dos cônjuges.
Depois, podemos mesmo ter dívidas entre os cônjuges. Também pode haver credores comuns cujos créditos
não foram satisfeitos – este crédito vai ter de ser satisfeito.
Recapitulando:
Nº3: Chegamos à terceira operação – a partilha propriamente dita: (aquela que vai dividir o património
comum que aqui já foi liquidado)
O que está em causa é dividir o património comum – depois de termos determinado o que fica ali. A quanto
é que cada um tem direito? A metade, 50%.
Artigo 1730.º CC “1. Os cônjuges participam por metade no activo e no passivo da comunhão, sendo nula
qualquer estipulação em sentido diverso.”
Para nós chegarmos a esta metade, nós tivemos de saber antes que regime de bens é que se aplica. A regra é
que a partilha se faz segundo o regime de bens convencionado.
Segundo o art. 1719º CC, é permitido aos esposados convencionar para a dissolução do casamento por
morte, quando haja descendentes comuns, que a partilha se faça segundo o regime da comunhão geral seja
qual for o regime adotado — por isso temos uma exceção a esta regra de que a partilha se faz segundo o
regime convencionado, mas claro que isto consta em convenção antenupcial e por isso não fere o principio
da imutabilidade do regime de bens — o que se diz é que se foi regime pela comunhão de adquiridos durante
toda a vida, o regime que vai presidir á partilha é o regime da comunhão geral.
NOTA: Quando falamos em partilha por morte, não estamos a falar já de partilha sucessória. Nós temos dois
momentos de partilha — se o de cuius era casado em regime de comunhão: Temos previamente a partilha
conjugal e só depois a partilha hereditária, porque num primeiro momento o que tem que se fazer é
determinar qual é a herança do de cuius e a herança não é a totalidade de bens comuns, são só os bens
próprios e a meação dos bens comuns, o que quer dizer que temos que proceder antes da partilha conjugal a
divisão desta meação do de cuius que vai integrar a herança. Este 1719º afasta esta regra – é uma exceção.
Depois, no caso de divórcio – e só no caso de divórcio – acontece o previsto no artigo 1790.º CC “Em caso
de divórcio, nenhum dos cônjuges pode na partilha receber mais do que receberia se o casamento tivesse
sido celebrado segundo o regime da comunhão de adquiridos.”
Antes de 2008, este artigo dizia que em caso de divórcio, o cônjuge considerado único ou principal culpado
não podia receber mais do que o que receberia segundo o regime da comunhão de adquiridos – o propósito
era evitar que os cônjuges casados num regime mais comunitarista do que a comunhão de adquiridos - e se
tivesse sido o cônjuge inocente a levar mais para o casamento – o cônjuge culpado não levasse mais do que
se valesse o regime da comunhão de adquiridos. Isto só funcionava em situações muito restritas: situações
em que o regime escolhido tivesse sido o da comunhão geral, ou um regime mais comunitarista do que o da
comunhão de adquiridos e em que o cônjuge que tinha levado mais para o casamento, ou que tinha adquirido
mais a titulo gratuito fosse o cônjuge inocente, porque só aí e que, aplicando as regras da comunhão de
adquiridos, o outro cônjuge deixava de receber estes bens, ou seja de aceder pela partilha do património
comum a estes bens que tinham sido levados para o casamento ou adquiridos de forma gratuita na constância
do casamento pelo cônjuge inocente.
Em 2008 deixa de haver divórcio com base na culpa — deixa de haver declaração de culpa, deixa de
haver um cônjuge único ou principal culpado e um cônjuge inocente — e deixa de haver um conjunto de
sanções patrimoniais associadas à declaração de culpa, o que significa que a lógica deste artigo teve que
mudar: ou era simplesmente eliminado (fazia-se sempre a partilha segundo o regime de bens escolhido pelos
cônjuges); mas o legislador resolveu que o casamento não podia ser um meio de adquirir, ou seja, aquilo
que deve ser partilhado é o que resulta do esforço comum dos cônjuges. E nós sabemos o regime que traduz
esta ideia de que o que integra o património comum é o que resulta do esforço dos cônjuges é o regime da
comunhão de adquiridos.
Então o legislador diz que o casamento não pode ser um meio de adquirir e não interessa quem é culpado ou
quem é inocente. O legislador optou por dizer que se o casamento se dissolve por divórcio, então se os
cônjuges tinham escolhido um regime mais comunitarista do que o regime da comunhão de adquiridos, a
dissolução por esta via justifica que não se faça esta partilha que seria mais generosa, eventualmente,
para um deles. Porque o casamento não pode ser um meio para enriquecer. Portanto, nenhum dos
cônjuges pode receber mais do que o que receberia segundo um regime da comunhão de adquiridos. É uma
questão de valor.
A posição da Doutora sobre isto é que o que está aqui em causa é uma questão de valor:
• Lemos o art 1790º CC e vimos que nenhum dos cônjuge pode na partilha receber mais do que receberia
segundo a comunhão de adquiridos, não se trata de determinar a titularidade de bens segundo a comunhão
de adquiridos, trata-se de comparar o valor que os cônjuges receberiam tendo em conta o regime da
comunhão de adquiridos e o que receberiam tendo em conta o regime convencionado — e se no
regime da comunhão geral um recebesse mais do que receberia na comunhão de adquiridos, isso vai ter
que ser tido em conta para garantir aquele valor, mas não se recebe o bem x, y ou z como decorre da
distribuição em função de determinado regime.
1. UNIÃO DE FACTO
Introdução
Já estudamos a natureza da união de facto — (p.e., saber se estamos perante uma relação familiar (para além
da lista do 1576º CC) ou uma relação para-familiar)
A união de facto está regulada na Lei n.º 7/2001, de 11 de maio. Tem adquirido uma relevância crescente no
âmbito social e jurídico.
A primeira lei da união de facto foi de 1999. Passados dois anos foi revogada e substituída por uma nova lei.
Na versão original dizia no artigo 1.º que a presente lei regulava a situação jurídica de duas pessoas,
independentemente do sexo, que vivam em união de facto há mais de 2 anos. As uniões de facto entre
pessoas do mesmo sexo já eram reguladas antes de existir casamento entre pessoas do mesmo sexo. Nesta
versão diz “2 - A união de facto é a situação jurídica de duas pessoas que, independentemente do sexo,
vivam em condições análogas às dos cônjuges há mais de dois anos.” – artigo 1.º - o que é que mudou nesta
reforma dada pela lei n.º 23/2010.
Em 2001, dizia “que vivam em união de facto há mais de 2 anos” – substituiu-se para “vivam em condições
análogas às dos cônjuges há mais de dois anos”. Houve uma explicitação. O legislador veio dizer o que é
viver em união de facto. Antes, não dizia a lei o que era a união de facto.
O que é viver em condições análogas às dos cônjuges?
Esta expressão era a utilizada antes de 2010 pela doutrina para explicar o que era este instituto da união de
facto.
Na união de facto há uma aparência externa de casamento. As pessoas vivem como se fossem casadas.
Este viver em condições análogas às dos cônjuges é corporizado por três elementos – diz-se que há
condições análogas às dos cônjuges quando há comunhão de leito, mesa e habitação.
Vive-se em comunhão de leito porque a união de facto não é uma relação entre duas pessoas que se limitem
a partilhar a mesma casa, os mesmos recursos. Há uma componente de natureza sexual, é uma relação entre
estas pessoas que tem esta componente.
Isto significa que temos aqui uma relação sujeita ao mesmo regime que as relações familiares? Não.
Conhecemos o elenco das relações familiares – casamento, afinidade, adoção, parentesco – não aparece a
união de facto (art. 1576º CC) .
Durante muito tempo, discutiu-se se isto era uma enumeração taxativa. Tem havido uma evolução muito
grande em termos de compreensão legislativa e doutrinária da união de facto. Há duas ou três décadas atrás,
não havia muitos autores a dizer que a UF era uma relação familiar. Os constitucionalistas foram os
primeiros a defender que, ao abrigo do direito a constituir família (artigo 36.º CRP), estávamos perante
uma relação familiar. Dentro do direito civil diziam-nos que era uma relação parafamiliar.
Entretanto, a relação da união de facto começou a tornar-se muito mais relevante do ponto de vista social, da
sua aceitação, mas, principalmente, do ponto de vista legal. Este diploma de 2001 acabou por reunir uma
série de outras disposições que encontrávamos na legislação social, por exemplo.
Temos outras alterações no CC onde vamos encontrar também a referência à união de facto.
Regime de faltas justificadas por morte do familiar – Código do Trabalho – equiparação do membro da união
de facto ao cônjuge, por exemplo. Na lista de quem pode ser acompanhante do maior acompanhado, aparece-
nos o membro da união de facto. Mesmo fora do que é o direito da família, quando há referência a direitos,
muitas vezes o cônjuge aparece equiparado ao membro da união de facto. Isto não quer dizer que há uma
equiparação da união de facto ao casamento.
Desde o início da lei da união de facto, existia uma não equiparação para efeitos da adoção conjunta. Artigo
7.º “Nos termos do atual regime de adoção, constante do livro IV, título IV, do Código Civil, é reconhecido a
todas as pessoas que vivam em união de facto nos termos da presente lei o direito de adoção em condições
análogas às previstas no artigo 1979.º do Código Civil, sem prejuízo das disposições legais respeitantes à
adoção por pessoas não casadas.” - até 2016 manteve-se uma redação do artigo 7.º que excluía a adoção
por casais do mesmo sexo que vivessem em união de facto. A tutela das pessoas do mesmo sexo que
vivessem em união de facto dava-se nos termos gerais, mas excluía-se a adoção conjunta. A alteração foi
feita quer para os casais de pessoas do mesmo sexo casadas, quer para os que vivessem em união de facto.
Desde 2001, continuamos a ter a exigência de dois anos de duração. Há uma ou outra situação em que não se
exige tanto – no estabelecimento da filiação, no âmbito de reconhecimento judicial, há presunções a
funcionar – pessoas que vivem em união de facto no momento da conceção, por exemplo.
Não temos, como temos no casamento, a celebração de um contrato. Não temos uma manifestação de
vontade cristalizada num determinado momento de tempo. Temos uma materialidade que se vai
concretizando e que o legislador considera que agora (depois de dois anos) é relevante – se as pessoas
conviveram consistentemente em comunhão de leito, mesa e habitação durante mais de 2 anos, então, há
união de facto. Agora, é suficientemente relevante a situação de facto para o legislador estabelecer a
proteção.
Há situações em que isto não vai acontecer – artigo 2.º “Impedem a atribuição de direitos ou benefícios, em
vida ou por morte, fundados na união de facto: a) Idade inferior a 18 anos à data do reconhecimento da
união de facto; b) Demência notória, mesmo com intervalos lúcidos e situação de acompanhamento de
maior, se assim se estabelecer na sentença que a haja decretado, salvo se posteriores ao início da união; c)
Casamento não dissolvido, salvo se tiver sido decretada a separação de pessoas e bens; d) Parentesco na
linha recta ou no 2.º grau da linha colateral ou afinidade na linha recta; e) Condenação anterior de uma das
pessoas como autor ou cúmplice por homicídio doloso ainda que não consumado contra o cônjuge do
outro.”
Uma das características da tutela da união de facto é a exclusividade da união de facto. Não há duas uniões
de facto juridicamente tuteladas. Eu tenho um trabalho em duas cidades diferentes, não posso viver em união
de facto com um senhor na cidade X e com outro na cidade Y.
A dissolução união de facto existe quando “1 - A união de facto dissolve-se: a) Com o falecimento de um
dos membros; b) Por vontade de um dos seus membros; c) Com o casamento de um dos membros.” – artigo
8.º - se há casamento entre duas pessoas, deixa de haver união de facto.
Exclusividade não significa que exista um dever de fidelidade – uma pessoa que viva em união de facto, à
partida, observará comportamentos de fidelidade - não podemos é dizer que existe um dever. Pode não haver
fidelidade, mas haver tutela da relação de união de facto. Exclusividade é vida em condições análogas às dos
cônjuges.
É uma relação não formal – depende de existir vida em condições análogas as dos cônjuges há mais de dois
anos – comunhão de mesa, leito e habitação. Exclui-se a união de facto quando estejamos perante as
situações do artigo 2.º que são situações que se aproximam às dos impedimentos ao casamento.
Podia não estar nada na lei. Não estava, até 2010, quando foi aditado o artigo 2.º -A.
“1 - Na falta de disposição legal ou regulamentar que exija prova documental específica, a união de facto
prova-se por qualquer meio legalmente admissível.” À partida, todos os meios de prova são admitidos. A
não ser que a lei exija um instrumento de prova específico. O artigo 2.º -A dá-nos um instrumento adicional
para fazer prova da união de facto – documento emitido pela Junta de Freguesia. “2 - No caso de se provar
a união de facto por declaração emitida pela junta de freguesia competente, o documento deve ser
acompanhado de declaração de ambos os membros da união de facto, sob compromisso de honra, de que
vivem em união de facto há mais de dois anos, e de certidões de cópia integral do registo de nascimento de
cada um deles.”
“3 - Caso a união de facto se tenha dissolvido por vontade de um ou de ambos os membros, aplica-se o
disposto no número anterior, com as necessárias adaptações, devendo a declaração sob compromisso de
honra mencionar quando cessou a união de facto; se um dos membros da união dissolvida não se dispuser a
subscrever a declaração conjunta da existência pretérita da união de facto, o interessado deve apresentar
declaração singular.”
“4 - No caso de morte de um dos membros da união de facto, a declaração emitida pela junta de freguesia
atesta que o interessado residia há mais de dois anos com o falecido, à data do falecimento, e deve ser
acompanhada de declaração do interessado, sob compromisso de honra, de que vivia em união de facto com
o falecido há mais de dois anos, à mesma data, de certidão de cópia integral do registo de nascimento do
interessado e de certidão do óbito do falecido.”
Por vezes, as pessoas ficam com a ideia de que esta declaração da junta de freguesia é um registo. A prova
faz-se por qualquer meio admissível legalmente, não há registo e um dos meios possíveis é esta declaração
da junta.
Uma questão que se coloca é se existem deveres pessoais. Hoje podemos ter alguma discussão.
Podemos ter efeitos quanto ao estabelecimento da filiação, quanto às responsabilidades parentais, a chamada
parentalidade social, quanto à adoção, quanto ao apadrinhamento civil e quanto ao acompanhamento de
maiores.
Até há uns anos, a resposta era claramente negativa. Hoje, precisamente porque temos assistido a uma maior
densificação desta relação, do ponto de vista doutrinal começa a discutir-se se não existem mesmo deveres.
Por exemplo, sem situações de proximidade, nomeadamente para aplicar a figura do dever de garante no
direito penal, considera-se a união de facto – verifica-se um dever de socorro e auxílio mútuo. E isto de viver
em condições análogas às dos cônjuges é o quê?
Viver em comunhão de leito, mesa e habitação – existe algum dever de coabitação, algum dever de
cooperação, algum dever de contribuição para os encargos da vida familiar, por exemplo? Dever jurídico não
existirá, mas também não existe união de facto sem que existam estes comportamentos. Se as pessoas
deixam de viver juntas, não estão a incumprir nenhum dever, mas deixa de existir união de facto. Podem não
estar a incumprir nenhum dever, mas deixa de existir união de facto.
Quanto à nacionalidade, tem efeitos, viver em união de facto. “3 - O estrangeiro que, à data da
declaração, viva em união de facto há mais de três anos com nacional português pode adquirir a
nacionalidade portuguesa, após ação de reconhecimento dessa situação a interpor no tribunal cível.” –
artigo 3.º/3 da Lei da Nacionalidade – efeito pessoal.
Estabelecimento da filiação – a maior parte dos nascimentos em Portugal dá-se fora do casamento. Tudo o
que estivemos a ver no ano passado quanto à presunção pater is est, não se aplica à maior parte dos
nascimentos em Portugal, porque não se aplica esta presunção à união de facto. A presunção é da paternidade
do marido da mãe. O facto de se viver em união de facto pode ter relevância – como é que se dá o
estabelecimento de paternidade fora do casamento? Conhecimento voluntário – perfilhação.
Se não houver perfilhação, qual é a outra forma de reconhecer a paternidade fora do casamento? Ação de
investigação. Aqui pode ser relevante viver em união de facto – artigo 1871.º, alínea c) “1. A paternidade
presume-se: c) Quando, durante o período legal da concepção, tenha existido comunhão duradoura de vida
em condições análogas às dos cônjuges ou concubinato duradouro entre a mãe e o pretenso pai;”. Há uma
presunção de paternidade.
Relativamente à procriação medicamente assistida, também é relevante viver em união de facto – pessoas em
união de facto têm acesso nos mesmos termos que pessoas casadas.
Como é que se estabelece a paternidade ou a parentalidade nos termos da procriação medicamente assistida -
artigos 6.º e 10.º da Lei da Procriação Medicamente Assistida. É com base no consentimento que se
estabelece a parentalidade. “1 - Se da inseminação a que se refere o artigo anterior vier a resultar o
nascimento de um filho, é este havido como filho do marido ou daquele vivendo em união de facto com a
mulher inseminada, desde que tenha havido consentimento na inseminação, nos termos do artigo 14.º, sem
prejuízo da presunção estabelecida no artigo 1826.º do Código Civil.”
É possível que a pessoa que seja casada ou viva em união de facto com o progenitor relativamente ao qual a
filiação esteja estabelecida, possa exercer responsabilidades parentais relativamente a este filho, ainda que
não tenha adotado.
Artigo 1904.º - A “1 - Quando a filiação se encontre estabelecida apenas quanto a um dos pais, as
responsabilidades parentais podem ser também atribuídas, por decisão judicial, ao cônjuge ou unido de
facto deste, exercendo-as, neste caso, em conjunto com o progenitor.”
Não há relação de afinidade entre o membro da união de facto do progenitor e esse filho. Ou seja, temos a
mãe do João que vive em união de facto com o Manuel – o Manuel não é pai do João nem padrasto do João –
porque a mãe do João não é casada com o Manuel. Mas a verdade é que o Manuel pode exercer uma função
de parentalidade social relativamente ao João. Isto é reconhecido.
Desde logo, há a possibilidade de delegar o exercício das responsabilidades parentais – artigo 1906.º/4
CC. Agora, desde 2015, no caso de impedimento de ambos os progenitores, as responsabilidades parentais
podem ser atribuídas ao cônjuge ou membro da união de facto de qualquer dos pais – artigo 1903.º CC. Em
caso de morte dos progenitores, isto também pode acontecer. O membro da união de facto pode exercer esta
função.
Artigo 7.º “Nos termos do atual regime de adoção, constante do livro IV, título IV, do Código Civil, é
reconhecido a todas as pessoas que vivam em união de facto nos termos da presente lei o direito de adoção
em condições análogas às previstas no artigo 1979.º do Código Civil, sem prejuízo das disposições legais
respeitantes à adoção por pessoas não casadas.”
Também há outra figura – o apadrinhamento civil – esta modalidade serve para aquelas situações em que não
há e não faz sentido que haja corte com a família biológica, mas a criança precisa de cuidado, de um
exercício das responsabilidades parentais por parte de outra pessoa, de outra família – precisa de estar
integrada nesta família com base num acordo com os progenitores – esta figura foi criada em 2009, é o
apadrinhamento civil. Quem vive em união de facto pode ser um casal que vai apadrinhar civilmente uma
criança.
Existe um dever jurídico ou não existe um dever jurídico de cooperação? Para todos os efeitos, o membro
da união de facto aparece-nos na lista quanto aos potenciais acompanhantes de maiores logo a seguir ao
cônjuge. A seguir ao cônjuge, o legislador presume que é o unido de facto a pessoa mais indicada para
acompanhar o maior que necessita de acompanhamento.
Efeitos patrimoniais
Há efeitos que têm um caráter pessoal, mas com refrações patrimoniais. Desde logo, os efeitos que estão
previstos no artigo 3.º fazem referência a (qualquer coisa) que nós encontramos noutros diplomas.
Têm que ver com o regime de férias, feriados e faltas; a aplicação do imposto sobre o rendimento singular; a
proteção social na eventualidade de morte; prestações por morte em caso de acidente de trabalho ou doença
profissional…. Portanto, uma série de benefícios que tenham tradução patrimonial.
Também com uma dimensão paredes meias entre o que é patrimonial e pessoal – proteção da casa de
morada de família no âmbito da união de facto – quando é que isto acaba por relevar? Ou quando há
rotura, ou quando há morte.
O que caracteriza a união de facto é esta comunhão de habitação – o que quer dizer que há uma casa de
morada comum, casa de morada de família. Se há rotura da união de facto, estamos perante outra daquelas
disposições em que há remissão para o regime do casamento – dissolução do casamento.
Artigo 4.º LUF “O disposto nos artigos 1105.º e 1793.º do Código Civil é aplicável, com as necessárias
adaptações, em caso de ruptura da união de facto.” Artigo 1105.º CC “1 - Incidindo o arrendamento sobre
casa de morada de família, o seu destino é, em caso de divórcio ou de separação judicial de pessoas e bens,
decidido por acordo dos cônjuges, podendo estes optar pela transmissão ou pela concentração a favor de
um deles.” Artigo 1793.º CC “1- Pode o tribunal dar de arrendamento a qualquer dos cônjuges, a seu
pedido, a casa de morada da família, quer esta seja comum quer própria do outro, considerando,
nomeadamente, as necessidades de cada um dos cônjuges e o interesse dos filhos do casal.”
Por morte – artigo 5.º LUF – “1 - Em caso de morte do membro da união de facto proprietário da casa de
morada da família e do respectivo recheio, o membro sobrevivo pode permanecer na casa, pelo prazo de
cinco anos, como titular de um direito real de habitação e de um direito de uso do recheio.” O Manuel morre
– era proprietário da casa de morada em que vivia em união de facto com a Joana há dois anos. A Joana pode
continuar a usar a casa e o recheio.
A Joana viveu 10 anos com o Manuel em união de facto – durante 10 anos continuou a viver na casa de
morada enquanto titular de um direito real de habitação. Continua a tratar da mãe do Manuel, que vive
acamada lá naquela casa. Já vivia lá enquanto o Manuel estava vivo. “4 - Excepcionalmente, e por motivos
de equidade, o tribunal pode prorrogar os prazos previstos nos números anteriores considerando,
designadamente, cuidados dispensados pelo membro sobrevivo à pessoa do falecido ou a familiares deste, e
a especial carência em que o membro sobrevivo se encontre, por qualquer causa.”
Mas a Joana deixou de viver naquela casa - mudou-se há 6 meses – “5 - Os direitos previstos nos números
anteriores caducam se o interessado não habitar a casa por mais de um ano, salvo se a falta de habitação
for devida a motivo de força maior.”
“6 - O direito real de habitação previsto no n.º 1 não é conferido ao membro sobrevivo se este tiver casa
própria na área do respectivo concelho da casa de morada da família; no caso das áreas dos concelhos de
Lisboa ou do Porto incluem-se os concelhos limítrofes.”
“7 - Esgotado o prazo em que beneficiou do direito de habitação, o membro sobrevivo tem o direito de
permanecer no imóvel na qualidade de arrendatário, nas condições gerais do mercado, e tem direito a
permanecer no local até à celebração do respectivo contrato, salvo se os proprietários satisfizerem os
requisitos legalmente estabelecidos para a denúncia do contrato de arrendamento para habitação, pelos
senhorios, com as devidas adaptações.”
“8 - No caso previsto no número anterior, na falta de acordo sobre as condições do contrato, o tribunal pode
fixá-las, ouvidos os interessados.”
“9 - O membro sobrevivo tem direito de preferência em caso de alienação do imóvel, durante o tempo em
que o habitar a qualquer título.”
Artigo 7.º LUF - podem adotar as pessoas que vivam em união de facto em condições análogas às dos
cônjuges – artigo 1979.º CC – os casados têm de estar casados há 4 anos. E as pessoas que vivem em união
de facto? Precisam de estar em união de facto durante 2 anos e depois passarem mais 4 anos ou 2 anos em
união de facto e depois mais 2 anos, para perfazer os 4 anos? Tem-se entendido que é a segunda opção.
Determinar a titularidade dos bens do casal não depende das regras de um regime de bens. O património dos
membros da união de facto podem ser bens da titularidade de um, de outro ou de ambos, em
compropriedade, nos termos gerais. Aplicam-se as regras gerais do direito das coisas e do direito das
obrigações. Não há bens comuns.
Artigo 1403.º/2 CC “2. Os direitos dos consortes ou comproprietários sobre a coisa comum são
qualitativamente iguais, embora possam ser quantitativamente diferentes; as quotas presumem-se, todavia,
quantitativamente iguais na falta de indicação em contrário do título constitutivo.”
Artigo 1405.º CC “1. Os comproprietários exercem, em conjunto, todos os direitos que pertencem ao
proprietário singular; separadamente, participam nas vantagens e encargos da coisa, em proporção das
suas quotas e nos termos dos artigos seguintes.”
Na nossa jurisprudência, o Tribunal da Relação de Guimarães já avançou, em 2017, que há uma lacuna na
lei que era suscetível de ser preenchida analogicamente com recurso ao regime da separação de bens.
Nomeadamente, considerou que se aplicava a presunção de compropriedade do 1736º/2. Mas porquê? Que
vantagem tem dizer que se aplica o regime da separação de bens?
A maior parte da jurisprudência não se tem inclinado neste sentido, entendem que se aplica o regime geral.
Contudo, têm-se inclinado no sentido de ser possível uma coisa – não há esta presunção legal, mas os
membros da união de facto podem acordar relativamente à compropriedade dos bens. Podem
estabelecer em contrato presunções relativamente à compropriedade dos bens.
No decreto que esteve na base da Reforma de 2010, havia uma presunção igual à do artigo 1736.º CC para a
união de facto. Não passou a lei, mas pode ser feita em contrato.
Quando há dissolução da união de facto, seguem-se as regras gerais, quanto à divisão dos bens comuns.
O que é que pode acontecer também no âmbito da união de facto que cria problemas? As pessoas vivem
juntas durante estes anos todos. Não há bens comuns, essa é uma figura privativa do casamento. Mas se as
pessoas vivem juntas, imaginemos que durante 20 anos – compram mobiliário para a casa, compram um
automóvel… uma série de bens – o automóvel está sujeito a registo. Mas, na verdade, o automóvel que está
na titularidade de um, foi adquirido com o dinheiro de um prémio profissional do outro. Quem é o titular, o
proprietário? É quem consta do título, mas o bem foi adquirido com valores do outro. Nestes casos, a
jurisprudência tem decidido no sentido de convocar o instituto do enriquecimento sem causa – regras gerais
do direito das obrigações.
Dissolve-se a união de facto, as regras do enriquecimento sem causa têm de ser invocadas – há
enriquecimento de um à custa do outro sem causa justificativa? Se sim, tem de se eliminar o enriquecimento
de um dos cônjuges.
Mas isto nem sempre tem sido assim na nossa jurisprudência (acordão do STJ, em 2017) — é preciso que
seja sem causa, e entendem que existe aqui uma causa, a união de facto.
Tem-se invocado muitas vezes e, muitas vezes, mal, a figura da obrigação natural – que se houve
determinados contributos, o enriquecimento pressupõe uma causa justificativa.
2. Dívidas:
O Dr. Pereira Coelho e o Dr. Guilherme de Oliveira têm defendido que as dívidas contraídas por
qualquer dos membros da união de facto para ocorrer aos encargos da vida familiar deviam ser da
responsabilidade de ambos, tal como no casamento. Esta foi também uma proposta para ser incluída na
LUF – mas não foi.
A justificação é a teoria da aparência – consagrar esta regra seria proteger terceiros. Os membros da união
de facto contraem esta dívida e os seus credores estão convencidos que estes estão casados (há uma
aparência externa de casamento) – justifica-se que seja responsabilidade de ambos os membros da união de
facto.
Não passou a lei esta regra, mas, ainda assim, podemos discutir se se justifica que a apliquemos – a
jurisprudência não tem sido nada recetiva a esta possibilidade. Considera só que se for contraída nos
termos do artigo 1691.º CC – dividas contraídas antes do casamento e na expectativa do casamento para os
encargos da vida familiar - são da responsabilidade de ambos. Quando tal não acontece, a jurisprudência
não tem sido nada recetiva relativamente a esta possibilidade.
Esta passou a ser uma questão estrela por causa de um acórdão do STJ de 2021 – nesse acórdão, houve uma
tomada de posição mais clara relativamente ao que era a jurisprudência anterior.
“Comunhão de mesa” é partilha de recursos – recursos financeiros, mas não só, outras contribuições
económicas também entram aqui. O trabalho doméstico tem um valor económico, embora não seja expresso
A jurisprudência mais clássica diz que esta é uma obrigação natural e insuscetível de ser re-pedida. Quem
prestar trabalho doméstico no contexto da união de facto não pode pedir que haja qualquer compensação.
Mas nós sabemos melhor do que isto. O nosso legislador reconheceu, no âmbito do divórcio, que há
problemas quanto a contribuições acrescidas para os encargos da vida familiar – e podem sair do casamento
com desvantagens patrimoniais. Na união de facto podemos ter condições análogas.
- Não temos este instituto para a união de facto, uma vez que estava no decreto (decreto 349/10) que servia
de base para a LUF - era uma formulação legislativa que espelhava os estudos do Dr. Pereira Coelho - mas
não foi adotado na lei.
O artigo 5º- A deste decreto dizia - ver no UcStudent. Comparando com o 1676º/2 CC:
- o art. 1676º/2 também visa compensa prejuízos; exposição do decreto falava-nos em prejuízos económicos
graves
- “Resultantes de renunciar de forma excessiva…”; “resultantes de decisões de natureza …” -
Em termos de solução significou que não temos uma exposição legislativa como existe relativamente ao
crédito compensatório.
Recentemente, tem havido casos em que se diz que há causa justificativa – é a união de facto – ou que
não há nexo entre o enriquecimento de um e a prestação do outro. O acórdão do STJ de 2021 veio mudar
isto. O STJ veio decidir que podia ser aplicado o instituto do enriquecimento sem causa, chegou a
compensar de forma expressiva o trabalho doméstico da autora da ação em causa, que assumiu a totalidade
do trabalho doméstico e um trabalho não remunerado no estabelecimento do réu — ler acordão
disponibilizado no UcStudent, em especial a argumentação.
4. Obrigação de alimentos
Não existe obrigação de alimentos no âmbito da união de facto. Isto a não ser que se trate de herança, do
artigo 2020.º CC — “O membro sobrevivo da união de facto tem o direito de exigir alimentos da herança
do falecido”.
Artigo 2019.º CC – fala-nos na obrigação de alimentos em ex-cônjuges - “Em todos os casos referidos nos
artigos anteriores, cessa o direito a alimentos se o alimentado contrair novo casamento, iniciar união de
facto ou se tornar indigno do benefício pelo seu comportamento moral.”
5. Contratos de coabitação:
Aqui falamos da admissibilidade dos chamados contratos de coabitação. É possível, em contrato, regular
alguns aspetos da união de facto, se não puserem em causa regras imperativas. Efeitos pessoais não, isso
seria entrar naquilo que o Estado quer regular no caso do casamento.
Permitem que uma série de questões sejam esclarecidas relativamente a questões de natureza patrimonial. Há
uma série de temas que podem ser regulados. Basta-nos pensar na titularidade de bens, por exemplo, móveis
adquiridos enquanto vivem juntos são retidos em compropriedade por ambos; estabelecer que vamos
contribuir de determinada forma para os encargos da vida familiar; regras de administração de bens; etc —
ao abrigo do regime geral do direito das obrigações e das coisas.
Uma cláusula inválida seria uma que se referisse, por exemplo, a bens comuns, porque é uma categoria
relativa ao casamento.
Livro V do CC — Direito das sucessões; sofreu uma grande reforma em 1977, motivada pelo princípio da
igualdade dos cônjuges e da não discriminação dos filhos nascidos dentro e fora do casamento.
Alterações introduzidas: (1) possibilidade de denuncia reciproca à condição de herdeiro legitimário por parte
dos cônjuges; (2) normas relativas à condição de dignidade para proteger as situações em que o sucessor de
uma pessoa é o próprio autor do seu homicídio.
O direito das sucessões é bastante técnico, não é fácil alterar normas pontuais, porque uma mudança pode
interferir com toda a estrutura.
- Se A morre, e deixa dois filhos, estamos a falar em descendentes - parentes na linha reta descendentes em
1º grau; mas se for um neto já será no 2º grau.
- A morre mas tem um irmão - irmão uterino - unilateral; irmã germana - bilateral
1. NOÇÃO GERAL E JUSTIFICAÇÃO DA SUCESSÃO POR MORTE
O que é que já sabemos sobre a morte? A morte determina que cessa a personalidade jurídica — artigo
68.º CC:
“1. A personalidade cessa com a morte”. Isto significa que temos uma crise das relações jurídicas de que o
de cujus era titular. Desaparece o sujeito e abre-se o fenómeno sucessório – uma série de atos, de factos
que vão ocorrer desde que aquelas relações jurídicas de que o de cujus era titular se desligam deste sujeito,
até que passem a ser tituladas por outro ou outros sujeitos, é a passagem da herança do de cujus para os
sucessores.
Momentos essenciais:
- a abertura da sucessão,
- a chamada vocação sucessória do testamento (ou chamamento),
- (a herança jacente)
- e a chamada aquisição sucessória, que vai dar-se pela aceitação, porque ninguém tem necessariamente de
suceder ao de cujus (depois vamos falar é de herdeiros necessárias/legitimários, mas não é o mesmo).
Caso não aceite, vai repudiar a herança.
A aquisição sucessória tem efeitos retroativos à data da morte do autor da sucessão, para que não haja um
hiato temporal desde que desaparece o sujeito, estes direitos vão ter sempre um titular.
Momentos eventuais:
- Petição,
- alienação,
- administração da herança (encargos),
- liquidação
- e, por fim, partilha. Ex.: A senhora A morre, não é casada e tem um filho – é preciso partilhar alguma
coisa? Não. Há um sucessor. Não há partilha. Por isso é que é um momento eventual.
Vamos estudar este processo que visa impedir que existam situações inaceitáveis para o ordenamento
jurídico.
Este fenómeno visa que haja uma continuidade das relações jurídicas. Isto das que não se extinguem,
porque há relações jurídicas que se extinguem inevitavelmente com a morte – aquelas que estão intimamente
ligadas à personalidade do de cujus.
Se não tivéssemos esta continuidade, tínhamos devedores do de cujus que não iam pagar as suas dívidas,
credores do de cujus que não viam os seus créditos satisfeitos, tínhamos direitos reais limitados que se
extinguiam necessariamente, (…) há uma série de interesses que justificam o fenómeno sucessório.
- Podemos ter uma perspetiva de modificação subjetiva e de manutenção da mesma relação, simplesmente
uma alteração do sujeito titular;
Podemos ter aqui situações mais complicadas – as que dizem respeito às doações – e no que diz respeito às
doações em vida e doações por morte. Falaremos disto quando falarmos da sucessão contratual. Isto tem
relevância porque as doações por morte só são admitidas em termos muito limitadas - arts. 1700º CC e ss.
