PASTORADO
PASTORADO
4. MINISTÉRIO PASTORAL: Mateus cita a profecia registrada por Miquéias (Mq 5.2) unindo-a, ao
que parece, com 2Sm 5.2, dizendo: “E tu, Belém, terra de Judá, não és de modo algum a menor
entre as principais de Judá; porque de ti sairá o Guia que há de apascentar a meu povo, Israel” (Mt
2.6). O próprio Jesus se identifica como o bom pastor do seu povo (Jo 10.11). Mais adiante,
prevenindo aos seus discípulos a respeito da sua morte e ressurreição, diz: “Esta noite todos vós
vos escandalizareis comigo; porque está escrito: Ferirei o pastor, e as ovelhas do rebanho ficarão
dispersas” (Mt 26.31). Deixemos, agora, que o próprio Pastor nos ensine algumas características do
seu pastorado.
1) Pastor que conhece as suas ovelhas: (Jo 10.2,3,14,27). Jesus Cristo conhece pessoal e
afetivamente as suas ovelhas. O conhecimento de Deus em relação ao seu povo sempre denota
uma relação íntima e amorosa, pela qual ele distingue os Seus. Ele conhece os que lhe pertencem
(2Tm 2.19). Ele sabe que há ovelhas que ainda não fazem parte deste aprisco mas, que, no
momento certo, serão reunidas por ele mesmo, o bom pastor (Jo 10.16).
2) Pastor que é reconhecido pelas suas ovelhas: A voz de Cristo é plenamente identificada pelo seu
rebanho e, somente por ele (Jo 10.3–5,8,14,16,27). Jesus Cristo fala sempre de forma clara e
objetiva; não existe ambigüidade nos seus ensinos; entretanto, aqueles que não fazem parte do
seus escolhidos, nada entendem (Jo 10.24–26; 1Co 1.18–25).
3) Pastor que guia com segurança: As suas ovelhas não apenas reconhecem a sua voz mas,
também, O seguem tranqüilamente, porque sabem que o seu pastor as conduz em segurança (Jo
10.4; Sl 23).
4) Pastor vivificador: Ele concede vida às suas ovelhas; vida abundante e eterna. Somos
alimentados pela sua Palavra (Jo 10.10,28; Jo 6.68; Jo 14.6; Cl 3.4).
5) Pastor que se sacrifica pelas suas ovelhas: Ele se dá pelas suas ovelhas; e apenas por elas,
mesmo por aquelas que circunstancialmente O traem, como foi o caso de Pedro e, por certo,
também o nosso, infelizmente, em muitas circunstâncias (Jo 10.11,15).
6) Pastor preservador: Se somos o seu povo, não temos o que temer; ninguém pode nos arrebatar
de sua mão (Jo 10.27–29).
7) Pastor que compartilha com os seus servos o privilégio responsabilizador do pastorado: (Jo
21.16). Jesus Cristo confia aos homens que ele mesmo vocacionou, o alimento (Jo 21.15,17) e
pastoreio de suas ovelhas (Jo 21.16), sendo os próprios ministros ovelhas do mesmo rebanho,
tendo-o como Pastor (Vd. At 20.28; Ef 4.11; 1Pe 5.4).
8) Pastor Eterno: Jesus Cristo conduzirá o seu povo em segurança à eternidade, sendo desde agora
e para sempre o seu pastor (Ap 7.17).
A questão da vocação se torna uma crise, em dois momentos principais da vida. O primeiro é no
final da adolescência, quando uma pessoa é pressionada a decidir que habilidades e conhecimento
devem adquirir, para uso futuro. Alguns calouros de faculdade sentem-se pressionados a declarar
sua especialização em seu primeiro ano, antes de conhecer as opções disponíveis e os limites de
sua capacidade. O segundo período da vida é quando a vocação se torna uma crise no meio da
vida, quando o indivíduo experimenta um senso de frustração, fracasso ou falta de realização na
profissão que está seguindo. Talvez ele pergunte: “Eu desperdicei a minha vida? Estou sentenciado
para sempre a um trabalho que acho sem significado, insatisfatório e frustrante?” Essas perguntas
ressaltam o fato de que o aconselhamento vocacional é uma das partes mais importantes do
aconselhamento pastoral, ficando atrás apenas do aconselhamento conjugal. Temos de considerar,
também, o fato de que a frustração vocacional é uma das grandes causas de desarmonia conjugal e
conflitos familiares. Portanto, é importante abordar a questão da vocação com muito cuidado, tanto
nos primeiros estágios de desenvolvimento do adolescente, como nos estágios posteriores, quando
o senso de frustração predomina. O problema de discernir a vocação pessoal se focaliza,
principalmente, em quatro perguntas importantes:
PREPARO INTELECTUAL
Além do preparo espiritual, é importante que o pregador se prepare intelectualmente para expor a
Palavra de Deus da melhor maneira possível. Não digo que a preparação formal seja obrigatória
para que alguém se torne pregador, mas ela ajuda bastante. Meu chamado ao pastorado se deu por
ocasião da minha conversão. Não demorou muito, e eu comecei a pregar em reuniões de jovens,
acampamentos e depois igrejas. Finalmente, demonstrei ao meu pastor o desejo de evangelizar os
pescadores da praia de Maria Farinha, na cidade de Olinda. Depois de algum tempo, quis pregar no
interior de Pernambuco, quando meu pastor me orientou a frequentar um seminário a fim de
preparar-me para a tarefa. Eu não via a necessidade disso, uma vez que já era um pregador
conhecido e queria dedicar minha vida à plantação de igrejas, como fizera o apóstolo Paulo. Para
mim, àquela altura, passar quatro anos estudando em um seminário era pura perda de tempo. Meu
pastor, contudo, manteve sua posição de não me enviar sem um curso teológico, e então fui
acolhido pelo pastor da igreja onde eu havia crescido, em Recife. Ele me enviou, sem curso
teológico, para reabrir uma igreja em Gameleira, interior de Pernambuco, entre os cortadores de
cana da usina Cucaú. À medida que o tempo passou, enquanto evangelizava aquela região, fui
percebendo a necessidade de um melhor preparo para enfrentar os desafios do ministério pastoral
e acabei sendo persuadido por um conhecido pastor de jovens da cidade a frequentar o seminário.
