ESTADO DE MATO GROSSO
PODER JUDICIÁRIO
PLANTÃO DA COMARCA DE VÁRZEA GRANDE
DECISÃO
Processo: 1038374-79.2023.8.11.0002.
AUTORIDADE: POLÍCIA JUDICIÁRIA CIVIL DO ESTADO DE MATO GROSSO, MINISTÉRIO PÚBLICO DO ESTADO
DE MATO GROSSO
RÉU PRESO: ALEXANDRE DE ALMEIDA LORENZI, JULIANO LORENZI DE ALMEIDA
TERMO DE AUDIÊNCIA DE CUSTÓDIA
AUTO DE PRISÃO EM FLAGRANTE – 1038374-79.2023.8.11.0002
Presentes:
Juíza de Direito: Henriqueta Fernanda C. A. F. de Lima
Ministério Público: CESAR DANILO RIBEIRO DE NOVAIS
Defensor Público ou Advogado(a): Maila Aletea Zanatta Cassiano Ourives (Defensora Pública)
Flagranteado(a):Alexandre de Almeida Lorenzi e Juliano Lorenzi de Almeida
Ao terceiro dia do mês de novembro do ano de dois mil e vinte e três, na sala de audiência híbrida,
onde se encontravam presentes a Excelentíssima Senhora Doutora Henriqueta Fernanda C. A. F. Lima, MMª. Juíza de Direito,
comigo assessor de gabinete, a quem a MMª. Juíza ordenou que, após as formalidades de estilo, levasse a público o pregão da
audiência de custódia, no Auto de Prisão em Flagrante.
Feito o pregão, certificou-se a presença do Promotor de Justiça, do Defensor
Público/Advogado constituído e do flagranteado.
Nos termos da decisão proferida na Medida Cautelar - ADPF n° 347 do STF, com fundamento no
artigo 5º, incisos XXXV e LXII da CRFB/88, art. 7º, item 5, da Convenção Americana de Direitos Humanos (Pacto de San
José da Costa Rica), promulgada por meio do Decreto Presidencial nº. 678, de 06 de novembro de 1992 e art. 9°, 3 do Pacto
Internacional sobre Direitos Civis e Políticos de Nova Iorque, bem assim Resolução 213/2015 – CNJ, a MMª. Juíza de Direito
declarou aberta a presente AUDIÊNCIA DE CUSTÓDIA, com a apresentação do(s) flagranteado(s) que teve a prévia
oportunidade de entrevista reservada com o Defensor Público atuante na Comarca.
Aberta a audiência, nos termos da Lei n. 11.419/2006, as partes asseveraram não se oporem à
gravação do(s) depoimento(s) em áudio e vídeo, ouvindo-se, então, o(s) presente(s) na forma supracitada. Todos ficam desde já
advertidos acerca da vedação de divulgação não autorizada dos registros audiovisuais a pessoas estranhas ao processo. Os
depoimentos gravados por meio audiovisual estarão à disposição das partes, bastando, para tanto, que consultem o Auto de
Prisão em Flagrante no sistema do PJE/TJMT.
Dada a palavra ao representante do Ministério Público, este apresentou manifestação oral,
requerendo, em síntese, pela homologação do flagrante e pela concessão da liberdade provisória vinculada aos custodiados.
Dada a palavra à Defesa, reitera o pedido de concessão de liberdade de ambos conforme já
manifestado nos autos.
A seguir, pela MMª. Juíza foi proferida a seguinte decisão:
Vistos em regime de plantão de custódia.
Cuida-se de comunicação de prisão em flagrante deAlexandre de Almeida Lorenzi e Juliano
Lorenzi de Almeidadevidamente qualificada no Auto de Prisão em Flagrante, pela prática, em tese, do crime tipificado no art.
155, §4º, inciso II e IV, do Código Penal.
Os autos me vieram conclusos.
Eis o breve relatório. Fundamento e Decido.
De pronto, verifico que a autuação em flagrante está formal e substancialmente perfeita, razão pela
qual HOMOLOGO.
