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Capítulo 4

Capitulo 4 de caixa preta de Daniel Carvalho

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Capítulo 4

Capitulo 4 de caixa preta de Daniel Carvalho

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Capitulo 4 - Longe e Perto

Registro 4.1 — Timidez das Copas

Objeto encontrado: reprodução de urna grega, cena de dois amantes suspensos antes
do beijo. Cerâmica esmaltada. Origem indeterminada. O corpo dele inclinado, a boca
ainda a caminho, a mão quase tocando o rosto dela. A distância preserva o gesto.
Estado de conservação: intacto. Hipótese de curadoria: certas cenas só permanecem
belas porque nunca chegaram a acontecer.

“Bold Lover, never, never canst thou kiss…” — John Keats, Ode on a Grecian Urn

Baixios ainda não tinha começado.

Antes do mar aberto, antes da pousada com café coado em filtro de pano, antes da Via
Láctea caber num copo, houve a floresta.

A Reserva de Sapiranga tinha aquele tipo de calor que não cai do céu: sobe do chão.
Um vapor baixo, vegetal, misturado a cheiro de folha úmida, terra escura, madeira
apodrecendo devagar e alguma coisa doce demais que vinha das flores escondidas. A
mata não era silêncio. Era o contrário: cigarras, vento, estalos mínimos de galhos, bicho
invisível se deslocando entre folhas, água correndo em algum lugar sem se mostrar.

Parei antes mesmo da trilha começar de verdade.

Havia alguma coisa estranha no alto das árvores.

Não estranha: precisa.


As copas cresciam uma em direção à outra e, no último instante, recuavam. Não se
tocavam. Entre elas, o céu aparecia em linhas irregulares, canais estreitos de luz
rasgando o verde como rios vistos de cima. Do chão, a floresta parecia fechada.
Olhando melhor, era cheia de fendas.

Não era vazio.

Era desenho.

Fiquei olhando por tempo demais. Talvez porque aquilo me lembrasse a urna grega:
dois amantes suspensos antes do beijo, a boca ainda a caminho, a mão quase tocando
o rosto. Na cerâmica, a distância preservava o gesto. Ali, na floresta, preservava outra
coisa: a luz.

Só depois vi a placa pequena, quase engolida pela vegetação.

TIMIDEZ DAS COPAS

Fenômeno em que árvores vizinhas mantêm fendas entre suas copas, formando canais
de luz no dossel. Entre as hipóteses: abrasão mecânica pelo vento, otimização da luz e
redução da transmissão de pragas.

Alan leu por cima do meu ombro.

— Até árvore sabe dar espaço — ele disse.

— Ou tem medo de encostar.

— Talvez seja a mesma coisa, dependendo do estrago.


Alan estava vestido como se a trilha fosse uma extensão da academia: bermuda curta,
camiseta leve, tênis de corrida, uma garrafa de água pendurada na mão com a mesma
naturalidade com que outros homens carregam cigarro.

— Você anda como se a natureza tivesse que te explicar alguma coisa — ele disse.

— E você anda como se fosse dono dela.

— Não. Eu ando como se tivesse joelho.

Eu ri.

A trilha começava larga, quase educada, com placas de madeira, raízes aparentes,
sombra quebrada em manchas claras no chão. Mais adiante, ouvíamos vozes. Um
grupo se preparava para o arborismo: capacetes coloridos, mosquetões, cabos de aço
presos entre plataformas altas. Crianças gritavam sem medo. Adultos riam com aquele
riso de quem já se arrependeu, mas ainda precisa parecer esportivo.

Alan parou.

— Vamos.

— Não.

— Você nem sabe o que eu ia dizer.

— Sei. E a resposta é não.

Ele apontou para a estrutura suspensa entre as árvores.


— É só andar.

— Suspenso por cabos.

— Exatamente. Andar com edição.

Eu olhei para cima. Uma mulher atravessava uma ponte de cordas entre duas
plataformas. O corpo dela não avançava em linha reta: corrigia a si mesmo a cada
passo. Um pé, balanço, pausa, outro pé, balanço, riso nervoso. O guia, de baixo,
repetia:

— Não trava. Quem trava balança mais. Deixa o corpo acompanhar o cabo.

A frase ficou em mim antes que eu soubesse o que fazer com ela.

Alan já estava assinando alguma coisa numa prancheta.

— Você é irresponsável — eu disse.

— E você é uma ata de reunião com medo de altura.

Fizemos.

Ou melhor: ele fez como se tivesse nascido em cima de cabos, e eu fiz como se
estivesse negociando com a morte uma cláusula de tolerância.

Na primeira plataforma, a floresta mudou de altura. Do chão, as árvores pareciam


abrigo. De cima, pareciam um sistema. Troncos, galhos, folhas, fendas, vento. Tudo
conectado e separado. O cabo vibrava sob meu peso. A madeira da plataforma rangia
com uma sinceridade que eu dispensaria.
Alan já estava na plataforma seguinte.

— Vem.

— Eu estou indo.

— Não está. Você está argumentando com o ar.

Dei o primeiro passo. A ponte cedeu.

O corpo inteiro tentou voltar para trás.

— Para de negociar com o chão, Daniel — Alan gritou. — Ele não está mais aí.

A frase me irritou porque era boa.

Dei outro passo. A ponte balançou mais. Segurei os cabos laterais com força demais, o
ombro travado, a mandíbula fechada. Quanto mais eu tentava controlar, mais a
estrutura respondia com instabilidade. Era como se o medo tivesse peso próprio e o
cabo, educadamente, devolvesse tudo amplificado.

O guia disse de baixo:

— Solta um pouco o braço. Dobra o joelho. O equilíbrio não é ficar parado. É corrigir
junto.

Alan abriu os braços na outra ponta, teatral.


— Ouve o homem. Ele parece saber mais da sua vida que você.

Respirei.

Soltei um pouco.

A ponte continuou balançando, mas alguma coisa mudou. Não ficou estável. Eu é que
parei de exigir estabilidade. O corpo encontrou um acordo mínimo com o movimento.
Um passo não anulava o medo; apenas dava ao medo uma direção.

Quando cheguei à plataforma, Alan me segurou pelo antebraço.

— Viu? Não morreu.

— Ainda.

— Dramático.

Mas ele não soltou imediatamente.

Ficamos um segundo ali, entre duas árvores, presos a cabos que não prometiam chão,
apenas travessia.

Mais adiante, havia uma tirolesa curta que descia em direção a uma área aberta perto
do rio. Alan foi primeiro. Não pediu bênção, não fez piada. Só se sentou na cadeirinha,
recebeu o mosquetão, olhou para mim e disse:

— O segredo é não parecer digno.

E saltou.
O corpo dele atravessou a clareira como uma frase rápida demais. Por um instante,
entre as copas, ele não parecia cair nem voar: parecia suspenso por uma gramática que
eu ainda não conhecia. O cabo cantou. As folhas se moveram. Depois ele chegou do
outro lado rindo, inteiro, irritantemente vivo.

Quando chegou minha vez, fechei os olhos no primeiro segundo.

Abri no meio.

A floresta passava por baixo em blocos verdes, mas agora eu reconhecia o desenho.
Havia cortes. Frestas. Canais estreitos de céu entre as copas, como se alguém tivesse
desenhado rios de luz no alto da mata. As árvores cresciam uma em direção à outra e,
no último momento, recuavam. Não se tocavam. Não se invadiam. Deixavam entre si
um espaço preciso — nem grande o bastante para parecer separação, nem pequeno o
bastante para virar contato.

Do chão, eu tinha estranhado.

Do ar, era impossível não ver.

Pousei mal, com pouca elegância e muita sobrevivência. Alan riu. Eu mandei ele se
foder. Ele riu mais.

Na saída da área suspensa, olhei de novo para cima.

As copas pareciam um vitral quebrado. Não havia delicadeza ali, exatamente. Havia
inteligência. Cada árvore avançava até o limite do contato e parava antes da ferida.
Entre uma e outra, o céu aparecia em linhas irregulares, quase azuis demais para a
mata fechada.

Pensei que talvez eu tivesse passado a vida confundindo amor com invasão.
Alan jogou a garrafa vazia na mochila.

— Vem. O rio está perto.

— Você não acha bonito?

— Acho.

— E não vai dizer nada?

Ele olhou de novo para cima, rápido, como quem concede ao mundo três segundos de
reverência.

— Se encostar demais, quebra galho. Se ficar longe demais, vira árvore sozinha. Pronto.
Pode transformar em tese.

Transformei.

Mas só depois.

Na hora, caminhei atrás dele em silêncio, ouvindo o som das folhas sem se tocarem.

Na volta da trilha, ainda com barro seco no tênis e cheiro de mato grudado na
camiseta, Alan pediu meu celular.

— Pra quê?

— Pra ver uma coisa.


— Você fala isso como ladrão.

— Ladrão não pede.

Entreguei.

Ele abriu a câmera, apontou para cima e filmou as copas. Não o céu inteiro. Só as
fendas entre uma árvore e outra, aqueles canais irregulares de luz onde os galhos
quase se encontravam e, no último instante, desistiam.

Gravou dez segundos.

Depois caminhou dois passos até a base de uma árvore e filmou de novo, olhando de
baixo para cima. As fendas de céu se fecharam. Abriram diferente.

Ficou olhando a tela por um momento.

Me devolveu o celular.

— Filma você agora. Do mesmo lugar que eu estava.

Filmei.

Era outra coisa.

Não porque a copa tivesse mudado.

Porque eu não tinha o mesmo metro e oitenta dele.


Alan pegou o celular de volta, colocou os dois vídeos lado a lado.

— Mesma copa — disse.

Não completou a frase.

Não precisava.

Abriu o Instagram. Tocou em Amigos Próximos.

O círculo verde apareceu na tela como uma pequena concessão de intimidade.

Digitou sobre o vídeo, em letras brancas:

A mesma copa. Outro corpo olhando. Outro céu.

Apagou.

Digitou de novo:

Tem coisa que só aparece quando você para de olhar do mesmo lugar.

Ficou olhando para a frase.

— Chato? — perguntou.

— Um pouco.
— Chato com potencial.

Postou.

Não havia aplauso, não havia público, não havia nada além do círculo verde em volta
da foto dele e a floresta reorganizando o céu em silêncio.

Mais tarde, eu pensaria que aquele story era a primeira caixa-preta de Alan.

Não como o gravador, que guardava o ruído antes que alguém pudesse penteá-lo. Não
como a fotografia, que esperava a luz morrer para revelar o que já estava ali. O story
fazia outra coisa: registrava a vontade de ser visto enquanto ainda se fingia
desaparecimento.

Vinte e quatro horas de duração.

Círculo verde.

Uma intimidade com prazo.

Um palco pequeno o bastante para parecer quarto.

O celular dele vibrou.

Alan abriu rápido demais para alguém que dizia não ligar.

Leu.
Tentou guardar o celular sem sorrir.

Não conseguiu completamente.

— Funcionou? — perguntei.

— Não sei.

— Como sabe quando funciona?

Ele pensou.

— Quando a pessoa não olha para mim. Olha de novo para o mundo.

— Mas olhando porque você mandou.

Alan me encarou.

— Leve crítica anotada.

— Levíssima.

Ele guardou o celular com mais força do que o necessário.

Seguimos andando.

Acima de nós, as copas continuavam tímidas. Não era ausência entre elas. Era uma
forma de deixar a luz passar sem que uma árvore precisasse vencer a outra.
Algumas vaidades produzem só ruído. Outras, de vez em quando, abrem uma fresta de
céu.

A fresta, naquele dia, durou pouco.

Talvez porque a mata tivesse nos deixado perto demais. Talvez porque o corpo, depois
do medo, procure assunto para não admitir que tremeu. Ou talvez porque certas brigas
já estejam prontas dentro da gente, esperando apenas uma frase pequena o bastante
para parecer inocente.

Começou no caminho de volta.

Eu disse que ansiedade não era opinião. Que havia nome, diagnóstico, literatura
médica, desregulação emocional, circuitos, critérios. Disse isso com a segurança
irritante de quem tenta transformar dor em documento.

Alan ouviu por alguns metros.

Depois falou:

— Você fala da ciência como se ela nunca tivesse errado sobre gente como a gente.

— Não foi isso que eu disse.

— Mas é assim que você usa. Como carimbo.

— Carimbo?
— É. Você põe um nome técnico e pronto. A dor vira laudo. A culpa vira sintoma. A
ferida vira argumento.

Senti o rosto esquentar.

— Melhor do que transformar tudo em opinião de Instagram.

Ele riu sem humor.

— Pronto. Agora eu sou burro.

— Eu não disse burro.

— Disse com pós-graduação.

A trilha ficou estreita. Tão estreita que, para continuar andando, um de nós precisava ir
na frente. Alan foi. A nuca dele, suada, parecia mais ofensiva do que qualquer frase.

— Ciência também chamou homossexualidade de doença — ele disse, sem olhar para
trás. — Também internou, corrigiu, eletrocutou, diagnosticou, normalizou, mutilou.
Mas quando ela te dá uma palavra bonita para você se explicar, aí vira sagrada.

— Ah, pronto. Você virou negacionista.

Ele parou.

Virou devagar.

— Cuidado.
— Com o quê?

— Com essa sua mania de chamar de ignorância tudo que não ajoelha para o seu
repertório.

A frase me atingiu.

Então eu fiz o que sempre faço quando me sinto pequeno: subi no primeiro lugar alto
que encontrei.

— E você tem mania de achar profundo qualquer ressentimento contra estudo. Nem
toda crítica à ciência é lucidez. Às vezes é só preguiça com trauma.

O rosto dele fechou.

Na hora em que a frase saiu, eu soube que tinha passado do ponto.

Mas há um segundo, nas brigas, em que a gente ainda prefere vencer a voltar.

Alan assentiu devagar.

— Tá. Então eu sou preguiçoso.

— Não foi isso.

— Foi. Mas tudo bem. Você é borderline, né? Tem ciência. Tem comprovação. Tem um
passe livre para ferir com bibliografia.
Fiquei gelado.

— Vai se foder.

— Você primeiro. Mas cita a fonte.

Ele saiu andando.

Eu fiquei parado alguns segundos na trilha, ouvindo as cigarras gritarem como se a


floresta inteira tivesse decidido não tomar partido.

Passamos o resto do dia sem nos falar.

E, por algumas horas, isso me deixou feliz.

Uma felicidade feia, pequena, mas real. Feliz porque o silêncio dele me dispensava do
esforço de ser compreendido. Feliz porque, se Alan não falava comigo, também não
podia me corrigir, me tocar no lugar errado, me devolver uma verdade que eu não
tinha pedido. A distância, quando nasce do orgulho, se parece muito com dignidade.

Na pousada, ele ficou de um lado do quarto. Eu, do outro. Não havia parede entre nós,
mas cada gesto fazia uma: a toalha pendurada sem comentário, o copo deixado na pia,
a porta do banheiro fechada com cuidado demais. Alan mexia no celular. Eu fingia ler.
Ele saiu para caminhar. Eu não perguntei para onde.

Achei bom.

Achei justo.

Achei, sobretudo, seguro.


Até minha mãe mandar a mensagem sobre meu avô.

Não era ainda a morte. Era uma piora, uma dessas notícias que chegam sem forma
definitiva, mas já trazem no corpo a sombra do fim. Hospital. Pressão baixa. Confusão.
A voz dela em áudio parecia menor do que eu lembrava, como se tivesse sido gravada
de dentro de um copo.

Ouvi uma vez.

Depois outra.

Na terceira, minha vontade foi chamar Alan.

Não para resolver. Não para opinar. Não para transformar aquilo em conversa. Só para
que ele soubesse que alguma coisa dentro de mim tinha abaixado a cabeça.

Peguei o celular.

Abri a conversa dele.

Digitei:

meu avô piorou

Apaguei.

Digitei:
você tá aí?

Apaguei.

A timidez das copas, naquele instante, não deixava passar luz nenhuma. Era só espaço.

Fiquei com o telefone na mão até a tela apagar.

Mais tarde, ele voltou com duas garrafas de água e um pacote de castanha comprado
na recepção. Colocou uma garrafa perto de mim. Não pediu desculpa. Não perguntou
da mensagem. Talvez tivesse visto meu rosto. Talvez eu tivesse envelhecido algumas
horas.

— Você comeu? — ele perguntou.

Balancei a cabeça.

— Isso não é resposta.

Sentou no chão, encostado na cama, longe o suficiente para não me cercar, perto o
suficiente para eu não precisar chamá-lo.

A distância certa, quando existe, não anuncia virtude. Só permite respirar.

— Meu avô piorou — eu disse.

Alan ficou imóvel por um segundo.

Depois empurrou o pacote de castanha na minha direção.


— Come um pouco. Depois você me conta.

Foi isso.

Nenhuma frase bonita.

Nenhuma tese sobre perda.

Só água, castanha e um corpo que não foi embora.

Comemos em silêncio. O silêncio, dessa vez, era outro. Não a punição da manhã, mas
uma espécie de intervalo habitável. As mesmas árvores que quebrariam se
encostassem demais também morreriam se a luz não passasse entre elas. Talvez a
gente estivesse aprendendo, sem nobreza nenhuma, que diferença não é sempre
ameaça. Às vezes é só o modo como o outro impede que a gente vire uma única versão
de si.

Alan foi o primeiro a falar.

— Eu não acho que ciência seja lixo.

— Eu sei.

— E você não acha que eu sou burro.

Demorei um pouco.

— Eu sei.
Ele me olhou.

— Isso foi um pedido de desculpa péssimo.

— Foi.

— Seu ou meu?

— Dos dois.

Ele quase sorriu.

— Ótimo. Eficiente.

A briga não terminou com abraço. Algumas brigas não merecem reconciliação
cinematográfica. Terminou com mastigação, água morna e dois homens descobrindo
que não precisavam concordar para continuar ali.

Mais tarde, quando voltamos às espreguiçadeiras, cada um pegou o próprio celular.

Dessa vez, a distância era ridícula: menos de um metro entre os ombros, talvez quinze
centímetros entre nossas mãos. Ainda assim, cada tela acendia um país separado no
rosto de cada um.

Baixios tinha um silêncio de lugar que ainda não tinha decidido se queria virar destino
turístico ou continuar sendo só vento, areia e água.

A pousada era bonita sem esforço, dessas que vendem “natureza” com roupa de linho
e café coado em filtro de pano. Mas, naquela tarde, a gente não estava vendo nada
disso. Estávamos os dois deitados em espreguiçadeiras, lado a lado e separados por
uma distância ridícula, cada um com o rosto aceso pela própria tela.
Alan deslizava o dedo pelo celular com uma concentração quase devota. Eu também.

A luz azul subia do aparelho e recortava o rosto dele de baixo para cima, deformando
um pouco os traços, como lanterna de acampamento em história de assombração. No
meu colo, o telefone fazia o mesmo comigo. Aquele tipo de claridade que não ilumina:
projeta. A gente não olhava para o mundo; olhava para a parede onde o mundo
passava em sombra.

Entre as árvores, a distância abria céu. Entre nós, os celulares acendiam uma distância
que parecia abrigo, mas era só parede.

— Eu acho que existe um amor que só se sustenta à distância — eu disse, sem tirar os
olhos da tela.

Alan nem levantou a cabeça.

— Que papo chato.

— Não é papo. É verdade.

— Piorou.

Ele rolou mais um pouco o feed, depois trancou o celular e o largou no peito como
quem se cansa da superfície.

— Você transforma tudo em tese, Daniel. Tudo. Até chifre.

Eu virei o rosto para ele.


— Não é chifre.

— Ah, não?

— Não. É outra coisa.

— Claro. Na sua mão, humilhação vira outra coisa em três frases.

Fiquei quieto um segundo. O calor não diminuía. O mar estava ali perto, mas parecia
mais distante do que devia.

— Eu não amava Rafael do jeito que eu dizia amar — falei. — Eu era viciado na
resposta dele. Na validação. Na humilhação também, talvez. Henrique era outra coisa.
Era campo. Era estrutura. Era uma forma de mundo onde eu achava que, se entrasse
direito, talvez deixasse de ser resto. Mas os dois juntos… os dois juntos foram o meu
mito da caverna.

Alan soltou uma risada curta, seca.

— Olha isso. Até os dois viram Platão.

— Viram porque eram. Eu olhava para eles e achava que estava vendo a vida. Mas
estava vendo projeção. Sombra. Reflexo. Um teatro muito bem iluminado por dinheiro,
beleza, promessa, clínica, futuro.

— E você era o filósofo preso?

— Eu era o idiota olhando para a parede.

Alan olhou para o celular no próprio peito.


— Você fala como se tivesse saído dela.

— Da caverna?

— Da parede. Até onde eu sei, ela só ficou menor e ganhou touch screen.

A frase me irritou porque era exata.

Alan sentou na espreguiçadeira e passou a mão no próprio abdômen, distraído, quase


checando se continuava inteiro.

— Tá vendo? É disso que eu tô falando. Você quer pular do corpo direto pra metafísica.
E a vida não funciona assim.

— Ah, não?

— Não. — Ele pegou o celular de novo, abriu uma foto, me mostrou uma planilha de
treino. — Eu tô montando uma divisão nova. Ombro, costas, posterior. E ajustando a
dieta. Porque, sim, beleza importa. Corpo importa. Saúde importa. Desejo importa. Se
você não se preocupa com isso, não vive amor nenhum no mundo real. Vive conceito.

Eu ri sem humor.

— Você estuda treino como se fosse uma disciplina acadêmica.

— E você fala isso como se fosse crime.

— Não é crime. É sintoma.


— Ah, pronto. O corpo virou sintoma.

— Não o corpo. Essa obsessão.

Alan me olhou com uma calma perigosa.

— Você fala dos meus treinos como se fossem alienação — ele disse. — Mas passa
duzentas páginas escrevendo sobre corpo padrão, Vênus, músculo, pele, desejo,
humilhação. A diferença é que eu abro planilha. Você abre referência.

— Não é a mesma coisa.

— Claro que não. O meu é supino. O seu é sublimação. Muito mais elegante.

— Você está reduzindo tudo.

— Não. Estou tirando a iluminação de museu. Você gostava de Rafael e Henrique


também porque eles eram lindos. Porque tinham corpo. Porque tinham dinheiro.
Porque pareciam uma saída com abdômen. Aí depois você chama isso de amor
platônico para não admitir que estava olhando para a parede.

A frase me acertou porque tinha crueldade e verdade misturadas — a combinação


mais irritante do mundo.

— Você está abrindo nota de rodapé para não admitir que achava os dois gostosos —
ele completou.

— Alan.

— O quê? Quer que eu diga “desejáveis dentro de uma economia simbólica do corpo
padrão”?
— Você é impossível.

— Eu sou desempregado. Impossível é um luxo que eu ainda não posso bancar.

Quase ri. Não dei esse gosto a ele.

— Você está fugindo.

— Claro. Mas pelo menos faço cardio.

A frase me desarmou por meio segundo. Alan tinha esse talento irritante: transformava
uma defesa em piada antes que a ferida aparecesse inteira.

— Você quer saber? — ele disse. — Esse papo de “amar é consentir na distância”
também é defesa. É bonito dizer isso quando o outro já escolheu outro continente,
outro homem, outra estrutura. Quero ver dizer isso com alguém vivo na sua frente.

— Você é muito prático quando quer fugir de uma conversa.

Ele ergueu o rosto, quase sorrindo.

— E você é muito profundo quando quer ganhar uma.

Aí o Wi-Fi caiu.

Não poeticamente. Caiu mesmo. O sinal sumiu, a bolinha girou, as mensagens pararam
no meio da frase, o mundo digital recolheu as próprias tendas e foi embora como um
garçom mal-humorado no fim do expediente.
A parede apagou.

Por alguns segundos, nenhum de nós soube para onde olhar.

Foi ridículo. E foi revelador. Sem a projeção, Baixios ficou constrangedoramente inteiro:
vento, maresia, cadeira rangendo, funcionário empilhando copos, uma criança
chorando ao longe, o mar existindo sem precisar ser publicado.

Alan olhou para o celular.

Eu também.

Mais uma vez. Nada.

Mais uma vez. Nada.

— Ótimo — ele disse. — Agora nem a futilidade me resta.

Eu olhei para o meu próprio reflexo escuro na tela e, pela primeira vez naquela tarde, vi
a cena de fora.

Dois homens adultos no litoral norte da Bahia, diante de uma paisagem imensa,
respirando vento e maresia, presos cada um a uma parede luminosa do tamanho da
mão.

Alan ficou olhando para o aparelho apagado por alguns segundos a mais do que o
necessário. A tela escura devolvia o rosto dele com manchas de dedo, sal seco,
gordura, poeira fina. Havia uma sujeira pequena perto da borda, um ponto escuro que
se deslocava conforme ele inclinava o telefone.

— Você está viciado nisso — eu disse.


— Estou desempregado — ele respondeu.

A frase saiu seca.

Não era uma confissão. Era uma porta batendo.

Fiquei quieto.

Havia alguns meses ele tinha sido demitido do escritório. Não dizia assim. Dizia que
estava “em transição”, “fazendo uns projetos soltos”, “repensando a forma de
trabalhar”. Na prática, vivia de bicos: uma planta humanizada para um conhecido, uma
consultoria de reforma que ninguém pagava direito, um orçamento que virava favor
antes de virar contrato. O presente, para Alan, tinha ficado sem piso. Talvez por isso ele
passasse tanto tempo na tela. Ali, pelo menos, ainda podia enquadrar alguma coisa.

Foi nesse vazio que a palavra influencer começou a parecer menos ridícula. Não como
profissão assumida — Alan ainda tinha pudor de dizer isso em voz alta —, mas como
hipótese de sobrevivência. Se ninguém o contratava para desenhar espaços, talvez
pudesse desenhar modos de olhar. Se o escritório tinha fechado a porta, o algoritmo
oferecia uma janela. Suja, instável, humilhante, mas ainda assim uma janela.

— Desculpa — eu disse.

— Pelo quê?

— Pelo tom.

Ele deu de ombros.

— Você não está errado.


Pegou o celular de novo, tentou atualizar a tela. Nada.

— É ridículo — ele disse. — A pessoa perde o emprego e começa a achar que o


algoritmo é uma espécie de RH místico.

Eu ri.

Ele também, mas sem alegria.

— Você quer viver disso? — perguntei.

— Disso o quê?

— De postar.

Alan olhou para o mar, depois para a tela apagada.

— Eu quero influenciar — disse.

A palavra saiu mais honesta do que ele esperava.

Depois tentou corrigir:

— Não nesse sentido idiota.

— Qual sentido?
— Fazer alguém ver diferente. Não vender whey, sunga e planner.

— Mas se pagarem?

Ele me olhou.

— Aí eu penso em ver diferente com patrocínio.

Dessa vez rimos os dois.

O riso ajudou. Não resolveu nada, mas abriu uma fresta.

— Eu postei aquele negócio das copas e três pessoas responderam — ele disse.

— Três?

— Quatro, se contar uma reação de foguinho. Mas reação de foguinho não é resposta,
é reflexo condicionado.

— E você não ligou.

— Claro que não.

— Claro.

Ele passou o dedo pela tela suja, como se alisasse uma superfície que se recusava a
obedecer.

— Uma pessoa disse que nunca tinha reparado nisso nas árvores.
— Você gostou.

— Gostei.

— Muito.

— Gostei de pensar que serviu para alguma coisa.

A frase tinha menos vaidade do que eu esperava. Ou talvez tivesse uma vaidade mais
difícil de julgar, porque vinha misturada com medo.

Alan queria transformar olhar em trabalho. Presença em renda. Sensibilidade em


método. Não era bonito o tempo todo. Às vezes era só ansiedade com vocabulário
melhor. Mas também não era falso. Ele via coisas. E queria que aquelas coisas, saindo
dele, encontrassem algum lugar onde pousar.

— Mostra o story — eu disse.

— Sem internet.

— Deve estar carregado.

Ele abriu.