Dificilmente já houve um calouro mais reticente do que eu. No primeiro dia de aula de teologia
sistemática perguntei ao professor rev. Gérson Gouveia, já falecido, que ajuda prática a teologia
sistemática traria à vida cristã. Demonstrando muita paciência com aquele calouro arrogante, o
experiente pastor explicou que eu oraria melhor se conhecesse melhor o Deus a quem me dirigia.
Que eu pregaria melhor se tivesse um conhecimento mais amplo e sistemático das Escrituras. Que
eu responderia melhor às questões dos jovens da minha igreja se tivesse um conhecimento amplo
de teologia e conhecimento geral de algumas disciplinas, como filosofia, antropologia etc. Aos
poucos, as barreiras foram sendo derrubadas. Percebi que o preparo teológico poderia se tornar
uma ferramenta poderosa para meu ministério e minhas pregações. Nunca mais parei de estudar.
Após o bacharelado em teologia, prossegui para o mestrado, o doutorado e o pós-doutorado em
estudos bíblicos. Nunca me arrependi do tempo investido nos estudos. Deus, obviamente, pode
usar pregadores analfabetos ou sem estudos formais em teologia, e tem feito isso com frequência.
Grande parte dos pregadores ao longo da história da igreja foi composta de cristãos sem
treinamento formal, mas que conheciam a sua Bíblia e tinham profunda paixão por Jesus. Eles
abriram igrejas, pregaram em lugares distantes, evangelizaram multidões. Alguns dos pregadores
mais conhecidos da história da igreja nunca fizeram seminário ou escola de teologia, como Charles
Spurgeon e mais recentemente Martin Lloyd-Jones, que era médico. Em contrapartida, a falta de
preparo teológico tem levado pastores a pregar falsas doutrinas, desenvolver comportamentos
legalistas, incentivar um culto falso e anunciar um evangelho distorcido. O evangelicalismo popular
está cheio desses pregadores, que rejeitam o estudo e a preparação intelectual, entendendo tratar-
se de afronta ao Espírito Santo. Alguns acusam colegas estudiosos de serem intelectuais áridos e
frios, que silenciam o Espírito Santo. Para justificar sua posição, gostam de usar, erroneamente, o
texto “a letra mata, mas o Espírito vivifica” (2Co 3.6, NAA), que na verdade expressa o contraste
entre a insuficiência do sistema da legislação mosaica e a suficiência de Cristo para nos salvar do
pecado. A “letra” é o “antigo sistema, com suas leis gravadas em pedra”, que “terminava em morte”
e que foi dado aos israelitas por intermédio de Moisés (2Co 3.7). O “Espírito” é a nova aliança de
Cristo, revelada mediante o Espírito Santo e escrita em nosso coração (2Co 3.3–4,6,8). Ou seja, a
expressão não contrapõe teologia e espiritualidade, estudo e poder espiritual. O próprio uso dessa
passagem para justificar a não necessidade de estudar já prova meu ponto. O que alguns
pregadores não percebem é que nossa tarefa consiste em entender e pregar a mensagem de um
livro escrito entre dois e três mil anos atrás, em hebraico, aramaico e grego, em uma cultura que já
não existe, a do antigo Oriente Próximo, e em contextos completamente diferentes do Brasil do
século 21. E, até onde sei, o Espírito Santo não ensina grego, história, teologia e arqueologia ao
pregador por revelação direta. Creio que é tentar a Deus desprezar os recursos que ele nos deu
para melhor entender a revelação escrita, na esperança de que o Espírito Santo nos comunique
diretamente, no momento da pregação, o significado de um texto bíblico. Basta escutar na internet
os sermões suposta e diretamente revelados para perceber sua superficialidade, quando não
afirmações completamente falsas ou indevidas. Pregar no Espírito não é gritar, gesticular, usar
jargões e frases de efeito. Paulo determinou a Timóteo: “Pregue a palavra” (2Tm 4.2). Para que
possamos pregar a Palavra de Deus, como Paulo mandou, temos de primeiro interpretar e entender
o que ela está dizendo, a fim de que preguemos a Palavra de Deus, não a nossa. Mas, para isso,
precisamos nos preparar intelectual e academicamente, não necessariamente para nos tornarmos
teólogos, pensadores e doutores em Bíblia, mas para podermos ter uma compreensão clara o
suficiente das Escrituras que nos garanta pregar seu significado, e não as nossas ideias. Estou
ciente de que, em muitas denominações e igrejas, os pregadores nunca estudaram teologia nem
deles se exige um diploma acadêmico para pregar ou para tornar-se pastor. Não creio que a falta de
estudos formais em teologia desqualifique esses pregadores. Na verdade, prefiro que sejam fiéis à
Bíblia sem diploma do que ter doutorado e serem teologicamente liberais. A mensagem central da
Bíblia é suficientemente clara, ainda que usemos apenas traduções em português para preparar
nossa mensagem. Qualquer pregador que não seja analfabeto funcional e que consiga ler e
entender textos pode organizar as ideias contidas numa passagem bíblica e passá-las a seus
ouvintes, ainda que de forma sofrível. Contudo, pastores que estudaram a Bíblia, interpretação,
história da igreja e teologia sistemática estarão em melhor condição de pregar mensagens que
reflitam com mais exatidão o sentido do texto bíblico. Embora a falta de estudo — quer obtido
formalmente em seminários e institutos bíblicos, quer informalmente como autodidata — não seja
impeditivo para que um pastor pregue a Palavra de Deus, as igrejas deveriam se esforçar para
oferecer a seus pregadores a oportunidade de se prepararem melhor. A história da igreja cristã
mostra claramente que os pregadores que marcaram o cristianismo histórico e impactaram o
mundo eram pessoas preparadas, a começar do apóstolo Paulo, homem culto, preparado,
conhecedor de sua época e de sua cultura. Preciso ressalvar, contudo, que estudos teológicos só
valem a pena se feitos em seminários e escolas de teologia comprometidos com a inerrância da
Bíblia e com a fé do cristianismo histórico. Existem muitas escolas de teologia com professores
liberais, que não creem na inerrância da Bíblia, que usam o método crítico de interpretação e que
são adeptos da teologia da libertação. Em pouco tempo, eles abalam, se não arrancam, a fé dos
alunos despreparados, que deixarão o seminário pior do que quando entraram. Quero terminar este
tema oferecendo alguns conselhos para aquele que já prega em sua igreja (talvez há anos) e que,
ao ler este livro, entendeu que precisa se preparar melhor intelectualmente para seguir pregando.
