Algebraic Geometry
Algebraic Geometry
Notas de Aula
Autor: Vinicius Bouça
Instituição: Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ)
Versão: 1.0
Conteúdo
Capítulo 6 Divisores 83
6.1 Divisores de Weil . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 83
6.2 Divisores de Cartier . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 84
6.3 Divisores e Morfismos para Pnk . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 86
Capítulo 7 Feixes 91
7.1 A Categoria dos Pré-Feixes . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 91
7.2 A Categoria dos Feixes . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 94
7.3 Imagens Diretas e Inversas de Feixes . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 99
7.4 Reconstruindo Feixes . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 101
7.5 Exercícios . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 104
ii
CONTEÚDO
iii
CONTEÚDO
iv
Parte I
Assim, para o estudo geométrico de curvas algébricas, basta considerarmos polinômios que são
livres de quadrados. Tais equações são chamadas de equações reduzidas de C. Mais ainda, temos
que
C = C1 ∪ C2 ∪ · · · ∪ Cn , (1.3)
onde Ci = V(fi ). As curvas do tipo C = V(f ), com f irredutível, possuem uma propriedade
interessante: Elas não contém, propriamente, nenhuma outra curva algébrica.
Teorema 1.1.2
Sejam f ∈ R um polinômio irredutível e g ∈ R um elemento que não é divisível por f . Então
V(f ) ∩ V(g) é finito.
♡
Demonstração Os polinômios f, g não possuem fator comum em C[x, y] = C[x][y]. Portanto, pelo
lema de Gauss, eles não possuem fator comum em C(x)[y] (aqui, C(x) é o corpo de funções racionais
em uma variável). Assim, existem r(x), s(x) ∈ C(x) tais que
Limpando os denominadores da relação acima, concluímos que existem r̃(x), s̃(x).t(x) ∈ C[x]
tais que
r̃(x)f (x, y) + s̃(x)g(x, y) = t(x) (1.5)
Uma curva algébrica que não é a união de curvas algébricas próprias é dita uma curva algébrica
irredutível. Pelo Teorema 1.1.2, uma curva C = V(f ) é irredutível se, e somente se, sua equação
√
reduzida f é irredutível. Toda curva algébrica é, portanto, uma união finita de curvas algébricas
irredutíveis.
Como outra consequência do Teorema 1.1.2, temos que uma curva algébrica V(f ) é inteiramente
determinada pela forma reduzida V(f ).
Teorema 1.1.4
Seja C = V(f ) ⊂ k 2 uma curva algébrica plana. Então o ideal
I(C) = {f ∈ k[x, y]; f (p) = 0 para todo p ∈ C}
√
é gerado por f , a equação reduzida de C. Em particular, C1 = C2 se, e somente se
I(C1 ) = I(C2 ).
♡
Demonstração Escreva f = f1α1 . . . fnαn , com fi irredutível. É claro que f1 . . . fn ∈ I(C). Agora,
se g ∈ I(C), temos que fi divide g para todo i.
De fato, a equação acima mostra que C ⊂ V(g) e portanto V(fi ) ⊂ V(fi ). Como fi é irredutível,
o corolário acima mostra que fi divide g para todo i e portanto f1 · · · fn divide g.
O ideal I(C) do Teorema acima é chamado de ideal de definição de C (ou, mais sucintamente,
o ideal de C). O Teorema acima nos permite definir o grau de uma curva algébrica C.
Definição 1.1.5
Seja C uma curva algébrica com ideal de definição I(C) = (f ). O grau da curva algébrica C
é definido por
deg C = deg f,
3
1.1 Curvas Algébricas Afins e Anéis de Coordenadas
o grau do polinômio f . ♣
É natural, em qualquer teoria matemática, tentar classificar objetos sob o ponto de vista de
alguma característica. Por exemplo, em topologia, queremos distinguir espaços topológios a menos
de homeomorfismos, isto é, tentar responder se dois espaços topológicos X, Y são homeomorfis
ou não. Para isto, convém estudar os conjuntos de mapas contínuos definidos sobre X, Y . Para
desenvolver um programa análogo para as curvas algébricas, precisamos primeiramente definir quais
são as funções sobre curvas algébricas que gostaríamos de estudar.
Definição 1.1.6
C Seja C ⊂ k 2 uma curva algébrica, Uma função g : C → C é dita uma função regular se
existe um polinômio G ∈ k[x, y] tal que g = G|C . O conjunto de funçòes regulares
k[C] := {g : C → C; g é uma função regular}
é um anel, chamado de anel de funções regulares em C.
♣
É simples descrever o anel k[C] em termos do ideal de definição I(C). De fato, observe que a
função
ΦC : C[x, y] → C[C]
(1.8)
G → G|C
é um homomorfismo de anéis sobrejetivo cujo núcleo é dado por I(C), e portanto
k[C] = k[x, y]/I(C). (1.9)
Definição 1.1.7
Seja C uma curva algébrica. O anel k[C] é chamado de anel de coordenadas de C.
♣
O anel de coordenadas k[C] possui este nome pois este anel é gerado como álgebra sobre k pelas
funções coordenadas x, y. Este anel contém uma série de informações sobre a geometria de C. Nosso
objetivo, neste capítulo, é descobrir quais informações podem ser obtidos a partir de k[C].
A mais cristalina destas propriedades é a irredutibilidade de C. Uma curva C é irredutível se, e
somente se I(C) = V(f ) para algum polinômio irredutível f ∈ k[x, y]. Isto, por sua vez, é equivalente
a termos k[C] um domínio de integridade. Portanto:
Teorema 1.1.8
Uma curva algébrica C ∈ k 2 é irredutível se, e somente se k[C] é um domínio.
♡
Outra propriedade importante de k[C] é que seus ideais maximais estão em correspondência
biunívoca com os pontos de C.
De fato, mostraremos adiante (Teorema 2.3.3) que todos os ideais maximais de k 2 são da forma
mp =< x − a, y − b > para algum p = (a, b) ∈ k 2 . Desta forma, todo ideal maximal de k[C] é
a imagem ΦC (mp ) para algum ideal maximal mp contendo I(C). Afirmamos que esta relação é
equivalente a termos p ∈ C. De fato, dado f ∈ k[x, y], a expansão de Taylor de f em torno de p nos
4
1.1 Curvas Algébricas Afins e Anéis de Coordenadas
dá
∂f ∂f X ∂ 2f
f (x, y) = f (p) + (p)(x − a) + (p)(y − a) + i ∂y j
(p)(x − a)i (y − b)j + · · · (1.10)
∂x ∂y i+j=2
∂x
e portanto f (p) = 0 se, e só se f ∈ mp . Desta forma, temos a correspondência biunívoca entre
os pontos p ∈ C e os ideais maximais de C[C] da seguinte maneira:
5
1.1 Curvas Algébricas Afins e Anéis de Coordenadas
em k[C ′ ], geram k[C ′ ] como uma k-álgebra. Sejam f = ψ(z̄), g = ψ(w̄). É imediato verificar que se
φ(p) = (f (p), g(p)), então ψ = φ∗ .
Dizemos que uma função regular φ : C → C ′ é um isomorfismo se existe uma função regular
ψ : C ′ → C tal que φ ◦ ψ = idC e ψ ◦ φ = idC ′ . O Teorema acima afirma então que φ é um
isomorfismo entre duas curvas algébricas se, e somente se φ∗ é um isomorfismo de k-álgebras.
Diversas propriedades do homomorfismo f ∗ se refletem na geometria da função regular. As
seguintes proposições serão demonstradas, em sua versão mais geral, mais adiante (ver Teoremas ??
e ??).
Proposição 1.1.10
Seja φ : C → C ′ uma função regular entre duas curvas algébricas planas. Se g ∈ k[C ′ ], então
f −1 (VC ′ (g)) = VC (φ∗ (g)).
♠
Proposição 1.1.11
Seja φ : C → C ′ uma função regular entre duas curvas algébricas planas. Então φ é sobrejetiva
se, e somente se, φ é injetora e im φ é a união de componentes de C ′ . ♠
Vimos então que a cada curva algébrica plana C ⊂ k 2 podemos associar uma estrutura algébrica
k[C], o seu anel de coordenadas, de forma que duas curvas algébricas planas C, C ′ são isomorfas se,
e somente se, seus anéis de coordenadas são isomorfos.
Veremos mais adiante que considerar apenas funções regulares sobre curvas não é o sufici-
ente. Veremos, mais adiante, que curvas projetivas planas não admitem funções regulares além das
constantes.
Seja C uma curva algébrica plana irredutível. Então podemos considerar então
k(C) = frac k[C], (1.14)
k o corpo de frações de k[C]. Este corpo é chamado de corpo de funções racionais de C. Observe
que k(C) é gerado sobre k pelas funções coordenadas x, y sujeitas a condição f (x, y) = 0, onde f é
um polinômio em duas variáveis irredutível. Desta forma, tr. degk k(C), o grau de transcendência de
k(C) sobre k é igual a 1.