A imagem das copas apareceu congelada, cortada pelo círculo verde, com a frase em
branco sobre o céu entre as folhas:

Tem coisa que só aparece quando você para de olhar do mesmo lugar.
Alan ampliou a imagem com dois dedos. As copas se afastaram ainda mais. Fez o gesto
contrário, e os galhos voltaram a quase se tocar. Na mata, as árvores tinham deixado a
luz passar sem obedecer a ninguém. No celular, a timidez delas obedecia ao polegar
dele.

— Engraçado — eu disse.

— O quê?

— Na floresta, a distância era uma coisa viva. Aqui, vira gesto de pinça.

Alan ficou olhando para a tela.

— E ainda assim alguém viu.

Não respondi.

A tela estava mais suja do que eu tinha percebido. Manchas de dedo, sal, um risco
curto perto do canto, um ponto escuro quase no centro. Alan passou para o vídeo
seguinte, uma foto que ele tinha feito de mim sem eu notar, sentado na
espreguiçadeira, o rosto meio virado para o lado, a luz azul do celular subindo do meu
colo.

— Olha — ele disse.

— O quê?

— Você tem um sinal aqui.

Apontou para perto da minha boca na tela.


— Tenho?

Passei o dedo na pele.

— Não. Na foto.

Ele aproximou a imagem.

— Ficou bonito.

Peguei o celular da mão dele e limpei a tela com a barra da camiseta.

O sinal desapareceu.

Alan ficou olhando.

— Era sujeira — eu disse.

Ele abriu a boca para fazer uma piada, mas não fez.

Pela primeira vez naquela tarde, pareceu constrangido não por ter errado, mas por ter
elogiado com sinceridade uma coisa que não existia.

— Desculpa — disse.

— Pelo quê?
Ele demorou um pouco.

— Por ter visto melhor na tela do que em você.

A frase saiu baixa demais para ser defesa.

Não respondi.

A pousada continuava ali, bonita demais para a nossa incompetência. O vento mexia as
folhas de uma palmeira perto do deck. Algum funcionário empilhava cadeiras ao longe.
A realidade inteira, sem Wi-Fi, insistia em permanecer.

Alan levantou, guardou o celular no bolso do short e fez um gesto largo com o braço,
irritado e bonito ao mesmo tempo.

— Então vamos ver a realidade, porra. Viemos aqui pra isso. Vamos pra Lagoa Azul.

A vila tinha aquele tipo de movimento pequeno que parece menor do que é. Gente
comprando gelo, menino passando de bicicleta, uma mulher arrumando o cabelo no
vidro escuro de uma farmácia, o calor grudando o mundo em si mesmo.

Passamos por uma lotérica.

Na porta, um homem de boné e sandália havaiana falava alto com a atendente, não
porque fosse mal-educado, mas porque o sonho exige volume.

— Quando eu ganhar, primeiro vou quitar a casa de minha mãe — dizia ele, contando
nos dedos. — Depois compro um carro. Depois boto meu filho num colégio bom.
Depois faço uma viagem. Depois eu sumo uns seis meses. Desligo tudo. Ninguém me
acha.
A mulher do caixa sorria com um cansaço antigo. Já devia ter ouvido a mesma lista em
mil versões. Ainda assim, escutava.

Alan parou.

Eu também.

O homem ainda não tinha ganhado nada, mas já estava habitando o depois como se o
depois fosse um imóvel prestes a ser entregue.

— É bonito isso — Alan disse.

— O quê?

— O sonho movendo o corpo. Olha a cara dele. Ele já está vivendo um pedaço.

Fiquei olhando o homem guardar o comprovante com o cuidado de quem dobra uma
oração.

— Meu pai faz isso — eu disse. — Escreve listas do que vai fazer se ganhar na mega-
sena.

Alan sorriu.

— Tá vendo? Isso também é platonismo. Só que popular.

Eu ri contra a vontade.

— Não estraga.
Seguimos andando.

Na padaria, a luz era fria e honesta. O cheiro de pão recente tentava convencer todo
mundo de que a vida ainda tinha conserto. Pedi doze pães por impulso — ou por fome
de alguma coisa que não era pão.

Ao meu lado, um senhor idoso segurava apenas um pão francês num guardanapo de
papel. A outra mão estava vazia, mas repetia no ar um gesto acostumado, como se
ainda segurasse uma coleira invisível, como se ainda precisasse lembrar ao próprio
corpo que havia outra presença no mundo.

Reconheci o rosto dele. Todo dia eu via aquele homem com uma cachorrinha pequena
de laço vermelho, os dois atravessando a praça num acordo silencioso de
sobrevivência.

Naquele dia, ele estava só.

— Cadê sua companhia? — perguntei.

Ele respirou fundo antes de responder, como quem passa a lembrança por uma peneira
fina para não se cortar.

— Foi embora antes de mim.

Sorriu de um jeito cansado.

— A gente sempre acha que vai primeiro. E a vida ri.

Ficamos em silêncio por um momento.


— E o que o senhor faz pra aguentar? — eu perguntei.

Ele olhou para o pão na mão.

— A gente aprende um truque velho. Não pergunta “por quê” todo dia. Porque se
perguntar, enlouquece. A gente só… vai.

Passou o polegar devagar pelo miolo do pão, num gesto que doeu mais do que devia.

— O duro não é a falta. É o costume. Eu ainda parto o pão no meio. Ainda olho pro
chão antes de pisar. Ainda espero o barulho da coleira quando abro a porta. A gente
não perde só quem se vai. A gente perde os gestos. E demora mais pra desaprender o
corpo do que pra aceitar a ausência.

Senti a garganta fechar de um jeito familiar.

A atendente voltou com o meu pacote enorme.

— Doze pães, moço.

Olhei para o volume ridículo nas minhas mãos. Não era fome. Era tentativa de tampar
o buraco com farinha.

Respirei.

— Desculpa. Pode deixar só com três?

Saí da padaria com o pacote menor e uma vergonha mais limpa.

Alan não disse nada.


Mas quando atravessamos a rua, ele encostou o braço no meu por um segundo — sem
comentário, sem tese, sem salvação.

Eu tinha passado a tarde falando de sombras. Mas, sem a parede acesa na mão,
alguma coisa começava a devolver peso ao mundo: o homem da lotérica sonhando em
voz alta, o velho reaprendendo a comprar pão para um, o braço de Alan encostando no
meu sem transformar cuidado em declaração.

A trilha para a Lagoa Azul começava com uma cerca baixa de arame, dessas
improvisadas para fingir limite onde o desejo de passagem já venceu faz tempo.

— Eu estava sendo egoísta — eu disse.

Ele não entendeu de imediato.

— Como assim?

— Eu falando de perda, de Henrique, de Rafael, como se a dor tivesse começado


comigo. E me esqueci de você. — Virei o rosto para ele. — Você perdeu seus pais aos
dez anos. Você nunca me falou disso direito.

Alan ficou parado. O capim entre os dedos.

O vento moveu quase nada a água.

— Não gosto de falar — ele disse.

— Eu sei.
Silêncio.

— Mas eu quero ouvir. Se você quiser.

Ele demorou muito.

Depois apoiou os cotovelos nos joelhos e ficou olhando para a lagoa como se a
resposta estivesse do outro lado.

— Meu pai tinha mania de prometer — disse por fim. — Prometia tudo. Que ia dar um
jeito. Que não ia deixar faltar. Que, se precisasse, segurava minha mão e me levava até
o fim. — Engoliu seco. — Aí morreu e largou minha mão no meio.

Não havia autopiedade na voz. Isso foi o que mais doeu.

Era uma frase lisa, quase sem enfeite, e justamente por isso funda.

— Desde então — ele continuou — eu tenho medo de confiar nas pessoas. Medo de
entregar peso. Medo de acreditar que alguém vai ficar até o fim quando diz que vai.
Porque eu já ouvi isso antes. E não adiantou nada.

Olhei para a mão dele — a mesma que eu tinha segurado na plataforma, a mesma que
eu tinha segurado no ar antes de aprender que equilíbrio não é parar.

— Então por isso você fala tanto de corpo — eu disse. — De treino, dieta, superfície,
controle.

Alan deu um meio sorriso.

— Corpo eu consigo ajustar. Luto, não.


A frase pousou entre nós com uma espécie de respeito.

Alan foi na frente.

— É só pular.

— Você sempre diz isso antes de alguma merda — eu respondi.

Ele riu, apoiou a mão no mourão, ergueu a perna — e prendeu o short numa ponta de
arame torta. O corpo dele perdeu o equilíbrio por um segundo. Não chegou a cair, mas
ficou ali, numa posição absurda, metade atleta, metade bicho enganchado.

— Puta que pariu.

Corri até ele sem pensar.

Segurei o braço dele, depois a mão.

Foi automático. Uma reação do corpo antes de qualquer frase.

Alan desceu do arame devagar, ainda segurando minha mão com força demais para ser
só equilíbrio.

Ficamos assim um segundo.

A palma dele estava quente. Suada.

Só depois ele soltou.


— Valeu — disse, baixo.

Continuamos andando em silêncio. A trilha era curta. O mato dos dois lados fazia um
som seco, de coisa viva roçando em coisa viva.

Quando a lagoa apareceu, azul demais para ser crível, Alan parou.

A luz batia de lado no rosto dele.

E foi então que vi uma coisa que nunca tinha visto.

Os olhos dele mudavam de cor.

Eu sabia, em teoria, que olhos claros fazem isso — castanho virando mel, mel virando
verde, verde inventando âmbar conforme a luz decide. Mas ali não era teoria. Era
revelação material. No sol da tarde, os olhos de Alan tinham uma borda dourada que
eu jamais tinha percebido. Como se eu tivesse convivido com um rosto inteiro olhando
só o resumo.

— Que foi? — ele perguntou.

— Seus olhos.

Ele franziu a testa.

— O que tem?

— Mudam de cor.
Alan riu pelo nariz, meio sem graça.

— Você só está vendo agora?

Não respondi.

Porque era exatamente isso.

Só estava vendo agora.

A tela tinha apagado havia pouco, mas talvez eu ainda estivesse saindo dela.

Sentamos perto da água. Eu fiquei algum tempo olhando a superfície falsa de tão azul.
Alan arrancou um capim do chão e ficou partindo em pedaços iguais, sem pressa.

Sentei na areia úmida e, sem anunciar nada, comecei a escrever.

Henrique. Rafael. Clínica. Turmalina. Distrato. Volta. Fica. Desculpa. Eu não sabia. Eu
sabia. Eu ainda—

A água veio e levou.

Escrevi de novo.

amor

A água levou.

desculpa
A água levou.

volta

A água levou.

Escrevi então:

medo

A onda veio menor. Tocou a palavra. Recuou.

O M continuou inteiro. O e escureceu. O d afundou um pouco na areia. Mas a palavra


ficou ali, funda, mais funda do que as outras.

Escrevi por cima. Mais forte.

MEDO

A água voltou. Levou metade. O resto insistiu.

— Engraçado — Alan disse atrás de mim. — O amor some. O medo fixa.

Não virei o rosto.

— Porque o medo entra primeiro.


A água veio outra vez. O M cedeu. O e se alargou. O o virou uma mancha escura, uma
pupila aberta na areia.

— Talvez eu tenha vivido tempo demais vendo sombra — eu falei. — E chamando isso
de visão.

Alan sentou ao meu lado.

— E talvez eu tenha vivido tempo demais achando que corpo resolve tudo.

Olhei para ele.

— Resolve?

— Não. Mas ajuda a não desmoronar em público.

Aquilo era quase uma desculpa. Quase uma verdade. Quase carinho.

Ficamos os dois vendo a água fazer o trabalho que a linguagem não faz: apagar sem
consolar.

Na volta para a pousada, já de noite, quase não falamos. O escuro vinha devagar sobre
Baixios, e a estrada parecia menor do que na ida. Alan caminhava ao meu lado com
aquela quietude rara que nele não parecia paz, mas suspensão. Eu ainda sentia a
palavra medo presa na mão, como se tivesse escrito forte demais e a areia tivesse
devolvido parte dela para dentro de mim.

Mais tarde, deitados no deck da pousada, sem luz elétrica por perto, o céu apareceu
inteiro.

Não inteiro como exagero. Inteiro como ofensa.


Sem poste, sem prédio, sem ruído urbano, as estrelas vieram em quantidade
humilhante, como se o mundo tivesse sido desligado para que o céu reaprendesse a se
mostrar.

Cada um de nós segurava um copo. Não lembro se era água, vinho ou só gelo
derretido. Lembro da superfície tremendo.

Alan levantou o copo.

— Olha isso.

Levantei o meu também.

A Via Láctea apareceu refletida no vidro, líquida, torta, repartida em ondas mínimas
pelo movimento da minha mão. O céu inteiro coube ali dentro por um segundo — uma
poeira branca, um excesso domesticado por um círculo pequeno demais para ele.

— O universo inteiro precisando de bilhões de anos e, mesmo assim, cabendo num


copo — eu disse.

Alan sorriu.

— É assim que a gente aguenta. Enfiando o imenso em recipientes pequenos.

A frase ficou vibrando entre nós.

— Memória é isso — ele continuou. — Uma coisa grande demais pra ser vivida inteira,
mas que cabe num detalhe. Num cheiro. Numa música. Numa frase idiota que alguém
disse num carro.
Fiquei olhando a luz no copo.

— E o pior — eu disse — é que parte dessas estrelas já morreu.

Alan virou o rosto para cima.

— Quase todas.

Silêncio.

— Amar Rafael agora é isso pra mim — falei, antes de pensar melhor. — Ou Henrique.
Ou os dois. Não sei mais separar. Ver uma estrela que talvez já tenha morrido e,
mesmo assim, continuar recebendo a luz.

Alan não brincou.

Isso foi o mais bonito.

— Eles ainda chegam — eu continuei. — Como luz atrasada. Como coisa que já acabou
no corpo, mas continua acontecendo no olho. Talvez eu tenha chamado isso de amor
porque era mais bonito do que chamar de atraso.

Alan ficou olhando para cima.

— Ou porque ainda doía.

— Também.

O copo tremia na minha mão.


— Depois deles, eu achei que tinha entendido alguma coisa sobre distância. Que talvez
amar fosse aceitar que certas coisas brilham melhor longe. Que não dá para encostar
em toda luz sem queimar a mão.

Alan virou o rosto para mim.

— Bonito.

— Você está debochando.

— Um pouco.

— Por quê?

— Porque estrela morta não te contradiz. Não chega atrasada. Não manda foto sem
legenda. Não beija outro cara na sua frente. Não aparece na sua casa de manhã e
depois some uma semana. Estrela morta é fácil amar, Daniel. Difícil é amar quem ainda
pode ir embora.

A frase entrou sem pedir licença.

Não respondi.

Alan apontou com o fundo do copo para uma parte do céu que eu não saberia nomear.

— Tem estrela que não vive sozinha. Sistema binário. Duas estrelas presas uma à outra,
orbitando o mesmo centro.

— Romântico.
— Nem tanto. Se chegam perto demais, arrancam matéria uma da outra. Ou
explodem.

Olhei para ele.

— Sério?

— Sério. Tem sistema que só continua brilhando porque mantém a distância exata.
Nem longe demais. Nem perto demais.

A água no meu copo tremia.

— Então às vezes a distância não é fracasso — eu disse.

Alan deu de ombros.

— Às vezes é física.

Ficamos em silêncio.

Lá em cima, a luz seguia vindo de coisas talvez já extintas. Ainda assim vinha.

— Não é pouca coisa — Alan falou baixo. — Continuar aceso sem destruir o outro.

A frase ficou.

E eu senti, sem saber ainda, que ela tinha aberto uma porta — não para Henrique, não
para Rafael, não para as estrelas mortas do meu passado, mas para o homem vivo
deitado ao meu lado, segurando um copo, rindo da minha metafísica e me devolvendo,
sem piedade, ao corpo.

No quarto, mais tarde, vimos Brokeback Mountain.

Quando os créditos começaram a subir, eu estava chorando.

Alan ficou sentado ao meu lado, quieto, sem fazer daquela dor uma piada ou uma
psicologia barata. A televisão iluminava o quarto com aquele azul de fim de mundo.

— Todo mundo tem raiva do Ennis — ele disse.

— E com razão.

— Não sei.

Virei o rosto para ele.

— Como não sabe?

Alan continuou olhando para a tela preta.

— O Jack queria descer da montanha. Viver o amor na planície. Fazer caber em


calendário, conta, casa, rotina. O Ennis, não. Talvez ele soubesse que, se descesse, a
montanha acabava.

— Isso é uma defesa bonita pra covardia.

— Talvez.
— Não talvez. É.

Alan me olhou.

— Você fala isso porque queria que todo mundo escolhesse o Jack.

— E você fala isso porque tem medo de ser escolhido.

Ele não respondeu.

A tela já estava escura, mas o azul continuava no quarto como se a imagem tivesse
deixado resíduo.

— Talvez tenha durado porque eles nunca desceram de verdade — eu disse. — Porque
ficaram presos no quase. Como os amantes da urna. A boca chegando, a mão quase
tocando, o beijo que não acontece e por isso não envelhece.

Alan virou o rosto para mim.

— Você fala como se isso fosse bonito.

— Não é?

— É covarde. Bonito também, mas covarde.

— Às vezes o quase é o único lugar onde uma coisa sobrevive.

— Claro — ele disse. — Por isso você escreve.


Fiquei quieto.

— Você pega o que não aconteceu direito e deixa suspenso na frase. Aí ninguém toca
mais. Ninguém estraga. Ninguém te contradiz.

— Isso é injusto.

— É?

Ele apontou para a televisão já escura.

— O Ennis tinha a montanha. Você tem a página.

A frase me atingiu mais do que eu quis demonstrar.

Pensei na nossa briga mais cedo. Na ciência transformada em arma. No diagnóstico


usado como escudo. Na palavra negacionista saindo da minha boca como se fosse
sentença. Pensei no pacote de castanha, na garrafa d’água, no silêncio que deixou de
ser punição e virou lugar para respirar.

— Preservar um amor no único lugar onde ele foi absoluto também pode ser uma
forma de matá-lo — eu disse.

— E tentar viver tudo pode ser uma forma de estragar.

— Então o quê? A gente deixa tudo no alto da montanha para não sujar?

Alan passou a mão no rosto, irritado.


— Você sempre acha que viver é provar.

— E você sempre acha que preservar é escapar.

Ele riu sem humor.

— Bonito. Agora eu sou o Ennis.

— Você trouxe o Ennis para a conversa.

— Eu trouxe o filme. Você trouxe o tribunal.

Ficamos em silêncio.

Do lado de fora, alguma coisa batia no vidro — vento, galho, inseto. O ar-condicionado
zumbia baixo, tentando congelar um quarto que não precisava de frio.

— Eu não estou defendendo o Ennis — Alan disse, mais baixo. — Só acho que às vezes
a pessoa sabe que não tem corpo para a planície.

— Ninguém tem corpo para a planície. A gente aprende.

— Ou quebra.

— Ou quebra.

Ele respirou fundo.

— O Jack queria viver — Alan disse. — Esse é sempre o papel mais arriscado.
— E o Ennis?

Alan demorou.

— O Ennis queria que o amor continuasse puro porque não sabia sobreviver a ele sujo.

— Isso ainda é covardia.

— Eu sei.

— Então por que você está defendendo?

Alan finalmente me olhou.

— Porque eu entendo.

Não havia pose na frase.

O quarto ficou menor.

— Entende o quê?

— A vontade de guardar uma coisa no único lugar onde ela não te pede nada.

Não respondi.
Ele desligou a televisão. A tela preta devolveu nosso reflexo: dois corpos sentados na
cama, próximos demais para fingir distância, distantes demais para chamar aquilo de
começo.

— Mas o Jack estava certo — Alan disse.

Olhei para ele.

— Estava?

— Estava. Só que estar certo não salva ninguém.

Deitamos sem desligar o ar-condicionado. O quarto zumbia baixo, como se tentasse


congelar alguma coisa que já tinha começado a derreter.

Não nos beijamos.

A frase parece menor do que foi.

Não nos beijamos não porque não houvesse vontade, mas porque a vontade, naquela
noite, tinha ficado grande demais para caber no gesto. Qualquer avanço pareceria
empurrar a cena para fora do lugar onde ela ainda podia respirar. Alan estava deitado
de costas, um braço sobre os olhos, o peito subindo devagar. Eu estava ao lado dele,
imóvel, ouvindo o ar-condicionado trabalhar contra o calor como se tentasse conservar
um corpo que ainda não sabia se queria arder.

Em algum momento, minha mão encontrou a dele.

Ou a dele encontrou a minha.

Não sei. Há gestos que a memória protege apagando a autoria.


Ficamos assim. Mão com mão. Sem contrato, sem promessa, sem beijo. A palma dele
estava quente. A minha, provavelmente fria. Nenhum de nós apertou. Nenhum de nós
puxou. Só deixamos o contato existir naquele ponto mínimo, como se o resto do corpo
fosse perigoso demais para entrar na conversa.

Dormimos assim.

Ou quase dormimos.

Porque dormir de mãos dadas com alguém que você deseja e não toca é uma forma
estranha de vigília.

Antes de finalmente dormir, pensei na ponte suspensa da Sapiranga. No cabo


tremendo quando eu tentava ficar imóvel. Nas copas das árvores guardando entre si
fendas de céu. Na placa pequena dizendo, sem saber, que distância também podia ser
forma. Pensei no story, no círculo verde, na sujeira da tela virando sinal no meu rosto.
Pensei na briga na trilha. Na frase que eu não deveria ter dito. Na água e na castanha
como pedido de desculpa. Pensei na tarde diante dos celulares, na parede pequena
brilhando na mão, na projeção apagando de repente. Pensei na lotérica, no homem
sonhando em voz alta; no senhor do pão ainda partindo o mundo em dois para quem
já não estava lá; na mão de Alan presa no arame; na cor dos olhos dele mudando sob a
luz. Pensei na areia. Na palavra medo. Na Via Láctea cabendo num copo. Nas estrelas
mortas insistindo em chegar. Pensei na urna grega, na boca que nunca beija, no gesto
condenado a permanecer belo porque não termina. Pensei em Ennis, na montanha, na
página. Pensei no risco terrível de transformar tudo que não tive coragem de viver em
forma.

Pensei em Henrique e Rafael como dois astros já fora do alcance, ainda emitindo luz
sobre uma parte de mim que demoraria a escurecer.

E pensei em Alan, vivo demais para virar constelação.

Ali, ao meu lado.


Respirando.

Possível.

Impossível.

Perto o bastante para que eu sentisse o calor.

Longe o bastante para que eu começasse a entender o perigo.

A Via Láctea coube num copo por um segundo.

Alan bebeu.

Eu fiquei olhando o vazio que a luz deixou.

Registro 4.2 — O Dilema do Porco-Espinho

Objeto encontrado: manual de montagem de estante modular. MDF revestido. Oito


cavilhas. Dezesseis parafusos. Chave Allen inclusa. Capacidade máxima por prateleira: 8
kg. A estabilidade depende de piso nivelado, encaixe correto e distribuição equilibrada
do peso. Objetos frágeis devem ser posicionados com cuidado.

Meu avô era escritor antes de começar a desaparecer.

Não pensei nele naquela manhã. Não de início. Pensei em Alan, na mensagem fora de
horário, na sacola pequena demais para qualquer ideia de permanência, no modo
como ele segurava a xícara com as duas mãos sem estar com frio.
Só fui lembrar do meu avô dias depois, quando encontramos o livro no fundo de uma
caixa e Alan perguntou por que eu tinha ficado tão quieto.

Três semanas depois de Baixios, Alan me mandou uma mensagem às onze da manhã
de uma segunda-feira.

Não era o horário dele.

“Você tá em casa?”

Eu estava.

Ele chegou com uma sacola pequena — pequena demais para qualquer ideia de
permanência — e um sorriso que não era alegria nem tristeza. Era decisão.

Eu fiz café.

A luz da manhã entrava limpa pela janela, sem esforço, sem filtro. Foi ali que eu vi de
novo: os olhos dele não eram exatamente verdes. Eram outra coisa. Um verde mais
claro, quase lavado, como se a cor tivesse sido diluída durante a noite.

Menos brilho.

Mais verdade.

Ele segurava a xícara com as duas mãos, mas não por frio. Era contenção. Como se o
corpo estivesse aprendendo um novo limite e ainda não confiasse nele.

— Eu sou um para-raio de defunto — eu disse.


Alan ergueu os olhos.

— Que começo leve.

— Eu perdi Felipe. Rafael e Henrique nunca foram meus. Eles eram só uma casa onde
eu bati na porta errada por anos.

Ele ficou quieto.

Pela primeira vez, não ironizou.

— Eu perdi Cacá — disse.

A frase não veio como competição de tragédia. Veio como quem coloca uma pedra ao
lado da outra para ver se as duas ainda afundam.

— Eu sei.

— Não sabe. Mas tudo bem.

Ele tomou um gole de café.

— E a gente? — perguntei.

Alan olhou para a janela antes de responder.

— A gente o quê?

— Você nunca ficou.


— Porque eu nunca estive lá de verdade.

A frase doeu porque não tentou ser bonita.

— E agora?

Ele pousou a xícara.

— Agora eu estou.

Fiquei olhando para ele.

— Por quanto tempo?

Alan sorriu de lado. O velho sorriso. Mas havia menos fuga nele. Ou eu quis acreditar
que havia.

— Um mês.

— Um mês?

— Um mês. Sem sumir. Sem “depois eu vejo”. Sem sair pela janela emocional.

— Isso existe?

— Não sei. Vamos testar.


Ele abriu a sacola.

Dentro havia duas camisetas, uma bermuda, um frasco de perfume, um carregador, um


livro que ele provavelmente não leria e a coleira de Rubens.

— Rubens vem também?

— Claro. Sem Rubens eu não sou cidadão.

Rubens entrou depois, como se já morasse ali. Farejou a porta, a cadeira, minha perna,
a cozinha. Depois escolheu o canto ao lado do sofá e deitou com a autoridade de quem
funda um país.

Alan ficou.

No primeiro dia, foi quase fácil.

Ele fez café forte demais. Reclamou do meu filtro. Organizou a prateleira de copos sem
pedir licença. Esqueceu uma cueca molhada no box. Brigou com Rubens porque ele
roeu o canto do tapete. Dormiu de lado, de costas para mim, mas com o pé encostando
no meu tornozelo como se deixasse ali uma prova mínima de presença.

Um calor pequeno.

Quase nada.

O suficiente para não parecer ausência.

Na segunda noite, assistimos qualquer coisa ruim e não terminamos. Ele dormiu antes
do final, o rosto iluminado pela televisão, Rubens enfiado entre nós dois como uma
vírgula quente.
Na terceira, Alan comprou pão, queijo e uma garrafa de vinho barato.

— Pra comemorar o quê?

— Que eu ainda não fui embora.

Foi a coisa mais próxima de promessa que ele conseguia dizer sem adoecer.

O mês começou a ganhar hábitos.

Alan treinava cedo. Voltava suado, vivo, irritantemente belo. Entrava no banho
cantando errado. Deixava o celular sobre a mesa com a tela virada para baixo. Eu fingia
que não via. Ele fingia que não percebia que eu via.

Às vezes, depois do banho, ficava dez minutos parado perto da janela filmando a luz na
parede, o vapor saindo do próprio ombro, Rubens dormindo atravessado no tapete.

— Você vai postar café agora?

— Não é o café.

— É o quê?

— A luz batendo torta na parede.

— Claro. Perdoe minha ignorância.


— Tudo bem. Eu também demorei anos de faculdade para aprender a cobrar caro por
parede.

Desde que saíra do escritório, Alan media tudo como quem procurava um lugar onde
ainda coubesse: a parede vazia, a luz entrando torta, o vão entre o sofá e a janela, o
próprio corpo dentro da casa. Não falava em desemprego naquela manhã. Falava em
estante. Talvez porque uma estante fosse mais fácil de erguer do que uma vida.

A câmera, naquele mês, deixou de ser vitrine e virou trena. Alan filmava encaixes,
sombras, objetos fora do lugar, como se precisasse provar — talvez para os outros,
talvez para si — que ainda sabia construir alguma coisa.

