Capítulo 4
Capítulo 4
Objeto encontrado: reprodução de urna grega, cena de dois amantes suspensos antes
do beijo. Cerâmica esmaltada. Origem indeterminada. O corpo dele inclinado, a boca
ainda a caminho, a mão quase tocando o rosto dela. A distância preserva o gesto.
Estado de conservação: intacto. Hipótese de curadoria: certas cenas só permanecem
belas porque nunca chegaram a acontecer.
“Bold Lover, never, never canst thou kiss…” — John Keats, Ode on a Grecian Urn
Antes do mar aberto, antes da pousada com café coado em filtro de pano, antes da Via
Láctea caber num copo, houve a floresta.
A Reserva de Sapiranga tinha aquele tipo de calor que não cai do céu: sobe do chão.
Um vapor baixo, vegetal, misturado a cheiro de folha úmida, terra escura, madeira
apodrecendo devagar e alguma coisa doce demais que vinha das flores escondidas. A
mata não era silêncio. Era o contrário: cigarras, vento, estalos mínimos de galhos, bicho
invisível se deslocando entre folhas, água correndo em algum lugar sem se mostrar.
Era desenho.
Fiquei olhando por tempo demais. Talvez porque aquilo me lembrasse a urna grega:
dois amantes suspensos antes do beijo, a boca ainda a caminho, a mão quase tocando
o rosto. Na cerâmica, a distância preservava o gesto. Ali, na floresta, preservava outra
coisa: a luz.
Fenômeno em que árvores vizinhas mantêm fendas entre suas copas, formando canais
de luz no dossel. Entre as hipóteses: abrasão mecânica pelo vento, otimização da luz e
redução da transmissão de pragas.
— Você anda como se a natureza tivesse que te explicar alguma coisa — ele disse.
Eu ri.
A trilha começava larga, quase educada, com placas de madeira, raízes aparentes,
sombra quebrada em manchas claras no chão. Mais adiante, ouvíamos vozes. Um
grupo se preparava para o arborismo: capacetes coloridos, mosquetões, cabos de aço
presos entre plataformas altas. Crianças gritavam sem medo. Adultos riam com aquele
riso de quem já se arrependeu, mas ainda precisa parecer esportivo.
Alan parou.
— Vamos.
— Não.
Eu olhei para cima. Uma mulher atravessava uma ponte de cordas entre duas
plataformas. O corpo dela não avançava em linha reta: corrigia a si mesmo a cada
passo. Um pé, balanço, pausa, outro pé, balanço, riso nervoso. O guia, de baixo,
repetia:
— Não trava. Quem trava balança mais. Deixa o corpo acompanhar o cabo.
A frase ficou em mim antes que eu soubesse o que fazer com ela.
Fizemos.
Ou melhor: ele fez como se tivesse nascido em cima de cabos, e eu fiz como se
estivesse negociando com a morte uma cláusula de tolerância.
— Vem.
— Eu estou indo.
— Para de negociar com o chão, Daniel — Alan gritou. — Ele não está mais aí.
Dei outro passo. A ponte balançou mais. Segurei os cabos laterais com força demais, o
ombro travado, a mandíbula fechada. Quanto mais eu tentava controlar, mais a
estrutura respondia com instabilidade. Era como se o medo tivesse peso próprio e o
cabo, educadamente, devolvesse tudo amplificado.
— Solta um pouco o braço. Dobra o joelho. O equilíbrio não é ficar parado. É corrigir
junto.
Respirei.
Soltei um pouco.
A ponte continuou balançando, mas alguma coisa mudou. Não ficou estável. Eu é que
parei de exigir estabilidade. O corpo encontrou um acordo mínimo com o movimento.
Um passo não anulava o medo; apenas dava ao medo uma direção.
— Ainda.
— Dramático.
Ficamos um segundo ali, entre duas árvores, presos a cabos que não prometiam chão,
apenas travessia.
Mais adiante, havia uma tirolesa curta que descia em direção a uma área aberta perto
do rio. Alan foi primeiro. Não pediu bênção, não fez piada. Só se sentou na cadeirinha,
recebeu o mosquetão, olhou para mim e disse:
E saltou.
O corpo dele atravessou a clareira como uma frase rápida demais. Por um instante,
entre as copas, ele não parecia cair nem voar: parecia suspenso por uma gramática que
eu ainda não conhecia. O cabo cantou. As folhas se moveram. Depois ele chegou do
outro lado rindo, inteiro, irritantemente vivo.
Abri no meio.
A floresta passava por baixo em blocos verdes, mas agora eu reconhecia o desenho.
Havia cortes. Frestas. Canais estreitos de céu entre as copas, como se alguém tivesse
desenhado rios de luz no alto da mata. As árvores cresciam uma em direção à outra e,
no último momento, recuavam. Não se tocavam. Não se invadiam. Deixavam entre si
um espaço preciso — nem grande o bastante para parecer separação, nem pequeno o
bastante para virar contato.
Pousei mal, com pouca elegância e muita sobrevivência. Alan riu. Eu mandei ele se
foder. Ele riu mais.
As copas pareciam um vitral quebrado. Não havia delicadeza ali, exatamente. Havia
inteligência. Cada árvore avançava até o limite do contato e parava antes da ferida.
Entre uma e outra, o céu aparecia em linhas irregulares, quase azuis demais para a
mata fechada.
Pensei que talvez eu tivesse passado a vida confundindo amor com invasão.
Alan jogou a garrafa vazia na mochila.
— Acho.
Ele olhou de novo para cima, rápido, como quem concede ao mundo três segundos de
reverência.
— Se encostar demais, quebra galho. Se ficar longe demais, vira árvore sozinha. Pronto.
Pode transformar em tese.
Transformei.
Mas só depois.
Na hora, caminhei atrás dele em silêncio, ouvindo o som das folhas sem se tocarem.
Na volta da trilha, ainda com barro seco no tênis e cheiro de mato grudado na
camiseta, Alan pediu meu celular.
— Pra quê?
Entreguei.
Ele abriu a câmera, apontou para cima e filmou as copas. Não o céu inteiro. Só as
fendas entre uma árvore e outra, aqueles canais irregulares de luz onde os galhos
quase se encontravam e, no último instante, desistiam.
Depois caminhou dois passos até a base de uma árvore e filmou de novo, olhando de
baixo para cima. As fendas de céu se fecharam. Abriram diferente.
Me devolveu o celular.
Filmei.
Não precisava.
Apagou.
Digitou de novo:
Tem coisa que só aparece quando você para de olhar do mesmo lugar.
— Chato? — perguntou.
— Um pouco.
— Chato com potencial.
Postou.
Não havia aplauso, não havia público, não havia nada além do círculo verde em volta
da foto dele e a floresta reorganizando o céu em silêncio.
Mais tarde, eu pensaria que aquele story era a primeira caixa-preta de Alan.
Não como o gravador, que guardava o ruído antes que alguém pudesse penteá-lo. Não
como a fotografia, que esperava a luz morrer para revelar o que já estava ali. O story
fazia outra coisa: registrava a vontade de ser visto enquanto ainda se fingia
desaparecimento.
Círculo verde.
Alan abriu rápido demais para alguém que dizia não ligar.
Leu.
Tentou guardar o celular sem sorrir.
— Funcionou? — perguntei.
— Não sei.
Ele pensou.
— Quando a pessoa não olha para mim. Olha de novo para o mundo.
Alan me encarou.
— Levíssima.
Seguimos andando.
Acima de nós, as copas continuavam tímidas. Não era ausência entre elas. Era uma
forma de deixar a luz passar sem que uma árvore precisasse vencer a outra.
Algumas vaidades produzem só ruído. Outras, de vez em quando, abrem uma fresta de
céu.
Talvez porque a mata tivesse nos deixado perto demais. Talvez porque o corpo, depois
do medo, procure assunto para não admitir que tremeu. Ou talvez porque certas brigas
já estejam prontas dentro da gente, esperando apenas uma frase pequena o bastante
para parecer inocente.
Eu disse que ansiedade não era opinião. Que havia nome, diagnóstico, literatura
médica, desregulação emocional, circuitos, critérios. Disse isso com a segurança
irritante de quem tenta transformar dor em documento.
Depois falou:
— Você fala da ciência como se ela nunca tivesse errado sobre gente como a gente.
— Carimbo?
— É. Você põe um nome técnico e pronto. A dor vira laudo. A culpa vira sintoma. A
ferida vira argumento.
A trilha ficou estreita. Tão estreita que, para continuar andando, um de nós precisava ir
na frente. Alan foi. A nuca dele, suada, parecia mais ofensiva do que qualquer frase.
— Ciência também chamou homossexualidade de doença — ele disse, sem olhar para
trás. — Também internou, corrigiu, eletrocutou, diagnosticou, normalizou, mutilou.
Mas quando ela te dá uma palavra bonita para você se explicar, aí vira sagrada.
Ele parou.
Virou devagar.
— Cuidado.
— Com o quê?
— Com essa sua mania de chamar de ignorância tudo que não ajoelha para o seu
repertório.
A frase me atingiu.
Então eu fiz o que sempre faço quando me sinto pequeno: subi no primeiro lugar alto
que encontrei.
— E você tem mania de achar profundo qualquer ressentimento contra estudo. Nem
toda crítica à ciência é lucidez. Às vezes é só preguiça com trauma.
Mas há um segundo, nas brigas, em que a gente ainda prefere vencer a voltar.
— Foi. Mas tudo bem. Você é borderline, né? Tem ciência. Tem comprovação. Tem um
passe livre para ferir com bibliografia.
Fiquei gelado.
— Vai se foder.
Uma felicidade feia, pequena, mas real. Feliz porque o silêncio dele me dispensava do
esforço de ser compreendido. Feliz porque, se Alan não falava comigo, também não
podia me corrigir, me tocar no lugar errado, me devolver uma verdade que eu não
tinha pedido. A distância, quando nasce do orgulho, se parece muito com dignidade.
Na pousada, ele ficou de um lado do quarto. Eu, do outro. Não havia parede entre nós,
mas cada gesto fazia uma: a toalha pendurada sem comentário, o copo deixado na pia,
a porta do banheiro fechada com cuidado demais. Alan mexia no celular. Eu fingia ler.
Ele saiu para caminhar. Eu não perguntei para onde.
Achei bom.
Achei justo.
Não era ainda a morte. Era uma piora, uma dessas notícias que chegam sem forma
definitiva, mas já trazem no corpo a sombra do fim. Hospital. Pressão baixa. Confusão.
A voz dela em áudio parecia menor do que eu lembrava, como se tivesse sido gravada
de dentro de um copo.
Depois outra.
Não para resolver. Não para opinar. Não para transformar aquilo em conversa. Só para
que ele soubesse que alguma coisa dentro de mim tinha abaixado a cabeça.
Peguei o celular.
Digitei:
Apaguei.
Digitei:
você tá aí?
Apaguei.
A timidez das copas, naquele instante, não deixava passar luz nenhuma. Era só espaço.
Mais tarde, ele voltou com duas garrafas de água e um pacote de castanha comprado
na recepção. Colocou uma garrafa perto de mim. Não pediu desculpa. Não perguntou
da mensagem. Talvez tivesse visto meu rosto. Talvez eu tivesse envelhecido algumas
horas.
Balancei a cabeça.
Sentou no chão, encostado na cama, longe o suficiente para não me cercar, perto o
suficiente para eu não precisar chamá-lo.
Foi isso.
Comemos em silêncio. O silêncio, dessa vez, era outro. Não a punição da manhã, mas
uma espécie de intervalo habitável. As mesmas árvores que quebrariam se
encostassem demais também morreriam se a luz não passasse entre elas. Talvez a
gente estivesse aprendendo, sem nobreza nenhuma, que diferença não é sempre
ameaça. Às vezes é só o modo como o outro impede que a gente vire uma única versão
de si.
— Eu sei.
Demorei um pouco.
— Eu sei.
Ele me olhou.
— Foi.
— Seu ou meu?
— Dos dois.
— Ótimo. Eficiente.
A briga não terminou com abraço. Algumas brigas não merecem reconciliação
cinematográfica. Terminou com mastigação, água morna e dois homens descobrindo
que não precisavam concordar para continuar ali.
Dessa vez, a distância era ridícula: menos de um metro entre os ombros, talvez quinze
centímetros entre nossas mãos. Ainda assim, cada tela acendia um país separado no
rosto de cada um.
Baixios tinha um silêncio de lugar que ainda não tinha decidido se queria virar destino
turístico ou continuar sendo só vento, areia e água.
A pousada era bonita sem esforço, dessas que vendem “natureza” com roupa de linho
e café coado em filtro de pano. Mas, naquela tarde, a gente não estava vendo nada
disso. Estávamos os dois deitados em espreguiçadeiras, lado a lado e separados por
uma distância ridícula, cada um com o rosto aceso pela própria tela.
Alan deslizava o dedo pelo celular com uma concentração quase devota. Eu também.
A luz azul subia do aparelho e recortava o rosto dele de baixo para cima, deformando
um pouco os traços, como lanterna de acampamento em história de assombração. No
meu colo, o telefone fazia o mesmo comigo. Aquele tipo de claridade que não ilumina:
projeta. A gente não olhava para o mundo; olhava para a parede onde o mundo
passava em sombra.
Entre as árvores, a distância abria céu. Entre nós, os celulares acendiam uma distância
que parecia abrigo, mas era só parede.
— Eu acho que existe um amor que só se sustenta à distância — eu disse, sem tirar os
olhos da tela.
— Piorou.
Ele rolou mais um pouco o feed, depois trancou o celular e o largou no peito como
quem se cansa da superfície.
— Ah, não?
Fiquei quieto um segundo. O calor não diminuía. O mar estava ali perto, mas parecia
mais distante do que devia.
— Eu não amava Rafael do jeito que eu dizia amar — falei. — Eu era viciado na
resposta dele. Na validação. Na humilhação também, talvez. Henrique era outra coisa.
Era campo. Era estrutura. Era uma forma de mundo onde eu achava que, se entrasse
direito, talvez deixasse de ser resto. Mas os dois juntos… os dois juntos foram o meu
mito da caverna.
— Viram porque eram. Eu olhava para eles e achava que estava vendo a vida. Mas
estava vendo projeção. Sombra. Reflexo. Um teatro muito bem iluminado por dinheiro,
beleza, promessa, clínica, futuro.
— Da caverna?
— Da parede. Até onde eu sei, ela só ficou menor e ganhou touch screen.
— Tá vendo? É disso que eu tô falando. Você quer pular do corpo direto pra metafísica.
E a vida não funciona assim.
— Ah, não?
— Não. — Ele pegou o celular de novo, abriu uma foto, me mostrou uma planilha de
treino. — Eu tô montando uma divisão nova. Ombro, costas, posterior. E ajustando a
dieta. Porque, sim, beleza importa. Corpo importa. Saúde importa. Desejo importa. Se
você não se preocupa com isso, não vive amor nenhum no mundo real. Vive conceito.
Eu ri sem humor.
— Você fala dos meus treinos como se fossem alienação — ele disse. — Mas passa
duzentas páginas escrevendo sobre corpo padrão, Vênus, músculo, pele, desejo,
humilhação. A diferença é que eu abro planilha. Você abre referência.
— Claro que não. O meu é supino. O seu é sublimação. Muito mais elegante.
— Você está abrindo nota de rodapé para não admitir que achava os dois gostosos —
ele completou.
— Alan.
— O quê? Quer que eu diga “desejáveis dentro de uma economia simbólica do corpo
padrão”?
— Você é impossível.
A frase me desarmou por meio segundo. Alan tinha esse talento irritante: transformava
uma defesa em piada antes que a ferida aparecesse inteira.
— Você quer saber? — ele disse. — Esse papo de “amar é consentir na distância”
também é defesa. É bonito dizer isso quando o outro já escolheu outro continente,
outro homem, outra estrutura. Quero ver dizer isso com alguém vivo na sua frente.
Aí o Wi-Fi caiu.
Não poeticamente. Caiu mesmo. O sinal sumiu, a bolinha girou, as mensagens pararam
no meio da frase, o mundo digital recolheu as próprias tendas e foi embora como um
garçom mal-humorado no fim do expediente.
A parede apagou.
Foi ridículo. E foi revelador. Sem a projeção, Baixios ficou constrangedoramente inteiro:
vento, maresia, cadeira rangendo, funcionário empilhando copos, uma criança
chorando ao longe, o mar existindo sem precisar ser publicado.
Eu também.
Eu olhei para o meu próprio reflexo escuro na tela e, pela primeira vez naquela tarde, vi
a cena de fora.
Dois homens adultos no litoral norte da Bahia, diante de uma paisagem imensa,
respirando vento e maresia, presos cada um a uma parede luminosa do tamanho da
mão.