A nomenclatura se justifica: um elemento φ ∈ k(C) pode ser representado como uma fração
f /g com f, g ∈ k[C], g ̸= 0 e portanto podemos definir
φ(p) = f (p)/g(p) (1.15)
para todo p tal que g(p) ̸= 0.
Observação Normalmente, o anel k[C] não é um domínio de fatoração única. Desta forma, é possível
que, dado um ponto p ∈ C e φ ∈ k(C), existam duas representações f /g, h/w de φ tais que g(p) = 0
e w(p) ̸= 0. De fato, considere a curva algébrica C ⊂ k 2 definida pela equação x2 + y 2 = 1 = 0 e a
função racional y 2 /(1 − x) ∈ k(C). Como y 2 = 1 − x2 sobre C, temos (1 − x) = y 2 /1 + x e portanto
y2 y 2 (1 + x)
= = 1 + x. (1.16)
1−x y2
Assim, o denominador de y 2 /1 − x se anula no ponto (1, 0), mas o denominador da expressão
6
1.1 Curvas Algébricas Afins e Anéis de Coordenadas
equivalente 1 + x não. Por outro lado, se g(p), w(p) ̸= 0, a igualdade f /g = h/w implica que
f w − gh = 0 em k[C], e portanto
f (p)/g(p) = h(p)/w(p) (1.17)
e portanto o valor de φ em p está bem definido.
Baseado na observação feita acima, temos a seguinte definição:
Definição 1.1.12
Sejam C uma curva algébrica irredutível e φ ∈ k(C). Dizemos que φ é regular em p ∈ C
se existe uma representação φ = f /g, f, g ∈ k[C] tal que g(p) ̸= 0. O domínio de φ é o
subconjunto
dom φ = {p ∈ C; φ é regular em p}.
♣
Observe que, para toda φ ∈ k(C), temos que C \ dom φ é vazio ou finito. Mais adiante
mostraremos que se dom φ = C, então φ ∈ k[C] (ver Teorema 2.6.3).
7
Parte II
Proposição 2.1.2
Seja k um corpo infinito e f ∈ k[x1 , . . . , xn ]. Então
φf ≡ 0 em Ank ⇐⇒ f = 0
♠
Demonstração O caso n = 1 corresponde ao fato básico de que todo polinômio possui um número
finito de raizes. Suponha então o teorema demonstrado para funções polinomiais em n − 1 variáveis
e seja f ∈ k[x1 , . . . , xn ] tal que φf ≡ 0. Podemos escrever
n
X
f (X1 , . . . , Xn ) = gi (X1 , . . . , Xn−1 )Xni
i=0
e portanto, para todo (a1 , . . . , an−1 ) ∈ An−1
k temos que
n
X
f (a1 , . . . , an−1 , Xn ) = gi (a1 , . . . , an−1 )Xni
i=0
posui infinitas raízes em k. Portanto φg0 ≡ φ[ g1 ] ≡ · · · ≡ φgn ≡ 0 em An−1
k e o resultado segue por
10
2.1 Conjuntos Algébricos e a Topologia de Zariski do Espaço Afim
indução.
A partir deste momento, suporemos sempre que k é um corpo infinito (mas de característica
arbitrária). Assim, o anel de funções regulares de Ank é de fato isomorfo ao anel polinomial R =
k[x1 , . . . , xn ]. No que segue, não faremos mais distinção entre um polinômio f (X1 , . . . , Xn ) e sua
função polinomial associada φf .
Estamos prontos para definir o que é um subconjunto algébrico de Ank .
Definição 2.1.3
Um conjunto X ⊂ Ank é ditu um conjunto algébrico se existe uma família de polinômios
{fλ (X1 , . . . , Xn ); λ ∈ L} ⊂ k[x1 , . . . , xn ]
tal que
X = V ({fλ }λ∈L ) = (p = (a1 , . . . , an ) ∈ Ank ; fλ (p) = 0 para todo λ ∈ L)
♣
Proposição 2.1.4
As seguintes afirmações são verdadeiras:
(a) ∅ e Ank são conjuntos algébricos;
(b) A união finita de conjutnos algébricos é um conjunto algébrico;
(c) , A interseção arbitrária de conjuntos algébricos é um conjunto algébrico.
♠
Assim, vemos que os subconjuntos algébricos definem em Ank uma topologia, chamada topologia
de Zariski, sendo estes os fechados desta topologia. A topologia de Zariski de Ank está intimamente
ligada a teorai de ideais do anel de polinômios k[x1 , . . . , xn ].
Teorema 2.1.5
Sejam {fλ ; λ ∈ L} ⊂ k[x1 , . . . , xn ] uma família de polinômios e
Xk
< fλ ; λ ∈ L >= { gi fλi }
i=1
o ideal gerado por esta família. Então
V ({fλ ; λ ∈ L}) = V (< fλ ; λ ∈ L >).
♡
Demonstração conteúdo...
A troca de uma família de polinômios pelo ideal gerado por eles é, a primeira vista, contraprodu-
cente, pois o número de equações aumenta. Mas este não é o caso: todo ideal do panel de polinômios
é finitamente gerado (ver Teorema C.3.11). Assim, todo conjunto algébrico de Ank é dado como o
conjunto de zeros de um número finito de polinômios.
Observação O Teorema 2.1.5 dá margem para outras ideias na tentativa de entender um sobconjunto
11
2.2 As Aplicações V e I
Teorema 2.1.6
Seja I ⊂ k[x1 , . . . , xn ] um ideal. Então existe um conjunto de geradores
f1,1 , . . . , f1,k1 , f2,1 , . . . , f1,k2 , . . . , fn,1 , . . . , fn,kn
tal que
I ∩ k[Xi , . . . , Xn ] =< flj ; l ≥ i, 1 ≤ j ≤ kl >
♡
Assim, tentamos resolver os polinômios com menos variáveis de forma a tentar construir as
soluções do sistema original. Tal ideia corresponde, na álgebra linear, ao conceito de eliminação
gaussiana.
Exemplo 2.2 Vamos determinar todos os subconjuntos fechados de A1k . Seja F ⊂ A1k um fechado
Zariski. Pelo Teorema 2.1.5, F = V (I), onde I ⊂ k[X] é um ideal. Da teoria básica de polinômios
em uma variável, sabemos que I =< f (x) > para algum f (x) ∈ K[x]. Daí, temos
F = V (I) = V (f (x)) = a ∈ K : f (a) = 0.
Por outro lado, se F = a1 , . . . , an ⊂ A1k }, temos que
Y n
F = V ( (X − ai )).
i=1
2.2 As Aplicações V e I
Definição 2.2.1
Sejam R = k[x1 , . . . , xn ] e Ank o espaço afim sobre um corpo k.
(a) Dado um subconjunto X ⊂ Ank , o ideal de X é o ideal
I(X) = {f ∈ R; f (p) = 0 para todo p ∈ X};
(b) Dado um ideal I ⊂ R, definimos o conjunto de zeros de I como o fechado
V(I) = {p ∈ Ank ; f (p) = 0 para todo f ∈ I}.
♣
12
2.2 As Aplicações V e I
Teorema 2.2.2
As aplicações V , I satisfazem:
(a) Se I ⊂ J são ideais de R, então V(J) ⊂ V(i).
(b) Se Y ⊂ X são são subconjuntos de Ank , então I(X) ⊂ I(Y ).
(c) Se X ⊂ Ank , então VI(X)) é o fecho de X na topologia de Zariski.
(d) Se X1 = V (I1 ) e X2 = V (I2 ), então
X1 ∪ X2 = V(I1 I2 ) = V (I1 ∩ I2 ).
(e) Se Xλ = V (Iλ ), λ ∈ L, então
\ X
Xλ = V( Iλ )
λ∈L λ∈L
♡
Demonstração Exercício.
A proposição anterior nos diz que muita informação sobre os fechados de Zariski do espaço
afim Ank pode ser obtida através do estudo da organização dos ideais de k[x1 , . . . , xn ]. Vejamos um
importante exemplo deste fato.
Como o anel de polinômios k[x1 , . . . , xn ] satisfaz o teorema acima, temos uma versão geométrica
para subconjuntos fechados do espaço afim.
Teorema 2.2.3
Toda cadeia descendente
X1 ⊃ X 2 ⊃ X3 ⊃
Demonstração Tomando I(−) na cadeia descendente de fechados acima, temos uma cadeia ascen-
dente de ideais
I(X1 ) ⊂ I(X2 ) ⊂ · · ·
Sabemos que a condição ascendente de ideais garante que, em um anel noetheriano, todo ele-
mento possui uma fatoração (em geral, não-única) em elementos irredutíveis. A condição de cadeia
descendente de fechados nos permite obter propriedades similares para subconjuntos algébricos.