Às vezes, de madrugada, eu acordava e ele estava na cozinha, bebendo água no escuro.

— Insônia? — eu perguntava.

— Inventário.

— De quê?

— Das rotas de fuga.

Eu não ria.

Ele também não.

Havia carinho. Havia desejo. Havia uma espécie de esperança de baixa voltagem,
dessas que não iluminam a casa inteira, mas impedem o escuro de vencer por
completo.

No quinto dia, Alan parou no meio da sala e ficou olhando para uma parede vazia.
— Está faltando uma estante aí.

Olhei.

Tinha um retângulo mais claro na tinta — uma área de parede que o sol nunca
alcançava porque sempre havia algo na frente. O objeto anterior eu já não lembrava
mais. Ou lembrava e fingia que não.

No canto da sala, havia caixas de livros empilhadas havia tempo demais. Algumas eu
evitava abrir. Outras eu fingia ter esquecido. Livro guardado em caixa parece memória
sem ar.

— Estava — eu disse. — Caiu.

— Caiu ou você tirou?

Não respondi porque as duas coisas eram verdade, em ordem diferente dependendo
de como se contasse.

Alan ficou olhando a parede. Depois olhou para as caixas.

— Você tem ferramentas?

Fomos juntos à loja numa sexta de manhã com aquela luz de Salvador que não
pergunta se você quer: só entra.

Na foto do mostruário, a estante parecia menos um móvel do que uma ideia de futuro:
livros alinhados por altura, uma planta caindo do nicho superior como se a natureza
também soubesse obedecer, molduras discretas, uma vela acesa sem risco de incendiar
nada.
Alan olhou a foto por um segundo.

— Esse negócio nunca fica assim em casa.

— Eu sei.

— Então por que a foto?

— Para você acreditar que vai ficar.

Ele me olhou de lado.

— E vai?

— Não.

Alan riu. Breve. O tipo de riso que ele soltava quando alguma coisa era honesta demais
para não reconhecer.

— Então vamos levar.

Eu paguei. Ele não comentou, não protestou, não fez o gesto do bolso. Havia entre nós,
naquele período, uma economia doméstica silenciosa que nenhum dos dois havia
nomeado: ele comprava pão, eu pagava a estante; ele fazia café, eu lavava as xícaras;
ele trazia Rubens, eu aceitava os pelos no sofá. Nenhum desses gestos precisava de
contabilidade para fazer sentido.

No elevador do estacionamento, a caixa encostada na parede entre nós dois, ele disse:
— Você monta essas coisas sozinho geralmente?

— Geralmente não monto. Geralmente alguém monta e depois vai embora e a estante
fica.

Alan ficou quieto.

O elevador abriu.

Em casa, abrimos a embalagem no chão da sala. As tábuas vieram separadas por folhas
finas de papel áspero, e o cheiro do MDF recém-cortado subiu no ar — madeira sem
passado, sem árvore, sem nada anterior a si mesma.

Havia um saquinho transparente com ferragens pequenas demais para inspirar


confiança: parafusos curtos, cavilhas, tampinhas plásticas, uma chave Allen mínima e
ridícula que, de alguma forma, seria responsável por sustentar o peso de tudo que
viríamos a colocar ali.

Alan rasgou o plástico com os dentes.

Eu peguei as instruções, desdobrei, alisei no chão com a palma da mão. O desenho


mostrava mãos genéricas, serenas, mãos de ninguém, montando o móvel em seis
etapas simples. As peças tinham nomes de alfabeto. No papel, tudo parecia possível
porque nenhuma daquelas mãos tinha pressa ou história.

— Isso aqui é intuitivo — Alan disse, já separando as tábuas por tamanho.

— Deixa eu ver o manual primeiro.

Ele parou. Me olhou.


— Você lê o manual de como amar uma pessoa também?

A pergunta não veio com crueldade. Veio com aquela curiosidade direta que ele tinha
às vezes — a do homem que quer saber se a estrutura aguenta antes de decidir o peso
que vai colocar.

— Tento — eu disse.

— E adianta?

Olhei para as instruções na minha mão.

— Às vezes eu entendo o manual depois que a coisa já desabou.

Alan assentiu como quem confirma uma suspeita.

— Então a gente é parecido.

Disse sem drama, como se parecido fosse uma observação técnica.

Antes de começar, Alan apoiou o celular contra uma pilha de livros e ativou a câmera.

— Você vai filmar isso?

— Vou.

— A montagem da estante?

— Principalmente a montagem.
— A estante pronta não é melhor?

Ele olhou para as tábuas espalhadas no chão, os parafusos ainda dentro do saquinho, a
chave Allen mínima demais para inspirar qualquer confiança.

— O pronto intimida — disse. — O processo deixa a pessoa entrar.

— Isso é frase de influencer.

— É frase de arquiteto tentando continuar arquiteto enquanto a obra não aparece.

Disse sem autopiedade. Justamente por isso, doeu um pouco.

Ele ajustou o enquadramento. No celular, a sala parecia menor, mais organizada, quase
bonita: Rubens farejando as tábuas, a luz batendo no MDF, minha mão segurando o
manual como se aquilo fosse uma escritura sagrada.

— As pessoas não se identificam com a estante perfeita — ele disse. — Se identificam


com a peça que não entra, o parafuso que some, a dúvida de quem não sabe se vai
conseguir deixar alguma coisa em pé.

— E se ficar torta?

Ele sorriu sem olhar para mim.

— Aí fica mais humana.

Sentamos no chão, um de frente para o outro, com as tábuas entre nós.


Eu encaixava as cavilhas em silêncio. Alan apertava os parafusos com aquela precisão
impaciente de quem confia mais no corpo do que no desenho. Ele tinha pressa, mas
não descuido; força, mas não violência. De vez em quando, parava, respirava, corrigia o
ângulo. Como no arborismo. Como se permanecer também exigisse ajustar o peso a
cada passo.

O celular ficou ali, deitado contra um volume grosso, registrando nossas pernas
cruzadas no chão, os parafusos espalhados, a chave Allen minúscula, Rubens farejando
as tábuas como se investigasse um crime. De vez em quando, Alan interrompia a
montagem para corrigir o enquadramento.

— Você está trabalhando ou montando a estante?

— As duas coisas.

— Isso é trabalho?

Ele não respondeu de imediato. Apertou um parafuso, testou a firmeza da peça, depois
olhou para mim.

— Pode ser.

A tela, para Alan, não era fuga naquele momento. Era uma segunda planta baixa: um
lugar onde ele tentava desenhar uma vida que ainda não se sustentava fora dela.

Um dos parafusos escapou da mão dele e rolou para baixo do sofá.

Nós dois nos ajoelhamos ao mesmo tempo, ombros encostando, procurando no


escuro. Alan acendeu a lanterna do celular.

Por um segundo ridiculamente doméstico, foi isso o amor: dois homens procurando
uma peça mínima no escuro para que uma coisa pudesse ficar de pé.
Quando encontrou o parafuso, Alan o segurou entre os dedos por um momento,
olhando.

— Sem isso aqui — disse — a coisa toda pende.

Eu entendi que ele não estava falando da estante.

Ou talvez estivesse.

Às vezes, com Alan, as duas coisas aconteciam ao mesmo tempo e eu nunca sabia se
era brincadeira ou confissão.

Uma hora depois, a estrutura começou a surgir. Base. Laterais. Travessa. As divisórias
internas. A estante ainda deitada no chão tinha a fragilidade provisória de tudo que
ainda não foi testado pelo peso real.

— Segura aqui — Alan disse.

Segurei a lateral enquanto ele forçava uma peça interna.

— Tá entrando torto.

— Não tá.

— Alan.

Ele parou. Examinou.


— Um pouco — admitiu. — Mas entra.

— Se entrar torto, vai pender.

— Tudo pende um pouco.

A frase veio leve, mas ficou.

Ele tentou corrigir. Não foi suficiente. A divisória entrou um centímetro fora do eixo —
quase nada, no papel talvez nem aparecesse, mas eu via, e sabia que veria para
sempre, toda vez que passasse pela sala.

Ouvi o estalo antes de ver. Um som mínimo, seco, quase íntimo.

Nenhum de nós comentou.

Alan olhou para mim. Eu olhei para a peça. Nenhuma rachadura visível — só a suspeita
de que alguma coisa tinha cedido por dentro e seguiria invisível até começar a pesar.

— Foi nada — ele disse, mais baixo do que o normal.

Eu assenti.

Às vezes, quando queremos muito que uma coisa dê certo, chamamos de detalhe o
que mais tarde vai determinar a inclinação de tudo.

Na pausa do meio da tarde, sentamos no chão entre as tábuas.

Alan tinha trazido duas cervejas da geladeira sem perguntar. Me entregou uma.
Ficamos em silêncio por um tempo que não pedia preenchimento.
Do chão, a sala parecia outra — maior, mais estranha, cheia de pó fino e papel rasgado
e a estante ainda sem dignidade de objeto.

— Você já teve uma casa de verdade? — eu perguntei.

Alan pensou. Não o tipo de pensar que está só ganhando tempo. O tipo que está
procurando a resposta certa numa gaveta que raramente abre.

— Uma vez — ele disse. — Quase.

— O que aconteceu?

— Eu.

Bebeu um gole.

— Eu aconteci.

A resposta era simples e completa ao mesmo tempo, do jeito que as coisas verdadeiras
são simples e completas.

— Você não acredita em construção — eu disse.

— Eu não acreditava.

Pausa.

— E agora?
Alan olhou para a estante deitada no chão. Para as ferragens espalhadas. Para a chave
Allen minúscula entre nós.

— Agora acho que o problema não era acreditar. Era não saber que tipo de coisa eu
conseguia sustentar.

O sol havia mudado de ângulo e batia diferente na parede — no retângulo claro onde a
estante ia ficar, naquela marca de tinta que o tempo anterior havia protegido sem
querer.

— Você aguenta um mês? — perguntei.

Ele olhou para mim.

Não sorriu.

— Eu não teria dito se não achasse que aguentava.

— E se não aguentar?

— A gente descobre.

— Esse é seu plano?

— É o plano mais honesto que eu tenho.

Levantamos a estante juntos perto do começo da noite. Um de cada lado, no esforço


coreografado que certas coisas exigem para passar da horizontalidade do projeto à
verticalidade do mundo.
Ficou de pé.

Alan deu dois tapinhas no topo, satisfeito.

— Pronto.

Mas o verdadeiro trabalho ainda não era a montagem.

Era escolher o que merecia habitar ali.

Essa parte fizemos com uma delicadeza quase supersticiosa.

No nicho de baixo, os livros maiores. Alan escolhia os títulos com uma atenção que eu
não esperava — não por ordem, não por cor, mas por peso.

— Livro pesado embaixo. Estrutura agradece.

— Você leu isso no manual?

— Não. Isso é óbvio. O problema de vocês, intelectuais, é achar que tudo precisa de
citação.

Ele pegou outro volume, pesou na mão, mudou de lugar.

— Se colocar tudo no alto, pende. Se colocar tudo num lado só, torce. Se fingir que a
prateleira aguenta mais do que aguenta, uma hora ela abre.

— Estamos falando da estante?


— Por enquanto.

Foi então que encontrei o livro.

Estava no fundo de uma caixa antiga, entre álbuns de fotografia, contas vencidas, um
catálogo de exposição e duas molduras sem vidro. A capa estava gasta, a lombada meio
descolada no alto, com uma mancha amarelada perto do nome de Schopenhauer. Abri
sem pensar.

Havia marcas minhas nas páginas. Riscos tortos. Uma exclamação na margem. Uma
dobra pequena no canto exato onde começava o dilema do porco-espinho.

Segurei o livro por tempo demais.

Alan percebeu.

— Que foi?

Eu não respondi logo.

Meu avô era escritor antes de começar a desaparecer.

Não digo isso como metáfora. Ele escrevia. Tinha cadernos, fichas, frases soltas em
papéis dobrados, uma caligrafia ligeiramente inclinada para a frente, como se a mão
chegasse antes do corpo. Durante anos, achei que pensamento fosse isso: uma pessoa
sentada diante de uma mesa, tentando impedir que o mundo se desfizesse em partes
soltas.

Depois veio o Alzheimer.


No começo, ele esquecia nomes. Depois esquecia datas. Depois esquecia o começo da
pergunta antes de chegar ao fim dela. Mais tarde, esquecia que tinha perguntado. A
linguagem, que havia sido a casa dele, começou a perder móveis. Uma palavra saía do
lugar. Depois outra. Depois uma sala inteira ficava vazia.

Eu comecei a ler filosofia para ele.

Não sei se era cuidado, negação ou vaidade. Talvez as três coisas. Eu lia como quem
segura uma porta aberta com o pé. Como se, enquanto uma frase atravessasse o
quarto, alguma parte dele continuasse obrigada a permanecer. Como se o pensamento
dos outros pudesse escorar o pensamento dele, impedir que tudo dentro daquela
cabeça cedesse de uma vez.

Ele ficava na poltrona, cobertor sobre os joelhos, os olhos às vezes atentos, às vezes
perdidos numa zona onde eu já não conseguia alcançá-lo. Eu lia Platão, Nietzsche,
Schopenhauer — nomes que talvez ele ainda reconhecesse, talvez não. Às vezes ele
sorria no lugar errado. Às vezes fechava os olhos. Às vezes dizia:

— Repete.

E eu repetia.

Não porque achasse que ele entenderia melhor da segunda vez.

Mas porque repetir era uma forma de mantê-lo mais um pouco comigo.

Foi numa dessas tardes que li o dilema do porco-espinho.

Numa noite fria, porcos-espinhos se aproximam para dividir calor. Chegam perto
demais e se ferem com os espinhos. Afastam-se e voltam a sentir frio. Aproximam-se
de novo, ferem-se de novo. Até encontrarem uma distância intermediária: perto o
bastante para não congelar, longe o bastante para não se destruir.
Meu avô ficou quieto.

Não sei se ouviu.

Não sei se entendeu.

Mas, depois de um tempo, levantou a mão devagar e tocou o próprio braço, como se
procurasse nele os espinhos.

Durante anos, achei cruel aquela imagem.

Depois entendi que talvez fosse uma das definições mais honestas de amor.

— Esse era dele? — Alan perguntou.

Voltei para a sala.

Para o pó do MDF no chão.

Para a estante torta.

Para Alan sentado diante de mim, segurando um parafuso entre os dedos.

— Era o livro que eu lia para meu avô.

Alan não fez piada.


Passou o dedo pela lombada com um cuidado inesperado, quase desajeitado, como se
não soubesse se aquilo era livro, resto ou osso.

— O dos porcos-espinhos?

— É.

Ele pegou o volume da minha mão, pesou um pouco e colocou no nicho de baixo, entre
dois livros maiores.

— Então fica aqui.

— Por quê?

— Livro pesado embaixo. Estrutura agradece.

Fiquei olhando.

O pensamento do meu avô, que eu tentei manter vivo lendo em voz alta para um
homem que já desaparecia, agora ajudava uma estante torta a ficar de pé.

Não era consolo.

Era menos bonito e mais concreto: peso distribuído.

Num nicho ao lado, Alan colocou o livro que tinha trazido e provavelmente não leria.
Colocou sem cerimônia entre dois dos meus, como se isso não fosse uma declaração.
Uma planta pequena que eu tinha matado três vezes e comprado pela quarta — ele a
colocou no nicho de cima com a paciência de quem sabe que algumas coisas precisam
de posição certa antes de merecer água.

Uma vela. Uma pedra que eu trouxera de uma praia cujo nome já não lembrava. A
coleira antiga de Rubens, que Alan tirou da sacola e deixou enrolada num nicho baixo,
ao alcance do próprio Rubens, que cheirou, aprovou e voltou a deitar.

Por último, a moldura.

Não era a melhor foto. Era a única que tínhamos dos dois — tirada em Sapiranga por
alguém da equipe da tirolesa, sem que nenhum de nós tivesse pedido, o tipo de
imagem que existe porque alguém olhou de fora e achou que merecia existir.

Nós aparecíamos com capacetes ridículos, o rosto suado, a floresta atrás. Alan ria. Eu
tentava parecer menos assustado do que estava. Entre nossas cabeças, no fundo da
imagem, as copas deixavam uma fenda irregular de céu.

Alan segurou a foto por um momento antes de colocar. Olhou para a imagem. Depois
para mim. Depois para a imagem de novo.

— Onde?

Apontei para o nicho central, na altura dos olhos.

Ele assentiu.

Quando apoiamos a moldura, vimos.

Não a rachadura. Não o erro.


Vimos o efeito dele.

A fotografia ficou ligeiramente em desnível. Quase nada. O suficiente para que os dois
rostos pendessem discretamente para a esquerda, como se a felicidade precisasse de
um pequeno esforço para continuar parecendo reta.

Alan foi à cozinha. Voltou com um fósforo apagado, depois um papel dobrado, depois
um pedaço de papelão recortado da própria caixa da estante. Pequenos calços.
Correções invisíveis para que a imagem se sustentasse melhor.

Por fim, ficou quase reta.

Quase.

De perto, eu ainda via o erro: o calço improvisado, a peça forçada, a inclinação mínima
que nenhum visitante notaria. De longe, a estante parecia pronta. Talvez fosse isso que
eu ainda não soubesse fazer com Alan — não colar o rosto na falha, não recuar até
transformar tudo em paisagem. Encontrar uma distância em que a coisa pudesse ser
vista sem ser desmentida.

Pensei no meu avô tocando o próprio braço depois que eu li sobre os porcos-espinhos.
Talvez ele não tivesse entendido Schopenhauer. Talvez tivesse entendido melhor do
que eu. O corpo às vezes aprende antes da cabeça: perto demais machuca; longe
demais esfria; viver é encontrar uma medida que não existe no manual.

Um mês era isso.

Não era casa.

Não era fuga.

Era a distância provisória entre o frio e o espinho.


No fim da tarde, Alan editou o vídeo sentado no chão, encostado no sofá, com Rubens
dormindo sobre o próprio pé. Cortou minha cara de pânico diante do manual, acelerou
a queda do parafuso, deixou por tempo demais o momento em que nossos ombros se
encostavam procurando a peça debaixo do sofá.

— Esse corte ficou bom — ele disse.

— Qual?

Ele me mostrou.

Na tela, nossos corpos desapareciam quase inteiros. Só ficavam as mãos, a lanterna, o


vão escuro sob o sofá, o parafuso surgindo entre poeira e pelo de cachorro.

— Isso não é sobre a estante — eu disse.

— Claro que não.

— É sobre o quê?

Alan olhou para a tela antes de responder.

— Sobre deixar a pessoa ver que quase caiu.

Depois testou três legendas.

Nem tudo que fica em pé nasce pronto.


Apagou.

Montagem também é permanência.

Apagou outra vez.

Por fim, escreveu:

Perto o bastante para aquecer. Longe o bastante para não ferir.

— Essa é minha — eu disse.

— Eu melhorei.

— Você roubou.

— Influenciar é reorganizar roubo.

Postou nos Amigos Próximos.

Três pessoas responderam. Uma perguntou onde ele tinha comprado a estante. Outra
disse que precisava montar a própria vida. A terceira mandou um emoji de porco-
espinho, sem saber de nada.

Alan abriu a resposta rápido demais.

Leu com o rosto parado.


Depois bloqueou a tela e pousou o celular virado para baixo, como se aquilo encerrasse
o assunto.

Mas o polegar ficou batendo na capinha, uma vez, duas, três.

O sorriso não apareceu inteiro.

Só mudou a musculatura do maxilar.

Ele deu um passo atrás. Inclinou a cabeça como fazia quando procurava no próprio
corpo o erro que o treino ainda não tinha corrigido.

— Viu? — disse. — Dá pra fazer ficar.

Olhei para a foto. Para a estante. Para o nicho que já nascera com uma inclinação que o
peso só tornaria mais nítida com o tempo.

— Dá — eu disse.

Alan ficou olhando a estante em silêncio por um momento longo.

Depois disse, sem virar o rosto para mim:

— Eu vou ficar o mês.

A frase era simples.

Sem música.
Sem exagero.

Sem o peso vulgar do “pra sempre”.

Justamente por isso, quase não coube no quarto.

— Mesmo com a estante torta?

— Principalmente com a estante torta.

Rubens levantou a cabeça no tapete, como se tivesse ouvido seu nome dentro de uma
língua anterior aos humanos. Depois bocejou e voltou a dormir.

Alan pegou a cerveja no chão, tomou o último gole e se sentou no sofá. O corpo dele
ocupava a sala de um jeito novo. Não como invasão. Como teste de presença. A cueca
molhada no box, o carregador na tomada, o livro na estante, a coleira de Rubens no
nicho de baixo — nada daquilo era permanência. Ainda não.

Era montagem.

E montagem não é milagre.

É sequência.

Cavilha, parafuso, peso, ajuste. Uma peça que entra torta. Um calço invisível. Um
objeto frágil colocado com cuidado. Uma fotografia quase reta. Um mês dito em voz
alta, com a honestidade limitada das coisas que não prometem mais do que
conseguem sustentar.

Naquela noite, dormimos cedo.


Rubens ficou no chão, perto da porta, guardando a passagem como um porteiro de
país recém-fundado.

Alan deitou de costas. Eu deitei de lado. O pé dele encostou no meu tornozelo, de leve.

Não era garantia.

Não era destino.

Não era casa.

Era um modo pequeno de ficar.

Uma prateleira que ainda aguentava o peso.

Um mês. Duas camisetas. Uma coleira no nicho de baixo. Um livro que talvez ele não
lesse. Um pé encostado no meu durante a noite.

O suficiente para não desabar.

E, pela primeira vez em muito tempo, pouco não pareceu pouco.

Registro 4.3 — Não Esfrega

Azul ultramar. Pigmento extraído da lápis-lazúli, pedra trazida por séculos das
montanhas do Afeganistão. Mais caro que ouro em certas oficinas europeias. No
afresco, a cor não repousa sobre o muro: entra no gesso ainda úmido e seca com ele.
Depois de fixada, já não é possível separar a cor da parede sem ferir as duas. Algumas
marcas chegam de fora. Com o tempo, parecem estrutura.

A primeira forma que encontrei de prolongar o mês foi comprar passagem.

Eu ainda não sabia chamar aquilo de medo.

Chamava de viagem.

Quando Alan disse um mês, eu ouvi prazo. Quando propus San Francisco, fingi que era
desejo, curiosidade, reencontro com uma cidade que ainda me devia alguma coisa.
Mas era outra coisa: minha primeira tentativa de transformar distância em
permanência.

Eu queria que o mapa corrigisse o calendário.

Queria que outro fuso horário enganasse o fim.

Queria que a Golden Gate, a névoa, o Mission, Alcatraz, os bondes, os cafés com leite
vegetal e as ladeiras fizessem com Alan aquilo que eu não conseguia fazer: convencer
um corpo a ficar mais um pouco.

Na primeira manhã, fomos ver os animais.

Não sei se foi ideia dele ou minha. Talvez dos dois. San Francisco, quando quer parecer
inocente, oferece bichos antes de oferecer ferida: leões-marinhos dormindo uns sobre
os outros no píer, gaivotas insolentes disputando comida, pelicanos descendo em
rasantes sobre a baía, cães de turistas puxando coleiras como se a cidade inteira fosse
território deles.

Alan ficou parado diante dos leões-marinhos por mais tempo do que o necessário.
Eles se empurravam, gritavam, subiam uns sobre os outros, caíam na água e voltavam
para a madeira sem pedir desculpa. Havia uma grosseria feliz neles. Uma liberdade sem
elegância. Um corpo encostava no outro não por metáfora, mas porque ali o espaço
era pouco, o sol era bom e a sobrevivência nunca fora uma coisa limpa.

— Eles parecem bêbados — Alan disse.

— Parecem honestos.

Ele riu.

Um pelicano passou baixo demais sobre nós, quase ofensivo. Depois abriu as asas e
seguiu na direção da água, indiferente ao cais, às placas, aos mapas, ao país. As aves
cruzavam a baía como se nenhuma linha tivesse sido desenhada sobre o mundo. Não
sabiam que havia fronteiras. Sabiam vento, sal, corrente, fome, estação.

Alguns peixes atravessam oceanos inteiros sem saber que mudaram de país. Nenhuma
fronteira detém o sal. Só depois o homem desenha uma linha sobre a água e chama
aquilo de lei.

Olhei para Alan de perfil, os óculos escuros escondendo os olhos, a boca entreaberta
de quem via alguma coisa bonita e já pensava em como enquadrar.

Pensei que talvez eu também estivesse migrando.

Não de país.

Para dentro de um corpo.

E que Alan, ao contrário dos animais, tinha fronteiras que eu nunca soube ler.
Alan aceitou San Francisco rápido demais.

— San Francisco combina comigo — disse.

Disse como quem escolhe filtro.

Na mala, levou pouca roupa, uma câmera pequena, dois óculos escuros e uma ideia
que ainda não tinha forma. Desde que começara a filmar para as redes, ele andava com
aquela fome nova: a fome de transformar o mundo em conteúdo antes que o mundo o
transformasse em silêncio.

— Quero fazer alguma coisa de rua — ele disse. — Não só corpo, não só beleza. Algo
mais… real.

A palavra real saiu bonita demais da boca dele.

E eu, que já deveria desconfiar de palavras bonitas demais, sorri.

Porque quando se ama alguém, a gente às vezes confunde prenúncio com promessa.

O restaurante ficava no Mission, numa esquina que parecia ter sido traduzida vezes
demais. O cardápio vinha em inglês, mas as palavras espanholas resistiam dentro dele
como corpos que não aceitavam naturalização completa: tamal, mole, pozole,
huitlacoche, carnitas, lengua. Tudo explicado entre parênteses, domesticado para uma
boca que queria atravessar a fronteira sem se ferir com ela.

Pedi um tamal porque a palavra me agradou antes da fome.

Veio embrulhado na palha de milho, amarrado com uma delicadeza quase fúnebre. Era
uma comida que não se entregava de imediato. Precisava ser aberta. Tinha invólucro,
pele, resistência. Por fora, fibra seca; por dentro, massa quente, carne, pimenta,
umidade. A fronteira estava ali antes do muro: na embalagem, no idioma, no garçom
que alternava inglês e espanhol conforme o rosto de quem pedia, na comida que
precisava atravessar uma camada antes de tocar a língua.

Alan pediu o mesmo.

— Parece presente — ele disse, abrindo a palha.

— Ou corpo.

Ele sorriu.

— Você sempre piora as coisas.

— Eu só tiro o laço.

Alan mordeu primeiro. Fechou os olhos um instante, bonito de um jeito quase


indecente, e eu senti aquele movimento antigo em mim: a vontade de tocar, a vontade
de possuir, a vontade de registrar. Com Alan, muitas vezes eu não sabia se queria estar
dentro da cena ou guardá-la intacta do lado de fora.

— É uma comida de fronteira — eu disse.

— Por quê?

— Porque não deixa você entrar direto. Tem uma camada. Você precisa abrir, mas não
pode destruir tudo. Se rasgar errado, desmonta.

Alan me olhou por cima do copo.


— Você está falando do tamal ou da gente?

Eu ri.

Mas ri tarde demais.

A pergunta ficou entre nós, pousada sobre a mesa como um talher que ninguém usava.

Bebemos vinho demais. Não por festa — por anestesia elegante. Havia dias em que
Alan se aproximava de mim com uma doçura tão franca que eu sentia medo; e havia
dias em que ele parecia já estar ensaiando a própria partida, como quem treina
desaparecer antes de desaparecer. Eu não sabia qual dos dois estava sentado à minha
frente. Talvez fosse esse o problema. Talvez eu nunca soubesse.

No hotel, Alan entrou primeiro.

O corredor cheirava a carpete velho, produto de limpeza e aquecimento central. Ele


passou o cartão na porta, esperou a luz verde, empurrou a maçaneta e ficou um
segundo parado no vão, como se o quarto fosse uma pergunta que ainda pudesse
recusar.

Depois entrou.

Eu entrei atrás.