Com a vigência da Lei n. 12.403/2011, antes da condenação definitiva, o sujeito só pode ser preso
em três situações: flagrante delito, prisão preventiva e prisão temporária. Mas, somente poderá permanecer preso nas duas
últimas, não existindo mais a prisão em flagrante como hipótese de prisão cautelar garantidora do processo. Ninguém responde
mais preso a processo em virtude da prisão em flagrante, a qual deverá se converter em prisão preventiva ou convolar-se em
liberdade provisória.
Dessa forma, resta verificar se é caso de convolar a prisão em flagrante em liberdade provisória
com, ou sem, aplicação de medidas cautelares diversas da prisão ou, ainda, decretar a prisão preventiva do custodiado.
Como se sabe, a prisão cautelar somente pode ser decretada quando fizer necessária, conforme se
verifique ou não a presença de seus pressupostos e condições de admissibilidade, consoante os artigos 312 e 313 do CPP.
Com efeito, o primeiro pressuposto da prisão preventiva é o “fumus comissi delicti”, isto é, a
fumaça da prática do delito, também denominada de “fumus boni iuris”, cujos requisitos são a prova da materialidade
delitiva e indícios de autoria.
Nesse passo, as provas da materialidade delitiva e da autoria estão encartadas nos autos,
consubstanciadas no boletim de ocorrência, depoimento dos policiais que efetuaram a prisão, e o interrogatório do próprio
flagrado.
Depreende-se do Boletim de Ocorrência que:
APÓS A EQUIPE DE INVESTIGADORES TOMAREM CONHECIMENTO DA PRÁTICA
DELITIVA ATRAVÉS DO BOLETIM DE OCORRÊNCIA 2023.312343 ENTRAMOS EM
CONTATO COM A VÍTIMA ONDE ELE INFORMOU QUE LOGO APÓS O ROUBO
ENTROU EM CONTATO COM O BANCO SICREDI E REALIZOU O BLOQUEIO DO
CARTÃO DE CRÉDITO E FOI INFORMADO QUE OS SUSPEITOS REALIZARAM
DIVERSAS COMPRAS COM O CARTÃO EM DOIS ESTABELECIMENTOS COMERCIAIS,
SENDO QUATRO COMPRAS NA DISTRIBUIDORA DE BEBIDAS GOIAS NO VALOR DE
R$ 106,50 REAIS E SETE COMPRAS EM NOME DE JULIANO LOURENZI DE ALMEIDA
NO VALOR R$ 48,00; EM CONTINUIDADE NAS DILIGENCIAS DESLOCAMOS ATÉ AO
ENDEREÇO DO SUSPEITO JULIANO E LÁ ESTANDO ELE NOS ATENDEU E EM
CONVERSA ADMITIU QUE REALIZOU VÁRIAS TRANSAÇÕES NO SEU CELULAR NO
APLICATIVO INFINITE PAY E QUE SEU PRIMO E NOME ALEXANDRE DE ALMEIDA
LORENZI HAVIA FORNECIDO O CARTÃO; O SUSPEITO JULIANO APRESENTOU O
CARTÃO UTILIZADO SENDO CARTÃO BANCO SICRETDI 5345.2044.4857.2470; O
SUSPEITO JULIANO ENTROU EM CONTATO COM ALEXANDRE E ONDE ESTEVE
PRESENTE NO LOCAL, E AFIRMOU PARA A EQUIPE QUE HAVIA ENCONTRADO O
CARTÃO PRÓXIMO A DISTRIBUIDORA ESQUINÃO, E ADMITIU AINDA PARA EQUIPE
QUE REALIZOU QUATRO TRANSAÇÕES NO ESTABELECIMENTO NA
DISTRIBUIDORA GOIÁS E LOGO APÓS ENTREGOU O CARTÃO PARA SEU PRIMO
JULIANO. DIANTE DOS FATOS OS SUSPEITOS FORAM CONDUZIDOS PARA
DELEGACIA E APRESENTADO PARA AUTORIDADE POLICIAL E DEMAIS
PROVIDENCIAS DE PRAXE – ID n. 133495204.
O segundo pressuposto da prisão processual é o “periculum libertatis”, ou seja, é o perigo da
permanência do autuado em liberdade, que nos autos não se mostra [Link].