Definição 2.2.4
Um subconjunto algébrico X ⊂ Ank é dito um conjunto algébrico irredutível se X = X1 ∪ X2
com X1 , X2 fechados implica X = X1 ou X = X2 . ♣
13
2.3 O Nullstellensatz de Hilbert no Espaço Afim
Teorema 2.2.5
Seja X ⊂ Ank um conjunto fechado. Então existe uma decomposição
Z = Z1 ∪ Z2 ∪ · · · ∪ Zk
com Zi irredutível e Zi ̸⊂ Zj se i ̸= j. Mais ainda, esta decomposição é unica a menos de
ordenação.
♡
X1 ∪ · · · ∪ X n = Y1 ∪ · · · ∪ Ym (2.2)
Seja I ⊂ k[x1 , . . . , xn ] um ideal radical. É bem sabido (ver Teorema C.1.16) que
\
I= p (2.4)
14
2.3 O Nullstellensatz de Hilbert no Espaço Afim
, onde p percorre o conjunto dos ideais primos de k[x1 , . . . , xn ] que são minimais sobre I. Tal conjunto
sempre é finito (ver Teoremas C.6.6 e C.6.12), e portanto
I = P1 ∩ P2 ∩ · · · ∩ Pm =⇒ V(I) = V(P1 ) ∪ · · · ∪ V(Pm ). (2.5)
Vamos mostrar que a decomposição acima é de fato a decomposição de V(I) em componentes
irredutíveis.
Proposição 2.3.1
Um subconjunto fechado X ⊂ Ank é irredutível se, e somente se, I(X) é um ideal primo de
k[x1 , . . . , xn ].
♠
Demonstração ⇒: Suponha que I(X) não seja um ideal primo. Então existem f1 , f2 ∈
/ I com
f1 f2 ∈ I. Logo X ⊂ V (f1 ) ∪ V (f2 ) e portanto
X = (X ∩ V (f1 )) ∪ (X ∩ V (f2 )).
⇐: Suponha que X = X1 ∪ X2 com Xi ̸= X. Então existem f1 , f2 com as seguintes propriedades:
f1 ≡ 0 em X1 mas f1 ̸≡ 0 em X2 ;
f2 ≡ 0 em X2 mas f2 ̸≡ 0 em X1 ..
Daí, f1 , f2 ∈
/ I mas f1 f2 ∈ I.
15
2.3 O Nullstellensatz de Hilbert no Espaço Afim
A prova do Teorema dos Zeros de Hilbert envolve uma série de resultados profundos de álgebra
comutativa, e sendo assim faremos uma quebra no texto em duas subseções: uma voltada para algumas
aplicações do Teorema dos Zeros de Hilbert e outra dedicada a sua demonstração.
16
2.3 O Nullstellensatz de Hilbert no Espaço Afim
Outra aplicação do Teorema dos Zeros de Hilbert é a irredutibilidade de Ank : de fato, temos
p
Ank = V((0)) = =⇒ I(Ank ) = (0) = (0),
que é um ideal primo de k[x1 , . . . , xn ]. Como consequência deste fato, podemos concluir que os
abertos da topologia de Zariski são muito grandes em relacão aos abertos da topologia usual de Ank ,
no caso C..
Teorema 2.3.6
São verdadeiras:
1. O espaço afim Ank é irredutível (Lembre que estamos supondo k infinito.)
2. Todo aberto Zariski de Ank é denso em Ank ou, equivalentemente, dois abertos Zariski de
Ank sempre se intersectam.
♡
Outra consequência do Teorema dos Zeros de Hilbert é que Ank é pré-compacto com respeito a
topologia de Zariski.
Teorema 2.3.7
Uλ uma cobertura de Ank por abertos de Zariski. Então
S S
Seja Uλ possui uma subcobertura
λ∈L λ∈L
finita. ♡
Demonstração Começamos provando que todo aberto de Ank é uma união finita de abertos da forma
D(f ) = Ank \ V((f )), f ∈ k[x1 , . . . , xn ]
De fato, se U = Ank \ V(J) é aberto e J =< f1 , . . . , fm >, então
\ [
U = Ank \ V((f1 , . . . , fm )) = Ank \ V ((fi )) = D(fi ).
Assim, basta provar o teorema para coberturas da forma Ank =
S
D(fλ ). Agora, a igualdade
λ∈L
anterior implica que V (< fλ ; λ ∈ L >) = ∅. Pelo Teorema 2.3.4, segue que < fλ ; λ ∈ L >=< 1 >
e portanto existem λ1 . . . , λm ∈ L e g1 , . . . , gm ∈ k[x1 , . . . , xn ] tais que
X m
gi fλi = 1
i=1
e portanto
n
[
Ank = D(fi ).
i=1
17
2.4 Anéis de Coordenadas e a Topologia de Zariski de um Conjunto Fechado.
18
2.4 Anéis de Coordenadas e a Topologia de Zariski de um Conjunto Fechado.
Em particular, K[X] é uma k-álgebra finitamente gerada sem nilpotentes. Mais ainda:
l(a) X é irredutível se, e somente se, k[X] é um domínio;
l(b) X é um ponto se, e somente se k[X] é um corpo;
l(c) X é finito se, e somente se, k[X] é um produto direto de corpos.
♡
É natural se perguntar quais são as k-álgebras finitamente geradas sobre um corpo que são anéis
de coordenadas de algum subconjunto fechado de algum espaço afim Ank . O Teorema anterior mostra
que é necessário que tais k-álgebras não possuam nilpotentes. Vamos mostrar que isto também é
suficiente.
Teorema 2.4.3
Seja A uma k-álgebra finitamente gerada e sem nilpotentes. Então existem n ∈ N e X ⊂ Ank
fechado tais que A ≃ k[X].
♡
φ : k[x1 , . . . , xn ] → A
xi → ai
Assim, A ≃ k[x1 , . . . , xn ]/ ker φ. Se mostrarmos que ker φ é radical, concluiremos que A =
k[V(ker ϕ)].
Para isto, seja f ∈ k[x1 , . . . , xn ] tal que f n ∈ ker φ. Daí, segue que 0A = φ(f n ) = φ(f )n e como
A não possio nilpotentes, φ(f ) = 0. Logo ker φ é um ideal radical e a prova está concluída.
Observação Observe que, na demonstração acima, poderíamos escolher um outro conjunto gerador
b1 , . . . , bm de A como k-álgebra, e desta vez teríamos A ≃ k[Y ] onde Y é um subconjunto fechado
agora em Am k . Por isso, em uma linguagem mais moderna, consideramos como objeto geométrico
o conjunto de ideais de A e, para cada escolah de geradores de A como k-álgebra, uma "versão
geométrica"de X no espaço afim correspondente. Veja o Exercício () para mais detalhes.
Exemplo 2.1 Vamos discutir em um exemplo mais concreto o que está envolvido na prova do Teorema
2.4.3 e da observação subsequente. Considere A = k[x], o anel de polinômios em uma variável.
Escolhendo x como gerador de A como k-álgebra, temos um isomorfismo
k[x1 ] → k[x]
que identifica A como o anel de coordenadas da reta afim A1k .
Agora, se escolhemos x, x2 como geradores de A como k-álgebra, temos o homomorfismo
k[x1 , x2 ] → k[x]
x1 → x
x2 → x2
que nos dá o isomorfismo k[X] ≃ k[x1 , x2 ]/(x21 − x2 ). Assim, k[x] é isomorfo ao anel de coordenadas
da parábola V(x21 − x2 ). Na próxima seção descreveremos geometricamente estes isomorfismos.
19
2.4 Anéis de Coordenadas e a Topologia de Zariski de um Conjunto Fechado.
Assim, se X ⊂ Ank é fechado, então todo fechado de X na topologia induzida pela Topologia de
Zariski em Ank é na verdade um fechado de Ank . Assim, os subconjuntos fechados Y ⊂ X na topologia
induzida satisfazem I(Y ) ⊃ I(X).
Teorema 2.4.5
Sejam R um anel comutativo I ⊂ R um ideal e π : R → R/I a aplicação quociente.
(a) Se J ⊂ R é um ideal, então π −1 ◦ π(J) = I + J. Em particular, π −1 ◦ π(J) = J se, e
somente se, J ⊃ I.
(b) A aplicação J → π(J) induz uma bijeção entre os ideais de R que contém I e os ideais
de R/I e preserva inclusão, ideais radicais, ideais primos e ideais maximais.
♡
O teorema acima nos permite então definir uma correspondência V, I relativas a um sobconjunto
fechado X ⊂ Ank .