Primeiro, adote e siga fielmente um sistema de leitura de bons livros de teologia bíblica, tanto do
Antigo quanto do Novo Testamento. Existem muitos livros de teologia bíblica no mercado. Um bom
filtro é a editora. Procure livros de editoras que tenham compromisso em publicar somente obras de
autores comprometidos com a infalibilidade das Escrituras. Segundo, procure escutar com
frequência as mensagens de pregadores expositivos e ver como utilizam seu conhecimento na
entrega da mensagem, especialmente na aplicação. No início de meu ministério, depois de concluir
o seminário, eu me inspirei em diversos pregadores expositivos. Na verdade, aprendi com eles a
pregar expositivamente, e não no curso de homilética do seminário, cujo professor era adepto de
sermões tópicos. Terceiro, caso haja oportunidade, faça mais um curso de teologia sistemática ou
histórica para corroborar o conhecimento bíblico. Se já tem o bacharel em teologia, procure
mestrado em boas instituições, nessas duas áreas mencionadas. Caso nunca tenha feito um curso
de teologia, existem hoje várias opções de cursos teológicos à distância. Como sempre, procure
saber cuidadosamente do compromisso teológico desses cursos antes de começar a cursá-los.
“Tem cuidado de ti mesmo e da doutrina. Continua nestes deveres; porque, fazendo assim, salvarás
tanto a ti mesmo como aos seus ouvintes” (1Tm 4.16).
Jesus condenou os fariseus e escribas por não praticarem o que proclamavam. Ele os culpou pela
diferença existente entre suas palavras e seus atos; entre o que proclamavam professamente e
como agiam em sua vida diária. Os ministros confessionais, mais que quaisquer outros, deveriam
considerar bem as palavras contundentes de Cristo:
“Na cadeira de Moisés, se assentaram os escribas e os fariseus. Fazei e guardai, pois, tudo quanto
eles vos disserem, porém não os imiteis em suas obras; porque dizem e não fazem” (Mt 23.2,3).
Como ministros, somos chamados para sermos santos em nossa relação pessoal com Deus, em
nossa função de maridos e pais em nossos lares, bem como de pastores entre nosso povo quando
subimos ao nosso púlpito. Não deve haver distinção entre nossa vocação e nosso viver, nossa
confissão e nossa prática. A Escritura diz que há uma relação de causa e efeito entre o caráter da
vida de um homem como cristão e sua produtividade como ministro (Mt 7.17–20).
A obra de um ministro costuma ser abençoada em proporção à santificação de seu coração diante
de Deus. Portanto, os ministros devem buscar a graça de edificar a casa de Deus com a sólida
pregação experiencial e a doutrina, tanto quanto com uma vida santificada. Nossa pregação deve
moldar nossa vida; e nossa vida deve adornar nossa pregação. Como escreveu John Boys, “Prega
mais quem vive melhor.” Deveríamos ser o que pregamos, não só aplicando-nos aos nossos textos,
mas também aplicando os nossos textos a nós mesmos. Nossos corações deveriam ser os
traslados de nossos sermões. De igual modo, como advertiu John Owen, “Se um homem ensina
corretamente e anda tortuosamente, mais ruína haverá na noite de sua vida do que edificação no
dia de sua doutrina.”
Os velhos pregadores experienciais foram mestres na aplicação da verdade aos seus próprios
corações, tanto quanto aos dos outros. Eis algumas lições da parte dos teólogos que nos servirão
bem hoje.
1. Viva em intimidade com Deus. Você não pode imitar o viver reformado e experiencial, da mesma
forma que não pode imitar a pregação reformada e experiencial. Como as pessoas veem através
dos ministros que não vivem o que pregam, assim devemos viver em comunhão com Deus a fim de
mostrarmos aos outros que o Cristianismo é real e experiencial. Para que nossas palavras e ações
comuniquem santa piedade, nossos próprios pensamentos têm que pulsar com aquela piedade que
só flui de uma vida íntima com Deus. Como um homem pensa, assim ele é.
ENSINAR É PERIGOSO
Pergunte a si mesmo novamente: por que você quer fazer discípulos? Talvez você tenha relutado
em sua decisão de ser um discipulador. Talvez a única razão pela qual ainda está trabalhando neste
livro é que Jesus ordenou que fizéssemos discípulos, e você não quer ser desobediente. Você não
está certo de que tem muito a oferecer, mas sabe que deveria deixar Deus usá-lo da maneira como
ele deseja. Ou talvez você sempre se tenha visto como um líder. Você tem uma mensagem que a
igreja precisa ouvir, e está pronto para ensinar a qualquer um que queira aprender. Você não precisa
de motivação; só quer estar mais bem preparado. Para aqueles de vocês que estão relutantes,
lembrem-se de que Deus quer que ministremos por alegria, e não por mera obrigação. Ele quer que
desfrutemos do privilégio e do prazer de ministrar às pessoas, que sejamos alegres em nossa
doação (2Co 9.7) e que lideremos os outros com disposição e avidez: Pastoreiem o rebanho de
Deus que está aos seus cuidados. Olhem por ele, não por obrigação, mas de livre vontade, como
Deus quer. Não façam isso por ganância, mas com o desejo de servir. 1Pedro 5.2 Para aqueles de
vocês que estão ansiosos por liderar, lembrem-se de que Deus quer que sejamos cautelosos em
nossa liderança. Lembrem-se de que estarão ensinando pessoas sobre a Bíblia e guiando-as para
uma vida devota. A Bíblia encara o papel de professor com bastante seriedade, e nós deveríamos
fazer o mesmo. Tiago nos deu uma terrível advertência acerca do poder da língua: ele alertou que,
embora possamos falar a verdade e trazer vida às pessoas, nossas palavras também podem causar
enorme perigo. A língua é um fogo, diz Tiago, que “contamina a pessoa por inteiro, incendeia todo o
curso de sua vida, sendo ela mesma incendiada pelo inferno” (Tg 3.6)! Se você examinar seu
coração e encontrar algum traço (por menor que seja) de desejo pela glória e pelo prestígio
resultantes do ensino e da liderança de pessoas, dedique algum tempo para que o alerta de Tiago
impregne você. Reflita acerca do que sua língua é capaz. Como discipulador, você pode causar um
impacto enorme em favor do reino de Deus — ou pode conduzir as pessoas a um caminho horrível.