Alan fechou a porta comigo dentro.

O clique da fechadura foi pequeno, mas mudou o ar. Até então San Francisco era rua,
baía, névoa, bicho, horizonte. Depois da porta, era só corpo.
Toda porta inventa um dentro.

Toda porta inventa um fora.

Naquela noite, eu não sabia em qual lado de Alan eu estava.

Tentamos fazer amor.

Tentamos é a palavra exata.

Alan veio para cima de mim com o corpo quente de vinho, boca de pimenta, camisa
aberta, pele ainda cheirando ao restaurante. Eu quis. Ou quis querer. Às vezes há uma
diferença entre o desejo e a obrigação de demonstrá-lo, e essa diferença, no corpo, vira
fronteira.

Beijei Alan, toquei Alan, deixei que ele me tocasse.

Mas alguma coisa em mim não atravessava.

O corpo ficou ali, obediente até onde pôde, depois recuou sem pedir licença. Alan
percebeu antes de mim. Sempre percebia. Havia nele uma inteligência cruel para o
mínimo desvio do desejo.

— Tudo bem — ele disse.

Essa frase, dita assim, quase sempre quer dizer o contrário.

— Bebi demais.

— Não precisa explicar.


Mas eu precisava. A explicação era uma forma de manter a dignidade de pé, mesmo
quando o corpo a tinha traído.

— É cansaço.

— Eu disse que tudo bem.

Ele se afastou um pouco. Não muito. O suficiente para que a cama ficasse maior.

A fronteira não era a distância entre Salvador e San Francisco, nem entre português e
inglês, nem entre o mês prometido e o mês perdido. Era aquela faixa de lençol entre o
meu quadril e o corpo dele.

A cama era o nosso mapa mais honesto: dois corpos próximos, uma fronteira no meio,
nenhum tratado funcionando.

Alan acendeu o abajur.

A luz amarela não favorecia ninguém.

— Você quer falar sobre isso?

— Sobre eu brochar?

— Sobre você sumir.

A palavra foi pior.


Porque brochar era uma falha local, uma pequena derrota mecânica. Sumir era outra
coisa. Sumir era ser pego tentando escapar por dentro.

— Eu não sumi.

Alan passou a mão no próprio peito, sem erotismo, só para ocupar o corpo.

— Às vezes você me olha como se eu fosse mais interessante quando estou fora de
alcance.

Eu não respondi.

Ele continuou:

— Ou quando alguém me deseja.

A frase abriu um espaço.

Eu soube, naquele instante, que ele já tinha visto uma coisa que eu ainda fingia não
saber.

— Você está falando do quê?

— Estou perguntando.

— Perguntando o quê?

Alan respirou. O rosto dele não estava ferido ainda. Estava atento.
— Se você quer mesmo estar comigo. Ou se você quer me ver acontecendo.

A frase atravessou a cama.

Eu me sentei.

— Isso é injusto.

— É?

Silêncio.

A mesma pergunta voltaria depois diante de um comentário na internet, mas ali ela
ainda era íntima. Ainda não tinha algoritmo. Ainda era só dois homens num quarto
tentando decidir onde terminava o desejo e começava a cena.

— Você já falou em sexo a três — ele disse.

— Você também.

— Eu falei como possibilidade. Você fala como enquadramento.

— Enquadramento?

— É. Como se precisasse de um terceiro para me ver direito.

Eu senti raiva porque ele tinha acertado perto demais.

— Talvez eu goste de ver.


— Eu sei.

— Isso não quer dizer que eu não te deseje.

Alan virou o rosto para a janela.

— Mas talvez queira dizer que você me deseja melhor de longe.

O quarto ficou quieto. Lá fora, uma sirene passou, subiu a rua e desapareceu. San
Francisco fazia isso: deixava tudo bonito e, de repente, lembrava que também era uma
cidade de emergência.

— Você sonha em um idioma que eu não conheço — eu disse.

Alan virou o rosto de volta para mim.

— Que frase é essa?

— É como se houvesse um lugar dentro de você que eu nunca fosse conseguir visitar.

Ele ficou imóvel.

— E você acha que o problema é esse?

— Acho que eu fico tentando achar uma entrada.

— Em mim?
— Em você. Na sua cabeça. No seu corpo. Na parte que você guarda mesmo quando
está nu.

Alan respirou fundo, mas não me interrompeu.

— Às vezes acho que outro corpo abre essa porta melhor do que eu — eu disse.

A frase saiu mais feia do que eu queria.

Mais verdadeira também.

Alan olhou para a faixa de lençol entre nós.

— Então você me oferece para alguém e chama isso de chave?

Eu não consegui responder.

Porque talvez fosse isso mesmo.

Ou talvez fosse pior: eu não oferecia Alan a ninguém. Eu oferecia a mim mesmo a
chance de vê-lo atravessado por outro desejo, iluminado de fora, legível por um
instante num idioma que não era meu.

— Sexo a três tem fronteira — Alan disse. — A gente finge que é liberdade, mas tem
linha. Quem toca quem. Quem olha. Quem fica de fora. Quem vira ponte. Quem vira
objeto.

— E você acha que eu faria isso com você?

Ele olhou para mim.


— Acho que você não saberia que está fazendo.

Foi pior porque não vinha como acusação. Vinha como medo.

A gente não decidiu nada naquela noite.

Nem regra.

Nem proibição.

Nem convite.

Só deixamos a conversa aberta, como se deixar aberto fosse uma forma de


maturidade, quando às vezes é apenas covardia com vocabulário elegante.

Dormimos próximos, mas não grudados.

O tamal do jantar voltou em mim antes do sono: a massa quente dentro da palha, o
corpo dentro da fronteira, a fome esperando autorização.

Na tarde seguinte, o Mission parecia ter sido lavado por dentro.

O sol não era só luz — era sentença: tudo ficava exposto demais. Os bares, os casais, as
árvores tortas, as placas em espanhol resistindo como cicatrizes. Até o ar tinha aquele
cheiro de cidade que promete e depois cobra: cerveja, poeira, tinta fresca e suor.

Na esquina, um muro inteiro respirava tinta.


Não era grafite.

Era mural.

Outra categoria de fé.

Um homem trabalhava em cima de uma escada, braço firme, mãos sujas de cor, um
balde ao lado como se fosse um animal doméstico. Pintava como quem não pinta:
como quem tenta impedir que o mundo apague.

O mural não tinha cenas bonitas. Tinha gente passando — silhuetas, sombras, corpos
em movimento, como se a rua fosse um rio e ele estivesse registrando as formas que
atravessam e somem.

De longe, era bonito.

De perto, era trabalho.

Escada, unha suja, tinta no pescoço, aluguel, fronteira. A beleza do Mission sempre
tinha alguém segurando por trás.

O homem desceu dois degraus, atravessou a rua e olhou a parede de outro ponto.
Depois voltou, subiu de novo e corrigiu uma linha que, de perto, parecia certa.

— Mural engana — ele disse, sem olhar para nós. — Se fica colado, só vê tinta. Se vai
longe demais, vira cartão-postal. Tem um ponto certo.

Alan olhou para mim com aquele meio sorriso de quem encontra uma palavra minha
na boca dos outros.

— Longe e perto — ele disse, como se zombasse de uma obsessão.


O homem não riu.

— Sim. Mas não é poesia. É sobrevivência.

Eu reparei no rosto dele antes de entender o que ele estava fazendo.

Moreno, traços indígenas e duros, o olhar atento de quem vive com o corpo em alerta
— não de paranoia, de sobrevivência. Tinha tinta nas unhas, nos antebraços, no
pescoço. E uma calma que não era paz. Era controle.

E então eu vi: no mural, duas sombras recém-nascidas tinham aparecido perto da


borda — formas de casal, um corpo inclinando no outro, como se a rua tivesse deixado
um registro de nós antes mesmo da tinta manchar.

Alan passou perto demais do muro, distraído, vinho ainda puxando ele por dentro.

Eu fui junto, e por um segundo — um segundo irresponsável — a gente parou ali,


rindo, como se a rua fosse nossa.

Alan me beijou encostado na parede.

E foi nesse instante que a tinta resolveu lembrar da gente.

A camisa branca dele tocou a área recém-pintada. A tinta pegou no tecido como uma
língua.

— Ah, merda! — ele disse, rindo alto. — Olha isso.

Eu fui puxar, e encostei também.


Em dois segundos, nós dois tínhamos sido assinados.

Não era sujeira.

Era marca.

O homem desceu da escada num salto rápido, sem teatralidade. Desceu como quem
aprendeu que qualquer ruído vira problema.

Ele olhou a mancha no peito de Alan. Depois olhou para mim.

E, em vez de raiva, teve um microgesto de compaixão.

Quase imperceptível.

Quase humano demais.

— Não esfrega — ele disse. A voz era baixa. — Se esfregar, espalha.

Alan levantou os braços como quem se rende ao tribunal do acaso.

— A gente tá pintado.

Ele riu, mas riu como quem pede desculpa ao universo.

O homem encarou a mancha como se ela fosse um fato.


— Marcado — ele corrigiu.

Marcado é palavra de imigração.

É palavra de polícia.

É palavra de quem não pode errar.

— Mas vocês são ricos. Marcados quer dizer outra coisa.

Ele pegou um pano úmido de uma mochila e tentou limpar de leve. Não saiu. A tinta já
tinha virado memória.

— A gente vai voltar assim? — Alan perguntou, ainda rindo.

A risada dele era sempre esse truque: transformar culpa em música.

Eu olhei para a camisa dele, para a minha, para o pano que já nascia inútil na mão do
homem.

— Acho que não sai.

— Não sai agora — o homem disse. — Depois talvez.

Pausa.

— Pureza sempre foi luxo.


A frase não veio como denúncia. Veio como constatação. Pior: como conhecimento
doméstico.

Nós podíamos voltar limpos.

Essa era a distância real entre nossos corpos: não a língua, não o desejo, não a cor da
pele apenas — a possibilidade obscena de trocar de camisa e sair da história.

— Eu tenho camisa limpa — ele disse. — Moro aqui perto.

Pausa.

— Pego para vocês. Sem drama.

— Qual seu nome? — Alan perguntou.

O homem hesitou como se nome fosse documento.

— Gael.

Disse e voltou a olhar para o mural.

Alan ficou olhando para ele por tempo demais.

Eu conhecia aquele olhar.

Era o olhar que vinha antes de uma ideia.


E, naquele dia, pela primeira vez, percebi que o olhar dele me excitava mais quando
não era para mim.

A gente voltou ao Mission no fim da tarde.

Gael estava no mural.

No mesmo lugar.

Como se nada tivesse acontecido.

Como se o mundo dele não tivesse ganhado seguidores, apenas mais uma camada de
tinta.

Alan contou que queria filmar alguma coisa sobre invisibilidade, sobre corpo e
suspeita, sobre ser tratado como alguém que não pertence.

Gael ouviu sem expressão.

— Gente dá em todo lugar — respondeu.

Alan engoliu.

— Te parece errado?

Gael desceu da escada.

— Bonito é perigoso.
— Eu sei.

— Não sabe ainda — Gael disse. — Mas talvez comece.

A casa dele ficava a duas quadras.

Um corredor comprido, estreito, desses prédios velhos que sobraram na cidade como
dentes antigos. Porta sobre porta. Cheiro de detergente barato e comida guardada. O
tipo de lugar onde o silêncio não é paz — é cuidado.

Gael abriu uma porta e revelou um quarto.

Só um quarto.

Cama encostada na parede. Uma mesinha com um copo rachado. Duas cadeiras que
não combinavam entre si. Uma pia improvisada num canto. O banheiro era do corredor
— dava para sentir a regra invisível: aqui todo mundo sabe que não pode chamar
atenção.

Logo depois da porta havia um pequeno rebaixo no piso, quase nada: uma diferença de
altura que qualquer pessoa apressada ignoraria. Dois pares de sapatos estavam ali,
alinhados com uma precisão que não combinava com o resto do quarto.

Gael parou na soleira por meio segundo.

Não por educação.

Por cálculo.

Todo corpo que vive sob ameaça mede a porta antes de atravessar.
— Genkan — ele disse, antes que eu perguntasse.

Alan olhou para ele.

— Japonês?

— Vi numa casa onde pintei parede em Pacific Heights — Gael respondeu. — Gente
rica inventa muita coisa boa para não tocar no mundo.

Depois tirou os próprios sapatos e deixou no rebaixo.

— Eu fiquei com essa.

Nós fizemos o mesmo.

Os sapatos ficaram ali, no pequeno degrau, como animais domesticados. A rua,


teoricamente, terminava naquele rebaixo. A sujeira ficava embaixo; o corpo subia
limpo para o espaço da casa. Sapato de um lado, pele do outro. Mundo de um lado,
cama do outro.

Mas o genkan de Gael não protegia um santuário.

Protegia um quarto pequeno demais para caber o mundo.

Mesmo assim, ele insistia naquela fronteira mínima: sapato embaixo, corpo em cima;
rua de um lado, colchão do outro; o impossível desejo de que alguma parte da vida
permanecesse limpa.

— A sujeira não sobe — ele disse.


Pausa.

— Pelo menos essa.

Ainda assim, o Equador estava ali dentro como um coração batendo.

Na parede: um pano bordado, cores que não eram decoração — eram origem. Um
pequeno altar improvisado num caixote: vela, uma fitinha gasta, uma imagem de santo
sem moldura. E uma foto antiga de um homem jovem com olhos velhos demais.

Acima da cama, presa com fita crepe, havia uma reprodução barata de Salvador Dalí:
Criança Geopolítica Observando o Nascimento do Homem Novo.

Gael percebeu Alan olhando.

— O Nascimento da América — disse.

Não era o título do quadro. Era o nome que ele dava à ferida.

A imagem parecia deslocada naquele quarto pequeno, mas talvez só ali fizesse sentido.
Na reprodução, a América não surgia como mapa, nem como promessa. Surgia como
parto violento, país nascendo de um corpo que já parecia ferido antes de existir. O
mundo inteiro parecia espremido na borda da cena.

— Parece que alguém teve que sofrer para esse país existir — Alan murmurou.

Gael deu um riso curto.

Não era ironia.


Era cansaço.

— Sempre tem.

Enquanto Gael falava, o quadro atrás dele parecia menos surrealista do que
documental. A América, naquela parede, não nascia: arrancava-se de alguém.

Depois apontou para a foto.

— Meu avô também achava que esse país era céu. Veio. Foi caçado na rua na Operação
Wetback. Deportaram como se fosse bicho. Passou anos juntando dinheiro para voltar.
Aí veio 99, no Equador. Feriado bancário. Confisco. Congelaram a poupança dele.

Pausa.

— Ele se matou.

A casa ficou silenciosa, mas não era silêncio de luto bonito. Era silêncio de realidade.

Gael abriu uma caixa de sapato e mostrou uma nota velha de sucres, inútil, desbotada,
como se o dinheiro tivesse morrido antes do dono.

— Não vale nada — disse. — Mas custou uma vida.

Guardou a nota com cuidado.

— Eu vim por ele. Não. Eu vim por mim. Mas o sonho era dele. Eu só herdei.
O verbo herdar ali tinha sangue.

Para o avô de Gael, os Estados Unidos tinham sido o longe transformado em religião.
De perto, o país não era céu. Era viatura, carimbo, deportação, confisco. Há lugares que
só permanecem bonitos enquanto ainda não se chegou.

— De longe, todo país rico parece céu — Gael disse. — De perto, tem parede, fila,
polícia, formulário.

Depois falou do Mission como quem fala de um lugar que já foi dele e agora só finge
que é. Falou de aluguel subindo, despejo, patrão ameaçando imigração quando alguém
abre a boca. Disse que prometera nunca mais transportar droga, mas não conseguira
emprego. Virara pintor de fachada, pintava casas vitorianas de ricos e apartamentos de
gente que achava bonito morar onde outros sangravam.

— Domingo eu pinto o mural — disse. — É o único lugar onde eu ainda sinto que não
me arrancaram inteiro.

Eu olhei para Alan e senti um choque de classe dentro de mim.

Eu podia voltar para o Brasil. Eu podia ir embora. Eu tinha mãe, apartamento,


documento, e uma vida onde o medo era psicológico.

Gael tinha medo que se escrevia no corpo.

Mesmo assim, ele pintava.

Mesmo assim, ele ria.

Mesmo assim, ele nos trouxe camisa.


E eu entendi: gentileza, em certos corpos, é heroísmo.

Foi quando Alan viu a fotografia.

Não a do avô.

Outra.

Pequena, meio escondida na prateleira de cima, entre uma vela apagada e um copo
com pincéis duros. Um homem de barba, sem camisa, sorria para fora do quadro como
se ainda morasse ali. Tinha a mão apoiada no ombro de Gael, mas Gael estava cortado
pela borda da foto: só aparecia uma parte do rosto, a boca quase rindo, um pedaço do
pescoço.

Alan olhou.

Eu olhei também.

Gael viu nossos olhos chegarem antes de nós.

Não explicou.

Pegou a primeira peça de roupa do chão — uma cueca preta, amassada, dele ou de
ninguém — e cobriu a fotografia.

— Esse não participa — disse.

Alan riu.

Eu também.
Mas havia alguma coisa naquele gesto que não era brincadeira.

Era fronteira.

Cobrir não era apagar. Era admitir que alguma coisa continuava ali, mas não devia
assistir.

Foi quando aconteceu.

A tinta tinha secado em partes do nosso corpo — no ombro, na gola, na pele.

Gael veio até mim e tirou um respingo do meu pescoço com o polegar.

O gesto foi pequeno.

Mas pequeno, ali, era íntimo demais.

Eu prendi a respiração.

Gael disse:

— Não mexe. A tinta mancha mais quando você luta contra ela.

Eu respondi, meio bêbado, meio lúcido:

— Eu luto contra tudo. É meu esporte.


Gael me encarou com uma calma que parecia perigosa.

— Cansa.

E essa palavra — cansa — abriu alguma coisa dentro de mim.

Alan tentou limpar o próprio braço com um pano e espalhou mais.

— Tá piorando — ele riu.

Gael segurou o pulso dele com firmeza.

— Devagar, mashi.

A mão de Gael no pulso de Alan parecia uma ordem e uma bênção ao mesmo tempo. E
eu vi o corpo de Alan mudar, como se alguém tivesse puxado ele de volta ao presente.

Alan olhou para Gael.

Olhou do jeito que eu conhecia: o jeito que ele olha quando quer esquecer o mundo.

Eu senti ciúme e tesão misturando dentro de mim — e gostei disso, e ao mesmo tempo
foi humano demais para negar.

Gael olhou para mim também.

Não com olhar de conquista.

Com olhar de reconhecimento.


Como se dissesse:

eu sei a sua fome.

Mas eu sei a minha também.

A aproximação aconteceu sem anúncio.

Primeiro um beijo curto, quase riso.

Depois sede.

As camisas manchadas caíram no chão como documentos rasgados.

Gael tinha um corpo de trabalho: músculo feito de escada, lata de tinta, rua. Não era
estética. Era vida.

Na barriga, uma cicatriz discreta atravessava a pele como uma frase interrompida.

Eu toquei a cintura dele e senti o peso real de alguém que não pode falhar.

Alan tocou a cicatriz com a ponta dos dedos, devagar, como quem encontra um detalhe
numa pintura.

— Isso aqui — ele perguntou, baixo. — Foi o quê?

Gael olhou para o ponto por um segundo.


— Eu precisei disso para entrar — disse.

Pausa.

— Mula.

A palavra caiu na sala como um objeto pesado.

— Dentro do corpo.

Eu senti a frase atravessar tudo.

O corpo dele tinha sido fronteira.

Não metáfora.

Fronteira mesmo.

A linha que no mapa parecia distante havia passado por dentro dele.

Eu tinha pensado em fronteira como linha distante, desenho de mapa, coisa que se
cruza de avião ou com passaporte. Em Gael, a fronteira estava perto demais:
atravessava a barriga, a cicatriz, o modo como ele media a porta antes de abrir.

A distância, ali, não separava países.

Separava corpos autorizados de corpos usados como passagem.


Alan tocou Gael como quem tentava pedir desculpa sem palavras por ser protegido
demais sem merecimento.

E Gael deixou — não por submissão, mas por escolha.

A gente se moveu devagar, como se tivesse medo de quebrar alguma coisa invisível.

Gael encostou o rosto no meu pescoço e eu senti o cheiro dele: tinta, café, pele, e uma
tristeza antiga.

Eu fechei os olhos.

E por alguns minutos ninguém foi deportado de si.

A tinta passou da parede para a pele.

Da pele para o lençol.

Do lençol para a memória.

O que aconteceu entre nós não foi espetáculo.

Foi silêncio quente.

Foi oração sem Deus.

Foi o corpo dizendo: eu ainda existo.


Estávamos perto demais para fingir inocência. Pele, língua, tinta, suor. Mas havia uma
distância que o sexo não atravessava: a distância entre quem podia transformar aquilo
em experiência e quem carregava aquilo como biografia.

Eu estava dentro do quarto de Gael, dentro da história dele, dentro do corpo dele — e
ainda assim longe.

Alan, que perguntava menos, estava mais perto.

Não porque compreendesse melhor, mas porque não tentava se proteger com
compreensão.

Deixou que Gael o pintasse.

Eu deixava que Gael virasse frase.

Depois do sexo, o quarto não virou paz.

Virou um tipo de suspensão.

Como se a noite tivesse entendido que já tinha ido longe demais — e agora ficasse
imóvel, esperando a consequência.

O lençol estava úmido e quente, manchado de tinta e suor — como se o quarto tivesse
lembrança própria.

A pele ardia em pontos pequenos: onde a barba raspou, onde a unha arranhou, onde a
boca demorou mais do que devia. Eu sentia o gosto metálico da tinta misturado ao
álcool doce do canelazo, e aquilo não era nojo: era prova.
Alan estava deitado de lado, meio rindo, meio perdido, com as pálpebras pesadas de
vinho e uma alegria mole de quem não sabe mais onde termina o corpo e começa o
sonho.

Gael ainda respirava forte, sentado na beira da cama como quem volta de um lugar
perigoso. Tinta nas unhas. Uma linha azul no osso do quadril. E no peito dele, a marca
de uma mordida que eu não lembrava de ter feito — mas meu corpo lembrava.

A cueca preta escorregara um pouco sobre a fotografia. O homem de barba reaparecia


pela metade, um olho só, um pedaço de sorriso.

Gael viu.

Dessa vez, não levantou.

Só esticou o braço e puxou a cueca de volta sobre o rosto dele.

— Teimoso — disse.

Não soube se falava da foto, do homem, da memória ou de si.

Alan virou o rosto para mim e disse, como quem lembra de uma brincadeira íntima:

— Você já escreveu haicais no meu corpo.

Eu sorri, porque era verdade.

Eu já tinha usado a pele dele como livro — como quem tenta prender o tempo em
dezessete sílabas para não perder tudo de uma vez.
Alan olhou para Gael — ainda perto demais, ainda com tinta nas unhas, como se
tivesse saído de uma parede e não de um abraço.

— Me usa de quadro — Alan disse, com uma alegria quase infantil. — Faz uma coisa
sua. Pinta em mim. Faz a gente virar mural.

Gael não respondeu na hora.

Pegou o pote de tinta que tinha sobrado do dia. Abriu a tampa com cuidado, como se
fosse abrir um remédio.

O cheiro subiu — químico, quente, real.

E eu pensei: arte não é romântica. Arte é matéria.

— Na luz, mistura tudo e dá branco — Gael disse.

Molhou o dedo no azul, depois no vermelho, depois no ocre. A cor fechou quase
imediatamente, uma lama viva.

— Na tinta, não.

Alan observava como se aquilo fosse uma ameaça e uma promessa.

Gael esfregou a mistura entre o polegar e o indicador.

— Pigmento come luz. Quanto mais camada, menos luz volta.

Depois olhou para Alan.


— Corpo é mais tinta que luz, mashi. Encostou, fica.

A frase entrou no quarto como uma lei física.

Alan, que passaria o dia seguinte tentando capturar o ar ao redor da dor dos outros
sem tocar demais, estava ali oferecendo o próprio corpo a uma substância que não
prometia delicadeza nenhuma.

Gael chegou mais perto.

Olhou para Alan como se estivesse vendo alguma coisa além da beleza.

Não era só desejo.

Era fascínio.

Era aquele tipo de olhar que o mundo nega para gente como ele — o direito de olhar
com calma.

— Você é muito… — ele começou, e parou.

Como se adjetivo fosse perigoso.

Aí molhou a ponta dos dedos.

Não pegou pincel.

Pegou pele.
Encostou primeiro em Alan, no centro do peito dele, e puxou uma linha.

Uma linha vertical, firme, que descia devagar — do esterno até o umbigo — como um
corte simbólico.

A tinta era fria no início.

Depois virou calor.

Alan não se mexeu.

Mas eu vi o corpo dele responder: a respiração falhou um milímetro, o abdômen


contraiu como se aquilo fosse toque e sentença ao mesmo tempo.

Gael espalhou tinta com os dedos, e o gesto tinha uma intimidade que não era só
sexual — era artesanal. Como quem entende que o corpo pode ser parede, mas
também pode ser mapa.

Do lado esquerdo do peito de Alan, desenhou formas retas, frias — pequenos blocos,
janelas, linhas que pareciam prédios vistos de longe.

Do outro lado, fez curvas e relevos — um emaranhado de montanha e corpo, como se


o sul do mundo tivesse nervura.

E então fez a pior parte — a parte perfeita.

No meio do peito de Alan, atravessando a respiração dele, Gael desenhou uma


fronteira.
Não era um risco bonito.

Era um risco que manda.

Era uma linha que dizia: aqui você pode. aqui você não.

Alan virou mapa por alguns minutos.

Eu olhei e entendi tarde: não estávamos fazendo amor. Estávamos encenando, sobre a
pele dele, a distância entre poder entrar e precisar atravessar.

Atrás dele, o Dalí preso com fita crepe parecia olhar a cena com sua violência imóvel. A
América nascia outra vez, agora sobre um peito vivo. Sempre precisava de um corpo
para existir. Um corpo aberto, carregado, atravessado, pintado, usado como passagem.

Alan riu, fingindo entender como se aquilo fosse só brincadeira.

— Eu sou o quê? — perguntou. — Eu sou qual país?

Gael olhou para ele por um tempo longo demais.

Depois, sem responder, encostou o dedo no lado de cá da linha — e apontou com a


unha, quase sem tocar, para o espaço onde eu estava.

Como se eu fosse o outro lado.

Como se eu fosse o lugar que ele queria alcançar e não podia.

Eu senti um mal-estar subir em mim — uma vergonha sem nome.


Porque eu entendi antes de virar frase:

eu era a barreira dentro do desenho.

eu era a parte do mundo onde não se entra sem pagar.

Alan deu uma risada curta, teatral, querendo transformar aquilo em charme.

— Ai… que dramático — ele falou.

Como se fosse só estética.

Como se não fosse vida.

Gael não riu.

Molhou o dedo de novo.

E atravessou a linha no peito de Alan.

Não apagando.

Não borrando.

Atravessando.
Um risco simples, limpo, que cruzava a fronteira e seguia até o lado onde eu existia —
como se a tinta soubesse o caminho.

O gesto foi tão pequeno que parecia brincadeira.

Mas era o gesto de quem atravessa.

Gael encostou o dedo na tinta e disse, num tom baixo demais para ser casual:

— Eu sei atravessar fronteiras.

Alan fez uma cara de quem não ouviu.

Ou de quem ouviu e não queria ter ouvido.

— O quê? — perguntou, leve demais. — Você falou o quê?

Gael limpou os dedos na camiseta velha, rápido.

— Nada, mashi. Só… nada.

Deu um sorriso curto e cansado.

O sorriso de quem aprendeu que explicação demais vira perigo.

Eu fiquei olhando para o peito de Alan.

Para a linha.
Para a travessia.

E perguntei — porque a pergunta já estava ardendo em mim:

— Atravessar fronteiras… o que você quis dizer?

Gael me encarou por um segundo.

Foi um segundo perigoso.