Definição 2.4.6
Sejam X ⊂ Ank um subconjunto fechado, Y ⊂ X, J ⊂ k[X] um ideal e π : k[x1 , . . . , xn ] →
k[x1 , . . . , xn ]/I(X) = k[X] a aplicação quociente. Definimos
(a)
IX (Y ) = π(I(Y ))
(b)
VX (J) = VX (π −1 (J))
♣
Observação Observe que se X ⊂ Ank é fechado, então Y ⊂ X é fechado na topologia de Zariski
induzida se, e somente se Y = VX (J) para algum ideal J ⊂ k[X]. Portanto, esta topologia é
determinada completamente pelo anel de coordenadas k[X]. Em outras palavras, a topologia de
Zariski de X é intrínseca a X, isto é, independente do espaço afim ambiente Ank onde X está
realizada. Mais ainda, em termos de anéis de coordenadas, o Teorema dos Isomorfismos nos dá
k[x1 , . . . , xn ] k[x1 , . . . , xn ]
k[Y ] ≃ ≃ −1 ≃ k[X]/IX (Y ),
I(Y ) π (IX (Y ))
e portanto podemos estudar Y com a topologia de Zariski induzida por Ank ou por X com espaço
ambiente.
Também temos um Nullstellensatz para subconjuntos fechados de Ank ;
20
2.5 Morfismos entre Fechados do Espaço Afim
Teorema 2.4.7
Seja X ⊂ Ank um subconjunto fechado eπ : k[x1 , . . . , xn ] → k[x1 , . . . , xn ]/I(X) = k[X] a
projeção canônica.
(a) Todo ideal maximal de k[X] é da forma mp =< π(x1 ) − a1 , . . . , π(xn ) − an > para
algum p = (a1 , . . . , an ) ∈ X;
(b) Se J ⊂ k[X] é um ideal, então VX (J) = ∅ se, e somente se, J = k[X];
√
(c) Se J ⊂ k[X] é um ideal, então IX (VX (J)) = J.
♡
21
2.5 Morfismos entre Fechados do Espaço Afim
Demonstração Exercício.
Exemplo 2.1 Considere o morfismo f : A1k toA2k dado por f (x) = (x, x2 ), cuja imagem é a parábola
X = V(y2 − y12 ).v Este morfismo corresponde ao homomorfismo de anéis
k[y1 ,y+2]
f ∗ : k[X] = <y12 −y2 >
→ k[x]
y¯1 → x .
y¯2 → x2
Observe que f ∗ é um isomorfismo de anéis, cuja inversa é dada por
k[y1 ,y+2]
g ∗ : k[x] → <y12 −y2 >
x → y¯1
que por sua vez corresponde ao morfismo g : X → A1k , g(y1 , y2 ) = y1 .
Exemplo 2.2 Considere o morfismo f : A1k → A2k dado por f (x) = (x2 , x3 ), cuja imagem é curva
algébrica X = V(y22 − y13 ).v Este morfismo corresponde ao homomorfismo de anéis
k[y1 ,y+2]
f ∗ : k[X] = <y13 −y2 62>
→ k[x]
y¯1 → x2 .
y¯2 → x3
Observe que f ∗ não é um isomorfismo de anéis, pois o mesmo não é sobrejetivo. Ainda assim,
f ∗ é injetivo.
Observe também que f possui uma inversa, como função. De fato, temos que f −1 : X → A1k é
dada por f −1 (y1 , y2 ) = y2 /y1 . Acontece que f −1 não é um morfismo. (Veja Exercício ??)
Exemplo 2.3 Sejam X = V(y1 y2 − 1) ⊂ A2k e f : X → A1k dada por f (y1 , y2 ) = y1 .. Observe que f
é uma função injetora e que im f = A1k \ {0}. Mais ainda,
k[y1 ,y2 ]
f ∗ k[x] → (y1 y2 −1)
= k[X]
x → y1
Observe que k[X] ≃ k[y1 , y1−1 ] ⊂ k(y1 ) e identificando k[x] com f ∗ (k[x]) = k[y1 ], f ∗ corres-
22
2.5 Morfismos entre Fechados do Espaço Afim
Exemplo 2.4 Considere o mapa regular f : A2k → A2k dado por f (x, y) = (x, xy), Temos que
im f = A2k \ {(0, y; y ̸= 0)}. Assim, temos que im f não é nem aberto e nem fechado em A2k .
Os exemplos acima nos levam a definir o que é o conceito de equivalência na categoria dos
subconjuntos fechados do espaço afim.
Definição 2.5.4
Seja f : X ⊂ Ank → Y ⊂ Am k um morfismo entre dois subconjuntos fechados. Dizemos que f é
um isomorfismo se existe um segundo morfismo g : Y → X tal que f ◦ g = idY e g ◦ f = idX . ♣
Observação A necessidade de se pedir que a inversa g : Y → X seja um morfismo é justificada
pelo Exemplo 2.3. Embora f seja uma função bijetora, as variedades A1k e V (x3 − y 2 ) não são
geometricamente semelhantes, pois a segunda contem um ponto singular.
Teorema 2.5.5
Seja f : X ⊂ Ank → Y ⊂ Am k um morfismo entre dois fechados. Então f é um isomorfismo
entre dois fechados se, e somente se, f ∗ é um isomorfismo de anéis. ♡
23
2.6 Mapas Racionais
Teorema 2.5.7
Seham f : X → Y um morfismo entre dois subconjuntos fechados do espaço afim e X ′ ⊂ X
um subconjunto fechado. Então
f (X ′ ) = V((f ∗ )−1 ((I(X ′ ))
♡
Demonstração Seja g ∈ k[Y ] com f ∗ (g) ∈ I(X ′ ). Logo f (X ′ ) ⊂ V (g) e portanto f (X ′ ) ⊂ V(g),
isto é, g ∈ I(f (X ′ )). Logo V((f ∗ )−1 ((I(X ′ ))) ⊃ f (X”).
Reciprocamente, e g ≡ 0 em f (X ′ ), é claro que f ∗ (g) ∈ I(X ′ ). Isto dá a inclusão contrária.
Proposição 2.5.8
Seja f : X → Y um morfismo entre dois subconjuntos fechados do espaço afim. Então
V(ker f ∗ ) = f (X). Em particular, f ∗ é injetiva se, e somente se, f (X) é denso em Y .
♠
Demonstração ker f ∗ = (f ∗ )−1 ((0)). Logo, pelo Teorema 2.5.7, V(ker f ∗ ) = f (V(0)) = f (X).
Portanto, se f ∗ é injetivo, então f (X) = V((0)) = Y. Reciprocamente, se f (X) = Y, entao
V(ker f ∗ ) = Y e pelo Nullstellensatz em Y , segue que ker f ∗ = (0).
Demonstração Suponha que f seja uma imersão. Então f (X) = V(ker f ), isto é, k[f (X)] ≃
k[Y ]/ ker f ∗ e a composição
f
X→ − f (X) ,→ Y (2.17)
24
2.6 Mapas Racionais
em subconjuntos abertos de um fechado X ⊂ Ank . Esta seção utiliza resultados de álgebra comutativa
que envolvem o conceito de localização. Rerefenciamos ao apêndice para tais resultados.
Seja X ⊂ Ank um subconjunto fechado e irredutível. Neste caso, o anel de coordenadas k[X] é
um domínio e, portanto possui um corpo de frações k(X) = Frac k[X].
Definição 2.6.1
Seja X um subconjunto fechado e irredutível. O corpo k(X) = Frac k[X] é chamado de corpo
de funções de X.
♣
O nosso objeto de esstudo desta seção é estudar o conjunto de funções regulares em subconjuntos
abertos de um fechado X ⊂ Ank . Primeiramente, mostramos que quando consideramos U = X, as
funções regulares em X são exatamente as funções φ ∈ k[X].
Teorema 2.6.3
Se φ ∈ k(X) é uma função regular em X, então φ ∈ k[X].
♡
Definição 2.6.4
Sejam X ⊂ Ank um subconjunto fechado irredutível e U ⊂ X um aberto. O anel de funções
regulares em U é o anel
k[U ] = {f ∈ k(X); U ⊂ dom f }.
♣
25
2.6 Mapas Racionais
(injetivo)
ϕ : k[X]f tok[Xf ].
Agora,
p
Xf ⊂ dom φ ⇐⇒ V(den φ) ⊂ V(f ) ⇐⇒ f ∈ den φ.
Uma vez definido o conceito de função racional sobre um fechado irredutível, estamos prontos
para definir o conceito de aplicação racional entre dois conjunto algébricos afins.
Definição 2.6.5
Sejam X ⊂ Ank um fechado irredutível e Y ⊂ Am k outro fechado. Um mapa racional φ :
T
X 99K Y é uma coleção {φ1 , . . . , φm } ∈ k(X) tal que, para todo x ∈ dom φi , φ(x) =
(φ1 (x), . . . , φm (x)) ∈ Y para todo x ∈ X.