AMOR EM PRIMEIRO LUGAR
Paulo acrescenta um desafio de um ângulo diferente. Em belíssimas palavras, ele disse que obter
conhecimento e poder — e até mesmo sacrificar nosso corpo — é completamente inútil sem o amor:
Ainda que eu fale as línguas dos homens e dos anjos, se não tiver amor, serei como o sino que
ressoa ou como o prato que retine. Ainda que eu tenha o dom de profecia e saiba todos os
mistérios e todo o conhecimento, e tenha uma fé capaz de mover montanhas, se não tiver amor,
nada serei. Ainda que eu dê aos pobres tudo o que possuo e entregue o meu corpo para ser
queimado, se não tiver amor, nada disso me valerá. 1Coríntios 13.1–3 O resultado do ministério
desprovido de amor é grave: “serei como o sino que ressoa ou como o prato que retine… nada
serei… nada disso me valerá”. Em outras palavras, mesmo as ações mais impressionantes e
sacrificiais são inúteis se não forem motivadas pelo amor. Você é o tipo de pessoa que ensinaria
alguém sem amá-lo? Não se apresse para responder. Muitos bons pastores têm confessado que se
surpreendem tão ocupados no ministério que realizam suas funções mecanicamente, sem de fato
amar seu povo. A maioria de nós tem de trabalhar duro para manter o amor em primeiro plano. O
que você pensa e sente quando está num grupo de pessoas? Presta atenção excessiva àqueles que
são ricos, atraentes ou têm algo que possam lhe oferecer? Preocupa-se com o que as pessoas
pensam a seu respeito? Ou procura maneiras de amar e oportunidades de doar? Um sinal claro de
um coração desprovido de amor consiste em enxergar pessoas como um meio para fins particulares
— elas escutam você, concordam quando você precisa de afirmação, ficam fora do seu caminho
quando você não precisa delas etc. Quando se tem esse tipo de mentalidade ao ensinar outras
pessoas, o ensinamento está fadado a ser estéril e infrutífero. De acordo com Paulo, toda vez que
tentamos ensinar alguém partindo dessa mentalidade, podemos ter certeza de que nos tornamos
nada mais que um sino que ressoa ou um prato que retine; tornamo-nos irritantes e irrelevantes.
Cumprir a ordem de Jesus para fazer discípulos é mais que ter a teologia correta ou tópicos de
ensino bem desenvolvidos. Lembre-se de que se você soubesse “todos os mistérios e todo o
conhecimento”, mas não tivesse amor, nada seria. Pouco antes, na mesma carta, Paulo disse:
“Quem pensa conhecer alguma coisa, ainda não conhece como deveria. Mas quem ama a Deus,
este é conhecido por Deus” (1Co 8.2–3). Não se trata do que você sabe ou do que pensa que sabe
— trata-se de amor. Se você não está disposto a fazer do amor a Deus e do amor às pessoas sua
maior prioridade, então pare aqui. É sério, vá embora e não volte até ter resolvido esse ponto
essencial. A falta de amor é a marca inconfundível da morte: “Sabemos que já passamos da morte
para a vida porque amamos nossos irmãos. Quem não ama permanece na morte” (1Jo 3.14). Fazer
discípulos não tem a ver com reunir pupilos para ouvir o que ensinamos. O verdadeiro foco não é,
de modo algum, ensinar pessoas — o foco é amá-las. O chamado de Jesus para fazer discípulos
inclui ensinar pessoas a serem obedientes seguidores de Jesus, mas o ensino não é o objetivo final.
Em última análise, trata-se de ser fiel ao chamado de Deus para amar as pessoas ao nosso redor.
Trata-se de amar essas pessoas a ponto de ajudá-las a enxergar sua necessidade de amar e
obedecer a Deus. Trata-se de levá-las ao Salvador e deixar que ele as liberte do poder do pecado e
da morte e as transforme em seguidoras apaixonadas de Jesus Cristo. Trata-se de glorificar a Deus
fazendo discípulos que ensinarão outras pessoas a amar e obedecer a ele. Portanto, a pergunta é:
quanto você se importa com as pessoas ao seu redor? Quando está no meio da multidão,
interagindo com sua família ou conversando com irmãos em sua igreja, você ama essas pessoas e
deseja vê-las glorificar a Deus em cada aspecto da vida? A avaliação honesta de suas intenções e o
pedido para que Deus purifique seu coração precisam se tornar hábitos em sua vida. Dedique
algum tempo para analisar seus relacionamentos — família, amigos, colegas de trabalho, vizinhos
etc. Seu modo de pensar e interagir com as pessoas que Deus colocou em sua vida pode dizer
muita coisa sobre seu coração. Pense em seus relacionamentos e pergunte a si mesmo quanto você
ama as pessoas à sua volta. Ao avaliar seus relacionamentos, você se tornará capaz de identificar
áreas nas quais precisa trabalhar.
1) Todo o Ministério terreno de Cristo estava comprometido com a glória de Deus e a salvação do
seu povo.
2) Devemos pregar com a certeza de que a Bíblia é a Palavra de Deus, o poder de Deus para a
transformação dos pecadores (Rm 1.16).
3) Não devemos desanimar mesmo que não consigamos ver de imediato os frutos do nosso
trabalho; basta-nos a certeza de que no Senhor o nosso trabalho nunca será em vão (1Co 15.58).
4) Uma das formas de cultuar a Deus é obedecendo os seus preceitos. Isto implica no fato de que
em todas as áreas de nossa vida podemos e devemos cultuar a Deus, agindo conforme a sua
vontade.
5) A nossa preocupação na igreja, não deve ser quanto ao cargo que ocupamos mas, sim, em como
podemos servir melhor ao nosso Deus.
6) O pastorado de Cristo enche-nos de conforto porque ele é o nosso Pastor e, também, o Pastor
do nosso pastor (Hb 13.20; 1Pe 5.4).
Coloco aqui as que considero mais relevantes, sempre lembrando que muitos seminários e escolas
de teologia levam muito a sério a questão da ortodoxia bíblica e do cultivo da vida espiritual de seus
alunos. Não é a eles que me refiro aqui.
1. Acho que tudo começa quando as denominações mandam para os seminários e faculdades de
teologia jovens que não têm absolutamente a menor condição de serem pastores, professores,
obreiros e pregadores. Muitos são enviados sem nenhum preparo intelectual, espiritual e emocional.