Existe entre nós uma figura chamada partilha em vida. Artigo 2029.º CC “1. Não é havido por sucessório o
contrato pelo qual alguém faz doação entre vivos, com ou sem reserva de usufruto, de todos os seus bens ou
de parte deles a algum ou alguns dos presumidos herdeiros legitimários, com o consentimento dos outros, e
A sucessão contratual só se admite nos casos expressamente previstos pela lei. O que quer dizer que outros
contratos sucessórios não são admitidos. O artigo 2029.º CC vem-nos dizer que há situações (a chamada
partilha em vida) em que se fazem doações a presumidos herdeiros legitimados, com o consentimento dos
outros, que estes outros, aliás, pagam o valor que lhes caberia dos bens doados, e que estes contratos não são
tidos como sucessórios. Não pretendem produzir efeitos depois da morte. Produzem logo efeitos. Faz com
que haja uma exceção à proibição dos pactos sucessórios que nós só podemos ver surgir entre nós em
convenção antenupcial. Vamos voltar ao livro da família para falarmos do artigo 1701.º a 1703.º CC para
falar sobre a sucessão contratual.
A partilha em vida não é considerada um contrato sucessório, não vai produzir efeitos após a morte, produz
efeitos imediatamente.
Porque é que se faz a partilha em vida? Para que haja uma antecipação do gozo, da fruição de determinados
bens pelos herdeiros legitimários dos titulares dessas relações jurídicas. A partilha não é da herança, mas de
bens presentes.
Também tem um regime diferente das doações em vida. O valor dos bens doados (na partilha em vida) é o
que tiverem à data da sucessão.
Noção que é dada pelo Código Civil de sucessão – artigo 2024.º CC “Diz-se sucessão o chamamento de
uma ou mais pessoas à titularidade das relações jurídicas patrimoniais de uma pessoa falecida e a
consequente devolução dos bens que a esta pertenciam.”
A consequência é a devolução dos bens quando ao chamamento existe uma resposta positiva, quando
existe aceitação.
Mas isto é uma abordagem um pouco limitadas. Temos de fazer uma interpretação extensiva da lei – não está
em causa apenas a sucessão de bens. Há outras relações que são objeto de herança. Cada vez se fala mais da
herança digital, por exemplo.
Não temos um sistema puro familiar, nem individualista, nem de inspiração socialista (privilegiar o Estado
enquanto sucessor) – temos um modelo que acaba por convocar todas estas dimensões, em maior ou
menor medida.
Quando pensamos nos países do sul da Europa, pensamos que tem uma componente mais familiar e não mais
individualista, como nos países do norte da Europa. Mas as raízes são inversas. O modelo do direito romano
é um modelo individualista – favorece a figura da vontade e as disposições testamentárias; concede amplos
poderes de disposição à figura central – o paterfamilias. Nós vamos encontrar esse modelo na sucessão
voluntária.
O modelo familiar vem-nos do direito germânico – vem da ligação com a família – vamos encontrá-lo na
sucessão legal. Nas regras que a lei ou impõe ou faculta para regularem a sucessão. Dentro da sucessão legal
há a sucessão legitimária e a sucessão legitima – em ambas estão privilegiados os familiares enquanto
sucessores.
Há também toques de modelo socialista – O Estado é herdeiro no caso de não existirem aqueles outros
sucessores com preferência - ver 2133º/1/e) CC.
2. Também podemos distinguir as espécies da sucessão com base no critério do objeto da sucessão.
- Sucessão legal: sucessão que tem como base a lei — dentro desta temos a sucessão legitimária e a
sucessão legítima;
- Sucessão voluntária: sucessão que tem como título negócio jurídico — temos a sucessão testamentária e
a sucessão contratual.
• Existe sucessão a título legal – cujo título é a lei. E dentro desta sucessão temos a sucessão legítima e a
sucessão legitimária.
• E existe sucessão voluntária – o título não é a lei, o título é um negócio jurídico, que pode ser bilateral ou
unilateral. Temos negócio jurídico bilateral na sucessão contratual, através de convenção antenupcial;
Temos negócio jurídico unilateral no testamento.
Artigo 2026.º CC “A sucessão é deferida por lei, testamento ou contrato.” Espécies de sucessão legal –
artigo 2027.º CC “A sucessão legal é legítima ou legitimária, conforme possa ou não ser afastada pela
vontade do seu autor.”
NOTA: Há palavras que se repetem e têm sentidos diferentes, como p.e., “legítima”.
Sucessão legal:
A sucessão legal pode ser legítima ou legitimária, consoante possa ou não ser afastada pela vontade do
seu autor.
Sucessão legitimária:
• Isso significa que quando existem representantes de determinadas categorias de sucessores e esses
sucessores são os do artigo 2157.º CC (cônjuges, descendentes ou ascendentes), há uma parte da herança
que lhes é reservada.
• Essa parte da herança que lhes é reservada chama-se quota indisponível, ou quota legitimária, ou
legítima.
• A parte dessa quota indisponível que cabe a cada um chama-se legítima subjetiva.
Então, quando falamos da existência destas quotas indisponíveis, falamos de sucessão legitimária — e aqui
falamos de regras de natureza imperativa.
Temos a quota disponível e a quota indisponível/legítima/legitimária — estas quotas não são sempre iguais
- isto varia consoante a categoria de herdeiros legitimários (enumerados no art. 2157º CC) e o número de
herdeiros legitimários.
NOTA: As regras, em tudo o que não esteja expressamente previsto para a sucessão legitimária, vão aplicar-
se às da sucessão legítima.
Sucessão legítima:
A sucessão legítima diz respeito às situações em que o autor da sucessão não dispôs de todos (ou em parte)
dos seus bens, ou por testamento ou em vida e, portanto, na titularidade desses bens vão ingressar os
sucessores legítimos — ver art. 2133º CC — há parte/totalidade da quota disponível.
Exemplo: O António morre. Deixou a mulher (Beatriz) e o filho (Cristóvão), o cônjuge e descendente – são
herdeiros legitimários, herdam a quota indisponível. Se o autor da sucessão não tiver dito nada, também
herdam a quota disponível; Mas imagine-se que António quer deixar tudo à FDUC porque adora isto - não
pode. Uma parte tem de ficar para o filho e a mulher. Esta quota indisponível também se chama quota
legitimária e legítima (neste caso, legítima objetiva). Ao bocado de cada um dos legitimários, chama-se
legitima subjetiva.
• A sucessão legítima é aquela a que a lei preside para devolução das relações jurídicas que eram
tituladas pelo de cujus quando ele não dispôs desta.
Podemos ter sucessão legítima no caso do António? Podemos. O António podia ter deixado tudo o que faz
parte da quota disponível à FDUC. Mas não o fez em testamento. Então, entra a lei e a lei é que vai dizer
para quem fica a quota disponível (sucessão legítima). E vai ser na mesma a mulher e o filho, mas já não a
título legitimário, seria sucessão legítima, porque o António, se quisesse, tinha deixado esta parte (quota
disponível) para a FDUC.
Sucessão voluntária:
Agora vamos olhar para a sucessão voluntária, que tem como título o negócio jurídico, tem de haver
manifestação de vontade, seja através de negócios jurídicos unilaterais ou bilaterais. Tem lugar em todos os
bens, quando não há herdeiros legitimários, ou dentro da quota disponível.
Sucessão contratual:
a) A instituição de herdeiro ou a nomeação de legatário em favor de qualquer dos esposados, feita pelo
outro esposado ou por terceiro nos termos prescritos nos lugares respectivos;
b) A instituição de herdeiro ou a nomeação de legatário em favor de terceiro, feita por qualquer dos
esposados.
c) A renúncia recíproca à condição de herdeiro legitimário do outro cônjuge.
3- A estipulação referida na alínea c) do n.º 1 apenas é admitida caso o regime de bens, convencional ou
imperativo, seja o da separação.
Imagine-se, agora, que A vai casar, em testamento já tinha deixado um apartamento ao sobrinho. Mas agora,
em convenção antenupcial, faz ao seu cônjuge uma doação mortis causa ao seu outro sobrinho - temos a
revogação do testamento pelo autor da sucessão.
O inverso não pode acontecer, não podia ter feito a doação e depois no testamento vir a alterar isso. Nos
contratos vale o pacta sunt servanda, já os testamentos são livremente revogáveis.
Por regra, a renúncia à sucessão de terceiro é proibida, só que recentemente abriu-se a possibilidade de haver
renuncia recíproca por parte dos cônjuges à posição de herdeiro legitimário.
Sucessão testamentária:
Tem lugar no âmbito da quota disponível quando há herdeiros legitimários, ou na totalidade da herança
quando esses herdeiros legitimários não existem.
Art. 2179º CC: “Diz-se testamento o acto unilateral e revogável pelo qual uma pessoa dispõe, para depois
da morte, de todos os seus bens ou de parte deles.”
Art. 2311º CC: “O testador não pode renunciar à faculdade de revogar, no todo ou em parte, o seu
testamento. 2. Tem-se por não escrita qualquer cláusula que contrarie a faculdade de revogação.”
É uma forma de manifestação da autonomia da vontade no âmbito das sucessões - o legislador quis escudar
esta liberdade.
António deixa a mulher, Beatriz e o filho, Cristóvão. São chamados enquanto herdeiros legitimários. Mas
também podem ser chamados enquanto sucessores legítimos se o autor da sucessão não dispôs da sua quota
disponível. Eles são chamados a dois títulos diferentes. Ou o autor da sucessão deixou em testamento um
legado (por exemplo, um automóvel) para o filho. Temos a Beatriz a ser chamada enquanto herdeira
legitimária, podem ser os dois chamados enquanto herdeiros legítimos e o Cristóvão, além de sucessor
legítimo, também pode ser chamado enquanto legatário testamentário e enquanto sucessor legítimo.
Imaginemos que o autor da herança deixou uma massa da herança no valor de 90 mil euros. A quota
indisponível são 2/3 – 60 mil — legítima subjetiva de cada um, vai dividir-se por cabeça – cada um recebe
30 mil enquanto herdeiro legitimário. E a parte que pode dispor é 30 mil (quota disponível).
Mas o autor da sucessão deixou em testamento ao filho um carro que vale 20 mil euros – o filho é legatário
testamentário do automóvel que vale 20 mil euros. O autor da sucessão não dispôs de toda a quota
disponível. Há 10 mil euros de que não dispôs. Então, os seus herdeiros legítimos ainda vão receber 5 mil
euros cada a título de herdeiros legítimos.
Mas podemos ter, então, em testamento, o António a deixar tudo da quota disponível à FDUC. Aqui, cada um
é chamado a seu título. O filho e a mulher enquanto herdeiros legitimários e a FDUC enquanto herdeira
testamentária.
Quando estamos a falar de sucessão geral mortis causa, falamos de herança; Quando estamos a falar de
sucessão singular mortis causa, estamos a falar de legado.
Artigo essencial para nós, que nos dá estas espécies de sucessões – artigo 2030.º CC “1. Os sucessores são
herdeiros ou legatários. 2. Diz-se herdeiro o que sucede na totalidade ou numa quota do património do
falecido e legatário o que sucede em bens ou valores determinados. 3 - É havido como herdeiro o que sucede
no remanescente dos bens do falecido, não havendo especificação destes.”
Outro exemplo: A FDUC, no nosso exemplo, era herdeira testamentária porque sucedia na totalidade de
uma quota do património – quota disponível. Mas vamos imaginar que o A morre e deixa um irmão. Em
testamento, deixa toda a sua herança à FDUC. Pode fazê-lo? Pode. Os herdeiros legitimários são o
cônjuge, descendentes e ascendentes. Os irmãos não são. Os irmãos são parentes na linha colateral de 2.º
grau – são herdeiros legítimos, mas não são herdeiros legitimários. Não há uma parte da herança que lhes
é reservada. Se o A morre e não deixa testamento, o irmão que tem herda tudo – é herdeiro legítimo. Se o
A morre e deixa tudo à FDUC, o irmão não recebe nada.
Também é herdeiro o que sucede numa quota da herança - ex.: eu deixo 2/3 da herança ao meu irmão e
1/3 ao meu sobrinho mais velho - eles sucedem em parte da herança. “O que sucede no remanescente” —
o remanescente é o que sobra da quota disponível, ou de toda a herança depois do autor da sucessão ter
disposto.
A morre, tem apenas um irmão. Deixa à FDUC um edifício na Alta para construir salas de estudo para os
seus estudantes. Tem outro património, não é só aquele edifício que deixou à FDUC, que é um legado – a
FDUC é legatária testamentária. Existe outro património – o que resta da herança é o remanescente – o
irmão é herdeiro porque sucede no remanescente da herança.
Isto é esclarecido no artigo 2030.º/3 CC “3. É havido como herdeiro o que sucede no remanescente dos
bens do falecido, não havendo especificação destes”. Não há uma sucessão em bens certos e
determinados. Há um conjunto indeterminado, não especificado de bens e, portanto, há aqui uma
elasticidade muito grande.
O autor da sucessão, em testamento, deixou aquele edifício à FDUC. Tem outros bens que integram o seu
património. Ele tinha um património avultado quando deixou o bem à FDUC. Acabou por perder muito
dinheiro. O autor da sucessão contava, no momento em que deixou o legado à FDUC, que o irmão até
viesse a suceder num conjunto muito alargado de bens – no momento em que morre, não temos este
remanescente. É variável.
• Legatário recebe bens ou valores determinados, embora possamos ter coisas especificadas ou coisas não
especificadas.
Legados de coisas determinadas e especificadas: Ex.: deixei aquele prédio ao meu irmão;
Nº4 - “O usufrutuário, ainda que o seu direito incida sobre a totalidade do património, é havido como
legatário.” - quando há esta deixa de usufruto ou de quota da herança, ainda assim, falamos de legatário.
Isto porque o usufrutuário adquire mortis causa um determinado direito relativamente à herança, não
falamos de um direito de propriedade.
Outro exemplo: legado de todos os imóveis da herança - são esses com exclusão de todos os outros;
Art. 2165º CC: “ Pode o autor da sucessão deixar um legado ao herdeiro legitimário em substituição da
legítima.” A aceitação deste legado implica a perda da legítima (nº2) - há aqui uma transmutação do
direito de que o legatário teria direito inicialmente.
O legatário sucede em bens certos e determinados. Mas podemos ter algumas dúvidas que precisamos de
esclarecer.
O mais fácil é quando o legado se refere a uma coisa determinada e especificada – determinada, por
oposição a uma universalidade patrimonial. Deixa o tal prédio na alta – com o registo número tal. Ou, então,
deixa um lote de ações ao sobrinho. Está a deixar aquele bem, com exclusão de todos os outros. O lote de
ações, no momento do testamento, não permanece necessariamente o mesmo que quando o autor da sucessão
morre. Mas conseguimos determinar que foi este lote de ações, com exclusão de todos os outros bens da
herança.
Podemos ter coisas que não são especificadas, coisas que são compostas, coisas que têm um caráter fungível
– isso não impede a determinação como legado. É a exclusão de todos os outros bens do património que
determina esta classificação.
Podemos ter legados de universalidades de facto — Artigo 206.º CC “1. É havida como coisa composta,
ou universalidade de facto, a pluralidade de coisas móveis que, pertencendo à mesma pessoa, têm um
destino unitário.”
Exemplos do rebanho e da biblioteca – há livros novos que se compram, outros que se emprestam e nunca
são devolvidos… no rebanho, há animais que morrem e animais que nascem. Há uma variabilidade dos
elementos. Mas há uma determinação suficiente para se excluir os outros bens do património do autor da
sucessão. Por isso, podemos considerar que estamos perante um legado.
Também podemos ter legados de patrimónios autónomos ou entidades jurídicas. Posso deixar em legado
uma parte da herança que receber do meu tio. Ou a meação dos bens comuns em caso de partilha conjugal.
E ainda um outro caso que, por ser tão discutido, a lei acabou por esclarecer – artigo 2030.º/4 CC “4. O
usufrutuário, ainda que o seu direito incida sobre a totalidade do património, é havido como legatário.” O
usufrutuário não recebe a totalidade da herança. Não recebe também numa quota da herança. Sucede num
direito determinado, num direito real limitado relativamente à herança. Por causa deste caráter incerto nesta
classificação, é a própria lei que nos diz isto.
Também podemos ter legados de coisas genéricas ou alternativas. Se deixamos todos os móveis, estamos a
excluir os imóveis.
Porque há regras diferentes que se aplicam a uns e a outros. Vamos ver agora porque é que é importante
distinguir suceder em valores e bens certos e determinados, ou na totalidade ou numa parte do património do
de cujus e realmente há diferenças de regime.
No direito da família, percebemos que os herdeiros, por vezes, nos aparecem em posições particulares. Por
exemplo, numa ação de investigação da paternidade, se o investigante ou o investigado morrem na pendência
da ação, continua a ação porque há possibilidade de prossecução pela parte dos seus herdeiros. Não
legatários. O herdeiro é um sucessor global/universal. O legatário é um sucessor a título individual.
(1) Quanto à responsabilidade perante os encargos da herança – artigo 2068.º CC “A herança responde
pelas despesas com o funeral e sufrágios do seu autor, pelos encargos com a testamentária, administração e
liquidação do património hereditário, pelo pagamento das dívidas do falecido, e pelo cumprimento dos
legados.”
Para que não haja confusão do património do sucessor, é importante distinguir a herança aceita a benefício
de inventário da herança aceita pura e simplesmente.
Se olharmos para o artigo 2071.º CC “1. Sendo a herança aceita a benefício de inventário, só respondem
pelos encargos respectivos os bens inventariados, salvo se os credores ou legatários provarem a existência
de outros bens.” Apesar desta amplitude dos encargos, é apenas pelas dívidas da herança que a herança vai
responder.
Se a herança for aceita a benefício de inventário, são os credores ou os legatários que tem que provar que
existem bens para responderem pelas suas dívidas ou por este legado, e isto é importante se a herança for
deficitária.
Ou seja, em ambos os casos, seja aceita pura e simplesmente ou aceita em beneficio de inventário, a regra é
que a herança responde pelas suas dívidas e encargos dentro das forças, simplesmente muda aqui o ónus da
prova, ou a responsabilidade é ampla, e a verdade é que os bens em que o herdeiro vai suceder podem vir a
confundir-se com o seu património próprio e precisamente para se protegerem relativamente a esta conclusão
é que temos a herança aceita em beneficio de inventario.
Já quanto aos legatários, em princípio, não respondem pelos encargos da herança. Só o herdeiro
responde pelos encargos da herança.
Imaginemos que temos toda as massa da herança que é distribuída em legados: A morre e resolve fazer
legados de todo o seu património, se não tiver herdeiros legitimários toda a sua herança é uma grande quota
disponível, isso pode acontecer, mas isso significa que poderíamos deixar os credores completamente
desprotegidos.
Mas se abrirmos o artigo 2277.º CC, vamos aperceber-nos que há uma situação em que também os
legatários vão responder pelos encargos. “Se a herança for toda distribuída em legados, são os encargos
dela suportados por todos os legatários em proporção dos seus legados, excepto se o testador houver
disposto outra coisa.” Artigo 2278.º CC “Se os bens da herança não chegarem para cobrir os legados, são
estes pagos rateadamente; exceptuam-se os legados remuneratórios, os quais são considerados como dívida
da herança.”
(2) Artigo 2076.º - podemos ter encargos impostos aos legados – cláusulas modais – que limitam os
legados e, portanto, são um encargo pelo qual os legados vão ter de responder. “1. O legatário responde pelo
cumprimento dos legados e dos outros encargos que lhe sejam impostos, mas só dentro dos limites do valor
da coisa legada”. Ex.: eu deixo um legado com o encargo que uma parte do edifico seja dada em
arrendamento e que essas rendas sejam utilizadas para mobilar as salas de estudo. É um encargo.
(3) Também nos termos do art. 2102º em matéria de inventário, o nº2, alínea c) tutela a posição dos
herdeiros e só dos herdeiros - “Procede-se à partilha por inventário nos casos em que algum dos herdeiros
não possa, por motivo de ausência em parte incerta ou de incapacidade de facto permanente, intervir em
partilha realizada por acordo” - aqui a posição que vai ser tutelada é a posição do herdeiro.
(4) Há um legado legal – artigo 2103.º-A CC “1. O cônjuge sobrevivo tem direito a ser encabeçado, no
momento da partilha, no direito de habitação da casa de morada da família e no direito de uso do respectivo
recheio, devendo tornas aos co-herdeiros se o valor recebido exceder o da sua parte sucessória e meação, se
a houver.” Tirando este caso, os legatários são apenas indicados em testamento.
(5) Outra consequência da distinção entre herança e legado: Os herdeiros têm direito a exigir a partilha -
artigo 2101.º/1 CC “1. Qualquer co-herdeiro ou o cônjuge meeiro tem o direito de exigir partilha quando
lhe aprouver.” Os herdeiros têm de perceber o que vai compor as suas quotas. Podem exigir a partilha. Os
legatários, pela própria definição, sucedem em bens certos e indeterminados, não têm esse interesse na
partilha.
(6) Temos também a relevância desta distinção relativamente á oponibilidade ou inoponibilidade de termo
inicial à instituição de herdeiro - O art 2243º fala desta limitação: “ 1. O testador pode sujeitar a
nomeação do legatário a termo inicial; mas este apenas suspende a execução da disposição, não impedindo
que o nomeado adquira direito ao legado” (há a possibilidade da nomeação do legatário a termo inicial)
Mas o artigo 2243.º/2 CC já nos diz outra coisa quanto ao herdeiro — “2. A declaração de termo inicial na
instituição de herdeiro, e bem assim a declaração de termo final tanto na instituição de herdeiro como na
(7) Funcionamento do direito de acrescer — art. 2301º CC: “Se dois ou mais herdeiros forem instituídos
em partes iguais na totalidade ou numa quota dos bens, seja ou não conjunta a instituição, e algum deles
não puder ou não quiser aceitar a herança, acrescerá a sua parte à dos outros herdeiros instituídos na
totalidade ou na quota.”
Se são chamados vários sucessíveis e um deles não quer ou não pode aceitar e se não funcionarem outros
institutos que nós vamos estudar, como o direito de representação ou a substituição direta, a quota desse
sucessível vai acrescer à dos outros.
Imagine-se que A morre e deixa 3 filhos, que não deixaram descendentes. São todos chamados, mas um dos
filhos repudia a herança, não aceita. A sua parte vai acrescer à dos seus irmãos. Entre os herdeiros há um
direito de acrescer muito amplo – nos herdeiros legais; mais restrito nos herdeiros testamentários. Os
legatários só podem acrescer dentro do mesmo objeto. O art. 2302º fala do direito a acrescer entre legatários
que só existe quando eles foram nomeados relativamente ao mesmo objeto, ou seja, este direito está limitado
ao objeto.
(8) O artigo 2130.º CC também nos fala noutra diferença entre ser herdeiro ou legatário em termos de
regime. Os co-herdeiros gozam de direito de preferência quando é vendido ou dado em cumprimento a
estranhos um quinhão hereditário. Os legatários não têm direito de preferência relativamente a outro
legado.
(9) Outros efeitos – só herdeiros é que podem, por exemplo, requerer providências relativamente a direitos
de personalidade de pessoas falecidas. Artigo 71.º CC “2. Tem legitimidade, neste caso, para requerer as
providências previstas no n.º 2 do artigo anterior o cônjuge sobrevivo ou qualquer descendente, ascendente,
irmão, sobrinho ou herdeiro do falecido.”
- Podemos distinguir consoante estejamos a falar de uma parte que cabe um número certo de vezes na
herança e de uma parte que não cabe um número certo de vezes na herança.
1. Abertura da sucessão
A morte é um pressuposto da sucessão - artigo 2031.º CC “A sucessão abre-se no momento da morte do seu
autor e no lugar do último domicílio dele.”
É constitutivo, porque imaginemos que o autor da sucessão fez um seguro de vida, só se constitui este direito
na esfera dos beneficiários com a morte do autor da sucessão - O direito sucessório só se constitui na esfera
dos beneficiários com a morte do autor da sucessão.
É modificativo porque as relações jurídica que eram tituladas pelo autor da sucessão passam a ser tituladas
pelo sucessor.
É extintivo porque há relações jurídicas que pelo seu carácter estritamente pessoal não podem ser objeto do
fenómeno sucessório, portanto, a morte vai funcionar aqui como extintivo.
Imagine-se que o A morre, deixa os filhos B e C, e B tem um filho, o D. B e C são chamados, preenchem-se
os pressupostos da abertura da sucessão, mas B repudia, não quer aceitar — o seu filho D vai ser chamado
em seu lugar, vai funcionar o chamado direito de representação - este não foi chamado num primeiro
momento, foi chamado subsequentemente, mas quando se dá a sua aceitação é como se tivesse dado no
mesmo momento do seu Tio C, ela retrotrai-se ao momento da abertura da sucessão.
Quanto temos situações de ausência sem notícias, a morte presumida é a ultima fase:
Temos uma primeira fase em que ainda não há propriamente suspeita e muito menos a presunção de morte e
aí aplicamos as regras da curadoria provisória;
Depois de dois anos das últimas notícias, ou de cinco anos se não deixou representantes, então já se reúnem
os pressupostos para a curadoria definitiva, e aí sim já há efeitos do ponto de vista sucessório — art. 104º
CC: “Os herdeiros e demais interessados a quem tenham sido entregues os bens do ausente são havidos
como curadores definitivos.” Há uma entrega dos bens aos interessados, que seriam aqueles que viriam a
receber os bens com a morte.
Temos também as situações de morte presumida – artigo 114.º CC “1. Decorridos dez anos sobre a data
das últimas noticias, ou passados cinco anos, se entretanto o ausente houver completado oitenta anos de
idade, podem os interessados a que se refere o artigo 100.º requerer a declaração de morte presumida.”
Artigo 115.º CC “A declaração de morte presumida produz os mesmos efeitos que a morte, mas não
dissolve o casamento, sem prejuízo do disposto no artigo seguinte.” Abre-se o fenómeno sucessório, a morte
presumida vai ser o pressuposto da abertura da sucessão. Simplesmente estamos perante uma vocação
sucessória resolúvel, porque podemos ter o regresso do ausente (artigo 119.º CC).
Artigo 117.º CC “A entrega dos bens aos sucessores do ausente é feita nos termos dos artigos 101.º e
seguintes, com as necessárias adaptações, mas não há lugar a caução; se esta tiver sido prestada, pode ser
levantada”.
Também são importantes as presunções de comoriência – efetivamente, o nosso ordenamento jurídico diz-
nos que quando certo efeito jurídico dependa da sobrevivência de outra pessoa, presume-se, em caso de
dúvida, que uma e outra faleceram ao mesmo tempo – artigo 68.º/2 CC.
A casou-se com B. Depois A casou-se com C e estes tiveram um acidente de carro. Há efeitos jurídicos que
dependem de determinar se um morreu primeiro ou não. Se se presumir que morrem ao mesmo tempo, então
C não é herdeiro de A. Isto tem todo o significado relativamente à herança que os filhos vão receber. Se o
Carlos for herdeiro da Aurora, herda o Carlos e os três filhos. Depois, E e F ainda vão herdar do Carlos. Se
houver presunção de comoriência, o Carlos não é chamado à sucessão e os três filhos vão ser chamados à
sucessão.
Ou seja, o que acontece se considerarmos que A morreu primeiro e C depois? Morre A, vai herdar C e os
filhos (D, E e F). da herança, temos 1/4 para cada um. O cônjuge recebe ainda a meação dos bens comuns.
Se não se fizer prova de que a morte de A precedeu a morte de C, C não vai poder ser chamado – vão herdar
os filhos – D, E e F – 1/3 cada um.
O artigo 2031.º CC diz-nos algo muito importante “A sucessão abre-se no momento da morte do seu autor e
no lugar do último domicílio dele.” – é neste momento que as relações jurídicas se desprendem daquele
sujeito e ficam dispostas a serem adquiridas por outro. Isto não é uma mera enunciação teórica, isto tem
consequências práticas muito relevantes.
Ex.: A morre. Até à véspera da morte de A, ele tinha 4 filhos. 2 morrem num acidente no dia anterior e o A
tem um desgosto e morre no dia seguinte. Dois dias antes, ele tinha 4 filhos, 4 herdeiros. No momento da
morte, ele tem dois. Nesse momento cristaliza-se a vocação sucessória. A morre e tinha feito um testamento.
Tinha deixado tudo o que constava da quota disponível ao seu primo. Na véspera da sua morte revoga o
testamento – a vocação sucessória cristalizou-se no momento da abertura da sucessão – em que o testamento
já tinha sido revogado.
Ex.: A tinha 3 filhas, uma delas é condenada por denúncia caluniosa contra a irmã e é declarada indigna no
momento da abertura da sucessão, apesar de esta efetivamente ter sido titular da designação sucessória
legitimária, não se vai preencher um dos pressupostos da designação sucessório e não se vai converter na
vocação.
A abertura da sucessão também é um momento relevante para determinarmos não só o valor dos bens, mas
todos os elementos relevantes para o cálculo da massa da herança – o art. 2162º CC dá-nos os elementos
relevantes para o cálculo da massa da herança em caso de sucessão legitimária: falámos na consideração dos
bens deixados, falámos nos bens doados, nas despesas feitas à colação e nas dívidas — todos esses valores
são fixados no momento da abertura da sucessão.
Também o art. 2109º (vamos ver mais à frente) nos diz que para efeitos de colação o valor dos bens doados
é o que eles tiverem á data da abertura da sucessão. A abertura da sucessão também pode ser importante
neste sentido — o mecanismo da colação serve para igualar o que fica para cada descendente, havendo
doações.
O que é que é isto da colação? (só vamos falar dela na última aula): Imagine-se que a Ana tem 3 filhos e
quando o filho mais velho dela se licenciou em direito, ela era proprietária de um imóvel perto do tribunal e
doou-lhe este imóvel. Ora, isto foi há 30 anos. Há 10 anos atrás, a Ana fez outra doação de um terreno a
outro filho, este imóvel perto do tribunal é muito valioso, mas o terreno também tem algum valor. Temos um
terceiro filho que recebeu 0. A Ana, na verdade, nunca quis dar mais a um filho do que a outro, nunca quis
beneficiar nenhum dos filhos, mas a verdade é que o legislador presume que quando um ascendente faz uma
doação a um filho, este não o quis beneficiar relativamente aos outros, simplesmente quis antecipar a sua
quota hereditária e estas doações que foram feitas vão voltar à massa da herança para se fazer a partilha
tendo em conta estas doações e tendendo a igualar as quotas dos vários filhos. Isto é que se chama a colação:
restituição à massa da herança para igualação da partilha das doações que foram feitas aos descendentes que
eram herdeiros legitimários à data da doação (definição técnica).
O lugar da abertura da sucessão resulta do art. 2031º CC — último domicilio do de cujus, que é
importante para muitos efeitos.
Isto é importante porque o lugar do último domicilio do de cujus é o lugar da sede da sucessão – a entrega
dos legados deve ser feita no lugar onde é aberta a sucessão – art. 2270.º CC “Na falta de declaração do
testador sobre a entrega do legado, esta deve ser feita no lugar em que a coisa legada se encontrava ao
tempo da morte do testador e no prazo de um ano a contar dessa dada, salvo se por facto não imputável ao
onerado se tornar impossível o cumprimento dentro desse prazo; se, porém, o legado consistir em dinheiro
ou em coisa genérica que não exista na herança, a entrega deve ser feita no lugar onde se abrir a sucessão,
dentro do mesmo prazo.”
O chamamento pode ser feito por quem? Se eu deixo em testamento um móvel ao meu vizinho, o
chamamento é feito pelo de cujus — o chamamento pode ser feito pelo de cujus, mas também pode ser feito
pela lei e, neste caso, é feito no momento da morte. Este é o ponto de vista subjetivo da vocação sucessória
Olhar para a vocação do ponto de vista objetivo é olhar do ponto de vista da posição jurídica.
Note-se que podemos ter várias pessoas chamadas pelo mesmo título e a mesma pessoa chamada por
diferentes títulos.
Quando falamos em vocação sucessória, é essencial termos em conta que existe uma hierarquia das
vocações. Para alguém ser chamado a suceder, é necessário que se preencham 3 pressupostos:
1. A existência
2. A capacidade
3. Titularidade da designação sucessória prevalente
Se há uma designação sucessória prevalente, quer dizer que existe uma hierarquia. E já vimos que podem
existir várias designações – a título legal e a título voluntário.
1º - Sucessão legitimária
2º - Sucessão contratual
3º - Herdeiros e legatário testamentários
4º - Sucessão legítima
Artigo 2032.º CC “1. Aberta a sucessão, serão chamados à titularidade das relações jurídicas do falecido
aqueles que gozam de prioridade na hierarquia dos sucessíveis, desde que tenham a necessária capacidade”
– “prioridade na hierarquia dos sucessíveis” – há uma espécie de sucessão que não pode ser afastada – a
sucessão legitimária.
Se nós temos herdeiros legitimários, temos de respeitar, em primeiro lugar, a sucessão legitimária, porque a
lei impõe que haja uma parte da herança que é reservada a estes herdeiros. No topo da hierarquia estão os
herdeiros legitimários - artigo 2157.º CC. A lei impõe-no imperativamente.
1) Então, à cabeça da hierarquia vamos ter a sucessão legitimária. Os herdeiros legitimários encontram-se
no artigo 2157.º CC.
Nós abrimos o artigo 2157.º CC e lemos que são herdeiros legitimários o cônjuge, os descendentes e os
ascendentes, pela ordem e segundo as regras estabelecidas para a sucessão legitima. Temos esta
identificação, mas, depois, vamos recorrer aos artigos 2133.º e ss. CC, que são da sucessão legitima, para
hierarquizar, para percebermos como funciona a sucessão legitimária.
No artigo 2133.º CC, a lei refere-se a outros que não os herdeiros legitimários. As primeiras classes de
sucessíveis do artigo 2133.º falam-nos de cônjuge e descendentes e cônjuge e ascendentes, mas também
irmãos e afins.
Porque é que a sucessão legitimária está no topo da hierarquia sucessória? Pela lógica do sistema. Se temos
normas de natureza imperativa, que não podem ser afastadas pela vontade das partes, que são impostas pela
lei, colocamo-las no topo.
Na sucessão legitimária, o título é a lei. Nas voluntárias, temos uma fonte voluntária.
Claro que o legislador quer preservar a liberdade do disponente, até ao momento da sua morte. A contratual
vincula-o, é excecional, só existe nos casos previstos na lei – apenas em caso de convenção antenupcial –
artigo 1700.º e ss. CC.
Vem depois da sucessão contratual precisamente porque o autor da sucessão, o testador, pode revogar
livremente a todo o momento o testamento – aqui, a lei preserva esta liberdade do disponente.
4) Por fim, nesta hierarquia das designações sucessórias, vamos encontrar os herdeiros legítimos – que nós
já conhecemos do artigo 2133.º CC.
A lei, enquanto título, dispõe imperativamente no âmbito da sucessão legitimária. E a lei, enquanto título,
dispõe de modo dispositivo na sucessão legítima – abre-se a sucessão legítima apenas e só se o autor da
sucessão não dispôs de forma válida da totalidade ou da sua herança, ou da sua quota disponível. Se o fez,
não se abre sucessão legítima.
A morre. Deixa o marido e dois filhos. São herdeiros legitimários. Temos uma quota indisponível e uma
quota disponível. A não dispôs de nada – nem sucessão contratual, nem testamentária. Isso significa que vão
funcionar as regras da sucessão legítima, porque ainda há a quota disponível que vai ser distribuída pelos
herdeiros legítimos.
Ou então A morre e deixa apenas o seu irmão, o João. Se não dispôs de nada, abre-se a sucessão legítima.
Mas se, em testamento, deixou o automóvel ao vizinho, abre-se sucessão testamentária e sucessão legítima.
Mas pode ter deixado a totalidade da sua herança ao vizinho – e pode fazê-lo, porque o irmão seria apenas
sucessor legítimo.
Com a vocação sucessória, que nós já sabemos que pode oscilar – só no momento da sucessão é que se fixa.