♣
Observação A menos que φ1 , . . . , φm ∈ k[X], uma função racional definida como acima não é
T
definida em todo o conjunto fechado X. Por outro lado, como X é irredutível, dom φi ̸= ∅. (ver
Exercício ?? ).
Assim como morfismos agem sobre os anéis de coordenadas, gostaríamos de definir uma ação
de mapas racionais sobre os corpos de funções de variedades algébricas.
Seja f : X ⊂ Ank 99K Y ⊂ Am k um mapa racional entre dois subconjuntos fechados irredutíveis.
Para cada função regular g ∈ k[Y ], temos uma função racional g ◦ f : X 99K A1k , que define um
homnomorfismo de anéis f ∗ : k[Y ] → k(X) que induz um homomorfismo f ∗ : k(Y ) → k(X) se, e
somente se, ker f ∗ = (0). Mas
f ∗ (g) ≡ 0 ⇐⇒ g ◦ f ≡ 0 ⇐⇒ f (X) ⊂ V(g) ⇐⇒ f (X) ⊂ V(g)
e, pelo Nullstellensatz em k[X] (Teorema 2.4.7) ker f ∗ = (0) se, e somente se f (X) = Y.
Definição 2.6.6
1. Uma aplicação racional f : X 99K Y entre dois fechados irredutiveis do espaço afim é
dominante se f (X) = Y.
2. Se f : X 99K Y é uma aplicação racional dominante, o pullback definido por f é o
homomorfismo (necessariamente injetivo) de corpos
f ∗ : k(Y ) → k(X)
g/h → g(f (x))/h(f (x))
♣
26
2.7 Variedades Afins e Quasi-Afins
Os mapas racionais dominantes possuem a mesma propriedade funtorial dos morfismos entre
fechados do espaço afim.
Proposição 2.6.7
Sejam f : X 99K Y e g : Y 99K Z aplicações racionais dominantes. Então g ◦ f é dominante
e (g ◦ f )∗ = f ∗ ◦ g ∗ .
♠
Demonstração Exercício.
Teorema 2.6.9
Seja f : X 99K Y um mapa racional dominante entre dois subconjunto fechados do espaço
afim. Mostre que f é uma equivalência birracional se, e somente se f ∗ : k(Y ) → k(X) é um
isomorfismo. ♡
Demonstração Exercício
A relação de birracionalidade é uma relacão de equivalência, que é muito mais grossa que a
relação de isomorfismo.
Teorema 2.6.10
Seja X uma variedade afim irredutível. Então X é birracional a uma hipersuperfície. ♡
27
2.7 Variedades Afins e Quasi-Afins
Definição 2.7.1
Uma variedade quasiafim é um aberto de Zariski U ⊂ X de um fechado de Zariski X ⊂ Ank .
♣
Definição 2.7.2
Sejam U ⊂ Ank , V ⊂ Am
k uma variedade quasiafim.
(a) Um morfismo f : U → V é um mapa racional φ : Ank 99K V tal que U ⊂ dom φ.
(b) Um morfismo de variedades quasi-afins f : U → V é um isomorfismo se existe um
morfismo g : V → U tal que g ◦ f = idU e f ◦ g = idV ♣
Assim como um morfismo entre fechados induz um homomorfismo entre seus anéis de co-
ordenadas, um morfismo f : U → V induz um homomorfismo de anéis de funções regulares
f ∗ : k[V ] → k[U ] de maneira análoga. O próximo exemplo mostra que, neste novo panorama, f ∗
isomorfismo não implica f um isomorfismo.
Exemplo 2.1 Considere a variedade quasiafim U = A2k \ {(0, 0)} e seja φ uma função regular em U .
Como U = D(x) ∩ D(y), segue que φ é uma função regular em D(x) e em D(y). Assim, temos
φ ∈ k[D(x)] ∩ k[D(y)] = k[x, y, 1/x] ∩ k[x, y, 1/y] = k[x, y].
Considere acora o morfismo ψ : U → A2k dado pela inclusão, ou seja, ψ(x, y) = (x, y). É claro
que ψ∗ : k[Ank ] → k[U ] é simplesmente o mapa identidade de k[x, y] e portanto um isomorfismo de
anéis. Mas por continuidade, não existe nenhum morfismo µ : A2k → U satisfazendo o item (b) da
definição anterior.
Exemplo 2.2 Relembremos o Exemplo 2.1: se X é uma variedade afim, então Xf = X \ V(f ),
k[Xf ] = k[X]f e o mapa
πf : V(f t − 1) ⊂ An+1 k → Xf
(x1 , . . . , xn , 1/f (x1 , . . . , xn )) → (x1 , . . . , xn )
é um isomorfismo entre variedades quasiafins
O exemplo anterior nos motiva a definição final de o que é uma variedade afim.
Definição 2.7.3
Uma variedade quasiafim U é uma variedade afim se ela é isomorfa a um subconjunto fechado
de Zariski de algum espaço afim Ank
♣
28
2.8 Produtos de Variedades QuasiAfins
afim e f1 , . . . , fr ∈ k[Y ]. Então X = Yf1 ∪ · · · ∪ Yff e Yfi é uma variedade afim, pelo Exemplo 2.2.
O corolário acima nos dá uma dica do que seria, de forma abstrata, uma variedade algebrica: um
espaço topológico X tal que todo ponto possui uma vizinhança isomorfa a uma variedade afim. As
propriedades que dependem apenas de uma vizinhança de um ponto p de uma variedade quasi-afim são
aquelas que se mantém inalteradas ao trocarmos X por uma vizinhança aberta de p. Como todo ponto
p ∈ X possui uma vizinhança isomorfa a uma variedade afim, as propriedades locais são justamente
aquelas que admitem uma redução ao caso afim. Por isto, as variedades afins podem ser consideradas
como os modelos locais das variedades algébricas.
29
Capítulo 3 Variedades Projetivas e Quasi-Projetivas
Já vimos na introdução que o ambiente mais propício para se estudar geometria algébrica é
o espaço projetivo, pois o espaço afim não possui "todos os pontos necessários". Neste capítulo,
estudaremo o espaço projetivo e as variedades algébricas que nele vivem.
No que segue, utilizaremos o anel de polinômios k[X0 , . . . , Xn ] com a graduação usual, isto é,
M
k[X0 , . . . , Xn ] = = k[X0 , . . . , Xn ]d (3.1)
d≥0
onde
k[X0 , . . . , Xn ]d = {f ∈ k[X0 , . . . , Xn ]; todos os monômios de f têm grau total d}. (3.2)
Referenciamos ao Apêndice B para resultados gerais sobre anéis graduados.
O espaço projetivo possui uma contrução geométrica a partir da noção de espaço quociente.
Observe que u, v ∈ V \ {0} geram o mesmo subespaço unidimensional se, e somente se u = λv para
algum λ ∈ k ∗ . Assim, temos também que
P(V ) = V \ {(0)}/ ∼ (3.3)
, onde ∼ é a relação de equivalência
u ∼ v ⇐⇒ u = λv, para algum λ ∈ k ∗
Também é útil para nós uma construção do espaço projetivo utilizando coordenadas. Sejam
u0 , . . . , un uma base para V e x0 , . . . , xn as coordenads em V induzidas por esta base. A aplicação
quociente π : V \ {0} → V \ {0}/ ∼ representada por
(x0 , . . . , xn ) → [x0 : · · · : xn ] (3.4)
induz coordenadas em P(V ), a qual chamamos de coordenadas homogêneas de P(V ) induzidas pela
base u0 , . . . , un Note finalmente que a escolha de uma base para V induz um isomorfismo V ≃ k n+1
e, desta forma, costumamos escrever Pnk = P(k n+1 ).
Exemplo 3.1 O espaço projetivo P1R = P(R2 ) é homeomorfo ao círculo unitário S 1 .
Exemplo 3.4 Seja Π ⊂ Pnk um subespaço de dimensão n−1. Então Π = π(W \{0}) com dim W = n.
Escolha uma base de k n+1 tal que, no sistema de coordenadas x0 , . . . xn induzido, W seja dado por
x0 = 0. Assim
Recorde que na introdução, mostramos que o espaço afim A2k não possui pontos suficientes, pois
duas retas paralelas não possuem interseção em A2k . Este problema foi resolvido com a passagem a
P2k . Vamos mostrar o mesmo princípio vale para Pnk . Começamos com uma definição.
Definição 3.1.2
Seja W ⊂ Pnk um subconjunto linear. A dimensão de W é definida por
dim W = dim(π −1 (W ) ∪ {0}) − 1.