Alguns mal completaram dezessete anos e vão estudar teologia simplesmente porque são líderes
destacados dos adolescentes em sua congregação, ministros do grupo de louvor ou filhos de
pessoas influentes da igreja. Não é sem razão que Paulo orienta que o líder não pode ser neófito,
isto é, novo na fé (1Tm 3:6). Eles não têm estrutura intelectual, bíblica e emocional para interagir
criticamente com os livros dos liberais e com os professores liberais que vão encontrar aos montes
em algumas das instituições para onde serão mandados. Não estarão inoculados preventivamente
contra o veneno que professores liberais costumam destilar em sala de aula.
2. Acho também que a culpa é das denominações que mantêm professores liberais (ou
conservadores frios espiritualmente) nas cátedras de suas escolas de teologia. O que um professor
que não acredita em Deus, nem que a Bíblia é a Palavra de Deus, e além de tudo não ora, tem para
ensinar a jovens que estão na sala de aula para aprender mais de Deus e de sua Palavra? Há
seminários e escolas de teologia que mantêm no corpo docente professores que nem vão mais a
uma igreja local, que usam o título de pastor apenas para ocupar uma vaga na cátedra dos
seminários. Nunca levaram ninguém a Cristo, nem estão interessados nisso. Não têm vida de
oração, de piedade. Que exemplo eles poderão dar aos jovens que sentam nas salas de aula com a
mente aberta, ansiosos e desejosos de ter modelos de líderes para começar seu próprio ministério?
3. Alguns desses professores chegam a declarar, em tom teoricamente farsesco no primeiro dia de
aula, que seu alvo pessoal é “destruir a fé de todos os seus estudantes” antes mesmo que
terminem o primeiro ano de estudos. Começam desconstruindo o conceito de que a Bíblia é a
infalível e inspirada Palavra de Deus. Com grandes demonstrações de sapiência e erudição, eles
mostram os “erros” da Bíblia e o “engano” da igreja cristã ao, “influenciada” pela filosofia grega,
elaborar doutrinas como a Trindade, a divindade de Cristo e a expiação. Mesmo sem usar
linguagem direta, embora alguns até utilizem, lançam dúvidas sobre a ressurreição literal de Cristo
dentre os mortos. A pá de cal na sepultura da fé desses meninos é a vida desses professores. Além
de não terem vida devocional alguma, alguns deles incentivam os seus pobres alunos a beber,
fumar, frequentar baladas e outros locais. Eles até lideram o grupo Noé (que se encheu de vinho) e
o grupo Isaías (“e a casa se encheu de fumo”) nos seminários!!!
4. Bem, acredito que uma fé que pode ser destruída deve ser destruída mesmo, pois não era
autêntica nem sólida. Quanto mais cedo ela for exterminada e substituída por uma fé robusta,
enraizada na Palavra de Deus, melhor. Acontece que os professores liberais e os professores
conservadores mortos só sabem destruir; eles não têm a menor ideia de como ajudar jovens
candidatos ao ministério pastoral a cultivarem uma mente educada, uma fé robusta e uma vida de
devoção e consagração a Deus: os primeiros, porque lhes falta fé; os segundos, devoção. Ao fim de
quatro anos de estudo com professores assim, vários desses jovens saem para serem pastores,
mas intimamente — alguns, abertamente — estão cheios de dúvidas quanto à Bíblia, quanto a Deus
e quanto às principais doutrinas da fé cristã. Estão confusos teologicamente, incertos
doutrinariamente e cínicos devocionalmente. Quando entraram nos estudos teológicos, eram jovens
que tinham como grande missão de sua vida pregar o evangelho, glorificar a Deus e ganhar o
mundo para Cristo. Agora, após quatro anos debaixo do jugo de professores liberais ou
conservadores mortos, seu único alvo é conseguir campo para ganhar o pão de cada dia,
sustentando a si e à família. Esse tipo de motivação destrói igrejas em curto espaço de tempo.
5. Não podemos deixar de lembrar que, na verdade, se trata de uma guerra espiritual feroz, em que
Satanás tenta de todos os modos corromper a singeleza e sinceridade da fé em Cristo, atacando a
mente e o coração dos futuros pastores (2Co 11:3). Usando professores sem fé e professores sem
vida espiritual, ele procura minar as convicções, a certeza, o fervor e a dedicação dos jovens que se
preparam para o ministério. Aqui é pertinente o lema de Calvino, orare et labutare. Pela oração, os
seminaristas poderão escapar da tendência dos estudos teológicos de transformar nossa fé em um
esquema doutrinário seco. E, pela labuta nos estudos, poderão se livrar das mentiras dos
professores liberais, neo-ortodoxos, libertinos e marxistas. Eu daria as seguintes sugestões a quem
pensa em fazer teologia e depois seguir a carreira pastoral:
2. Há muitos sites na internet com bastante material reformado, que podem servir de fonte quase
inesgotável de material para estudo e reflexão. Nessas horas, o Google é um dos melhores amigos.
3. Procure adquirir boa literatura e formar uma biblioteca básica de livros reformados. Eles são de
ajuda inestimável para quem precisa sobreviver em território liberal. Esses livros podem ser
adquiridos pela internet quase em sua totalidade, pelo site de editoras que entregam pelo correio.
Livrarias em território liberal raramente têm deles nas prateleiras — use a internet para adquiri-los.
4. Encoraje seus amigos crentes que enfrentam as mesmas dificuldades que você está passando a
formar grupos de comunhão para estudar bons livros juntos, discutir questões teológicas e orar uns
pelos outros. Tudo isso ajuda na sobrevivência.
5. Procure participar de todos os eventos de linha conservadora e bíblica que puder. Há muitos
acontecendo no Brasil, como, por exemplo, os chamados encontros de fé reformada. Ainda que o
custo de passagem, inscrição e hospedagem seja alto, no final vale a pena para quem pretende
sobreviver e crescer na fé.
6. Mesmo que a maioria das igrejas em território liberal tenha pastores liberais, aqui e acolá é
possível encontrar um pregador que seja firme, que pregue a Palavra e que defenda as grandes
doutrinas da fé cristã. Ainda que ele seja de outra denominação, vá ouvi-lo de vez em quando.
Procure conversar com ele e orar juntos.
7. Gaste tempo em oração diante de Deus. Não deixe que em seu coração se forme uma raiz de
amargura e ressentimento contra liberais. Ore por eles. Ore por proteção contra o erro teológico.
Peça a Deus sabedoria e discernimento em todas as coisas.