Até àquele momento da morte nascem pessoas, morrem pessoas, fazem-se testamentos, dispõe-se de bens…
Com a vocação sucessória, estes chamados passam a ter uma série de deveres. No fundo, é-se chamado
para se exercer o direito de aceitar ou de repudiar, e isto é que permite a aquisição sucessória.
A partir do momento em que se é chamado à herança, ainda que não tenha exercido o direito de aceitar ou
repudiar pode tomar providências acerca da administração dos bens se da falta da administração resultarem
prejuízos relativamente à herança.
Então, com a vocação surge o direito de aceitar ou repudiar, poderes de administração ainda que limitados,
em virtude desta cristalização da designação sucessória na designação efetiva que é a vocação.
2. A existência
O sucessível já haverá de existir como pessoa jurídica no momento da morte do autor da sucessão e
ainda haverá de existir como pessoa jurídica no momento da morte do autor da sucessão, ainda tem de
ter personalidade jurídica. A personalidade jurídica cessa com a morte.
À primeira vista, no art. 2032º só são referidos os pressupostos da titularidade da designação sucessória
prevalente e da capacidade, mas temos que perceber que há aqui uma prioridade lógica relativamente à
Também é possível termos pessoas coletivas a suceder – desde logo, na hierarquia dos herdeiros legítimos,
encontramos o Estado. A pessoa coletiva não se pode ter extinguido à data da abertura da sucessão. O
chamado tem de sobreviver ao de cujus, ainda que por apenas um instante.
Veremos que esta sobrevivência do sucessível no momento da morte do autor da sucessão e o afastamento
em caso de inexistência nos podem colocar aqui alguns problemas.
Imaginemos que A morre. Mas o seu filho, B, deixou um neto - B era pré-falecido. Havendo um descendente
de primeiro grau, esse preferiria sempre a este descendente de 2.º grau – o neto. Já vamos ver como é que
isto se vai resolver.
Já teve de ter personalidade jurídica no momento da abertura da sucessão – para as pessoas singulares –
nascimento completo e com vida; para as pessoas coletivas, reconhecimento do substrato.
Sabemos ainda que podem ser chamadas pessoas que não existem. Artigo 2033.º CC “1 - Têm capacidade
sucessória, além do Estado, todas as pessoas nascidas ou concebidas ao tempo da abertura da sucessão,
não excetuadas por lei, bem como as pessoas concebidas, nos termos da lei, no quadro de um procedimento
de inseminação post mortem.” — parece que está a falar de capacidade sucessória, mas na verdade também
está a falar de existência.
Podem ser chamadas pessoas que são nascituros, pessoas concebidas ao tempo da sucessão e, desde 2021,
conceturos – no âmbito do projeto de inseminação post mortem. Vai haver um problema de construção
jurídica.
Os nascituros já concebidos podem ser chamados no âmbito da sucessão legal e da sucessão testamentária e
contratual. Têm capacidade sucessória as pessoas concebidas ao tempo da abertura da sucessão – desde que
nasçam com vida (art. 66º). Está sujeito à condição suspensiva do nascimento com vida deste nascituro. Isto
aplica-se não só na sucessão legal, mas também na sucessão contratual e testamentária.
Um nascituro tem de ser já concebido. Para percebermos se já tinha sido concebido ao tempo da morte do
autor da sucessão, temos de saber o período legal de conceção – artigo 1798.º CC – primeiros 120 dias dos
300 que precedem o nascimento.
Desde 2021, também relativamente aos conceturos, no âmbito do projeto de inseminação post mortem,
podemos ter capacidade sucessória.
Relativamente ao artigo 2033.º/2 CC “2. Na sucessão testamentária ou contratual têm ainda capacidade: a)
Os nascituros não concebidos, que sejam filhos de pessoa determinada, viva ao tempo da abertura da
sucessão;”
O legislador abriu esta possibilidade porque o autor da sucessão pode não querer deixar os seus bens a
determinada pessoa, mas pode querer beneficiar os filhos desta. Ou porque pode haver a possibilidade de
nascimento de outros filhos e não se querer favorecer estes. Há aqui interesses a prosseguir.
Ex.: O João é casado. Não tem filhos. Tem um irmão pré-falecido de quem era muito próximo. Tem uma
sobrinha viva. A sobrinha do João é uma pessoa com historial de consumo de estupefacientes. O João tem
muita pena que a quinta que era da família deles não continue na família. Tem património suficiente para, no
âmbito da sua quota disponível, fazer com que continuasse na sua linha familiar. Mas na sua linha familiar,
apenas tem a sobrinha e sabe que se deixar a quinta à sobrinha, a quinta vai deixar de existir. Então, pode
deixar a quinta a um eventual filho que nasça à sobrinha. O João, em testamento, deixa a quinta aos filhos
que a sua sobrinha Maria venha a ter – sucessão testamentária a favor do nascituro não concebido, filho de
pessoa determinada, viva ao tempo da abertura da sucessão.
Mas também encontramos aqui a sucessão testamentária ou contratual a poder beneficiar as pessoas coletivas
ou sociedades – também estas têm de ter existência. O Art 197º - também aqui é uma forma desta assunção
quando temos pessoas coletivas sem personalidade jurídica.
Mas também há exceções, nomeadamente o chamado direito de representação. Os casos problemáticos são
os casos de curadoria provisória, definitiva e a declaração de morte presumida, que já vimos há pouco.
3. Capacidade
Vamos agora ver a capacidade. O art. 67ºCC diz que a regra é que as pessoas podem ser sujeitos de quaisquer
relações jurídicas salvo disposição legal contrária. Mas este princípio geral tem limitações e temos as
limitações que vamos encontrar na lei das sucessões – art 2033º - a capacidade sucessória é regra, para as
pessoas singulares, em geral, nos termos do art. 2033º/2/a) e as pessoas coletivas têm uma capacidade
sucessória de natureza especifica e, por isso, vai reger aqui a aliena b) do nº2 do art 2033º — temos a
possibilidade de ter pessoas coletivas com capacidade — arts. 2033º e 2133º CC.
O que é que e é, então, ter capacidade para suceder? É ter idoneidade para suceder. Não tem que ver com
capacidade para o exercício de direitos. Também não tem nada a ver com a capacidade para testar.
A capacidade sucessória está ligada a uma ausência de comportamentos a que a lei associa a tal falta de
idoneidade para suceder. A regra é a capacidade; exceção é a incapacidade - são precisos comportamentos
muito extremos.
Nas pessoas singulares, na verdade, a capacidade jurídica é definida nos termos do artigo 2033.º CC. Quanto
às pessoas coletivas, a própria capacidade específica das pessoas coletivas também determina esta qualidade.
A falta de capacidade sucessória pode derivar quer de causas de indignidade, quer de causas de
deserdação.
Artigo 2034.º CC — dá-nos a lista das situações da incapacidade por indignidade, ligadas a comportamentos
particularmente gravosos relativamente à vida ou à honra do de cujus ou a um círculo próximo dele.
a) O condenado como autor ou cúmplice de homicídio doloso, ainda que não consumado, contra o autor
da sucessão ou contra o seu cônjuge, descendente, ascendente, adotante ou adoptado;
b) O condenado por denúncia caluniosa ou falso testemunho contra as mesmas pessoas, relativamente a
crime a que corresponda pena de prisão superior a dois anos, qualquer que seja a sua natureza;
c) O que por meio de dolo ou coacção induziu o autor da sucessão a fazer, revogar ou modificar o
testamento, ou disso o impediu;
d) O que dolosamente subtraiu, ocultou, inutilizou, falsificou ou suprimiu o testamento, antes ou depois da
morte do autor da sucessão, ou se aproveitou de algum desses factos.”
Ex.: A morre. Deixou um filho. O seu filho tinha sido condenado pelo homicídio do cônjuge de A – matou a
mãe. Este filho é indigno relativamente à herança de A. Não só relativamente à herança da sua mãe.
Alínea b): temos aqui outra vez a certeza da condenação e é um crime a que corresponde pena de prisão
superior a 2 anos, ou seja, temos aqui a especial gravidade.
Alínea c): Aqui já estamos no plano da proteção da própria sucessão e da liberdade do testador. Temos
violações à liberdade de testar do de cujus.
Alínea d): Aqui temos violações não quanto à liberdade de testar, mas violações contra o próprio testamento
— tem de haver esta intencionalidade.
Conseguimos pensar numa série de outros comportamentos que atentam contra aquilo que é o núcleo dos
valores de determinada comunidade, e perceber que há repercussões na ordem pública também de outros
comportamentos, simplesmente não estão previstos na lei, esta lista é fechada.
Contudo: É preciso olhar para uma decisão do STJ, de 2010, que se trata de uma decisão que levou a
discutir a taxatividade desta norma, desta enumeração do art. 2034º e a eventual necessidade de reformar as
regras relativas á incapacidade por indignidade. Este caso de 2010 era uma situação em que tínhamos a pré-
morte de uma filha relativamente a um pai, e um pai que tinha sido condenado pela violação desta filha aos
14 anos, pelo facto de ter obrigado a menina a fazer um aborto da gravidez que resultou dessa violação, e que
se vem a habilitar à herança da filha que morre aos 29 anos num acidente de viação. E o STJ é confrontado
com essa limitação das causas de indignidade sucessória.
Mas como vemos, quando está em causa a pessoa do autor da sucessão só está aqui previsto crime contra a
vida e crime contra a honra. Qual a solução do STJ? A solução do abuso de direito: o abuso de direito tem
que ser convocado em última ratio, só quando seja insustentável. Ver art. 334º CC.
É verdade que se argumentou no sentido de que esta filha podia ter deserdado o pai - ver art. 2166º - este
artigo fala das situações em que o autor da sucessão, em testamento, com declaração da causa, pode privar o
herdeiro legitimário da legítima. Mas, a verdade é que a factualidade deste caso não permitiria pensar que
existiria aqui a pré-morte de uma filha de 29 anos num acidente. Então, o STJ optou pela via do abuso de
direito, e não pelo alargamento das causas do art 2034º CC.
Não basta estar perante uma das causas do art. 2034º CC.
A Dra. Paula Vítor considera que desde que este artigo foi alterado em 2014, podemos concluir que é
necessária a declaração de indignidade.
Artigo 2036.º CC “1 - A acção destinada a obter a declaração de indignidade pode ser intentada dentro do
prazo de dois anos a contar da abertura da sucessão, ou dentro de um ano a contar, quer da condenação
pelos crimes que a determinam, quer do conhecimento das causas de indignidade previstas nas alíneas c) e
d) do artigo 2034.º. e depois foi acrescentado um nº 2 e 3: 2 - Caso o único herdeiro seja o sucessor afetado
pela indignidade, incumbe ao Ministério Público intentar a ação prevista no número anterior”.
Esta alteração foi pensada num determinado contexto. Estas alterações foram suscitadas por causa dos
problemas de homicídios a cônjuges, em que, muitas vezes, o único sucessível é o autor do homicídio. Sendo
o único sucessível o agente, se este agente não intentasse, e não iria intentar, a ação de declaração de
indignidade, continuaria a ter capacidade para suceder. Agora o Ministério Público, no âmbito de uma tutela
da ordem pública, vai ter legitimidade para intentar essa ação, ou seja, a declaração de indignidade é
Ou seja: Há aqui a necessidade de criar meios para que o MP, nos casos em que o único herdeiro seja o
sucessor afetado pela indignidade, instaure a ação de declaração de indignidade. Podemos concluir que esta é
necessária porque esta nova formulação da lei vem responder precisamente àquelas situações em que o único
interessado em pedir a declaração de indignidade já não o pode fazer – porque o único herdeiro é o sucessor
afetado pela indignidade. Se operasse ope legis, não seria necessária esta declaração judicial.
Esta alteração foi pensada para os casos em que é o cônjuge o autor do homicídio e seria ele o único
herdeiro. Seria ele afetado pela indignidade. Confrontados com esta indignidade, vem estabelecer que o MP
tem o papel de exercer a declaração penal e a declaração de indignidade.
Artigo 2037.º CC
“1. Declarada a indignidade, a devolução da sucessão ao indigno é havida como inexistente, sendo ele
considerado, para todos os efeitos, possuidor de má fé dos respectivos bens.” — Isto não prejudica o direito
de representação dos descendentes:
“2. Na sucessão legal, a incapacidade do indigno não prejudica o direito de representação dos seus
descendentes.”
Como é inexistente a devolução ao indigno, podemos ter os chamados subsequentes. Imagine-se que B é
declarado indigno, D (seu filho) pode vir a suceder em representação de B, porque B não pode ser chamado
Artigo 2038.º CC
“1. O que tiver incorrido em indignidade, mesmo que esta já tenha sido judicialmente declarada, readquire
a capacidade sucessória, se o autor da sucessão expressamente o reabilitar em testamento ou escritura
pública.
2. Não havendo reabilitação expressa, mas sendo o indigno contemplado em testamento quando o testador
já conhecia a causa da indignidade, pode ele suceder dentro dos limites da disposição testamentária.”
Há duas formas de reabilitar o indigno, e ele readquire a sua capacidade sucessória. Ou expressamente (em
testamento ou escritura pública), ou tacitamente (nº2).
O artigo 2166.º CC fala-nos das hipóteses da deserdação – cria uma exceção à regra de que, havendo
herdeiros legitimários, há sempre uma parte da herança reservada para eles. Mas, em testamento,
estes podem ser deserdados, privando-os da legítima. Isto é próprio da sucessão legitimária porque eu não
preciso de uma regra especial se quiser privar o meu descendente da quota disponível, basta dispor dos bens,
eu preciso é de uma razão especial para o privar da legítima. Por isso esta é a excepção em que o autor da
sucessão pode afastar a regra da legítima
Apenas em casos muito específicos aqui previstos. “1. O autor da sucessão pode em testamento, com
expressa declaração da causa, deserdar o herdeiro legitimário, privando-o da legítima, quando se verifique
alguma das seguintes ocorrências:” - é necessário que haja um testamento, que haja uma declaração
expressa de deserdação e que haja uma identificação expressa da causa – e essa causa tem de ser um destas
previstas na lei.
“a) Ter sido o sucessível condenado por algum crime doloso cometido contra a pessoa, bens ou honra do
autor da sucessão, ou do seu cônjuge, ou de algum descendente, ascendente, adotante ou adotado, desde que
ao crime corresponda pena superior a seis meses de prisão;” – aqui, ainda se exige alguma gravidade, mas
ainda assim é menor do que para a indignidade.
“c) Ter o sucessível, sem justa causa, recusado ao autor da sucessão ou ao seu cônjuge os devidos
alimentos.” – está é uma causa inédita e que surge, ainda assim, por defeito. Tem de ter havido ação por parte
do autor da sucessão – tem de ter havido declaração expressa em testamento a indicar esta causa.
Mas, o que acontece muitas vezes é que a pessoa nem pede os alimentos. Temos um elenco de obrigados a
alimentos, mas, por uma questão social, mesmo que numa situação de necessidade, não se recorre a tribunal
para pedir alimentos. Há muitos casos de alimentos pedidos por descendentes, mas não por ascendentes. Este
instrumento acaba por não ser invocado ou por falta de conhecimento ou por pudor social.
A deserdação pode ser impugnada – artigo 2167.º CC “A acção de impugnação da deserdação, com
fundamento na inexistência da causa invocada, caduca ao fim de dois anos a contar da abertura do
testamento.”
Efeitos da indignidade:
Há um pressuposto da vocação que não se preenche — é inexistente a vocação sucessória por parte do
indigno (art. 2032º CC).
Modos de vocação:
Artigo 2032.º CC “1. Aberta a sucessão, serão chamados à titularidade das relações jurídicas do falecido
aqueles que gozam de prioridade na hierarquia dos sucessíveis, desde que tenham a necessária capacidade.
2. Se os primeiros sucessíveis não quiserem ou não puderem aceitar, serão chamados os subsequentes, e
assim sucessivamente; a devolução a favor dos últimos retrotrai-se ao momento da abertura da sucessão.”
Quer nas situações em que os primeiros sucessíveis não possam – e não podem quando não preenchem um
dos pressupostos da vocação sucessória – ou não queiram – quando são chamados, mas não aceitam
(repudiam) – quanto aos modos de vocação, podemos ter vocação pura e simples ou vocação condicional
– pode estar sujeita a condição resolutiva ou condição suspensiva (sucessão voluntária).
O que nos vai ocupar mais tempo é a distinção entre a vocação direta e a vocação indireta: (muita
relevância prática)
Vamos ter vocação indireta quando temos a sucessão de uma pessoa ao invés de outra, que não quis ou não
pôde suceder.
Na vocação indireta, os bens transmitem-se diretamente para aquele que vai ser o chamado indireto. Na
vocação indireta, diz-se que há uma interposição ideal e não uma interposição real — A posição do
chamado indireto é o ponto de partida, de referência, e por isso é que se di que há apenas um fenómeno
sucessório.
- direito de representação;
- substituição direta ou vulgar;
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- ou o direito de acrescer.
Direito de representação – artigo 2039.º CC: “Dá-se a representação sucessória, quando a lei chama os
descendentes de um herdeiro ou legatário a ocupar a posição daquele que não pôde ou não quis aceitar a
herança ou o legado.” — dá-se tanto na sucessão legal como na testamentária, embora com pressupostos
diversos.
Não estamos a falar aqui em representação no sentido de atribuir a alguém poderes decisórios em nome de
outrem. O que está aqui em causa é ser chamado a ocupar a posição do que não pôde ou não quis aceitar a
herança ou legado.
A lei esclarece que a representação se dá tanto na sucessão testamentária como na sucessão legal, mas em
termos diferentes.
A sucessão testamentária está prevista no artigo 2041.º CC: “1. Gozam do direito de representação na
sucessão testamentária os descendentes do que faleceu antes do testador ou do que repudiou a herança ou o
legado, se não houver outra causa de caducidade da vocação sucessória. — Estes só se podem dar em caso
de pré-morte ou repúdio
Estávamos a dizer que sucede no lugar e ocupa a posição daquele que não pôde ou não quis. Mas temos uma
limitação na sucessão testamentária. Não funciona em caos de incapacidade, só pré-morte e repúdio.
(Art. 2293º/2: “Se o fideicomissário não puder ou não quiser aceitar a herança, fica sem efeito a
substituição, e a titularidade dos bens hereditários considera-se adquirida definitivamente pelo fiduciário
desde a morte do testador.”
Fideicomissário — temos uma interposição de sucessores, os bens são deixados a alguém para que acabe por
haver uma devolução sucessória em benefício de outrem.)
Na sucessão legal vamos incluir mais situações – artigo 2042.º CC “Na sucessão legal, a representação
tem sempre lugar, na linha recta, em benefício dos descendentes de filho do autor da sucessão e, na linha
colateral, em benefício dos descendentes de irmão do falecido, qualquer que seja, num caso ou noutro, o
grau de parentesco.”
Na sucessão legal, aliás, a representação não se dá apenas a favor dos descendentes em linha reta do autor da
sucessão. A representação tem sempre lugar na linha reta, em benefício dos descendentes do autor da
sucessão. Mas, na linha colateral, também em benefício dos descendentes do irmão do falecido.
A morre em 2023. Tem um filho, B, pré-falecido em 2020. O filho C foi condenado por denuncia caluniosa
pela mãe há 3 anos e deixou ainda a filha F. B tem um filho, D. C tem um filho, E. A morre.
A morre. Temos o seu filho, B, pré-falecido. Uma semana depois de A morrer, morre C, filha de A. Temos
outro filho, C. E temos o filho de B, que é D. E o filho de C, que é E. Vamos imaginar que B é casado com X
e que C é casado com Y.
Quem é que pode beneficiar do direito de representação? Só D, porque só D é descendente do filho do autor
da sucessão. X não é chamada à herança.
C morre uma semana depois do falecimento do pai. Ela foi chamada? Sim. No momento em que o pai morre,
ela verifica todos os pressupostos da vocação sucessória. Mas ela não chegou a aceitar.
1. Temos alguém que tem sido chamado e não pôde ou não quis aceitar a herança;
2. Existe um só fenómeno sucessório;
3. Os bens vão passar diretamente do autor para po representante;
4. Art. 2039º - “descendentes” - dá-se exclusivamente a favor dos descendentes daquele que não pôde ou
não quis aceitar o legado. Sendo que aquele onde ser ou um filho do autor da sucessão, ou um irmão do
autor da sucessão (art. 2042º CC).
O facto de estarmos a falar de um apenas fenómeno sucessório tem implicações – desde logo, na forma
como nós avaliamos a capacidade do sucessível:
O B tinha falsificado o testamento do pai (B) e tinha sido declarado indigno relativamente ao pai. Isso não
prejudica o seu direito de representação relativamente ao avô – ele não é indigno relativamente ao avô.
Vai transmitir-se o direito de aceitar ou repudiar a Y e a E – herdeiros de C. Este direito a aceitar ou repudiar
a herança integra-se na herança de C. Aqui são os herdeiros, não só os descendente.
Vamos imaginar que A morre e deixa o irmão, B e a irmã, C. E as sobrinhas D (filha de B) e E (filha de C).
Elas são herdeiras legitimas. A representação legal dá-se a favor dos descendentes dos irmãos do falecido.
Qualquer que seja o grau de parentesco.
Se funcionasse a regra, ia chamar-se apenas C. Assim, como ela beneficia do direito de representação, D vai
suceder no lugar do pai.
Conclusão: no direito de representação tem de faltar alguém na 1ª ou 3ª classe de sucessíveis e tem de existir
um descendente do parente que foi excluído da sucessão — isto para a sucessão legal.
Artigo 2045.º CC “A representação tem lugar, ainda que todos os membros das várias estirpes estejam,
relativamente ao autor da sucessão, no mesmo grau de parentesco, ou exista uma só estirpe.”
O que é que é uma estirpe? É um grupo familiar composto pelo progenitor e seus descendentes.
Faz sentido fazer funcionar o direito de representação quando há parentes em igual grau e também quando
existe apenas uma estirpe.
A morreu. Deixou um filho, B, e tem um filho pré-falecido (C) – que, por seu lado, deixou dois filhos (D e
E), os netos de A.
Quando temos esta desigualdade de graus sucessórios e pluralidade de estirpes, então, o direito de
representação faz com que haja um igualação dos graus de sucessíveis.
A morre. Ambos os filhos, B e C, eram pré-falecidos (ou repudiaram, p.e.,). B tinha D e E como filhos e C F,
G e H. Quer dizer que A só deixa descendentes em segundo grau – só netos. São herdeiros legitimários –
porque são descendentes – ocupam todos a primeira classe de sucessíveis e, como estão todos no mesmo
grau de parentesco, nenhum deles seria afastado pelo princípio da preferência dos graus de parentesco. Não
temos aqui desigualdade de graus sucessórios, temos igualdade. Mas temos aqui uma pluralidade de estirpes.
Mas o direito de representação é importante para quê? Cada um dos filhos receberia metade da herança. D
e E, a metade do pai (B); F, G e H, a metade do pai (C). Não podem os netos pretender que a herança seja
dividida por 5, por cabeça. A partilha vai ser feita por estirpes e cabe a cada uma aquilo em que sucederia o
ascendente respetivo.
Direito de acrescer:
Vamos imaginar que H repudia – responde negativamente ao chamamento. Vai funcionar aqui o chamado
direito de acrescer, a favor dos irmãos – não a favor dos primos. Porque H repudia não vamos dividir a
herança por igual pelos outros 4, vamos fazer com que acresça a parte de H à parte de G e F.
Artigo 2104.º CC “1. Os descendentes que pretendam entrar na sucessão do ascendente devem restituir à
massa da herança, para igualação da partilha, os bens ou valores que lhes foram doados por este: esta
restituição tem o nome de colação.”
Artigo 2106.º CC “A obrigação de conferir recai sobre o donatário, se vier a suceder ao doador, ou sobre
os seus representantes, ainda que estes não hajam tirado benefício da liberalidade.”
Eles têm obrigação de conferir. Tendo em conta que o B tem obrigação de conferir, se o A deixou bens no
valor de 3000€, e não tem dívidas, mas há doações no valor de 1000€ — temos 4000€ de massa de herança.
Então, D só vai receber 1000€, porque já tem os 1000 da doação que já foram contabilizados para feitos
igualação da partilha.
Outro exemplo:
A morre. Ainda em vida, o filho, B, quer montar o seu escritório de advogados. A é proprietário de um
edifício na rua do tribunal. Tem um património avultado e faz uma doação ao filho para este instalar o seu
escritório. Não quer beneficiar aquele filho relativamente ao irmão, mas, neste momento da sua vida, faz
sentido fazer a doação. No momento da sucessão, vai ser contabilizada na massa da herança esta doação, esta
antecipação que foi feita.
Aconteceu uma tragédia naquela rua – um incêndio terrível que destruiu aqueles prédios. Quer dizer que
estes netos (F, G e H), são filhos de um filho pré-falecido – ainda assim, vão ter de restituir à massa da
herança um bem, ainda que não tenham tirado benefício deste – porque são representantes do pai.
O direito de representação ainda pode ter relevância se estivermos perante uma unidade de estirpe:
Artigo 2045.º CC “A representação tem lugar, ainda que todos os membros das várias estirpes estejam,
relativamente ao autor da sucessão, no mesmo grau de parentesco, ou exista uma só estirpe.”
A tem um filho pré-falecido, B, e um neto, C. A deixou bens no valor de 2000€. Tinha feito uma doação ao
filho B no valor de 1000€. E também tinha feito outra doação a um amigo, D, no valor de 3000€. Temos
interesse em fazer funcionar o direito de representação para sabermos se aquela doação que foi feita vai ou
não ser inoficiosa, se vai ou não ofender a legítima.
O C vai suceder representativamente ao A, porque ocupa o lugar do seu pai, B. É importante sabermos que
temos de imputar a doação que é feita ao C, ou seja, temos só um herdeiro legitimário, mas temos de calcular
uma quota indisponível e disponível.
Temos uma massa de herança no valor de 6000€. Art. 2059º/2 CC - quer dizer que temos uma legítima de
metade, só existe 1 filho, logo, será de 3000€, que é preenchida com os 2000 (dos 6000€) e os 1000 doados.
Isto permite que não tenhamos que reduzir a doação feita a D, porque a doação feita a D ainda estava dentro
dos limites da quota disponível. Ou seja, também aqui faz sentido e funciona o direito de representação,
porque se não funcionasse a doação era imputada na quota disponível, tínhamos uma doação feita ao D
(1000€) na quota disponível, logo, mais os 3000€, tinha disposto de 4000€ e seria reduzida por
inoficiosidade, porque tinha ultrapassado a quota disponível.
Vamos perceber que a substituição direta vai funcionar no âmbito da sucessão testamentária, em que o
testador pode, no testamento, substituir outra pessoa para o caso de este não poder ou não querer aceitar a
herança.
Artigo 2041.º CC “1. Gozam do direito de representação na sucessão testamentária os descendentes do que
faleceu antes do testador ou do que repudiou a herança ou o legado, se não houver outra causa de
caducidade da vocação sucessória.”
“2. A representação não se verifica: a) Se tiver sido designado substituto ao herdeiro ou legatário;” – e é o
que o artigo 2281.º CC diz - o testador pode, no próprio testamento, no caso de o herdeiro instituído não
poder ou não querer aceitar a herança, nomear um substituto.
Eu deixo o meu primeiro carro, que mantenho em perfeitas condições na minha garagem, ao meu neto, mas,
se ele repudiar a herança, nesse caso designo um substituto. Há um valor muito importante para o legislador,
que é o respeito pela vontade do disponente.
Direito de acrescer:
Art. 2301º CC: É o direito que um sucessível tem quando é chamado simultaneamente o mesmo objeto
sucessório de outros sucessíveis, o direito que este sucessível tem quando estes não podem ou não querem
aceitar ser este a ver acrescer à sua parte a parte dos sucessíveis que não puderam ou não quiseram aceitar.
Temos dois sucessíveis que são chamados relativamente ao mesmo objeto – um deles não pode ou não quer
aceitar – pode dar-se o direito de acrescer relativamente ao outro – que pôde ou quis aceitar relativamente ao
mesmo objeto.
O direito de acrescer só funciona quando se preenchem uma série de pressupostos. O direito de acrescer tem
pressupostos negativos e pressupostos positivos.
• Os pressupostos negativos são, precisamente, que não funcionem outros institutos (como, por exemplo,
o direito de representação);
• Os pressupostos positivos são ocorrências de pressupostos que justificam o direito acrescer por si mesmo.
Quanto aos pressupostos negativos: ainda agora vimos a substituição direta. Imaginem que o avô fez um
legado de uma casa aos dois netos. Temos um legado – são legatários – vão suceder num objeto certo e
determinado. Um dos netos é declarado indigno. Se o avô não tiver determinado a substituição direta, pode
funcionar o direito de acrescer. Se tiver determinada substituição direta, não - o avô diz que se algum deles se
declarar indigno, então sucede o meu irmão no lugar deste - este é um pressuposto negativo; Ou se
relativamente a este neto não funcionar o direito de representação nem a transmissão do direito de aceitar ou
repudiar. O direito de representação na sucessão testamentária não exclui a sucessão daqueles que são os
descendentes do que foi declarado indigno, só nos casos de pré-morte e de repúdio. Portanto, não funciona a
substituição direta, não funciona a representação, não funciona a transmissão do direito de aceitar ou
repudiar, não funciona o autor da sucessão não expressa no testamento, por exemplo, que não tem a vontade
no sentido que não haja o direito de acrescer. Portanto, em tudo isto, sempre que funcionem outros institutos,
o direito de acrescer não funciona. Acaba por ter este caráter residual.
- existir uma quota vaga, por falta ou por repúdio de herdeiros que podem ser legais, podem ser
contratuais, podem ser legatários testamentários ou contratuais - agora foi-nos dado o exemplo de
legatários, para ser mais simples, mas o direito a acrescer também de pode dar no âmbito da sucessão
legal.
Isto dá-se no âmbito da sucessão testamentária, mas também no âmbito da sucessão legal.
Entre herdeiros, nós vamos encontrar regras gerais, mas também regras especiais.
Artigo 2137.º CC – diz-nos que “1. Se os sucessíveis da mesma classe chamados simultaneamente à
herança não puderem ou não quiserem aceitar, são chamados os imediatos sucessores. 2. Se, porém, apenas
algum ou alguns dos sucessíveis não puderem ou não quiserem aceitar, a sua parte acrescerá à dos outros
sucessíveis da mesma classe que com eles concorram à herança, sem prejuízo do disposto no artigo
2143.º.”
Se temos todos sucessíveis da mesma classe e um não pode ou não quer aceitar a herança a regra é que a sua
parte acresce à dos outros da sua classe.
Mas no art. 2143º CC temos um regime especial: “Se algum ou alguns dos ascendentes não puderem ou não
quiserem aceitar, no caso previsto do n.º 1 do artigo anterior, a sua parte acresce à dos outros ascendentes
que concorram à sucessão; se estes não existirem, acrescerá à do cônjuge sobrevivo.” A morre, deixa os pais
e o cônjuge, que pertencem a mesma classe de sucessíveis. O pai resolve repugnar a herança, a sua parte não
acresce à dos outros sucessíveis da mesma classe indiscriminadamente, acresce à do outro ascendente, à da
mãe.
Exemplos:
A morre. Deixa os filhos B, C e D. Novos ainda – 12, 14 e 16 anos. Nenhum deles tem descendência,
nenhum deles é casado. Mas D é pré-falecido. Temos vários herdeiros que são chamados relativamente ao
mesmo objeto, no âmbito da sucessão legal, são herdeiros legitimários e temos um deles que não vai poder
ser chamado. Há uma situação de pré-morte. Isto quer dizer que (artigo 2137.º CC), se algum dos sucessíveis
não puder aceitar a sua parte, que a sua parte acresce à dos sucessíveis da mesma classe. Imaginemos que A
tinha deixado uma herança de 3 mil euros – a parte que seria de D acresce à dos seus irmãos.
Imaginemos outro contexto (porque este último nem fazia sentido, D já não existia no momento da abertura
da sucessão) – imaginemos que temos a condenação de D por denúncia caluniosa do pai. E uma declaração
de indignidade. Tínhamos 3 mil euros de massa da herança, e se se preenchessem os pressupostos da vocação
sucessória nós fazíamos a divisão por cabeça e tínhamos mil para cada um. Mas a parte de D, como ele não
tem capacidade sucessória, vai acrescer à dos seus irmãos. Há aqui uma exceção neste funcionamento,
porque nos diz que “acresce aos sucessíveis da mesma classe”.
Imaginemos outro contexto – temos E, que é cônjuge. Estão todos na mesma classe de sucessíveis. Artigo
2143.º CC.
Se houver descendentes e o autor da sucessão deixar cônjuges e ascendentes o que nos acontece? A morre.
Era casado com B. Tinha o pai e a mãe vivos. Não deixa testamento nem nada. Abre-se a sucessão
legitimária. Embora o cônjuge esteja na primeira classe de sucessíveis, no artigo 2133.º CC, nós sabemos que
Imaginemos que a mãe diz que a ideia de herdar do filho a repugna, então repudia a herança. O artigo 2137.º
diz-nos que se apenas algum ou alguns dos sucessíveis não puderem ou não quiserem aceitar, a sua parte
acrescerá à dos outros sucessíveis da mesma classe que com eles concorram à herança - então, diríamos que
ia acrescer ao pai e ao cônjuge. Mas o artigo 2143.º CC diz-nos que se algum ou alguns dos ascendentes não
puderem ou não quiserem aceitar, no caso previsto do n.º 1 do artigo anterior, a sua parte acresce à dos outros
ascendentes que concorram à sucessão; se estes não existirem, acrescerá à do cônjuge sobrevivo. - Ou seja, a
parte que cabia a M não vai acrescer a B, vai acrescer apenas ao P.
Este artigo 2143.º CC é uma exceção ao número 2 do artigo 2137.º CC. Se funcionasse a regra, aqueles
que eram chamados relativamente ao mesmo objeto sucessório, e havendo aqui alguém que não queria
suceder - a sua parte acresceria aos outros que estavam na mesma classe de sucessíveis - e tanto o cônjuge
como o pai pertencem à mesma classe de sucessíveis. Simplesmente, o artigo 2143.º abre uma exceção ao
funcionamento do direito de acrescer e diz-nos que, se for um dos ascendentes que, neste caso, não quer
aceitar, a sua parte acresce aos outros ascendentes - acresce ao pai. Se este não existir ou se não quisesse ou
não pudesse é que acresceria ao cônjuge.
Também podemos ter esta ocorrência relativamente aos herdeiros testamentários e aos legatários. Quanto aos
legatários – artigo 2302.º CC.
Artigo 2302.º CC “1. Há direito de acrescer entre os legatários que tenham sido nomeados em relação ao
mesmo objecto, seja ou não conjunta a nomeação.”
Artigo 2301.º CC “1. Se dois ou mais herdeiros forem instituídos em partes iguais na totalidade ou numa
quota dos bens, seja ou não conjunta a instituição, e algum deles não puder ou não quiser aceitar a herança,
acrescerá a sua parte à dos outros herdeiros instituídos na totalidade ou na quota.; 2. Se forem desiguais as
quotas dos herdeiros, a parte do que não pôde ou não quis aceitar é dividida pelos outros, respeitando-se a
proporção entre eles.” Há direito de acrescer se forem desiguais as quotas. Simplesmente a parte que acresce
não é dividida de forma igual.
Imaginemos que eu deixo a minha herança em partes iguais aos meus dois sobrinhos – um deles repudia – a
parte desse vai acrescer à do outro. Isto foi um testamento que eu fiz, eu em testamento instituo herdeiros os
meus sobrinhos.