♣
Teorema 3.1.3
Sejam Π1 , Π2 ⊂ Pnk dois subconjuntos lineares. Se dim Π1 + dim Π2 ≥ n, então Π1 ∩ Π2 ̸= ∅.
♡
Demonstração Sejam di = dim Πi e Wi ⊂ k n+1 tais que Πi = π(Wi \ {0}). Assim, dim Wi = di + 1
e portanto
31
3.1 O Espaço Projetivo e a Topologia de Zariski
Escreva
f (a0 , . . . , an ) = f0 (a0 , . . . , an ) + f1 (a0 , . . . , an ) + · · · + fm (a0 , . . . , an ) (3.9)
com fd homogêneo de grau d. Agora, por (3.8), f se anula em [a0 : · · · : an ] se, e somente se
f (λa0 , . . . , λan ) = f0 (a0 , . . . , an ) + λf1 (a0 , . . . , an ) + · · · + λm fm (a0 , . . . , an ) = 0 (3.10)
para todo λ ∈ k ∗ e, como k é infinito, segue que fi (a0 , . . . , an ) = 0 para todo 0 ≤ i ≤ n.
Seja X ⊂ Pnk um subconjunto qualquer. Podemos definir o ideal
I(X) = {f ∈ k[X0 , . . . , Xn ]; f (P ) = 0 para todo p ∈ X} (3.11)
que, por (3.10), é um ideal homogêneo de k[X0 , . . . , Xn ] (ver Definição C.7.2). Assim, podemos fazer
a seguinte definição.
Definição 3.1.4
Um subconjunto X ⊂ Pnk é dito um subconjunto algébrico se existe um ideal homogêneo
I ⊂ k[X0 , . . . , Xn ] tal que
X = V(I) = {p ∈ Pnk ; f (p) = 0 para todo f ∈ I}.
♣
32
3.1 O Espaço Projetivo e a Topologia de Zariski
Observe que C(X) é de fato um cone com vértice na origem O de An+1 k , isto é, dado um ponto
p ∈ C(X) \ {O}, então a reta OP ⊂ C(X).
Observe que X ⊂ Pnk = ∅ se, e somente se, C(X) = O. Portanto, se I ⊂ k[X0 , . . . , Xn ]
é um ideal homogêneo, então V(I) = ∅ como variedade projetiva se, e somente se, I(C(X)) =
√
I = (X0 , . . . , Xn ) pelo Nullstellensatz afim. Mais ainda, um raciocínio análogo mostra que se
√
I ⊂ k[X0 , . . . , Xn ] é um ideal homogêneo, então I(V(I)) = I. (Observe que se I ⊂ k[X0 , . . . , Xn ]
√
é ideal homogêneo, então I também é homogêneo, ver Teorema C.7.4).
Teorema 3.1.7 (O Nullstellensatz do Espaço Projetivo)
Seja k um corpo algebricamente fechado e I ⊂ k[X0 , . . . , Xn ] um ideal homogêneo.
√
(a) V (J) = ∅ ⇐⇒ J ⊃ m = (x0 , . . . , xn ).
√
(b) Se I ⊂ k[X0 , . . . , Xn ] é um ideal homogêneo, então I(V(I)) = I.
♡
33
3.1 O Espaço Projetivo e a Topologia de Zariski
3.1.3 Grassmannianas
O espaço projetivo Pnk é um exemplo de espaço de parâmetros: Ele parametriza os subespaços
vetoriais de dimensão um de um espaço vetorial V de dimesão n + 1. Assim, podemos nos perguntar
se existem outros espaços de parâmetros mais gerais, que parametrizem subespaços de V de alguma
dimensão fixada k.
A primeira resposta é para o caso de subespaços de dimensão n. Como os espaços vetoriais de
dimensão n estão em bijeção com os subespaços de dimensão 1 (pelo complemento ortogonal), o
espaço de parâmetros dos subespaços de V dimensão n também é um espaço projetivo Pnk .
Para a construção de espaços de parâmetros para dimensões intermediárias, precisamos da
definiçào de produto exterior.
Definição 3.1.8
Seja V um espaço vetorial. O r-ésimo produto exterior de V é o espaço vetorial
^r
V
gerado linearmente pelos símbolos
v1 ∧ v2 ∧ · · · ∧ vr
sujeito a relação
v1 ∧ · · · ∧ vi ∧ · · · ∧ vi ∧ · · · ∧ vr = (−1)v1 ∧ · · · ∧ vj ∧ · · · ∧ vi ∧ · · · ∧ vr
♣
34
3.1 O Espaço Projetivo e a Topologia de Zariski
Se w1 , . . . , wr é uma segunda base para o mesmo subespaço vetorial W , a equação (3.19) nos
diz que
f1 ∧ · · · ∧ fr = Dw1 ∧ · · · ∧ wr , (3.21)
Vr Vr−s
(u1 ∧ · · · ∧ us ) : V → V
(3.24)
v1 ∧ · · · ∧ vr → us · (us−1 · (· · · u1 · (v1 ∧ · · · ∧ vr )))
Lema 3.1.9
Seja x ∈ r V . Então x = v1 ∧ · · · ∧ vr se, e somente se
V
(y · x) ∧ x = 0
Vr−1
para todo y ∈ V ∗.
♡
forma
35
3.1 O Espaço Projetivo e a Topologia de Zariski
X
x= ai1···r ei0 ∧ · · · ∧ eir (3.25)
0≤i1 <i2 <···<ir ≤n
Xn
u = (x0 , . . . , xn ) ∈ V ⇐⇒ u = xi (3.27)
i=1
n
^ n
X
v = (y0 , . . . , yn ) ∈ V ⇐⇒ v = (−1)n yi e0 ∧ · · · ∧ eˆi ∧ · · · ∧ en (3.28)
i=0
Lema 3.1.10
Sejam u = (x0 , . . . , xn ) ∈ V e v = (y0 , . . . , yn ) ∈ r V. Então
V
n+1
^
u ∧ v = ⟨(x0 , . . . , xn ), (y0 , . . . , yn )⟩e0 ∧ · · · ∧ en ∈ V,
onde ⟨, ⟩ é o produto escalar usual de k n+1 .
♡
Vn
Comecemos com v = (y0 , . . . , yn ) ∈ V e considere
H = V(y0 x0 + · · · + yn xn ) ⊂ V. (3.29)
Vn
Se w1 , . . . , wn é uma base para H, defina w = w1 ∧ · · · ∧ wn = (z0 , . . . , zn ) ∈ V. Assim:
wi ∧ v = ⟨wi , (y0 , . . . , yn )⟩ = 0 =⇒ (y0 , . . . , yn ) ∈ H ⊥ ; (3.30)
0 = wi ∧ w = ⟨wi , (z0 , . . . , zn ) =⇒ (z0 , . . . , zn )⟩ ∈ H ⊥ . (3.31)
1. G(n, V ) = P( n V );
V
Comumente denotamos G(n, V ) por (Pnk )∗ , o espaço projetivo dual de V . Observe que o hiperplano
V(a0 x0 + · · · + an xn ) corresponte ao ponto [a0 : · · · : an ] ∈ (Pnk .)∗
36
3.2 Cartas Afins do Espaço Projetivo
Exemplo 3.8
O caso não trivial mais simples da construção acima é a Grassmaniana G(2, 4). Neste caso,
temos
X
x= 0 ≤ i < j ≤ 3aij ei ∧ ej (3.32)
Φi : Ui → Ank
(3.36)
[X0 : · · · : Xn ] → ( X0
Xi
, . . . , X̂
Xi
i
,..., Xn
Xi
)
Ψi : Ank → Ui
(3.37)
(x0 , . . . , xi−1 , xi+1 , . . . xn ) → [x0 : · · · : xi−1 : 1 : xi+1 ; · · · : xn ]
são inversas entre si. Mais ainda, se F (X0 , . . . , Xn ) ∈ k[X0 , . . . , Xn ] é um polinômio homogê-
neo, então
37
3.2 Cartas Afins do Espaço Projetivo
Se
X
f1 ∧ · · · ∧ fr = e0 ∧ · · · + ∧er−1 + ai1 ...ir ei1 ∧ · · · ∧ eir ∈ U0...r−1 (3.45)
(i1 ,...,ir )̸=(0,...,r−1)
então podemos escrever
n
X
f1 = e 0 + a1j ej
j=r
n
X
f2 = e 1 + a2j ej
j=r
..
.
n
X
fr = er−1 + arj ej (3.46)
j=r
38
3.3 Funções Regulares em Variedades Projetivas
1 0 ··· 0 a0r a0,r+1 ... a0,n+1
0 1 ··· 0 a1r a1,r+1 ... a1,n+1
.
. .. .. .. .. .. .. .. (3.49)
. . . . . . . .