Em duas de suas cartas, o apóstolo Paulo delineia as qualificações daqueles que desejam essa
“nobre função” (1Tm 3.1–7; Tt 1.5–9), o que certamente implica em condições básicas para sua
continuidade (cf. tb. 1Tm 5.17–25; 1Pe 5.1–4). Cinco palavras-chaves parecem abranger os
requisitos: masculino, maduro, modelo, manso e mestre.
A primeira condição para o pastor — ser do sexo masculino — certamente é o requisito mais
contestado em muitas sociedades contemporâneas. O Novo Testamento, entretanto, não deixa
ambiguidade: o ofício se limita aos homens piedosos. Por isso, sua afirmação pinta a posição
historicamente alegada por todos os ramos cristãos, isto é, pelo menos até meados do século 20
quando ela foi mais e mais questionada e a ideia de instituir pastoras foi aceita entre certos grupos
protestantes históricos e até em igrejas evangélicas. Diante de tantos desentendimentos e
incertezas sobre esse ponto, o Apêndice 5 oferece aclarações para melhor entendermos essa
crença, mantendo-a na atualidade. Além de ser homem, o pastor deve ser um modelo de discípulo
de Cristo, bom cidadão, marido amoroso e pai responsável, em caso de ser casado e ter filhos. Esse
padrão inegociável resume-se na palavra “irrepreensível” (1Tm 3.2; Tt 1.6, 7). Se não, encontra-se
desqualificado para esse cargo, ou seja, sua piedade evidenciada lhe dá base para que, em primeiro
lugar, seja considerado e, então, para sua continuidade no ministério. Também ligado à ideia de
modelo está o fato de que o candidato deverá servir como um exemplo perante a membresia, ele
deve evangelizar ativamente os perdidos, edificar os crentes e desfrutar de um bom relacionamento
com os de fora (1Tm 3.7; 2Tm 4.5). Esse aspecto mais funcional implica sua diligência e aptidão, em
relação às quais surge a última condição.
A qualificação de mestre denota a única habilidade pessoal dentre os requisitos bíblicos para o
pastorado. O homem precisa ser “apto para ensinar” a Palavra com fidelidade e discernimento, e a
congregação irá desfrutar dos benefícios espirituais de seu empenho (2Tm 2.24; cf. Ef 4.11; Tt 1.9).
Ainda que haja um fator de competência humana implícito nessa condição, não se trata de afirmar
que essa habilidade provenha totalmente de seus esforços pessoais, pois é Deus quem
soberanamente o capacita.
É importante dizer que nem todos os pastores que servem a uma igreja precisam, necessariamente,
ter as habilidades oratórias para ensinar em cultos onde talvez centenas ou milhares de pessoas
estejam presentes. Porém, todos deveriam conhecer as Escrituras e saber aplicá-las
apropriadamente aos membros em conversas pessoais e em grupos menores. Essa ideia de uma
congregação ter vários pastores nos leva ao próximo tópico.
Muitos anos atrás, quando fui consagrado pastor pela Igreja Presbiteriana do Brasil, decidi alugar
um apartamento em Recife, perto de onde iria trabalhar. Como eu estava começando a vida, não
tinha fiador. Quando o dono do apartamento que eu desejava alugar soube que eu era pastor, disse:
“Não precisa de fiador. O senhor é pastor presbiteriano? Então não precisa de fiador, para mim
basta a sua palavra”. Tenho certeza de que, se hoje eu fosse alugar um apartamento e o dono do
apartamento soubesse que eu sou pastor, pediria uns quatro fiadores. Infelizmente, a atividade
pastoral está em desgraça no Brasil. Às vezes tenho vergonha de me apresentar. Quando vou a um
hotel e tenho de preencher uma ficha de cadastro, na linha em que devo escrever qual é minha
“profissão”, escrevo “pastor evangélico” olhando meio de lado, com medo de alguém dizer: “Mais
um charlatão, picareta ou mercenário!”. Em nossos dias, a figura do pastor ficou estereotipada por
conta da atuação dos pastores midiáticos, aqueles que têm um canal de televisão ou de rádio nas
mãos e pregam a Teologia da Prosperidade, governam e comandam impérios financeiros usando
muitas vezes meios escusos, gerando escândalos financeiros. Uma vez que é a imagem dessas
pessoas que chega à população em geral, é natural que o não cristão pense que todo pastor age do
mesmo jeito.
Até que se prove que “focinho de porco não é tomada”, você já foi considerado mercenário ou mais
um ladrão. Certa vez, ao tentar entrar em determinado país, sofri assédio na alfândega. No
momento em que me apresentei como pastor, tive de ouvir piadinhas infames. Isso em razão de um
líder religioso ter sido flagrado dois anos antes entrando naquele país com milhares de dólares
escondidos numa Bíblia. Isso é muito triste. A verdade é que a Bíblia nos ensina que surgiriam falsos
mestres, falsos pastores e falsos profetas, que, em nome do cristianismo, fariam negócios.
Inclusive, manipulando a credulidade das pessoas, em benefício de si mesmos (Mt 24.10–11). O
próprio Jesus disse a seus discípulos que, futuramente, muitos viriam em seu nome e enganariam
muitos. Em suas cartas, o apóstolo Paulo denuncia com frequência os falsos mestres, a quem ele
chama de ministros de Satanás. E, à semelhança de Satanás, eles se transfiguram em anjos de luz.
São mercadores da Palavra de Deus.
Por sua vez, o apóstolo João se refere a esses falsos mestres como anticristos: “Eles saíram de
nosso meio, mas, na verdade, nunca foram dos nossos; do contrário, teriam permanecido conosco.
Quando saíram, mostraram que não eram dos nossos” (1Jo 2.19). A verdade é que nunca ficaremos
livres dos maus pastores e dos falsos pastores. São pessoas que usam esses títulos e outros títulos
— como “bispo”, “bispo primaz”, “patriarca” e “apóstolo” — para assumir o controle, o domínio, a
supremacia da fé das pessoas e valer-se disso para benefício próprio, quer seja em termos
financeiros, quer em popularidade e assim por diante. Porém, o fato de existirem falsos pastores e
pastores que abusam dessa condição não deveria nos impedir de ver que a Bíblia fala de bons
pastores. Deus levanta pessoas por meio das quais ele traz a sua verdade, leva avante seu reino,
encoraja, abençoa e ajuda as demais pessoas. O ofício do pastor aparece em Efésios 4, quando o
apóstolo Paulo diz que Cristo deu à igreja apóstolos, profetas, evangelistas, pastores e mestres.