Alan ficou olhando para o aparelho apagado por alguns segundos a mais do que o
necessário. A tela escura devolvia o rosto dele com manchas de dedo, sal seco,
gordura, poeira fina. Havia uma sujeira pequena perto da borda, um ponto escuro que
se deslocava conforme ele inclinava o telefone.
Fiquei quieto.
Havia alguns meses ele tinha sido demitido do escritório. Não dizia assim. Dizia que
estava “em transição”, “fazendo uns projetos soltos”, “repensando a forma de
trabalhar”. Na prática, vivia de bicos: uma planta humanizada para um conhecido, uma
consultoria de reforma que ninguém pagava direito, um orçamento que virava favor
antes de virar contrato. O presente, para Alan, tinha ficado sem piso. Talvez por isso ele
passasse tanto tempo na tela. Ali, pelo menos, ainda podia enquadrar alguma coisa.
Foi nesse vazio que a palavra influencer começou a parecer menos ridícula. Não como
profissão assumida — Alan ainda tinha pudor de dizer isso em voz alta —, mas como
hipótese de sobrevivência. Se ninguém o contratava para desenhar espaços, talvez
pudesse desenhar modos de olhar. Se o escritório tinha fechado a porta, o algoritmo
oferecia uma janela. Suja, instável, humilhante, mas ainda assim uma janela.
— Desculpa — eu disse.
— Pelo quê?
— Pelo tom.
Eu ri.
— Disso o quê?
— De postar.
— Qual sentido?
— Fazer alguém ver diferente. Não vender whey, sunga e planner.
— Mas se pagarem?
Ele me olhou.
— Eu postei aquele negócio das copas e três pessoas responderam — ele disse.
— Três?
— Quatro, se contar uma reação de foguinho. Mas reação de foguinho não é resposta,
é reflexo condicionado.
— Claro.
Ele passou o dedo pela tela suja, como se alisasse uma superfície que se recusava a
obedecer.
— Uma pessoa disse que nunca tinha reparado nisso nas árvores.
— Você gostou.
— Gostei.
— Muito.
A frase tinha menos vaidade do que eu esperava. Ou talvez tivesse uma vaidade mais
difícil de julgar, porque vinha misturada com medo.
— Sem internet.
Ele abriu.
A imagem das copas apareceu congelada, cortada pelo círculo verde, com a frase em
branco sobre o céu entre as folhas:
Tem coisa que só aparece quando você para de olhar do mesmo lugar.
Alan ampliou a imagem com dois dedos. As copas se afastaram ainda mais. Fez o gesto
contrário, e os galhos voltaram a quase se tocar. Na mata, as árvores tinham deixado a
luz passar sem obedecer a ninguém. No celular, a timidez delas obedecia ao polegar
dele.
— Engraçado — eu disse.
— O quê?
— Na floresta, a distância era uma coisa viva. Aqui, vira gesto de pinça.
Não respondi.
A tela estava mais suja do que eu tinha percebido. Manchas de dedo, sal, um risco
curto perto do canto, um ponto escuro quase no centro. Alan passou para o vídeo
seguinte, uma foto que ele tinha feito de mim sem eu notar, sentado na
espreguiçadeira, o rosto meio virado para o lado, a luz azul do celular subindo do meu
colo.
— O quê?
— Não. Na foto.
— Ficou bonito.
O sinal desapareceu.
Ele abriu a boca para fazer uma piada, mas não fez.
Pela primeira vez naquela tarde, pareceu constrangido não por ter errado, mas por ter
elogiado com sinceridade uma coisa que não existia.
— Desculpa — disse.
— Pelo quê?
Ele demorou um pouco.
Não respondi.
A pousada continuava ali, bonita demais para a nossa incompetência. O vento mexia as
folhas de uma palmeira perto do deck. Algum funcionário empilhava cadeiras ao longe.
A realidade inteira, sem Wi-Fi, insistia em permanecer.
Alan levantou, guardou o celular no bolso do short e fez um gesto largo com o braço,
irritado e bonito ao mesmo tempo.
— Então vamos ver a realidade, porra. Viemos aqui pra isso. Vamos pra Lagoa Azul.
A vila tinha aquele tipo de movimento pequeno que parece menor do que é. Gente
comprando gelo, menino passando de bicicleta, uma mulher arrumando o cabelo no
vidro escuro de uma farmácia, o calor grudando o mundo em si mesmo.
Na porta, um homem de boné e sandália havaiana falava alto com a atendente, não
porque fosse mal-educado, mas porque o sonho exige volume.
— Quando eu ganhar, primeiro vou quitar a casa de minha mãe — dizia ele, contando
nos dedos. — Depois compro um carro. Depois boto meu filho num colégio bom.
Depois faço uma viagem. Depois eu sumo uns seis meses. Desligo tudo. Ninguém me
acha.
A mulher do caixa sorria com um cansaço antigo. Já devia ter ouvido a mesma lista em
mil versões. Ainda assim, escutava.
Alan parou.
Eu também.
O homem ainda não tinha ganhado nada, mas já estava habitando o depois como se o
depois fosse um imóvel prestes a ser entregue.
— O quê?
— O sonho movendo o corpo. Olha a cara dele. Ele já está vivendo um pedaço.
Fiquei olhando o homem guardar o comprovante com o cuidado de quem dobra uma
oração.
— Meu pai faz isso — eu disse. — Escreve listas do que vai fazer se ganhar na mega-
sena.
Alan sorriu.
Eu ri contra a vontade.
— Não estraga.
Seguimos andando.
Na padaria, a luz era fria e honesta. O cheiro de pão recente tentava convencer todo
mundo de que a vida ainda tinha conserto. Pedi doze pães por impulso — ou por fome
de alguma coisa que não era pão.
Ao meu lado, um senhor idoso segurava apenas um pão francês num guardanapo de
papel. A outra mão estava vazia, mas repetia no ar um gesto acostumado, como se
ainda segurasse uma coleira invisível, como se ainda precisasse lembrar ao próprio
corpo que havia outra presença no mundo.
Reconheci o rosto dele. Todo dia eu via aquele homem com uma cachorrinha pequena
de laço vermelho, os dois atravessando a praça num acordo silencioso de
sobrevivência.
Ele respirou fundo antes de responder, como quem passa a lembrança por uma peneira
fina para não se cortar.
— A gente aprende um truque velho. Não pergunta “por quê” todo dia. Porque se
perguntar, enlouquece. A gente só… vai.
Passou o polegar devagar pelo miolo do pão, num gesto que doeu mais do que devia.
— O duro não é a falta. É o costume. Eu ainda parto o pão no meio. Ainda olho pro
chão antes de pisar. Ainda espero o barulho da coleira quando abro a porta. A gente
não perde só quem se vai. A gente perde os gestos. E demora mais pra desaprender o
corpo do que pra aceitar a ausência.
Olhei para o volume ridículo nas minhas mãos. Não era fome. Era tentativa de tampar
o buraco com farinha.
Respirei.
Eu tinha passado a tarde falando de sombras. Mas, sem a parede acesa na mão,
alguma coisa começava a devolver peso ao mundo: o homem da lotérica sonhando em
voz alta, o velho reaprendendo a comprar pão para um, o braço de Alan encostando no
meu sem transformar cuidado em declaração.
A trilha para a Lagoa Azul começava com uma cerca baixa de arame, dessas
improvisadas para fingir limite onde o desejo de passagem já venceu faz tempo.
— Como assim?
— Eu sei.
Silêncio.
Depois apoiou os cotovelos nos joelhos e ficou olhando para a lagoa como se a
resposta estivesse do outro lado.
— Meu pai tinha mania de prometer — disse por fim. — Prometia tudo. Que ia dar um
jeito. Que não ia deixar faltar. Que, se precisasse, segurava minha mão e me levava até
o fim. — Engoliu seco. — Aí morreu e largou minha mão no meio.
Era uma frase lisa, quase sem enfeite, e justamente por isso funda.
— Desde então — ele continuou — eu tenho medo de confiar nas pessoas. Medo de
entregar peso. Medo de acreditar que alguém vai ficar até o fim quando diz que vai.
Porque eu já ouvi isso antes. E não adiantou nada.
Olhei para a mão dele — a mesma que eu tinha segurado na plataforma, a mesma que
eu tinha segurado no ar antes de aprender que equilíbrio não é parar.
— Então por isso você fala tanto de corpo — eu disse. — De treino, dieta, superfície,
controle.
— É só pular.
Ele riu, apoiou a mão no mourão, ergueu a perna — e prendeu o short numa ponta de
arame torta. O corpo dele perdeu o equilíbrio por um segundo. Não chegou a cair, mas
ficou ali, numa posição absurda, metade atleta, metade bicho enganchado.
Alan desceu do arame devagar, ainda segurando minha mão com força demais para ser
só equilíbrio.
Continuamos andando em silêncio. A trilha era curta. O mato dos dois lados fazia um
som seco, de coisa viva roçando em coisa viva.
Quando a lagoa apareceu, azul demais para ser crível, Alan parou.
Eu sabia, em teoria, que olhos claros fazem isso — castanho virando mel, mel virando
verde, verde inventando âmbar conforme a luz decide. Mas ali não era teoria. Era
revelação material. No sol da tarde, os olhos de Alan tinham uma borda dourada que
eu jamais tinha percebido. Como se eu tivesse convivido com um rosto inteiro olhando
só o resumo.
— Seus olhos.
— O que tem?
— Mudam de cor.
Alan riu pelo nariz, meio sem graça.
Não respondi.
A tela tinha apagado havia pouco, mas talvez eu ainda estivesse saindo dela.
Sentamos perto da água. Eu fiquei algum tempo olhando a superfície falsa de tão azul.
Alan arrancou um capim do chão e ficou partindo em pedaços iguais, sem pressa.
Henrique. Rafael. Clínica. Turmalina. Distrato. Volta. Fica. Desculpa. Eu não sabia. Eu
sabia. Eu ainda—
Escrevi de novo.
amor
A água levou.
desculpa
A água levou.
volta
A água levou.
Escrevi então:
medo
MEDO
— Talvez eu tenha vivido tempo demais vendo sombra — eu falei. — E chamando isso
de visão.
— E talvez eu tenha vivido tempo demais achando que corpo resolve tudo.
— Resolve?
Aquilo era quase uma desculpa. Quase uma verdade. Quase carinho.
Ficamos os dois vendo a água fazer o trabalho que a linguagem não faz: apagar sem
consolar.
Na volta para a pousada, já de noite, quase não falamos. O escuro vinha devagar sobre
Baixios, e a estrada parecia menor do que na ida. Alan caminhava ao meu lado com
aquela quietude rara que nele não parecia paz, mas suspensão. Eu ainda sentia a
palavra medo presa na mão, como se tivesse escrito forte demais e a areia tivesse
devolvido parte dela para dentro de mim.
Mais tarde, deitados no deck da pousada, sem luz elétrica por perto, o céu apareceu
inteiro.
Cada um de nós segurava um copo. Não lembro se era água, vinho ou só gelo
derretido. Lembro da superfície tremendo.
— Olha isso.
A Via Láctea apareceu refletida no vidro, líquida, torta, repartida em ondas mínimas
pelo movimento da minha mão. O céu inteiro coube ali dentro por um segundo — uma
poeira branca, um excesso domesticado por um círculo pequeno demais para ele.
Alan sorriu.
— Memória é isso — ele continuou. — Uma coisa grande demais pra ser vivida inteira,
mas que cabe num detalhe. Num cheiro. Numa música. Numa frase idiota que alguém
disse num carro.
Fiquei olhando a luz no copo.
— Quase todas.
Silêncio.
— Amar Rafael agora é isso pra mim — falei, antes de pensar melhor. — Ou Henrique.
Ou os dois. Não sei mais separar. Ver uma estrela que talvez já tenha morrido e,
mesmo assim, continuar recebendo a luz.
— Eles ainda chegam — eu continuei. — Como luz atrasada. Como coisa que já acabou
no corpo, mas continua acontecendo no olho. Talvez eu tenha chamado isso de amor
porque era mais bonito do que chamar de atraso.
— Também.
— Bonito.
— Um pouco.
— Por quê?
— Porque estrela morta não te contradiz. Não chega atrasada. Não manda foto sem
legenda. Não beija outro cara na sua frente. Não aparece na sua casa de manhã e
depois some uma semana. Estrela morta é fácil amar, Daniel. Difícil é amar quem ainda
pode ir embora.
Não respondi.
Alan apontou com o fundo do copo para uma parte do céu que eu não saberia nomear.
— Tem estrela que não vive sozinha. Sistema binário. Duas estrelas presas uma à outra,
orbitando o mesmo centro.
— Romântico.
— Nem tanto. Se chegam perto demais, arrancam matéria uma da outra. Ou
explodem.
— Sério?
— Sério. Tem sistema que só continua brilhando porque mantém a distância exata.
Nem longe demais. Nem perto demais.
— Às vezes é física.
Ficamos em silêncio.
Lá em cima, a luz seguia vindo de coisas talvez já extintas. Ainda assim vinha.
— Não é pouca coisa — Alan falou baixo. — Continuar aceso sem destruir o outro.
A frase ficou.
E eu senti, sem saber ainda, que ela tinha aberto uma porta — não para Henrique, não
para Rafael, não para as estrelas mortas do meu passado, mas para o homem vivo
deitado ao meu lado, segurando um copo, rindo da minha metafísica e me devolvendo,
sem piedade, ao corpo.
Alan ficou sentado ao meu lado, quieto, sem fazer daquela dor uma piada ou uma
psicologia barata. A televisão iluminava o quarto com aquele azul de fim de mundo.
— E com razão.
— Não sei.
— Talvez.
— Não talvez. É.
Alan me olhou.
— Você fala isso porque queria que todo mundo escolhesse o Jack.
A tela já estava escura, mas o azul continuava no quarto como se a imagem tivesse
deixado resíduo.
— Talvez tenha durado porque eles nunca desceram de verdade — eu disse. — Porque
ficaram presos no quase. Como os amantes da urna. A boca chegando, a mão quase
tocando, o beijo que não acontece e por isso não envelhece.
— Não é?
— Você pega o que não aconteceu direito e deixa suspenso na frase. Aí ninguém toca
mais. Ninguém estraga. Ninguém te contradiz.
— Isso é injusto.
— É?
— Preservar um amor no único lugar onde ele foi absoluto também pode ser uma
forma de matá-lo — eu disse.
— Então o quê? A gente deixa tudo no alto da montanha para não sujar?
Ficamos em silêncio.
Do lado de fora, alguma coisa batia no vidro — vento, galho, inseto. O ar-condicionado
zumbia baixo, tentando congelar um quarto que não precisava de frio.
— Eu não estou defendendo o Ennis — Alan disse, mais baixo. — Só acho que às vezes
a pessoa sabe que não tem corpo para a planície.
— Ou quebra.
— Ou quebra.
— O Jack queria viver — Alan disse. — Esse é sempre o papel mais arriscado.
— E o Ennis?
Alan demorou.
— O Ennis queria que o amor continuasse puro porque não sabia sobreviver a ele sujo.
— Eu sei.
— Porque eu entendo.
— Entende o quê?
— A vontade de guardar uma coisa no único lugar onde ela não te pede nada.
Não respondi.
Ele desligou a televisão. A tela preta devolveu nosso reflexo: dois corpos sentados na
cama, próximos demais para fingir distância, distantes demais para chamar aquilo de
começo.
— Estava?
Não nos beijamos não porque não houvesse vontade, mas porque a vontade, naquela
noite, tinha ficado grande demais para caber no gesto. Qualquer avanço pareceria
empurrar a cena para fora do lugar onde ela ainda podia respirar. Alan estava deitado
de costas, um braço sobre os olhos, o peito subindo devagar. Eu estava ao lado dele,
imóvel, ouvindo o ar-condicionado trabalhar contra o calor como se tentasse conservar
um corpo que ainda não sabia se queria arder.
Dormimos assim.
Ou quase dormimos.
Porque dormir de mãos dadas com alguém que você deseja e não toca é uma forma
estranha de vigília.
Pensei em Henrique e Rafael como dois astros já fora do alcance, ainda emitindo luz
sobre uma parte de mim que demoraria a escurecer.
Possível.
Impossível.
Alan bebeu.
Não pensei nele naquela manhã. Não de início. Pensei em Alan, na mensagem fora de
horário, na sacola pequena demais para qualquer ideia de permanência, no modo
como ele segurava a xícara com as duas mãos sem estar com frio.
Só fui lembrar do meu avô dias depois, quando encontramos o livro no fundo de uma
caixa e Alan perguntou por que eu tinha ficado tão quieto.
Três semanas depois de Baixios, Alan me mandou uma mensagem às onze da manhã
de uma segunda-feira.
“Você tá em casa?”
Eu estava.
Ele chegou com uma sacola pequena — pequena demais para qualquer ideia de
permanência — e um sorriso que não era alegria nem tristeza. Era decisão.