Vamos, então, pensar nas situações do legado – artigo 2302.º CC. Desde que haja nomeação relativamente
ao mesmo objeto, vai haver direito de acrescer.
Artigo 2301.º/2 CC “2. Se forem desiguais as quotas dos herdeiros, a parte do que não pôde ou não quis
aceitar é dividida pelos outros, respeitando-se a proporção entre eles.” Se eu deixo o mesmo objeto a vários
legatários, mas em diferentes proporções, isto vai ter de ser respeitado.
É uma não fase. Depois do chamamento, vem a fase da herança jacente. É o momento enquanto se aguarda
pela resposta afirmativa ao chamamento – que será pela aceitação. Ou seja, entre o chamamento e a
aquisição temos um período que se denomina de herança jacente.
Artigo 2046.º CC “1 - Diz-se jacente a herança aberta, mas ainda não aceita nem declarada vaga para o
Estado.”
Podemos ter tido o chamamento de quaisquer das designações sucessórias que já falamos, mas não existindo
qualquer um dos outros parentes previstos no artigo 2133.º CC, a herança pode ser declarada vaga para o
Estado. Também é necessário que não exista testamento.
Neste período pode ser necessário tomar certas providências relativamente aos bens da herança. Antes da
aceitação, podemos ter atos de administração a serem praticados por aqueles que foram chamados –
artigo 2047.º CC “1. O sucessível chamado à herança, se ainda a não tiver aceitado nem repudiado, não
está inibido de providenciar acerca da administração dos bens, se do retardamento das providências
puderem resultar prejuízos.” Podendo ser a administração expressa ou tácita, os atos de administração
praticados pelo sucessíveis não implicam aceitação tácita da herança — art. 2056º/3 CC
Art. 2048º CC: “Quando se torne necessário, para evitar a perda ou deterioração dos bens, por não haver
quem legalmente os administre, o tribunal nomeará curador à herança jacente, a requerimento do
Ministério Público ou de qualquer interessado.” — aqui aplicam-se as regras da curadoria.
Artigo 2049.º CC “1. Se o sucessível chamado à herança, sendo conhecido, a não aceitar nem repudiar
dentro dos quinze dias seguintes, pode o tribunal, a requerimento do Ministério Público ou de qualquer
interessado, mandá-lo notificar para, no prazo que lhe for fixado, declarar se a aceita ou repudia. 2. Na
falta de declaração de aceitação, ou não sendo apresentado documento legal de repúdio dentro do prazo
fixado, a herança tem-se por aceita.”
Vamos falar da aceitação - a aceitação é a resposta positiva ao chamamento - e do repúdio - o ato que exclui
a aceitação sucessória.
Aceitação da herança como um ato livre – é um ato livre porque nós não temos chamados que tenham de
necessariamente responder positivamente. No direito romano, isto não acontecia assim – por uma questão de
continuidade relativamente ao pater famílias. Havia herdeiros que tinham necessariamente de suceder ao de
cujus. Nós não temos essa figura. É um ato livre e pessoal de cada um dos chamados.
Pode haver a transmissão do direito de aceitar ou repudiar a herança se o chamado falece sem o fazer. Já
vimos isto.
Quando ao repúdio – se é livre a aceitação, quer dizer que a outra face da moeda, que é o repúdio, é uma
resposta negativa que também é livre.
Artigo 2062.º CC “Os efeitos do repúdio da herança retrotraem-se ao momento da abertura da sucessão,
considerando-se como não chamado o sucessível que a repudia, salvo para efeitos de representação.” Aqui
temos outro exemplo de como o momento central para o fenómeno sucessório é o da abertura da sucessão.
Uma resposta negativa só pode vir a acontecer depois de ser feito o chamamento, mas vai retrotrair-se ao
momento da abertura da sucessão.
A aceitação da herança é anulável por dolo ou coação, mas não por simples erro. A sua anulabilidade só
pode existir em situações mais graves, no entendimento do legislador.
Quanto ao repúdio:
Segue a mesma forma da alienação da herança — Quanto à forma – artigo 2063.º CC – “O repúdio está
sujeito à forma exigida para a alienação da herança.” - Remissão para o artigo 2126.º CC “1 - Sem prejuízo
do disposto em lei especial, a alienação de herança ou de quinhão hereditário é feita por escritura pública
ou por documento particular autenticado se existirem bens cuja alienação deva ser feita por uma dessas
formas.” Fora destes casos vale documento particular.
O repúdio é anulável por dolo ou coação, mas não com fundamento em simples erro.
MOMENTOS EVENTUAIS:
1. Petição da herança:
Artigo 2075.º CC – petição da herança – “1. O herdeiro pode pedir judicialmente o reconhecimento da sua
qualidade sucessória, e a consequente restituição de todos os bens da herança ou de parte deles, contra
quem os possua como herdeiro, ou por outro título, ou mesmo sem título.”
2. Alienação da herança:
Artigo 2076.º CC. Mesmo antes da partilha pode haver alienação da herança.
3. Administração da herança:
Artigo 2079.º CC — “A administração da herança, até à sua liquidação e partilha, pertence ao cabeça-de-
casal.” O administrador de herança chama-se cabeça de casal — Note-se que não é a pessoa que no âmbito
do casamento decide mais (vale sempre o princípio da igualdade dos cônjuges). O cabeça-de-casal pode ou
não ser o cônjuge sobrevivo. Cabeça-de-casal é sinónimo de administrador da herança.
Artigo 2080.º CC “1. O cargo de cabeça-de-casal defere-se pela ordem seguinte: a) Ao cônjuge sobrevivo,
não separado judicialmente de pessoas e bens, se for herdeiro ou tiver meação nos bens do casal; b) Ao
testamenteiro, salvo declaração do testador em contrário; c) Aos parentes que sejam herdeiros legais; d) Aos
herdeiros testamentários.”
4. Liquidação da herança:
A herança responde por determinados encargos — arts. 2068º e 2070º CC (há uma ordem de preferência).
Depois, chegamos à partilha – também é um momento eventual – artigo 2101.º e ss. CC. Só existirá se
tivermos mais que um sucessível a ser chamado e a aceitar.
Artigo 2101.º CC “1. Qualquer co-herdeiro ou o cônjuge meeiro tem o direito de exigir partilha quando
lhe aprouver..”
Diferença entre partilha e legado: é necessário que os bens e as relações jurídicas que se desligaram do de
cujus se possam ligar a um novo sujeito, e só se faz determinando o que cabe a cada sujeito.
Já sabemos que a partilha conjugal é prévia à partilha sucessória. Quanto à partilha conjugal, em caso de
morte, não se vai aplicar o artigo 1790.º CC. “Em caso de divórcio, nenhum dos cônjuges pode na partilha
receber mais do que receberia se o casamento tivesse sido celebrado segundo o regime da comunhão de
adquiridos.” A partilha após a morte, segue-se o regime convencionado.
“2. Não pode renunciar-se ao direito de partilhar, mas pode convencionar-se que o património se conserve
indiviso por certo prazo, que não exceda cinco anos; é lícito renovar este prazo, uma ou mais vezes, por
nova convenção” — Temos um direito irrenunciável, mas em concreto esta exigibilidade da partilha pode ser
sucessivamente adiada por convenção entre os co-herdeiros.
A partir do momento em que se proceda à partilha cada um dos herdeiros vai ser considerado como o único
sucessor dos bens — note-se que não se fala apenas de bens como passíveis de ser herdados.
Esta partilha tem caráter retroativo — O nosso momento de referência, mais uma vez, é o momento da
abertura da sucessão.
Artigo 2102.º CC “1 - Havendo acordo dos interessados, a partilha é realizada nas conservatórias ou por
via notarial, e, em qualquer outro caso, por meio de inventário, nos termos previstos em lei especial.”.— A
partilha pode ser feita extrajudicialmente ou por meio de inventário.
Traços gerais:
Em 2013 houve uma passagem das competências tornando a regra a partilha extrajudicial; em 2019 tivemos
um regresso do inventário aos tribunais, mas isto depende das particularidades do regime do processo do
inventário.
Artigo 2104.º CC “1. Os descendentes que pretendam entrar na sucessão do ascendente devem restituir à
massa da herança, para igualação da partilha, os bens ou valores que lhes foram doados por este: esta
restituição tem o nome de colação.”
A colação diz respeito à restituição à massa da herança para igualação da partilha dos bens que foram
doados pelo autor da sucessão aos seus descendentes. Ao dar esta definição, já estamos a tomar uma série
de posições doutrinais.
Também não se confunde com a redução por inoficiosidade, que é a operação a que se procede para
preservar a quota dos herdeiros legitimários.
Temos um instituto que vai partir de uma reconstrução da vontade presumida do de cujus, do autor da
sucessão. O que é que presume o legislador? O legislador vai presumir que quando um ascendente faz
determinadas doações aos descendentes, geralmente, não o faz para o beneficiar face aos outros. Faz para
que se possa antecipar o gozo de uma determinada coisa.
Exemplo: O meu filho quer montar um atelier de arquitetura. Eu sou proprietário de um edifício
particularmente bem situado. Eu tenho outros filhos, mas aquele edifício era perfeito para o atelier. Eu
gostava de ajudar o meu filho a começar este projeto, e posso fazê-lo. Eu posso doar este edifício a este filho,
mas com isto eu não quero que os meus outros filhos recebam menos. Mais tarde, eles vão partilhar a
herança, este bem acabaria por ir calhar às mãos dele. Eu não quero beneficiar este filho, de todo, mas quero
antecipar que ele tem o gozo desta coisa.
Eu morro. Agora, este meu filho tem de restituir à massa da herança este bem que foi doado. Este bem não
está fora da massa da herança. Vai ter de ser considerado, vai ter de ser partilhado e a partilha vai ter de ter
em conta que o meu filho já recebeu este bem.
No fundo, a colação assenta na vontade presumida de que o autor da sucessão quis antecipar a quota
hereditária e não beneficiar um descendente em relação ao outro. O regime supletivo, aquele que funciona
se não houver manifestação de vontade noutro sentido é este, o regime da colação (depois veremos as outras
nuances que podemos ter).
Artigo 2104.º/2 CC “2. São havidas como doação, para efeitos de colação, as despesas referidas no artigo
2110.º”
Artigo 2110.º CC – distingue as despesas sujeitas e não sujeitas à colação - “1. Está sujeito a colação tudo
quanto o falecido tiver despendido gratuitamente em proveito dos descendentes. 2. Exceptuam-se as
despesas com o casamento, alimentos, estabelecimento e colocação dos descendentes, na medida em que se
harmonizem com os usos e com a condição social e económica do falecido.” Há aqui uma ponderação em
função do caso concreto. O que pode ser muitíssimo relevante num contexto económico e social pode não ser
nada relevante num outro determinado contexto.
Não há unanimidade relativamente a saber quem está obrigado à colação, quem deve substituir na massa de
herança as doações.
Artigo 2105.º CC “Só estão sujeitos à colação os descendentes que eram à data da doação presuntivos
herdeiros legitimários do doador.” A lei fala apenas em descendentes.
Também há aqui outra personagem que poderia considerar, mas na verdade e relativamente a esta
personagem tem havido discussão — o cônjuge:
A questão que se põe é relativamente aos cônjuges, se estão ou não sujeitos à colação – dentro da Escola de
Coimbra, o Prof. Capelo de Sousa defende que o cônjuge também estava sujeito à colação.
Na reforma de 1977 houve uma valorização da igualdade e dos cônjuges na família – houve uma
equiparação, em muitos momentos, da posição dos cônjuges à dos descendentes. Encontramos uma posição
doutrinal que defende que, também por isso, também as doações aos cônjuges ficam sujeitas à colação (ver
páginas no UcStudent).
A posição da Dra. Paula Vítor não é esta, a Dra. segue a posição do Dr. Pereira Coelho:
• De um ponto de vista histórico, nada nos indica que tem de haver um tratamento igual entre os cônjuges e
os descendentes.
• Também não parece à Dra. que possamos dizer que, quando há doações aos cônjuges, estejamos perante
uma antecipação da sucessão. Há o intuito de privilegiar o cônjuge. Há pouca previsibilidade da
antecipação da morte do cônjuge em relação ao outro. Não está sujeita à colação.
Depois, não é qualquer descendente, só estão sujeitos à colação – artigo 2105.º CC – os descendentes que
eram à data da doação presumidos herdeiros legitimários do doador.
Exemplo: A morre. Temos os filhos – B e C – e os netos D e E. O Avô morreu em 2023. O B tinha pré-
falecido em 2022. Em 2019, o avô tinha doado um automóvel ao neto (D, filho de B). O neto vai suceder ao
avô ou não? Vai. Em virtude do funcionamento do direito de representação – ele é descendente de um filho
pré-falecido. Apesar de existir o seu tio C e o princípio de preferência dos graus de parentesco, ele vai
suceder. D não era, à data da doação, presumível herdeiro legitimário do avô. À data da doação, presumível
herdeiro legitimário era o pai. O avô quis avantajar o neto.
Artigo 2106.º CC “A obrigação de conferir recai sobre o donatário, se vier a suceder ao doador, ou sobre
os seus representantes, ainda que estes não hajam tirado benefício da liberalidade.” O A doou, em 2010,
uma casa a C, que também pré-faleceu em 2022. O E, filho de C, também está sujeito à colação – mesmo se
não tiver tirado benefício da doação – a casa ardeu, por exemplo.
“que pretendam entra na sucessão” – quem é que pretende entrar na sucessão? É quem aceita.
Imaginemos que o C não morreu, não há pré-morte. O C foi beneficiário da doação da casa. Mas repudia a
herança. Se repudia, não está sujeito à colação.
Podíamos dizer que se isto era a maior parte do património do autor da sucessão, bem fez ele em repudiar.
Mas não é assim. Esta doação vai ser imputada na quota disponível e tem de estar dentro dos limites da quota
disponível. Se for maior do que o autor da doação podia dispor vai ser reduzida.
Então, quem está obrigado à colação são os descendentes presuntivos herdeiros legitimários à data da
doação, que pretendam entrar na sucessão. Quem não pretende entrar na sucessão é quem repudia. E que não
tenha sido dispensado de conferir os bens doados:
Dispensa da colação:
É necessário que não tenham sido dispensados de conferir os bens doados. Isso é muito importante porque
significa que as regras da colação não são imperativas.
Artigo 2113.º CC “1. A colação pode ser dispensada pelo doador no acto da doação ou posteriormente. 2.
Se a doação tiver sido acompanhada de alguma formalidade externa, só pela mesma forma, ou por
testamento, pode ser dispensada a colação.
Presunção de dispensa de colação — 3. A colação presume-se sempre dispensada nas doações manuais e nas
doações remuneratórias.”
Há situações onde a colação se presume sempre dispensada, isso acontece nas doações manuais ou nas
doações remuneratórias.
Exemplo: No meio de uma festa de família o autor da sucessão chega ao pé do filho mais velho e diz-lhe
“esta condecoração que era do bisavô vai ser para ti” (doação manual); ha um nexo relativamente a uma
situação anterior, não há pura gratuitidade (doação remuneratória)
Objeto da colação:
Com a doação temos um incremento patrimonial do lado do donatário; com as despesas isto não acontece,
contudo, pode justificar-se que estejam sujeitas à colação.
Art. 2110º CC: “1. Está sujeito a colação tudo quanto o falecido tiver despendido gratuitamente em
proveito dos descendentes. 2. Exceptuam-se as despesas com o casamento, alimentos, estabelecimento e
colocação dos descendentes, na medida em que se harmonizem com os usos e com a condição social e
económica do falecido.”
Imagine-se que temos um pai com dois filhos. Relativamente à filha mais velha, o pai depois de ela se
licenciar em Coimbra vai pagar-lhe um MBA com próprias muito altas e despesas altíssimas. Com o irmão
mais novo sito não acontece.
Isto está sujeito à colação? Se isto comporta um esforço muito grande para a família e até foi necessário
alienar património para tal — estará sujeito à colação; se já é o percurso académico normal naquela família, e
está dentro das possibilidades já não estará sujeito à colação.
Artigo 2108.º CC “1. A colação faz-se pela imputação do valor da doação ou da importância das despesas
na quota hereditária, ou pela restituição dos próprios bens doados, se houver acordo de todos os herdeiros.
2. Se não houver na herança bens suficientes para igualar todos os herdeiros, nem por isso são reduzidas as
doações, salvo se houver inoficiosidade.”
É o regime que funciona quando o autor da doação nada diz. Quando estamos perante doações omissas
aplica-se o regime do art. 2108º CC.
Exemplos:
1) Imaginemos que temos uma massa da herança no valor de 30 mil euros. Qual é o valor da quota
indisponível, se temos dois filhos? 20 mil. O que nos dá uma quota disponível de 10 mil euros.
Vamos imputar a doação na quota hereditária de B, só que ela extravasa os 10000€. Já não teria mais bens
para distribuir, e como estamos no regime supletivo nem por isso não reduzidas as doações e também não há
oficiosidade.
No regime supletivo o legislador conforma-se com o facto de não haver bens suficientes para fazer a
igualação.
2) B recebe a doação no valor de 5 mil euros — 5 mil na quota indisponível. E depois divide-se a quota
disponível, 5 mil a cada um.
3) Afinal, a doação era de 10 mil euros. Ele não recebe quanto à legitima subjetiva nada. Ainda recebe a sua
parte da quota disponível.
4) Afinal, valia 15 mil euros. Significa que apenas sobram 5 mil euros da quota disponível, que serão
utilizados para igualar a partilha (porque há remanescente). Vão para o C.
5) Voltemos a imaginar que valia 20 mil euros. Não sobra nada da herança legítima. O que é que acontece no
regime supletivo? O legislador conforma-se que pode não haver uma total igualação, se não houver bens
suficientes para a fazer. – Salvo se houver inoficiosidade:
Imaginem que a garagem custava 25 mil euros – na quota disponível, ele podia dispor de 10 mil euros, mas
dispôs de 15 mil (excede a quota disponível em 5000€). Há redução por inoficiosidade, que nada tem nada
que ver com colação, são dois institutos diferentes — aplica-se porque excedia a quota disponível.
(Redução por inoficiosidade é a operação a que se procede para proteger a integridade da legítima — vamos
ver adiante)
No regime supletivo, apesar de o legislador partir do princípio de que o autor da sucessão não quer avantajar
aquele descendente que foi donatário, conforma-se com a possibilidade de não haver total igualação se
não tivermos bens da herança suficientes para o fazer. Mas esse artigo diz “salvo se houver
inoficiosidade” - imaginem que a garagem custava 25 mil euros – na quota disponível, ele podia dispor de 10
mil euros. Dispôs de 15 mil. Há redução por inoficiosidade. Não tem nada que ver com colação. São dois
institutos diferentes.
Temos as chamadas doações “por conta da legítima”/colação absoluta — se uma doação é feita por conta
da legítima, se não estamos perante uma doação omissa, isto quer dizer que o autor da sucessão não se vai
conformar com a inexistência de bens para igualação da partilha. Mesmo que não tenhamos bens para igualar
a partilha dos descendentes, tem de haver uma igualação total, eventualmente até redução da doação para
uma igualação total.
Este regime não é objeto de uma disposição legal específica – apreendemo-lo pela lógica.
Exemplos:
Eu quero dispor daquela garagem para o meu filho. Faço-o. Mas não quero que ele fique beneficiado face ao
irmão. Se eu simplesmente fizesse esta doação e nada dissesse, se fosse uma doação omissa, iam pensar que
estava sujeita à colação – o legislador parte do princípio de que eu não quero beneficiar o meu filho e,
portanto, retoma à massa da herança para partilha.
Mas isto era o que diria se não soubesse direito das sucessões.
Vamos ter de reduzir a doação e o filho que a recebeu vai pagar ao irmão. Tem de haver igualação total.
Primeiro regime convencional – colação absoluta – doação por conta da legítima.
Imagine-se a tal doação no valor de 20 mil euros. Imputamos 10000 na quota disponível e 10 mil na quota
indisponível, já não haveria remanescente. Mas este não é o regime supletivo. Então reduz-se para 5 mil e os
restantes 5 mil vão para o outro filho.
Este é o segundo regime convencional – é um regime de não colação — o autor da sucessão quer
especificamente beneficiar este descendente. Não tem de haver igualação.
Vamos olhar para o artigo 2113.º CC “1. A colação pode ser dispensada pelo doador no acto da doação ou
posteriormente.” – É possível dispensa a colação. E pode ser logo no ato da doação ou pode ser posterior.
Aqui, a lei vai dizer-nos como é que vamos proceder – artigo 2114.º CC “1. Não havendo lugar à colação, a
doação é imputada na quota disponível.” “2. Se, porém, não houver lugar à colação pelo facto de o
donatário repudiar a herança sem ter descendentes que o representem, a doação é imputada na quota
indisponível.”
Eu quero beneficiar a minha filha mais velha, não quero que ela tenha de devolver à irmã depois na partilha.
A cada uma das filhas cabe a sua quota legitimária. A parte da herança que pode dispor - faz a doação com
dispensa de colação e imputa na quota disponível essa doação. Por exemplo, eu fiz uma doação com dispensa
da colação de 10 mil euros a uma filha, que não é imputada do lado da quota indisponível, vai ser imputada
na quota disponível (que já era de 10 mil euros, posso dispor livremente).
Imagine-se que afinal fiz uma doação no valor de 15 mil euros. Mas a massa da herança continuar ser de 30
mil — imputa-se 10000 na quota disponível e os restantes 5000 imputa-se na legítima subjectiva (quota
indisponível) e ela depois já só terá de receber mais 5000 dessa legítima subjetiva. A outra filha terá a sua
legítima subjetiva também de 10000€, e nada do lado da quota disponível.
Então:
• No regime da colação, o que está em causa, no fundo, era o tratamento do ponto de vista sucessório das
doações que são feitas aos descendentes, tendo em vista antecipar o gozo relativamente a esses bens. Isto
corresponde ao regime supletivo. Aquilo que o legislador pressupõe e que, na ausência de manifestação de
vontade do disponente noutro sentido, faz funcionar. Mas podemos ter regimes diferentes.
• Podemos ter situações em que, não querendo beneficiar o descendente, vai mais longe – exige que exista
esta igualação. Estamos aqui perante as doações por conta da legítima ou colação absoluta.
• Depois, também encontramos outro regime da colação que, no fundo, é o regime da não colação – o
regime da dispensa da colação. Quando, efetivamente, o ascendente quer beneficiar o descendente com
uma destas doações.
Artigo 2108.º CC “1. A colação faz-se pela imputação do valor da doação ou da importância das despesas
na quota hereditária, ou pela restituição dos próprios bens doados, se houver acordo de todos os herdeiros.”
Não só se aplica às doações, mas também a determinadas despesas. Pode fazer-se em valor, mas também
em espécie.
Artigo 2109.º CC “1. O valor dos bens doados é o que eles tiverem à data da abertura da sucessão.
2. Se tiverem sido doados bens que o donatário consumiu, alienou ou onerou, ou que pereceram por sua
culpa, atende-se ao valor que esses bens teriam na data da abertura da sucessão, se não fossem consumidos,
alienados ou onerados, ou não tivessem perecido.”
O valor dos bens doados que importa é a data que os bens tivessem à data da abertura da sucessão. Se o
bem tiver valorizado imenso, há aqui distorções.
A morre. A doação tinha sido feita há 5 anos, entretanto o bem já não existe no antimónio do donatário.
Ainda assim, este valor é considerado tendo em conta o valor que teria na data da abertura da sucessão.
No artigo 2109.º CC fala-se de culpa porque, se for não imputável, há outro tratamento.
O art. 2111º CC fala dos frutos: “Os frutos da coisa doada sujeita a colação, percebidos desde a abertura
da sucessão, devem ser conferidos.”
O autor da sucessão fez a doação do prédio de apartamentos a um dos filhos há 5 anos. O filho desde então
recebe as rendas — estas vão ser consideradas para efeitos da colação.
CONSIDERAÇÕES FINAIS
Vamos agora explicar melhor alguns conceitos relativos aos diferentes tipos de sucessão, organizando o
pensamento em relação a matérias que já mencionamos antes.
Sucessão legítima:
Artigo 2131.º CC “Se o falecido não tiver disposto válida e eficazmente, no todo ou em parte, dos bens de
que podia dispor para depois da morte, são chamados à sucessão desses bens os seus herdeiros legítimos.”
Há sucessão legitima em que situações? Casos em que noa há testamento a dispor desses bens; casos em que
testador só dispôs de parte dos bens; casos em que testamento não é válido ou é ineficaz (foi revogado ou
está caducado).
Há situações em que a sucessão legitima só opera no âmbito da quota disponível, porque quando há
herdeiros legitimários há uma parte reservada e nesse âmbito não operam regras da sucessão legítima.
Mas não havendo herdeiros legitimários, a quota legítima pode abranger a totalidade da massa da herança.
O artigo 2133.º CC organiza os herdeiros numa determinada ordem. Já quase não subsistem adotados
restritamente e já não existe adoção restrita, então vai cair em desuso esta expressão utilizada.
“1. A ordem por que são chamados os herdeiros, sem prejuízo do disposto no título da adopção, é a seguinte:
a) Cônjuge e descendentes;
b) Cônjuge e ascendentes;
c) Irmãos e seus descendentes;
d) Outros colaterais até ao quarto grau;
e) Estado.”
Os colaterais não são todos tratados da mesma forma. E quando dizemos isto não tem só que ver com os
graus de parentesco. Os irmãos, como é que os classificamos do ponto de vista familiar? São parentes em
linha colateral em 2.º grau. Irmãos são os colaterais mais próximos.
E os descendentes dos irmãos, por exemplo? Um sobrinho? Linha colateral em 3.º grau.
E se for filho de um sobrinho? Um sobrinho-neto? Parente na linha colateral em 4.º grau. Quem é que é outro
parente na linha colateral em 4.º grau? Primos. Se tivermos um primo e um sobrinho neto, quem é que tem
prioridade? O sobrinho-neto.
Na ausência de parentes que se incluam nestas classes a herança vai ser declarada vaga e aparece o Estado
como sucessor.
Artigo 2133.º/2 CC – vai esclarecer a posição do cônjuge. Este artigo não se alterou com as alterações de
2018.
“2. O cônjuge sobrevivo integra a primeira classe de sucessíveis, salvo se o autor da sucessão falecer sem
descendentes e deixar ascendentes, caso em que integra a segunda classe.”
“3. O cônjuge não é chamado à herança se à data da morte do autor da sucessão se encontrar divorciado
ou separado judicialmente de pessoas e bens, por sentença que já tenha transitado ou venha a transitar em
julgado, ou ainda se a sentença de divórcio ou separação vier a ser proferida posteriormente àquela data,
nos termos do n.º 3 do artigo 1785.º”.
O direito ao divórcio não se transmite por morte, mas a ação pode ser continuada pelos herdeiros do
autor para efeitos patrimoniais, se o autor falecer na pendência da causa – artigo 1785.º CC – mesmo que
ainda não se tenha dado transito em julgado daquela sentença, a verdade é que o cônjuge relativamente ao
qual ia ser decretado o divórcio, não vai suceder.
Em 2018 tivemos um aditamos ao artigo 1700.º/1, alínea c) CC, e depois outras normas, que veio permitir a
renúncia recíproca à condição de herdeiro legitimário:
Não está aqui em causa a sucessão legítima, mas apenas a sucessão legitimária. Para afastar o cônjuge da
sucessão legítima, é só dispor de toda a quota legitima. Mas acrescenta-se esta outra hipótese do cônjuge
não ser herdeiro legitimário — a renúncia recíproca à condição de herdeiro legitimário.
Artigo 1707º-A CC: “A renúncia pode ser condicionada à sobrevivência ou não de sucessíveis de qualquer
classe, bem como de outras pessoas, nos termos do artigo 1713.º, não sendo necessário que a condição seja
recíproca. 2. A renúncia apenas afeta a posição sucessória do cônjuge, não prejudicando designadamente o
direito a alimentos do cônjuge sobrevivo, previsto no artigo 2018.º, nem as prestações sociais por morte.”
Apenas implica que o cônjuge sobrevivo não seja herdeiro legitimário, mas não prejudica o apanágio do
cônjuge sobrevivo.
“3. Sendo a casa de morada de família propriedade do falecido, o cônjuge sobrevivo pode nela permanecer,
pelo prazo de cinco anos, como titular de um direito real de habitação e de um direito de uso do recheio.” —
na união de facto há um prazo mínimo de 5 anos, mas pode ser maior e aqui nem isso, temos uma maior
desproteção.
Art. 2168º CC: “Dizem-se inoficiosas as liberalidades, entre vivos ou por morte, que ofendam a legítima
dos herdeiros legitimários. 2. Não são inoficiosas as liberalidades a favor do cônjuge sobrevivo que tenha
renunciado à herança nos termos da alínea c) do n.º 1 do artigo 1700.º, até à parte da herança
correspondente à legítima do cônjuge caso a renúncia não existisse.”
A e B eram casados. A tinha dois filhos, C e D. Deixou uma massa de herança no valor de 90 mil euros.
QI = 60000
QD = 30000
A morre e os seus filhos C e D têm direito à sua legitima subjectiva, 30 mil cada um (dentro dos 60 mil).
Contudo, o autor da sucessão faz uma doação ao seu cônjuge no valor de 50 mil euros. Este cônjuge não é
herdeiro legitimário, não tem nada a receber do lado da quota indisponível, a doação é imputada do lado da
QD. Só que 50 mil extravasam a QD, que é de 30 mil. Teria de ser reduzido por inoficiosidade.
Mas o 2168º diz que não são inoficiosas as liberalidades a favor do cônjuge sobrevivo que tenha renunciado
à herança nos termos da alínea c) do n.º 1 do artigo 1700.º, até à parte da herança correspondente à legítima
do cônjuge caso a renúncia não existisse — temos de ficcionar uma legítima do cônjuge caso a renúncia
não existisse.
QI = 60 mil
QD = 30 mil
Então, esta doação não tem de ser reduzida, B recebe 20 mil imputados na QI e 30 mil na QD.
Esta renúncia é uma situação excecional, só pode ser feita pelo cônjuge e nestes termos específicos.
(1) Princípio da preferência de classes - Os herdeiros de cada classe de sucessíveis preferem aos das
classes imediatas – artigo 2134.º CC.
Isto acontece, como vimos, também quanto a parentes na linha colateral no mesmo grau.
(2) Dentro de cada classe, os parentes de grau mais próximo preferem aos parentes de grau mais afastado –
princípio da preferência dos graus de parentesco – artigo 2135.º CC. É isso que nos faz afastar netos
quando haja filhos sobrevivos, por exemplo.
(3) Vimos também o princípio da sucessão por cabeça – os parentes dentro de cada classe sucedem por
cabeça, em partes iguais, salvo as exceções previstas no Código – artigo 2136.º CC.
Temos um avô. Deixa dois filhos pré-falecidos. B tem um filho (D) e C tem dois filhos (E e F). A partilha
não se vai fazer por cabeça, mas sim por estirpes. Cada um recebe o que cabia ao seu progenitor.
(2) Há ainda um outro caso em que funciona uma exceção a este princípio da sucessão por cabeça – caso da
sucessão de irmãos e seus descendentes – artigo 2145.º e 2146.º CC:
Temos um A, que é filho de um Pai e de uma Mãe. Tem um irmão que é filho também do seu pai e da sua
mãe – irmão Germano, Gil, irmão bilateral; tem um outro irmão que é filho apenas do seu pai – irmão
Consanguíneo, Cristovão; e tem uma irmã que é filha apenas da sua mãe – irmã Uterino, a Úrsula.
O pai e a mãe são pré-falecidos. A morre. Só sobrevivem os irmãos. A lei vem dizer que o irmão germano
vai receber o dobro do que recebem os irmãos uterino e consanguíneo.
Temos uma massa da herança de 4 mil euros. Temos um irmão germano e dois irmãos unilaterais. Fazemos
2x1 (1 irmão germano) + 2 (2 irmãos unilaterais). Vamos dividir por 4, que dá 1000 euros. O irmão germano
vai receber 2 mil. Os outros vão receber mil euros cada.
(3) Outra exceção que também já conhecemos – artigo 2139.º CC. “1. A partilha entre o cônjuge e os filhos
faz-se por cabeça, dividindo-se a herança em tantas partes quantos forem os herdeiros; a quota do cônjuge,
porém, não pode ser inferior a uma quarta parte da herança.”
A morre. Deixa o marido e dois filhos. Deixa uma herança de 3 mil euros. Divide-se por cabeça. Mil para
cada um.
A morre. Deixa o marido e 3 filhos. Deixa 4 mil euros – 1000 para cada um.
A morre. Deixa o marido e 4 filhos. Divide-se por cabeça? Já não. Divide-se por 4. 1/4 fica para o cônjuge e
o restante, sim, vai ser divido por cabeça.
Artigo 2141.º CC “Na falta de descendentes sucede o cônjuge, sem prejuízo do disposto no capítulo
seguinte.”
Se não houver descendentes e o autor da sucessão deixar cônjuge e ascendentes, ao cônjuge pertencerão 2/3
parte e aos ascendentes 1/3 parte da herança. Se assim é, não funciona a mesma regra desta divisão paritária.
Apesar de tudo, os ascendentes têm uma posição privilegiada relativamente ao direito de acrescer. Se algum
dos ascendentes não quiser ou não puder aceitar, a sua parte acresce à do outro. O direito de acrescer fica
contido entre os ascendentes.
Artigo 2147.º CC “Na falta de herdeiros das classes anteriores, são chamados à sucessão os restantes
colaterais até ao quarto grau, preferindo sempre os mais próximos.”
Temos regras diferentes para irmãos e seus descendentes e outros colaterais até ao 4º grau. Um sobrinho neto
é colateral até 4º grau, mas é um colateral descendente de um irmão. Na alínea c) do art. 2133º diz “irmãos e
seus descendentes” e há regras especificas para esses.
Aqui, não vai funcionar o direito de representação. Esse dá-se a favor dos irmãos e seus descendentes da
alínea c) do 2133º, não da alínea d).
Imagine-se que temos um tio pré-falecido. Relativamente a um primo, se concorre com outros primos, não há
direito de representação.
Imagine-se que o A morre e os seus parentes mais próximos são dois tios. Se são os parentes mais próximos
estes dois tios, são parentes na linha colateral em 3.º grau. Um dos tios, na verdade, é pré-falecido e tinha
deixado um filho. Havendo o outro tio, o filho não sucede representativamente ao pai que faleceu, porque vai
preferir o parente de grau mais próximo. O outro é de 4.º grau e este é de 3.º grau.
Agora imagine-se que A morre, tem 3 primos. Um primo é pré-falecido e tem um filho. Relativamente a esse
filho não há direito de representação, não funciona nestes colaterais. Serão chamados os dois primos mais
próximos.
Tem as obrigações de qualquer herdeiro. Não necessita de aceitar a herança, ela vai ser decretada ope
legis; mas tem de ser reconhecida judicialmente a inexistência de outros sucessíveis legítimos para que ela
seja declarada vaga a favor do Estado.
Primeiro, sabemos o que é legitima – artigo 2156.º CC “Entende-se por legítima a porção de bens de que o
testador não pode dispor, por ser legalmente destinada aos herdeiros legitimários.”
Sabemos quem são os herdeiros legitimários – artigo 2157.º CC “São herdeiros legitimários o cônjuge, os
descendentes e os ascendentes, pela ordem e segundo as regras estabelecidas para a sucessão legítima.”
Sejam em que grau os descendentes e em que grau os ascendentes.