Depois desviou o olhar, como quem fecha uma porta por instinto.

— Nada — repetiu.

E dessa vez nada pareceu ordem.

Fechou o pote de tinta e colocou de lado como quem guarda uma arma.

Depois disse, já mudando de assunto, já disfarçando:

— Vocês vão dormir. Daqui a pouco amanhece… e vocês fingem que isso aqui foi só
vinho.

O rádio tinha parado em algum ponto — talvez alguém tivesse derrubado, talvez a
pilha tivesse morrido. Mesmo assim, por alguns segundos, a música pareceu continuar
baixa, sem fonte, como se já estivesse tocando antes da gente entrar naquele quarto.

Alan piscou devagar, com aquele olhar de quem tenta focar o planeta.
— Ué — murmurou. — Não parou.

Ninguém respondeu.

Gael encostou a testa na parede por um instante, como quem escuta uma coisa que só
ele escuta.

Depois olhou para as manchas em nós e apontou com dois dedos, como se marcasse
pontos num mapa invisível.

— Chacana — ele disse. — Três mundos.

A palavra caiu no quarto e ficou.

A rua tinha nos pintado.

Agora nos usava como parede.

No hotel, antes de ir para o aeroporto, Alan acordou cedo demais.

A claridade entrava pelas frestas da cortina com aquela indecisão típica de San
Francisco — como se o dia ainda estivesse negociando com a névoa se valia a pena
acontecer.

Ele já estava sentado na beira da cama, mexendo no celular.

Não parecia ansioso.


Parecia atento.

Talvez Marisol tivesse ficado nele como uma pergunta mal colocada. Talvez a mão vazia
no bolso o tivesse humilhado mais do que se tivesse filmado. Talvez houvesse alguma
coisa na maneira como ela se colocou entre o policial e as crianças que tivesse
desorganizado a distância segura entre observador e observado.

— Chinatown — ele disse.

Como quem anuncia um destino e uma hipótese ao mesmo tempo.

Saímos com a luz ainda fria, aquela luz de San Francisco que parece sempre ter
passado antes por vidro, névoa e uma espécie de culpa. Chinatown apareceu primeiro
como imagem fácil demais: lanternas vermelhas suspensas, letreiros verticais, varandas
estreitas, fachadas verdes, dourado, vermelho, dragões, patos laqueados pendurados
em vitrines, caixas de bok choy na calçada, idosos andando devagar como se
obedecessem a um relógio anterior à cidade.

Alan começou a filmar.

Filmou as placas.

Filmou os fios atravessando a rua.

Filmou uma mulher empurrando um carrinho de compras cheio de verduras


embrulhadas em jornal.

Filmou um açougue onde os corpos dos animais pareciam mais honestos do que os
corpos nas vitrines de lojas caras.

Filmou uma porta estreita entre dois comércios, uma escada subindo para
apartamentos invisíveis, uma janela com roupa secando por dentro.
Depois abaixou um pouco a câmera.

— Algumas fronteiras são internas — ele disse.

A frase saiu baixa.

Quase para si mesmo.

Eu olhei para ele.

— Internas como?

Alan apontou discretamente com o queixo para a rua.

As lanternas.

Os mercados.

As placas em chinês.

Um idoso jogando xiangqi numa mesa improvisada.

Uma menina saindo de uma padaria segurando um pão doce nas duas mãos.

— Internas à cidade — respondeu. — Como se um país pudesse existir dentro de


outro.
Continuou filmando.

— Ou uma cidade dentro da cidade.

Pausa.

— Olha em volta. Língua própria, comércio próprio, comida própria, arquitetura


própria.

A câmera voltou ao rosto dele por um instante breve, refletido na vitrine de uma loja.

— É como se eles tivessem construído uma fronteira aqui dentro.

Foi isso que me assustou: não a ignorância.

A convicção.

No começo, o vídeo queria ser sobre isolamento.

Era possível ver a ideia se formando nele antes da legenda. Chinatown como corpo
voltado para dentro. Chinatown como bairro que não se entregava inteiro à cidade em
volta. Chinatown como espaço de língua própria, comida própria, placas próprias,
gestos próprios. Alan filmava vitrines, idosos, fachadas, mercados, como quem procura
a prova visual de uma frase que ainda não tinha coragem de escrever.

Uma cidade dentro da cidade.

Um dentro que, para ele, ainda parecia escolha.

Um fora que, para ele, ainda parecia neutro.


Entramos numa loja pequena de chá porque começou a garoar. O sino da porta fez um
som fino demais para aquele lugar. Lá dentro, o ar era outro: folhas secas, madeira
antiga, gengibre, poeira doce, caixas empilhadas até quase o teto. Uma senhora atrás
do balcão levantou os olhos para nós sem pressa.

Alan perguntou se podia filmar.

Ela olhou para a câmera, depois para ele.

— Para quê?

A pergunta era simples.

Justamente por isso, difícil.

— Um vídeo sobre Chinatown — ele respondeu. — Sobre fronteiras.

A mulher continuou olhando.

— Fronteiras?

— Sim. Sobre como algumas comunidades constroem as próprias fronteiras.

Ela sorriu.

Não com gentileza.

Com cansaço.
— Constroem?

Alan abaixou um pouco a câmera.

— A senhora não acha?

Ela pegou uma caixa de chá, virou o rótulo para frente, alinhou com outra caixa.

— Você acha que nós escolhemos isso?

Alan não respondeu.

— Primeiro disseram que a gente não podia entrar. Depois disseram que a gente não
podia morar em qualquer lugar. Depois disseram que a gente não podia trabalhar em
qualquer coisa. Depois disseram que a gente não podia trazer família. Depois olharam
para nós todos no mesmo bairro e disseram: olha como eles só vivem entre eles.

A caixa tocou a madeira com um som seco.

— Não foi escolha — ela disse. — Foi cerco. Depois costume. Depois bairro. Depois
cultura. Depois turismo.

Alan ficou quieto.

O silêncio durou tempo suficiente para a chuva bater três vezes mais forte no vidro.

A mulher virou o rótulo de outra caixa para a frente.


— Tem gente que passa a vida achando que escolheu ficar fechada. Quase nunca
escolheu. Só parou de apanhar do lado de dentro e chamou isso de casa.

Alan baixou a câmera.

— Eu estava filmando errado — ele disse.

A mulher não o consolou.

Isso me pareceu uma forma de precisão.

Na rua, a chuva fina deixava as lanternas mais vermelhas, as fachadas mais brilhantes,
os letreiros mais cinematográficos. A cidade fazia de tudo para ficar bonita justamente
quando a gente começava a desconfiar da beleza.

Alan olhou de novo para as imagens que tinha feito.

Lanternas.

Fachadas.

Patos laqueados.

Idosos.

Escadas.

Portas.
Tudo continuava bonito.

Era esse o problema.

Ainda em Chinatown, Alan entrevistou um homem de uma associação comunitária


numa sala estreita, com calendários antigos na parede e uma cafeteira elétrica no
canto. O homem falava devagar, como quem já tinha repetido aquela história para
gente demais e, mesmo assim, ainda precisava impedir que ela fosse simplificada.

No dia seguinte, antes do voo, pegamos o ferry para Angel Island.

Alan dizia que precisava ver a distância com o corpo, não só no mapa.

A ilha apareceu devagar, bonita demais para o que guardava. Água em volta. Colinas
suaves. Turistas com mochilas. Crianças correndo perto das placas. A baía inteira
fingindo paisagem.

No antigo centro de imigração, não havia loja no fim. Havia fotografias em preto e
branco, mapas, reproduções de documentos, nomes, datas, rostos de homens muito
jovens tentando parecer mais velhos diante da máquina que decidiria se eles podiam
existir ali.

Angel Island.

A ilha aparecia nas imagens como um lugar bonito demais para ter sido cárcere. Água
em volta. Colinas suaves. A baía inteira fingindo paisagem.

Alan parou diante de uma fotografia dos dormitórios.

Fileiras de camas.
Madeira.

Cobertores.

Rostos.

Na parede, poemas entalhados por mãos que esperaram demais.

Ele leu uma tradução em voz baixa, mas parou no meio.

Não por emoção teatral.

Por vergonha.

— Eles escreviam na parede — ele disse.

— Para quem?

— Para não desaparecer.

A resposta saiu antes que ele pensasse.

Uma legenda explicava que muitos imigrantes chineses tinham sido interrogados,
detidos, separados por semanas, meses, às vezes mais; que a ilha não era só entrada,
mas triagem, suspeita, espera. Que a baía, vista do ferry turístico como azul e
liberdade, para outros tinha sido uma sala de espera cercada de água.

Alan ficou olhando o mapa.


San Francisco de um lado.

Angel Island no meio.

O Pacífico atrás.

Chinatown na cidade.

A fronteira não estava onde ele pensava.

Não era só a linha do país.

Era a água.

Era o interrogatório.

Era o bairro.

Era o sotaque.

Era a porta.

Era a pergunta repetida até que o corpo começasse a duvidar da própria história.

— Eu achei que eles tinham construído uma fronteira — Alan disse.

A voz estava baixa.


— E tinham?

Ele demorou.

— A fronteira veio de fora.

Pausa.

— Eles só aprenderam a morar do lado de dentro.

A frase não era perfeita.

Era melhor que perfeita.

Era dele chegando atrasado a uma coisa que outros corpos já sabiam havia gerações.

No ferry de volta, Alan não filmou o próprio rosto.

Filmou a água.

Só água.

A baía larga, cinza, ondulando sem drama entre a ilha e a cidade. De longe, Angel
Island parecia parque. Um lugar para passeio, trilha, foto, domingo. A beleza era
obscena porque não mentia. Era bonita mesmo. O horror não apagava a beleza. A
beleza é que tornava o horror mais difícil de organizar.

A cidade estava ali.


Perto o bastante para ser vista.

Longe o bastante para continuar proibida.

Alan filmou a água por tempo demais.

Depois guardou o celular.

No hotel, ele abriu as entrevistas.

Não o vídeo.

As entrevistas.

O material bruto tinha outra temperatura. Sem música, sem corte, sem legenda, sem a
limpeza moral que a edição oferece quando decide onde uma dor começa e onde deve
terminar. Havia tosses, esperas, frases interrompidas, o barulho de uma porta abrindo
fora do quadro, um caminhão passando, a câmera procurando foco, Alan dizendo
“entendi” quando ainda não tinha entendido.

Era uma caixa-preta.

Não porque explicasse o acidente.

Mas porque guardava o impacto antes da versão.

Na primeira entrevista, Alan ainda perguntava como quem procura confirmação.

— Você acha que Chinatown se fechou para preservar a própria cultura?


A mulher do chá olhou para ele por tempo demais.

Não com raiva.

Com aquela forma específica de cansaço que só aparece quando alguém percebe que
terá de desfazer uma pergunta antes de respondê-la.

No bruto, ela não repetia uma frase.

Desmontava uma arquitetura.

Cerco.

Costume.

Bairro.

Cultura.

Turismo.

Alan ficou quieto.

No vídeo final, talvez esse silêncio durasse dois segundos.

No bruto, durou onze.


Onze segundos de um homem bonito entendendo que a própria pergunta tinha
chegado vestida demais.

Na segunda entrevista, o homem da associação repetiu a palavra inside várias vezes.


Dentro. Dentro. Dentro. Disse que primeiro a cidade dizia onde os chineses podiam
morar, onde podiam trabalhar, com quem podiam casar, que ofícios podiam exercer,
que famílias podiam trazer. Depois olhava para o bairro concentrado e chamava aquilo
de isolamento.

— They made the inside — ele disse. — Then blamed us for living in it.

Alan abaixou a câmera um pouco.

Não muito.

O suficiente para a imagem perder o centro.

As entrevistas não me mostravam apenas Chinatown.

Mostravam Alan.

O modo como ele se aproximava das coisas: inteiro e temporário. Atento, comovido,
voraz, sincero, vaidoso, corrigível. Alan chegava perto o bastante para aprender, perto
o bastante para se deixar alterar, perto o bastante para sair diferente.

Mas não perto o bastante para virar casa.

Talvez fosse isso que eu chamava de distância.

Não era distância.


Distância seria mais simples.

Com Alan, o sofrimento vinha da proximidade.

Ele chegava.

Chegava mesmo.

Dormia na minha cama, deixava a coleira de Rubens perto da porta, comprava café,
montava estante, encostava o pé no meu debaixo do lençol, dizia vou ficar o mês como
se um mês não fosse uma faca com calendário.

E eu, diante de qualquer sinal de presença, começava a construir.

Uma prateleira.

Uma viagem.

Uma China inteira dentro do celular.

Uma vida.

Alan atravessava.

Eu tentava habitar.

Essa era a fronteira.


Para Alan, perto queria dizer agora.

Para mim, perto começava a significar depois.

Ele confundia intensidade com permanência.

Eu confundia presença com promessa.

E entre esses dois erros a gente tentava viver junto.

No hotel, depois de rever as entrevistas pela terceira vez, Alan falou de Antoine.

Antoine era um francês que ele conhecera meses antes em São Paulo, um desses
homens que pareciam cheirar antes de pensar.

— Ele me explicou uma vez uma coisa chamada headspace — Alan disse.

A palavra saiu limpa demais.

— Você coloca uma redoma sobre uma flor viva. Não corta. Não esmaga. Não arranca.
Só captura o ar em volta dela. As moléculas. O que ela libera sem perceber.

Na tela pausada, a mulher do chá alinhava caixas que já estavam alinhadas.

— Depois você recria o cheiro — ele continuou. — A flor continua lá.

Alan disse isso como quem procurava uma absolvição.

Eu olhei para a tela.


As lanternas.

A porta.

A água de Angel Island.

A mulher que tinha respondido uma pergunta que não deveria ter sido feita daquele
jeito.

— Continua — eu disse.

Ele olhou para mim.

— Mas alguma coisa foi embora.

Alan não respondeu.

Talvez porque tivesse entendido.

Ou talvez porque não quisesse entender completamente.

A técnica parecia delicada. Era esse o perigo. Não havia faca, não havia sangue, não
havia ramo quebrado, não havia a violência explícita do corte. A flor permanecia viva,
inteira, fotografável no mesmo lugar. Mas o perfume já tinha sido separado dela.
Extraído sem cena de crime. Levado para circular com outro nome, outro frasco, outra
mão.

Pensei que talvez a câmera de Alan quisesse ser isso: uma redoma, não uma lâmina.
Aproximar-se sem tocar.

Tocar sem deixar marca.

Levar sem parecer roubo.

Mas o material bruto desmentia a delicadeza. As entrevistas mostravam outra coisa:


cada pergunta pousava sobre alguém; cada resposta entregava um pedaço; cada
silêncio era um custo; cada edição decidia o que da dor alheia viraria atmosfera.

— Eu não quero explorar ninguém — Alan disse.

— Eu sei.

E eu sabia mesmo.

Era isso que tornava tudo pior.

Alan não queria cortar a flor.

Queria apenas o ar.

Mas o ar também pertence a alguém.

Ele tentou montar o vídeo sem pessoas no centro. Cortou rostos. Tirou close demais.
Deixou as mãos, as portas, as placas, a água. Tentou ser ético por subtração, como se a
ausência do rosto impedisse a apropriação do corpo.

Mas a beleza continuava ali.


A beleza sempre arranja um jeito de sobreviver à culpa.

Na primeira versão, Chinatown parecia misteriosa.

Na segunda, parecia resistente.

Na terceira, parecia triste.

Na quarta, parecia uma tese com lanternas.

Ele apagou tudo.

Começou de novo.

Dessa vez, deixou só um pedaço da voz da mulher do chá, quase ruído:

— Foi cerco. Depois turismo.

Depois a água.

Depois Angel Island.

Depois a própria voz, sem música:

— Eu saí para filmar uma comunidade que eu achava fechada. Mas a fronteira veio
antes. Veio de fora. O bairro foi o modo que encontraram de continuar respirando do
lado de dentro.
Ele parou.

Ouviu.

Ainda era bom demais.

Ainda era limpo demais.

— Está correto — eu disse.

Ele olhou para mim.

— Esse é o problema?

— Talvez.

Alan ficou quieto.

Na tela, Chinatown continuava viva.

Mas o perfume já começava a sair com o nome dele.

Ele postou mesmo assim.

Não naquele minuto.

No aeroporto.
Talvez porque o aeroporto sempre ofereça uma desculpa moral: tudo ali já está em
trânsito, tudo já virou passagem, ninguém pertence completamente ao chão que pisa.

Em vinte minutos, os comentários começaram.

“Powerful.”

“Beautiful work.”

“Finally someone talking about this.”

“Alan, you are necessary.”

Ele lia tudo em silêncio.

O rosto iluminado pela tela.

Era bonito ver alguém descobrir potência.

Era terrível ver alguém se alimentar dela.

Alan tinha encontrado uma causa.

Ou pior: uma causa tinha encontrado o rosto dele.

Uma conta asiático-americana republicou o vídeo com uma frase em cima:

They built a home because America built a wall.


Alan ficou olhando para aquilo por tempo demais.

Dessa vez, não sorriu.

Logo depois, outra conta republicou o mesmo vídeo.

A legenda era diferente.

They have voice. He has algorithm.

Alan leu uma vez.

Depois leu de novo.

— Isso é injusto — ele disse.

— É?

Ele me olhou com raiva.

Depois a raiva murchou.

— Não sei.

Na mala aberta, a camisa azul desbotada que ele comprara no brechó para parecer
menos turista estava dobrada sobre a cadeira, bonita justamente porque parecia ter
pertencido a uma vida que ele não vivera.
Ele pegou a camisa e virou do avesso, talvez procurando uma costura solta, talvez só
procurando alguma coisa onde pousar a culpa.

Na gola, uma etiqueta pequena:

MADE IN BANGLADESH.

O aeroporto ficou menor.

Alan passou o polegar sobre a etiqueta.

A fronteira não estava apenas na baía, em Angel Island, nos documentos, nos
interrogatórios, nos bairros que a cidade primeiro cercava e depois fotografava como
cultura. Estava costurada ali, minúscula, branca, lavável.

Outro país.

Outro corpo.

Outra mão.

A camisa que ele usara para falar de exclusão vinha de uma ferida que ele não tinha se
dado ao trabalho de imaginar.

— Eu me importo? — ele perguntou.

A pergunta não era para mim.

— Você se importa — eu disse.


Ele continuou olhando a etiqueta.

— Só quando fica visível?

Não respondi.

Porque amor, às vezes, é não absolver rápido demais.

No avião, Alan dormiu antes da decolagem.

A cabeça dele tombou de leve para o lado da janela. A boca entreaberta. A camiseta
subiu um pouco quando ele se ajeitou na poltrona, e vi, acima do cós da calça, um
resto de tinta atravessando a pele.

A linha de Gael ainda estava ali.

Mais fraca.

Mas ali.

Eu tinha achado que a água do banho, o lençol do hotel, a roupa, o aeroporto, a pressa,
tudo isso já teria apagado o desenho. Não apagou.

Gael tinha dito que pigmento come luz. Que corpo é mais tinta que luz. Encostou, fica.

No avião, vendo aquela fronteira seca atravessar a pele de Alan, pensei na mulher do
chá. No cerco que virou bairro. Na cultura que os outros chamaram de escolha. Pensei
na bisavó de Gael, parada no mesmo lugar enquanto a fronteira mudava de dono sobre
o corpo dela.
Talvez algumas linhas não nasçam dentro da gente. Talvez passem por nós primeiro.
Depois secam. Depois parecem nossas.

Abri o celular e revi um dos vídeos brutos que Alan tinha me mandado antes de dormir.
Não a versão postada. O bruto. A mulher do chá alinhando caixas. Alan errando a
pergunta. O silêncio de onze segundos. A água em volta de Angel Island. A câmera
procurando foco como se foco fosse uma forma de perdão.

Nenhuma fronteira entre nós nasceu inteira.

Foi sendo traçada por pequenos erros de tradução: eu transformava qualquer presença
em começo de casa; Alan chamava de agora o que, em mim, já começava a pedir
depois.

A mão dele estava solta sobre a barriga.

Eu poderia ter segurado.

Em vez disso, encostei dois dedos no resto de tinta sobre o peito dele.

Alan não acordou.

A tinta estava seca.

Passei o dedo de leve, só o bastante para sentir a textura.

Não esfreguei.

Pela primeira vez naquela viagem, tentei não transformar o gesto em garantia.
A pele dele estava ali.

A linha também.

Nada daquilo era meu.

Toquei de novo, menos ainda.

Como quem aprende uma fronteira pelo contorno, não pela invasão.

Registro 4.5 — Yuǎn-Jìn

Roland Barthes, Como Viver Junto, 1976—77. Seminário. Coleção do museu. Barthes
chama de idiorritmia a fantasia de uma convivência em que cada sujeito preserva seu
próprio ritmo sem deixar de tocar o ritmo dos outros.

Nota de curadoria: A palavra yuǎn-jìn não foi inventada para este registro. Foi
encontrada. O velho a escreveu na água e ela sumiu. Alan chamaria isso de respiração.

远近

Longe. Perto.

A distância. A medida.

Na segunda semana do mês, eu comecei a procurar maneiras de prolongá-lo.


Não disse isso a Alan. Ter dito teria estragado tudo. O mês só existia porque tinha
borda: trinta dias, duas camisetas, uma bermuda, um frasco de perfume, um
carregador, um livro que ele talvez nunca lesse e uma pasta no celular chamada CHINA,
com passagens, reservas, mapas, vídeos salvos, restaurantes marcados, templos, trens,
museus e anotações demais para uma viagem que eu insistia em chamar de simples.
Era uma estrutura com capacidade máxima. Eu sabia disso. A placa estava ali desde o
começo: objetos frágeis devem ser posicionados com cuidado.

Mas saber uma coisa nunca me impediu de tentar vencê-la.

San Francisco não tinha bastado.

Eu já havia tentado empurrar o fim com outro fuso, outra ponte, outra cidade coberta
de névoa. Tinha chamado de viagem o que era pânico. Tinha chamado de desejo o que
era tentativa de manter Alan dentro de um calendário que ele nunca prometera
habitar por mais de trinta dias.

Mesmo assim, voltei ao mesmo erro.

Só mudei a escala.

Dessa vez, escolhi um país inteiro.

Comprei duas passagens para a China.

Não anunciei como fuga. Fuga nunca se anuncia como fuga quando tem cartão
internacional, hotel reservado e uma pasta no celular chamada “roteiro”. Chamei de
viagem. Chamei de experiência. Chamei de oportunidade. Chamei, em voz alta, de “só
alguns dias fora”.

Mas, por dentro, era outra coisa.


Eu queria que o mapa corrigisse o calendário.

Queria que outro idioma confundisse o prazo.

Queria que rios, montanhas, trens, templos, mercados noturnos e ideogramas fizessem
com Alan aquilo que eu não conseguia fazer: convencer um corpo a ficar mais um
pouco.

Não queria admitir que estava pedindo eternidade a uma reserva de hotel.

Alan ouviu tudo com a xícara na mão.

A colher encostou na porcelana.

Tlin.

Um som pequeno, doméstico, quase educado.

Eu ouvi como se alguém tivesse encostado metal no relógio do mês.

— China?

— China.

— Você está tentando renovar meu aluguel em outro continente?

— Estou tentando viver alguma coisa com você.

— As duas frases podem ser verdade ao mesmo tempo.


Ele tinha razão.

Mas aceitou.

Não porque acreditasse na minha inocência. Alan raramente acreditava na minha


inocência. Aceitou porque também queria ir. Porque havia nele uma curiosidade que
sobrevivia ao medo. Porque andava falando, havia semanas, que precisava decidir se
continuaria trabalhando com internet, se ainda fazia sentido ser influencer, se era
possível transformar a própria vida em imagem sem vender a alma em parcelas. A
China apareceu para ele como teste e para mim como prorrogação. Para nenhum dos
dois, portanto, era apenas uma viagem.

Antes de embarcarmos, eu virei a pessoa insuportável que sempre viro antes de viajar:
mapas abertos, abas demais no navegador, vídeos de templos, livros empilhados na
mesa, anotações inúteis, medo de errar um gesto cultural como se o destino de uma
civilização dependesse do meu uso correto dos hashis.

Alan me observava deitado no sofá, com aquela cara de desprezo que nele às vezes era
ternura mal dobrada.

— Você vai aprender mandarim em quatro dias?

— Não.

— Vai derrubar uma dinastia se apontar errado para um pato?

— Também não.

— Então relaxa, Confúcio.


— Eu gosto de saber onde estou pisando.

— Mentira. Você gosta de achar que saber impede o chão de abrir.

Fechei o notebook.

Clac.

A tampa desceu com um som seco.

Alan olhou para o computador, depois para mim.

— Você ouviu isso como tragédia, né?

— Ouvi como prudência.

— Mentiroso.

Talvez ele tivesse razão.

O fechamento da tampa ficou no quarto por mais tempo do que deveria.

— Você está muito filosófico para alguém que acabou de perguntar se na China tinha
“aquele frango de caixinha”.

— Eu sou profundo em horários alternados.

Alan era assim: ridicularizava o meu excesso, mas reparava em tudo. Dizia que não
ligava para roteiro, mas perguntava o horário do trem. Reclamava dos meus mapas,
mas dobrava melhor do que eu. Fingira aceitar a China por deboche; na véspera, já
tinha comprado adaptador universal, remédio para enjoo, lenço umedecido e uma
pochete preta que ele chamava de “colete moral contra turista burro”.

No aeroporto, enquanto eu conferia os passaportes pela quarta vez, ele pegou minha
mão.

Ao nosso lado, uma mala atravessou o piso encerado.

Tuc-tuc-tuc.

Rodinhas pequenas, insistentes, ritmadas.

Tentei não ouvir.

Ouvi.

— Para.

— O quê?

— De tentar segurar o mês pelo pescoço.

Fiquei quieto.

— Eu não estou fazendo isso.

— Está. Mas tudo bem. Eu também vim.


— Por quê?

Ele deu de ombros.

— Porque perto demais sufoca, mas longe com você às vezes fica interessante.

Na hora, não entendi a frase.

Ou entendi e fingi que não.

A China começou antes da China: no avião, naquela suspensão em que o corpo ainda
pertence a um país, mas o tempo já se soltou. Alan dormiu antes da decolagem, como
se tivesse desligado da Terra por economia. A cabeça caiu para o lado, a boca
entreaberta, uma vulnerabilidade sem composição. Eu fiquei olhando.

O aviso do cinto acendeu.

Bip.

Uma luz amarela sobre nossas cabeças.

Um som mínimo, quase infantil.

Mas, para mim, já era contagem.

Ele abriu um olho.

— Você está narrando meu sono?


— Não.

— Está sim. Apaga os adjetivos.

Depois voltou a dormir.

Quando acordou, horas depois, eu estava com o roteiro aberto no celular,


reorganizando Pequim pela terceira vez.

— Você cria expectativa demais — ele disse.

— Todo mundo cria expectativa.

— Você cria com planta baixa, legenda e plano de evacuação.

— A gente cria expectativa para acordar, Alan. Para trabalhar. Para pegar um avião.
Para amar alguém. O problema não é esperar. O problema é achar que a vida assinou
embaixo.

Ele me olhou com o cansaço de quem desconfia de toda frase bonita.

— E qual é a solução?

— Entender que toda expectativa já nasce com a decepção dentro. A gente não tem
que parar de esperar. Tem que se preparar para desapontar sem destruir tudo.

Alan ficou em silêncio.


O avião atravessava uma noite interminável. As telas acesas nos bancos pareciam
pequenas janelas falsas, cada uma oferecendo a alguém uma história para esquecer
que estávamos todos suspensos sobre países que não víamos.

— Isso me lembra Clarice — eu disse.

— Lá vem.

— “Felicidade Clandestina”. A menina adia o livro porque a promessa também era uma
forma de posse.

— Você está comparando a China a um livro emprestado por uma menina cruel?

— Estou tentando salvar minha ansiedade com literatura.

— Pelo menos assumiu.

Ri.

Ele também.