Vale salientar que o art. 312, elenca as hipóteses em que o Juiz poderá decretar a prisão
preventiva, dentre elas, para garantia da ordem pública, da ordem econômica, por conveniência da instrução criminal, ou para
assegurar a aplicação da lei penal.
Nesse talante, volvendo os olhos para os autos, nota-se que estão ausentes os requisitos legais, pois
não se verificam qualquer das hipóteses suso mencionadas. Numa cognição sumária, própria do momento processual, verifico
que o cenário delineado nos autos não indica a presença do risco à ordem pública, à ordem econômica, à aplicação da lei penal,
tampouco à instrução criminal, nem a hipótese dos autos se subsume ao disposto no art. 313, CPP, revelando-se a segregação
cautelar despicienda, por ora.
Ademais, não se há notícias de que o custodiado possui condenações criminais anteriores da
presente data, o que demonstra que a concessão da liberdade provisória é a medida de rigor.
Nesse sentido, consigno que o custodiado não possui nenhum predicado negativo que
demonstrasse que a sua prisão preventiva deve ser adotada no caso em tela.
Ainda, vale colacionar que, por mais que as circunstâncias do crime apurado nestes autos é deveras
grave, tal situação, por si só, não é motivo suficiente para o decreto preventivo. Destarte, a gravidade do delito, somado a
ausência de fatores que demonstram que o agente voltará a delinquir não são argumentos críveis para o decreto segregatório,
de forma que fica ausente alguns dos requisitos para o decreto preventivo. Nestes termos, vejamos o entendimento exarado
pelo e. TJMT:
A gravidade em abstrato do crime supostamente praticado e a presunção de que, solto, o
paciente voltará a delinquir e se furtará das suas responsabilidades penais não são
fundamentos suficientes para demonstrar a imprescindibilidade da prisão preventiva para a
garantia da ordem pública e aplicação da lei penal.
A ausência de localização do denunciado para responder ao chamamento judicial, por si só,
não constitui razão apta ao seu encarceramento cautelar, quando evidenciado do cotejo dos
autos que o mesmo postulou pela apresentação espontânea.
Com o advento da Lei n. 12.403/2011, a prisão cautelar passou a ser, mais ainda, a mais
excepcional das medidas, devendo ser aplicada somente quando comprovada a inequívoca
necessidade, devendo-se sempre verificar se existem medidas alternativas
à prisão adequadas ao caso concreto. (N.U 1010628-48.2023.8.11.0000, CÂMARAS
ISOLADAS CRIMINAIS, RUI RAMOS RIBEIRO, Segunda Câmara Criminal, Julgado
em 18/07/2023, Publicado no DJE 21/07/2023) .
Outrossim, colaciona-se, ainda, que o advento da Lei 12.403/2011, algumas medidas cautelares,
distintas da segregação cautelar, foram introduzidas no ordenamento jurídico pátrio com fito de que só em situações
estritamente necessárias a custódia se dará. Acerca de tais medidas, leciona Luiz Flávio Gomes[1], “a prisão preventiva não é
apenas a ultima ratio. Ela é a extrema ratio da ultima ratio. A regra é a liberdade; a exceção são as cautelares restritivas da
liberdade (art. 319, CPP); dentre elas, vem por último, a prisão, por expressa previsão legal”. Acerca dessas medidas
cautelares diversas da segregação, o [Link] destacou que:
HABEAS CORPUS. FURTO QUALIFICADO. PRISÃO PREVENTIVA. REVOGAÇÃO.
POSSIBILIDADE. GRAVIDADE ABSTRATA. REINCIDÊNCIA. CRIME COMETIDO SEM
VIOLÊNCIA. FUNDAMENTAÇÃO INIDÔNEA. APLICAÇÃO DE MEDIDAS CAUTELARES
ALTERNATIVAS À PRISÃO. CABIMENTO. ORDEM CONCEDIDA.. LIMINAR
RATIFICADA. 1. A custódia cautelar não pode ser imposta com base, essencialmente, na
gravidade abstrata do delito, assentada a motivação em elementos inerentes ao próprio tipo
penal. Cumpre ao Magistrado vincular seu decisum a fatores reais de cautelaridade, o que
não ocorreu na espécie com relação ao paciente. 2. O delito em questão teria sido cometido sem
violência ou grave ameaça à pessoa, existindo a possibilidade de, em caso de condenação, ser
fixado regime inicial diverso do fechado. 3. Ordem concedida a fim de revogar a prisão preventiva
do paciente, ressalvando ao Juízo de primeiro grau a possibilidade de decretação de nova prisão,
caso apresentados elementos concretos, bem como admitida a aplicação de medidas cautelares.