É necessário que haja o concurso da vontade de ambos os cônjuges. A possibilidade desta renúncia foi
pensada para um determinado quadro prático, mas que na redação final acabou por não se traduzir de forma
evidente. Foi pensada para responder às situações em que as pessoas não se casavam porque este tinha
consequências hereditárias. Mas, na verdade, o regime da renúncia à condição de herdeiros está no artigo
1707.º -A e a lei acaba por não exigir que haja outros sucessíveis. Não reflete a necessidade da presença de
interesses sucessórios dos filhos, embora tenha sido esta a justificação que esteve na base da criação deste
regime.
É uma exceção à imperatividade do artigo 2157.º CC. É necessário que haja escolha do regime de separação
de bens ou que este seja o regime imperativo. Nada impedia este regime ao abrigo de um regime de
comunhão. Mas não existe. Este tem de ser feito em convenção antenupcial, está sujeito à forma desta, tem
lugar apenas em momento anterior à celebração do casamento, a condição da sobrevivência ou não de
sucessíveis é meramente eventual e a condição pode não ser recíproca, embora a renúncia tenha de o ser.
Artigo 1707.º-A “1 - A renúncia pode ser condicionada à sobrevivência ou não de sucessíveis de qualquer
classe, bem como de outras pessoas, nos termos do artigo 1713.º, não sendo necessário que a condição seja
Este último número faz-nos lembrar a união de facto, mas é menos favorável do que o regime da união de
facto.
Quanto à sucessão legitimária também sabemos que as quotas indisponíveis ou a legítima global não são
sempre iguais. Podem ser diversas consoante os herdeiros legitimários com que nos confrontamos.
Artigos 2158.º a 2161.º CC.
Art. 2159º CC: “1. A legítima do cônjuge e dos filhos, em caso de concurso, é de dois terços da herança.2.
Não havendo cônjuge sobrevivo, a legítima dos filhos é de metade ou dois terços da herança, conforme
exista um só filho ou existam dois ou mais.”
Artigo 2158.º CC “A legítima do cônjuge, se não concorrer com descendentes nem ascendentes, é de metade
da herança.” Artigo 2159.º CC “1. A legítima do cônjuge e dos filhos, em caso de concurso, é de dois terços
da herança. 2. Não havendo cônjuge sobrevivo, a legítima dos filhos é de metade ou dois terços da herança,
conforme exista um só filho ou existam dois ou mais.”
Artigo 2160.º CC “Os descendentes do segundo grau e seguintes têm direito à legítima que caberia ao seu
ascendente, sendo a parte de cada um fixada nos termos prescritos para a sucessão legítima.”
Artigo 2161.º CC “1. A legítima do cônjuge e dos ascendentes, em caso de concurso, é de dois terços da
herança. 2. Se o autor da sucessão não deixar descendentes nem cônjuge sobrevivo, a legítima dos
ascendentes é de metade ou de um terço da herança, conforme forem chamados os pais ou os ascendentes do
segundo grau e seguintes.”
Quanto ao cálculo da legítima, tratamos dele de um ponto de vista mais prático. O artigo 2162.º CC fala-nos
do cálculo da massa da herança quando estamos perante sucessão legitimária – dá-nos a base para
depois calcularmos as legítimas.
Para depois nós podemos calcular esta quota indisponível, temos de atender ao valor dos bens existentes no
património do autor da sucessão à data da sua morte, ao valor dos bens doados, às despesas sujeitas a colação
e às dívidas da herança. Temos de fazer uma interpretação corretiva deste artigo – é a posição sólida da
Escola de Coimbra e em termos jurisprudenciais:
Temos de avaliar os bens deixados, mas a segunda operação não é somar aos bens deixados os bens doados,
é subtrair as dívidas. As doações depois é que depois vão ser somadas.
Isto protege os herdeiros legitimários de heranças deficitárias, para evitar que fiquem sem nada. Os credores
não se podem fazer pagar pelos bens que foram doados pelo autor da sucessão.
Só na sucessão legitimária se justifica tomar em conta as doações feitas pelo autor da sucessão, porque ele
não pode dispor dos seus bens sem respeitar a parte reservada aos herdeiros legitimários.
Vamos incluir todas as doações, mas só as despesas sujeitas à colação é que incluímos aqui.
Art. 2163º CC — O testador não pode impor encargos sobre a legitima, nem designar os bens que a podem
preencher contra a vontade do herdeiro.
Mas podemos ter o chamados legados por conta da legítima – o autor da sucessão pode determinar em
testamento que certos bens integrem a legitima do donatário.
Artigo 2165.º CC “1. Pode o autor da sucessão deixar um legado ao herdeiro legitimário em substituição
da legítima. 2. A aceitação do legado implica a perda do direito à legítima, assim como a aceitação da
Vamos falar agora da proteção que se dá à quota indisponível através da chamada redução das liberalidades
por inoficiosidade:
Artigo 2168.º CC “1 - Dizem-se inoficiosas as liberalidades, entre vivos ou por morte, que ofendam a
legítima dos herdeiros legitimários.”
Há um tipo de liberalidades que recebe uma determinada classificação de inoficiosas e essas liberalidades
podem ter sido feitas intervivos ou mortis causa – são as liberalidades que ofendem as legitimas dos
herdeiros legitimários. O autor da sucessão pode dispor de determinados bens, mas só até um determinado
ponto. Enquanto haja herdeiros legitimários, a quota indisponível está-lhes reservada.
“2 - Não são inoficiosas as liberalidades a favor do cônjuge sobrevivo que tenha renunciado à herança nos
termos da alínea c) do n.º 1 do artigo 1700.º, até à parte da herança correspondente à legítima do cônjuge
caso a renúncia não existisse.”
Quando temos herdeiros legitimários, temos uma parte da herança de que o autor não pode dispor – quota
indisponível – e uma parte da herança que o autor pode dispor – quota disponível. Essa quota indisponível
vai variar consoante quem são os herdeiros legitimários e até do número de herdeiros legitimários. Este
regime da sucessão legitimária é imperativo, mas, em 2018, o legislador abriu a possibilidade de haver
renúncia recíproca por parte dos cônjuges à condição de herdeiros legitimários. Neste caso, o cônjuge não
tem direito à sua legitima subjetiva.
No entanto, se o autor da sucessão resolveu dispor dos seus bens a favor do cônjuge sobrevivo, renunciou à
herança e dispôs de tanto que ultrapassava a quota indisponível e que faria com que essas liberalidades
tivessem de ser reduzidas, nesse caso, vai-se ficcionar que o cônjuge iria concorrer como herdeiro legitimário
e vai-se criar uma legitima subjetiva fictícia e vai imputar-se até ao valor dessa legitima para que não haja
redução dessas liberalidades.
É importante ter em conta que não é necessário que estas liberalidades sejam reduzidas e que está na mão dos
herdeiros legitimários requererem que tal se faça.
Artigo 2169.º CC – “As liberalidades inoficiosas são redutíveis, a requerimento dos herdeiros legitimários
ou dos seus sucessores, em tanto quanto for necessário para que a legítima seja preenchida.” Ou seja, em
tanto quando exceda a quota disponível.
Apesar de existir este impulso, a imperatividade do impulso não significa ser permitida a renúncia ao
direito de reduzir as liberalidades – artigo 2170.º CC – “Não é permitida em vida do autor da sucessão a
renúncia ao direito de reduzir as liberalidades.”
Artigo 2171.º CC “A redução abrange em primeiro lugar as disposições testamentárias a título de herança,
em segundo lugar os legados, e por último as liberalidades que hajam sido feitas em vida do autor da
sucessão.”
Podemos ter várias que integram a mesma categoria. Temos um artigo que nos fala da redução das
disposições testamentárias e outro que nos fala da redução das disposições feitas em vida.
Artigo 2172.º CC “1. Se bastar a redução das disposições testamentárias, será feita proporcionalmente,
tanto no caso de deixas a título de herança como a título de legado. 2. No caso, porém, de o testador ter
declarado que determinadas disposições devem produzir efeito de preferência a outras, as primeiras só
serão reduzidas se o valor integral das restantes não for suficiente para o preenchimento da legítima. 3.
Gozam de igual preferência as deixas remuneratórias.” O critério quanto às disposições testamentárias é o
critério da proporcionalidade, a não ser que haja outra indicação do autor da sucessão – em homenagem à
autonomia da vontade do disponente.
Artigo 2173.º CC “1. Se for necessário recorrer às liberalidades feitas em vida, começar-se-á pela última,
no todo ou em parte; se isso não bastar, passar-se-á à imediata; e assim sucessivamente. 2. Havendo
Exemplo:
A morre.
QI = 60000
QD = 30000
B, C, D - 20 mil cada da QI
Em testamento deixou ao primo um legado no valor de 10 mil euros. Tinha doado a A, amiga, em 2009, no
valor de 10 mil euros.
No testamento tinha deixado metade da quota disponível ao filho B e ainda tinha feito uma doação com
dispensa da colação em 2014 à filha C.
P - imputamos os 10 mil legado na QD; a B 15 mil na QD; a A 10 mil na QD; a C 5 mil na QD.
Reduzimos a disposição testamentária a título de herança primeiro — reduzimos em 10 mil (fica 5 mil em
vez de 15 mil).
Modificando os valores:
Disposição testamentária agora de 5 mil; doação de 5 mil em 2014; doação de 5 mil em legado; 40 mil em
2009 a A.
1º reduzidos as disposições testamentárias a título de herança. Reduzimos a totalidade aqui. Mas ainda
excede a quota disponível, temos de continuar a reduzir liberalidade.
3º reduzimos as liberalidades feitas em vida — temos duas, qual reduzimos primeiro? O art. 2073º aplica-se
aqui — temos de começar pela última que foi feita, a de 2014, reduzimos a doação.
Ainda assim, ainda temos uma doação que ultrapassa a QD — reduzimos a de 40 mil euros em 10 mil euros
para os 30 mil, que é o limite da QD.
Bens indivisíveis:
Artigo 2174.º CC “1. Quando os bens legados ou doados são divisíveis, a redução faz-se separando deles a
parte necessária para preencher a legítima. 2. Sendo os bens indivisíveis, se a importância da redução
exceder metade do valor dos bens, estes pertencem integralmente ao herdeiro legitimário, e o legatário ou
donatário haverá o resto em dinheiro; no caso contrário, os bens pertencem integralmente ao legatário ou
donatário, tendo este de pagar em dinheiro ao herdeiro legitimário a importância da redução. 3. A reposição
de aquilo que se despendeu gratuitamente a favor dos herdeiros legitimários, em consequência da redução, é
feita igualmente em dinheiro.”
Um bem é indivisível, a doação de 40 mil euros foi de um piano, imagine-se. Se a importância da redução for
mais de 20 mil euros, o bem pertence integralmente ao herdeiro legitimário.
Mas não foi este o caso, a redução não excedeu metade do valor — só temos de reduzir a doação em 10 mil
euros, a amiga continua com o piano e tem de pagar em dinheiro aos herdeiros legitimários a importância da
redução.
Deserdação:
É a única possibilidade que o autor da sucessão tem de, unilateralmente, afastar herdeiros legitimários da
sucessão — art. 2166º CC.
“O autor da sucessão pode em testamento, com expressa declaração da causa, deserdar o herdeiro
legitimário, privando-o da legítima, quando se verifique alguma das seguintes ocorrências:
a) Ter sido o sucessível condenado por algum crime doloso cometido contra a pessoa, bens ou honra do
autor da sucessão, ou do seu cônjuge, ou de algum descendente, ascendente, adoptante ou adoptado,
desde que ao crime corresponda pena superior a seis meses de prisão;
b) Ter sido o sucessível condenado por denúncia caluniosa ou falso testemunho contra as mesmas pessoas;
c) Ter o sucessível, sem justa causa, recusado ao autor da sucessão ou ao seu cônjuge os devidos
alimentos.”
Esta alínea c) é muitas vezes discutida quanto ao abandono dos ascendentes por parte dos descendentes. Não
é muito frequente termos os pais a intentarem ação de alimentos contra os seus filhos maiores. Portanto,
mesmo que estejamos perante situação em que na prática faltou esta apoio, tem de ter havido obrigação de
alimentos e incumprimento da mesma.
No testamento temos um ato unilateral, pelo qual qualquer pessoa dispõe para depois da morte de todos os
seus bens ou de parte deles – artigo 2179.º CC: “Diz-se testamento o acto unilateral e revogável pelo qual
uma pessoa dispõe, para depois da morte, de todos os seus bens ou de parte deles.” — Este é o conteúdo
típico do testamento.
Contudo, é possível inserir outro tipo de cláusulas de caráter não patrimonial – artigo 2179.º/2 CC: “As
disposições de carácter não patrimonial que a lei permite inserir no testamento são válidas se fizerem parte
de um acto revestido de forma testamentária, ainda que nele não figurem disposições de carácter
patrimonial.” — conteúdo atípico do testamento.
Por exemplo:
• podem os pais estabelecer quem vai ser o acompanhante do filho com capacidade diminuída (art. 143º
CC);
• podem-se fazer disposições relativamente ao cadáver — quero ser cremada em vez de enterrada, e quero
que as minhas cinzas sejam atiradas ao Mondego;
O testamento é um negócio
• unilateral;
• não recetício;
• pessoal - não admite representação - se eu for sujeita a uma medida de acompanhamento, ainda que sejam
concedidos poderes de representação em termos gerais ao representante, nunca isto poderia implicar que o
representante tivesse um poder para redigir testamento em nome da pessoa acompanhada;
É livremente revogável – esta livre revogabilidade do testamento contribui para a maleabilidade, aquela
flexibilidade, aquela falta de estaticidade das designações sucessórias. Na véspera eu posso ter deixado toda
a minha herança a uma associação determinada e, hoje, revogo o testamento, atravesso a rua, sou atropelado
e o meu primo, colateral em 4.º grau, recebe tudo a título de sucessão legítima.
Artigo 2204.º CC “As formas comuns do testamento são o testamento público e o testamento cerrado.”
Também temos as formas especiais – além do testamento militar, o testamento feito a bordo de navio, ou a
bordo de aeronave. Talvez o que possa ter mais relevância é o testamento feito em caso de calamidade
pública. As formalidades são diminuídas, mas depois tem de haver posteriormente um depósito, logo que
possível, em termos notariais.
Esta regra é especial face aos critérios gerais dos negócios jurídicos. “1. Na interpretação das disposições
testamentárias observar-se-á o que parecer mais ajustado com a vontade do testador, conforme o contexto
do testamento. 2. É admitida prova complementar, mas não surtirá qualquer efeito a vontade do testador que
não tenha no contexto um mínimo de correspondência, ainda que imperfeitamente expressa.” O critério é a
vontade do testador – a vontade real do testador, ainda que imperfeitamente expressa. Para isso é possível
fazer prova complementar.
Artigo 236.º CC “1. A declaração negocial vale com o sentido que um declaratário normal, colocado na
posição do real declaratário, possa deduzir do comportamento do declarante, salvo se este não puder
razoavelmente contar com ele.” Qual é a diferença?
No testamento, é a vontade do disponente. Nas outras declarações negociais, é o que o normal declaratário
conseguiria, segundo um critério de razoabilidade, extrair daquela declaração negocial.
Imaginem que eu tenho uma caixa de música antiga, muito bonita – eu chamo-lhe sempre “a minha
pandora”. Em testamento, eu digo que deixo a minha pandora à minha neta – as pessoas andam à procura de
pulseiras nas minhas jóias. Não encontram nenhuma pulseira que corresponda. Entretanto, faz-se prova
complementar de que eu, toda a vida, chamei pandora àquela caixa. A vontade real do testador, ainda que não
seja imediatamente percetível, é admitida prova complementar desde que tenha no contexto um mínimo de
correspondência.
Art. 2028º CC: “Há sucessão contratual quando, por contrato, alguém renuncia à sucessão de pessoa viva,
ou dispõe da sua própria sucessão ou da sucessão de terceiro ainda não aberta.”
Constitui uma exceção à proibição dos pactos sucessórios: A regra é a da inadmissibilidade dos pactos
sucessórios, mas há exceções previstas na lei, sendo uma delas o previsto no artigo 1700.º/1, alínea c) CC.
So temos sucessão contratual nos casos muito limitados nos casos previstos na lei — arts. 1700º, 1704º e
1705º CC.
Olga e Jorge, ambos bailarinos clássicos, pretendem celebrar casamento segundo um regime de bens
diferente do regime supletivo.
Para tanto, celebraram, em agosto de 2021, por escrito particular, convenção antenupcial onde
estipularam o seguinte:
1.º O regime de bens do casamento será o da comunhão de adquiridos até Olga completar a sua
licenciatura em Dança; depois dessa data passará a ser o regime da separação de bens;
3.º Será considerado bem comum qualquer indemnização que os cônjuges venham a receber por danos
causados no exercício das suas profissões.
4.º Todos os bens adquiridos por doação pelos cônjuges serão considerados bens próprios.
b) Suponha que a convenção foi celebrada por escritura pública e o casamento se celebrou em junho
de 2022. Aprecie o valor da convenção e das diferentes cláusulas à luz desta alteração.
Estamos a falar de efeitos patrimoniais do casamento, essencialmente, mas não só. O casamento é uma
relação familiar que cria um estado novo, o estado de casado, e isto tem efeitos sobre as pessoas e sobre os
bens.
Artigo 1577.º CC “Casamento é o contrato celebrado entre duas pessoas que pretendem constituir família
mediante uma plena comunhão de vida, nos termos das disposições deste Código.” O ponto de partida é
identificarmos a relação familiar que está aqui em causa.
Esta relação familiar é particular porque vai fazer com que àquelas pessoas se apliquem regras que não se
aplicariam num contexto não familiar, não matrimonial.
Quando se fala em plena comunhão de vida, sabemos que isto tem um significado do ponto de vista dos
efeitos pessoais dos cônjuges, mas também significa que há comunhão dos efeitos patrimoniais. Há um
regime especial à parte do direito das obrigações e do direito das coisas para servir este tipo de relação.
Começámos por ver – se não funciona o regime supletivo, não funciona o regime de comunhão de
adquiridos, então temos que nos confrontar com outro instrumento – temos de ter uma convenção
antenupcial. Trata-se aqui de avaliarmos esta convenção, perceber se é válida, quais os seus efeitos jurídicos
Convenção antenupcial – é um contrato celebrado entre os esposos (nubentes) que visa fixar o regime de
bens do casamento. Vimos que é um contrato acessório do casamento – a sua eficácia vai depender da
existência e da validade do casamento que vai ser celebrado. Mas também vai depender de uma análise da
convenção em si.
É possível incluir outro tipo de clausulas, mas no fundo é essencial esta definição – porque a convenção
antenupcial existe para fixar o regime de bens (apesar de estas poderem ser usadas para outros fins que não
este).
Estando perante um contrato acessório do casamento, continuamos a estar perante um contrato, apesar das
especificidades do direito da família. Então, também temos de analisar uma serie de planos relevantes, do
ponto de vista formal e substancial, para este contrato.
Temos de começar pela possibilidade de escolher um regime diferente do que é determinado pela lei para
valer na ausência de manifestação de vontade dos agentes. À partida, por regra, eles podem escolher o
regime que quiserem – no âmbito das convenções antenupciais vigora o princípio da liberdade – artigo
1698.º CC “Os esposos podem fixar livremente, em convenção antenupcial, o regime de bens do casamento,
quer escolhendo um dos regimes previstos neste código, quer estipulando o que a esse respeito lhes
aprouver, dentro dos limites da lei.”
Celebraram em agosto de 2021, por escrito particular, convenção antenupcial. Teriam capacidade para
celebrar esta convenção antenupcial?
Quem tem capacidade para celebrar convenções antenupciais é quem tem capacidade para celebrar
casamento – artigo 1708.º CC – não têm capacidade para celebrar casamento são os menores de 16 anos,
alguns maiores acompanhados, as pessoas já casadas – quem tem capacidade para contrair casamento são
aqueles que não têm impedimentos - quem tem capacidade para celebrar casamento são aqueles
relativamente aos quais se verifica a inexistência de impedimentos – artigo 1600.º e ss. CC. Não temos
nenhum dado que nos aponte para a existência de impedimentos ao casamento – diríamos que têm
capacidade para celebrar convenção antenupcial.
Forma – artigo 1710.º CC – “As convenções antenupciais são válidas se forem celebradas por declaração
prestada perante funcionário do registo civil ou por escritura pública.” Escrito particular não é uma das
formas previstas na lei. O que é que acontece quando, exigindo a lei uma determinada forma, essa forma não
é observada? A convenção é nula – a regra, quanto à forma, é o princípio da liberdade de forma – artigo
219.º CC – quando a lei faz exigências de forma, é porque há aqui uma série de interesses que visa acautelar
– artigo 220.º CC “A declaração negocial que careça da forma legalmente prescrita é nula, quando outra
não seja a sanção especialmente prevista na lei.” O artigo 1710.º CC não nos aponta para outra sanção.
Temos aqui, desde logo, uma questão de invalidade da nossa convenção antenupcial por falta da observância
da forma legalmente exigida.
Se não fosse esta questão a convenção não tinha sido revogada. Artigo 1712.º CC “1. A convenção
antenupcial é livremente revogável ou modificável até à celebração do casamento, desde que na revogação
ou modificação consintam todas as pessoas que nela outorgaram ou os respectivos herdeiros.”
Ainda que não estivéssemos perante a inobservância da forma legalmente prescrita, teríamos outro problema
da convenção antenupcial. Teríamos um problema de caducidade – artigo 1716.º CC “A convenção caduca,
se o casamento não for celebrado dentro de um ano, ou se, tendo-o sido, vier a ser declarado nulo ou
anulado, salvo o disposto em matéria de casamento putativo.” No nosso caso, o casamento foi celebrado
quase dois anos depois. A convenção antenupcial caducou.
Que regime de bens vigora no casamento, neste contexto? O regime supletivo – regime da comunhão de
adquiridos – artigo 1717.º CC “Na falta de convenção antenupcial, ou no caso de caducidade, invalidade ou
ineficácia da convenção, o casamento considera-se celebrado sob o regime da comunhão de adquiridos.”
Com estes novos dados, a convenção é válida (ou, pelo menos, não padece de um vício de forma). Se o
casamento foi celebrado em junho de 2022, afastamos a caducidade – foi celebrado menos de um ano da
celebração da própria convenção. Os dois problemas que tínhamos do ponto de vista formal, que nos
conduziam ou à invalidade, ou à caducidade da convenção, foram eliminados com estes novos dados.
Tendo uma convenção válida, que não caducou, podemos agora apreciar cada uma destas cláusulas.
A convenção é [Link] aqui 4 clausulas e vamos apreciar cada uma delas. O pp. da liberdade no
âmbito das convenções antenupciais continua a a ser o nosso ponto de partida.
Primeira cláusula – evento futuro que implica uma mudança no regime de bens já na constância do
casamento. Escolha do regime de bens está sujeito ao princípio da liberdade e princípio da imutabilidade. O
princípio da liberdade determina que em convenção antenupcial os esposos possam fixar livremente o regime
de bens do casamento, quer escolhendo um dos regimes do Código, quer estipulando um regime que lhes
aprouver. Eles escolheram dois regimes tipificados – primeiro, comunhão de adquiridos, depois separação de
bens. Podem fazê-lo? Sim. Porquê?
O princípio da imutabilidade diz-nos que não é permitido alterar depois da celebração do casamento o
regime de bens. O que está a acontecer aqui é sujeitar esta alteração a uma condição – e a lei diz que isto é
possível. Temos uma condição, porque temos um evento futuro e incerto. Não se põe em causa o princípio da
imutabilidade – porquê? Porque não há uma alteração da convenção posterior à celebração do casamento. Há
apenas a verificação dessa condição posterior à celebração do casamento.
Esta cláusula é valida – nos temos do art 1713.º - é possível apor uma condição.
Este primeiro regime que vai vigorar durante o casamento, até pode vigorar sempre na constância do
casamento. Eles podem escolher o regime de bens, mas não podem escolher sempre.
Imagine-se que eles são bailarinos clássicos de idade avançada – a Olga tem 70 anos e o Rodolfo tem 50
anos. Aqui não podiam escolher qualquer regime de bens – artigo 1720.º CC “1 - Consideram-se sempre
contraídos sob o regime da separação de bens: a) O casamento celebrado sem precedência do processo
preliminar de casamento; b) O casamento celebrado por quem tenha completado sessenta anos de idade.”
Neste caso imperativamente vigoraria o regime da separação de bens. Não era possível escolher o regime da
comunhão de adquiridos num primeiro momento.
Imaginemos que em vez de terem escolhido o regime da comunhão de adquiridos, tinham escolhido o regime
da comunhão geral. Depois, passava a vigorar o regime da separação de bens. O Rodolfo já tinha um filho
anterior ao casamento – artigo 1699.º/2 CC – “2. Se o casamento for celebrado por quem tenha filhos, ainda
que maiores ou emancipados, não poderá ser convencionado o regime da comunhão geral nem estipulada a
comunicabilidade dos bens referidos no n.º 1 do artigo 1722.º.”
E se o filho fosse anterior ao casamento, mas do Rodolfo e da Olga? Como somos juristas, importa-nos a
ratio das normas – proteção de expectativas do ponto de vista sucessório dos filhos de outras relações,
precisamente porque só relativamente a estes há uma diminuição do potencial acervo hereditário – só se
justifica este limite à liberdade até onde a ratio subjacente às normas se encontra presente.
De todo o modo, no nosso caso prático, não estamos perante uma situação de imperatividade absoluta ou
relativa que condicione a escolha do regime de bens.
Mas quando perguntamos se podiam escolher regimes de bens diferentes, dizemos que não é um caso nem de
imperatividade absoluta, nem se põe uma questão de imperatividade relativa – estas limitações ao princípio
da liberdade afastam-se. Temos de analisar sempre esses vários níveis.
Este artigo diz que não pode criar novas regras de administração dos bens do casal – e o que estava na génese
desta opção legislativa era a reforma de 1977, com vista à igualdade dos cônjuges, que visava criar um
regime de igualdade no ponto de vista de administração dos bens do casal (afastando a ideia do cônjuge
marido ser o administrador).
“3. Fora dos casos previstos no número anterior, cada um dos cônjuges tem legitimidade para a prática de
atos de administração ordinária relativamente aos bens comuns do casal; os restantes atos de administração
só podem ser praticados com o consentimento de ambos os cônjuges.”
Falamos de administração de bens comuns!! O produto do trabalho dos cônjuges, na constância do regime da
comunhão de adquiridos, é um bem comum. O produto do trabalho dos cônjuges, na constância do regime da
separação de bens, é um bem próprio.
Quanto aos bens comuns, a regra é a da administração conjunta – a não ser que se trate de atos de
administração ordinária. Quando aos bens próprios, a regra é a de que cada um tem a administração dos seus
bens próprios. Podíamos dizer que no âmbito da comunhão de adquiridos, esta cláusula é válida. Seria se não
existisse a alínea a) do artigo 1678.º/2 CC. “2. Cada um dos cônjuges tem ainda a administração: a) Dos
proventos que receba pelo seu trabalho;”.
Quer num contexto, quer no outro, a administração é sempre da parte daquele que aufere os rendimentos do
seu trabalho. Mesmo sendo bens comuns no regime da comunhão de adquiridos, a administração é sempre
levada a cabo por aquele que os aufere. Efetivamente, esta cláusula é inválida.
Com esta cláusula estamos claramente a assistir a uma alteração das regras de administração dos bens do
casal – contraria uma norma imperativa – se contraria uma norma imperativa, é uma cláusula nula – artigo
294.º CC “Os negócios jurídicos celebrados contra disposição legal de carácter imperativo são nulos, salvo
nos casos em que outra solução resulte da lei.”
Neste momento, temos uma convenção com uma cláusula válida (a primeira), mas que inclui uma cláusula
nula. Pelo menos, temos aqui uma nulidade parcial da convenção. Será que pelo facto de ter sido introduzida
esta cláusula, toda a convenção vai ficar ferida de nulidade? Não. Há redução do negócio jurídico – artigo
292.º CC “A nulidade ou anulação parcial não determina a invalidade de todo o negócio, salvo quando se
mostre que este não teria sido concluído sem a parte viciada.” – é difícil também que houvesse aqui uma
relação de dependência entre as clausulas.
Terceira cláusula:
Ambos têm uma profissão com alto risco de lesão. Eles estão a determinar que apesar do regime de bens
escolhido – comunhão de adquiridos e separação de bens – há aqui um bem que integra sempre o património
comum – as indemnizações que venham a receber por danos causados no exercício das suas profissões.
Isto é possível?
Artigo 1699.º/1/d) CC – “1. Não podem ser objecto de convenção antenupcial: d) A estipulação da
comunicabilidade dos bens enumerados no artigo 1733.º” O que é incomunicável no regime da comunhão
geral, também é incomunicável nos outros.
Artigo 1733.º “1. São exceptuados da comunhão: d) As indemnizações devidas por factos verificados contra
a pessoa de cada um dos cônjuges ou contra os seus bens próprios;” – Isto é uma profissão com este risco
associado, potencialmente até de curta duração – se no âmbito desta indemnização há uma dimensão que visa
responder aos rendimentos provenientes do trabalho que foram perdidos em função desta lesão, temos de
tratar disto de forma diferente.
Ao admitirmos esta cláusula nesta parte que visa restituir rendimentos do trabalho, no momento em que
vigora o regime de separação de bens, passamos a ter um regime misto. Regime de separação de bens com a
eventualidade de vir a surgir uma alteração tipificado, incluindo a possibilidade de surgir esta categoria de
bens comuns.
Então: Na alínea d) vemos referidas as indemnizações: Sendo lesão corporal pode integrar o património
próprio necessariamente; Mas essa indemnização pode, na verdade, responder a danos diversos:
Pode corresponder a estes danos causados na integridade física do Jorge ou da Olga – e ai é incomunicável.
Ou pode ser pelo facto de deixarem de auferir os rendimentos da usa atividade profissional – e isso vem
substituir o produto do trabalho dos cônjuges – e nesta parte é admissível que nenhuma ser bens comuns.
Quarta cláusula:
Em regra, os bens adquiridos por doação pelos cônjuges integram o património próprio – tanto no regime da
comunhão de adquiridos - artigo 1722.º/1/b) CC (esta não é uma norma imperativa, o princípio da liberdade
permite que se moldem os regimes de bens); como no regime da separação de bens – artigo 1735.º CC.
Na verdade, acabamos por ter um regime de comunhão de adquiridos muito diminuído. E um regime de
separação de bens muito diminuído também.
O que resulte de indemnizações, pode integrar património comum se resultar de perdas de salários – aí
mesmo que vigore separação de bens, acabamos por ter um pequeno património comum.
Temos comunhão de adquiridos com acertos, e separação de bens com acertos – ou seja, temos regimes
mistos.
Podemos ver estes bens doados integrados património comum – Em homenagem à vontade do disponente,
temos de admitir que haja bens que integrem o património comum – artigo 1729.º CC (se não estivermos
perante as duas exceções dos arts. 1722.º e 1733.º CC).
CASO PRÁTICO 2
NOTA: Qualquer caso relacionado com direito patrimonial do casamento começa com a menção a
convenções antenupciais, regime de bens ou administração dos mesmos. Nos exames, não perder o nosso
Resolução:
Estamos a falar de efeitos patrimoniais do casamento – artigo 1577.º CC – o estado de casado cria um regime
especial não apenas quanto às pessoas, mas também quanto aos bens dos cônjuges. Em função da ideia de
plena comunhão de vinha e dos interesses patrimoniais, temos regras que nos vão oferecer um regime
específico.
Temos, então, uma série de bens que temos de classificar ao abrigo da informação de Alberto e Vitória se
terem casado sem convenção antenupcial.
Casam em 2016 sem terem celebrado convenção antenupcial, logo, vigora o regime supletivo, o regime da
comunhão de adquiridos — art. 1717º CC, que remete para o artigo 1721º e ss.
Se tivessem casado antes de 1967, antes da entrada em vigor do código civil, o regime supletivo era o regime
da comunhão geral de bens. Estes dados - o ano de celebração do casamento e a falta de convenção
antenupcial - é que nos conduzem a este regime.
a) Em 2017, Alberto herda um apartamento e um cavalo, os dois bens adquiridos por sucessão – note-se que
ele já estava casado. Se herda este apartamento e este cavalo quando já estava casado, o título de aquisição é
posterior à celebração do casamento. Aquilo que integra o património comum é aquilo que resulta do esforço
comum. Aquilo que é adquirido a título gratuito (doação ou sucessão, neste caso), não é património comum –
artigo 1722.º/1/b) CC.
Então temos, desde já, dois bens próprios de Alberto, tanto o cavalo como o apartamento são bens próprios.
(Não temos de distinguir estar perante bem móvel ou bem imóvel).
b) O bem cuja titularidade estamos a determinar é a Quinta. Para chegarmos lá temos de passar por uma série
de etapas, temos uma cadeia que temos de seguir.
Tudo começa com a doação – este terreno, quando foi doado pelo tio da Vitória, integrou o património
próprio da Vitória – temos bens que advieram depois do casamento por doação, a título gratuito – artigo
1722.º/1, alínea b) CC.
Contudo, o terreno já não existe neste património. Agora, temos de determinar se o produto da venda do
terreno continua a ser bem próprio – temos essa solução expressamente prevista na lei – para que o produto
da venda do terreno mantenha a qualidade de bem próprio, é necessário que atentemos nas regras relativas à
sub-rogação de bens – vamos substituir naquele património o bem que saiu. Artigo 1723.º CC – sub-
rogação real de bens – alínea b) – primeiro entra um bem próprio a título de doação, depois vende-se este
bem próprio e entra o produto da venda, que se mantém como bem próprio. Aqui nem temos exigência
adicional, porque temos uma conexão ostensiva.
Agora, vai adquirir-se um bem, em parte com valores próprios e em parte com valores comuns. O valor da
venda é utilizado em conjunto com outro valor na aquisição de um bem novo.
O produto do salário dos cônjuges no âmbito do regime de comunhão de adquiridos é bem comum – artigo
1724.º/a) CC: Se utilizamos em parte um valor que adveio em virtude de serem visados bens próprios e este
valor comum, temos um bem adquirido em parte com dinheiro próprio e em parte com dinheiro comum.
Agora, temos um bem adquirido onerosamente na constância do casamento – a regra é que será um bem
comum – artigo 1724º/b) CC – só não será um bem comum se estivermos perante uma das exceções
previstas na lei.
Agora temos a utilização do produto da venda de um bem na aquisição de um outro bem. Estamos a falar de
um fenómeno mais complexo. Estamos a falar do fenómeno do reemprego – temos uma sub-rogação real
indireta – artigo 1723.º, alínea c) – aqui há uma conexão não ostensiva:
(1) nestas situações de sub-rogação real indireta, para o bem manter a qualidade de bens próprio, a
proveniência do dinheiro tem de ser mencionada devidamente,
(2) tem de ser feita no documento de aquisição ou documento equivalente;
(3) e tem de haver a intervenção de ambos os cônjuges.
Na Escola de Coimbra, na posição do Sr. Dr. Guilherme de Oliveira, que já era a posição do Dr. Pereira
Coelho, este artigo só importa quando há interesses de terceiros em causa:
- nas relações entre os cônjuges, a ratio da exigência destes requisitos não se aplicaria. Qual é a ratio? Um
terceiro que confia que um bem foi adquirido onerosamente na constância do casamento e, portanto,
integra património comum, só tem possibilidade de conhecer que assim não é se houver esta menção da
proveniência do dinheiro no documento de aquisição — os terceiros que estabelecem relações
patrimoniais com um dos cônjuges têm de perceber de onde vem aquele bem – se não perceberem, vão
partir do princípio que, sendo onerosamente adquirido na constância do casamento, é bem comum. Vão
partir do princípio que têm um bom património para satisfazer o seu crédito.