Eu fiz café.
A luz da manhã entrava limpa pela janela, sem esforço, sem filtro. Foi ali que eu vi de
novo: os olhos dele não eram exatamente verdes. Eram outra coisa. Um verde mais
claro, quase lavado, como se a cor tivesse sido diluída durante a noite.
Menos brilho.
Mais verdade.
Ele segurava a xícara com as duas mãos, mas não por frio. Era contenção. Como se o
corpo estivesse aprendendo um novo limite e ainda não confiasse nele.
— Eu perdi Felipe. Rafael e Henrique nunca foram meus. Eles eram só uma casa onde
eu bati na porta errada por anos.
A frase não veio como competição de tragédia. Veio como quem coloca uma pedra ao
lado da outra para ver se as duas ainda afundam.
— Eu sei.
— E a gente? — perguntei.
— A gente o quê?
— E agora?
— Agora eu estou.
Alan sorriu de lado. O velho sorriso. Mas havia menos fuga nele. Ou eu quis acreditar
que havia.
— Um mês.
— Um mês?
— Um mês. Sem sumir. Sem “depois eu vejo”. Sem sair pela janela emocional.
— Isso existe?
Rubens entrou depois, como se já morasse ali. Farejou a porta, a cadeira, minha perna,
a cozinha. Depois escolheu o canto ao lado do sofá e deitou com a autoridade de quem
funda um país.
Alan ficou.
Ele fez café forte demais. Reclamou do meu filtro. Organizou a prateleira de copos sem
pedir licença. Esqueceu uma cueca molhada no box. Brigou com Rubens porque ele
roeu o canto do tapete. Dormiu de lado, de costas para mim, mas com o pé encostando
no meu tornozelo como se deixasse ali uma prova mínima de presença.
Um calor pequeno.
Quase nada.
Na segunda noite, assistimos qualquer coisa ruim e não terminamos. Ele dormiu antes
do final, o rosto iluminado pela televisão, Rubens enfiado entre nós dois como uma
vírgula quente.
Na terceira, Alan comprou pão, queijo e uma garrafa de vinho barato.
Foi a coisa mais próxima de promessa que ele conseguia dizer sem adoecer.
Alan treinava cedo. Voltava suado, vivo, irritantemente belo. Entrava no banho
cantando errado. Deixava o celular sobre a mesa com a tela virada para baixo. Eu fingia
que não via. Ele fingia que não percebia que eu via.
Às vezes, depois do banho, ficava dez minutos parado perto da janela filmando a luz na
parede, o vapor saindo do próprio ombro, Rubens dormindo atravessado no tapete.
— Não é o café.
— É o quê?
Desde que saíra do escritório, Alan media tudo como quem procurava um lugar onde
ainda coubesse: a parede vazia, a luz entrando torta, o vão entre o sofá e a janela, o
próprio corpo dentro da casa. Não falava em desemprego naquela manhã. Falava em
estante. Talvez porque uma estante fosse mais fácil de erguer do que uma vida.
A câmera, naquele mês, deixou de ser vitrine e virou trena. Alan filmava encaixes,
sombras, objetos fora do lugar, como se precisasse provar — talvez para os outros,
talvez para si — que ainda sabia construir alguma coisa.
— Insônia? — eu perguntava.
— Inventário.
— De quê?
Eu não ria.
Havia carinho. Havia desejo. Havia uma espécie de esperança de baixa voltagem,
dessas que não iluminam a casa inteira, mas impedem o escuro de vencer por
completo.
No quinto dia, Alan parou no meio da sala e ficou olhando para uma parede vazia.
— Está faltando uma estante aí.
Olhei.
Tinha um retângulo mais claro na tinta — uma área de parede que o sol nunca
alcançava porque sempre havia algo na frente. O objeto anterior eu já não lembrava
mais. Ou lembrava e fingia que não.
No canto da sala, havia caixas de livros empilhadas havia tempo demais. Algumas eu
evitava abrir. Outras eu fingia ter esquecido. Livro guardado em caixa parece memória
sem ar.
Não respondi porque as duas coisas eram verdade, em ordem diferente dependendo
de como se contasse.
Fomos juntos à loja numa sexta de manhã com aquela luz de Salvador que não
pergunta se você quer: só entra.
Na foto do mostruário, a estante parecia menos um móvel do que uma ideia de futuro:
livros alinhados por altura, uma planta caindo do nicho superior como se a natureza
também soubesse obedecer, molduras discretas, uma vela acesa sem risco de incendiar
nada.
Alan olhou a foto por um segundo.
— Eu sei.
— E vai?
— Não.
Alan riu. Breve. O tipo de riso que ele soltava quando alguma coisa era honesta demais
para não reconhecer.
Eu paguei. Ele não comentou, não protestou, não fez o gesto do bolso. Havia entre nós,
naquele período, uma economia doméstica silenciosa que nenhum dos dois havia
nomeado: ele comprava pão, eu pagava a estante; ele fazia café, eu lavava as xícaras;
ele trazia Rubens, eu aceitava os pelos no sofá. Nenhum desses gestos precisava de
contabilidade para fazer sentido.
No elevador do estacionamento, a caixa encostada na parede entre nós dois, ele disse:
— Você monta essas coisas sozinho geralmente?
— Geralmente não monto. Geralmente alguém monta e depois vai embora e a estante
fica.
O elevador abriu.
Em casa, abrimos a embalagem no chão da sala. As tábuas vieram separadas por folhas
finas de papel áspero, e o cheiro do MDF recém-cortado subiu no ar — madeira sem
passado, sem árvore, sem nada anterior a si mesma.
A pergunta não veio com crueldade. Veio com aquela curiosidade direta que ele tinha
às vezes — a do homem que quer saber se a estrutura aguenta antes de decidir o peso
que vai colocar.
— Tento — eu disse.
— E adianta?
Antes de começar, Alan apoiou o celular contra uma pilha de livros e ativou a câmera.
— Vou.
— A montagem da estante?
— Principalmente a montagem.
— A estante pronta não é melhor?
Ele olhou para as tábuas espalhadas no chão, os parafusos ainda dentro do saquinho, a
chave Allen mínima demais para inspirar qualquer confiança.
Ele ajustou o enquadramento. No celular, a sala parecia menor, mais organizada, quase
bonita: Rubens farejando as tábuas, a luz batendo no MDF, minha mão segurando o
manual como se aquilo fosse uma escritura sagrada.
— E se ficar torta?
O celular ficou ali, deitado contra um volume grosso, registrando nossas pernas
cruzadas no chão, os parafusos espalhados, a chave Allen minúscula, Rubens farejando
as tábuas como se investigasse um crime. De vez em quando, Alan interrompia a
montagem para corrigir o enquadramento.
— As duas coisas.
— Isso é trabalho?
Ele não respondeu de imediato. Apertou um parafuso, testou a firmeza da peça, depois
olhou para mim.
— Pode ser.
A tela, para Alan, não era fuga naquele momento. Era uma segunda planta baixa: um
lugar onde ele tentava desenhar uma vida que ainda não se sustentava fora dela.
Por um segundo ridiculamente doméstico, foi isso o amor: dois homens procurando
uma peça mínima no escuro para que uma coisa pudesse ficar de pé.
Quando encontrou o parafuso, Alan o segurou entre os dedos por um momento,
olhando.
Ou talvez estivesse.
Às vezes, com Alan, as duas coisas aconteciam ao mesmo tempo e eu nunca sabia se
era brincadeira ou confissão.
Uma hora depois, a estrutura começou a surgir. Base. Laterais. Travessa. As divisórias
internas. A estante ainda deitada no chão tinha a fragilidade provisória de tudo que
ainda não foi testado pelo peso real.
— Tá entrando torto.
— Não tá.
— Alan.
Ele tentou corrigir. Não foi suficiente. A divisória entrou um centímetro fora do eixo —
quase nada, no papel talvez nem aparecesse, mas eu via, e sabia que veria para
sempre, toda vez que passasse pela sala.
Alan olhou para mim. Eu olhei para a peça. Nenhuma rachadura visível — só a suspeita
de que alguma coisa tinha cedido por dentro e seguiria invisível até começar a pesar.
Eu assenti.
Às vezes, quando queremos muito que uma coisa dê certo, chamamos de detalhe o
que mais tarde vai determinar a inclinação de tudo.
Alan tinha trazido duas cervejas da geladeira sem perguntar. Me entregou uma.
Ficamos em silêncio por um tempo que não pedia preenchimento.
Do chão, a sala parecia outra — maior, mais estranha, cheia de pó fino e papel rasgado
e a estante ainda sem dignidade de objeto.
Alan pensou. Não o tipo de pensar que está só ganhando tempo. O tipo que está
procurando a resposta certa numa gaveta que raramente abre.
— O que aconteceu?
— Eu.
Bebeu um gole.
— Eu aconteci.
A resposta era simples e completa ao mesmo tempo, do jeito que as coisas verdadeiras
são simples e completas.
— Eu não acreditava.
Pausa.
— E agora?
Alan olhou para a estante deitada no chão. Para as ferragens espalhadas. Para a chave
Allen minúscula entre nós.
— Agora acho que o problema não era acreditar. Era não saber que tipo de coisa eu
conseguia sustentar.
O sol havia mudado de ângulo e batia diferente na parede — no retângulo claro onde a
estante ia ficar, naquela marca de tinta que o tempo anterior havia protegido sem
querer.
Não sorriu.
— E se não aguentar?
— A gente descobre.
— Pronto.
No nicho de baixo, os livros maiores. Alan escolhia os títulos com uma atenção que eu
não esperava — não por ordem, não por cor, mas por peso.
— Não. Isso é óbvio. O problema de vocês, intelectuais, é achar que tudo precisa de
citação.
— Se colocar tudo no alto, pende. Se colocar tudo num lado só, torce. Se fingir que a
prateleira aguenta mais do que aguenta, uma hora ela abre.
Estava no fundo de uma caixa antiga, entre álbuns de fotografia, contas vencidas, um
catálogo de exposição e duas molduras sem vidro. A capa estava gasta, a lombada meio
descolada no alto, com uma mancha amarelada perto do nome de Schopenhauer. Abri
sem pensar.
Havia marcas minhas nas páginas. Riscos tortos. Uma exclamação na margem. Uma
dobra pequena no canto exato onde começava o dilema do porco-espinho.
Alan percebeu.
— Que foi?
Não digo isso como metáfora. Ele escrevia. Tinha cadernos, fichas, frases soltas em
papéis dobrados, uma caligrafia ligeiramente inclinada para a frente, como se a mão
chegasse antes do corpo. Durante anos, achei que pensamento fosse isso: uma pessoa
sentada diante de uma mesa, tentando impedir que o mundo se desfizesse em partes
soltas.
Não sei se era cuidado, negação ou vaidade. Talvez as três coisas. Eu lia como quem
segura uma porta aberta com o pé. Como se, enquanto uma frase atravessasse o
quarto, alguma parte dele continuasse obrigada a permanecer. Como se o pensamento
dos outros pudesse escorar o pensamento dele, impedir que tudo dentro daquela
cabeça cedesse de uma vez.
Ele ficava na poltrona, cobertor sobre os joelhos, os olhos às vezes atentos, às vezes
perdidos numa zona onde eu já não conseguia alcançá-lo. Eu lia Platão, Nietzsche,
Schopenhauer — nomes que talvez ele ainda reconhecesse, talvez não. Às vezes ele
sorria no lugar errado. Às vezes fechava os olhos. Às vezes dizia:
— Repete.
E eu repetia.
Mas porque repetir era uma forma de mantê-lo mais um pouco comigo.
Numa noite fria, porcos-espinhos se aproximam para dividir calor. Chegam perto
demais e se ferem com os espinhos. Afastam-se e voltam a sentir frio. Aproximam-se
de novo, ferem-se de novo. Até encontrarem uma distância intermediária: perto o
bastante para não congelar, longe o bastante para não se destruir.
Meu avô ficou quieto.
Mas, depois de um tempo, levantou a mão devagar e tocou o próprio braço, como se
procurasse nele os espinhos.
Depois entendi que talvez fosse uma das definições mais honestas de amor.
— O dos porcos-espinhos?
— É.
Ele pegou o volume da minha mão, pesou um pouco e colocou no nicho de baixo, entre
dois livros maiores.
— Por quê?
Fiquei olhando.
O pensamento do meu avô, que eu tentei manter vivo lendo em voz alta para um
homem que já desaparecia, agora ajudava uma estante torta a ficar de pé.
Num nicho ao lado, Alan colocou o livro que tinha trazido e provavelmente não leria.
Colocou sem cerimônia entre dois dos meus, como se isso não fosse uma declaração.
Uma planta pequena que eu tinha matado três vezes e comprado pela quarta — ele a
colocou no nicho de cima com a paciência de quem sabe que algumas coisas precisam
de posição certa antes de merecer água.
Uma vela. Uma pedra que eu trouxera de uma praia cujo nome já não lembrava. A
coleira antiga de Rubens, que Alan tirou da sacola e deixou enrolada num nicho baixo,
ao alcance do próprio Rubens, que cheirou, aprovou e voltou a deitar.
Não era a melhor foto. Era a única que tínhamos dos dois — tirada em Sapiranga por
alguém da equipe da tirolesa, sem que nenhum de nós tivesse pedido, o tipo de
imagem que existe porque alguém olhou de fora e achou que merecia existir.
Nós aparecíamos com capacetes ridículos, o rosto suado, a floresta atrás. Alan ria. Eu
tentava parecer menos assustado do que estava. Entre nossas cabeças, no fundo da
imagem, as copas deixavam uma fenda irregular de céu.
Alan segurou a foto por um momento antes de colocar. Olhou para a imagem. Depois
para mim. Depois para a imagem de novo.
— Onde?
Ele assentiu.
A fotografia ficou ligeiramente em desnível. Quase nada. O suficiente para que os dois
rostos pendessem discretamente para a esquerda, como se a felicidade precisasse de
um pequeno esforço para continuar parecendo reta.
Alan foi à cozinha. Voltou com um fósforo apagado, depois um papel dobrado, depois
um pedaço de papelão recortado da própria caixa da estante. Pequenos calços.
Correções invisíveis para que a imagem se sustentasse melhor.
Quase.
De perto, eu ainda via o erro: o calço improvisado, a peça forçada, a inclinação mínima
que nenhum visitante notaria. De longe, a estante parecia pronta. Talvez fosse isso que
eu ainda não soubesse fazer com Alan — não colar o rosto na falha, não recuar até
transformar tudo em paisagem. Encontrar uma distância em que a coisa pudesse ser
vista sem ser desmentida.
Pensei no meu avô tocando o próprio braço depois que eu li sobre os porcos-espinhos.
Talvez ele não tivesse entendido Schopenhauer. Talvez tivesse entendido melhor do
que eu. O corpo às vezes aprende antes da cabeça: perto demais machuca; longe
demais esfria; viver é encontrar uma medida que não existe no manual.
— Qual?
Ele me mostrou.
— É sobre o quê?
— Eu melhorei.
— Você roubou.
Três pessoas responderam. Uma perguntou onde ele tinha comprado a estante. Outra
disse que precisava montar a própria vida. A terceira mandou um emoji de porco-
espinho, sem saber de nada.
Ele deu um passo atrás. Inclinou a cabeça como fazia quando procurava no próprio
corpo o erro que o treino ainda não tinha corrigido.
Olhei para a foto. Para a estante. Para o nicho que já nascera com uma inclinação que o
peso só tornaria mais nítida com o tempo.
— Dá — eu disse.
Sem música.
Sem exagero.
Rubens levantou a cabeça no tapete, como se tivesse ouvido seu nome dentro de uma
língua anterior aos humanos. Depois bocejou e voltou a dormir.
Alan pegou a cerveja no chão, tomou o último gole e se sentou no sofá. O corpo dele
ocupava a sala de um jeito novo. Não como invasão. Como teste de presença. A cueca
molhada no box, o carregador na tomada, o livro na estante, a coleira de Rubens no
nicho de baixo — nada daquilo era permanência. Ainda não.
Era montagem.
É sequência.
Cavilha, parafuso, peso, ajuste. Uma peça que entra torta. Um calço invisível. Um
objeto frágil colocado com cuidado. Uma fotografia quase reta. Um mês dito em voz
alta, com a honestidade limitada das coisas que não prometem mais do que
conseguem sustentar.
Alan deitou de costas. Eu deitei de lado. O pé dele encostou no meu tornozelo, de leve.
Um mês. Duas camisetas. Uma coleira no nicho de baixo. Um livro que talvez ele não
lesse. Um pé encostado no meu durante a noite.
Azul ultramar. Pigmento extraído da lápis-lazúli, pedra trazida por séculos das
montanhas do Afeganistão. Mais caro que ouro em certas oficinas europeias. No
afresco, a cor não repousa sobre o muro: entra no gesso ainda úmido e seca com ele.