0 0 · · · 1 an+1,r an+1,r+1 . . . an+1,n+1
Por fim, faremos a definição do que será, para nós uma variedade algébrica.
Definição 3.2.2
Uma variedade quasiprojetiva é um subconjunto aberto X de um fechado Y ⊂ Pnk .
♣
O conceito de variedade quasiprojetiva engloba todas as variedades afins (uma variedade afim
é um aberto do seu fecho projetivo) e quasi-afins, bem como os fechados do espaço projetivo.
Observe que, a partir da cobertura afim Pnk U0 ∪ . . . Un do espaço projetivo, vemos que toda variedade
quasiprojetiva possui uma cobertura aberta por variedades quasiafins. Portanto, toda variedade afim
possui uma cobertura aberta por abertos isomorfos a variedades afins.
39
3.3 Funções Regulares em Variedades Projetivas
Definição 3.3.1
Seja X ⊂ Pnk uma variedade quasiprojetiva.
(a) Uma função φ : X → k é dita uma função regular em p ∈ X se existem polinômios
homogêneos de mesmo grau F, G tais que G(p) ̸= 0 e φ(p) = F (p)/G(p) em uma
vizinhança aberta de p.
(b) Uma aplicação f : X → Ank é dita uma aplicação regular se existem funções regulares
φ1 , . . . , φn tais que
f (p) = (φ1 (p), . . . , φn (p)) ∈ Ank .
para todo p ∈ X. ♣
O leitor mais atento a definição acima notou que a definição de mapa regular envolve a escolha
de uma carta afim Ui do espaço projetivo. Resta saber se a definição acima é independente da escolha
da carta afim Ui escolhida. Suponha que f (p) ∈ Ui ∩ Uj e que f : U → Ui ∩ Uj é tal que f : U → Ui
é um mapa regular. Normalizando, existem funções regulares φ0 , . . . , φi−1 , φi+1 , . . . , φn tais que
f (p) = (φ0 (p), . . . , φi−1 (p), 1̂, φi+1 (p), . . . , φn (p)), φj (p) ̸= 0 (3.51)
Assim, como um ponto no espaço projetivo, temos
h φ (p) 1 φn (p) i
0
f (p) = [φ0 (p) : · · · : φi−1 (p) : 1 : φi+1 (p) : · · · : φn (p)] = : ··· : : ··· : 1 : ··· : =
φj (p) φj (p) φj (p)
φ (p) 1 φn (p)
0
,..., , . . . , 1̂, . . . , ∈ Uj (3.52)
φj (p) φj (p) φj (p)
Que representa uma função regular U → Uj .
Finalmente, a estrutura do espaço projetivo Pnk nos permite escrever as funções regulares de
forma mais prática. Seja X ⊂ Pnk uma variedade quasiprojetiva e f : X → Pnk regular. Se p ∈ X
e f (p) pertence, digamos, a U0 , então existem funções racionais φi = fi /gi , 1 ≤ i ≤ n com fi , gi
homogêneos de mesmo grau tais que Gi (p) ̸= 0 e
f (p) = φ1 (p), . . . φn (p) = [1 : φ1 (p) : · · · : φn (p)] (3.53)
Assim, multiplicando as coordenadas homogêneas de f (p) por g1 · · · gn , temos
f (p) = [F0 (p) : · · · : Fn (p)] (3.54)
com F0 , . . . , Fn polinômios homogêneos de mesmo grau e Fi (p) ̸= 0 para algum i. Observe
também que se G0 , . . . , Gn é outro conjunto de polinômios homogêneos de mesmo grau, então
[F0 (p) : · · · : Fn (p)] = [G0 (p) : · · · : Gn (p)] para todo p ∈ X ⇐⇒
Fi (p)Gj (p) = Fj (p)Gi (p) para todo p ∈ X e 0 ≤ i < j ≤ n. (3.55)
40
3.4 O Anel de Coordenadas Homogêneo
Assim, temos uma segunda definição para mapas regulares em variedades quasi-projetivas X
tomando valores em um espaço projetivo Pnk .
Definição 3.3.3
Seja X ⊂ Pnk uma variedade quasiprojetiva. Um mapa f ; X → Pm k é dito um mapa regular se
existem formas homogêneas F0 , . . . , Fm de mesmo grau tais que
Fi (p) ̸= 0 para algum i;
f (p) = [F0 (p) : · · · : Fm (p)],
para todo p ∈ X. ♣
Observe que, como I(X) é um ideal homogêneo, então S(X) possui uma Z-graduação induzida
pela graduação de S = k[X0 , . . . , Xn ].
A definição de função regular envolve o quociente de dois polinômios homogêneos de mesmo
grau. É claro que se F G′ − G′ F ∈ I(X), então
F F′
= ′ em X \ V(GG′ ) (3.56)
G G
Assim, faz sentido definir o seguinte conjunto.
Definição 3.4.2
Seja X ⊂ Pnk um subconjunto fechado irredutível. O conjunto das funções racionais sobre X é
o conjunto
f .
k(X) = { ; f, g ∈ S homogêneos e deg f = deg g} ∼,
g
f f′
onde g
∼ g′
⇐⇒ f g ′ − g ′ f ∈ I(X).
♣
41
3.4 O Anel de Coordenadas Homogêneo
Ψ: k(X) → k(X0 )
F (X0 ,...,Xn ) F (1,x1 ,...,xn ) (3.58)
G(X0 ,...,Xn )
→ G(1,x1 ,...,xn )
Φ: k(X0 ) → k(X)
f (x1 ,...,xn ) f (X1 /X0 ,...,Xn /X0 ) (3.59)
g(x1 ,...,nn )
→ g(X1 /X0 ,...,Xn /X0 )
A definição acima nos permite definir o feixe estrutural de um fechado do espaço projetivo.
Definição 3.4.5
Seja X ⊂ Pnk um fechado do espaço projetivo e U ⊂ X um subconjunto aberto. O anel de
funções regulares em U é o anel
OX (U ) = {φ ∈ k(X); U ⊂ dom φ.}
♣
42
3.4 O Anel de Coordenadas Homogêneo
Demonstração Iremos supor, sem perda de generalidade, que X não está contida em nenhum
subespaço linear do espaço projetivo Pnk . Desta forma, temos
V = V0 ∪ V1 ∪ · · · ∪ Vn , Vi = V ∩ Ui ̸= ∅. (3.62)
Sejam X0 , . . . , Xn coordenadas homogêneas em Pnk . Se f ∈ OV (V ), então f ∈ OV (Vi ). Sob
a luz do isomorfismo k(V ) ≃ k(Vi ), temos que f|Vi pode ser representada por um polinômio nos
quocientes X0 /Xi , . . . , Xi−1 /Xi , Ti+1 /Ti , . . . , Xn /Xi . Limpando denominadores, temos
gi
f|Vi = , g ∈ S(V ) homogêneo de grau Ni (3.63)
XiNi
Seja L = Frac(S(V )). A equação anterior mostra que xN
P
i f ∈ S(V )Ni . Assim, se N ≥ Ni e
i
m ∈ S(V )N , então
f S(V )N ⊂ S(V )N (3.64)
e portanto
f q S(V )N ⊂ S(V )N , para todo q ≥ 1. (3.65)
Segue daí que X0n f q ∈ S(V )N para todo q ≥ 1 e portanto S(V )[f ] ⊂ S(V ) · X0−N ⊂ L.
Assim, S(V )[f ] é um S(V )−módulo finitamente gerado e, portanto, f é integral sobre S(V ).
Portanto, existe uma relação polinomial
f m + am−1 f m−1 + · · · + a1 f + a0 = 0 (3.66)
Agora, f é um quociente de duas formas em S(V ) de mesmo grau, e portanto, todos os coeficientes
da equação acima possuem grau zero. Assim, f é algébrico sobre k , que é algebricamente fechado.
Logo f é constante.
Podemos, com a tecnologia desenvolvida nesta seção, definir o conceito de mapa regular sobre
uma variedade quasiprojetiva Y que é um aberto de uma variedade projetiva X, copiando a definição
de mapa regular da seção anterior.
Definição 3.4.7
Seja X uma variedade projetiva e Y ⊂ X um aberto.
(a) Uma função regular φ : Y → Ank é uma coleção de mapas regulares φ1 , . . . , φn ∈ OX (Y )
tal que
φ(p) = (φ1 (p), . . . , φn (p)).
43
3.5 Mapas Racionais
(b) Uma função f : Y → Pnk é uma função regular se existe uma vizinhança U de p carta
afim Ui ⊂ Pnk contendo f (p) de forma que f : U → Ui é um mapa regular.
♣
onde F0 , . . . , Fm ∈ S(V ) são polinômios homogêneos e de mesmo grau tais que, para todo
p ∈ Y , Fi (p) ̸= 0 para algum i.