O STJ foi sensível a estes argumentos, em 2015, no sentido de que a prova possa ser feita por qualquer meio,
sem a necessidade de menção no documento de aquisição.
Vamos, então, admitir aqui que ou esta prova foi feita por qualquer meio, ou estamos a falar apenas das
relações entre os cônjuges. Diríamos que, assim, vai poder manter a qualidade de bem próprio.
Artigo 1726.º CC – temos um bem em que há contributos de natureza diversa. Temos contributos não só
do produto da venda, mas também do produto do trabalho dos cônjuges (que é bem comum). A contribuição
superior foi feita com valores próprios provenientes da venda do bem. Temos um bem que mantém a
qualidade de bem próprio.
Contudo, o património comum vai ficar prejudicado – mas há uma solução prevista na lei – uma
compensação – nº 2 do artigo 1726.º CC. Esta compensação é diferida para o momento da partilha, mas
também é nesse momento que efetuamos os reequilíbrios do património.
c) Vamos determinar a titularidade do prémio desportivo: Não podemos dizer que é a profissão dele, no
sentido em que ele pratica outra atividade a título principal, mas resulta do empenho diário dele, de onde
ganha benefícios económicos. Temos de considerar a lógica subjacente às regras – este prémio é produto do
trabalho – sendo assim, vamos integrá-lo no património comum do casal. Artigo 1724.º/a) – produto do
trabalho.
d) é adquirido na constância do casamento, à partida iria integrar património comum – mas a situação da
usucapião fundada em posse anterior ao casamento é expressamente contemplada – artigo 1722º/2/c) CC:
“1. São considerados próprios dos cônjuges: c) Os bens adquiridos na constância do matrimónio por virtude
de direito próprio anterior. 2. Consideram-se, entre outros, adquiridos por virtude de direito próprio
anterior, sem prejuízo da compensação eventualmente devida ao património comum: b) Os bens adquiridos
por usucapião fundada em posse que tenha o seu início antes do casamento”
e) estamos a falar aqui de seguros – estas prestações de seguradoras podem integrar quer um património,
quer outro. Os danos foram sofridos pelo cavalo, que é um bem próprio.
O artigo em causa nem está previsto para o regime da comunhão de adquiridos, mas o argumento da maioria
de razão vale aqui, se estes são bens próprios no regime mais comunitarista, justifica-se que o sejam também
no regime da comunhão de adquiridos – falamos do artigo com a lista de bens incomunicáveis – artigo
1733.º CC/e) – o valor do seguro vai integrar o património próprio do Alberto.
“1. Consideram-se próprios os bens adquiridos por virtude da titularidade de bens próprios, que não
possam considerar-se como frutos destes (…)” – os mirtilos são adquiridos em virtude da titularidade do
terreno, mas são frutos naturais. Os que se consideram frutos de bens próprios não são bens próprios, são
bens comum.
Para além do artigo 1728.º CC, temos outro artigo que nos corrobora esta ideia de que os frutos são bens
comuns do casal, ainda que advenham de bens próprios. São frutos naturais pelo que diz no artigo 212.º/2
CC. Artigo 1733.º - temos uma referência – número 2 – “2. A incomunicabilidade dos bens não abrange os
respectivos frutos nem o valor das benfeitorias úteis.” Logo, o produto da venda dos frutos naturais vai
integrar o património comum.
g) Na sequência do acidente, o cavalo Gota deixou de poder competir. Vitória, terapeuta, passou a
utilizar o Gota, para desenvolver um programa de equoterapia com crianças com problemas de
desenvolvimento. Após o início desta prática, passou a tomar todas as decisões quanto ao tipo de treino
e cuidados do cavalo Gota. Pode fazê-lo?
i) Alberto aplica o dinheiro do prémio de hipismo numa conta bancária a prazo. Pode fazê-lo?
Agora estamos a falar do regime da administração de bens — temos bens comum mas, mesmo
relativamente ao património próprio, a comunhão de vida pode suscitar regras particulares. Num exame
temos sempre de classificar os bens como próprios ou comuns primeiro.
g) esta alínea diz respeito à administração de um bem próprio do Alberto, o cavalo. Qual é a regra quanto
à administração de bens próprios? Cada um dos cônjuges administra os seus bens próprios – artigo 1678.º/1
CC, a regra é a de que o Alberto é o administrador.
Mas há uma série de exceções: estamos perante uma dessas exceções, prevista no nº2/e) – “Cada um dos
cônjuges tem ainda a administração: e) Dos bens móveis, próprios do outro cônjuge ou comuns, por ele
exclusivamente utilizados como instrumento de trabalho;” Ora, estamos perante um cavalo, um bem móvel –
artigo 205.º CC (aqui importa entender se temos um bem móvel ou imóvel).
A partir do momento em que Vitória utiliza o bem como instrumento de trabalho, exclusivamente, então
é ela que tem poderes de administração relativamente a esse bem.
h) A Quinta é bem próprio de Vitória e cada um dos cônjuges tem a administração dos bens próprios – regra
geral — art. 1678º/1 CC. Tratando-se de um bem imóvel próprio e não havendo contrato de mandato, não há
exceções.
Note-se, no entanto, que Alberto entrou na administração do bem com o conhecimento e sem oposição de
Vitória.
Verdadeiramente, estamos aqui perante uma situação que temos de considerar com cautela – artigo 1681.º
CC – situações de responsabilização pela administração de bens – nº 3 “3. Se um dos cônjuges entrar na
administração dos bens próprios do outro ou de bens comuns cuja administração lhe não caiba, sem
mandato escrito, mas com conhecimento e sem oposição expressa do outro cônjuge, é aplicável o disposto
no número anterior; havendo oposição, o cônjuge administrador responde como possuidor de má fé.”
Temos a aplicação das regras gerais – responsabilidade no âmbito do mandato – vai ter de indemnizar os
danos causados, mas tem esta limitação relativamente ao período em que tem de apresentar este registo – só
os últimos 5 anos.
Não se prevê que ele tenha contabilidade organizada, como teria alguém estranho ao casamento.
i) o prémio integrou o património comum. Temos de ver qual a regra quanto à administração dos bens
comuns – artigo 1678º/3 CC, in fine. A regra é a da administração conjunta, a não ser que estejamos
perante uma exceção:
Alínea a) do 1678º/2 “Cada um dos cônjuges tem ainda a administração: a) Dos proventos que receba pelo
seu trabalho;”. Também aqui temos uma exceção à regra – a regra seria a da administração conjunta, mas
quem vai administrar estes valores será o Alberto, o bem entrou pela via do esforço do Alberto, a
proveniência do bem releva aqui, logo, pode aplicar na conta bancária que bem lhe aprouver.
j) Neste momento, Alberto encontra-se na Ucrânia, para onde partiu no dia 28 de fevereiro. Não tem
perspetivas de voltar. Antes de partir, outorgou poderes de representação, em procuração, ao seu
primo Guilherme, para administrar os seus bens. Na semana passada, apartamento que Alberto
herdara do tio é atingido por um incêndio no seu prédio e fica gravemente danificado. Poderá Vitória
tomar providências, face à inércia do primo?
Relativamente a este bem imóvel próprio, o Alberto tem a administração — art. 1678º/1 CC — quem tem
poderes de administração, em regra.
Mas há uma exceção – alínea f) do número 2 – no entanto, a parte final destrói a possibilidade de usar esta
alínea para o nosso caso prático, uma vez que houve procuração. Quem tem poderes de administração
relativamente ao bem é o Guilherme. Vitória não é cônjuge administrador com base nesta alínea.
Contudo, o Guilherme nada faz. O bem pode acabar por se degradar e o Alberto ainda pode acabar por ser
responsabilizado por danos que venham a ser causados.
Só agora podemos recorrer ao artigo 1679º CC, o procurador não está a tomar as providências necessárias e
podem, daí, resultar prejuízos — “O cônjuge que não tem a administração dos bens não está inibido de
tomar providências a ela respeitantes, se o outro se encontrar, por qualquer causa, impossibilitado de o
fazer, e do retardamento das providências puderem resultar prejuízos.” O cônjuge não tem a administração
dos bens, mas não está impedido de tomar providências a ele respeitantes, nas condições do ar:go 1679º CC.
CASO PRÁTICO 3
Augusto e Lívia casaram civilmente, em abril de 2016. Em janeiro de 2015, tinham celebrado
convenção antenupcial em que haviam escolhido o regime da separação de bens.
a) Em 30 de março de 2019, Lívia constituiu uma servidão de passagem a favor de Cláudio sobre um
prédio rústico, avaliado em 40.000 euros, que adquirira no dia 20 de janeiro de 2013.
b) Em 3 de julho de 2020, Lívia e Augusto compraram a Marco António um terreno sito na Comporta,
junto à praia. Em 1 de setembro de 2021, para conseguir complementar o rendimento do casal, Lívia
deu de arrendamento este terreno a Tibério, que aspira fundar uma escola de surf.
c) Em janeiro de 2024, Lívia emprestou a Júlia, filha de uma amiga sua que viera estudar para
Coimbra, um quarto (com serventia de cozinha) na casa onde o casal habita, que Lívia levara para o
casamento.
e) Em abril de 2023, Lívia vendeu a Germânico, um automóvel que Augusto herdara de seu avô.
Tendo em consideração que Augusto tomou conhecimento dos atos praticados por Lívia há dois meses
atrás, poderá ele (ainda e com que fundamento) reagir contra tais atos.
Estão aqui em causa ilegitimidades conjugais. Há determinados atos que são praticados por um cônjuge
sem consentimento do outro e queremos saber se esse cônjuge pode praticar esses atos sem o consentimento
do outro. Há um regime especial relativamente à liberdade de disposição de bens na constância do
casamento.
Temos de começar por determinar o regime de bens que vigora neste casamento.
Eles casaram civilmente em 2016 e tinham celebrado uma convenção antenupcial. Eles podiam ter celebrado
convenção antenupcial, nos termos do artigo 1698.º CC — princípio da liberdade de escolha do regime de
bens do casamento.
Contudo, não foi celebrado o casamento no prazo de 1 ano – para que esta convenção antenupcial venha a
produzir os seus efeitos, é necessário que o casamento seja celebrado dentro de 1 ano a partir da celebração.
Se isso não acontecer, a convenção caduca – artigo 1716.º CC.
Que regime vai vigorar neste casamento? Vai vigorar o regime supletivo – artigo 1717.º CC – regime da
comunhão de adquiridos. Temos, então, de resolver o nosso caso em função do regime da comunhão de
adquiridos (o casamento foi celebrado depois de 31 de maio de 1967 e nenhum dos cônjuges tem mais de 60
anos).
Temos de começar por qualificar os bens como bem próprio ou comum. Para além disso, precisamos de
saber se o bem é móvel ou imóvel. Também, para alguns efeitos, precisamos de saber quem administra o
bem. Precisamos de saber que tipo de ato é. Temos a realização de um ato que na ausência de consentimento
configuraria ilegitimidade conjugal? Houve consentimento? Se não houve consentimento, qual é a sanção?
Quem pode reagir? E está em prazo para o fazer?
Alínea a)
O bem tinha sido adquirido em 2013 pela Lívia. Eles estão casados no regime da comunhão de adquiridos.
Um bem levado para o casamento no regime da comunhão de adquiridos é um bem próprio – artigo 1722.º/
1/a) CC.
Artigo 204.º/1, alínea a) – temos um prédio rústico – tem um bem imóvel próprio da Lívia. Quem administra
este bem? O proprietário – artigo 1678.º/1 CC. Não há dados que nos apontem para a aplicação de uma
exceção do nº2.
Temos aqui uma constituição de uma servidão legal de passagem. Há aqui a constituição de um direito real
limitado, ou seja, esta vai limitar os poderes do proprietário, vai onerar este bem — temos um ato de
oneração relativamente a um bem imóvel próprio da Lívia. Era necessário o consentimento de Augusto para
onerar este bem? Existe uma ilegitimidade conjugal se o Augusto não consentir?
Artigo 1682.º-A/1/a) CC – a oneração deste imóvel carecia do consentimento de ambos os cônjuges, logo,
estamos perante uma ilegitimidade conjugal, uma vez que não houve consentimento do Augusto.
Artigo 1687.º/1 CC – este ato é anulável. Quem tem legitimidade para requerer a anulabilidade? O cônjuge
que não deu o seu consentimento ou os seus herdeiros. Temos um cônjuge que quer reagir – o Augusto.
E está em tempo de o fazer? Temos de ver o número 2 deste artigo – o ato foi praticado em 2019 e ele teve
conhecimento da prática do ato em 2024. Ele tem 6 meses para reagir a partir do conhecimento da prática do
ato. Mas já passaram mais de 3 anos desde a celebração do ato. Portanto, o Augusto não pode reagir.
Bens adquiridos onerosamente na constância do casamento são bens comuns no regime da comunhão de
adquiridos – artigo 1724º/b) CC. Temos um bem comum que é imóvel – artigo 204.º/1, alínea a) CC.
Um bem imóvel comum – a regra de administração relativamente a este bem imóvel está no número 3, in
fine, do artigo 1678.º CC. Temos um bem imóvel comum sujeito à administração conjunta.
Lívia deu de arrendamento este terreno sem o consentimento do Augusto. Vamos então ao artigo 1682.º- A/
1/ a) – também aqui o arrendamento de bens imóveis comuns por parte de Lívia carece do consentimento de
Augusto. O Augusto quer reagir. Pode? Artigo 1687.º/1 diz-nos que o ato é anulável – a requerimento do
cônjuge que não deu consentimento.
Está em tempo para o fazer? Ainda não passaram 6 meses desde o conhecimento do ato e ainda não passaram
3 anos desde a celebração, Augusto tem até setembro de 2024 para reagir, logo, está em tempo de pedir a
anulação deste ato.
Alínea c)
Estamos a falar de um ato relativo à casa de morada de família. É um bem imóvel – artigo 204.º/1, alínea a)
CC. Admitimos que a Lívia levou a casa para o casamento. No âmbito do regime da comunhão de
adquiridos, este é um imóvel próprio – artigo 1722.º/1, alínea a).
A que título é que eles habitam a casa de família? São proprietários ou arrendatários? Vamos olhar para o
artigo 1682º-A ou 1682º-B consoante a questão em causa.
A administradora será a Lívia – artigo 1678.º/1 CC. Mas há uma série de limites a esta livre administração, e
e sendo um comodato (art. 1129º CC), constituiu-se um direito pessoal de gozo a favor da Júlia sobre a casa
de morada de família.
Ainda que estejamos a falar de um imóvel próprio, diz-nos o artigo 1682º -A/2 que a constituição de um
direito pessoal de gozo sobre a casa da morada de família carece sempre do consentimento do outro cônjuge.
Ainda que este imóvel seja próprio e, ainda mais, sendo a casa de morada da família, teria sido necessário o
consentimento do Augusto. Pode reagir? Sim. O ato é anulável – artigo 1687.º/1 CC. O Augusto tem
legitimidade. Está em tempo para o fazer? Sim. Não passaram nem os 6 meses a partir do conhecimento do
ato, nem os 3 anos a partir da sua celebração. Pode reagir.
Alínea d)
Estamos a falar de um bem próprio de Lívia (art. 1722º/1/a)). A riqueza mobiliária não é objeto do mesmo
tipo de proteção que os bens imóveis. É necessário terem determinadas características para que o legislador
os proteja. Artigo 205.º - é um bem móvel.
Lívia é o administrador e estamos a falar da alienação de um bem – ela vendeu o Busto. Para a alienação de
bens móveis, temos o artigo 1682.º CC. Artigo 1682.º/3, alínea a) – a alienação carece do consentimento de
ambos os cônjuges. Podíamos dizer que estaríamos a ser demasiado generosos a dizer que o busto é utilizado
na vida do lar. Mas é um bem utilizado na vida familiar, logo, temos de saber se o busto se vai incluir no
recheio da casa:
Artigo 2103.º-C “Para os efeitos do disposto nos artigos anteriores considera-se recheio o mobiliário e
demais objectos ou utensílios destinados ao cómodo, serviço e ornamentação da casa.” – Neste caso, é
ornamentação da casa. Estamos perante um bem móvel, mas é um bem móvel com proteção acrescida, faz
parte do recheio da casa de morada de família.
Este ato configura uma ilegitimidade conjugal, e Augusto pode reagir com base no art. 1687º/1, dentro destes
prazos temporais.
O bem em causa é um bem próprio do Augusto, é um bem adquirido a título gratuito por sucessão – artigo
1722.º/1/b) CC. É um bem próprio móvel – artigo 205.º CC. O administrador é o proprietário, porque não
temos indicação da administração pela parte da Lívia – artigo 1678.º CC. Estamos a falar de um ato de
alienação de um bem móvel próprio de Augusto.
Este é um caso de venda de coisa alheia. O bem não está na esfera jurídica de Lívia.
Temos então de recorrer ao artigo 1687.º/4 CC “4. À alienação ou oneração de bens próprios do outro
cônjuge, feita sem legitimidade, são aplicáveis as regras relativas à alienação de coisa alheia” — remissão
para o artigo 892.º CC – é nula a venda de bens alheios.
O Augusto pode reagir? Artigo 286.º CC – a nulidade é invocável a todo o tempo por qualquer interessado e
pode ser declarada oficiosamente pelo tribunal.
Recapitulando os passos:
CASO PRÁTICO 4
Em 2018, Luís confere a Ella por mandato, o poder de administrar a sua casa de turismo de habitação
e o terreno em que se encontra localizada, mandato que vem a revogar no ano seguinte, por considerar
que houve má administração por parte de Ella.
Em janeiro de 2020, para aproveitar o facto de um importante festival de música jazz e gastronomia, o
“JazzComia”, se realizar na região, programado para maio de 2021, Ella contrai uma dívida junto de
Telónio Monge, para custear obras de reabilitação de alguns edifícios abandonados da propriedade de
forma a convertê-los em alojamento adicional, para receber a grande vaga de turistas que se previa.
Sabendo que, para além do seu imóvel dedicado ao turismo de habitação, Luís tinha adquirido em
2015 um pequeno estúdio com as poupanças dos seus salários e que Ella levara um automóvel para o
casamento, que bens poderão vir a responder pelo crédito que Telónio pretende hoje ver satisfeito?
Estamos perante efeitos patrimoniais do casamento – aqueles que não estão diretamente dependentes do
regime de bens. O nosso problema é responsabilidade por dívidas dos cônjuges.
Há aqui dois passos essenciais – apurar quem é o responsável e que bens é que respondem.
Há duas especialidades no regime de responsabilidade por dívidas dos cônjuges face ao regime geral.
- Podemos ter um cônjuge, sem qualquer participação do outro, a obrigar o outro cônjuge. Alguém que
contrai a dívida e, ainda assim, o outro fica obrigado.
- E também podemos acabar por ver responder por uma dívida até 3 patrimónios (vigorando um regime
de comunhão) – património comum, património próprio de um e património próprio do outro.
Quanto ao regime de bens: Mesmo que convoquemos uma regra que se aplique independentemente do
regime de bens, precisamos de classificar quais são os bens comuns e bens próprios – e, ainda assim, há
regras próprias dependentes do regime de bens. Segundo passo – qualificar a divida; terceiro passo –
identificar o titular dos bens; quarto passo – saber quais são os bens que respondem.
Não foi celebrada convenção antenupcial – vai vigorar o regime supletivo – comunhão de adquiridos,
desde 31 de maio de 1967 — Artigo 1717.º CC. Aplicamos as regras dos artigos 1721.º e ss. CC.
Podemos ter dívidas que são da responsabilidade de um dos cônjuges ou de ambos. É Ella a contrair a dívida.
Queremos saber se a dívida é da exclusiva responsabilidade dela ou não.
Ela podia contrair esta dívida na constância do casamento sem o consentimento do Luís?
Artigo 1690.º CC “1 - Qualquer dos cônjuges tem legitimidade para contrair dívidas sem o consentimento
do outro.”
Coisa diferente é dizer que o consentimento é irrelevante — o consentimento tem relevância para
responsabilizar o outro.
Se tivesse havido o consentimento do Luís, o que é que teríamos logo? A responsabilidade seria de ambos.
Artigo 1691.º/1, alínea a) CC. “1. São da responsabilidade de ambos os cônjuges: a) As dívidas contraídas,
antes ou depois da celebração do casamento, pelos dois cônjuges, ou por um deles com o consentimento do
outro.”
Para o Telónio, interessa que a responsabilidade seja de ambos. Tem um património muito mais amplo a
responder por esta dívida. Se for de responsabilidade exclusiva, responderão apenas os bens próprios da Ella
e, na falta ou insuficiência destes, a meação dos bens comuns. Se for da responsabilidade de ambos, responde
o património comum e, sendo insuficiente, os patrimónios próprios de cada um dos cônjuges.
Alínea b): Podemos considerar que esta dívida foi contraída para ocorrer dos encargos da vida familiar?
Não. (Os encargos da vida familiar têm a ver com os gastos com o quotidiano do casal - despesas de baixo
valor, periódicas, com alimentação, energia, despesas médicas, etc - avaliadas em função do padrão de vida
do casal).
Podemos considerar que esta dívida foi contraída em proveito comum do casal? Temos, pelo menos, de
considerar.
Artigo 1691.º/3 CC “3. O proveito comum do casal não se presume, excepto nos casos em que a lei o
declarar.” Este caso não é uma exceção a esta regra, logo, à partida, como o proveito comum não se
presume, tem de ser feita prova do que se invoca.
Quem terá interesse em alegar este proveito comum será o credor e também o cônjuge que contraiu a dívida.
O Telónio tem de provar este proveito comum.
Este conceito de proveito comum não está explanado e, portanto, temos de perceber o seu alcance,
trabalhado do ponto de vista doutrinal:
Mas concretiza-se? Recebe-se esta vaga de turistas e o alojamento é ocupado? Não. Não se obtém o
proveito comum almejado. Podemos excluir a responsabilidade conjunta? Não. O proveito comum vai
aferir-se pela intenção e não pelo resultado. A intenção era obter aquela vantagem material — Não só o
que releva é a intenção de proveito comum e não o resultado, avaliado do ponto de vista subjetivo, mas
também temos de perceber se existe uma intenção objetiva de proveito comum, avaliada segundo o padrão
da pessoa média.
A intenção da Ella foi mesmo este proveito comum. Segundo um padrão da pessoa média, era de esperar este
resultado? Podemos considerar que há uma intenção objetiva de proveito comum? Sim. Estava planeado que
houvesse aquele festival na região. Tudo levava a crer que existisse uma vaga de turistas e era preciso
preparar com antecedência o alojamento adicional. Só não aconteceu por causa da pandemia. Existia
intenção objetiva de proveito comum.
Quando averiguamos se estamos perante uma situação de proveito comum do casal, para já, tem de se fazer
prova, à partida – a não ser que a lei diga, o proveito comum não se presume; temos de fazer prova de um
ganho que pode não ser económico ou material, pode ser espiritual; temos de averiguar o proveito
comum não pelo resultado, mas pela intenção (subjetiva) e temos de ver a intenção objetiva, segundo o
padrão do homem médio.
Não é só isto que a alínea c) nos exige. Temos ainda de perceber se a dívida foi contraída na constância
do casamento – casaram-se em 2010, o casamento não de dissolveu nem se extinguiu por qualquer forma –
a dívida foi contraída na constância do matrimónio.
Pelo cônjuge administrador – temos de avaliar isto – estamos a falar de uma dívida contraída para fazer
esta intervenção num bem. É um bem próprio do Luís – normalmente, sendo um bem próprio, é o titular do
bem que o administra – artigo 1678.º/1 CC.
Era o Luís que o estava a administrar? Ele tinha concedido um mandato – o mandato é livremente
revogável – não vincula os cônjuges ad eternum – alínea g) do nº 2 do art. 1678.º CC. Podia ter sido
concedido o poder de administração deste bem por mandato à Ella. Mas o mandato foi revogado. No
momento em que a Ella contraiu a dívida, já não tinha poderes de administração sobre este bem. Luís
era o cônjuge administrador. O que significa que a dívida é da responsabilidade da Ella – não se reúnem
os pressupostos da alínea c) do artigo 1691.º CC.
Apesar de podermos considerar que o proveito comum do casal existiria, a verdade é que a Ella não contraiu
a dívida enquanto cônjuge administrador. O cônjuge administrador era o Luís.
Quanto à regra de que cada um dos cônjuges é responsável pelas dividas que contrai – artigo 1692.º,
alínea a) “São de exclusiva responsabilidade do cônjuge a que respeitam: a) As dívidas contraídas, antes ou
depois da celebração do casamento, por cada um dos cônjuges sem o consentimento do outro, fora dos
casos indicados nas alíneas b) e c) do n.º 1 do artigo anterior;” – logo, temos uma dívida da
responsabilidade apenas da Ella.
Temos o próprio imóvel – é um bem próprio do Luís — um bem imóvel – artigo 204.º CC.
Temos a referência a outros bens – um estúdio adquirido por Luís onerosamente na constância do casamento
– a regra é que, no regime da comunhão de adquiridos, estes bens são bens comuns.
Foram utilizados valores que advieram da poupança dos salários. Artigo 1724.º, alínea b) CC “Fazem
parte da comunhão: b) Os bens adquiridos pelos cônjuges na constância do matrimónio, que não sejam
exceptuados por lei.” O facto de ter sido utilizado património comum faz com que não haja uma exceção.
Temos um bem próprio do Luís – casa de turismo; um bem comum – o estúdio; e um bem próprio da Ella.
Artigo 1696.º CC “1 - Pelas dívidas da exclusiva responsabilidade de um dos cônjuges respondem os bens
próprios do cônjuge devedor e, subsidiariamente, a sua meação nos bens comuns.”
Art. 1696º/2 CC: “Respondem, todavia, ao mesmo tempo que os bens próprios do cônjuge devedor: a) Os
bens por ele levados para o casal ou posteriormente adquiridos a título gratuito, bem como os respectivos
rendimentos; b) O produto do trabalho e os direitos de autor do cônjuge devedor; c) Os bens sub-rogados no
lugar dos referidos na alínea a).”
Bens próprios do cônjuge devedor – o automóvel; na falta ou insuficiência deste, respondem ao mesmo
tempo que o bem próprio os bens do número 2 do artigo 1696.º CC. Na falta destes, responde a meação dos
bens comuns — a não ser que pudessem responder ao mesmo tempo os frutos do trabalho da Ella,
responderia a sua meação do estúdio.
O art. 740º CPC interessa-nos aqui: “Quando, em execução movida contra um só dos cônjuges, forem
penhorados bens comuns do casal, por não se conhecerem bens suficientes próprios do executado, é o
cônjuge do executado citado para, no prazo de 20 dias, requerer a separação de bens ou juntar certidão
comprovativa da pendência de ação em que a separação já tenha sido requerida, sob pena de a execução
prosseguir sobre os bens comuns.”
Temos uma dívida da exclusiva responsabilidade de um dos cônjuges; a execução é promovida contra um
dos cônjuges; não se conhecem bens próprios suficientes; subsidiariamente respondem os bens comuns; o
cônjuge executado é citado para requerer a separação de bens — porquê? — porque só responde a meação
dos bens comuns do cônjuge devedor, da Ella, não a totalidade dos bens comuns - o Luís está interessado em
preservar a sua meação.
CASO PRÁTICO 5
Acordam relativamente a todas as matérias exigidas por lei para o efeito. Todavia, não se perspetiva
que o mesmo aconteça quanto à partilha dos bens.
Sabendo que:
b) em fevereiro de 2016, a mãe de Inês ofereceu-lhe um vestido, no valor de 10.000€, para que esta
comparecesse numa gala em que ia ser premiada pelo trabalho de intervenção social junto de
mulheres de vítimas de violência, através da Associação “Lágrimas”.
c) em janeiro de 2020, Pedro pagou a inscrição do filho João no Colégio “Great Leadership”, no valor
de €10.000. Para o efeito utilizou o dinheiro recebido a título de indemnização por danos corporais,
que recebera em 2015, em virtude de um acidente de viação.
d) em maio de 2017, Pedro começou a interessar-se por fotografia e adquiriu equipamento para o
efeito, no valor de €4.000;
e) em outubro de 2020, Inês comprou com o dinheiro dos seus salário uma impressora que usa no seu
trabalho de ação social e que vale 3.000€;
O regime de bens do casamento aqui é o regime da comunhão geral – não temos de determinar o regime
supletivo. Tem de ter existido convenção antenupcial – acordo entre os nubentes destinado a determinar o
regime dos bens. O princípio da liberdade permite-nos que os nubentes escolham um dos regimes tipificados
na lei – artigo 1698.º CC. Só não o poderiam fazer se tiverem já levado filho para o casamento, desde que
não seja filho de ambos (art. 1699º) e quando vigora o regime imperativo — mas não é o caso.
O regime da comunhão geral está previsto a partir do artigo 1732.º CC. À partida, tudo vai entrar no
património comum, salvo as exceções previstas na lei.
Pedro e Inês pretendem divorciar-se por mútuo consentimento na conservatória. Para o divórcio por mútuo
consentimento administrativo, não é necessário apenas o consentimento dos cônjuges, mas também acordos
(art. 1775º CC) – destino da casa de morada de família, exercício das responsabilidades parentais, alimentos
ao cônjuge que deles necessite e ainda destino dos animais de companhia. No artigo 1775.º/1, alínea a),
também se menciona “Relação especificada dos bens comuns, com indicação dos respectivos valores, ou,
caso os cônjuges optem por proceder à partilha daqueles bens nos termos dos artigos 272.º-A a 272.º-C do
Decreto-Lei n.º 324/2007, de 28 de Setembro, acordo sobre a partilha ou pedido de elaboração do mesmo;”.
Este último não é obrigatório, é caso os cônjuges optem — é meramente facultativo. Mas mesmo se
houvesse acordo ele não poderia faltar regras imperativas quanto ao casamento.
Podem fazer este acordo agora ou num momento posterior, podemos ter um processo autónomo.
Com a dissolução do casamento por divórcio, vão cessar as relações patrimoniais entre os cônjuges.
Vamos ver as consequências do divórcio – artigo 1788.º CC. Dissolver o casamento por divórcio tem
juridicamente os mesmos efeitos que a dissolução do casamento por morte, cessam as relações pessoais e
patrimoniais dos cônjuges.
Artigo 1789.º CC – diz-nos a data a partir de que se produzem os efeitos do divórcio. “1 - Os efeitos do
divórcio produzem-se a partir do trânsito em julgado da respectiva sentença, mas retrotraem-se à data da
proposição da acção quanto às relações patrimoniais entre os cônjuges. 2 - Se a separação de facto entre
os cônjuges estiver provada no processo, qualquer deles pode requerer que os efeitos do divórcio retroajam
à data, que a sentença fixará, em que a separação tenha começado” — importante para os casos de partilha
no geral.
Para os efeitos da partilha, para perceber se um objeto vai ser alvo de partilha ou não, se vai integrar o
património comum ou património próprio de um dos cônjuges, é necessário determinar a data do
divórcio.
Temos de proceder às três operações da partilha: art. 1689º CC — Separação dos bens comuns, liquidação
do património comum e partilha propriamente dita.
A casa foi comprada com o dinheiro resultante da venda de um bem que foi levado para o casamento. Se
assim foi, no regime da comunhão geral, este bem vai integrar que património?
Artigo 1732.º CC “Se o regime de bens adoptado pelos cônjuges for o da comunhão geral, o património
comum é constituído por todos os bens presentes e futuros dos cônjuges, que não sejam exceptuados por lei.”
Mas, o artigo 1733.º/1, alínea a) CC diz “1. São exceptuados da comunhão: a) Os bens doados ou deixados,
ainda que por conta da legítima, com a cláusula de incomunicabilidade;”
Mas este bem já não existe no património do Pedro. Agora, temos a casa de morada de família. Mas não
há uma conexão ostensiva, saiu o terreno, entrou dinheiro, o preço, e depois com esse preço foi adquirido a
nova casa — um bem adquirido onerosamente na constância do casamento no regime da comunhão geral
seria um bem comum, mas há sub-rogação real indireta. Então, nós vamos ter de aplicar as regras do
regime da comunhão de adquiridos:
Artigo 1734.º CC remissão para artigo 1723.º, alínea b) e c) – situações de reemprego ou sub-rogação real
indireta:
“Conservam a qualidade de bens próprios: c) Os bens adquiridos ou as benfeitorias feitas com dinheiro ou
valores próprios de um dos cônjuges, desde que a proveniência do dinheiro ou valores seja devidamente
mencionada no documento de aquisição, ou em documento equivalente, com intervenção de ambos os
cônjuges.”
Há uma divergência doutrinal nesta questão: foram cumpridas estas exigências de natureza formal e se
forem é bem próprio; se não foram cumpridas? Na posição da Escola de Coimbra, nestes casos temos de
olhar para a ratio da norma - só valem estas exigências até onde o interesse de terceiros o interessar. Se
estiverem apenas em causa as relações entre os cônjuges, a prova pode ser feita por qualquer meio, não é
necessário que a prova entre os cônjuges se faça por este meio. Não temos referência a se esta menção foi
feita ou não.
Vamos permitir que esta regra (artigo 1723.º, alínea c)) se aplique e o bem faça parte do património de
Pedro. (100 mil euros).
(No regime da comunhão de adquiridos, este bem também seria bem próprio - os bens havidos por sucessão
integram património próprio, nem seria necessário a cláusula de incomunicabilidade).
Alínea b) – Como estamos no regime da comunhão geral, à partida, diríamos que todos os bens presentes e
futuros integram o património comum. Só que há exceções.
Artigo 1733.º/1, alínea f) “f) Os vestidos, roupas e outros objectos de uso pessoal e exclusivo de cada um
dos cônjuges, bem como os seus diplomas e a sua correspondência;” Vamos integrar este bem no
património próprio da Inês. (10 mil euros).
(Se fosse o regime da comunhão de adquiridos, era um bem próprio por ser um bem que advém a título
gratuito na constância do casamento – artigo 1722.º, alínea b) CC)
Alínea c) – vamos saltar isto. Vamos falar disto quando falarmos de liquidação.
Alínea d) – é um bem adquirido onerosamente na constância do casamento. A regra é de que este bem vai
integrar o património comum. Artigo 1732.º CC. Não estamos perante nenhuma exceção. (4 mil euros)
(Se fosse no regime da comunhão de adquiridos, era um bem adquirido onerosamente na constância do
casamento – artigo 1724.º, alínea b) CC – também integrava o património comum, mas com outro
fundamento.)
Não podemos considerar objeto de uso pessoal e exclusivo – é necessária uma ligação mais íntima com a
pessoa.
(Se estivéssemos perante o regime da comunhão de adquiridos, não parece também que estivéssemos perante
uma exceção.)
Alínea f) – este bem integra o património comum, independentemente de o titular da conta ser o Pedro. (11
mil euros). (Também o seria no regime da comunhão de adquiridos – produto do trabalho dos cônjuges).
Já temos a distinção entre os bens próprios e os bens comuns, já retiramos do património comum os bens que
não deviam lá estar.
Vamos olhar para o artigo 1689.º CC, que nos diz que “1. Cessando as relações patrimoniais entre os
cônjuges, estes ou os seus herdeiros recebem os seus bens próprios e a sua meação no património comum,
conferindo cada um deles o que dever a este património. 2. Havendo passivo a liquidar, são pagas em
primeiro lugar as dívidas comunicáveis até ao valor do património comum, e só depois as restantes. 3. Os
créditos de cada um dos cônjuges sobre o outro são pagos pela meação do cônjuge devedor no património
comum; mas, não existindo bens comuns, ou sendo estes insuficientes, respondem os bens próprios do
cônjuge devedor.”