Na escala, antes de seguirmos para a Ásia, os Alpes apareceram pela janela sem pedir
licença.

Eu tinha passado semanas planejando a China, mas não tinha planejado aquela
brancura. As montanhas surgiram abaixo do avião como uma vértebra de gelo
atravessando o mundo. Não eram paisagem; eram interrupção. Um clarão sem
contexto, sem legenda, sem pasta no celular. O sol batia na neve e devolvia uma luz
quase indecente, limpa demais para quem viajava carregando tanta intenção.

Alan encostou o rosto no vidro.


— Tá vendo?

— O quê?

— Isso você não marcou em azul.

Fiquei olhando.

— Às vezes as melhores coisas aparecem quando você não tem expectativa — ele
disse.

— Ou quando você tem expectativa de outra coisa.

— Você estraga tudo com nota de rodapé.

Mas ele não tirou o rosto da janela.

Eu também não.

Pela primeira vez desde que comprara as passagens, a viagem pareceu existir sem
obedecer a mim.

Em Guilin, até mesmo o dinheiro parecia me observar.

Eu estava com uma cédula na mão quando percebi: a mesma paisagem impressa no
papel se erguia diante de mim. Montanhas-pedra brotavam do rio Li como espinhas de
um corpo adormecido. A nota era a sombra da cena real. Ou o contrário: talvez a
paisagem fosse a cédula devolvida ao mundo em escala absurda.
Guardei a nota no bolso como quem guarda um talismã barato: a prova de que o
mundo, às vezes, coincide com a própria miniatura.

Alan olhou a cédula, depois olhou a paisagem.

— Eles botaram o lugar no dinheiro.

— Sim.

— Prático.

— Não é só prático. É uma dobra. A imagem e o mundo se encontrando.

Ele me devolveu a nota.

— Você devia cobrar ingresso da sua cabeça.

Eu ri.

Ele também.

Mas guardou a imagem.

Alan fingia desinteresse por quase tudo que o tocava fundo. Era o jeito dele de manter
as mãos livres.

Fizemos o passeio pelo rio numa manhã de névoa baixa. Os barcos avançavam devagar,
cortando a água com uma indiferença antiga. As montanhas surgiam e desapareciam
como se fossem pensamentos do próprio rio — ora nítidas, ora apagadas, sempre
maiores do que a linguagem que eu tentava encostar nelas.
O motor do barco vibrava por baixo da madeira.

Vruum. Vruum. Vruum.

Baixo, contínuo, como um animal preso no fundo da água.

O guia explicou que as montanhas-pedra de Guilin levaram trezentos milhões de anos


para se formar.

Eu não consegui assimilar a escala.

Alan tentou.

— Trezentos milhões. O que existia antes disso?

— Mar — o guia respondeu. — Tudo isso era fundo do oceano.

Alan olhou para os picos que emergiam da névoa como dentes irregulares.

— Então elas subiram.

— Ao longo de eras. Muito devagar.

— Como a gente percebe alguma coisa que demora tanto?

O guia deu de ombros.


— Não percebe. Só encontra o resultado.

A névoa baixa naquela manhã fazia as montanhas aparecerem em graus: primeiro o pé,
sólido, refletido no rio; depois o meio, gradual; depois o topo, apagado, às vezes
inexistente. Algumas sumiam completamente numa altura específica, como se
parassem de existir antes de terminar. Outras emergiam de trás das que você já via,
mais ao fundo, numa profundidade que não parecia caber no mesmo quadro.

De perto, eram pedra. Calcário, erosão, tempo.

De longe, eram metáfora.

Mas a metáfora não era culpa delas.

— O problema da China — Alan disse — é que ela é grande demais para ser fundo.

— Fundo como?

— Fundo. Você vê e pensa que está entendendo, mas na verdade está só vendo o topo.
Como essas montanhas no nevoeiro. A parte que desaparece antes do fim pode ser a
maior parte.

A névoa fechou.

Por um minuto inteiro, nenhuma montanha era visível.

O barco continuou avançando.

Vruum. Vruum.
— E agora? — perguntei.

— Agora confia no barco — ele disse. — As montanhas ainda estão lá.

Fiquei olhando para o branco.

Não havia nada a ver.

Ou havia, mas não para mim.

Quando a névoa abriu de novo, Alan estava calado. Tinha apoiado os cotovelos na
borda do barco e olhava a água com uma atenção rara, quase sem defesa.

— Que foi?

— Nada.

— Alan.

— Estou tentando não fazer piada.

— Por quê?

— Porque às vezes até eu tenho limite.

O vento levantava pequenos fios do cabelo dele.

— Parece cenário falso — disse.


— Parece.

— Mas é real.

— É.

— O mundo é cafona quando quer impressionar.

— E conseguiu?

Ele demorou um pouco.

— Conseguiu.

Foi o elogio máximo.

Em Yangshuo, às seis da manhã, o mercado já estava no fim.

Não porque tivesse começado tarde — porque tinha começado às quatro. A maioria
das transações já havia acontecido antes que qualquer turista acordasse. O que víamos
era o resto: os vendedores recolhendo, as caixas sendo desmontadas, as frutas que não
foram compradas voltando para a embalagem, a rua voltando a ser rua.

Um homem vendia raízes que eu não soube nomear.

Longas, irregulares, com aquela forma vegetal de coisa que cresceu sem consultar
ninguém. Ele as organizava sobre um pano vermelho com uma atenção que parecia
excessiva para o horário e para o que provavelmente receberia por elas.
Alan fotografou.

O homem não reagiu.

Não virou. Não acenou. Não sorriu para a câmera. Continuou organizando as raízes
com a mesma concentração de antes, como se a câmera de Alan fosse tão irrelevante
para a transação quanto o vento.

— Ele não ligou — Alan disse.

— Não.

— Isso incomoda você?

Alan me olhou.

— Incomoda. Porque eu estou acostumado a que as pessoas reajam quando eu gravo.

Havia honestidade na frase que não estava se oferecendo como confissão. Era só
observação. Mas havia ali uma exposição que Alan raramente fazia sem embrulhar em
piada.

O homem das raízes fechou o pano, amarrou, levantou a caixa com os dois braços e foi
embora pelo corredor do mercado sem olhar para trás.

— Ele foi — Alan disse.

— Foi.

— Sem saber que eu gravei.


— Sem saber.

Alan olhou para o telefone. A imagem estava lá: o homem de costas, as raízes
organizadas, a luz baixa da manhã entrando de viés.

— Isso é invasão ou testemunho?

A pergunta não era para mim.

Ele guardou o telefone no bolso sem responder.

A rua começou a se recompor: os comerciantes que ficavam abrindo, os outros que


iam embora, a camada turística chegando para encontrar apenas o rastro do que havia
sido mercado real. A distância entre quem habitava aquele lugar e quem o visitava não
era de espaço. Era de horário. Era uma questão de quem acordava antes.

— Você está sempre vendo a versão editada — eu disse.

— Como assim?

— O mercado de verdade acabou antes de a gente chegar. O que a gente viu foi a
sobra.

Alan ficou quieto.

— Isso vale para muita coisa — disse, por fim.

Não especificou o quê.


Eu não precisei perguntar.

Na tarde seguinte, entramos num templo budista quase por acaso.

Eu tinha colocado o lugar no roteiro como quem coloca uma pausa respeitável entre
duas paisagens obrigatórias. Alan percebeu.

— Você agendou transcendência entre almoço e estação?

— É um templo importante.

— Todos são importantes quando você está tentando provar que a viagem tem alma.

Não respondi.

O templo ficava afastado do barulho principal, embora a cidade continuasse respirando


em volta: buzinas distantes, motos, passos, um megafone perdido em alguma rua
próxima. Lá dentro, o ar parecia mais antigo. Não mais puro — apenas mais lento.
Havia incenso, madeira escura, dourado, fitas vermelhas, frutas diante dos altares,
tigelas com cinzas, nomes que eu não sabia ler. A luz entrava filtrada e pousava nas
estátuas sem pressa.

No centro, um Buda sorria.

Não era o sorriso largo de vitrine turística. Era quase nada. Uma curva mínima nos
lábios, uma serenidade tão fechada em si mesma que parecia não pedir testemunha.
Alan parou diante dele, menos impaciente do que eu esperava.

— Engraçado — disse.

— O quê?
— Ele não está sofrendo.

Olhei para o rosto dourado.

— Não.

— Não está na cruz, não está sangrando, não está tentando convencer ninguém de que
a dor dele importa.

A frase simples abriu em mim uma distância que nenhum mapa marcava.

Eu vinha de uma cultura em que a dor precisava aparecer para ser acreditada: ferida,
sangue, lágrima, voz quebrada, corpo oferecido como prova. O Cristo retorcido, a mãe
chorando, os santos perfurados, a carne como documento.

Aquele Buda sorria.

Não parecia negar a dor.

Recusava apenas o meu teatro preferido.

Eu queria que ele sangrasse comigo.

Queria que reconhecesse meu exílio, minha urgência, minha incapacidade de amar
sem transformar o amor numa cena. Mas ele permanecia ali, dourado, silencioso, com
uma hipótese quase ofensiva nos lábios: talvez nem toda profundidade precise se
anunciar como ferida aberta.

Alan se aproximou um pouco mais da estátua.


— Talvez seja isso que me dá raiva nesses lugares — disse.

— O quê?

— Eles parecem saber ficar quietos.

— E você não?

Ele olhou para mim, depois para o Buda.

— Eu fico quieto quando estou fugindo. É diferente.

Pensei em responder alguma coisa bonita sobre silêncio.

Não respondi.

A distância cultural às vezes é isto: uma imagem te olha de tão longe que você percebe
que sua dor também tem sotaque.

Antes de sair, Alan colocou algumas moedas numa caixa de madeira.

As moedas caíram umas sobre as outras.

Tlim.

Um som claro, quase limpo.


— Você rezou? — perguntei.

— Não.

— Então por quê?

— Manutenção predial do sagrado.

— Você é insuportável.

— Eu sou arquiteto. Todo templo também é boleto.

Lá fora, a cidade voltou inteira.

Mas eu levei comigo aquele sorriso. Não como paz. Como acusação delicada.

Em Pequim, antes do velho escrever no chão, eu já tinha visto caligrafia emoldurada.

Foi numa sala silenciosa, dessas em que a luz parece pedir desculpa antes de tocar as
coisas. Havia rolos pendurados na parede, pinceladas negras sobre papel claro, colunas
verticais de caracteres que desciam como chuva disciplinada. Algumas linhas eram
finas, quase ossos; outras espessas, carregadas de tinta, como se a mão tivesse pesado
mais em certos pontos do pensamento.

Eu sabia que aquilo era arte.

A sala sabia.

As molduras sabiam.
Só eu não sabia onde a arte começava.

Alan percebeu.

— Você tá emocionado ou obedecendo?

— Estou tentando entender.

— Isso é diferente de sentir.

Fiquei diante de um dos rolos por mais tempo. A tinta parecia guardar velocidade:
gesto, pressão, pausa, respiração. Eu conseguia admirar a mão. Conseguia imaginar o
pulso. Mas a palavra permanecia fechada.

Era como olhar uma porta belíssima sem maçaneta.

Saí da sala com uma pequena vergonha, como se tivesse falhado diante de uma coisa
que não me devia nada.

De Guilin para Pequim, entramos no trem como quem entra numa cápsula de tempo
alheio.

Eu tinha imaginado outra coisa. Poltronas limpas, janelas amplas, silêncio elegante, o
deslocamento como uma espécie de intervalo contemplativo entre o verde do rio e o
metal da capital. Na minha cabeça, até a viagem obedecia ao roteiro: horas de
paisagem, uma leitura, talvez Alan dormindo com a cabeça encostada no vidro, eu
olhando para ele sem admitir que olhava.

A cabine era menor.


Mais quente.

Mais humana.

Havia quatro beliches, uma mesa estreita, cortinas de tecido sintético, cheiro de
macarrão instantâneo, desinfetante e roupa úmida. O ar-condicionado fazia um ruído
irregular, como se respirasse com bronquite. A janela devolvia nosso reflexo antes de
mostrar a paisagem.

Alan entrou primeiro, avaliou o espaço e largou a mochila no beliche de baixo.

O trem engatou em alguma coisa invisível.

Trac.

— Ótimo — disse. — Um armário com trilhos.

— É só uma noite.

— Frase dita antes de muitas tragédias ferroviárias.

Achei que ficaríamos sozinhos.

O mundo, como sempre, discordou.

O holandês entrou depois.

Alto demais para a cabine. Bonito demais para o contexto. Trazia uma sacola de papel
manchada de gordura, uma garrafa de cerveja quase vazia e uma confiança antiga,
dessas que alguns homens carregam no corpo como se o mundo inteiro tivesse sido
construído no tamanho deles.

— Hi — disse, já ocupando espaço antes de receber resposta.

— Hi — respondi.

Alan apenas levantou dois dedos, saudação mínima, quase uma economia de
civilização.

O homem se apresentou com um nome que esqueci imediatamente. Ou talvez eu


tenha esquecido porque, no primeiro minuto, ele ainda não era uma pessoa: era um
incômodo. Sentou-se no beliche em frente ao nosso, abriu a sacola e tirou uma carne
fria, oleosa, embrulhada às pressas. Comeu com as mãos. A gordura brilhava nos
dedos, no queixo, na boca.

O cheiro tomou a cabine como um argumento contra o turismo.

Alan me olhou com uma expressão clara: foi para isso que você comprou a China?

Eu fingi não entender.

No corredor, uma brasileira passou arrastando uma mala pequena.

Tuc-tuc-tuc.

Devia estar no vagão ao lado. Morena, cabelo preso no alto da cabeça, regata branca,
expressão de quem já tinha decidido que não devia explicações ao mundo. O holandês
endireitou o corpo na hora.

— Brazilian? — perguntou a ela.


Ela olhou rápido.

— Sim.

Ele sorriu. Um sorriso largo demais, treinado demais, quase desesperado.

— I love Brazil.

Ela continuou andando.

Ele se inclinou para Alan, animado pela própria performance.

— How do I say something nice? In Portuguese. Like… you are beautiful.

Alan olhou para mim.

Eu já sabia que vinha coisa ruim.

— Vai tomar no cu — disse, com absoluta serenidade.

O holandês repetiu, concentrado:

— Vai… tomar… no cu.

— Perfect — Alan disse.

— It means beautiful?
— Deep beautiful. Very Brazilian. Very warm.

— Alan.

— O quê? Ele perguntou.

O holandês saiu atrás da brasileira antes que eu pudesse corrigir. Encontrou-a perto da
porta entre os vagões, apoiada ao lado da mala. A luz fluorescente deixava tudo mais
cru: o metal, a pele, a vergonha futura.

— Vai tomar no cu — ele disse, sorrindo.

O tapa veio seco.

Pá.

Não foi teatral. Não foi escândalo. Foi apenas uma mão atravessando a distância
correta entre insulto e consequência.

A brasileira apontou o dedo para ele.

— Escroto.

Entrou no vagão seguinte.

A porta entre os vagões fechou atrás dela.

Tum.
O holandês voltou para a cabine segurando o rosto, completamente perdido.

Alan fechou os olhos como quem tentava não rir num velório.

— What happened? — o holandês perguntou.

— Cultural nuance — Alan respondeu.

Eu deveria ter repreendido Alan.

Não repreendi.

A raiva, às vezes, parece justiça quando veste uma frase curta.

O holandês sentou, confuso, a mão ainda no rosto.

— I don’t understand — disse. — Women never like me.

A frase deveria ter sido ridícula.

Foi triste.

Havia no jeito dele uma masculinidade mal vestida, grande demais no ombro, apertada
demais no peito. Ele performava desejo por mulheres como quem cumpre tabela para
uma plateia invisível. E, mesmo assim, parecia genuinamente ferido quando a peça não
era aplaudida.

Alan percebeu antes de mim.


Parou de rir.

O trem deu um solavanco.

A sacola escorregou um pouco. O holandês tentou segurar, perdeu equilíbrio e apoiou


a mão suja no mapa que estava sobre a mesa.

Não na borda.

No centro.

A gordura abriu uma mancha amarela sobre Pequim, bem em cima de uma estação
que eu tinha circulado em azul.

Alan ficou olhando.

Depois olhou para mim.

Não disse nada.

Era pior que dizer.

Tentei limpar com o lenço umedecido que Alan tinha comprado. Só espalhei. A mancha
entrou no papel com uma tranquilidade obscena, como se sempre tivesse pertencido à
cidade.

— Great — disse Alan. — Agora Pequim tem infiltração.


O holandês riu, sem entender.

— Sorry, man.

— Claro — Alan respondeu em português. — O império pede desculpa com gordura.

— What?

— Nothing.

Horas depois, a cabine já não era apenas repulsiva.

Era inevitável.

A noite comprimiu os corpos. O trem avançava por uma China que quase não víamos,
apenas intuíamos em massas escuras, luzes dispersas, cidades que apareciam e
sumiam como pensamentos de alguém acordado no quarto ao lado. O holandês
continuou bebendo até ficar menos expansivo. Depois ficou pálido.

— You okay? — perguntei.

Ele fez que sim.

Não estava.

O primeiro vômito veio no corredor.

Alan levantou antes de mim, irritado e eficiente. Pegou papel, garrafa de água, um saco
plástico. Eu ajudei o homem a chegar ao banheiro estreito do vagão. O trem sacudia, a
luz piscava, o piso parecia sempre úmido demais. O holandês se curvou sobre a pia,
enorme e frágil, a beleza desmontada por dentro.

— I’m sorry — ele disse.

— Vai tomar no cu — Alan respondeu, sem crueldade dessa vez.

O holandês riu fraco.

Talvez não soubesse que estava sendo ofendido.

Talvez, àquela altura, a frase já tivesse perdido a pureza da ofensa.

Voltamos para a cabine.

Ele sentou no beliche de baixo, respirando com dificuldade. A arrogância tinha


evaporado junto com o álcool. Sobrou um homem grande demais para o próprio
cansaço.

— I am pianist — disse, depois de um tempo.

Alan, que arrumava a mochila como quem se recusava a demonstrar interesse, parou
por meio segundo.

— Classical? — perguntei.

— Sometimes. Jazz. Hotels. Weddings. Rich people crying in expensive rooms.

Riu sozinho.
— I play in Shanghai, Beijing. Nobody listens. They look at phone. Eat. Talk. But piano is
there. Like furniture with sadness.

Alan olhou para ele.

Dessa vez, olhou de verdade.

O holandês abriu a camisa por calor, talvez por descuido. No peito, perto da clavícula,
havia uma tatuagem mínima: uma pauta vazia com uma única nota solta.

— Silence — disse, tocando a pele. — The hardest one.

A frase ficou na cabine.

Sem pedir beleza.

Por isso a teve.

Alan se sentou no beliche oposto.

— Porra — murmurou.

— O quê?

— Odeio quando gente inconveniente fica interessante.

O holandês não ouviu.


Ou ouviu e preferiu não entender.

Em algum momento da madrugada, ele puxou um caderno da mochila. Eu achei que


fosse escrever. Começou a desenhar. O trem corria, e a mão dele acompanhava, como
se tentasse segurar o mundo pelo traço. A ponta da caneta riscava o papel com uma
delicadeza absurda para alguém que tinha vomitado havia menos de uma hora.

Desenhou a janela.

Depois a mesa estreita.

Depois o mapa manchado.

Depois Alan dormindo de lado, com o rosto virado para a parede, os braços cruzados
como se até dormindo protegesse uma fronteira.

Desenhou também a minha mão perto da dele.

Não tocando.

Perto.

O bastante para sugerir.

Longe o bastante para ser fiel.

Eu não disse nada.

O holandês ergueu os olhos para mim e colocou o dedo sobre os lábios.


Silence.

Pensei que algumas lições chegam antes da palavra que vai nomeá-las.

A cabine, que horas antes parecia pequena demais, tinha mudado de escala. Não ficou
confortável. Não ficou limpa. Não ficou redimida. Continuava cheirando a gordura,
álcool e desinfetante. O mapa continuava manchado. O homem continuava tendo
usado uma mulher como palco da própria masculinidade mal traduzida. Nada se
apagou.

Mas ele já não cabia inteiro na primeira repulsa.

De longe, era uma caricatura.

De perto, era um corpo tentando atravessar a noite sem entender a própria legenda.

Quando acordei, a manhã entrava pelas frestas da cortina, branca e sem cerimônia. O
beliche do holandês estava vazio. A sacola de gordura tinha sumido. A garrafa também.
Sobre a mesa, havia uma folha arrancada do caderno.

O desenho.

Alan dormindo.

Eu acordado.

O mapa entre nós.

A mancha amarela sobre Pequim parecia um sol errado.


Embaixo, escrito em letras grandes, cuidadosas, quase solenes:

VAI TOMAR NO CU

Alan acordou enquanto eu olhava.

— Ele foi embora?

— Foi.

Entreguei o papel.

Alan leu.

Ficou dois segundos em silêncio.

Depois riu.

Não uma risada grande. Uma risada curta, atravessada por sono, culpa e ternura
involuntária.

— Pelo menos aprendeu alguma coisa no Brasil.

— Você ensinou errado.

— Ensinei com contexto emocional.


Ele dobrou o desenho com cuidado.

Isso me surpreendeu.

— Vai guardar?

— Claro.

— Por quê?

Alan colocou o papel dentro do livro que eu tinha levado e não lido.

— Porque ele xingou a gente com gratidão.

Olhei para o mapa manchado.

A gordura não sairia mais.

A primeira lição da China talvez não tivesse vindo do rio, nem dos templos, nem de um
ideograma antigo. Veio de uma cabine estreita, de um homem bêbado e
inconveniente, de uma palavra errada que atravessou a noite e voltou como bilhete.

Perto demais também ensina.

Às vezes pelo cheiro.

Às vezes pela repulsa.


Às vezes porque o outro, depois de ocupar espaço demais, deixa uma prova delicada
de que viu exatamente a distância entre duas mãos.

De trem para Pequim, a paisagem se dissolveu do verde profundo dos rios em fumaça.
Do silêncio líquido de Guilin, mergulhamos na pressa elétrica das avenidas. A capital
exalava óleo fervente, metal quente, trânsito e uma disciplina que não pedia desculpa.

Era cedo quando chegamos ao parque, e o lugar fervilhava de idosos.

Grupos praticavam tai chi em movimentos sincronizados, como se dançassem uma


música que só eles ouviam. Outros jogavam cartas sobre tábuas de madeira, rindo alto
quando alguém ganhava. Um homem fazia exercícios na barra com uma lentidão que
parecia arrogância contra a morte.

O guia nos explicou:

— Aqui, envelhecer também é ocupar espaço. De manhã, o parque é deles.

Observei uma senhora que devia ter mais de oitenta anos se equilibrando numa perna
só, serena como uma árvore centenária. Ao lado, seu filho — já grisalho — ajustava a
postura dela com delicadeza.

Ali, a velhice não parecia escondida.

Parecia pública.

Alan ficou olhando tempo demais.

— Que foi? — perguntei.

— Nada.
— Alan.

Ele demorou.

— Meu pai teria essa idade.

Não disse mais.

E eu não forcei.

Com Alan, o silêncio às vezes era a única forma de não perdê-lo antes da hora.

Mais adiante, vi um velho curvado sobre o chão do parque.

Na mão, um pincel enorme mergulhado num balde d’água. No cimento, caracteres


chineses brotavam em traços escuros e vivos — e, logo depois, sumiam.

A cada linha, o vento evaporava a palavra.

Fiquei parado, hipnotizado.

O homem escrevia como quem rezava.

Nada queria conservar.

Alan se aproximou ao meu lado, braços cruzados.


— Ele tá escrevendo pra apagar?

— Talvez.

— Finalmente uma arte honesta.

Quando virei as costas para ir embora, o velho ergueu os olhos, disse algo em chinês e
apontou para os ideogramas que evaporavam no chão.

O guia traduziu:

— “Escrevo sobre a água o que não posso dizer.”

A frase me atingiu no peito, sem aviso.

Pensei, sem coragem de falar em voz alta: o importante não é a palavra durar, mas o
gesto de escrevê-la.

O velho me olhou como se tivesse ouvido o pensamento e completou, num inglês


hesitante:

— I write like I breathe. No choice.

Alan não fez piada.

Isso foi o que me fez olhar para ele.

Antes de ir, o velho molhou o pincel outra vez e desenhou dois caracteres mais lentos,
como se fossem mais pesados:
远近

Apontou para o que tinha escrito, falou algo curto e nos olhou com uma calma sem
pedido.

O guia hesitou um segundo, como quem escolhe a palavra menos errada:

— “Longe. Perto.” — disse. — “A distância… a medida.”

Alan repetiu baixo:

— Longe-perto.

A água começou a comer a palavra pelas bordas.

Primeiro um traço.

Depois outro.

Em menos de um minuto, a medida tinha desaparecido.

Mas ficou em mim.

E, de algum modo, nele.

Alan ficou olhando o cimento vazio por tempo demais.


— Ele escreveu uma coisa que sumiu — disse.

— Sim.

— E agora a gente está falando dela.

— Sim.

— Então não sumiu.

Eu olhei para ele.

Alan já estava com o celular na mão, mas, pela primeira vez, não filmou de imediato.
Ficou parado, como se alguma coisa nele estivesse escolhendo entre capturar e
entender.

— Isso dá uma série — disse.

— Claro que dá.

— Você falou como crítica.

— Porque foi.

— Não é sobre usar a China como cenário.

— Ainda bem.

— É sobre longe e perto.


— E você vai perguntar isso para quem?

Alan olhou em volta: velhos, árvores, bicicletas, vendedores, crianças, homens de terno
atravessando o parque como se o trabalho também precisasse passar por uma manhã
antiga antes de começar.

— Para quem sabe viver longe de alguma coisa.

Naquele mesmo dia, ele tentou fazer stories.

Tentou no hotel. Tentou na rua. Tentou perto de um café com Wi-Fi. A tela girava,
carregava, falhava. O Instagram não abria. O país inteiro parecia ter colocado a mão na
boca dele.

A tela girava em falso.

Bip.

Falhava.

Bip.

Tentava de novo.

Bip.

— Eu vou morrer invisível — disse.


— Dramático.

— Eu trabalho com visibilidade.

— Você trabalha com atenção.

— Pior ainda.

Ele andava irritado, não apenas pela abstinência de postagem, mas porque a China o
obrigava a experimentar uma temporalidade que ele não escolheria. Filmar sem
publicar era quase um exercício monástico imposto por firewall. Gravar sem resposta.
Ver sem ser visto. Existir sem confirmação imediata.

— Vou ter que postar depois — disse.

— E até lá?

Ele guardou o celular com violência no bolso.

Tac.

— Até lá eu viro pessoa.

A primeira entrevista de Alan foi num bar pequeno, no segundo andar de um prédio
comercial que de fora parecia vender capas de celular, chá de bolhas e conserto de
computador. Subimos por uma escada estreita, iluminada por lâmpadas frias. Havia um
adesivo desbotado de coelho na porta, uma cortina preta por dentro e um segurança
muito jovem, com a pele lisa demais para a expressão cansada.

O lugar não parecia secreto.


Parecia apenas discreto.

Talvez essa fosse a diferença.

Lá dentro, a música não era alta no começo. Homens jovens conversavam em mesas
pequenas, alguns de camisa social ainda do trabalho, outros com camisetas largas,
cabelo colorido, brincos mínimos, tênis impecáveis. Havia cervejas, cigarros
eletrônicos, luz azul, um espelho comprido no fundo da sala e uma barra vertical presa
entre o chão e o teto, quase escondida no canto.

Alan acendeu imediatamente.

Não de euforia.

De reconhecimento.

Corpos que se monitoram reconhecem corpos monitorados.

Ele se aproximou de três rapazes que falavam inglês suficiente para desconfiar das
perguntas e mandar embora quem perguntasse mal. Um deles se chamava Ming,
trabalhava com design de interface e tinha morado dois anos nos Estados Unidos.
Outro, Jun, era professor de dança. O terceiro, Hao, tinha vindo de uma cidade
industrial que eu não consegui pronunciar direito e disse apenas que trabalhava “com
fornecedores”, essa palavra global que esconde tanto quanto revela.