Liminar ratificada. (STJ - HC: 707882 SP 2021/0373300-9, Data de Julgamento: 28/06/2022, T6 -
SEXTA TURMA, Data de Publicação: DJe 30/06/2022). – negritos nossos.
AGRAVO REGIMENTAL NO HABEAS CORPUS. PRISÃO PREVENTIVA. LEI 13.964/2019.
PRISÃO EM FLAGRANTE. CONVERSÃO EX OFFICIO. ILEGALIDADE. AGRAVO
DESPROVIDO. 1. A Lei n. 13.964/2019 promoveu diversas alterações processuais, deixando clara
a intenção do legislador de retirar do Magistrado qualquer possibilidade de decretação ex officio
da prisão preventiva. 2. A partir das inovações trazidas pelo Pacote Anticrime, a prisão
preventiva somente poderá ser decretada mediante requerimento do Ministério Público, do
assistente ou querelante, ou da autoridade policial (art. 311 do CPP). Orientação atual da
Terceira Seção deste STJ. 3. Mesmo nas hipóteses de descumprimento de medidas cautelares
anteriormente impostas, o artigo 282, § 4º do CPP é claro ao disciplinar que eventual
decretação da prisão preventiva deve ser precedida de requerimento, sendo ilegal a atuação
de ofício do magistrado. Precedentes. 3. Agravo regimental deprovido. (STJ - AgRg no HC:
668536 AM 2021/0157257-3, Relator: Ministro RIBEIRO DANTAS, Data de Julgamento:
10/08/2021, T5 - QUINTA TURMA, Data de Publicação: DJe 17/08/2021). – negritos nossos.
Ademais, observa-se que o órgão ministerial pugnou pela concessão da liberdade provisória do
custodiado e, assim sendo, não resta alternativa para este Juízo que não a concessão da liberdade provisória, pois a nova
redação do art. 311, do Código de Processo Penal, advinda com a Lei 13.964/2019 (Pacote Anticrime), veda o decreto de
qualquer prisão de ofício por parte do Magistrado.
Posto isso, CONCEDO a liberdade provisória ao flagrado Alexandre de Almeida Lorenzi e
Juliano Lorenzi de Almeida, condicionado ao pagamento de fiança que FIXO em 1 (um) salário mínimo vigente,
devendo ser pago no prazo de 5 (cinco) dias, sob pena de ser decretada a prisão preventiva nos termos do art. 325, inciso
I, do Código de Processo Penal, consoante previsto no art. 319, CPP, diversas da prisão, sob pena de quebramento da mesma e
decretação de sua prisão preventiva, quais sejam:
a) Comparecer a todos os atos em que for intimado;
b) Sempre que mudar de endereço comunicar ao Juízo;
AGUARDE-SE a conclusão do IPL. Empós, traslade para os autos respectivos, se necessário,
cópia do auto de prisão em flagrante e, ARQUIVE-SE.
EXPEÇA-SE o respetivo alvará de soltura, ressalvada a hipótese de ausência de acesso ao sistema
BNMP, caso em que a decisão servirá como alvará.
INTIME-SE. CIÊNCIA ao MPE e à Defesa.
CUMPRA-SE, expedindo o necessário.
ÀS PROVIDÊNCIAS com urgência.
Várzea Grande/MT, datado e assinado digitalmente.
HENRIQUETA FERNANDA C. A. F. LIMA
Juíza De Direito Plantonista
[1] apud MARQUES, Ivan Luís. Resumo em 15 Tópicos Sobre as Mudanças da Lei
12.403/2011.
Assinado eletronicamente por: HENRIQUETA FERNANDA CHAVES ALENCAR FERREIRA LIMA
[Link]
PJEDATJRNNRWC