Inclusive a palavra “pastores” aparece junto de “mestre”, dando a ideia de que se trata de uma coisa
só. O pastor verdadeiro é, na verdade, um mestre. É um expositor da Palavra de Deus, que por meio
do ensino pastoreia e orienta as pessoas nas decisões que precisam tomar, as ajuda em um
momento de sofrimento e lhes dá norteamentos na vida. Paulo descreveu as qualificações das
pessoas que almejam servir a Deus como pastor em 1Timóteo 3. Diz assim o texto: “Esta é uma
afirmação digna de confiança: ‘Se alguém deseja ser bispo, deseja uma tarefa honrosa’ ” (v. 1).
Episcopado, aqui, tem o mesmo sentido de pastorado, pois “bispo”, “pastor” e “presbítero”
possuem todos a mesma função na Bíblia. Em seguida, Paulo prossegue: Portanto, o bispo [pastor]
deve ter uma vida irrepreensível. Deve ser marido de uma só mulher, ter autocontrole, viver
sabiamente e ter boa reputação. Deve ser hospitaleiro e apto a ensinar. Não deve beber vinho em
excesso, nem ser violento. Antes, deve ser amável, pacífico e desapegado do dinheiro. Deve liderar
bem a própria família e ter filhos que o respeitem e lhe obedeçam. Pois, se um homem não é capaz
de liderar a própria família, como poderá cuidar da igreja de Deus? Não deve ser recém-convertido,
pois poderia se tornar orgulhoso, e o diabo o faria cair. Além disso, os que são de fora devem falar
bem dele, para que não seja desacreditado e caia na armadilha do diabo.
1Timóteo 3.2–7 Trata-se, portanto, de uma citação que põe em xeque muita gente. De acordo com
a Bíblia, para ser pastor, a pessoa deve ter algumas qualidades morais, como se vê na lista
apresentada. Deve ser uma pessoa sóbria, modesta, irrepreensível, inimiga de contendas,
generosa, enfim, deve ter essas qualidades morais. Não poderia ser diferente, já que o pastor
servirá de exemplo; ele será o líder da comunidade e um referencial para as pessoas. Além disso, o
pastor precisa de autoridade para ensinar. Como ele vai ensinar as pessoas a ser aquilo que ele não
é? Também vemos nessa lista, além das qualificações morais, características sociais. Por exemplo,
o pastor precisa ter boa fama junto às pessoas de fora de seu contexto, como o balconista do
mercado e o padeiro. Ele tem de ser alguém a respeito de quem um vendedor diga: “Ah, sim, sei
quem é o pastor fulano. Ele veio comprar aqui, pagou devidamente, foi muito honesto em seu
compromisso”. O pastor deve ser uma pessoa irrepreensível nas relações sociais, dando bom
testemunho e sendo hospitaleiro. E há, por fim, requerimentos na área familiar. Diz o texto bíblico
que o pastor tem de governar a sua família e ter os filhos sob disciplina.
A questão aqui é a seguinte: se ele não consegue governar, orientar e pastorear a sua família, como
ele fará isso com a família dos outros? O texto não quer dizer que até o fim da vida os filhos de
pastores têm de frequentar alguma igreja para que o pastor mantenha sua qualificação, mas, sim,
que, enquanto os filhos são pequenos e estão debaixo da autoridade do pastor, devem ser
orientados por ele dentro da fé cristã. Desse modo, se o pastor tem filhos que são crianças ou
adolescentes completamente rebeldes, que não servem a Deus e vão contra sua Palavra, isso já diz
algo a respeito do pai. Uma última qualificação é em relação a saber ensinar. A Bíblia diz que o
pastor tem de ser apto a ensinar. Isso significa que ele precisa conhecer a teologia cristã e a Bíblia;
precisa pregar bem e ser um bom professor. Em outras palavras, não é qualquer pessoa que pode
ser pastor, mas, sim, alguém chamado por Deus e que tenha todas essas qualificações.
DICAS PARA A LIDERANÇA
Pensei em escrever um livro para pastores intitulado “Como ser demitido… e rápido!” Posso resumir
a idéia básica deste livro não escrito em uma sentença de proporções paulinas: o pastor poderia ir a
uma assembléia da igreja questionando a salvação de alguns dos membros da igreja, recusando-se
a batizar crianças, defendendo a prioridade do canto congregacional acima do desempenho
musical e pedindo autorização para remover as bandeiras cristãs e nacionais, acabar com os apelos
de vir à frente, substituir as comissões (até a comissão nomeadora) por presbíteros, ignorar a
celebração de dias como o dia das mães, o dia dos pais, o dia do trabalho, o dia das bruxas, o dia
de ano novo, o dia dos namorados, a formatura de alunos do ensino médio e o dia da
independência, começar a praticar a disciplina bíblica, remover as mulheres que assumiram a
posição de presbíteros na igreja e também afirmar que teologicamente é contrário à realização de
diversos cultos no domingo pela manhã… Esse pastor não iria mais longe do que a próxima
assembléia da igreja. Embora eu tivesse condições de escrever aquele livro, achei que
primeiramente deveria usar uma abordagem mais construtiva. Temo que alguns podem ler este livro
e chegar à sua igreja impacientes por mudanças radicais. Mas, com um pouco de sabedoria,
paciência, instrução cuidadosa e amor, podemos ficar surpresos com o ponto até aonde podemos ir
com nossas igrejas. A história da tartaruga persistente e da lebre apressada deve se tornar uma
parábola para os pastores. Aqui estão quatro características que você, como pastor, deve cultivar
para ajudá-lo a implementar as mudanças que acha são necessárias em sua igreja:
1. Seja verdadeiro Peça a Deus que o mantenha fiel à sua Palavra escrita. Nunca subestime o poder
de ensinar a verdade. Peça a Deus que você tenha integridade em seu coração, em sua maneira de
pensar. Suplique-Lhe que você seja honesto com todos — em responder perguntas e, de um modo
mais ativo, em trabalhar para que as pessoas o conheçam.