Alínea c) - O Pedro pagou a inscrição naquele colégio no valor de 10 mil euros. Para o fazer, o Pedro
utilizou o dinheiro que adveio de uma indemnização que recebeu por danos corporais. O Pedro utilizou um
valor próprio – artigo 1733.º, alínea d) CC. O Pedro utilizou um valor próprio no pagamento de uma
dívida da responsabilidade de ambos – é um encargo normal da vida familiar: à partida, despesas com a
educação vão reconduzir-se aos encargos normais da vida familiar.
O artigo 1691.º/1, alínea b) diz-nos que esta é uma dívida da responsabilidade de ambos. Que bens
responderiam por uma dívida da responsabilidade de ambos? Os bens comuns do casal e, na falta destes, os
bens próprios de qualquer um dos cônjuges — art. 1695º CC.
Artigo 1697.º CC “1. Quando por dívidas da responsabilidade de ambos os cônjuges tenham respondido
bens de um só deles, este torna-se credor do outro pelo que haja satisfeito além do que lhe competia
satisfazer; mas este crédito só é exigível no momento da partilha dos bens do casal, a não ser que vigore o
regime da separação.”
O Pedro utiliza um bem próprio para satisfazer uma dívida que era da responsabilidade de ambos – dívida
para ocorrer aos encargos normais da vida familiar. A regra é que seria o património comum a responder por
esta dívida. Mas os bens próprios também podem responder. Respondeu um bem próprio do Pedro. Isto
significa que um deles torna-se credor do outro. Contudo, só no momento da partilha é que isto se
concretiza.
A Inês vai ter de pagar aquilo que lhe competia nesta dívida comum – quanto é que lhe competia? Não era
necessariamente metade – mas estamos a falar de uma dívida contraída para concorrer com o dever de
contribuir para os encargos da vida familiar – aqui cada um dos cônjuges concorre de acordo com as suas
possibilidades – artigo 1676.º/1 CC. Podíamos chegar à conclusão de que não iam pagar pela metade.
Aqui, não temos dados que nos permitam afinar melhor quem responde e em que termos. Vamos partir do
princípio que respondem pela metade. Temos um crédito de 5 mil euros, que vai ser pago pela meação dos
bens comuns da Inês.
Art. 1689º CC: “…recebem os seus bens próprios e a sua meação no património comum, conferindo cada
um deles o que dever a este património.”
A regra é de que a partilha segue o regime adotado, mas há uma exceção muito relevante – artigo 1790.º
CC “Em caso de divórcio, nenhum dos cônjuges pode na partilha receber mais do que receberia se o
casamento tivesse sido celebrado segundo o regime da comunhão de adquiridos” – é uma exceção que vale
na partilha conjugal por divórcio, mas não por morte. Aqui vamos comparar valores, entre o que receberia
com o regime da comunhão de adquiridos e o que vai receber com o regime da comunhão geral.
Neste caso, não temos uma solução diferente consoante a partilha fosse feita segundo o regime da comunhão
de adquiridos ou comunhão geral. Então, vamos fazer a partilha segundo o regime convencionado.
A partilha vai fazer-se segundo uma regra imperativa – artigo 1730.º CC “1. Os cônjuges participam por
metade no activo e no passivo da comunhão, sendo nula qualquer estipulação em sentido diverso.” – vai
aplicar-se a regra da metade. Cada um recebe metade deste património comum. Temos 18 mil euros no
património comum. Temos 9 mil euros para cada um.
Agora, sim, o Pedro pode fazer-se pagar dos 5 mil euros a partir da meação dos bens comuns da Inês.
Dos 9 mil da Inês vão sair 5 mil para o Pedro. No final, a Inês fica com 10 mil euros de bens próprios
(vestido) e 4 mil de bens comuns, depois de satisfeito o crédito. E o Pedro, além dos 100 mil (casa da morada
de família), ainda tem direito a estes 9 mil (património comum), mais os 5 mil (do crédito relativamente à
Inês). Fica com 114 mil euros.
Mas isto são valores. Agora, queremos saber, em concreto, que bens recebem. O contrato-promessa
estabelece atribuições preferenciais. Desde que não contrariem normas imperativas, como a regra da
metade, são admissíveis (art. 1730ºCC — nulidade de estipulações em sentido contrário).
Há uma atribuição preferencial convencional relativamente ao equipamento de fotografia, que vai integrar
a meação do Pedro. Também temos uma atribuição preferencial convencional, mas nem precisava de existir
– existe uma atribuição preferencial legal prévia dos instrumentos de trabalho que resulta da lei – artigo
1731.º CC “Se os instrumentos de trabalho de cada um dos cônjuges tiverem entrado no património comum
por força do regime de bens, o cônjuge que deles necessite para o exercício da sua profissão tem direito a
ser neles encabeçado no momento da partilha”.
Os 4 mil do equipamento de fotografia iam para o Pedro. Os 3 mil da impressora iam para a Inês. A conta
bancária vai ser utilizada para compor a meação — os 11 mil é que iam integrar a restante quota.
CASO PRÁTICO 6
Eugénia e Alberto viveram durante cerca de 30 anos como casal, partilhando leito, mesa e habitação e
educando o filho que nascera já no seu quinto ano de vida em comum. em condições análogas às dos
cônjuges durante cerca de 30 anos.
No decurso desse extenso período, Eugénia dedicou-se ao “comércio e venda de móveis” e Alberto à
compra e venda de imóveis. Concomitantemente, Eugénia assumiu todo o trabalho doméstico, embora
o cuidado do filho comum tenha sido assumido em conjunto por ambos. Eugénia desempenhou ainda
tarefas de gestão, não remuneradas, em estabelecimento comercial de Alberto, durante os 30 anos da
relação. Tendo-se dissolvido a união de facto, Eugénia pretende, então, retirar consequências das
contribuições acrescidas que realizou e que teriam concorrido para a construção do património do
réu. Quid iuris?
Este é uma adaptação do acórdão do STJ de 2021 de que falamos na aula teórica. É muito discutível a forma
como podemos abordar esta questão.
Depois de identificar a questão, o passo seguinte seria qualificar a relação de União de Facto - Lei 7/2001 -
art. 1º/2 “A união de facto é a situação jurídica de duas pessoas que, independentemente do sexo, vivam em
condições análogas às dos cônjuges há mais de dois anos.” - Eles vivem em comunhão de leito, mesa e
Durante esses 30 anos uma pessoa está a assumir todo o trabalho relativamente à vida familiar e
desempenhar uma atividade não remunerada no estabelecimento comercial do membro da UF. Durante esses
30 anos esse outro membro da UF acaba por enriquecer também à custa desses contributos - Como se pode
colocar esta questão?
Por via do crédito compensatório: Já conhecemos o art. 1676º/2 CC — sabemos que se dirige a estas
situações análogas, em que houve um contributo muito superior de um cônjuge relativamente ao outro e em
virtude desse contributo superior sofreu danos e prejuízos patrimoniais importantes.
Mas para isso temos de nos perguntar se há um dever de contribuição para os encargos da vida familiar na
UF. Há uns anos atrás diríamos que não, na verdade não encontramos nenhuma enunciação dos deveres
conjugais na UF como encontramos no casamento. Desta perspetiva mais legalista não existem deveres
jurídicos como os deveres conjugais. Mas também sabemos que a UF só subsiste enquanto for comunhão de
mesa, leito e habitação, em particular a mesa, a partilha de recursos. Do ponto de vista doutrinal, o prof.
Guilherme de Oliveira também já evoluiu o seu manual relativamente a esta questão.
Mas nem era necessário, porque se tivéssemos em vista a solução avançada no decreto que esteve na base da
reforma da UF em 2010, já teríamos uma solução - aquele que contribuísse de forma acrescida para a vida
doméstica, teria direito a uma compensação. Esta solução legislativa não se converteu em lei. No entanto, a
Eugénia quer retirar consequências das contribuições acrescidas que realizou para a construção do
património do réu, não quer ser compensada sequer pelos prejuízos que tenha sofrido. Estamos a ver isto do
ponto de vista do enriquecimento e não do ponto de vista da perda.
Portanto, podemos pensar que também temos de resolver aqui outra questão previamente, que é o facto de
não existir no seio da UF património comum (património comum que enriqueceria e seria objeto de
partilha se fossem casados no regime de comunhão, resolvendo a nossa questão). Na UF não vigora um
regime de bens, não existe um estatuto patrimonial específico da UF e, portanto, as regras que se aplicam
são as do direito das obrigações:
Qual é a solução que encontramos no Direito das Obrigações (e no Direito das Coisas)? Teríamos de ir para
o enriquecimento sem causa, embora seja um instituto que funcione residualmente, sendo que temos de
perceber se existem, antes, outras soluções.
(Apesar da ausência de um regime de bens, o que é que podia ter funcionado para não haver enriquecimento
de um em relação ao outro? Que todas as aquisições de património fossem tidos em compropriedade, sendo
que assim haveria um equilíbrio patrimonial.)
A maior parte da jurisprudência tem-se pronunciado positivamente no sentido de atribuir estes reequilíbrios
patrimoniais, mas para isso têm de se ver preenchidos os pressupostos do enriquecimento sem causa: tem
de haver um enriquecimento do Alberto; tem de haver um nexo entre este enriquecimento e aqueles
contributos por parte da Eugénia; e uma ausência de causa para o enriquecimento. Este último tem levantado
problemas na jurisprudência, pois há quem entenda que a UF é ela própria uma causa e que qualquer
contributo acrescido que tenha sido feito se reconduz à figura das obrigações naturais. Neste caso tenhamos
de perceber se estamos perante contributos acrescidos, só podemos reconduzir às obrigações naturais aquilo
que sejam contributos equilibrados no seio da união de facto. Só um assumir assumir todo o trabalho
doméstico e só um trabalhar no estabelecimento comercial do outro, não há reciprocidade. No nosso caso,
não existindo reciprocidade, a partir do momento que há este desequilíbrio, dificilmente podemos sustentar
que haja a figura da obrigação natural. Seria, portanto, pela via do enriquecimento sem causa que
conseguiríamos dar uma resposta compensatória relativamente aos contributos da Eugénia para a construção
deste património.
Claro que tudo isto depende da prova que se faça, ao longo de 30 anos de relação havia que fazer esta prova,
que não é impossível, mas há aqui uma série de passos e tem de haver prova da matéria de facto que se
subsume a cada uma das exigências de natureza jurídica.
Alberto faleceu em dezembro de 2023. Deixou bens comuns no valor de 200 mil euros, bens próprios
no valor de 20 mil euros e dividas no valor de 30 mil euros. Sobreviveram Beatriz, cônjuge, com quem
era casado desde 2000 no regime supletivo. Sobreviveu também Maria, sua mãe; Clara, sua filha; e o
filho desta, o neto, Hugo; Edmundo, seu filho, e Gualter, seu irmão.
Sabendo ainda que, um mês depois de Alberto falecer, Beatriz deu à luz Filipa. Diógenes, seu filho,
tinha pré-falecido em 2009, Alberto deixou em testamento a sua mãe Maria e ao seu irmão Gualter a
sua Biblioteca, avaliada em 15 mil euros; que Edmundo fez desaparecer o testamento depois da morte
do pai e que todos aceitaram, faça a partilha.
Considerações iniciais:
Vamos olhar sempre para o art. 2133º CC, onde temos as classes sucessivas e ordem pela qual são
chamados os herdeiros na sucessão legal legitima, mas também se aplicam estas regras à sucessão
legitimária. Portanto, interessa-nos olhar para este artigo quer a propósito da sucessão legítima, quer a
propósito da legitimária.
Art. 2134º CC: “Os herdeiros de cada uma das classes de sucessíveis preferem aos das classes imediatas.”
Art. 2135º CC: “Dentro de cada classe os parentes de grau mais próximo preferem aos de grau mais
afastado.”
O início do livro da família diz-nos como fazer a contagem dos graus de parentesco.
O art. 2133º CC só nos fala de dois tipos de relações familiares, o parentesco e a relação matrimonial.
Efetivamente, não ha qualquer referência a nenhum afim (e os afins são os sogros, genros, noras, cunhados,
padrastos e madrastas e enteados) — não há direitos sucessórios legais entre afins.
Art. 1578º CC: “Parentesco é o vínculo que une duas pessoas, em consequência de uma delas descender da
outra ou de ambas procederem de um progenitor comum.” Temos parentes na linha reta e na linha colateral.
Interessa-nos distingui-los, porque o 2133º tanto prevê o parentesco na linha reta como na linha colateral.
As relações de parentesco classificam-se por linhas e por graus. Temos linha reta quando um descende do
outro; colateral quando ambos descendem de progenitor comum. Quantos aos graus de parentesco ver art.
1581º CC.
Ex.: Um pai e filho são parentes em linha reta em primeiro grau; um neto é parente em linha reta descendente
em primeiro grau, assim como avó é parente na linha reta ascendente em primeiro grau; etc.
Nos casos de direito das sucessões é muito importante termos o caso muitíssimo bem definido. Há esquemas
para resolver os casos com rigor. Na maior parte dos casos de sucessões, vai haver família, vamos ter de lidar
com as relações familiares.
Aqui temos os dados dos bens que podem integrar a massa da herança, mas também precisamos de fazer as
árvores familiares e, depois, fazer o esquema relativo à forma como se vai desenvolver a partilha.
Temos o Alberto, que falece em 2023. O Alberto deixou a Beatriz, cônjuge; deixou a Maria, mãe; deixou a
Clara e o filho dela, Hugo; deixou o Edmundo, filho dele; e deixou o Gualter, irmão. 1 mês depois de Alberto
falecer, Beatriz deu à luz Filipa. Diogenes tinha pré-falecido em 2009.
Alberto deixou:
A biblioteca em testamento, que valia 15 mil euros, a Maria (mãe) e Gualter (irmão).
Bens comuns no valor de 200 mil;
Há uma série de momentos que fazem parte do fenómeno sucessória — há momentos essenciais e
momentos eventuais no fenómeno sucessório.
O primeiro momento é a abertura da sucessão, e nós sabemos que a sucessão se abre com a morte, no
momento da morte – artigo 2031.º CC – A sucessão abre-se no momento da morte do seu autor e no lugar
do último domicílio dele.
Há uma série de questões que se vão reportar a este momento. Uma série de atos depois vão retrotrair-se ao
momento da abertura da sucessão. A sucessão abre-se em dezembro de 2023, o momento da morte do
Alberto.
E entre o chamamento e a aquisição temos um período ou uma figura que se chama a herança jacente. A
partir do momento em que se dá a aquisição sucessória, estes efeitos retrotraem-se todos à data da abertura
da sucessão.
Então:
1. Abertura da sucessão,
2. Chamamento,
3. Herança jacente,
4. Aquisição sucessória – que se dará pela aceitação; se não houver aceitação, se houver repúdio, não temos
aquisição.
Artigo 2032.º CC “1. Aberta a sucessão, serão chamados à titularidade das relações jurídicas do falecido
aqueles que gozam de prioridade na hierarquia dos sucessíveis, desde que tenham a necessária
capacidade.”.
Há três pressupostos da vocação sucessória: (1) a existência, (2) a capacidade (3) e a titularidade da
designação sucessória prevalente.
(1) Titularidade da designação sucessória prevalente: existem vários títulos da vocação sucessória — art.
2026º CC: “A sucessão é deferida por lei, testamento ou contrato.” E nós já vimos que há uma hierarquia
das designações sucessórias — temos (1) sucessão legitimária, (2) sucessão contratual, (3) sucessão
testamentária (4) e, por fim, sucessão legítima – por esta ordem hierárquica. Só vamos chamar um
determinado sucessível depois de termos lidado com a designação sucessória hierarquicamente superior.
(2) Existência – o pressuposto da existência determina que o sucessível já haverá de existir e ainda haverá
de existir no momento da abertura da sucessão. Só estes são chamados.
Já haverá de existir – nós, à partida, vamos associar esta existência às pessoas singulares, mas também
podemos falar de sucessão nas pessoas coletivas. Quem é que existe para o direito, quando falamos de
pessoas singulares? Aqueles relativamente aos quais se deu nascimento completo e com vida. Depois vamos
ver que há aqui alguns afinamentos que podemos fazer.
(3) Capacidade – capacidade não se identifica com o conceito de capacidade que estudamos em teoria geral
do direito civil. A capacidade, aqui, é a idoneidade para ser chamado a suceder como herdeiro ou como
legatário dos bens do de cujus. A regra é a da capacidade para suceder — está associada à ausência da
prática de comportamentos que, no fundo, tornem aquele herdeiro ou legatário indigno para suceder.
Se eu não pratiquei uma série de comportamentos que estão elencados na lei e me retiram esta capacidade
sucessória porque ao ordenamento jurídico repugna que sejam chamadas estas pessoas a suceder, nestes
casos, então, eu tenho capacidade para suceder.
Temos de avaliar, quanto a cada uma destas pessoas, se se preenchem ou não os pressupostos:
A Beatriz é cônjuge do Alberto - a relação matrimonial encontra-se prevista no art. 1577.º CC.
Levantam-se alguns problemas relativamente à sua existência? Não. Já é nascida e não morreu.
Indicou-se algum comportamento que pode fazer considerar-se que ela não é idónea para suceder? Também
não. Ela tem capacidade. A questão agora é saber se ela é titular da designação sucessória prevalente:
Temos, primeiro, de perguntar se existem herdeiros sucessórios legitimários. Encontramos essa lista no
artigo 2157.º CC “São herdeiros legitimários o cônjuge, os descendentes e os ascendentes, pela ordem e
segundo as regras estabelecidas para a sucessão legítima.” Se a Beatriz é cônjuge, ela é herdeira legitimária.
Mas também dentro da sucessão legitimária precisamos de hierarquizar os herdeiros legitimários para
determinados efeitos. Para sabermos qual é essa hierarquia, não a vamos encontrar nas regras da sucessão
legitimária, mas sim nas regras da sucessão legitima, para a qual as regras da sucessão legitimária
remetem. Vamos incluí-la numa classe de sucessíveis:
Artigo 2133.º CC “1. A ordem por que são chamados os herdeiros, sem prejuízo do disposto no título da
adopção, é a seguinte: a) Cônjuge e descendentes; b) Cônjuge e ascendentes; c) Irmãos e seus descendentes;
d) Outros colaterais até ao quarto grau; e) Estado.”
Só nas duas primeiras classes de sucessíveis é que nós temos herdeiros legitimários.
Na primeira classe de sucessíveis temos cônjuge e descendentes; na segunda, temos cônjuge e ascendentes.
Temos cônjuge em duas classes sucessíveis. Se existirem descendentes, o cônjuge concorre com estes. Na
falta de descendentes, o cônjuge não herda sozinho. Vai concorrer com os ascendentes. Só na falta de
descendentes e ascendentes é que herda sozinho.
Maria é mãe de Alberto – do ponto de vista das qualificações de relações familiares, o que vamos fazer?
Temos parentesco na linha reta e parentesco na linha colateral. O parentesco na linha reta tem em conta
também a direção que estamos a considerar – se é ascendente ou descendente. Quando estamos a falar de
herdeiros legitimários, estamos apenas a falar em parentesco na linha reta.
Artigos 1578.º e ss. CC — A Maria é parente na linha reta, ascendente, no 1.º grau.
Ela é ascendente – preenche o terceiro pressuposto da relação sucessória – ela é herdeira legitimária – artigo
2157.º CC.
Nós vamos enquadrar a Maria na 2.ª classe de sucessíveis. Mas apesar de ela ser herdeira legitimária, se
existirem descendentes que sejam chamados a suceder, a Maria vai acabar por ser afastada.
Artigo 2134.º CC “Os herdeiros de cada uma das classes de sucessíveis preferem aos das classes
imediatas.” Se temos herdeiros das classes superiores, então, não vamos chamar os das classes inferiores.
Mas, se tivemos descendentes, ascendentes e cônjuge vão chamar os descendentes e os cônjuges, são estes
que são chamados e a Maria é afastada com base neste princípio de preferência de classes, apesar de ser
herdeira legitimária.
A Clara é filha de Alberto. Também não se levantam questões quanto à existência e capacidade. Ela é titular
da designação sucessória prevalente. Ela é parente, na linha reta, descendente em 1.º grau. Ela integra a
primeira classe de sucessíveis. A Maria, então, vai ser afastada. Temos cônjuge e uma descendente, pelo
menos, a integrar a primeira classe de sucessíveis.
A Clara tem um filho, o Hugo. Relativamente ao Hugo, nada nos é dito que levante questões quanto à
ausência de existência ou capacidade. O Hugo é, ao Alberto, parente, em linha reta, descendente em 2.º grau.
Os descendentes são herdeiros legitimários. Que classe de sucessíveis integra? A primeira classe de
sucessíveis.
Mas Hugo não vai ser chamado — porquê? Porque a mãe ainda está viva:
O princípio que nos vai interessar é outro princípio da sucessão legítima que se vai aplicar à sucessão
legitimária – é o princípio da preferência de graus de parentesco – artigo 2135.º CC “Dentro de cada
classe os parentes de grau mais próximo preferem aos de grau mais afastado.”
Apesar de Hugo ser herdeiro legitimário, o que faria dele titular da designação sucessória prevalente, ele vai
ser afastado pelo princípio da preferência de graus de parentesco porque a sua mãe é viva e a mãe - parente
descendente em 1º grau vai afastar o filho, parente descendente em 2º grau.
Temos outro filho, o Edmundo. O Edmundo, tal como Clara, é parente na linha reta, descendente em 1º grau
– integra a primeira classe de sucessíveis – é herdeiro legitimário – está vivo.
Mas: incapacidade por indignidade — Artigo 2034.º CC “Carecem de capacidade sucessória, por motivo
de indignidade: … d) O que dolosamente subtraiu, ocultou, inutilizou, falsificou ou suprimiu o testamento,
antes ou depois da morte do autor da sucessão…”
Por regra, a incapacidade é avaliada no momento da morte do autor da sucessão. O nosso caso dá-nos
uma exceção. No momento da abertura da sucessão Edmundo estava capaz, não tinha feito nada, mas
entretanto fez. Todas as outras causas relevam no momento da morte do sucessor, mas esta tem de ser uma
exceção, tem de tomar como referência um momento posterior.
Há autores que defendem que funciona por efeito da lei – ope legis; há outros que consideram que tem de
haver declaração de indignidade – até pela expressão do artigo 2036.º CC. A Dra. Paula Vitor considera
ter de haver declaração de indignidade, não opera automaticamente.
Diógenes era filho de Alberto, mas não se preenche a sua existência. É filho pré-falecido em 2009, não é
chamado. A regra é que o chamado tem de sobreviver ao de cujus.
A priori, temos de invocar o que sabemos relativamente ao estabelecimento da paternidade. O que é que
sabemos relativamente a estas situações em que o filho nasce depois de dissolvido o casamento da mãe –
dissolvido por morte, neste caso. Como é que se determina a paternidade dentro do casamento? Através da
presunção pater is est – artigo 1826.º CC “1. Presume-se que o filho nascido ou concebido na constância do
matrimónio tem como pai o marido da mãe.”
Período legal de conceção – artigo 1798.º CC “O momento da concepção do filho é fixado, para os efeitos
legais, dentro dos primeiros cento e vinte dias dos trezentos que precederam o seu nascimento, salvas as
excepções dos artigos seguintes.”
Diríamos que é parente na linha reta, descendente, em 1.º grau, é herdeira legitimária e integra a primeira
classe de sucessíveis. Não tem motivo para ser incapaz. Mas, no momento da morte do autor da sucessão,
ainda não era nascida, podemos ter um problema de existência.
Porém, o legislador estabeleceu exceções – artigo 2033.º CC “1. Têm capacidade sucessória, além do
Estado, todas as pessoas nascidas ou concebidas ao tempo da abertura da sucessão, não exceptuadas por
lei.” Não só aqueles nascidos, mas também aqueles concebidos no momento da abertura da sucessão
podem ser chamados a conceber.
A Filipa tinha de ter personalidade jurídica? À partida, sim. Tinha-a apenas depois de se ter dado o
nascimento completo e com vida. Contudo, o artigo 2033.º CC diz que no âmbito da sucessão legítima as
pessoas concebidas ao tempo da abertura da sucessão podem ser chamadas. Temos um chamamento com
condição legal suspensiva. Temos uma condição legal suspensiva, que é o nascimento da Filipa. Dá-se o
nascimento completo e com vida? Sim. Um mês depois da morte do pai. Vai também ela preencher o
pressuposto da existência.
Quanto a Gualter:
Ele está vivo, existe, nada nos diz que ele cometeu algum ato que o tornasse inidóneo para suceder. Mas ele é
titular da designação sucessória prevalente? Não, é irmão, parente de 2.º grau na linha colateral — art. 2157º
CC. Ele não é herdeiro legitimário.
Ele pode eventualmente integrar uma das classes da sucessão legitima, poderia ser chamado enquanto
herdeiro legítimo — só se não existissem herdeiros legítimos das classes superiores, mas existem.
Então já sabemos quem são os herdeiros legitimários chamados, a Clara, a Filipa e a Beatriz. Vamos abrir
sucessão legitimária. Se abrimos sucessão legitimária, quer dizer que há uma parte da herança que vai ficar
reservada para os herdeiros legitimários, a quota indisponível/legítima. Do outro lado temos a quota
disponível, a quota de que o autor da sucessão pode dispor, não está reservada.
Ora, o autor da sucessão deixou um testamento, tanto Gualter como Maria são legatários testamentários.
Maria e Gualter são legatários
Tanto a mãe como o irmão sucedem à partilha em bens certos e determinados – uma biblioteca, apesar de ser
uma universalidade de facto, ainda assim, pode ser classificada como legado.
Artigo 2030.º CC para a definição dos legatários; biblioteca como coisa composta – artigo 206.º CC.
Neste momento, já sabemos quem concorre. Concorrem Beatriz, Carolina e Filipa como herdeiras
legitimárias. Concorrem Maria e Gualter como legatários testamentários. Agora que já os chamamos, vai-se
dar lugar à aquisição sucessória:
(Esta poderia não existir se o Alberto morresse e deixasse apenas o cônjuge, por exemplo – não existiria
partilha)
Aqui, vai ter de existir partilha. Vamos ter de começar a considerar valores.
Só vai integrar a massa da herança aquilo que é do Alberto. Mas note-se que temos ali uma referência a
bens comuns. Todos os bens comuns vão integrar a massa da herança? Não. Previamente, temos de fazer
uma partilha conjugal.
Eles estão casados no regime da comunhão de adquiridos – regime supletivo. Temos ali como bens comuns
os 200 mil euros. A nossa primeira operação é a partilha conjugal.
Pela morte, dá-se a dissolução do casamento. No artigo 1688.º e 1689.º temos as regras da partilha.
Cessam as relações patrimoniais, e a Beatriz vai receber a meação dos bens comuns.
Temos de aplicar a regra da metade. A meação do Alberto será 100 mil euros, e vão ser esses os bens que
entram na herança, não os 200 mil.
Mas ele não deixou apenas bens comuns. Deixou bens próprios e dívidas próprias. Isto tem de ser
contabilizado no chamado cálculo da massa da herança – art. 2162.º CC “1. Para o cálculo da legítima,
deve atender-se ao valor dos bens existentes no património do autor da sucessão à data da sua morte, ao
valor dos bens doados, às despesas sujeitas a colação e às dívidas da herança.”
Este artigo dá-nos os elementos necessários para fazer o cálculo da massa da herança, quando se abre
sucessão legitimária, quando se tem de calcular a quota indisponível, a legítima.
Então, a massa da herança = os bens deixados, ou seja, os bens no património do autor da sucessão à data
da sua morte + os valores doados + despesas sujeitas à colação - as dívidas da herança?
Interpretação da Escola de Coimbra: A interpretação da escola de Coimbra é que este artigo não nos dá a
ordem pela qual se faz o cálculo da massa da herança. Dá-nos os elementos necessários, mas vamos ter de
inverter a ordem dos fatores — interpretação corretiva deste artigo:
Massa da herança = aos bens deixados subtraímos as dívidas, e só posteriormente adicionamos as doações
ou despesas sujeitas à colação.
Alteramos a ordem porque as doações e despesas sujeitas à colação já não estão na esfera do património do
autor à data da sucessão. Esta alteração protege os herdeiros legitimários em caso de herança deficitária.
Imaginemos que Joana morre e deixa 100 mil euros de património comum e 200 mil euros de dívidas. Deixa
ainda doações no valor de 50 mil euros. Aqui, pagamos aos credores de Joana pelo valor de 100 mil e os 50
mil das doações vão ser preservados para os herdeiros legitimários.
No nosso caso: massa da herança = 120 mil – 30 mil + 0 = 90 mil. Os bens deixados são a meação dos bens
comuns e os bens próprios (120 mil); as dívidas são de 30 mil e não temos doações. A massa da herança é de
90 mil.
Ainda não sabemos a legítima. Há uma parte da herança que o autor pode dispor e outra fica reservada aos
herdeiros legitimários. Se temos herdeiros legitimários, há uma parte da herança que lhes é reservada – a
Como calculamos a quota indisponível ou legítima a partir do cálculo que fizemos da massa da herança?
As quotas indisponíveis não são todas iguais, temos regras diferentes. A quota indisponível varia consoante o
tipo de herdeiros legitimários e o número de herdeiros legitimários.
Artigo 2159.º CC “1. A legítima do cônjuge e dos filhos, em caso de concurso, é de dois terços da herança.
2. Não havendo cônjuge sobrevivo, a legítima dos filhos é de metade ou dois terços da herança, conforme
exista um só filho ou existam dois ou mais.” — não só importa quem são, mas também quantos são os
herdeiros legitimários.
A legítima é de 2/3 da herança. Se a herança é de 90 mil euros, a quota indisponível é de 2/3 = 60 mil
euros.
Sendo assim, também já sabemos qual é a quota disponível. A quota disponível é igual à massa da herança
(90 mil euros) menos a quota indisponível = 30 mil euros.
Artigo geral – a regra é a da sucessão por cabeça – artigo 2136.º CC “Os parentes de cada classe sucedem
por cabeça ou em parte iguais, salvas as excepções previstas neste código.”.
A questão é sabermos se estamos perante alguma das exceções previstas no Código – artigo 2139.º CC “1. A
partilha entre o cônjuge e os filhos faz-se por cabeça, dividindo-se a herança em tantas partes quantos
forem os herdeiros; a quota do cônjuge, porém, não pode ser inferior a uma quarta parte da herança.” Isto
vem proteger o cônjuge quando estamos perante famílias muitos numerosas.
Quando é que não se dividiria a herança em partes iguais pelo cônjuge e pelos filhos? Só é necessário
preservar este 1/4 da herança quando o cônjuge concorre com mais do que 3 herdeiros.
Então aplica-se aqui a regra da sucessão por cabeça: 60 mil a dividir por 3 = 20 mil euros de legitima
subjetiva.
Temos legatários testamentários, são M e G. Têm direito a 15 mil euros deste legado testamentário.
Mas ele não dispôs de tudo. Ainda temos 15 mil euros por distribuir no âmbito da quota disponível. Houve
uma parte da herança que o autor não dispôs, temos um remanescente.
Vão aplicar-se regras já não imperativas (como na sucessão legitimária), mas regras supletivas — abre-se a
sucessão legítima.
Vão ser chamados enquanto sucessores legítimos B, C e F – M e G eram também herdeiros legítimos, mas
vão ser afastados pelo princípio da preferência de classes.
B, C e F são chamadas como herdeiras legítimas e vamos dividir o remanescente por elas. Vamos aplicar a
regra da divisão por cabeça – cada uma delas vai receber 5 mil euros (15 mil a dividir por três pessoas).
Deixou:
Sabendo ainda que Carmo faleceu dois meses depois da mãe sem exercer o direito de aceitar ou
repudiar a herança, e que todos aceitaram, faça a partilha.
Primeiro ato necessário – abertura da sucessão — no momento da morte do autor e no lugar do domicílio,
vai abrir-se a sucessão.
Até ao momento da morte, temos as designações sucessórias. Só quando se dá a morte é que se fixam de uma
determinada forma. Fixam-se na figura da vocação – o chamamento. Quem é que vamos chamar a ocupar o
lugar da Ângela na titularidade daquelas relações jurídicas? É uma situação de sub-rogação subjetiva.
Art. 2032º CC
Temos de perceber se se reúnem os três pressupostos da vocação sucessória relativamente a cada uma das
pessoas. Existência, capacidade e titularidade da designação sucessória prevalente.
Há uma hierarquia das designações sucessórias, aquele que for titular da designação sucessória prevalente é
chamado em primeiro lugar.
Apesar de eu poder ser titular de uma designação sucessória, por não ser titular da designação sucessória
prevalente, não vou ser chamado.
Depois encontramo-lo na segunda classe de sucessíveis – artigo 2133.º/1, alínea b) CC. O Prudêncio só
será chamado se não houver primeira classe de sucessíveis a ser chamada — art. 2134º — o Prudêncio só
sucederá, neste caso, se não tivermos herdeiros da primeira classe de sucessíveis – porque se aplica na
sucessão legitimária o princípio da preferência de classes. Se tivermos quem integre a primeira classe de
sucessíveis (cônjuge e descendentes), o Prudêncio é afastado.
Bártolo é cônjuge – é herdeiro legitimário (artigo 2157.º CC) – é titular da designação sucessória
prevalente – primeira classe de sucessíveis (e também na segunda — depende se concorre com
descendentes ou ascendentes) – artigo 2133.º/1 alíneas a) e b) – se não tivermos descendentes que
concorram, o cônjuge vai ser chamado ao mesmo tempo que o ascendente.
Não temos nada que nos indique que haja falta de existência ou de capacidade.
Carmo é filha – parente na linha reta, descendente em 1.º grau – é herdeira legitimária. Está na primeira
classe de sucessíveis. Vamos afastar o pai, o Prudêncio.
Mas sabemos que ela vem a morrer mais tarde, dois meses depois da morte da Ângela. Contudo o momento
que estamos aqui a considerar é o momento da abertura da sucessão e ela existia no momento da abertura
da sucessão — por isso é que abrimos sucessão, é a este momento que se reporta a sucessão. Preenche-se o
pressuposto da existência.
Gabriela, filha da Carmo também é descendente (apesar de ser em grau mais afastado), também é herdeiro
legitimário, também é titular da designação sucessória prevalente – só que, estando a mãe viva, é afastada –
princípio da preferência dos graus de parentesco. Dentro da mesma classe, vai ser afastado o neto em
função do princípio da preferência do grau de parentesco – artigo 2135.º CC.
O marido da Carmo, Eduardo tem, em relação à Ângela, uma relação de afinidade (Não dizer parente por
afinidade – há uma relação familiar por afinidade). Eduardo, como genro, é afim na linha reta, descendente
em primeiro grau. Os afins não estão contemplados, não há referência no 2133º, nem 2157º CC.
Depois, temos o Daniel, descendente, em parente na linha reta, descendente no primeiro grau, é herdeiro
legitimário na primeira classe de sucessíveis.
Mas ele morreu em 2015. Estamos numa situação de pré-morte. Não se preenche o pressuposto da
existência. Nós sabemos que é necessário que estejamos perante alguém que ainda esteja vivo no momento
da abertura da sucessão.
O filho, Filipe é descendente na linha reta no 2.º grau. Ele, sendo descendente, é herdeiro legitimário –
titular da designação sucessória prevalente, integra a primeira classe de sucessíveis.