Depois de fixada, já não é possível separar a cor da parede sem ferir as duas. Algumas
marcas chegam de fora. Com o tempo, parecem estrutura.
Chamava de viagem.
Quando Alan disse um mês, eu ouvi prazo. Quando propus San Francisco, fingi que era
desejo, curiosidade, reencontro com uma cidade que ainda me devia alguma coisa.
Mas era outra coisa: minha primeira tentativa de transformar distância em
permanência.
Queria que a Golden Gate, a névoa, o Mission, Alcatraz, os bondes, os cafés com leite
vegetal e as ladeiras fizessem com Alan aquilo que eu não conseguia fazer: convencer
um corpo a ficar mais um pouco.
Não sei se foi ideia dele ou minha. Talvez dos dois. San Francisco, quando quer parecer
inocente, oferece bichos antes de oferecer ferida: leões-marinhos dormindo uns sobre
os outros no píer, gaivotas insolentes disputando comida, pelicanos descendo em
rasantes sobre a baía, cães de turistas puxando coleiras como se a cidade inteira fosse
território deles.
Alan ficou parado diante dos leões-marinhos por mais tempo do que o necessário.
Eles se empurravam, gritavam, subiam uns sobre os outros, caíam na água e voltavam
para a madeira sem pedir desculpa. Havia uma grosseria feliz neles. Uma liberdade sem
elegância. Um corpo encostava no outro não por metáfora, mas porque ali o espaço
era pouco, o sol era bom e a sobrevivência nunca fora uma coisa limpa.
— Parecem honestos.
Ele riu.
Um pelicano passou baixo demais sobre nós, quase ofensivo. Depois abriu as asas e
seguiu na direção da água, indiferente ao cais, às placas, aos mapas, ao país. As aves
cruzavam a baía como se nenhuma linha tivesse sido desenhada sobre o mundo. Não
sabiam que havia fronteiras. Sabiam vento, sal, corrente, fome, estação.
Alguns peixes atravessam oceanos inteiros sem saber que mudaram de país. Nenhuma
fronteira detém o sal. Só depois o homem desenha uma linha sobre a água e chama
aquilo de lei.
Olhei para Alan de perfil, os óculos escuros escondendo os olhos, a boca entreaberta
de quem via alguma coisa bonita e já pensava em como enquadrar.
Não de país.
E que Alan, ao contrário dos animais, tinha fronteiras que eu nunca soube ler.
Alan aceitou San Francisco rápido demais.
Na mala, levou pouca roupa, uma câmera pequena, dois óculos escuros e uma ideia
que ainda não tinha forma. Desde que começara a filmar para as redes, ele andava com
aquela fome nova: a fome de transformar o mundo em conteúdo antes que o mundo o
transformasse em silêncio.
— Quero fazer alguma coisa de rua — ele disse. — Não só corpo, não só beleza. Algo
mais… real.
Porque quando se ama alguém, a gente às vezes confunde prenúncio com promessa.
O restaurante ficava no Mission, numa esquina que parecia ter sido traduzida vezes
demais. O cardápio vinha em inglês, mas as palavras espanholas resistiam dentro dele
como corpos que não aceitavam naturalização completa: tamal, mole, pozole,
huitlacoche, carnitas, lengua. Tudo explicado entre parênteses, domesticado para uma
boca que queria atravessar a fronteira sem se ferir com ela.
Veio embrulhado na palha de milho, amarrado com uma delicadeza quase fúnebre. Era
uma comida que não se entregava de imediato. Precisava ser aberta. Tinha invólucro,
pele, resistência. Por fora, fibra seca; por dentro, massa quente, carne, pimenta,
umidade. A fronteira estava ali antes do muro: na embalagem, no idioma, no garçom
que alternava inglês e espanhol conforme o rosto de quem pedia, na comida que
precisava atravessar uma camada antes de tocar a língua.
— Ou corpo.
Ele sorriu.
— Eu só tiro o laço.
— Por quê?
— Porque não deixa você entrar direto. Tem uma camada. Você precisa abrir, mas não
pode destruir tudo. Se rasgar errado, desmonta.
Eu ri.
A pergunta ficou entre nós, pousada sobre a mesa como um talher que ninguém usava.
Bebemos vinho demais. Não por festa — por anestesia elegante. Havia dias em que
Alan se aproximava de mim com uma doçura tão franca que eu sentia medo; e havia
dias em que ele parecia já estar ensaiando a própria partida, como quem treina
desaparecer antes de desaparecer. Eu não sabia qual dos dois estava sentado à minha
frente. Talvez fosse esse o problema. Talvez eu nunca soubesse.
Depois entrou.
Eu entrei atrás.
O clique da fechadura foi pequeno, mas mudou o ar. Até então San Francisco era rua,
baía, névoa, bicho, horizonte. Depois da porta, era só corpo.
Toda porta inventa um dentro.
Alan veio para cima de mim com o corpo quente de vinho, boca de pimenta, camisa
aberta, pele ainda cheirando ao restaurante. Eu quis. Ou quis querer. Às vezes há uma
diferença entre o desejo e a obrigação de demonstrá-lo, e essa diferença, no corpo, vira
fronteira.
O corpo ficou ali, obediente até onde pôde, depois recuou sem pedir licença. Alan
percebeu antes de mim. Sempre percebia. Havia nele uma inteligência cruel para o
mínimo desvio do desejo.
— Bebi demais.
— É cansaço.
Ele se afastou um pouco. Não muito. O suficiente para que a cama ficasse maior.
A fronteira não era a distância entre Salvador e San Francisco, nem entre português e
inglês, nem entre o mês prometido e o mês perdido. Era aquela faixa de lençol entre o
meu quadril e o corpo dele.
A cama era o nosso mapa mais honesto: dois corpos próximos, uma fronteira no meio,
nenhum tratado funcionando.
— Sobre eu brochar?
— Eu não sumi.
Alan passou a mão no próprio peito, sem erotismo, só para ocupar o corpo.
— Às vezes você me olha como se eu fosse mais interessante quando estou fora de
alcance.
Eu não respondi.
Ele continuou:
Eu soube, naquele instante, que ele já tinha visto uma coisa que eu ainda fingia não
saber.
— Estou perguntando.
— Perguntando o quê?
Alan respirou. O rosto dele não estava ferido ainda. Estava atento.
— Se você quer mesmo estar comigo. Ou se você quer me ver acontecendo.
Eu me sentei.
— Isso é injusto.
— É?
Silêncio.
A mesma pergunta voltaria depois diante de um comentário na internet, mas ali ela
ainda era íntima. Ainda não tinha algoritmo. Ainda era só dois homens num quarto
tentando decidir onde terminava o desejo e começava a cena.
— Você também.
— Enquadramento?
O quarto ficou quieto. Lá fora, uma sirene passou, subiu a rua e desapareceu. San
Francisco fazia isso: deixava tudo bonito e, de repente, lembrava que também era uma
cidade de emergência.
— É como se houvesse um lugar dentro de você que eu nunca fosse conseguir visitar.
— Em mim?
— Em você. Na sua cabeça. No seu corpo. Na parte que você guarda mesmo quando
está nu.
— Às vezes acho que outro corpo abre essa porta melhor do que eu — eu disse.
Ou talvez fosse pior: eu não oferecia Alan a ninguém. Eu oferecia a mim mesmo a
chance de vê-lo atravessado por outro desejo, iluminado de fora, legível por um
instante num idioma que não era meu.
— Sexo a três tem fronteira — Alan disse. — A gente finge que é liberdade, mas tem
linha. Quem toca quem. Quem olha. Quem fica de fora. Quem vira ponte. Quem vira
objeto.
Foi pior porque não vinha como acusação. Vinha como medo.
Nem regra.
Nem proibição.
Nem convite.
O tamal do jantar voltou em mim antes do sono: a massa quente dentro da palha, o
corpo dentro da fronteira, a fome esperando autorização.
O sol não era só luz — era sentença: tudo ficava exposto demais. Os bares, os casais, as
árvores tortas, as placas em espanhol resistindo como cicatrizes. Até o ar tinha aquele
cheiro de cidade que promete e depois cobra: cerveja, poeira, tinta fresca e suor.
Era mural.
Um homem trabalhava em cima de uma escada, braço firme, mãos sujas de cor, um
balde ao lado como se fosse um animal doméstico. Pintava como quem não pinta:
como quem tenta impedir que o mundo apague.
O mural não tinha cenas bonitas. Tinha gente passando — silhuetas, sombras, corpos
em movimento, como se a rua fosse um rio e ele estivesse registrando as formas que
atravessam e somem.
Escada, unha suja, tinta no pescoço, aluguel, fronteira. A beleza do Mission sempre
tinha alguém segurando por trás.
O homem desceu dois degraus, atravessou a rua e olhou a parede de outro ponto.
Depois voltou, subiu de novo e corrigiu uma linha que, de perto, parecia certa.
— Mural engana — ele disse, sem olhar para nós. — Se fica colado, só vê tinta. Se vai
longe demais, vira cartão-postal. Tem um ponto certo.
Alan olhou para mim com aquele meio sorriso de quem encontra uma palavra minha
na boca dos outros.
Moreno, traços indígenas e duros, o olhar atento de quem vive com o corpo em alerta
— não de paranoia, de sobrevivência. Tinha tinta nas unhas, nos antebraços, no
pescoço. E uma calma que não era paz. Era controle.
Alan passou perto demais do muro, distraído, vinho ainda puxando ele por dentro.
A camisa branca dele tocou a área recém-pintada. A tinta pegou no tecido como uma
língua.
Era marca.
O homem desceu da escada num salto rápido, sem teatralidade. Desceu como quem
aprendeu que qualquer ruído vira problema.
Quase imperceptível.
— A gente tá pintado.
É palavra de polícia.
Ele pegou um pano úmido de uma mochila e tentou limpar de leve. Não saiu. A tinta já
tinha virado memória.
Eu olhei para a camisa dele, para a minha, para o pano que já nascia inútil na mão do
homem.
Pausa.
Essa era a distância real entre nossos corpos: não a língua, não o desejo, não a cor da
pele apenas — a possibilidade obscena de trocar de camisa e sair da história.
Pausa.
— Gael.
No mesmo lugar.
Como se o mundo dele não tivesse ganhado seguidores, apenas mais uma camada de
tinta.
Alan contou que queria filmar alguma coisa sobre invisibilidade, sobre corpo e
suspeita, sobre ser tratado como alguém que não pertence.
Alan engoliu.
— Te parece errado?
— Bonito é perigoso.
— Eu sei.
Um corredor comprido, estreito, desses prédios velhos que sobraram na cidade como
dentes antigos. Porta sobre porta. Cheiro de detergente barato e comida guardada. O
tipo de lugar onde o silêncio não é paz — é cuidado.
Só um quarto.
Cama encostada na parede. Uma mesinha com um copo rachado. Duas cadeiras que
não combinavam entre si. Uma pia improvisada num canto. O banheiro era do corredor
— dava para sentir a regra invisível: aqui todo mundo sabe que não pode chamar
atenção.
Logo depois da porta havia um pequeno rebaixo no piso, quase nada: uma diferença de
altura que qualquer pessoa apressada ignoraria. Dois pares de sapatos estavam ali,
alinhados com uma precisão que não combinava com o resto do quarto.
Por cálculo.
Todo corpo que vive sob ameaça mede a porta antes de atravessar.
— Genkan — ele disse, antes que eu perguntasse.
— Japonês?
— Vi numa casa onde pintei parede em Pacific Heights — Gael respondeu. — Gente
rica inventa muita coisa boa para não tocar no mundo.
Mesmo assim, ele insistia naquela fronteira mínima: sapato embaixo, corpo em cima;
rua de um lado, colchão do outro; o impossível desejo de que alguma parte da vida
permanecesse limpa.
Na parede: um pano bordado, cores que não eram decoração — eram origem. Um
pequeno altar improvisado num caixote: vela, uma fitinha gasta, uma imagem de santo
sem moldura. E uma foto antiga de um homem jovem com olhos velhos demais.
Acima da cama, presa com fita crepe, havia uma reprodução barata de Salvador Dalí:
Criança Geopolítica Observando o Nascimento do Homem Novo.
Não era o título do quadro. Era o nome que ele dava à ferida.
A imagem parecia deslocada naquele quarto pequeno, mas talvez só ali fizesse sentido.
Na reprodução, a América não surgia como mapa, nem como promessa. Surgia como
parto violento, país nascendo de um corpo que já parecia ferido antes de existir. O
mundo inteiro parecia espremido na borda da cena.
— Parece que alguém teve que sofrer para esse país existir — Alan murmurou.
— Sempre tem.
Enquanto Gael falava, o quadro atrás dele parecia menos surrealista do que
documental. A América, naquela parede, não nascia: arrancava-se de alguém.
— Meu avô também achava que esse país era céu. Veio. Foi caçado na rua na Operação
Wetback. Deportaram como se fosse bicho. Passou anos juntando dinheiro para voltar.
Aí veio 99, no Equador. Feriado bancário. Confisco. Congelaram a poupança dele.
Pausa.
— Ele se matou.
A casa ficou silenciosa, mas não era silêncio de luto bonito. Era silêncio de realidade.
Gael abriu uma caixa de sapato e mostrou uma nota velha de sucres, inútil, desbotada,
como se o dinheiro tivesse morrido antes do dono.
— Eu vim por ele. Não. Eu vim por mim. Mas o sonho era dele. Eu só herdei.
O verbo herdar ali tinha sangue.
Para o avô de Gael, os Estados Unidos tinham sido o longe transformado em religião.
De perto, o país não era céu. Era viatura, carimbo, deportação, confisco. Há lugares que
só permanecem bonitos enquanto ainda não se chegou.
— De longe, todo país rico parece céu — Gael disse. — De perto, tem parede, fila,
polícia, formulário.
Depois falou do Mission como quem fala de um lugar que já foi dele e agora só finge
que é. Falou de aluguel subindo, despejo, patrão ameaçando imigração quando alguém
abre a boca. Disse que prometera nunca mais transportar droga, mas não conseguira
emprego. Virara pintor de fachada, pintava casas vitorianas de ricos e apartamentos de
gente que achava bonito morar onde outros sangravam.
— Domingo eu pinto o mural — disse. — É o único lugar onde eu ainda sinto que não
me arrancaram inteiro.
Não a do avô.
Outra.
Pequena, meio escondida na prateleira de cima, entre uma vela apagada e um copo
com pincéis duros. Um homem de barba, sem camisa, sorria para fora do quadro como
se ainda morasse ali. Tinha a mão apoiada no ombro de Gael, mas Gael estava cortado
pela borda da foto: só aparecia uma parte do rosto, a boca quase rindo, um pedaço do
pescoço.
Alan olhou.
Eu olhei também.
Não explicou.
Pegou a primeira peça de roupa do chão — uma cueca preta, amassada, dele ou de
ninguém — e cobriu a fotografia.
Alan riu.
Eu também.
Mas havia alguma coisa naquele gesto que não era brincadeira.
Era fronteira.
Cobrir não era apagar. Era admitir que alguma coisa continuava ali, mas não devia
assistir.
Gael veio até mim e tirou um respingo do meu pescoço com o polegar.
Eu prendi a respiração.
Gael disse:
— Não mexe. A tinta mancha mais quando você luta contra ela.
— Cansa.
— Devagar, mashi.
A mão de Gael no pulso de Alan parecia uma ordem e uma bênção ao mesmo tempo. E
eu vi o corpo de Alan mudar, como se alguém tivesse puxado ele de volta ao presente.
Olhou do jeito que eu conhecia: o jeito que ele olha quando quer esquecer o mundo.
Eu senti ciúme e tesão misturando dentro de mim — e gostei disso, e ao mesmo tempo
foi humano demais para negar.
Depois sede.
Gael tinha um corpo de trabalho: músculo feito de escada, lata de tinta, rua. Não era
estética. Era vida.
Na barriga, uma cicatriz discreta atravessava a pele como uma frase interrompida.
Eu toquei a cintura dele e senti o peso real de alguém que não pode falhar.
Alan tocou a cicatriz com a ponta dos dedos, devagar, como quem encontra um detalhe
numa pintura.
Pausa.
— Mula.
— Dentro do corpo.
Não metáfora.
Fronteira mesmo.
A linha que no mapa parecia distante havia passado por dentro dele.
Eu tinha pensado em fronteira como linha distante, desenho de mapa, coisa que se
cruza de avião ou com passaporte. Em Gael, a fronteira estava perto demais:
atravessava a barriga, a cicatriz, o modo como ele media a porta antes de abrir.
A gente se moveu devagar, como se tivesse medo de quebrar alguma coisa invisível.
Gael encostou o rosto no meu pescoço e eu senti o cheiro dele: tinta, café, pele, e uma
tristeza antiga.