2. Seja digno de confiança Confie em Deus, e não em suas próprias habilidades e dons. Gaste
tempo em oração particular, com os outros e com a igreja. Seja paciente. Lembre as palavras de
Paulo a Timóteo: “Prega a palavra, insta, quer seja oportuno, quer não, corrige, repreende, exorta
com toda a longanimidade e doutrina” (2 Tm 4.2). Entregue suas ambições ao Senhor. Esteja
disposto a confiar nEle com toda a sua vida e a rogar-Lhe que o mantenha no lugar de seu
ministério atual durante o resto dos seus dias. Deus tem considerado a longevidade importante
para trazer crianças à maturidade; essa longevidade tem caracterizado muitos ministérios
frutíferos. William Gouge, pastor puritano, dizia freqüentemente que sua maior aspiração consistia
em ir de Blackfriars (sua igreja) para o céu. Gouge foi o pastor da mesma igreja de junho de 1608
até sua morte em 12 de dezembro de 1653. Ele pastoreou a mesma igreja por quarenta e seis anos.
Ore a Deus para que a sua fé aumente e o ajude a ver que a preocupação dEle pela igreja é maior
do que a sua própria.
3. Seja positivo Peça a Deus que você não seja fundamentalmente um crítico, nem seja percebido
como tal. Estabeleça uma agenda positiva. Esclareça seus planos e a visão de Deus para a igreja,
em termos de objetivos imediatos e de longo prazo. Suplique ao Senhor que o ajude a construir
relacionamentos pessoais firmes e, em especial, que o ajude a desenvolver mais líderes em sua
igreja (2 Tm 2.2). Peça-Lhe que o torne um exemplo pessoal e um defensor de evangelização e
missões. Ore a Deus para que seu zelo aumente — e de sua igreja — para a glória dEle.
4. Seja paciente Contextualize o interesse de Deus pela sua igreja. Use os bons recursos da história
de sua própria igreja. Aprenda dos membros mais velhos a história de sua igreja. Seja um
dendrologista eclesiástico. Na catedral de Lincoln, um guia turístico me disse que um dendrologista
(pessoa que estuda as árvores) poderia pegar uma amostra do miolo dos carvalhos de 14 metros
que têm sustentado o teto da catedral durante séculos e determinar quando eles foram plantados e
colhidos. Os carvalhos que ele nos mostrou tinham mais de 150 anos quando foram colhidos;
haviam sido plantados nos anos 900 e colhidos nos anos 1100. Torne-se o principal estudante da
história de sua própria igreja. Ao fazer isso, você mostra respeito e aprende. Que você se torne o
agente para redescobrir o melhor no passado de sua igreja, conduzindo-a às grandiosas coisas que
Deus tem para ela no futuro, enquanto ela manifesta o caráter de Deus à sua criação. Este encargo
de manifestar a glória de Deus é nossa maravilhosa responsabilidade e sublime privilégio. Que Deus
faça de sua igreja uma igreja saudável, que Ele derrame seu Espírito em igrejas em todo o mundo,
para que cumpram essa responsabilidade, para a sua glória. Que Ele o abençoe em sua tentativa!
Comecemos com as palavras de um pastor: Eugene Peterson, que para muitos era pastor de
pastores. Em seu belo livro Memórias de um pastor, Peterson trata da invasão da cultura de sucesso
e realização na igreja. No processo de entender minha identidade vocacional como pastor, não
pude deixar de observar que havia ao meu redor um bocado de confusão e insatisfação com a
identidade pastoral. Muitos pastores, decepcionados ou desiludidos com suas igrejas, desertam
depois de alguns anos e encontram uma ocupação que seja mais de seu agrado. E muitas igrejas,
decepcionadas ou desiludidas com seus pastores, os mandam embora e procuram pastores que
sejam mais de seu agrado. Durante os cinquenta anos em que vivenciei a vocação de pastor, essas
deserções e demissões atingiram proporções epidêmicas em igrejas de todos os ramos e formatos.
Pergunto-me se, na raiz da deserção, não existe uma premissa cultural de que todos os líderes têm
de “levar projetos adiante” e “fazer as coisas acontecerem”. Sem dúvida, é o caso dos principais
modelos de liderança que se infiltram da cultura para nossa consciência: políticos, empresários,
publicitários, relações públicas, celebridades e atletas. Embora o pastorado abarque alguns desses
aspectos, o elemento mais difundido em nossa tradição pastoral de dois mil anos não é alguém que
“faz as coisas acontecerem”, mas, sim, alguém colocado na comunidade para prestar atenção e
chamar a atenção para “o que está acontecendo neste momento” entre homens e mulheres, uns
com os outros e com Deus, esse reino de Deus primeiramente local, inexoravelmente pessoal e que
ora “sem cessar”. Se desejamos formar uma cultura tov na igreja, capaz de curar os feridos,
precisamos operar conforme o plano de Deus, e não conforme o modelo mais recente de liderança.
Este é o plano de Deus para o pastor: O pastor é alguém chamado para cultivar a cristoformidade
em si mesmo e em outros.
UM PASTOR
A quarta coisa à qual Deus me chamou foi para ser um pastor. Esta é a minha chamada vocacional e
ocupa a maior parte do meu tempo. Constantemente, eu me admiro do fato de que Deus me deu o
privilégio de servi-Lo desta maneira. O ministério pastoral é a chamada vocacional mais sublime do
mundo. Minhas responsabilidades pastorais têm precedência sobre quaisquer atividades que
envolvam recreação ou não façam parte do ministério. Tudo o que está envolvido no pastorear o
rebanho de Deus (e a Bíblia o descreve de maneira bastante compreensiva) constitui o meu dever.
Neste ministério, a minha tarefa mais importante é trabalhar fielmente na pregação da Palavra e na
oração. Todavia, essas duas atividades não devem ser realizadas simplesmente em um nível de
profissionalismo. Pelo contrário, elas devem ser praticadas em meio à minha busca por santidade.
Existe uma solidão inevitável que acompanha o pastorado. A maior parte do trabalho no ministério
pastoral pode ser feita somente quando um homem está sozinho com seu Deus. Sem esse período
de intimidade com Deus, o tempo gasto com as pessoas não terá muito valor. Em nossos dias,
existem milhares de “recursos” disponíveis aos pastores, para desviá-los da árdua tarefa de estudar
as Escrituras e orar. Sermões “poderosos” e programas “garantidos” são constantemente
oferecidos aos pastores com intrépida fanfarrice. Um homem com um pouco de esperteza, com
pouca integridade e muitos recursos financeiros pode se manter bem suprido com uma fonte
inesgotável de tais recursos. Mas ele nega a sua chamada por viver à custa do trabalho de outros,
ao invés de fazer a obra de seu próprio ministério.