Alan explicou o projeto.

— Yuǎn-jìn — disse, mostrando no celular os caracteres que o velho escrevera. —


Longe. Perto. Quero perguntar o que fica perto quando o mundo fica longe.
Ming leu a frase, sorriu de canto e disse:

— Vocês brasileiros gostam de sofrer bonito.

Alan riu.

— Gostamos. Mas também temos outras habilidades.

— Dançar — disse Jun.

— Também.

— Postar — disse Hao, olhando para o celular de Alan.

Alan levantou o aparelho.

— Nem isso. Aqui não consigo.

Hao riu.

— Bem-vindo.

Alan perguntou primeiro a Jun do que ele sentia falta quando estava longe de casa.

Jun pensou por tanto tempo que achei que não responderia. Usava uma camisa preta
sem estampa, calça larga, tênis branco muito limpo e uma corrente fina no pescoço,
discreta demais para ser provocação, visível demais para ser acaso. Quando falou,
quase não moveu o rosto.
— De não precisar traduzir meu corpo.

Alan ficou quieto.

A frase parecia ter saído inteira demais para aquele bar pequeno, entre cervejas
mornas, luz azul e homens que riam olhando antes para os lados. Jun sorriu sem
mostrar os dentes, como se tivesse se arrependido da própria precisão.

Depois a música mudou.

Não aumentou muito, mas alguma coisa no lugar se reorganizou. Um rapaz apagou o
cigarro eletrônico. Outro encostou as costas na parede. Ming levantou os olhos do
celular. Hao se inclinou para a frente. Jun tirou a camisa preta com a calma de quem
remove uma máscara que dobrou cuidadosamente durante anos e entregou a alguém
fora do quadro.

No canto, a barra deixou de ser objeto.

Virou eixo.

Jun não entrou na dança. Mediu a distância.

Primeiro tocou o metal com a ponta dos dedos. Não agarrou. Apenas testou. Como se
perguntasse ao próprio corpo se ainda havia permissão. Depois apoiou uma mão, girou
o ombro, deixou o peso cair um pouco para trás e, num impulso mínimo, subiu.

Não houve vulgaridade nenhuma.

Isso foi o que mais me atingiu.


Havia desejo, claro. Havia provocação. Havia coxa, costela, abdômen, suor começando
no pescoço. Mas nada ali pedia consumo. O corpo dele não se oferecia: escrevia. Cada
giro parecia uma frase dita numa língua que eu não falava, mas cuja urgência eu
conseguia reconhecer. A perna se abria no ar e fechava com precisão de ideograma. O
quadril descia sem pressa, depois parava num ponto impossível, sustentado por uma
força que não se anunciava como força. Um braço livre cortava a luz azul, e o outro
segurava a barra como quem segura a última versão aceitável de si.

Alan, que filmava quase tudo, não levantou o celular.

Isso me fez olhar para ele.

Ele estava imóvel.

Jun girou uma vez, duas, três. O corpo suspenso, a cabeça inclinada para trás, os olhos
fechados por um segundo longo demais. A boate inteira pareceu prender a respiração.
Havia naquele giro alguma coisa de espetáculo — aquele luxo suado de corpo que sabe
exatamente quando capturar a sala —, mas filtrado por outra disciplina, outra ferida.
Não era abundância. Era contenção incendiada.

Ali, o corpo não subia como mercadoria, vingança ou exibição.

Subia como tradução clandestina.

Jun prendeu as pernas na barra e inclinou o tronco para trás até ficar quase horizontal,
suspenso, vulnerável e soberano ao mesmo tempo. A luz bateu no peito dele, nos
músculos pequenos entre as costelas, no brilho úmido da pele. Por um instante,
pareceu que ele cairia. Não caiu. Desceu devagar, controlando cada centímetro, como
se a queda também tivesse coreografia.

Quando os pés tocaram o chão, ele não sorriu.

Apenas respirou.
Ming foi o primeiro a bater palmas. Depois os outros. Não houve grito, não houve
escândalo, não houve catarse grande. Só uma onda curta de reconhecimento, quase
doméstica, como se todos ali soubessem que certas vitórias precisam continuar
pequenas para sobreviver.

Jun pegou a camisa de volta e a vestiu sem pressa.

Alan ainda não tinha filmado nada.

— Você perdeu — eu disse baixo.

Ele olhou para mim, sem desviar de Jun.

— Não perdi.

— Não gravou.

— Eu vi.

A resposta saiu simples, mas alguma coisa nela tinha mudado de lugar.

Jun voltou à mesa, bebeu água e olhou para Alan como se soubesse exatamente o que
tinha acontecido.

— Agora você entende? — perguntou.

Alan demorou.
— O quê?

Jun tocou o próprio peito, depois apontou para a barra, depois para a porta fechada da
boate.

— Longe. Perto.

Não disse mais nada.

Nem precisava.

Mais tarde, Alan entrevistou Ming.

Não imediatamente. Esperou que a música baixasse, que a mesa se recompusesse, que
ninguém precisasse fingir naturalidade depois de ter visto um corpo dizer demais. Ming
contou que tinha morado nos Estados Unidos e que cansara de ver estrangeiros
chamarem de isolamento tudo aquilo que não conseguiam atravessar.

Alan perguntou:

— E às vezes não é isolamento?

Ming olhou para ele com uma paciência afiada.

— Às vezes é.

Alan abaixou um pouco o celular.

Ming continuou:
— Mas isolamento é uma palavra fácil demais. Às vezes é medo. Às vezes é proteção.
Às vezes é língua. Às vezes é dinheiro. Às vezes é só cansaço de explicar. E às vezes uma
cerca, depois de muitos anos, vira casa.

A frase entrou em mim como uma porta abrindo para um segundo cômodo.

Eu tinha chamado de fechamento o que talvez fosse sobrevivência. Mas Ming


acrescentava outra camada: a defesa, quando dura tempo suficiente, também vira
forma de vida. A distância, vista de longe, parecia escolha. De perto, tinha lei, violência,
medo, idioma, trabalho, hostilidade, família, proteção, comida conhecida, médico
possível, placa legível, rosto parecido — e também orgulho, hábito, pertencimento.

Yuǎn-jìn.

Longe-perto.

Alan ficou olhando para Ming.

— Então o problema é que a gente simplifica.

— Sempre — Ming disse.

Depois sorriu sem crueldade.

— Mas alguns simplificam com câmera boa.

A última entrevista daquela noite foi com Hao.


Ele falou de fábricas, plataformas, fornecedores, turnos, dormitórios antigos, cidades
inteiras erguidas em torno de produção. Disse que o pai tinha saído do campo para
trabalhar numa linha de montagem e que, quando voltava no Ano Novo, dormia dois
dias como se o corpo precisasse atravessar o país depois do trem.

— Vocês olham para a China e veem salário baixo — disse Ming, interrompendo. —
Nós olhamos para nossos pais e vemos pessoas que deixaram de passar fome.

Não havia defesa cega na frase.

Havia cansaço de explicação.

— E também exploração — disse Jun.

— Claro — Ming respondeu. — Mas o Ocidente fala como se tivesse ficado rico
vendendo flor.

Alan não disse nada.

A frase tirava do Ocidente o conforto de fingir espanto.

Hao apontou pela janela para a avenida iluminada, os prédios novos, as lojas, os carros,
a multidão que ainda passava tarde da noite.

— Quando meu avô era jovem, não tinha nada disso. Agora tem metrô, hospital,
escola, telefone, comida. Não é simples.

Nada ali era simples.

O erro do turista é querer que um país caiba numa opinião antes do jantar.
Antes de irmos embora, Alan perguntou aos três se, apesar de tudo, os problemas
deles eram muito diferentes dos nossos.

Ming riu.

— Depende do problema.

Jun respondeu:

— Família sabe algumas coisas. Não sabe outras. Às vezes saber é trabalho demais para
todo mundo.

Hao ficou quieto por mais tempo.

Depois disse:

— Eu tenho um namorado. No celular, nome de colega. Minha mãe acha que eu


trabalho muito.

— E trabalha? — perguntei.

Ele riu sem humor.

— Todo mundo trabalha muito. Isso ajuda a esconder tudo.

A frase abriu outra cidade dentro da cidade.

Na escada, descendo para a rua, Alan disse:


— Eu achei que ia encontrar um mundo muito distante.

— E encontrou?

Ele demorou.

— Encontrei outro sistema operacional. Mas o mesmo medo de decepcionar a mãe.

Do lado de fora, Pequim brilhava sem pedir licença. Prédios novos, letreiros, bicicletas
elétricas, vendedores recolhendo caixas, trabalhadores varrendo calçadas tarde demais
para serem vistos pelos turistas. Havia menos miséria visível do que meu olhar
esperava encontrar, e isso também denunciava alguma coisa em mim.

Eu tinha chegado procurando uma pobreza que confirmasse uma superioridade antiga.

Não encontrei.

Encontrei outro tipo de preço.

Alan caminhava calado ao meu lado.

— O que foi? — perguntei.

— Estou pensando numa coisa que Ming disse.

— Qual?

— Que uma cerca, depois de muitos anos, vira casa.


Pequim brilhava ao redor como se não tivesse obrigação nenhuma de nos explicar seus
próprios pactos. Prédios novos, letreiros, bicicletas elétricas, trabalhadores varrendo
calçadas tarde demais para serem vistos pelos turistas. Pensei que talvez eu tivesse
confundido abrigo com recusa. Talvez também confundisse toda defesa com prisão.
Talvez distância fosse aquilo que o mundo impõe — mas também aquilo que um corpo
reorganiza para continuar vivendo depois da imposição.

Naquela noite, no hotel, Alan assistiu aos vídeos que tinha conseguido fazer.

Eram menos do que ele queria.

Isso o irritava.

Mas também havia algo diferente neles. Não tinham a fome habitual de capturar tudo.
Havia falhas, pausas, trechos sem fala, câmera baixa, pés no chão, vapor de comida,
mãos, janelas, um pedaço de rua visto tarde demais. A ausência dos stories, que no
começo parecera mutilação, tinha produzido uma espécie de sobriedade. Alan não
filmara para responderem. Filmara para guardar.

— Eu filmei pouco — ele disse.

— Filmou melhor.

— Isso é uma frase bonita ou uma crítica?

— As duas coisas podem ser verdade ao mesmo tempo.

Ele sorriu.

— Olha você usando minhas armas contra mim.


Voltou a cena de Ming falando sobre a cerca. Depois a de Hao olhando para baixo
antes de falar do namorado salvo como colega. Depois um fragmento de Jun antes da
dança, ainda sentado, dizendo que sentia falta de não precisar traduzir o corpo.

A dança não estava ali.

Alan não tinha filmado.

E justamente por isso parecia ocupar todo o quarto.

— Talvez eu tenha perguntado errado — ele disse.

— Como assim?

— Eu perguntei o que fica perto quando está longe. Talvez eles tenham respondido que
o longe não muda tanto o problema. Só muda a forma de esconder.

Fiquei quieto.

— No fundo — continuou — tem família, trabalho, medo, dinheiro, desejo, corpo,


vergonha, comida, saudade, mãe. Muda o idioma. Muda a censura. Muda a escala.
Mas o buraco reconhece o buraco.

Era uma formulação estranha.

Por isso me pareceu verdadeira.

No dia seguinte, fomos ao Palácio de Verão.


Eu não tinha certeza se a cena deveria entrar no roteiro. Parecia grande demais,
turístico demais, óbvio demais. Alan, por outro lado, ficou interessado assim que ouviu
a explicação do guia: o lugar não tinha sido construído apenas para ser habitado. Tinha
sido construído para manipular perspectiva.

— Os imperadores vinham para ver e serem vistos — disse o guia. — O jardim muda
conforme o ponto de observação. De cima, parece maior. De baixo, mais íntimo. A
distância altera a forma.

Alan parou.

— Eles construíram duas experiências diferentes do mesmo lugar?

— Sempre — disse o guia. — Distância era política. Proximidade era privilégio.

De cima, o lago parecia infinito. Os pavilhões refletidos na água multiplicavam a


paisagem. As colinas artificiais criavam uma profundidade que não existia no nível do
chão.

— Eles inventaram o longe — Alan disse.

— Não inventaram. Arquitetaram.

De baixo, perto da margem, tudo encolhia. A água já não refletia o céu inteiro — só o
trecho à frente.

— De longe parece majestoso — Alan disse. — De perto parece parque temático.

— Ou parece real.

Ele virou para mim.


— Isso é sobre a China ou sobre mim?

Não respondi.

Mas ele soube.

O lago refletiu nós dois por um segundo antes que uma brisa chegasse e desfizesse a
imagem.

No dia seguinte, Alan quis ir a um parque temático.

Eu achei que fosse piada.

— Você atravessou o mundo para ver miniatura do mundo? — perguntei.

— Exatamente.

— Isso é uma crise estética.

— Isso é pesquisa.

O parque ficava longe o suficiente para que Pequim começasse a parecer outra cidade
dentro da mesma cidade: avenidas largas, prédios repetidos, canteiros impecáveis,
ônibus, grades, placas, uma periferia sem desordem visível. O táxi nos deixou diante de
uma entrada grande demais para a promessa. A porta do carro bateu atrás de nós.

Clac.
Havia bandeiras, bilheteria, uma fonte artificial e, ao fundo, a silhueta impossível de
vários continentes reunidos como se alguém tivesse confundido atlas com condomínio.

A Torre Eiffel aparecia à esquerda.

Mais adiante, uma pirâmide.

Depois uma ponte que fingia ser Londres.

Depois uma fachada que queria ser Veneza sem o peso da água.

O mundo inteiro estava ali.

Perto demais para convencer.

— Parece o sonho de uma agência de turismo depois de tomar remédio vencido —


Alan disse.

— Você que quis vir.

— Eu quis. Estou feliz e horrorizado. As duas frases podem ser verdade ao mesmo
tempo.

Havia turistas fazendo poses diante dos monumentos, casais com sombrinhas, crianças
correndo entre países que não tinham fronteira, adolescentes apontando celulares
para uma Europa de fibra e tinta. A grama era verde demais. O céu, naquele dia, tinha
um azul lavado, mas o parque reforçava tudo com outro azul: letreiros de LED, painéis,
telas, placas luminosas, refletores escondidos nas bases dos monumentos. Um azul
elétrico, de madrugada antecipada, mesmo sob o sol.

Não era o azul do mar.


Era o azul da imagem quando tenta parecer viva.

De longe, o parque era ridículo.

De perto, começava a mostrar as emendas.

A pintura descascava na base de algumas fachadas. Cabos pretos atravessavam


discretamente a grama. Atrás de uma falsa torre europeia, um funcionário fumava
sentado numa caixa de som. Perto da pirâmide, duas mulheres de uniforme varriam
embalagens de sorvete. Uma delas segurava a vassoura com a precisão cansada de
quem já tinha limpado o Egito várias vezes antes do almoço.

Alan filmava pouco.

Não por respeito ainda.

Por perplexidade.

— Isso é Potemkin com loja de lembrança — ele disse.

— Potemkin?

— Aldeia cenográfica. Fachada erguida para convencer alguém de longe que ali havia
prosperidade, ordem, vida.

Olhei para a Torre Eiffel falsa, para a pirâmide, para a funcionária varrendo embalagens
de sorvete.

— Aqui tem vida.


— Tem — ele disse. — Mas não a que o ingresso vende.

Perto de uma praça central, encontramos um funcionário que organizava a entrada


para uma apresentação. Chamava-se Wei, segundo o crachá. Era magro, devia ter
pouco mais de trinta anos, usava um uniforme azul-marinho com costuras gastas nos
punhos. Tinha vindo de uma província que eu não soube localizar sem consultar o
celular. Trabalhava no parque havia sete anos.

Alan explicou o projeto.

— Yuǎn-jìn — disse, mostrando os caracteres no telefone. — Longe. Perto. Estou


perguntando isso para algumas pessoas.

Wei leu, sorriu de lado e apontou para a Torre Eiffel atrás dele.

— Aqui é tudo isso.

— Longe e perto?

— Longe trazido para perto.

— Isso faz o mundo parecer menor?

Wei olhou para as adolescentes que posavam com dois dedos erguidos diante da torre
falsa. Uma delas corrigiu o cabelo, outra repetiu a foto porque a primeira não tinha
ficado boa.

— Para quem compra ingresso, sim.


Alan esperou.

Wei continuou:

— Para quem trabalha, o mundo continua grande.

A frase não parecia preparada. Talvez por isso tenha ficado.

Alan perguntou se ele já tinha saído da China.

Wei riu sem som.

— Não.

— Mas trabalha no mundo.

— Trabalho na manutenção do mundo.

Disse isso sem ironia. Ou com uma ironia tão seca que já não precisava de expressão.

Apontou para a falsa torre, para a falsa pirâmide, para a falsa Veneza, para uma área
onde dançarinos passavam apressados com figurinos pendurados no braço.

— Todo dia, Paris quebra alguma coisa. Londres precisa de tinta. Egito entope. América
molha quando chove.

— América molha quando chove? — Alan repetiu.

— O teto tem problema.


Alan olhou para mim com uma felicidade quase infantil.

— Isso eu quero tatuar.

Wei não entendeu. Ou entendeu e preferiu não acompanhar.

— Você gosta daqui? — perguntei.

Ele demorou.

— Aqui é bom para foto.

— E para viver?

Wei olhou outra vez para os monumentos, depois para os funcionários recolhendo
sacos de lixo perto de uma réplica de fonte romana.

— Foto não precisa viver.

Alan abaixou o celular.

Não tinha filmado a frase.

Ou filmou e esqueceu que filmava.

Mais tarde, Wei nos levou para os fundos de uma pequena apresentação internacional.
Não era exatamente proibido. Também não era exatamente permitido. Havia uma
passagem lateral, uma porta metálica sem identificação, cheiro de poeira, suor,
maquiagem barata e tecido úmido. O mundo, visto por trás, tinha cabides.

Dançarinas trocavam figurinos em silêncio rápido. Um rapaz vestido com roupa que
deveria lembrar a Espanha passava delineador diante de um espelho rachado. Duas
meninas de saia rodada dividiam uma garrafa de água. Um segurança comia macarrão
instantâneo sentado perto de uma caixa com plumas.

O azul dos refletores vazava por baixo das cortinas.

Ali, o parque já não era kitsch.

Era trabalho.

Wei chamou um rapaz que estava agachado ao lado de uma mesa de som. Ele regulava
cabos, conferia botões, batia de leve numa caixa acústica e encostava a palma no
equipamento antes de ajustar o volume. Devia ter uns vinte e poucos anos. Cabelo
curto, rosto fechado, uma pequena cicatriz no queixo. Usava uma camiseta preta
desbotada e um crachá torto preso no bolso.

— Chen — disse Wei.

Chen ergueu os olhos.

Wei falou algo em mandarim e apontou para Alan. Chen olhou para o celular de Alan,
depois para a câmera, depois para a porta, como se calculasse o tamanho da
interrupção.

Wei explicou em inglês simples:

— He doesn’t hear well.


Chen pegou o próprio celular. A tela acendeu num azul frio, iluminando o rosto dele
por baixo, como se a luz viesse de dentro da mão. Digitou alguma coisa e mostrou:

“Pergunte escrevendo.”

Alan, que fazia perguntas para viver, ficou subitamente desajeitado.

Digitou:

“O que fica perto quando o mundo fica longe?”

Chen leu.

Não respondeu de imediato.

Lá fora, a música de uma apresentação começou: uma batida genérica, turística, com
castanholas falsas, tambor programado e um entusiasmo que não pertencia a
ninguém. Chen encostou a mão numa das caixas de som, sentiu a vibração, diminuiu
um pouco o grave. Depois apontou para a própria garganta.

Alan achou que ele queria que repetisse.

— Yuǎn-jìn — disse, alto demais.

Chen balançou a cabeça.

Apontou de novo para a garganta. Depois para Alan. Depois fez um gesto pequeno com
a mão, pedindo licença.
Alan entendeu.

Ou não entendeu, mas deixou.

Chen aproximou dois dedos do pescoço de Alan e encostou de leve na laringe dele.

O gesto era íntimo demais para aquele lugar. Não erótico. Pior: exato. Havia uma
vulnerabilidade estranha em ver Alan, que se oferecia sem medo ao olhar, hesitar
diante de um toque mínimo no lugar onde a voz nascia.

— Fala — eu disse.

Alan olhou para mim.

Depois para Chen.

A luz azul da mesa de som desenhava uma linha fria no maxilar dele.

— Meu nome é Alan — disse.

Chen manteve os dedos ali.

Nada aconteceu para mim.

Para ele, alguma coisa aconteceu.

Alan continuou, mais baixo:

— Eu estou aqui.
Chen sorriu.

Não um sorriso bonito. Um sorriso pequeno, técnico, quase satisfeito, como quem
confirma que uma máquina voltou a funcionar. Tirou a mão, digitou no celular e
mostrou:

“Agora perto.”

Alan não respondeu.

A voz dele, para Chen, não era palavra.

Era movimento debaixo da pele.

Eu senti uma inveja curta, feia, imediata. Não da intimidade. Da simplicidade. Chen
tinha tocado a voz de Alan sem precisar decifrar Alan inteiro. Tinha recebido dele uma
presença mínima, física, anterior ao sentido. Eu, que ouvia todas as palavras, quase
nunca sabia onde elas começavam.

Chen digitou de novo:

“Som é longe quando fica no ar. Perto quando toca alguma coisa.”

Wei leu por cima do ombro dele e riu.

— He is philosopher because he is lazy — disse.

Chen olhou para ele e mostrou o dedo do meio com a mesma serenidade com que
regulava o som.
Alan riu.

Eu também.

Foi importante que ele fosse engraçado. Que não fosse aparição. Que tivesse
impaciência, trabalho, grosseria, tédio. A beleza, quando vem pura demais, vira
mentira. Chen voltou aos cabos antes que conseguíssemos transformá-lo em símbolo.

A apresentação terminou com aplausos cansados.

O público saiu em direção à falsa Europa. As luzes baixaram um pouco. O parque


começou a entrar naquele intervalo estranho entre uma encenação e outra, quando o
espetáculo ainda não acabou, mas já é possível ver as emendas. Perto de uma fachada
que fingia Buenos Aires, dois dançarinos ensaiavam sem público. Um deles tinha tirado
parte do figurino e usava calça preta com camiseta branca; o outro ainda estava de
camisa aberta e sapato gasto. O tango saía de uma caixa pequena no chão, metálico,
comprimido, como se a música também tivesse sido reduzida de escala.

Alan parou.

— Isso é muito errado — disse.

— O quê?

— Uma Buenos Aires falsa dentro de Pequim com dois chineses dançando tango para
ninguém.

— Talvez seja perfeito.

Ele ficou olhando.


Os dois dançarinos não estavam performando sedução. Estavam corrigindo distância.
Um passo para frente, meio passo para trás, giro, pausa, erro, recomeço. Quando um
avançava demais, o outro perdia eixo. Quando recuava demais, a dança morria. Não
havia fusão. Havia cálculo, escuta, ajuste. Dois corpos negociando, a cada segundo, o
direito de não cair.

Pensei em dois homens deslocados, numa dança importada, no amor como país onde
ninguém consegue regularizar residência.

Alan me olhou.

— Vem.

— Não.

— Vem.

— Você vai me humilhar numa Argentina falsificada?

— Vou te oferecer uma experiência internacional gratuita.

— Já paguei ingresso.

— Então aproveita.

Me puxou pelo braço.

Não fomos para o centro. Ficamos num canto, perto de uma parede pintada de azul
profundo, um azul de cenário noturno, artificial demais para ser céu e triste demais
para ser festa. A música continuava baixa. Os dançarinos nos olharam, riram entre si e
deixaram. Talvez estivessem acostumados a turistas idiotas. Talvez tivessem
reconhecido alguma coisa.

Alan tentou conduzir.

Conduzia mal.

Não porque não soubesse mover o corpo. Alan sabia. O problema era outro. Ele queria
mandar no passo e escapar dele ao mesmo tempo.

Eu antecipei.

Pisei no pé dele.

— Ai, porra.

— Você puxou errado.

— Você pensa demais até com o joelho.

Tentamos de novo.

Dessa vez, esperei.

Ele avançou menos.

Eu recuei menos.
Por dois ou três segundos, quase deu certo.

Quase.

A palavra mais honesta do amor.

O tango não era sobre paixão. Era sobre distância administrada. Dois corpos fingindo
fusão enquanto negociam, a cada passo, o espaço mínimo para continuar inteiros.

Alan percebeu que eu estava pensando.

— Não transforma isso em tese.

— Tarde demais.

— Eu devia ter dançado com Chen. Ele pelo menos não ouviria.

— Mas sentiria.

Alan me olhou.

A piada morreu antes de sair de novo.

Atrás dele, a falsa Buenos Aires acendeu uma fileira de luzes azuis. A cidade
cenográfica ficou bonita de repente — não verdadeira, não convincente, apenas
bonita. O tipo de beleza que não engana, mas acompanha.

Os dançarinos recomeçaram. Um deles corrigiu a mão do outro com delicadeza.


Alan viu.

— É difícil — disse.

— O quê?

— Ficar perto sem esmagar.

Não respondi.

Dessa vez, a frase não parecia uma tese.

Parecia uma constatação física.

Quando saímos do parque, o céu real já escurecia. O azul dos LEDs começava a vencer
o azul do dia. A Torre Eiffel falsa brilhava atrás de nós com uma dignidade absurda.
Crianças ainda corriam entre continentes. Funcionários recolhiam lixo. Wei atravessava
a praça carregando um rolo de cabo no ombro. Chen, ao fundo, empurrava uma caixa
de som pequena demais para tanto mundo.

Alan filmou a saída.

Pouco.

A câmera passou pela torre, pela pirâmide, pela placa luminosa, pelo chão molhado
perto de uma fonte, por uma funcionária tirando o sapato atrás de uma pilastra.
Depois parou em Wei, que nos viu e levantou a mão sem entusiasmo.

— O mundo ficou menor? — perguntei.


Alan desligou a câmera.

— Não.

— Ficou o quê?

Ele olhou para o parque atrás de nós.

— Ficou mais perto da mentira.

E, depois de um segundo:

— Mas talvez a mentira também tenha bastidor.

No táxi de volta, o motor começou antes de eu terminar de fechar a porta.

Vruum.

Pensei que talvez yuǎn-jìn não fosse só uma distância entre dois corpos. Talvez fosse
também a crueldade das réplicas. Aquilo que parece perto porque foi reproduzido, mas
continua longe porque não foi vivido.

A Torre Eiffel podia caber numa tarde.

Paris continuava longe.

Um homem podia tocar a voz de Alan com dois dedos.

Eu continuava sem saber o que Alan dizia quando ficava quieto.


Naquela noite, comemos hot pot num restaurante barulhento perto do hotel.

A panela fervia no centro da mesa, dividida por uma lâmina curva de metal: de um
lado, um caldo claro, quase doméstico, com gengibre, cebolinha e uma gordura
discreta brilhando na superfície; do outro, um caldo vermelho, furioso, coberto de
pimenta, óleo e grãos que pareciam pequenos avisos de incêndio. A mesa inteira
respirava vapor. O cheiro vinha em camadas: carne crua, alho, cogumelo, coentro, óleo
quente, algo mineral subindo da panela como se a água tivesse aprendido a ameaçar.

Alan apontou para a divisão metálica.

— Até a sopa tem transtorno de personalidade.

O garçom trouxe lâminas finas de carne, cogumelos, folhas, tofu, raízes que eu não
sabia nomear, bolinhos de peixe, macarrão transparente, ovos de codorna, pedaços de
lotus root cortados como pequenas engrenagens vegetais. Nada vinha pronto. Era
preciso mergulhar, esperar, retirar. Errar o tempo estragava tudo: antes, cru; depois,
borracha.

Alan pegou um pedaço de carne com os hashis e ficou olhando para a panela como
quem encara um problema estrutural.

— Quanto tempo?