Eu fechei os olhos.
Eu estava dentro do quarto de Gael, dentro da história dele, dentro do corpo dele — e
ainda assim longe.
Não porque compreendesse melhor, mas porque não tentava se proteger com
compreensão.
Como se a noite tivesse entendido que já tinha ido longe demais — e agora ficasse
imóvel, esperando a consequência.
O lençol estava úmido e quente, manchado de tinta e suor — como se o quarto tivesse
lembrança própria.
A pele ardia em pontos pequenos: onde a barba raspou, onde a unha arranhou, onde a
boca demorou mais do que devia. Eu sentia o gosto metálico da tinta misturado ao
álcool doce do canelazo, e aquilo não era nojo: era prova.
Alan estava deitado de lado, meio rindo, meio perdido, com as pálpebras pesadas de
vinho e uma alegria mole de quem não sabe mais onde termina o corpo e começa o
sonho.
Gael ainda respirava forte, sentado na beira da cama como quem volta de um lugar
perigoso. Tinta nas unhas. Uma linha azul no osso do quadril. E no peito dele, a marca
de uma mordida que eu não lembrava de ter feito — mas meu corpo lembrava.
Gael viu.
— Teimoso — disse.
Alan virou o rosto para mim e disse, como quem lembra de uma brincadeira íntima:
Eu já tinha usado a pele dele como livro — como quem tenta prender o tempo em
dezessete sílabas para não perder tudo de uma vez.
Alan olhou para Gael — ainda perto demais, ainda com tinta nas unhas, como se
tivesse saído de uma parede e não de um abraço.
— Me usa de quadro — Alan disse, com uma alegria quase infantil. — Faz uma coisa
sua. Pinta em mim. Faz a gente virar mural.
Pegou o pote de tinta que tinha sobrado do dia. Abriu a tampa com cuidado, como se
fosse abrir um remédio.
Molhou o dedo no azul, depois no vermelho, depois no ocre. A cor fechou quase
imediatamente, uma lama viva.
— Na tinta, não.
Alan, que passaria o dia seguinte tentando capturar o ar ao redor da dor dos outros
sem tocar demais, estava ali oferecendo o próprio corpo a uma substância que não
prometia delicadeza nenhuma.
Olhou para Alan como se estivesse vendo alguma coisa além da beleza.
Era fascínio.
Era aquele tipo de olhar que o mundo nega para gente como ele — o direito de olhar
com calma.
Pegou pele.
Encostou primeiro em Alan, no centro do peito dele, e puxou uma linha.
Uma linha vertical, firme, que descia devagar — do esterno até o umbigo — como um
corte simbólico.
Gael espalhou tinta com os dedos, e o gesto tinha uma intimidade que não era só
sexual — era artesanal. Como quem entende que o corpo pode ser parede, mas
também pode ser mapa.
Do lado esquerdo do peito de Alan, desenhou formas retas, frias — pequenos blocos,
janelas, linhas que pareciam prédios vistos de longe.
Era uma linha que dizia: aqui você pode. aqui você não.
Eu olhei e entendi tarde: não estávamos fazendo amor. Estávamos encenando, sobre a
pele dele, a distância entre poder entrar e precisar atravessar.
Atrás dele, o Dalí preso com fita crepe parecia olhar a cena com sua violência imóvel. A
América nascia outra vez, agora sobre um peito vivo. Sempre precisava de um corpo
para existir. Um corpo aberto, carregado, atravessado, pintado, usado como passagem.
Alan deu uma risada curta, teatral, querendo transformar aquilo em charme.
Não apagando.
Não borrando.
Atravessando.
Um risco simples, limpo, que cruzava a fronteira e seguia até o lado onde eu existia —
como se a tinta soubesse o caminho.
Gael encostou o dedo na tinta e disse, num tom baixo demais para ser casual:
Para a linha.
Para a travessia.
Depois desviou o olhar, como quem fecha uma porta por instinto.
— Nada — repetiu.
Fechou o pote de tinta e colocou de lado como quem guarda uma arma.
— Vocês vão dormir. Daqui a pouco amanhece… e vocês fingem que isso aqui foi só
vinho.
O rádio tinha parado em algum ponto — talvez alguém tivesse derrubado, talvez a
pilha tivesse morrido. Mesmo assim, por alguns segundos, a música pareceu continuar
baixa, sem fonte, como se já estivesse tocando antes da gente entrar naquele quarto.
Alan piscou devagar, com aquele olhar de quem tenta focar o planeta.
— Ué — murmurou. — Não parou.
Ninguém respondeu.
Gael encostou a testa na parede por um instante, como quem escuta uma coisa que só
ele escuta.
Depois olhou para as manchas em nós e apontou com dois dedos, como se marcasse
pontos num mapa invisível.
A claridade entrava pelas frestas da cortina com aquela indecisão típica de San
Francisco — como se o dia ainda estivesse negociando com a névoa se valia a pena
acontecer.
Talvez Marisol tivesse ficado nele como uma pergunta mal colocada. Talvez a mão vazia
no bolso o tivesse humilhado mais do que se tivesse filmado. Talvez houvesse alguma
coisa na maneira como ela se colocou entre o policial e as crianças que tivesse
desorganizado a distância segura entre observador e observado.
Saímos com a luz ainda fria, aquela luz de San Francisco que parece sempre ter
passado antes por vidro, névoa e uma espécie de culpa. Chinatown apareceu primeiro
como imagem fácil demais: lanternas vermelhas suspensas, letreiros verticais, varandas
estreitas, fachadas verdes, dourado, vermelho, dragões, patos laqueados pendurados
em vitrines, caixas de bok choy na calçada, idosos andando devagar como se
obedecessem a um relógio anterior à cidade.
Filmou as placas.
Filmou um açougue onde os corpos dos animais pareciam mais honestos do que os
corpos nas vitrines de lojas caras.
Filmou uma porta estreita entre dois comércios, uma escada subindo para
apartamentos invisíveis, uma janela com roupa secando por dentro.
Depois abaixou um pouco a câmera.
— Internas como?
As lanternas.
Os mercados.
As placas em chinês.
Uma menina saindo de uma padaria segurando um pão doce nas duas mãos.
Pausa.
A câmera voltou ao rosto dele por um instante breve, refletido na vitrine de uma loja.
A convicção.
Era possível ver a ideia se formando nele antes da legenda. Chinatown como corpo
voltado para dentro. Chinatown como bairro que não se entregava inteiro à cidade em
volta. Chinatown como espaço de língua própria, comida própria, placas próprias,
gestos próprios. Alan filmava vitrines, idosos, fachadas, mercados, como quem procura
a prova visual de uma frase que ainda não tinha coragem de escrever.
— Para quê?
— Fronteiras?
Ela sorriu.
Com cansaço.
— Constroem?
Ela pegou uma caixa de chá, virou o rótulo para frente, alinhou com outra caixa.
— Primeiro disseram que a gente não podia entrar. Depois disseram que a gente não
podia morar em qualquer lugar. Depois disseram que a gente não podia trabalhar em
qualquer coisa. Depois disseram que a gente não podia trazer família. Depois olharam
para nós todos no mesmo bairro e disseram: olha como eles só vivem entre eles.
— Não foi escolha — ela disse. — Foi cerco. Depois costume. Depois bairro. Depois
cultura. Depois turismo.
O silêncio durou tempo suficiente para a chuva bater três vezes mais forte no vidro.
Na rua, a chuva fina deixava as lanternas mais vermelhas, as fachadas mais brilhantes,
os letreiros mais cinematográficos. A cidade fazia de tudo para ficar bonita justamente
quando a gente começava a desconfiar da beleza.
Lanternas.
Fachadas.
Patos laqueados.
Idosos.
Escadas.
Portas.
Tudo continuava bonito.
Alan dizia que precisava ver a distância com o corpo, não só no mapa.
A ilha apareceu devagar, bonita demais para o que guardava. Água em volta. Colinas
suaves. Turistas com mochilas. Crianças correndo perto das placas. A baía inteira
fingindo paisagem.
No antigo centro de imigração, não havia loja no fim. Havia fotografias em preto e
branco, mapas, reproduções de documentos, nomes, datas, rostos de homens muito
jovens tentando parecer mais velhos diante da máquina que decidiria se eles podiam
existir ali.
Angel Island.
A ilha aparecia nas imagens como um lugar bonito demais para ter sido cárcere. Água
em volta. Colinas suaves. A baía inteira fingindo paisagem.
Fileiras de camas.
Madeira.
Cobertores.
Rostos.
Por vergonha.
— Para quem?
Uma legenda explicava que muitos imigrantes chineses tinham sido interrogados,
detidos, separados por semanas, meses, às vezes mais; que a ilha não era só entrada,
mas triagem, suspeita, espera. Que a baía, vista do ferry turístico como azul e
liberdade, para outros tinha sido uma sala de espera cercada de água.
O Pacífico atrás.
Chinatown na cidade.
Era a água.
Era o interrogatório.
Era o bairro.
Era o sotaque.
Era a porta.
Era a pergunta repetida até que o corpo começasse a duvidar da própria história.
Ele demorou.
Pausa.
Era dele chegando atrasado a uma coisa que outros corpos já sabiam havia gerações.
Filmou a água.
Só água.
A baía larga, cinza, ondulando sem drama entre a ilha e a cidade. De longe, Angel
Island parecia parque. Um lugar para passeio, trilha, foto, domingo. A beleza era
obscena porque não mentia. Era bonita mesmo. O horror não apagava a beleza. A
beleza é que tornava o horror mais difícil de organizar.
Não o vídeo.
As entrevistas.
O material bruto tinha outra temperatura. Sem música, sem corte, sem legenda, sem a
limpeza moral que a edição oferece quando decide onde uma dor começa e onde deve
terminar. Havia tosses, esperas, frases interrompidas, o barulho de uma porta abrindo
fora do quadro, um caminhão passando, a câmera procurando foco, Alan dizendo
“entendi” quando ainda não tinha entendido.
Com aquela forma específica de cansaço que só aparece quando alguém percebe que
terá de desfazer uma pergunta antes de respondê-la.
Cerco.
Costume.
Bairro.
Cultura.
Turismo.
— They made the inside — ele disse. — Then blamed us for living in it.
Não muito.
Mostravam Alan.
O modo como ele se aproximava das coisas: inteiro e temporário. Atento, comovido,
voraz, sincero, vaidoso, corrigível. Alan chegava perto o bastante para aprender, perto
o bastante para se deixar alterar, perto o bastante para sair diferente.
Ele chegava.
Chegava mesmo.
Dormia na minha cama, deixava a coleira de Rubens perto da porta, comprava café,
montava estante, encostava o pé no meu debaixo do lençol, dizia vou ficar o mês como
se um mês não fosse uma faca com calendário.
Uma prateleira.
Uma viagem.
Uma vida.
Alan atravessava.
Eu tentava habitar.
No hotel, depois de rever as entrevistas pela terceira vez, Alan falou de Antoine.
Antoine era um francês que ele conhecera meses antes em São Paulo, um desses
homens que pareciam cheirar antes de pensar.
— Ele me explicou uma vez uma coisa chamada headspace — Alan disse.
— Você coloca uma redoma sobre uma flor viva. Não corta. Não esmaga. Não arranca.
Só captura o ar em volta dela. As moléculas. O que ela libera sem perceber.
A porta.
A mulher que tinha respondido uma pergunta que não deveria ter sido feita daquele
jeito.
— Continua — eu disse.
A técnica parecia delicada. Era esse o perigo. Não havia faca, não havia sangue, não
havia ramo quebrado, não havia a violência explícita do corte. A flor permanecia viva,
inteira, fotografável no mesmo lugar. Mas o perfume já tinha sido separado dela.
Extraído sem cena de crime. Levado para circular com outro nome, outro frasco, outra
mão.
Pensei que talvez a câmera de Alan quisesse ser isso: uma redoma, não uma lâmina.
Aproximar-se sem tocar.
— Eu sei.
E eu sabia mesmo.
Ele tentou montar o vídeo sem pessoas no centro. Cortou rostos. Tirou close demais.
Deixou as mãos, as portas, as placas, a água. Tentou ser ético por subtração, como se a
ausência do rosto impedisse a apropriação do corpo.
Começou de novo.
Depois a água.
— Eu saí para filmar uma comunidade que eu achava fechada. Mas a fronteira veio
antes. Veio de fora. O bairro foi o modo que encontraram de continuar respirando do
lado de dentro.
Ele parou.
Ouviu.
— Esse é o problema?
— Talvez.
No aeroporto.
Talvez porque o aeroporto sempre ofereça uma desculpa moral: tudo ali já está em
trânsito, tudo já virou passagem, ninguém pertence completamente ao chão que pisa.
“Powerful.”
“Beautiful work.”
— É?
— Não sei.
Na mala aberta, a camisa azul desbotada que ele comprara no brechó para parecer
menos turista estava dobrada sobre a cadeira, bonita justamente porque parecia ter
pertencido a uma vida que ele não vivera.
Ele pegou a camisa e virou do avesso, talvez procurando uma costura solta, talvez só
procurando alguma coisa onde pousar a culpa.
MADE IN BANGLADESH.
A fronteira não estava apenas na baía, em Angel Island, nos documentos, nos
interrogatórios, nos bairros que a cidade primeiro cercava e depois fotografava como
cultura. Estava costurada ali, minúscula, branca, lavável.
Outro país.
Outro corpo.
Outra mão.
A camisa que ele usara para falar de exclusão vinha de uma ferida que ele não tinha se
dado ao trabalho de imaginar.
Não respondi.
A cabeça dele tombou de leve para o lado da janela. A boca entreaberta. A camiseta
subiu um pouco quando ele se ajeitou na poltrona, e vi, acima do cós da calça, um
resto de tinta atravessando a pele.
Mais fraca.
Mas ali.
Eu tinha achado que a água do banho, o lençol do hotel, a roupa, o aeroporto, a pressa,
tudo isso já teria apagado o desenho. Não apagou.
Gael tinha dito que pigmento come luz. Que corpo é mais tinta que luz. Encostou, fica.
No avião, vendo aquela fronteira seca atravessar a pele de Alan, pensei na mulher do
chá. No cerco que virou bairro. Na cultura que os outros chamaram de escolha. Pensei
na bisavó de Gael, parada no mesmo lugar enquanto a fronteira mudava de dono sobre
o corpo dela.
Talvez algumas linhas não nasçam dentro da gente. Talvez passem por nós primeiro.
Depois secam. Depois parecem nossas.
Abri o celular e revi um dos vídeos brutos que Alan tinha me mandado antes de dormir.
Não a versão postada. O bruto. A mulher do chá alinhando caixas. Alan errando a
pergunta. O silêncio de onze segundos. A água em volta de Angel Island. A câmera
procurando foco como se foco fosse uma forma de perdão.
Foi sendo traçada por pequenos erros de tradução: eu transformava qualquer presença
em começo de casa; Alan chamava de agora o que, em mim, já começava a pedir
depois.
Em vez disso, encostei dois dedos no resto de tinta sobre o peito dele.
Não esfreguei.
Pela primeira vez naquela viagem, tentei não transformar o gesto em garantia.
A pele dele estava ali.
A linha também.
Como quem aprende uma fronteira pelo contorno, não pela invasão.
Roland Barthes, Como Viver Junto, 1976—77. Seminário. Coleção do museu. Barthes
chama de idiorritmia a fantasia de uma convivência em que cada sujeito preserva seu
próprio ritmo sem deixar de tocar o ritmo dos outros.
Nota de curadoria: A palavra yuǎn-jìn não foi inventada para este registro. Foi
encontrada. O velho a escreveu na água e ela sumiu. Alan chamaria isso de respiração.
远近
Longe. Perto.
A distância. A medida.
Eu já havia tentado empurrar o fim com outro fuso, outra ponte, outra cidade coberta
de névoa. Tinha chamado de viagem o que era pânico. Tinha chamado de desejo o que
era tentativa de manter Alan dentro de um calendário que ele nunca prometera
habitar por mais de trinta dias.
Só mudei a escala.
Não anunciei como fuga. Fuga nunca se anuncia como fuga quando tem cartão
internacional, hotel reservado e uma pasta no celular chamada “roteiro”. Chamei de
viagem. Chamei de experiência. Chamei de oportunidade. Chamei, em voz alta, de “só
alguns dias fora”.
Queria que rios, montanhas, trens, templos, mercados noturnos e ideogramas fizessem
com Alan aquilo que eu não conseguia fazer: convencer um corpo a ficar mais um
pouco.
Não queria admitir que estava pedindo eternidade a uma reserva de hotel.
Tlin.
— China?
— China.
Mas aceitou.