Art. 2135º CC: “Dentro de cada classe os parentes de grau mais próximo preferem aos de grau mais
afastado.” — a Carmo é mais próximo, afastaria o Filipe. O Filipe seria porque o princípio da preferência dos
graus de parentesco faz com que, existido a mãe, os descendentes de grau mais afastado sejam afastados.
Mas vai funcionar aqui uma exceção — o legislador quer reequilibrar a situação, tem como objetivo restaurar
alguma normalidade do ponto de vista sucessório quando há situações que, do ponto de vista existencial, são
anormais. A pré-morte de um filho relativamente à sua ascendente é uma situação anormal. Ficaríamos
chocados se chegássemos à conclusão de que, bastando que existisse a tia viva, aquele neto não receberia
nada do que teria direito o pai. Há expedientes que podem afastar o princípio da preferência dos graus de
parentesco.
Aqui, vai funcionar a vocação indireta — temos alguém que não seria chamado, mas que vai suceder em
vez de outra pessoa que não pôde ou não quis suceder. E os bens vão transmitir-se diretamente do autor da
sucessão para o chamado indireto. Neste caso, não se pôde suceder (incapacidade; pré-morte; situações de
ausência), ou não quis e não querer é repudiar.
(Se tivéssemos a falar na sucessão testamentária o art. 2041º diz-nos uma coisa diferente — não se
contempla a situação de indignidade sucessória, não é não pôde genericamente)
Nas situações de vocação indireta, os bens transmitem-se diretamente do autor da sucessão para o
sucessível (da Ângela para o Filipe). Vamos ter apenas um fenómeno sucessório. Os pressupostos da
vocação sucessória vão ter de ser avaliados do chamado indireto (Filipe) relativamente ao autor da sucessão
(Ângela), e não quanto à pessoa cuja interposição ideal seja feita (Daniel).
A favor de quem é que se dá o direito de representação? Artigo 2042.º CC “Na sucessão legal, a
representação tem sempre lugar, na linha recta, em benefício dos descendentes de filho do autor da sucessão
e, na linha colateral, em benefício dos descendentes de irmão do falecido, qualquer que seja, num caso ou
noutro, o grau de parentesco.”
Neste caso, o direito de representação dá-se apenas a favor do neto e não a favor de Helena, que é titular
de uma relação de afinidade, não é titular da designação sucessória prevalente. O direito de representação
funciona só a favor de descendentes.
Carmo foi chamada à vocação sucessória, mas ela não teve oportunidade de aceitar ou repudiar a
herança. Estamos perante alguém que foi chamado, sapo não teve oportunidade de responder ao
chamamento.
O Dr. Remédio Marques considera a aceitação como um dos pressupostos da vocação sucessória.
A Dra. Paula Vítor não concorda. Existe o chamamento, a aceitação é uma resposta ao chamamento.
Então, relativamente à Gabriela não vai funcionar o direito de representação. A lei acautela esta situação de o
chamado falecer sem aceitar ou repudiar a herança através da figura da transmissão do direito de aceitar ou
repudiar a herança – artigo 2058.º CC. “1. Se o sucessível chamado à herança falecer sem a haver
aceitado ou repudiado, transmite-se aos seus herdeiros o direito de a aceitar ou repudiar.” Não falamos de
representação, falamos de transmissão — há diferenças:
É como se integrasse aquela herança o direito de aceitar ou repudiar. Gabriela vai adquirir de Carmo o direito
de aceitar ou repudiar a herança, não há uma transmissão dos bens diretamente de Ângela para a Gabriela.
A transmissão do direito de aceitar ou repudiar dá-se a favor dos herdeiros (ao contrário do direito de
representação, que se dá a favor de descendentes apenas) — tanto Gabriela como Eduardo vão beneficiar da
transmissão deste direito, porque este direito integrou a herança de C, são os herdeiros de C quem vai exercer
esse direito.
Vão ser chamados, então, os herdeiros de Carmo. O marido, Eduardo, e a filha, Gabriela. (Temos, de
seguida, de verificar os pressupostos da vocação sucessória de E e G relativamente a Carmo).
Há aqui uma operação prévia que temos de fazer, uma vez que Ângela era casada no momento da morte,
num regime de comunhão — a partir de 1967 o regime supletivo é o regime da comunhão de adquiridos –
desde logo, porque falamos em bens comuns.
Que regra vamos aplicar para partilhar o património comum? A regra da metade – artigo 1730.º CC.
Vamos dividir aqueles 100 mil euros em dois = 50000€.
Depois, para calcular aquilo que vai constituir o património sucessório, a massa da herança, os elementos,
mas não a ordem, são-nos dados pelo artigo 2162.º CC:
Temos de ter em conta os bens deixados, os bens doados, as despesas sujeitas à colação e as dívidas da
herança. Mas a ordem não vai ser esta, porque temos de ter em conta as situações em que existe herança
deficitária. Vamos fazer uma interpretação corretiva deste artigo 2162.º CC (do Dr. Pereira Coelho).
Temos os bens deixados, menos as dívidas, mais doações.
Temos 50 mil (meação dos bens comuns) + 30 mil (bens próprios), dentro dos bens deixados, e ainda vamos
ter dívidas no valor de 35 mil euros. A massa da herança será de 45 mil euros.
Como temos sucessão legitimária, temos uma quota indisponível de que o autor da sucessão não vai poder
dispor, porque está reservada aos seus herdeiros legitimários; e temos uma quota disponível.
- B;
- foi chamada C, que no seu lugar E e G lhe vão suceder
- e foi chamado D, mas, em virtude do direito de representação, é F que vai suceder.
Agora temos de calcular qual é a quota indisponível — Artigo 2159.º CC “1. A legítima do cônjuge e dos
filhos, em caso de concurso, é de dois terços da herança. 2. Não havendo cônjuge sobrevivo, a legítima dos
filhos é de metade ou dois terços da herança, conforme exista um só filho ou existam dois ou mais.” Depende
de quem são os herdeiros legitimários e depende do número de herdeiros legitimários.
O que significa que a quota disponível é igual à massa da herança, menos a quota indisponível = 15 mil
euros.
Vamos aplicar o princípio da sucessão por cabeça. Vamos dividir por 3 os 30 mil. Temos 10 mil euros de
legítima subjetiva relativamente a cada um deles.
Não vamos dividir os 10 mil entre o E e o G porque isso já diz respeito à sucessão de C e não à sucessão de
A.
O autor da sucessão podia dispor dos bens, mas não o fez. Não há sucessão contratual, nem sucessão
testamentária.
Vamos aplicar as regras que aplicámos à sucessão legitimária, mas agora já não por remissão. Vamos dividir
os 15 mil por 3 = 5 mil a cada um.
Deixou:
- Carlota faleceu dois meses depois da mãe num trágico acidente, sem ter podido aceitar ou repudiar
a herança;
- Em testamento deixara a Joana, sua sobrinha, uma jóia de família no valor de 3.000€;
- Isaura fez desaparecer o testamento depois da morte da mãe;
- todos os restantes aceitaram;
Faça a partilha.
Primeiro ato necessário – abertura da sucessão — no momento da morte do autor e no lugar do último
domicílio da Aurora, vai abrir-se a sucessão.
Art. 20 31º CC — Momento subsequente – momento essencial, incontornável – a vocação sucessória – com
a morte desaparece este sujeito, há uma série de relações jurídicas que deixam de ter titular - algumas
extinguem-se, outras, o ordenamento jurídico tem de suportar a sua transmissão.
Até ao momento da morte, temos as designações sucessórias. Só quando se dá a morte é que se fixam de uma
determinada forma. Fixam-se na figura da vocação – o chamamento. Quem é que vamos chamar a ocupar o
lugar da Aurora na titularidade daquelas relações jurídicas? É uma situação de sub-rogação subjetiva.
Art. 2032º CC
Temos de perceber se se reúnem os três pressupostos da vocação sucessória relativamente a cada uma das
pessoas. Existência, capacidade e titularidade da designação sucessória prevalente.
Há uma hierarquia das designações sucessórias, aquele que for titular da designação sucessória prevalente é
chamado em primeiro lugar.
Apesar de eu poder ser titular de uma designação sucessória, por não ser titular da designação sucessória
prevalente, não vou ser chamado.
Depois encontramo-lo na segunda classe de sucessíveis – artigo 2133.º/1, alínea b) CC. O Pantaleão só
será chamado se não houver primeira classe de sucessíveis a ser chamada — art. 2134º — o Pantaleão só
sucederá, neste caso, se não tivermos herdeiros da primeira classe de sucessíveis – porque se aplica na
Quanto à capacidade sucessória: há idoneidade para suceder – este pressuposto está relacionado com
comportamentos a que a lei associa esta falta de capacidade sucessória. Reúnem-se estes pressupostos.
Bernardo é cônjuge – é herdeiro legitimário (artigo 2157.º CC) – é titular da designação sucessória
prevalente – primeira classe de sucessíveis (e também na segunda — depende se concorre com
descendentes ou ascendentes) – artigo 2133.º/1 alíneas a) e b) – se não tivermos descendentes que
concorram, o cônjuge vai ser chamado ao mesmo tempo que o ascendente.
Não temos nada que nos indique que haja falta de existência ou de capacidade.
Carlota, filha de Aurora — faleceu dois meses depois da mãe num trágico acidente, sem ter podido aceitar ou
repudiar a herança:
Carlota é filha, parente na linha reta, descendente em 1.º grau – é herdeira legitimária. Está na primeira
classe de sucessíveis. Vamos então afastar o pai, Pantaleão.
Mas sabemos que ela vem a morrer mais tarde, dois meses depois da morte da Ângela. Contudo, o momento
que estamos aqui a considerar é o momento da abertura da sucessão e ela existia no momento da abertura
da sucessão — por isso é que abrimos sucessão, é a este momento que se reporta a sucessão. Preenche-se o
pressuposto da existência.
David é descendente, em primeiro grau, mas é pré-falecido, não se preenche o pressuposto da existência.
Mas David tem um filho, o filho tem direito de representação, vai suceder representativamente ao pai, e
dizemos o filho e não Helga, que é afim de Aurora, não integra nenhuma classe de sucessíveis e o direito de
representação só se dá a favor de descendentes.
Isaura — incapacidade sucessória por indignidade. Não vai ser chamada. A sua parte vai acrescer à dos
outros que vão ser chamados.
Gigi: filha da Carlota também é descendente (apesar de ser em grau mais afastado), também é herdeira
legitimária, também é titular da designação sucessória prevalente – só que, estando a mãe viva, é afastada –
princípio da preferência dos graus de parentesco. Dentro da mesma classe, vai ser afastado o neto em
função do princípio da preferência do grau de parentesco – artigo 2135.º CC.
O marido da Carlota, Élio tem, em relação à Aurora, uma relação de afinidade (Não dizer parente por
afinidade – há uma relação familiar por afinidade). Élio, como genro, é afim na linha reta, descendente em
primeiro grau. Os afins não estão contemplados, não há referência no 2133º, nem 2157º CC.
Estamos perante a transmissão do direito de aceitar ou repudiar a herança. Art. 2058º CC, direito a favor do
filho e do cônjuge, Gigi e Élio.
Havia bens comuns, no valor de 100.000 euros. Tínhamos bens próprios no valor de 30.000 euros. Dívidas
no valor de 35.000 euros. Não temos doações.
Temos de ter em conta os bens deixados, os bens doados, as despesas sujeitas à colação e as dívidas da
herança. Mas a ordem não vai ser esta, porque temos de ter em conta as situações em que existe herança
deficitária. Vamos fazer uma interpretação corretiva deste artigo 2162.º CC (do Dr. Pereira Coelho).
Temos os bens deixados, menos as dívidas, mais doações. Subtrair as dívidas aos bens deixados permite-nos
acautelar a situação de heranças deficitárias, protegendo os herdeiros legitimários.
Temos de fazer a partilha conjugal. Na partilha funciona a regra da metade - art. 1688º e 1689º e 1730º CC.
Ou seja, temos 50 mil (meação dos bens comuns) + 30 mil (bens próprios), dentro dos bens deixados, e ainda
vamos subtrair dívidas no valor de 35 mil euros. Não há doações, senão adicionávamos agora. A massa da
herança será de 45 mil euros.
Agora temos de calcular a legitima a partir dos 45 mil euros. A primeira sucessão a abrir é a legitimária, esta
em 1º lugar na hierarquia das designações sucessórias. Como se calcula a legítima/quota indisponível?
Isto varia consoante a categoria de herdeiros legitimários e o número de herdeiros legitimários. Temos 1
cônjuge e 2 descendentes.
Art. 2159º CC — A legítima do cônjuge e dos filhos, em caso de concurso, é de dois terços da herança. 2/3
de 45 mil são 30 mil.
Agora, quanto cabe a cada um na sua legítima subjetiva? 10.000 a cada um — vale o princípio da sucessão
por cabeça no âmbito da sucessão legitimária, consagrado no art. 2136º CC, aplicando as regras da sucessão
legítima à sucessão legitimaria por remissão (art. 2157º CC).
Temos agora a parte que o autor da sucessão pode dispor livremente. Mas não passamos já para a sucessão
legítima, esta está em último na hierarquia das sucessões, temos de perguntar primeiro se há sucessão
contratual e/ou testamentária. Aqui há testamento.
Temos um legado testamentário (art. 2030º) — deixou à sobrinha, Joana, uma jóia no valor de 3.000 €.
Sendo assim, temos um remanescente de 12.000€ — como o distribuímos? Distribuímos igualmente pelos
herdeiros legítimos, a título de sucessão legítima.
Aplicamos o art. 2136º CC para dividir o remanescente, segundo a ordem do art. 2133º CC. Encontramos
conjuge e descendentes na primeira classe de sucessíveis — 4.000 € a cada um (12.000 a dividir por 3).
CASO PRÁTICO 10
Deixou:
Sobreviveram-lhe:
Faça a partilha.
Começamos pela abertura da sucessão, sempre – artigo 2031.º CC – em 2021 morre a Anabela, abre-se a
sucessão no momento da morte e no local do último domicílio.
Logo a seguir temos a vocação sucessória. Para sabermos quem vai ser chamado temos de analisar os
pressupostos da vocação sucessória – artigo 2032.º CC – existência, capacidade e titularidade da
designação sucessória prevalente.
Ela é titular da designação sucessória prevalente? Sim. Ela é descendente, parente na linha reta descendente
no 1.º grau – herdeira legitimária (artigo 2157.º CC), pertence à primeira classe de sucessíveis (artigo 2133.º,
alínea a) CC).
Ele é titular da designação sucessória prevalente? Sim. Ele é descendente, parente na linha reta descendente
no 1.º grau – herdeira legitimária (artigo 2157.º CC), pertence à primeira classe de sucessíveis (artigo 2133.º,
alínea a) CC).
Contudo, não tem capacidade sucessória por indignidade - foi declarado indigno. Assim, não vai ser
chamado. O artigo 2034.º CC diz-nos que “Carecem de capacidade sucessória, por motivo de indignidade:
a) O condenado como autor ou cúmplice de homicídio doloso, ainda que não consumado, contra o autor da
sucessão ou contra o seu cônjuge, descendente, ascendente, adoptante ou adoptado” – ele não pode ser
chamado. E a filha?
Preenche todos os pressupostos: é titular da designação sucessória prevalente? Sim. Ele é descendente,
parente na linha reta descendente no 1.º grau – herdeira legitimária (artigo 2157.º CC), pertence à primeira
classe de sucessíveis (artigo 2133.º, alínea a) CC). É capaz e existe.
Também não temos problemas quanto à existência e capacidade – é parente na linha reta descendente em
segundo grau. Apesar de ela ser herdeira legitimária, há uma descendente em primeiro grau e ela é só em
segundo grau. Mas o pai dela está vivo – preenche o pressuposto da existência – mas não tem capacidade.
O princípio da preferência dos graus de parentesco faria com que ela fosse afastada. O pai comete este crime
e a filha é afastada. Isto não é assim. O direito de representação também funciona no âmbito da sucessão
legal relativamente àqueles que são os descendentes de incapazes. Artigo 2043.º CC “Os descendentes
representam o seu ascendente, mesmo que tenham repudiado a sucessão deste ou sejam incapazes em relação
a ele.”
O artigo 2039.º CC chama os descendentes daquele que não pôde, Zacarias não pode porque é indigno.
Vão chamados a Vitória; a Bárbara (em representação do seu pai - vocação indireta); e o Carlos.
O Xavier não é titular da designação sucessória prevalente porque é legatário – do lado da quota
indisponível, não terá direito a nada. Mas, se abrirmos sucessão testamentária, temos a posição deste a,
eventualmente, ser considerada.
Abrindo a sucessão legitimária temos, desde logo, de fazer o cálculo da massa da herança, porque há
sucessão legitimária, de acordo com o artigo 2162.º CC e da interpretação corretiva que fazemos deste
artigo. Aqui não há partilha conjugal, Anabela não era casada.
Bens deixados no valor de 26 mil euros, menos 2 mil euros de dívidas, mais 9 mil, mais 12 mil de doações.
Dá 45 mil euros de massa da herança.
Que herdeiros legitimários é que nós temos? Três descendentes. Diz-nos o artigo 2159.º/2 CC que a legitima
dos filhos é de metade ou 2/3, havendo um descendente ou mais – temos de aplicar os 2/3. Temos então 30
mil euros de quota indisponível e 15 mil euros de quota disponível.
Legitimas subjetivas de cada um – 10 mil a cada um, por causa do princípio da sucessão por cabeça – artigo
2136.º CC.
Temos um legado testamentário de um livro, no valor de 3.000, a Xavier, que não é herdeiro legitimário.
Aparece do lado da quota disponível, precisamente porque o autor da sucessão podia dispor da totalidade
daqueles 15.000€.
A autora da sucessão fez doações, dispôs de bens em vida, relativamente aos seus descendentes. E quando
alguém o faz, o legislador pressupõe que o autor quer antecipar o gozo ou fruição de parte dos bens aos
descendentes, mas não os quererá favorecer relativamente aos outros — é a lógica subjacente à colação.
Art. 2104º CC: “Os descendentes que pretendam entrar na sucessão do ascendente devem restituir à massa
da herança, para igualação da partilha, os bens ou valores que lhes foram doados por este: esta restituição
tem o nome de colação.”
Do lado da quota disponível, sabemos que a autora da sucessão tinha disposto de alguns bens. Tinha feito
uma doação a B, em 2004, de 9 mil euros. E tinha feito uma doação a C em 2007, de 12 mil euros. A autora
da sucessão tinha disposto de bens. Podia fazê-lo, como já vimos, mas em determinada medida. Só a quota
indisponível está reservada aos herdeiros legitimários.
Tínhamos de saber se estas doações estão ou não sujeitas à colação. Sabemos que determinadas doações têm
de ser sujeitas a este mecanismo para igualar a partilha, tendo em conta que o legislador parte do princípio
quando há determinadas doações que são feitas, nomeadamente a descendentes, que estas não visam
beneficiar esses descendentes, mas simplesmente antecipar o gozo da coisa.
Para que alguém esteja sujeita à colação, é necessário que estejamos perante um descendente, e há
controvérsia relativamente à posição do cônjuge (ver aula teórica). Quanto às doações feitas a ascendentes,
estas não estão sujeitas à colação, porque não se pressupõe uma antecipação da quota hereditária.
- Descendente
- presuntivo herdeiro legitimário
- à data da doação
- que pretenda entrar na sucessão
- e que não tenha sido dispensado da colação
Bárbara é neta, é descendente, parente na linha reta descendente no segundo grau. Queremos saber se ela é
presuntiva herdeira legitimária à data da doação. A doação foi feita em 2004. Ela só foi chamada em
representação do pai porque este foi declarado indigno – em que data? Em 2003. Ou seja, em data anterior à
doação. Isto significa que à data da doação a Barbara é presumida herdeira legitimária – o pai já não
preenchia um dos pressupostos da vocação sucessória.
(Se a doação tivesse sido feita antes, em 2002, ela não era presuntiva herdeira legitimária, a avó estaria em
crer que quem lhe sucederia seria o pai da Bárbara, pretendia favorecer a Bárbara, não antecipar alguma
coisa)
Para além disto, temos de saber se ela pretende entrar na sucessão – sim, ela aceitou. Esta doação também
não deve ter sido dispensada da colação. Não há nenhuma nota nem nenhum dado que nos diga que esta
doação foi dispensada da colação.
Ele é descendente em linha reta, no 1.º grau, é presumido herdeiro à data da doação – ele aceitou e não houve
dispensa da colação.
Sabemos que não há dispensa da colação porque a Anabela nada disse. Quando nada se diz, estas doações
estão sujeitas ao regime supletivo.
Artigo 2108.º CC – como vai ser feita a conferência – “1. A colação faz-se pela imputação do valor da
doação ou da importância das despesas na quota hereditária, ou pela restituição dos próprios bens doados,
se houver acordo de todos os herdeiros.” – como estamos perante o regime supletivo, vamos sujeitar-nos à
igualação possível e não à igualação total.
Bárbara, dos 10 mil da legítima subjetiva, ainda tem a receber mil euros (a doação foi de 9.000).
No caso de Carlos, imputamos 10 mil à legitima subjetiva e 2 mil à quota disponível (a doação foi de
12.000).
Mas nós sabemos que não houve só disposição de bens feitas em vida. Temos uma disposição testamentária a
título de legado – deixou um legado ao Xavier, terceiro, no valor de 3 mil euros. É um legado e não uma
herança porque é doado um bem certo e determinado – um livro – artigo 2030.º CC.
A autora da sucessão já dispôs de 5 mil euros (3.000 do testamento + 2.000 da doação a Carlos). Isto deixa-
nos um remanescente de 10 mil euros (na quota disponível).
Agora temos de fazer a igualação da partilha. Temos bens suficientes para proceder à igualação da partilha.
Vamos igualar logo os restantes em 2 mil euros, para ficarem igual a C, no que toca à quota disponível.
Aos 10.000 subtraímos 4.000 e sobram 6.000 euros para distribuir a título de sucessão legítima, a distribuir
pelos herdeiros legítimos.
Abrindo a sucessão legitima, seguindo as mesmas regras que vimos para a sucessão legitimária, e dividindo
estes 6 mil euros pelos três descendentes que pertencem à mesma classe – primeira classe de sucessíveis.
Vão mais 2 mil euros para cada.
Então tínhamos o regime supletivo e tínhamos bens suficientes para igualar e ainda existia um
remanescente, abrindo-se ainda a sucessão legítima.
CASO PRÁTICO 11
Deixou:
Ele morre em outubro de 2020, é nesse momento que se dá a abertura da sucessão, no momento da morte, e
no lugar do último domicílio.
Não há nenhuma questão a apontar relativamente a nenhum deles quanto à existência, já existem e ainda
existem; não temos nenhuma notícia de algum comportamento que torne algum deles não idóneo para
suceder e, portanto, não são incapazes; e os três são filhos do Arnaldo – são parentes em linha reta,
descendentes, em 1.º grau, pertencem à primeira classe de sucessíveis. Eles são, então, herdeiros
legitimários, são titulares da designação sucessória prevalente.
Se temos herdeiros legitimários, há uma parte da herança de que o Arnaldo podia dispor e uma parte de que
não pode dispor.
Há que calcular a massa da herança. Para fazer o cálculo da massa da herança quando estamos perante a
sucessão legitimária, temos indicações na lei quanto aos elementos a considerar – artigo 2162.º CC. Temos
de considerar os bens deixados, os bens doados e as despesas sujeitas à colação e temos de considerar as
dívidas. Temos de fazer uma interpretação corretiva do artigo 2162.º CC. MH = Bd – Div + D.
8 mil – 2 mil + 9 mil + 12 mil = 6 mil + 21 mil = 27 mil euros.
Para determinar as legítimas subjetivas, temos de recorrer ao princípio da sucessão por cabeça – artigo 2136.º
CC, que aplicamos por remissão das regras da sucessão legitima para as regras da sucessão legitimária.
18.000€ a dividir por 3 dá 6.000 €
Fez também doações a descendentes, relativamente às quais nada disse — aplica-se o regime supletivo.
Fez uma doação a B no valor de 9 mil euros. Ela era presumida herdeira legitimária à data da doação, em
2004? Sim. Ela aceitou a herança, pretende entrar na sucessão.
Depois temos uma doação feita a C – ela era descendente, presumida herdeira legitimária à data da doação,
pretende entrar na herança porque não aceitou e não foi dispensada da colação. 6 mil euros na legitima
subjetiva e 6 mil euros da quota disponível.
Já dispôs de 9 mil na quota disponível. Isto significa que, em vida, o Arnaldo já dispôs da totalidade da
quota disponível.
É verdade que há aqui um legado testamentário, mas como vamos ver já não se cumpre o legado. Isto
porque Arnaldo já dispôs de tudo o que poderia dispor. Quando o autor da sucessão dispõe de mais do que o
que poderia dispor, porque é que dizemos que não se manteria o legado e se mantêm as doações? Qual é o
instituto que visa proteger a quota indisponível? A redução por inoficiosidade:
Se se excede a quota disponível, temos de fazer redução por inoficiosidade, não se põe a hipótese de haver
bens para igualar, não há bens para igualar. No regime supletivo o legislador conforma-se com esta hipótese.
Não há uma redução, p.e. da doação de C para que haja uma igualação total relativamente aos outros
descendentes. Vai existir sim uma redução por inoficiosidade porque há liberalidade que excedem a quota
disponível. Mas do ponto de vista da colação, nada mais se faz, não há bens suficientes para igualar porque
estamos no regime supletivo.
“Dizem-se inoficiosas as liberalidades, entre vivos ou por morte, que ofendam a legítima dos herdeiros
legitimários.” — tanto entre vivos e por morte e nós temos tanto por morte como entre vivos no caso.
Depois, art. 2169º CC - “As liberalidades inoficiosas são redutíveis, a requerimento dos herdeiros
legitimários ou dos seus sucessores, em tanto quanto for necessário para que a legítima seja preenchida.”
E há uma ordem — art. 2171º CC “A redução abrange em primeiro lugar as disposições testamentárias a
título de herança, em segundo lugar os legados, e por último as liberalidades que hajam sido feitas em vida
do autor da sucessão.”
Abrange primeiro as disposições testamentárias a título de herança (já vimos a distinção entre herança e
legado (art. 2030º CC));
Isto basta, não precisamos de avançar mais, porque, assim sendo, o autor da sucessão só dispôs de 9 mil
euros.
CASO PRÁTICO 12
Deixou:
- Vitorino, filho
- Branca, filha
- Carmo, filha
Sabendo que:
- Em 2004 doara a Branca uma arma antiga, no valor de 9.000, que lhe entregou em mãos, no dia do
seu noivado, sem nada referir.
- Em 2007 doara a Carmo um pequeno estúdio no valor de 12.000 euros, com dispensa da colação.
- Em testamento deixara uma caixa de música barroca a Zara, a sua melhor amiga, no valor de 3.000.
- E que todos aceitaram, faça a partilha.
Abertura da sucessão; vocação sucessória; pressupostos – existência, capacidade, titular da designação
sucessória prevalente – temos três filhos em igualdade de circunstâncias, são descendentes, integram a
primeira classe de sucessíveis, são herdeiros legitimários.
Vamos ter de fazer o cálculo da herança – artigo 2162.º CC + interpretação corretiva da Escola de Coimbra.
Temos 26 mil menos 2 mil, mais 9 mil, mais 12 mil. Isto significa que a massa da herança é de 45 mil
euros.
Abre-se a sucessão legitimária, fazemos a divisão por cabeça – legítimas subjetivas de 10 mil euros. Artigo
2136.º CC.
Temos duas doações que são feitas a duas filhas. Mas não estamos perante o regime supletivo da colação,
porquê?
B é descendente, é presumida herdeira legitimária ao tempo da doação; foi dispensada da colação? Não. Mas
a doação vai estar sujeita à colação? Não, porque o artigo 2113.º CC diz que a colação pode ser dispensada
pelo doador e presume-se dispensada nas entregas manuais (nº3).
No caso de C, ela é descendente, presumida herdeira legitimária à data da doação, pretende entrar na
sucessão e, neste caso, a mãe diz que dispensa a doação da colação. Vamos fazer o que o artigo 2114.º CC
nos diz. A doação será imputada na quota disponível – 12 mil euros para C.
Em vida, A já dispôs de mais que podia. Não temos igualação da partilha, mas temos de respeitar a quota
indisponível, logo vamos recorrer à redução por inoficiosidade.
Temos ainda um testamento – um legado a favor de Z, no valor de 3.000 euros. 21.000 + 3.000 = 24.000€
Claramente, em vida e por morte, o autor dispôs de mais do que podia. Estamos perante inoficiosidade das
liberalidades. Regras da redução das liberalidades por inoficiosidade – artigo 2168.º CC, que nos dá a
definição, e seguintes.
É preciso reduzir o legado na sua totalidade. Mas, mesmo assim, ainda dispôs de mais do que podia.
Só podia dispor de 15 mil euros e já sem o legado, ainda dispôs de 21 mil euros. Vamos ter de reduzir as
liberalidades que foram feitas em vida.
Artigo 2173.º CC “1. Se for necessário recorrer às liberalidades feitas em vida, começar-se-á pela última,
no todo ou em parte; se isso não bastar, passar-se-á à imediata; e assim sucessivamente.” A última a ser
feita foi de 12 mil euros, a favor de Carmo. É preciso reduzir em 6 mil para preservar a integridade da
legítima.
Artigo 2174.º/2 CC “2. Sendo os bens indivisíveis, se a importância da redução exceder metade do valor
dos bens, estes pertencem integralmente ao herdeiro legitimário, e o legatário ou donatário haverá o resto
em dinheiro; no caso contrário, os bens pertencem integralmente ao legatário ou donatário, tendo este de
pagar em dinheiro ao herdeiro legitimário a importância da redução.”
O que é que podemos fazer para que, ainda assim, a Carmo venha em concreto receber aquele estúdio? Ela
tinha direito a receber 10 mil euros de legítima subjetiva. Se imputarmos 6 mil euros correspondentes ao
valor do estúdio e ela receber só 4 mil a título de legítima subjetiva, mantém o estúdio, não paga tornas e
recebe 4 mil euros a título de legítima subjetiva. Assim, preservamos a vontade do disponente.
CASO PRÁTICO 13
Deixou:
- Bruno, filho
- Carlos, filho
- Diana, filha
Sabendo que:
- Em 2004, doara a Carlos um relógio de bolso no valor de 9.000, POR CONTA DA LEGÍTIMA;
- Em 2007, doara a Diana um terreno no valor de 12.000 euros, POR CONTA DA LEGÍTIMA;
- Deixou a Xenofonte uma guitarra elétrica no valor de 3.000;
- E que todos aceitaram, faça a partilha.
Cálculo das legítimas subjetivas, aplicando o princípio da sucessão por cabeça = 8 mil euros a cada um deles
de legitima subjetiva (24.000 a dividir por 3)
Temos duas doações feitas por conta da legítima, pelo que o autor quer uma igualação total, o primeiro
regime convencional. O que o autor no diz é que quer a igualação e não se conforma com a inexistência de
uma igualação.
Imagine-se que o A fazia uma doação por conta da legítima à neta. A neta até vinha a suceder, porque tinha
um pai pré-falecido, mas na data em que houve a doação ela não era presumível herdeira legitimária – a
doação não estaria sujeita à colação. Mas não vamos complicar.
Temos a doação a C – é descendente, presumido herdeiro legitimário à data da doação, aceita e não houve
dispensa, pelo contrário, há um regime convencional (não resulta da lei).
A mesma coisa para D. É descendente, presuntiva herdeira legitimária à data da doação, retende entrar na
sucessão e não houve dispensa – está sujeita ao regime da colação absoluta, por conta da legítima.
Doação a C foi de 9 mil – 8 mil euros da legítima subjetiva, mais mil euros da quota disponível.
A doação a D foi de 12 mil – 8 mil euros da legítima subjetiva, mais 4 mil euros da quota disponível.
O autor da sucessão ainda deixou um bem em testamento, um legado. Portanto, nós temos de considerar este
legado que, entretanto, foi feito. Somando tudo, temos 8 mil euros da quota disponível já entregues.
Temos um remanescente de 4 mil euros. E o excesso das doação, aquilo que tem de ser igualado é o que?
No fundo, temos 5.000 que os outros receberam a mais. E temos 9.000 que têm de ser distribuídos por igual.
Então 9.000 a ter de ser distribuídos por igual entre os descendentes, porque o autor da sucessão quer
igualação total. 3.000 a cada um.
D é reduzido em 1.000, para receber só 3.000 (paga mil para os irmãos verem as suas doações igualadas).
Agora imagine-se:
b. que foi feita uma doação de 9.000€ a C no regime supletivo, o autor da sucessão nada disse
O autor da sucessão dispôs de mais do que devia, temos de proceder à redução das liberalidade, começando
pelo legado. Mesmo assim, ainda temos de avançar para as doações intervivos. Imaginemos que a de 12.000
€ foi a última. Vamos reduzi-la por inoficiosidade em 2.000.
Quanto ao primeiro, houve dispensa da colação. No último houve regime da igualação absoluta. E agora
quanto a este o regime supletivo.
No regime supletivo, o autor da sucessão conforma-se com o facto de não haver remanescente para haver
igualação. Não há remanescente aqui, não pode haver igualação dessa doação relativamente aos outros.
Mas quanto ao caso de D, da igualação total - ele não quer beneficiar a Diana. Como fazemos a igualação?
Aquilo em que ela ficaria beneficiado vai ter de ser dividido por 3, cada um vai receber 233,333€.
A forma mais fácil de garantir que há igualação total é dividirmos aquilo com que a pessoa beneficiada com
a doação no regime da colação absoluta receberia a mais em relação aos vários descendentes, temos de tratar
separadamente cada uma das doações.
CASO PRÁTICO 14
Deixou:
Vocação sucessória:
Ivo é irmão, logo, parente na linha colateral no 2º grau, integra a 3ª classe de sucessíveis, alínea c) do 2133º
CC. Existe e é capaz.
Felicidade é irmã, logo, parente na linha colateral no 2º grau, integra a 3ª classe de sucessíveis, alínea c) do
2133º CC. Existe e é capaz.
Sérgio é parente na linha colateral no 2º grau, 3ª classe de sucessíveis, mas temos uma situação de pré-morte,
não preenche o pressuposto de existência, não é chamado.
Relativamente ao João, temos um parente na linha colateral no 3º grau, integra a 3ª classe de sucessíveis. Vai
ser afastado a titulo de princípio de preferência de graus de parentesco?
Não há herdeiros legitimários, a designação sucessória prevalente é a última, só temos herdeiros legítimos.
Não temos de contabilizar no cálculo da massa de herança aquilo que o autor da sucessão dispôs em vida. Se
o Artur quisesse ter doado tudo o que tinha ao seu amigo até podia tê-lo feito.
Art. 2145º CC
Mas há regras especiais quanto à sucessão de irmãos. Temos um irmão da parte do pai, um da parte da mãe e
um de ambos.
Não há uma divisão por cabeça. Temos uma exceção ao art. 2136º CC. Ver art. 2146º CC: “Concorrendo à
sucessão irmãos germanos e irmãos consanguíneos ou uterinos, o quinhão de cada um dos irmãos
germanos, ou dos descendentes que os representem, é igual ao dobro do quinhão de cada um dos outros.”
O irmão germano recebe duas vezes o que recebe o irmão uterino e o irmão consanguíneo.
Fica 10.000 para Felicidade, 10.000 para Sérgio, e 20.000€ para Ivo.