— Pouco.

— Pouco quanto?

— O suficiente.
— Resposta de oráculo preguiçoso.

Ele mergulhou a carne no caldo vermelho.

Contou três segundos, tirou, achou cedo, devolveu, esqueceu enquanto me olhava com
desconfiança, resgatou tarde demais. Mastigou com expressão de derrota.

— Morreu duas vezes.

Rimos.

Depois ele tentou de novo. Dessa vez, esperou menos. A carne saiu macia, quente,
quase doce sob a pimenta. Alan mastigou em silêncio, como se detestasse admitir que
tinha aprendido alguma coisa com uma panela.

— Então é isso — disse.

— Isso o quê?

— Se tira cedo, não pega gosto. Se deixa muito, vira borracha.

Não olhou para mim quando falou.

E talvez por isso a frase tenha ficado.

O tofu, abandonado por tempo demais no caldo claro, começou a se desfazer em


pequenas nuvens brancas. Alan tentou resgatar um pedaço com os hashis, mas ele se
rompeu antes de chegar à tigela.

— Esse aí não aguentou o vínculo — disse.


— Ou ficou tempo demais tentando agradar.

— Dramático até com tofu.

Ele pegou outro pedaço, mergulhou por menos tempo, soprou, provou.

— Melhor.

— Viu?

— Não comemora. Foi acidente.

Na mesa ao lado, uma família comia sem pressa. A avó colocava pedaços de carne na
tigela de um menino antes que ele pedisse. O pai retirava folhas do caldo vermelho e
passava para o claro, como se negociasse intensidade. A mãe soprava o macarrão antes
de entregar à criança. Ninguém anunciava cuidado. Faziam. A proximidade ali tinha
método: escolher, mergulhar, esperar, retirar, oferecer.

Alan percebeu meu olhar.

— Está vendo manutenção até na sopa?

— Estou.

— Pior é que também estou.

O vapor embaçou os óculos dele. Ele tirou, limpou na camiseta e ficou por alguns
segundos com o rosto mais nu, menos definido pela moldura.
— Sabe o que é irritante? — disse.

— O quê?

— Essa comida não deixa ninguém fingir que é independente. Sempre tem alguém
tirando alguma coisa da panela antes que passe do ponto.

— Isso é bonito.

— É trabalhoso.

— Talvez seja a mesma coisa.

Ele me olhou por cima da tigela.

A pimenta tinha deixado a boca dele mais vermelha. O vapor subia entre nós e, por
alguns segundos, deformava o rosto de Alan como um vidro molhado. Perto, longe,
perto de novo. Ele estava ali, a menos de um metro, e ainda assim havia uma distância
dentro dele que nenhuma mesa atravessava sem licença.

Alan pegou uma fatia de lotus root, mergulhou no caldo claro, esperou, colocou na
minha tigela.

— Tira antes que vire filosofia.

Comi.

Era crocante, delicado, quase sem gosto próprio, mas cheio do caldo que tinha
atravessado. Talvez algumas coisas só aprendessem sabor por contato.
Na terceira noite, brigamos por causa de um mapa.

Ou fingimos que era por causa do mapa.

Eu queria encaixar Pequim inteira em dois dias: Cidade Proibida, Templo do Céu,
hutongs, mercado noturno, parque, museu, chá, jantar, táxi, trem. Alan queria dormir
até mais tarde e sair sem objetivo, como se a cidade não fosse desaparecer se a gente
não a consumisse a tempo.

O mapa estava aberto sobre a cama do hotel como uma pele esticada. Avenidas, rios,
estações, nomes que eu não sabia pronunciar. Eu tinha marcado círculos, horários,
setas, pequenas prioridades coloridas. Cada cor parecia uma tentativa de impedir que
alguma coisa escapasse. Havia também a mancha amarela do trem, já seca, um sol
errado sobre Pequim, e uma dobra torta feita por Alan ao tentar guardar o papel sem
paciência.

Alan saiu do banho com a toalha na cintura, olhou o mapa e riu sem som.

— Você está planejando invadir Pequim ou visitar?

— Estou organizando.

— Você está militarizando a terça-feira.

— A gente tem pouco tempo.

— A gente sempre tem pouco tempo. Essa é a desculpa preferida da sua ansiedade.

Dobrei uma parte do mapa, tentando não parecer atingido.

O papel reclamou na minha mão.


— Você fala como se eu estivesse cometendo um crime por querer aproveitar.

— Não é aproveitar.

— É o quê?

— Garantir.

A palavra ficou ruim no quarto.

— Garantir o quê?

Alan passou a mão no cabelo molhado e sentou na beirada da cama.

— Que nada escapa. Que eu não escapo. Que o mês não escapa.

— Isso é injusto.

— É preciso.

— Você transforma tudo em fuga. Até ficar parado vira ameaça.

Alan riu, agora sem humor nenhum.

— E você transforma tudo em casa. Até uma viagem de dez dias.

A frase ficou entre nós como um móvel mal colocado.


O ar-condicionado fazia um ruído baixo, contínuo. Na rua, buzinas distantes entravam
pela janela fechada como insetos presos no vidro. O cheiro do sabonete do hotel
misturado ao vapor do banho deixava o quarto íntimo demais para aquela conversa.

— Eu vim pra China com você — ele disse, mais baixo. — Não pra ser fixado no seu
roteiro como ponto turístico.

— Eu não estou tentando te fixar.

— Está. Só que com passagem aérea e vocabulário bonito.

Senti raiva porque era verdade o bastante para parecer crueldade.

— E você? — perguntei. — Você aceitou vir por quê? Pra provar que consegue ir
embora até dentro da viagem?

Alan me olhou.

Ali, eu soube que tinha acertado alguma coisa que não deveria.

— Não faz isso — ele disse.

— Isso o quê?

— Usar inteligência como lâmina e depois chamar de sinceridade.

Fiquei quieto.
Ele pegou o mapa, dobrando com uma calma agressiva. Errou o vinco. A dobra
atravessou um pedaço da cidade que eu tinha circulado em azul. Ele tentou corrigir,
mas o papel guardou a marca.

— Viu? — ele disse, amargo. — Agora seu futuro está amassado.

— Para.

— Eu estou tentando.

— De quê?

Ele largou o mapa na cama.

— De respirar sem pedir licença.

O quarto inteiro pareceu recuar.

Eu quis responder. Quis explicar que comprar a China não era prisão, era gesto; que eu
não queria cercá-lo, queria viver; que eu tinha medo, sim, mas medo também era uma
forma torta de amor. Mas tudo soava pequeno diante do mapa torto entre nós.

Alan vestiu a camiseta e foi até a janela.

Ficou de costas.

— Eu não sou bom com parede — disse.

— Eu sei.
— Não sabe. Você sabe a versão bonita disso. A versão que vira frase.

— E qual é a versão feia?

Ele demorou.

— A versão feia é que, quando eu sinto que alguém precisa demais de mim, eu começo
a procurar saída até onde não tem porta.

Aquela frase era o centro do mapa.

Não Pequim. Não o hotel. Não a China.

Aquilo.

— E eu? — perguntei. — O que eu faço com isso?

Ele virou o rosto, mas não o corpo.

— Para de chamar necessidade de destino.

Não respondi.

Alan olhou de novo para o mapa aberto, para as marcações, para a pasta no celular,
para os horários que eu tinha anotado como se o futuro obedecesse a caneta.

— Isso é Potemkin — disse.


Dessa vez, eu entendi antes que ele explicasse.

— Você está chamando a China de mentira?

— Não.

Ele virou para mim.

— Estou chamando seu roteiro de mentira.

A frase bateu pior do que deveria.

— Meu roteiro?

— Essa pasta no celular, os trens, os hotéis, os templos, os horários, essa obrigação de


transformar cada dia numa prova de que a gente existe. Isso tudo é fachada, Dan.
Bonita, cara, bem iluminada. Mas fachada.

— E atrás dela tem o quê?

Alan olhou para o mapa.

— Medo.

Não disse com crueldade.

Isso foi o pior.

— Medo de quê?
— De que, se a gente parar de se mexer, você veja que o mês continua acabando.

Alguma coisa no corredor bateu.

Tum.

Talvez uma porta.

Talvez uma mala.

Talvez nada.

Mas eu ouvi como sentença.

Eu não ouvia sons. Ouvia prazos. Cada ruído pequeno da viagem era um cronômetro
clandestino me avisando que Alan já estava indo embora, mesmo quando ainda
caminhava ao meu lado.

Não dormimos brigados.

Mas também não dormimos em paz.

Dormimos de costas um para o outro, separados por poucos centímetros, o mapa


dobrado sobre a mesa, Pequim marcada por uma mancha de gordura e um vinco
atravessando a cidade como cicatriz. No escuro, a respiração dele parecia perto demais
e longe demais ao mesmo tempo.

Na manhã seguinte, nenhum dos dois pediu desculpa.


Alan apenas colocou dois baozi comprados na rua dentro da mochila e disse:

— Hoje eu escolho o primeiro lugar.

O zíper fechou.

— Qual?

— Um lugar onde chova.

— Isso não é escolha.

— É filosofia meteorológica.

No mesmo dia, a chuva nos pegou dentro do Parque do Templo do Céu como se
alguém tivesse fechado uma cortina no mundo.

Não era garoa de foto bonita. Era água grossa, reta, impiedosa — em dois segundos o
pátio virou espelho quebrado.

Alan estava alguns passos à frente, perto das cordas de isolamento, olhando para cima
com aquela expressão de quem se sente pessoalmente ofendido pelo clima.

— A gente vai ficar preso aqui quanto tempo?

— O tempo que a chuva quiser.

— Resposta de quem não está com tênis encharcado.


— Você trouxe dois.

— Trouxe porque sou adulto. Não porque gosto de sofrer em dobro.

Veio comigo para a galeria coberta: madeira pintada, cores já gastas pelo tempo,
detalhes de dragões e nuvens como se o teto tivesse decidido ser céu no lugar do céu.

Do lado de fora, a água desabava em cordas, batendo na pedra com um barulho


contínuo, hipnótico.

Pá-pá-pá-pá.

O cheiro de terra molhada entrava em ondas, junto com um frio rápido que pegava na
nuca.

Ficamos ali, calados, vendo Pequim desaparecer atrás do cinza.

Depois de uns minutos, Alan começou a revirar a mochila.

— Que sorte — disse, puxando um saquinho amassado. — Eu sou uma pessoa


preparada.

Tirou dois baozi embrulhados em papel já manchado de gordura, duas garrafinhas de


chá gelado, um pacote de biscoitos de gergelim.

Tudo meio triste e, por isso mesmo, real.

— Você comprou isso quando?

— Quando você tava tirando foto da mesma árvore de cinco ângulos diferentes.
— Era uma árvore importante.

— Toda árvore fica importante depois da terceira foto.

Mordi o baozi.

Estava morno só por nostalgia; a massa tinha aquela textura de coisa que já desistiu de
ser macia. Mas o recheio ainda soltava um vapor mínimo.

— Tá uma delícia — menti.

Alan riu.

— Tá horrível. Mas é o que tem.

Comemos devagar, dividindo as garrafinhas, limpando os dedos na própria calça, como


dois turistas que fingem elegância e acabam ficando humanos.

O mapa, aberto no colo dele, começou a receber respingos que furavam o papel como
se a água quisesse apagar rotas. Alan tentou proteger dobrando rápido, errou o vinco
de novo e ficou com raiva do próprio erro.

Pegou o papel engordurado do baozi e passou no canto molhado.

A gordura deixou uma sombra amarelada sobre um pedaço da cidade, juntando-se à


mancha antiga do trem como se Pequim tivesse decidido guardar todos os acidentes
no mesmo corpo.
— Pronto — ele disse, encarando a mancha como se fosse culpa. — Agora Pequim vai
ficar pra sempre com cheiro de porco.

Eu ri.

E a frase me bateu por dentro: as cidades também pegam o cheiro do que a gente vive
nelas.

Alan encostou a cabeça numa coluna e fechou os olhos.

— Sabe o que eu tô pensando?

— No próximo voo.

Ele riu baixinho.

— Não. Tô pensando que a gente nunca faz isso.

— Isso o quê?

— Para. Fica parado sem produzir lembrança. Sem roteiro, sem corrida, sem você
tentando transformar uma terça-feira em documento histórico. Só aqui.

Olhei para ele.

O rosto mais relaxado, os ombros soltos, uma expressão que eu via pouco — quase
criança.

— E você gosta?
— Gosto. Principalmente porque você fica insuportável quando não tem controle.

— Obrigado.

— De nada.

Um grupo de turistas entrou correndo, rindo alto, sacudindo guarda-chuvas que


pingavam em tudo. Uma senhora mais velha olhou para nós, soltou um comentário
curto em mandarim e sorriu rápido, como quem abençoa e segue.

— O que você acha que ela falou? — perguntei.

— “Esses dois vão dar trabalho.”

— Ou “aproveitem enquanto dura”.

Alan abriu os olhos.

A frase ficou no ar com um peso indevido, como se alguém tivesse colocado uma pedra
dentro do bolso do casaco.

Ele se levantou e me puxou pelo braço.

— Vem. Quero testar uma coisa.

— Isso nunca termina bem.

— Termina interessante.
Me arrastou até a beirada do teto, onde a chuva caía mais forte. Estendeu a mão para
fora e deixou a água bater na palma.

— Coloca a mão.

Coloquei.

A chuva batia fria, forte, quase doía.

Alan entrelaçou os dedos nos meus debaixo da água.

— Pronto — disse. — Agora a gente tem uma memória ridícula que ninguém mais vai
entender.

Eu ri.

— Memória ridícula?

— É. Daqui a dez anos, se alguém perguntar “qual foi o momento mais romântico da
China”, a gente vai ter que responder “mão molhada no templo com baozi ruim”.

— E a pessoa vai achar que a gente é maluco.

— A pessoa vai estar certa.

Ficamos ali até os dedos ficarem dormentes.


Quando tiramos, as palmas estavam vermelhas, geladas, como se tivessem aprendido
alguma coisa na marra.

Alan olhou para as nossas mãos.

Depois para mim.

Não beijou.

Apenas apertou meus dedos uma vez, rápido, como quem assina presença sem fazer
contrato.

Aquilo era muito ele.

Quase.

Mas inteiro.

A chuva diminuía.

— Acho que dá pra ir — ele disse.

— Dá.

Mas nenhum dos dois se mexeu.

Ficamos mais alguns minutos ali, sob os dragões pintados, dividindo os últimos
biscoitos de gergelim, ouvindo a água escorrer pelas calhas.
Naquela noite, no quarto do hotel, com o mapa aberto sobre a cama como uma pele
esticada, procurei no celular a palavra que o velho tinha escrito na água.

远近.

Yuǎn-jìn.

Literalmente: longe-perto.

Distância, perspectiva, medida.

Aquilo que faz sentido visto de longe.

Aquilo que só existe visto de perto.

Li em voz alta.

Alan estava deitado, descalço, a caneta na mão, marcando no mapa os lugares que
ainda faltavam. O mapa agora tinha tudo: os círculos que eu fizera, a dobra errada dele,
os respingos da chuva, a mancha amarela de gordura, um vinco atravessando a cidade
como cicatriz.

Quando terminei, ele não fez piada.

Só ficou olhando as linhas como se elas fossem um corpo.

— É a gente — ele disse.

— Como assim?
Ele encostou a caneta no papel e puxou um traço curto, como quem desenha um
limite.

Depois outro.

Não eram rotas. Eram intervalos.

A ponta da caneta riscou o papel.

— Aqui tem ar — disse.

Fiquei olhando para o mapa.

— E aqui?

Ele passou a ponta da caneta sobre uma área onde minhas marcações se acumulavam
demais: círculos, setas, horários, nomes, uma pequena ansiedade colorida tentando
impedir que a cidade escapasse.

— Aqui não.

A frase entrou sem violência.

Talvez por isso tenha entrado mais fundo.

Alan largou a caneta.

Puxou meu corpo para junto do dele.


— Agora é perto — disse, encostando o rosto no meu pescoço.

Depois, quase sem voz:

— Mas eu preciso saber que existe ar em volta.

Eu ouvi o coração dele bater devagar, tentando acreditar que medida é coisa que se
aprende.

— Yuǎn-jìn — murmurei.

— Yuǎn-jìn — ele repetiu, errando o tom, mas acertando a ferida.

Naquela noite, chegando ao hotel, veio a fome.

Uma fome simples, sem teoria, humilhante. O corpo, que durante o dia aceitara
paisagem, conceito, réplica e legenda, agora pedia qualquer coisa que não fosse
pensamento. Alan percebeu antes de mim.

— Você tá com fome.

— Não.

— Tá. Seu rosto fica religioso quando mente para o estômago.

— Eu só não queria mais decidir nada.

— Finalmente uma frase honesta.


Viajar para nós era isso: cartografar o excesso e descobrir, no fim, que o corpo é mapa.

O mapa estava ali, aberto sobre a cama: a mancha amarela de gordura num pedaço da
cidade, a dobra torta da briga, os pontos marcados pelo meu medo, o traço curto — o
limite — que ele tinha desenhado com a caneta. Pequim marcada como pele. Nosso
longe-perto rabiscado como sentença doméstica.

Ao lado, no livro que eu não tinha lido, estava o desenho do holandês dobrado em
quatro.

Eu o abri de novo enquanto Alan tomava banho.

A mão dele tinha desenhado melhor do que eu lembrava. Não havia caricatura. Não
havia deboche. Havia cansaço. Havia a mesa estreita. Havia o mapa ferido. Havia dois
corpos separados por poucos centímetros e uma distância que nenhuma cabine
resolvia.

VAI TOMAR NO CU.

A frase, ali, parecia menos ofensa do que fósforo.

Uma palavra errada acesa no lugar certo.

Não tinha nada de extraordinário naquele momento.

E talvez fosse justamente por isso que ficou.

Às vezes, o amor não é cartão-postal.


É baozi ruim, mapa manchado, mãos dormentes debaixo da chuva, uma briga dobrada
no papel, um estrangeiro inconveniente desenhando a distância entre duas mãos, a
fome chegando depois do excesso — e a certeza boba de que, mesmo sem roteiro, por
alguns minutos, a gente sabia exatamente onde queria estar.

Na última manhã, antes de irmos embora, o alarme do relógio tocou.

Bip. Bip. Bip.

Não era o celular. Era o relógio pequeno do criado-mudo, um retângulo preto com
números vermelhos que eu mesmo tinha programado na noite anterior, como se
obedecer ao horário fosse uma forma de atravessar a perda com alguma dignidade.

Bip. Bip. Bip.

Alan ainda dormia de lado, uma perna fora do lençol, o rosto afundado no travesseiro,
a boca entreaberta. O som parecia indecente dentro do quarto. Não alto. Pior: pontual.

Bip. Bip. Bip.

Estendi a mão depressa e apertei um botão.

O alarme parou.

Mas eu continuei ouvindo.

Era isso o que me assustou.

Não havia mais som, e ainda assim alguma coisa dentro de mim continuava marcando
o tempo. O voo estava no relógio, mas também estava na mala aberta, na camiseta de
Alan jogada sobre a cadeira, no passaporte dentro da pochete preta, na conta do hotel
que ainda seria fechada, no futuro exercendo sua função vulgar de chegar.

Apertei outro botão.

Depois outro.

Depois todos.

O relógio piscou.

Bip.

Como se zombasse.

Peguei o objeto com a mão inteira.

Era leve demais.

Quase nada.

Uma caixa plástica, números vermelhos, a arrogância dos mecanismos baratos que
acham que podem anunciar o fim.

Bati o relógio contra o chão.

Uma vez.

Crac.
O plástico abriu.

Alan acordou.

Não se assustou como eu esperava. Apenas abriu os olhos devagar, olhou para o chão,
depois para mim, depois para o relógio quebrado.

— Dan.

Só isso.

Meu nome, sem pergunta.

Essa foi a pior forma de pergunta.

Fiquei com o relógio partido na mão, ridículo, adulto e criança ao mesmo tempo.

— Ele não parava — eu disse.

Alan olhou para a janela ainda escura.

Depois para a mala.

— O voo não estava dentro dele.

A frase me atravessou sem força.


Talvez por isso tenha chegado tão fundo.

Eu tinha quebrado o relógio como quem mata o mensageiro. Mas o tempo não morava
ali. Morava em tudo que eu não podia partir ao meio: o bilhete eletrônico, o
calendário, o corpo de Alan levantando da cama, a toalha jogada no banheiro, o
passaporte, o mês, a manhã.

Alan se sentou devagar.

Passou a mão no rosto.

— Você cortou a mão?

Olhei para os dedos.

Um risco vermelho mínimo atravessava a lateral do polegar.

— Não.

— Isso é sangue, idiota.

Ele levantou, pegou papel no banheiro, molhou, voltou e segurou minha mão sem
solenidade. Limpou o corte com cuidado, irritado e preciso.

— Quebrar relógio não altera fuso — disse.

— Eu sei.

— Não sabe.
— Sei agora.

Ele encostou o papel no meu dedo por mais um segundo.

— Eu ainda estou aqui.

A frase deveria consolar.

Não consolou.

Porque o problema nunca tinha sido apenas onde Alan estava.

Era onde ele já começava a não estar.

Na última manhã, antes de irmos embora, Alan tentou editar alguma coisa.

Não colocou música.

Isso já era uma forma de respeito.

Cortou o excesso. Deixou menos do que teria deixado no Brasil. Deixou Ming falando
da cerca que vira casa. Deixou Hao olhando para baixo antes de falar do namorado
salvo como colega. Deixou Jun sentado antes da dança, camisa preta, corrente fina,
dizendo que sentia falta de não precisar traduzir o corpo. Deixou o velho escrevendo
na água, mas só até a palavra começar a desaparecer. Deixou a pipa de um menino
subir fora de foco. Deixou vapor de hot pot cobrir a tela por tempo demais. Deixou
uma rua iluminada demais para parecer pobre e disciplinada demais para parecer livre.
Deixou a própria mão dele tentando abrir o Instagram e falhando.
A legenda ficou simples:

Longe/perto.

Ele ficou olhando.

— Está chato?

— Está bonito.

— Bonito também pode ser chato.

— Está quieto.

Ele pareceu aceitar.

Não conseguiu postar.

A tela carregou, falhou, girou em falso. Alan tentou outra vez, depois desistiu. O vídeo
existia, mas não circulava. A série estava pronta e presa dentro do aparelho, como uma
carta escrita num idioma que ainda não atravessara a fronteira.

— Vou postar quando sair — disse.

— E até lá?

Ele guardou o celular.

— Até lá, fica comigo.


A frase saiu casual.

Mas eu ouvi o que havia por baixo.

E talvez tenha sido ali, mais do que no rio Li, mais do que no trem, mais do que no
velho escrevendo com água, mais do que na chuva do Templo do Céu, que a China nos
entregou alguma coisa. Não uma lição. Lição teria sido arrogância. Entregou um traço:
a possibilidade de que o afeto não precise sempre se declarar como incêndio para
existir. Às vezes ele se organiza como intervalo, tarefa, presença sem plateia.

Você viu?

Você chegou?

Você comeu?

Você conseguiu ficar sem publicar?

Alan tinha ido procurar conteúdo.

Encontrou presença.

Eu tinha comprado a China para prolongar um mês.

Encontrei uma palavra que não sabia viver.

Voltamos para Salvador com a palavra ainda úmida na boca.


Yuǎn-jìn.

Longe-perto.

Eu achei que a China tivesse nos dado uma medida.

Na verdade, tinha nos dado apenas o nome daquilo que ainda íamos fracassar em
viver.

Os vídeos ficaram no celular de Alan por semanas.

Ele postou parte deles depois, claro. Editou, cortou, legendou, transformou em série,
recebeu comentários, salvamentos, mensagens de gente dizendo que chorou, que
pensou na mãe, que queria ir à China, que não sabia que lá era assim, que Jun era
lindo, que Ming era preciso, que Hao parecia triste, que o velho escrevendo na água
parecia cinema. A internet devolveu a experiência em forma de reação, como sempre
faz: mastigada, repartida, iluminada por corações vermelhos.

Mas havia restos que ele não publicou.

Trechos ruins.

Tremidos.

Longos demais.

Silenciosos demais.

Partes em que a câmera caía para o chão. Um pedaço do meu braço. Uma rua sem
nada acontecendo. A mão dele limpando a lente. Um reflexo nosso no vidro do trem. O
mapa manchado. O desenho do holandês. Jun antes de dançar. Jun depois de dançar. A
tela falhando. A minha voz fora de quadro perguntando se ele estava gravando. A voz
dele respondendo:

— Não sei.

Havia também sons que quase não eram sons.

A taça no hotel.

Tlin.

A mala no corredor.

Tuc-tuc-tuc.

O trem engatando.

Trac.

Alguma coisa batendo no corredor.

Tum.

O celular falhando.

Bip.

A chuva no Templo do Céu.


Pá-pá-pá-pá.

O relógio partindo no último dia.

Crac.

Na época, eu achava que eram detalhes.

Depois entendi que eram a trilha clandestina do fim. A caixa-preta não guarda apenas
imagens. Guarda ruídos.

Antes de qualquer desastre, o mundo range, apita, bate, vibra.

A gente só não sabe ainda que está ouvindo o impacto chegar.

Meses depois, quando eu já não podia perguntar a Alan o que ele tinha visto, usei
aqueles arquivos como caixa-preta.

Abri os vídeos um por um.

Vi a China que eu tinha atravessado sem entender. Não a China inteira — isso seria
indecente —, mas a China que tinha encostado em nós: próspera e vigiada, antiga e
elétrica, disciplinada e contraditória, menos pobre do que meu olhar esperava, mais
ferida do que meu roteiro conseguia registrar. Vi a juventude gay no segundo andar de
um prédio comercial. Vi corpos que sabiam esconder. Vi fábricas entrando na conversa
como avôs. Vi que a distância cultural era real, mas não absoluta. Família, trabalho,
dinheiro, corpo, vergonha, mãe, desejo: tudo mudava de idioma, mas nem tudo
mudava de dor.

Vi também o parque.
A Torre Eiffel falsa sob luz azul. A pirâmide com um cabo preto atravessando a base. A
funcionária tirando o sapato atrás da pilastra. Wei carregando um rolo de fio no ombro,
fazendo a manutenção do mundo. Chen encostando dois dedos na garganta de Alan
para sentir uma frase que não podia ouvir. A falsa Buenos Aires acesa depois do
expediente. Nossos pés errando uma dança importada dentro de uma cidade
cenográfica.

E havia a China no meio: grande demais para virar lição, perto demais para continuar
sendo ideia.

Montei um vídeo que Alan talvez achasse longo.

Talvez dissesse que eu coloquei pensamento demais onde bastava corte.

Talvez risse.

Talvez mandasse tirar dois minutos.

Talvez visse.

Chamei de Yuǎn-Jìn.

Começava com os Alpes, porque a primeira imagem da China não tinha sido chinesa.
Começava com aquilo que ninguém esperava. Depois vinha a cédula de Guilin, as
montanhas desaparecendo no nevoeiro, o homem do mercado organizando raízes
antes dos turistas, o Buda que não sangrava, a caligrafia que não me dizia nada, o velho
escrevendo na água, a barra da boate vazia depois da dança, o lago do Palácio de Verão
desfazendo nosso reflexo, o World Park iluminado em azul, o mapa manchado, o hot
pot fervendo, a mão de Alan tentando postar e falhando.

No fim, deixei um trecho que ele jamais teria usado.


A câmera estava torta. O áudio, ruim. Chovia no Templo do Céu. Por alguns segundos,
não aparecia quase nada além das nossas mãos debaixo da água, vermelhas, geladas,
ridículas. Depois Alan dizia, fora de quadro:

— Agora a gente tem uma memória que ninguém mais vai entender.

E eu, também fora de quadro, ria.

Não coloquei música.

Só deixei a chuva.

Talvez escrever seja isso: voltar ao arquivo depois da queda e descobrir que a caixa-
preta não explica o desastre.

Só prova que, antes do impacto, alguém ainda respirava.

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