Antes de embarcarmos, eu virei a pessoa insuportável que sempre viro antes de viajar:
mapas abertos, abas demais no navegador, vídeos de templos, livros empilhados na
mesa, anotações inúteis, medo de errar um gesto cultural como se o destino de uma
civilização dependesse do meu uso correto dos hashis.
Alan me observava deitado no sofá, com aquela cara de desprezo que nele às vezes era
ternura mal dobrada.
— Não.
— Também não.
Fechei o notebook.
Clac.
— Mentiroso.
— Você está muito filosófico para alguém que acabou de perguntar se na China tinha
“aquele frango de caixinha”.
Alan era assim: ridicularizava o meu excesso, mas reparava em tudo. Dizia que não
ligava para roteiro, mas perguntava o horário do trem. Reclamava dos meus mapas,
mas dobrava melhor do que eu. Fingira aceitar a China por deboche; na véspera, já
tinha comprado adaptador universal, remédio para enjoo, lenço umedecido e uma
pochete preta que ele chamava de “colete moral contra turista burro”.
No aeroporto, enquanto eu conferia os passaportes pela quarta vez, ele pegou minha
mão.
Tuc-tuc-tuc.
Ouvi.
— Para.
— O quê?
Fiquei quieto.
— Porque perto demais sufoca, mas longe com você às vezes fica interessante.
A China começou antes da China: no avião, naquela suspensão em que o corpo ainda
pertence a um país, mas o tempo já se soltou. Alan dormiu antes da decolagem, como
se tivesse desligado da Terra por economia. A cabeça caiu para o lado, a boca
entreaberta, uma vulnerabilidade sem composição. Eu fiquei olhando.
Bip.
— A gente cria expectativa para acordar, Alan. Para trabalhar. Para pegar um avião.
Para amar alguém. O problema não é esperar. O problema é achar que a vida assinou
embaixo.
— E qual é a solução?
— Entender que toda expectativa já nasce com a decepção dentro. A gente não tem
que parar de esperar. Tem que se preparar para desapontar sem destruir tudo.
— Lá vem.
— “Felicidade Clandestina”. A menina adia o livro porque a promessa também era uma
forma de posse.
— Você está comparando a China a um livro emprestado por uma menina cruel?
Ri.
Ele também.
Na escala, antes de seguirmos para a Ásia, os Alpes apareceram pela janela sem pedir
licença.
Eu tinha passado semanas planejando a China, mas não tinha planejado aquela
brancura. As montanhas surgiram abaixo do avião como uma vértebra de gelo
atravessando o mundo. Não eram paisagem; eram interrupção. Um clarão sem
contexto, sem legenda, sem pasta no celular. O sol batia na neve e devolvia uma luz
quase indecente, limpa demais para quem viajava carregando tanta intenção.
— O quê?
Fiquei olhando.
— Às vezes as melhores coisas aparecem quando você não tem expectativa — ele
disse.
Eu também não.
Pela primeira vez desde que comprara as passagens, a viagem pareceu existir sem
obedecer a mim.
Eu estava com uma cédula na mão quando percebi: a mesma paisagem impressa no
papel se erguia diante de mim. Montanhas-pedra brotavam do rio Li como espinhas de
um corpo adormecido. A nota era a sombra da cena real. Ou o contrário: talvez a
paisagem fosse a cédula devolvida ao mundo em escala absurda.
Guardei a nota no bolso como quem guarda um talismã barato: a prova de que o
mundo, às vezes, coincide com a própria miniatura.
— Sim.
— Prático.
Eu ri.
Ele também.
Alan fingia desinteresse por quase tudo que o tocava fundo. Era o jeito dele de manter
as mãos livres.
Fizemos o passeio pelo rio numa manhã de névoa baixa. Os barcos avançavam devagar,
cortando a água com uma indiferença antiga. As montanhas surgiam e desapareciam
como se fossem pensamentos do próprio rio — ora nítidas, ora apagadas, sempre
maiores do que a linguagem que eu tentava encostar nelas.
O motor do barco vibrava por baixo da madeira.
Alan tentou.
Alan olhou para os picos que emergiam da névoa como dentes irregulares.
A névoa baixa naquela manhã fazia as montanhas aparecerem em graus: primeiro o pé,
sólido, refletido no rio; depois o meio, gradual; depois o topo, apagado, às vezes
inexistente. Algumas sumiam completamente numa altura específica, como se
parassem de existir antes de terminar. Outras emergiam de trás das que você já via,
mais ao fundo, numa profundidade que não parecia caber no mesmo quadro.
— O problema da China — Alan disse — é que ela é grande demais para ser fundo.
— Fundo como?
— Fundo. Você vê e pensa que está entendendo, mas na verdade está só vendo o topo.
Como essas montanhas no nevoeiro. A parte que desaparece antes do fim pode ser a
maior parte.
A névoa fechou.
Vruum. Vruum.
— E agora? — perguntei.
Quando a névoa abriu de novo, Alan estava calado. Tinha apoiado os cotovelos na
borda do barco e olhava a água com uma atenção rara, quase sem defesa.
— Que foi?
— Nada.
— Alan.
— Por quê?
— Mas é real.
— É.
— E conseguiu?
— Conseguiu.
Não porque tivesse começado tarde — porque tinha começado às quatro. A maioria
das transações já havia acontecido antes que qualquer turista acordasse. O que víamos
era o resto: os vendedores recolhendo, as caixas sendo desmontadas, as frutas que não
foram compradas voltando para a embalagem, a rua voltando a ser rua.
Longas, irregulares, com aquela forma vegetal de coisa que cresceu sem consultar
ninguém. Ele as organizava sobre um pano vermelho com uma atenção que parecia
excessiva para o horário e para o que provavelmente receberia por elas.
Alan fotografou.
Não virou. Não acenou. Não sorriu para a câmera. Continuou organizando as raízes
com a mesma concentração de antes, como se a câmera de Alan fosse tão irrelevante
para a transação quanto o vento.
— Não.
Alan me olhou.
Havia honestidade na frase que não estava se oferecendo como confissão. Era só
observação. Mas havia ali uma exposição que Alan raramente fazia sem embrulhar em
piada.
O homem das raízes fechou o pano, amarrou, levantou a caixa com os dois braços e foi
embora pelo corredor do mercado sem olhar para trás.
— Foi.
Alan olhou para o telefone. A imagem estava lá: o homem de costas, as raízes
organizadas, a luz baixa da manhã entrando de viés.
— Como assim?
— O mercado de verdade acabou antes de a gente chegar. O que a gente viu foi a
sobra.
Eu tinha colocado o lugar no roteiro como quem coloca uma pausa respeitável entre
duas paisagens obrigatórias. Alan percebeu.
— É um templo importante.
— Todos são importantes quando você está tentando provar que a viagem tem alma.
Não respondi.
Não era o sorriso largo de vitrine turística. Era quase nada. Uma curva mínima nos
lábios, uma serenidade tão fechada em si mesma que parecia não pedir testemunha.
Alan parou diante dele, menos impaciente do que eu esperava.
— Engraçado — disse.
— O quê?
— Ele não está sofrendo.
— Não.
— Não está na cruz, não está sangrando, não está tentando convencer ninguém de que
a dor dele importa.
A frase simples abriu em mim uma distância que nenhum mapa marcava.
Eu vinha de uma cultura em que a dor precisava aparecer para ser acreditada: ferida,
sangue, lágrima, voz quebrada, corpo oferecido como prova. O Cristo retorcido, a mãe
chorando, os santos perfurados, a carne como documento.
Queria que reconhecesse meu exílio, minha urgência, minha incapacidade de amar
sem transformar o amor numa cena. Mas ele permanecia ali, dourado, silencioso, com
uma hipótese quase ofensiva nos lábios: talvez nem toda profundidade precise se
anunciar como ferida aberta.
— O quê?
— E você não?
Não respondi.
A distância cultural às vezes é isto: uma imagem te olha de tão longe que você percebe
que sua dor também tem sotaque.
Tlim.
— Não.
— Você é insuportável.
Mas eu levei comigo aquele sorriso. Não como paz. Como acusação delicada.
Foi numa sala silenciosa, dessas em que a luz parece pedir desculpa antes de tocar as
coisas. Havia rolos pendurados na parede, pinceladas negras sobre papel claro, colunas
verticais de caracteres que desciam como chuva disciplinada. Algumas linhas eram
finas, quase ossos; outras espessas, carregadas de tinta, como se a mão tivesse pesado
mais em certos pontos do pensamento.
A sala sabia.
As molduras sabiam.
Só eu não sabia onde a arte começava.
Alan percebeu.
Fiquei diante de um dos rolos por mais tempo. A tinta parecia guardar velocidade:
gesto, pressão, pausa, respiração. Eu conseguia admirar a mão. Conseguia imaginar o
pulso. Mas a palavra permanecia fechada.
Saí da sala com uma pequena vergonha, como se tivesse falhado diante de uma coisa
que não me devia nada.
De Guilin para Pequim, entramos no trem como quem entra numa cápsula de tempo
alheio.
Eu tinha imaginado outra coisa. Poltronas limpas, janelas amplas, silêncio elegante, o
deslocamento como uma espécie de intervalo contemplativo entre o verde do rio e o
metal da capital. Na minha cabeça, até a viagem obedecia ao roteiro: horas de
paisagem, uma leitura, talvez Alan dormindo com a cabeça encostada no vidro, eu
olhando para ele sem admitir que olhava.
Mais humana.
Havia quatro beliches, uma mesa estreita, cortinas de tecido sintético, cheiro de
macarrão instantâneo, desinfetante e roupa úmida. O ar-condicionado fazia um ruído
irregular, como se respirasse com bronquite. A janela devolvia nosso reflexo antes de
mostrar a paisagem.
Trac.
— É só uma noite.
Alto demais para a cabine. Bonito demais para o contexto. Trazia uma sacola de papel
manchada de gordura, uma garrafa de cerveja quase vazia e uma confiança antiga,
dessas que alguns homens carregam no corpo como se o mundo inteiro tivesse sido
construído no tamanho deles.
— Hi — respondi.
Alan apenas levantou dois dedos, saudação mínima, quase uma economia de
civilização.
Alan me olhou com uma expressão clara: foi para isso que você comprou a China?
Tuc-tuc-tuc.
Devia estar no vagão ao lado. Morena, cabelo preso no alto da cabeça, regata branca,
expressão de quem já tinha decidido que não devia explicações ao mundo. O holandês
endireitou o corpo na hora.
— Sim.
— I love Brazil.
— It means beautiful?
— Deep beautiful. Very Brazilian. Very warm.
— Alan.
O holandês saiu atrás da brasileira antes que eu pudesse corrigir. Encontrou-a perto da
porta entre os vagões, apoiada ao lado da mala. A luz fluorescente deixava tudo mais
cru: o metal, a pele, a vergonha futura.
Pá.
Não foi teatral. Não foi escândalo. Foi apenas uma mão atravessando a distância
correta entre insulto e consequência.
— Escroto.
Tum.
O holandês voltou para a cabine segurando o rosto, completamente perdido.
Alan fechou os olhos como quem tentava não rir num velório.
Não repreendi.
Foi triste.
Havia no jeito dele uma masculinidade mal vestida, grande demais no ombro, apertada
demais no peito. Ele performava desejo por mulheres como quem cumpre tabela para
uma plateia invisível. E, mesmo assim, parecia genuinamente ferido quando a peça não
era aplaudida.
Não na borda.
No centro.
A gordura abriu uma mancha amarela sobre Pequim, bem em cima de uma estação
que eu tinha circulado em azul.
Tentei limpar com o lenço umedecido que Alan tinha comprado. Só espalhei. A mancha
entrou no papel com uma tranquilidade obscena, como se sempre tivesse pertencido à
cidade.
— Sorry, man.
— What?
— Nothing.
Era inevitável.
A noite comprimiu os corpos. O trem avançava por uma China que quase não víamos,
apenas intuíamos em massas escuras, luzes dispersas, cidades que apareciam e
sumiam como pensamentos de alguém acordado no quarto ao lado. O holandês
continuou bebendo até ficar menos expansivo. Depois ficou pálido.
Não estava.
Alan levantou antes de mim, irritado e eficiente. Pegou papel, garrafa de água, um saco
plástico. Eu ajudei o homem a chegar ao banheiro estreito do vagão. O trem sacudia, a
luz piscava, o piso parecia sempre úmido demais. O holandês se curvou sobre a pia,
enorme e frágil, a beleza desmontada por dentro.
Alan, que arrumava a mochila como quem se recusava a demonstrar interesse, parou
por meio segundo.
— Classical? — perguntei.
Riu sozinho.
— I play in Shanghai, Beijing. Nobody listens. They look at phone. Eat. Talk. But piano is
there. Like furniture with sadness.
O holandês abriu a camisa por calor, talvez por descuido. No peito, perto da clavícula,
havia uma tatuagem mínima: uma pauta vazia com uma única nota solta.
— Porra — murmurou.
— O quê?
Desenhou a janela.
Depois Alan dormindo de lado, com o rosto virado para a parede, os braços cruzados
como se até dormindo protegesse uma fronteira.
Não tocando.
Perto.
Pensei que algumas lições chegam antes da palavra que vai nomeá-las.
A cabine, que horas antes parecia pequena demais, tinha mudado de escala. Não ficou
confortável. Não ficou limpa. Não ficou redimida. Continuava cheirando a gordura,
álcool e desinfetante. O mapa continuava manchado. O homem continuava tendo
usado uma mulher como palco da própria masculinidade mal traduzida. Nada se
apagou.
De perto, era um corpo tentando atravessar a noite sem entender a própria legenda.
Quando acordei, a manhã entrava pelas frestas da cortina, branca e sem cerimônia. O
beliche do holandês estava vazio. A sacola de gordura tinha sumido. A garrafa também.
Sobre a mesa, havia uma folha arrancada do caderno.
O desenho.
Alan dormindo.
Eu acordado.
VAI TOMAR NO CU
— Foi.
Entreguei o papel.
Alan leu.
Depois riu.
Não uma risada grande. Uma risada curta, atravessada por sono, culpa e ternura
involuntária.
Isso me surpreendeu.
— Vai guardar?
— Claro.
— Por quê?
Alan colocou o papel dentro do livro que eu tinha levado e não lido.
A primeira lição da China talvez não tivesse vindo do rio, nem dos templos, nem de um
ideograma antigo. Veio de uma cabine estreita, de um homem bêbado e
inconveniente, de uma palavra errada que atravessou a noite e voltou como bilhete.
De trem para Pequim, a paisagem se dissolveu do verde profundo dos rios em fumaça.
Do silêncio líquido de Guilin, mergulhamos na pressa elétrica das avenidas. A capital
exalava óleo fervente, metal quente, trânsito e uma disciplina que não pedia desculpa.
Observei uma senhora que devia ter mais de oitenta anos se equilibrando numa perna
só, serena como uma árvore centenária. Ao lado, seu filho — já grisalho — ajustava a
postura dela com delicadeza.
Parecia pública.
— Nada.
— Alan.
Ele demorou.
E eu não forcei.
Com Alan, o silêncio às vezes era a única forma de não perdê-lo antes da hora.
— Talvez.
Quando virei as costas para ir embora, o velho ergueu os olhos, disse algo em chinês e
apontou para os ideogramas que evaporavam no chão.
O guia traduziu:
Pensei, sem coragem de falar em voz alta: o importante não é a palavra durar, mas o
gesto de escrevê-la.
Antes de ir, o velho molhou o pincel outra vez e desenhou dois caracteres mais lentos,
como se fossem mais pesados:
远近
Apontou para o que tinha escrito, falou algo curto e nos olhou com uma calma sem
pedido.
— Longe-perto.
Primeiro um traço.
Depois outro.
— Sim.
— Sim.
Alan já estava com o celular na mão, mas, pela primeira vez, não filmou de imediato.
Ficou parado, como se alguma coisa nele estivesse escolhendo entre capturar e
entender.
— Porque foi.
— Ainda bem.
Alan olhou em volta: velhos, árvores, bicicletas, vendedores, crianças, homens de terno
atravessando o parque como se o trabalho também precisasse passar por uma manhã
antiga antes de começar.
Tentou no hotel. Tentou na rua. Tentou perto de um café com Wi-Fi. A tela girava,
carregava, falhava. O Instagram não abria. O país inteiro parecia ter colocado a mão na
boca dele.
Bip.
Falhava.
Bip.
Tentava de novo.
Bip.
— Pior ainda.
Ele andava irritado, não apenas pela abstinência de postagem, mas porque a China o
obrigava a experimentar uma temporalidade que ele não escolheria. Filmar sem
publicar era quase um exercício monástico imposto por firewall. Gravar sem resposta.
Ver sem ser visto. Existir sem confirmação imediata.
— E até lá?
Tac.
A primeira entrevista de Alan foi num bar pequeno, no segundo andar de um prédio
comercial que de fora parecia vender capas de celular, chá de bolhas e conserto de
computador. Subimos por uma escada estreita, iluminada por lâmpadas frias. Havia um
adesivo desbotado de coelho na porta, uma cortina preta por dentro e um segurança
muito jovem, com a pele lisa demais para a expressão cansada.
Lá dentro, a música não era alta no começo. Homens jovens conversavam em mesas
pequenas, alguns de camisa social ainda do trabalho, outros com camisetas largas,
cabelo colorido, brincos mínimos, tênis impecáveis. Havia cervejas, cigarros
eletrônicos, luz azul, um espelho comprido no fundo da sala e uma barra vertical presa
entre o chão e o teto, quase escondida no canto.
Não de euforia.
De reconhecimento.
Ele se aproximou de três rapazes que falavam inglês suficiente para desconfiar das
perguntas e mandar embora quem perguntasse mal. Um deles se chamava Ming,
trabalhava com design de interface e tinha morado dois anos nos Estados Unidos.
Outro, Jun, era professor de dança. O terceiro, Hao, tinha vindo de uma cidade
industrial que eu não consegui pronunciar direito e disse apenas que trabalhava “com
fornecedores”, essa palavra global que esconde tanto quanto revela.
Alan riu.
— Também.
Hao riu.
— Bem-vindo.
Alan perguntou primeiro a Jun do que ele sentia falta quando estava longe de casa.
Jun pensou por tanto tempo que achei que não responderia. Usava uma camisa preta
sem estampa, calça larga, tênis branco muito limpo e uma corrente fina no pescoço,
discreta demais para ser provocação, visível demais para ser acaso. Quando falou,
quase não moveu o rosto.
— De não precisar traduzir meu corpo.
A frase parecia ter saído inteira demais para aquele bar pequeno, entre cervejas
mornas, luz azul e homens que riam olhando antes para os lados. Jun sorriu sem
mostrar os dentes, como se tivesse se arrependido da própria precisão.
Não aumentou muito, mas alguma coisa no lugar se reorganizou. Um rapaz apagou o
cigarro eletrônico. Outro encostou as costas na parede. Ming levantou os olhos do
celular. Hao se inclinou para a frente. Jun tirou a camisa preta com a calma de quem
remove uma máscara que dobrou cuidadosamente durante anos e entregou a alguém
fora do quadro.
Virou eixo.
Primeiro tocou o metal com a ponta dos dedos. Não agarrou. Apenas testou. Como se
perguntasse ao próprio corpo se ainda havia permissão. Depois apoiou uma mão, girou
o ombro, deixou o peso cair um pouco para trás e, num impulso mínimo, subiu.
Jun girou uma vez, duas, três. O corpo suspenso, a cabeça inclinada para trás, os olhos
fechados por um segundo longo demais. A boate inteira pareceu prender a respiração.
Havia naquele giro alguma coisa de espetáculo — aquele luxo suado de corpo que sabe
exatamente quando capturar a sala —, mas filtrado por outra disciplina, outra ferida.
Não era abundância. Era contenção incendiada.
Jun prendeu as pernas na barra e inclinou o tronco para trás até ficar quase horizontal,
suspenso, vulnerável e soberano ao mesmo tempo. A luz bateu no peito dele, nos
músculos pequenos entre as costelas, no brilho úmido da pele. Por um instante,
pareceu que ele cairia. Não caiu. Desceu devagar, controlando cada centímetro, como
se a queda também tivesse coreografia.
Apenas respirou.
Ming foi o primeiro a bater palmas. Depois os outros. Não houve grito, não houve
escândalo, não houve catarse grande. Só uma onda curta de reconhecimento, quase
doméstica, como se todos ali soubessem que certas vitórias precisam continuar
pequenas para sobreviver.
— Não perdi.
— Não gravou.
— Eu vi.
A resposta saiu simples, mas alguma coisa nela tinha mudado de lugar.
Jun voltou à mesa, bebeu água e olhou para Alan como se soubesse exatamente o que
tinha acontecido.
Alan demorou.
— O quê?
Jun tocou o próprio peito, depois apontou para a barra, depois para a porta fechada da
boate.
— Longe. Perto.
Nem precisava.
Não imediatamente. Esperou que a música baixasse, que a mesa se recompusesse, que
ninguém precisasse fingir naturalidade depois de ter visto um corpo dizer demais. Ming
contou que tinha morado nos Estados Unidos e que cansara de ver estrangeiros
chamarem de isolamento tudo aquilo que não conseguiam atravessar.
Alan perguntou:
— Às vezes é.
Ming continuou:
— Mas isolamento é uma palavra fácil demais. Às vezes é medo. Às vezes é proteção.
Às vezes é língua. Às vezes é dinheiro. Às vezes é só cansaço de explicar. E às vezes uma
cerca, depois de muitos anos, vira casa.
A frase entrou em mim como uma porta abrindo para um segundo cômodo.
Yuǎn-jìn.
Longe-perto.
— Vocês olham para a China e veem salário baixo — disse Ming, interrompendo. —
Nós olhamos para nossos pais e vemos pessoas que deixaram de passar fome.
— Claro — Ming respondeu. — Mas o Ocidente fala como se tivesse ficado rico
vendendo flor.
Hao apontou pela janela para a avenida iluminada, os prédios novos, as lojas, os carros,
a multidão que ainda passava tarde da noite.
— Quando meu avô era jovem, não tinha nada disso. Agora tem metrô, hospital,
escola, telefone, comida. Não é simples.
O erro do turista é querer que um país caiba numa opinião antes do jantar.
Antes de irmos embora, Alan perguntou aos três se, apesar de tudo, os problemas
deles eram muito diferentes dos nossos.
Ming riu.
— Depende do problema.
Jun respondeu:
— Família sabe algumas coisas. Não sabe outras. Às vezes saber é trabalho demais para
todo mundo.
Depois disse:
— E trabalha? — perguntei.
— E encontrou?
Ele demorou.
Do lado de fora, Pequim brilhava sem pedir licença. Prédios novos, letreiros, bicicletas
elétricas, vendedores recolhendo caixas, trabalhadores varrendo calçadas tarde demais
para serem vistos pelos turistas. Havia menos miséria visível do que meu olhar
esperava encontrar, e isso também denunciava alguma coisa em mim.
Eu tinha chegado procurando uma pobreza que confirmasse uma superioridade antiga.
Não encontrei.
— Qual?
Naquela noite, no hotel, Alan assistiu aos vídeos que tinha conseguido fazer.
Isso o irritava.
Mas também havia algo diferente neles. Não tinham a fome habitual de capturar tudo.
Havia falhas, pausas, trechos sem fala, câmera baixa, pés no chão, vapor de comida,
mãos, janelas, um pedaço de rua visto tarde demais. A ausência dos stories, que no
começo parecera mutilação, tinha produzido uma espécie de sobriedade. Alan não
filmara para responderem. Filmara para guardar.
— Filmou melhor.
Ele sorriu.
— Como assim?
— Eu perguntei o que fica perto quando está longe. Talvez eles tenham respondido que
o longe não muda tanto o problema. Só muda a forma de esconder.
Fiquei quieto.
— Os imperadores vinham para ver e serem vistos — disse o guia. — O jardim muda
conforme o ponto de observação. De cima, parece maior. De baixo, mais íntimo. A
distância altera a forma.
Alan parou.
De baixo, perto da margem, tudo encolhia. A água já não refletia o céu inteiro — só o
trecho à frente.
— Ou parece real.
Não respondi.
O lago refletiu nós dois por um segundo antes que uma brisa chegasse e desfizesse a
imagem.
— Exatamente.
— Isso é pesquisa.
O parque ficava longe o suficiente para que Pequim começasse a parecer outra cidade
dentro da mesma cidade: avenidas largas, prédios repetidos, canteiros impecáveis,
ônibus, grades, placas, uma periferia sem desordem visível. O táxi nos deixou diante de
uma entrada grande demais para a promessa. A porta do carro bateu atrás de nós.
Clac.
Havia bandeiras, bilheteria, uma fonte artificial e, ao fundo, a silhueta impossível de
vários continentes reunidos como se alguém tivesse confundido atlas com condomínio.
Depois uma fachada que queria ser Veneza sem o peso da água.
— Eu quis. Estou feliz e horrorizado. As duas frases podem ser verdade ao mesmo
tempo.
Havia turistas fazendo poses diante dos monumentos, casais com sombrinhas, crianças
correndo entre países que não tinham fronteira, adolescentes apontando celulares
para uma Europa de fibra e tinta. A grama era verde demais. O céu, naquele dia, tinha
um azul lavado, mas o parque reforçava tudo com outro azul: letreiros de LED, painéis,
telas, placas luminosas, refletores escondidos nas bases dos monumentos. Um azul
elétrico, de madrugada antecipada, mesmo sob o sol.
Por perplexidade.
— Potemkin?
— Aldeia cenográfica. Fachada erguida para convencer alguém de longe que ali havia
prosperidade, ordem, vida.
Olhei para a Torre Eiffel falsa, para a pirâmide, para a funcionária varrendo embalagens
de sorvete.
Wei leu, sorriu de lado e apontou para a Torre Eiffel atrás dele.
— Longe e perto?
Wei olhou para as adolescentes que posavam com dois dedos erguidos diante da torre
falsa. Uma delas corrigiu o cabelo, outra repetiu a foto porque a primeira não tinha
ficado boa.
Wei continuou:
— Não.
Disse isso sem ironia. Ou com uma ironia tão seca que já não precisava de expressão.
Apontou para a falsa torre, para a falsa pirâmide, para a falsa Veneza, para uma área
onde dançarinos passavam apressados com figurinos pendurados no braço.
— Todo dia, Paris quebra alguma coisa. Londres precisa de tinta. Egito entope. América
molha quando chove.
Ele demorou.
— E para viver?
Wei olhou outra vez para os monumentos, depois para os funcionários recolhendo
sacos de lixo perto de uma réplica de fonte romana.
Mais tarde, Wei nos levou para os fundos de uma pequena apresentação internacional.
Não era exatamente proibido. Também não era exatamente permitido. Havia uma
passagem lateral, uma porta metálica sem identificação, cheiro de poeira, suor,
maquiagem barata e tecido úmido. O mundo, visto por trás, tinha cabides.
Dançarinas trocavam figurinos em silêncio rápido. Um rapaz vestido com roupa que
deveria lembrar a Espanha passava delineador diante de um espelho rachado. Duas
meninas de saia rodada dividiam uma garrafa de água. Um segurança comia macarrão
instantâneo sentado perto de uma caixa com plumas.
Era trabalho.
Wei chamou um rapaz que estava agachado ao lado de uma mesa de som. Ele regulava
cabos, conferia botões, batia de leve numa caixa acústica e encostava a palma no
equipamento antes de ajustar o volume. Devia ter uns vinte e poucos anos. Cabelo
curto, rosto fechado, uma pequena cicatriz no queixo. Usava uma camiseta preta
desbotada e um crachá torto preso no bolso.
Wei falou algo em mandarim e apontou para Alan. Chen olhou para o celular de Alan,
depois para a câmera, depois para a porta, como se calculasse o tamanho da
interrupção.
“Pergunte escrevendo.”
Digitou:
Chen leu.
Lá fora, a música de uma apresentação começou: uma batida genérica, turística, com
castanholas falsas, tambor programado e um entusiasmo que não pertencia a
ninguém. Chen encostou a mão numa das caixas de som, sentiu a vibração, diminuiu
um pouco o grave. Depois apontou para a própria garganta.
Apontou de novo para a garganta. Depois para Alan. Depois fez um gesto pequeno com
a mão, pedindo licença.
Alan entendeu.
Chen aproximou dois dedos do pescoço de Alan e encostou de leve na laringe dele.
O gesto era íntimo demais para aquele lugar. Não erótico. Pior: exato. Havia uma
vulnerabilidade estranha em ver Alan, que se oferecia sem medo ao olhar, hesitar
diante de um toque mínimo no lugar onde a voz nascia.
— Fala — eu disse.
A luz azul da mesa de som desenhava uma linha fria no maxilar dele.
— Eu estou aqui.
Chen sorriu.
Não um sorriso bonito. Um sorriso pequeno, técnico, quase satisfeito, como quem
confirma que uma máquina voltou a funcionar. Tirou a mão, digitou no celular e
mostrou:
“Agora perto.”
Eu senti uma inveja curta, feia, imediata. Não da intimidade. Da simplicidade. Chen
tinha tocado a voz de Alan sem precisar decifrar Alan inteiro. Tinha recebido dele uma
presença mínima, física, anterior ao sentido. Eu, que ouvia todas as palavras, quase
nunca sabia onde elas começavam.
“Som é longe quando fica no ar. Perto quando toca alguma coisa.”
Chen olhou para ele e mostrou o dedo do meio com a mesma serenidade com que
regulava o som.
Alan riu.
Eu também.
Foi importante que ele fosse engraçado. Que não fosse aparição. Que tivesse
impaciência, trabalho, grosseria, tédio. A beleza, quando vem pura demais, vira
mentira. Chen voltou aos cabos antes que conseguíssemos transformá-lo em símbolo.
Alan parou.
— O quê?
— Uma Buenos Aires falsa dentro de Pequim com dois chineses dançando tango para
ninguém.
Pensei em dois homens deslocados, numa dança importada, no amor como país onde
ninguém consegue regularizar residência.
Alan me olhou.
— Vem.
— Não.
— Vem.
— Já paguei ingresso.
— Então aproveita.
Não fomos para o centro. Ficamos num canto, perto de uma parede pintada de azul
profundo, um azul de cenário noturno, artificial demais para ser céu e triste demais
para ser festa. A música continuava baixa. Os dançarinos nos olharam, riram entre si e
deixaram. Talvez estivessem acostumados a turistas idiotas. Talvez tivessem
reconhecido alguma coisa.
Conduzia mal.
Não porque não soubesse mover o corpo. Alan sabia. O problema era outro. Ele queria
mandar no passo e escapar dele ao mesmo tempo.
Eu antecipei.
Pisei no pé dele.
— Ai, porra.
Tentamos de novo.
Eu recuei menos.
Por dois ou três segundos, quase deu certo.
Quase.
O tango não era sobre paixão. Era sobre distância administrada. Dois corpos fingindo
fusão enquanto negociam, a cada passo, o espaço mínimo para continuar inteiros.
— Tarde demais.
— Eu devia ter dançado com Chen. Ele pelo menos não ouviria.
— Mas sentiria.
Alan me olhou.
Atrás dele, a falsa Buenos Aires acendeu uma fileira de luzes azuis. A cidade
cenográfica ficou bonita de repente — não verdadeira, não convincente, apenas
bonita. O tipo de beleza que não engana, mas acompanha.
— É difícil — disse.
— O quê?
Não respondi.
Quando saímos do parque, o céu real já escurecia. O azul dos LEDs começava a vencer
o azul do dia. A Torre Eiffel falsa brilhava atrás de nós com uma dignidade absurda.
Crianças ainda corriam entre continentes. Funcionários recolhiam lixo. Wei atravessava
a praça carregando um rolo de cabo no ombro. Chen, ao fundo, empurrava uma caixa
de som pequena demais para tanto mundo.
Pouco.
A câmera passou pela torre, pela pirâmide, pela placa luminosa, pelo chão molhado
perto de uma fonte, por uma funcionária tirando o sapato atrás de uma pilastra.
Depois parou em Wei, que nos viu e levantou a mão sem entusiasmo.
— Não.
— Ficou o quê?
E, depois de um segundo:
Vruum.
Pensei que talvez yuǎn-jìn não fosse só uma distância entre dois corpos. Talvez fosse
também a crueldade das réplicas. Aquilo que parece perto porque foi reproduzido, mas
continua longe porque não foi vivido.
A panela fervia no centro da mesa, dividida por uma lâmina curva de metal: de um
lado, um caldo claro, quase doméstico, com gengibre, cebolinha e uma gordura
discreta brilhando na superfície; do outro, um caldo vermelho, furioso, coberto de
pimenta, óleo e grãos que pareciam pequenos avisos de incêndio. A mesa inteira
respirava vapor. O cheiro vinha em camadas: carne crua, alho, cogumelo, coentro, óleo
quente, algo mineral subindo da panela como se a água tivesse aprendido a ameaçar.
O garçom trouxe lâminas finas de carne, cogumelos, folhas, tofu, raízes que eu não
sabia nomear, bolinhos de peixe, macarrão transparente, ovos de codorna, pedaços de
lotus root cortados como pequenas engrenagens vegetais. Nada vinha pronto. Era
preciso mergulhar, esperar, retirar. Errar o tempo estragava tudo: antes, cru; depois,
borracha.
Alan pegou um pedaço de carne com os hashis e ficou olhando para a panela como
quem encara um problema estrutural.
— Quanto tempo?
— Pouco.
— Pouco quanto?
— O suficiente.
— Resposta de oráculo preguiçoso.
Contou três segundos, tirou, achou cedo, devolveu, esqueceu enquanto me olhava com
desconfiança, resgatou tarde demais. Mastigou com expressão de derrota.
Rimos.
Depois ele tentou de novo. Dessa vez, esperou menos. A carne saiu macia, quente,
quase doce sob a pimenta. Alan mastigou em silêncio, como se detestasse admitir que
tinha aprendido alguma coisa com uma panela.
— Isso o quê?
Ele pegou outro pedaço, mergulhou por menos tempo, soprou, provou.
— Melhor.
— Viu?
Na mesa ao lado, uma família comia sem pressa. A avó colocava pedaços de carne na
tigela de um menino antes que ele pedisse. O pai retirava folhas do caldo vermelho e
passava para o claro, como se negociasse intensidade. A mãe soprava o macarrão antes
de entregar à criança. Ninguém anunciava cuidado. Faziam. A proximidade ali tinha
método: escolher, mergulhar, esperar, retirar, oferecer.
— Estou.
O vapor embaçou os óculos dele. Ele tirou, limpou na camiseta e ficou por alguns
segundos com o rosto mais nu, menos definido pela moldura.
— Sabe o que é irritante? — disse.
— O quê?
— Essa comida não deixa ninguém fingir que é independente. Sempre tem alguém
tirando alguma coisa da panela antes que passe do ponto.
— Isso é bonito.
— É trabalhoso.
A pimenta tinha deixado a boca dele mais vermelha. O vapor subia entre nós e, por
alguns segundos, deformava o rosto de Alan como um vidro molhado. Perto, longe,
perto de novo. Ele estava ali, a menos de um metro, e ainda assim havia uma distância
dentro dele que nenhuma mesa atravessava sem licença.
Alan pegou uma fatia de lotus root, mergulhou no caldo claro, esperou, colocou na
minha tigela.
Comi.
Era crocante, delicado, quase sem gosto próprio, mas cheio do caldo que tinha
atravessado. Talvez algumas coisas só aprendessem sabor por contato.
Na terceira noite, brigamos por causa de um mapa.
Eu queria encaixar Pequim inteira em dois dias: Cidade Proibida, Templo do Céu,
hutongs, mercado noturno, parque, museu, chá, jantar, táxi, trem. Alan queria dormir
até mais tarde e sair sem objetivo, como se a cidade não fosse desaparecer se a gente
não a consumisse a tempo.
O mapa estava aberto sobre a cama do hotel como uma pele esticada. Avenidas, rios,
estações, nomes que eu não sabia pronunciar. Eu tinha marcado círculos, horários,
setas, pequenas prioridades coloridas. Cada cor parecia uma tentativa de impedir que
alguma coisa escapasse. Havia também a mancha amarela do trem, já seca, um sol
errado sobre Pequim, e uma dobra torta feita por Alan ao tentar guardar o papel sem
paciência.
Alan saiu do banho com a toalha na cintura, olhou o mapa e riu sem som.
— Estou organizando.
— A gente sempre tem pouco tempo. Essa é a desculpa preferida da sua ansiedade.
— Não é aproveitar.
— É o quê?
— Garantir.
— Garantir o quê?
— Que nada escapa. Que eu não escapo. Que o mês não escapa.
— Isso é injusto.
— É preciso.
— Eu vim pra China com você — ele disse, mais baixo. — Não pra ser fixado no seu
roteiro como ponto turístico.
— E você? — perguntei. — Você aceitou vir por quê? Pra provar que consegue ir
embora até dentro da viagem?
Alan me olhou.
Ali, eu soube que tinha acertado alguma coisa que não deveria.
— Isso o quê?
Fiquei quieto.
Ele pegou o mapa, dobrando com uma calma agressiva. Errou o vinco. A dobra
atravessou um pedaço da cidade que eu tinha circulado em azul. Ele tentou corrigir,
mas o papel guardou a marca.
— Para.
— Eu estou tentando.
— De quê?
Eu quis responder. Quis explicar que comprar a China não era prisão, era gesto; que eu
não queria cercá-lo, queria viver; que eu tinha medo, sim, mas medo também era uma
forma torta de amor. Mas tudo soava pequeno diante do mapa torto entre nós.
Ficou de costas.
— Eu sei.
— Não sabe. Você sabe a versão bonita disso. A versão que vira frase.
Ele demorou.
— A versão feia é que, quando eu sinto que alguém precisa demais de mim, eu começo
a procurar saída até onde não tem porta.
Aquilo.
Não respondi.
Alan olhou de novo para o mapa aberto, para as marcações, para a pasta no celular,
para os horários que eu tinha anotado como se o futuro obedecesse a caneta.
— Não.
— Meu roteiro?
— Medo.
— Medo de quê?
— De que, se a gente parar de se mexer, você veja que o mês continua acabando.
Tum.
Talvez nada.
Eu não ouvia sons. Ouvia prazos. Cada ruído pequeno da viagem era um cronômetro
clandestino me avisando que Alan já estava indo embora, mesmo quando ainda
caminhava ao meu lado.
O zíper fechou.
— Qual?
— É filosofia meteorológica.
No mesmo dia, a chuva nos pegou dentro do Parque do Templo do Céu como se
alguém tivesse fechado uma cortina no mundo.
Não era garoa de foto bonita. Era água grossa, reta, impiedosa — em dois segundos o
pátio virou espelho quebrado.
Alan estava alguns passos à frente, perto das cordas de isolamento, olhando para cima
com aquela expressão de quem se sente pessoalmente ofendido pelo clima.
Veio comigo para a galeria coberta: madeira pintada, cores já gastas pelo tempo,
detalhes de dragões e nuvens como se o teto tivesse decidido ser céu no lugar do céu.
Pá-pá-pá-pá.
O cheiro de terra molhada entrava em ondas, junto com um frio rápido que pegava na
nuca.
— Quando você tava tirando foto da mesma árvore de cinco ângulos diferentes.
— Era uma árvore importante.
Mordi o baozi.
Estava morno só por nostalgia; a massa tinha aquela textura de coisa que já desistiu de
ser macia. Mas o recheio ainda soltava um vapor mínimo.
Alan riu.
O mapa, aberto no colo dele, começou a receber respingos que furavam o papel como
se a água quisesse apagar rotas. Alan tentou proteger dobrando rápido, errou o vinco
de novo e ficou com raiva do próprio erro.
Eu ri.
E a frase me bateu por dentro: as cidades também pegam o cheiro do que a gente vive
nelas.
— No próximo voo.
— Isso o quê?
— Para. Fica parado sem produzir lembrança. Sem roteiro, sem corrida, sem você
tentando transformar uma terça-feira em documento histórico. Só aqui.
O rosto mais relaxado, os ombros soltos, uma expressão que eu via pouco — quase
criança.
— E você gosta?
— Gosto. Principalmente porque você fica insuportável quando não tem controle.
— Obrigado.
— De nada.
A frase ficou no ar com um peso indevido, como se alguém tivesse colocado uma pedra
dentro do bolso do casaco.
— Termina interessante.
Me arrastou até a beirada do teto, onde a chuva caía mais forte. Estendeu a mão para
fora e deixou a água bater na palma.
— Coloca a mão.
Coloquei.
— Pronto — disse. — Agora a gente tem uma memória ridícula que ninguém mais vai
entender.
Eu ri.
— Memória ridícula?
— É. Daqui a dez anos, se alguém perguntar “qual foi o momento mais romântico da
China”, a gente vai ter que responder “mão molhada no templo com baozi ruim”.
Não beijou.
Apenas apertou meus dedos uma vez, rápido, como quem assina presença sem fazer
contrato.
Quase.
Mas inteiro.
A chuva diminuía.
— Dá.
Ficamos mais alguns minutos ali, sob os dragões pintados, dividindo os últimos
biscoitos de gergelim, ouvindo a água escorrer pelas calhas.
Naquela noite, no quarto do hotel, com o mapa aberto sobre a cama como uma pele
esticada, procurei no celular a palavra que o velho tinha escrito na água.
远近.
Yuǎn-jìn.
Literalmente: longe-perto.
Li em voz alta.
Alan estava deitado, descalço, a caneta na mão, marcando no mapa os lugares que
ainda faltavam. O mapa agora tinha tudo: os círculos que eu fizera, a dobra errada dele,
os respingos da chuva, a mancha amarela de gordura, um vinco atravessando a cidade
como cicatriz.
— Como assim?
Ele encostou a caneta no papel e puxou um traço curto, como quem desenha um
limite.
Depois outro.
— E aqui?
Ele passou a ponta da caneta sobre uma área onde minhas marcações se acumulavam
demais: círculos, setas, horários, nomes, uma pequena ansiedade colorida tentando
impedir que a cidade escapasse.
— Aqui não.
Eu ouvi o coração dele bater devagar, tentando acreditar que medida é coisa que se
aprende.
— Yuǎn-jìn — murmurei.
Uma fome simples, sem teoria, humilhante. O corpo, que durante o dia aceitara
paisagem, conceito, réplica e legenda, agora pedia qualquer coisa que não fosse
pensamento. Alan percebeu antes de mim.
— Não.
O mapa estava ali, aberto sobre a cama: a mancha amarela de gordura num pedaço da
cidade, a dobra torta da briga, os pontos marcados pelo meu medo, o traço curto — o
limite — que ele tinha desenhado com a caneta. Pequim marcada como pele. Nosso
longe-perto rabiscado como sentença doméstica.
Ao lado, no livro que eu não tinha lido, estava o desenho do holandês dobrado em
quatro.
A mão dele tinha desenhado melhor do que eu lembrava. Não havia caricatura. Não
havia deboche. Havia cansaço. Havia a mesa estreita. Havia o mapa ferido. Havia dois
corpos separados por poucos centímetros e uma distância que nenhuma cabine
resolvia.
Não era o celular. Era o relógio pequeno do criado-mudo, um retângulo preto com
números vermelhos que eu mesmo tinha programado na noite anterior, como se
obedecer ao horário fosse uma forma de atravessar a perda com alguma dignidade.
Alan ainda dormia de lado, uma perna fora do lençol, o rosto afundado no travesseiro,
a boca entreaberta. O som parecia indecente dentro do quarto. Não alto. Pior: pontual.
O alarme parou.
Não havia mais som, e ainda assim alguma coisa dentro de mim continuava marcando
o tempo. O voo estava no relógio, mas também estava na mala aberta, na camiseta de
Alan jogada sobre a cadeira, no passaporte dentro da pochete preta, na conta do hotel
que ainda seria fechada, no futuro exercendo sua função vulgar de chegar.
Depois outro.
Depois todos.
O relógio piscou.
Bip.
Como se zombasse.
Quase nada.
Uma caixa plástica, números vermelhos, a arrogância dos mecanismos baratos que
acham que podem anunciar o fim.
Uma vez.
Crac.
O plástico abriu.
Alan acordou.
Não se assustou como eu esperava. Apenas abriu os olhos devagar, olhou para o chão,
depois para mim, depois para o relógio quebrado.
— Dan.
Só isso.
Fiquei com o relógio partido na mão, ridículo, adulto e criança ao mesmo tempo.
Eu tinha quebrado o relógio como quem mata o mensageiro. Mas o tempo não morava
ali. Morava em tudo que eu não podia partir ao meio: o bilhete eletrônico, o
calendário, o corpo de Alan levantando da cama, a toalha jogada no banheiro, o
passaporte, o mês, a manhã.
— Não.
Ele levantou, pegou papel no banheiro, molhou, voltou e segurou minha mão sem
solenidade. Limpou o corte com cuidado, irritado e preciso.
— Eu sei.
— Não sabe.
— Sei agora.
Não consolou.
Na última manhã, antes de irmos embora, Alan tentou editar alguma coisa.
Cortou o excesso. Deixou menos do que teria deixado no Brasil. Deixou Ming falando
da cerca que vira casa. Deixou Hao olhando para baixo antes de falar do namorado
salvo como colega. Deixou Jun sentado antes da dança, camisa preta, corrente fina,
dizendo que sentia falta de não precisar traduzir o corpo. Deixou o velho escrevendo
na água, mas só até a palavra começar a desaparecer. Deixou a pipa de um menino
subir fora de foco. Deixou vapor de hot pot cobrir a tela por tempo demais. Deixou
uma rua iluminada demais para parecer pobre e disciplinada demais para parecer livre.
Deixou a própria mão dele tentando abrir o Instagram e falhando.
A legenda ficou simples:
Longe/perto.
— Está chato?
— Está bonito.
— Está quieto.
A tela carregou, falhou, girou em falso. Alan tentou outra vez, depois desistiu. O vídeo
existia, mas não circulava. A série estava pronta e presa dentro do aparelho, como uma
carta escrita num idioma que ainda não atravessara a fronteira.
— E até lá?
E talvez tenha sido ali, mais do que no rio Li, mais do que no trem, mais do que no
velho escrevendo com água, mais do que na chuva do Templo do Céu, que a China nos
entregou alguma coisa. Não uma lição. Lição teria sido arrogância. Entregou um traço:
a possibilidade de que o afeto não precise sempre se declarar como incêndio para
existir. Às vezes ele se organiza como intervalo, tarefa, presença sem plateia.
Você viu?
Você chegou?
Você comeu?
Encontrou presença.
Longe-perto.
Na verdade, tinha nos dado apenas o nome daquilo que ainda íamos fracassar em
viver.
Ele postou parte deles depois, claro. Editou, cortou, legendou, transformou em série,
recebeu comentários, salvamentos, mensagens de gente dizendo que chorou, que
pensou na mãe, que queria ir à China, que não sabia que lá era assim, que Jun era
lindo, que Ming era preciso, que Hao parecia triste, que o velho escrevendo na água
parecia cinema. A internet devolveu a experiência em forma de reação, como sempre
faz: mastigada, repartida, iluminada por corações vermelhos.
Trechos ruins.
Tremidos.
Longos demais.
Silenciosos demais.
Partes em que a câmera caía para o chão. Um pedaço do meu braço. Uma rua sem
nada acontecendo. A mão dele limpando a lente. Um reflexo nosso no vidro do trem. O
mapa manchado. O desenho do holandês. Jun antes de dançar. Jun depois de dançar. A
tela falhando. A minha voz fora de quadro perguntando se ele estava gravando. A voz
dele respondendo:
— Não sei.
A taça no hotel.
Tlin.
A mala no corredor.
Tuc-tuc-tuc.
O trem engatando.
Trac.
Tum.
O celular falhando.
Bip.
Crac.
Depois entendi que eram a trilha clandestina do fim. A caixa-preta não guarda apenas
imagens. Guarda ruídos.
Meses depois, quando eu já não podia perguntar a Alan o que ele tinha visto, usei
aqueles arquivos como caixa-preta.
Vi a China que eu tinha atravessado sem entender. Não a China inteira — isso seria
indecente —, mas a China que tinha encostado em nós: próspera e vigiada, antiga e
elétrica, disciplinada e contraditória, menos pobre do que meu olhar esperava, mais
ferida do que meu roteiro conseguia registrar. Vi a juventude gay no segundo andar de
um prédio comercial. Vi corpos que sabiam esconder. Vi fábricas entrando na conversa
como avôs. Vi que a distância cultural era real, mas não absoluta. Família, trabalho,
dinheiro, corpo, vergonha, mãe, desejo: tudo mudava de idioma, mas nem tudo
mudava de dor.
Vi também o parque.
A Torre Eiffel falsa sob luz azul. A pirâmide com um cabo preto atravessando a base. A
funcionária tirando o sapato atrás da pilastra. Wei carregando um rolo de fio no ombro,
fazendo a manutenção do mundo. Chen encostando dois dedos na garganta de Alan
para sentir uma frase que não podia ouvir. A falsa Buenos Aires acesa depois do
expediente. Nossos pés errando uma dança importada dentro de uma cidade
cenográfica.
E havia a China no meio: grande demais para virar lição, perto demais para continuar
sendo ideia.
Talvez risse.
Talvez visse.
Chamei de Yuǎn-Jìn.
Começava com os Alpes, porque a primeira imagem da China não tinha sido chinesa.
Começava com aquilo que ninguém esperava. Depois vinha a cédula de Guilin, as
montanhas desaparecendo no nevoeiro, o homem do mercado organizando raízes
antes dos turistas, o Buda que não sangrava, a caligrafia que não me dizia nada, o velho
escrevendo na água, a barra da boate vazia depois da dança, o lago do Palácio de Verão
desfazendo nosso reflexo, o World Park iluminado em azul, o mapa manchado, o hot
pot fervendo, a mão de Alan tentando postar e falhando.
— Agora a gente tem uma memória que ninguém mais vai entender.
Só deixei a chuva.
Talvez escrever seja isso: voltar ao arquivo depois da queda e descobrir que a caixa-
preta não explica o desastre.