♣
O domínio dom(f ) de um mapa racional é o conjunto dos pontos de X tais que f é regular em p,
e este conjunto é um conjunto aberto. Se f : X → Y é um mapa racional dominante, então f define
44
3.5 Mapas Racionais
um pullback f ∗ : k(Y ) → k(X) como no caso afim. De maneira análoga ao caso afim, também
definimos o conceito equivalência birracional. Neste caso, f ∗ é um isomorfismo de corpos.
Mostaremos agora que equivalência birracional é, num certo sentido, um isomorfismo a menos
de um conjunto "pequeno".
Teorema 3.5.2
Duas variedades quasiprojetivas irredutíveis X, Y são birracionais se, e somente se, possuem
abertos U ⊂ X, V ⊂ Y isomorfos. ♡
Tome E ′ = π −1 (E) ∪ {0} e W ′ o subespaço gerado pelos vetores wi = (ai0 , . . . , ain ). É claro
que W ′ = E ′⊥ , e portanto W = π(W ′ \ {0}) é um subespaço linear de Pnk de dimensão n − d − 1 e
disjunto de E. Aplicando o processo de Gram-Schmidt a w1 , . . . , wn−d , é possível supor que ||wi || = 1
e wi ⊥ wj .
Seja x ∈ Pnk \ E e L o menor subespaço linear de Pnk que contém E e x. Em k n+1 , este subespaço
corresponde a L′ =< v0 , . . . , vn , x > . Como E ′ ∩ W ′ = {0}, segue que dim L′ ∩ W ′ = 1, donde
W ∩ L consiste de um único ponto π(x). Calculemos π(x) em termos das coordenadas homogêneas
induzidas por w1 , . . . , wd .
Seja u ∈ L′ ∩ W. Então u = v + αx = α1 w1 + · · · + αn−d wn−d com v ∈ V e α, α1 , . . . , αn−d ∈ k.
Do fato de que Li (v) = 0, Li (wi ) = 1 e Li (wj ) = 0 se i ̸= j, temos que αi = αLi (x) e portanto
πE (x) = [L0 (x) : · · · : Ln−d (x)] ∈ P(W ) = Pkn−d−1 (3.69)
Exemplo 3.2 Considere o mapa racional
f: P2k 99K P2k
(3.70)
[X0 : X1 : X2 ] → [X1 X2 : X0 X2 : X0 X1 ]
45
3.5 Mapas Racionais
Observe que, dividindo por X0 X1 X2 , temos f ([X0 : X1 : X2 ]) = [1/X0 : 1/X1 : 1/X2 ]. Assim,
em P2k \ V(X0 X1 X2 ) temos f ◦ f = id, e portanto f é um mapa birracional. O mapa f não está
definido em [1 : 0 : 0], [0 : 1 : 0], [0 : 0 : 1] e se L é uma reta que liga dois destes três pontos, então
f (L) é um ponto.
Exemplo 3.3 Seja n um número natural positivo, e considere o mapa racional
φn : P1k 99K Pnk
(3.71)
[X0 : X1 ] → [X0n ; X0n−1 X1 : · · · : X0 X1n−1 : X1n ].
Como p = [a : b] ∈ P1k implica em a ̸= 0 ou b ̸= 0, então φn é um mapa regular em P1k . Vamos
mostrar que φn (P1k ) é fechado em Pnk . Sejam Y0 , . . . , Yn coordenadas homogêneas em Pnk . Temos
Yi Yj+1 − Yi+1 Yj = (X0n−i X1i )(X0n−j−1 X1j+1 ) − (X0n−i−1 X1i+1 )(X0n−j X1 j) =
X02n−i−j−1 X1i+j+1 − X02n−i−j−1 X1i+j+1 = 0 (3.72)
em φn (P1k ). Assim
" #
Y0 Y1 Y2 · · · Yn−1
φn (P1k ) ⊂ V I2 (3.73)
Y1 Y2 Y3 · · · Yn
onde I2 representa o ideal gerado
" por todos os subdeterminantes
# 2 × 2 de uma matriz. Agora,
Y0 Y1 Y2 · · · Yn
seja p = [Y0 : · · · : Yn+1 ] ∈ V I2 . Notemos inicialmente que Y0 ̸= 0 ou
Y1 Y2 Y3 · · · Yn+1
Yn ̸= 0. De fato,
Y12 = Y0 Y2
Y 2 = Y 1 Y 3
2
.. (3.74)
.
Y 2 = Y Y
n−1 n−2 n
e portanto
Y0 = 0 ou Yn = 0 =⇒ Y1 = · · · = Yn−1 = 0. (3.75)
46
3.6 Produtos de Variedades Quasiprojetivas
n
X
(i0 , . . . , in ); ij ∈ N, ij = d (3.77)
j=0
e defina
N −1
vn,d : Pnk 99K Pk n,d
(3.78)
[X0 : · · · : Xn ] → [· · · : X0i0 · · · Xnin : . . . ].
O leitor irá demonstrar (veja Exercício ) que vn,d é um mapa regular, quevn,d (Pnk ) = V(I), onde
I é o ideal gerado pelas relações
Yi0 ···in Yj0 ...jm − Yk0 ...kn Yl0 ...ln ; is + js = ks + ls , 0 ≤ s ≤ n (3.79)
e que Pnk ≃ vn,d (Pnk ).
P
O mapa de Veronese possui uma propriedade geométrica interessante. Seja H = V( ai0 ...in Yi0 ...n ) ⊂
N n,d)
Pk ( um hiperplano e L = H ∩ vn,d (Pnk ). Então
X
−1
vn,d (L) = V( ai0 ...in X0i0 . . . Xnin ). (3.80)
Como um corolário do exemplo acima, temos o seguinte resultado.
Teorema 3.5.3
Seja F ∈ k[X0 , . . . , Xn ] um polinômio homogêneo e reduzido. Então Pnk \V(F ) é uma variedade
afim. ♡
Demonstração Seja d = deg F . Pelo exemplo anterior, temos que vn,d (V(F )) é isomorfo a
N
H ∩ vn,d (Pnk ), onde H ⊂ Pk n,d−1 é um hiperplano. Assim Pnk \ V(F ) ≃ vn,d (Pnk ) \ H, que é uma
variedade afim.
nào possui a estrutura de um espaço projetivo. Nossa missão nesta seção é construir, dadas variedades
quasiprojetivas X, Y , construir uma variedade projetiva Z que funcione como o produto X × Y .
Tornamos isto mais claro com a definição categórica do que é um produto.
Definição 3.6.1
Sejam X, Y duas variedades quasiprojetivas. Dizemos que uma variedade quasiprojetiva Z é
um produto de X e Y se existem morfismos pX : Z → X, pY : Z → Y satisfazendo a seguinte
propriedade universal:
47
3.6 Produtos de Variedades Quasiprojetivas
Segue da definição acima que o produto entre duas variedades quasiprojetivas, se existir, é único
a menos de isomorfismo único.
Se X ⊂ Ank , Y ⊂ Am n
k são variedades afins, então X × Y = {(x, y) : x ∈ X, y ∈ Y } ⊂ Ak × Ak
m
f: W → X ×Y
(3.82)
w → (φ(p), ψ(p))
satisfaz φ = pX ◦ f, ψ = pY ◦ f.
Comentário
Antes de seguir em frente, é instrutivo mencionar quem é o anel de coordenadas k[X × Y ].
Utilizando a equivalência entre variedades afins e seus morfismos com anéis de coordenadas e seus
homomorfismos, temos que k[X × Y ] deve satisfazer a seguinte propriedade universal:
O anel que satisfaz esta propriedade universal é o produto tensorial de k-álgebras k[X] ⊗k
k[Y ]. Não daremos detalhres sobre a construção deste produto tensorial, e listaremos apenas duas
propriedades importantes:
k[x1 , . . . , xn ] ⊗k k[y1 , . . . , ym ] ≃ S = k[x1 , . . . , xn , y1 . . . , ym ] (3.83)
k[x1 , . . . , xn ]/I ⊗k k[y1 , . . . , ym ]/J ≃ k[x1 , . . . , xn , y1 . . . , ym ]/(IS + JS). (3.84)
48
3.6 Produtos de Variedades Quasiprojetivas
Teorema 3.6.2
Sejam φ : Pnk × Pm N n m M
k → Pk , ψ : Pk × Pk → Pk dois mergulhos que satisfazem a propriedade
local acima. Então φ(Pnk × Pm n m
k ) ≃ ψ(Pk × Pk ). ♡
Demonstração conteúdo...
Agora, precisamos construir um mergulho como acima. Sejam X0 , . . . , Xn e Y0 , . . . , Ym coor-
(n+1)(m+1)−1
denadas homogêneas em Pnk , Pm
k respectivamente e considere Pk com coordenadas homo-
gêneas Wij , 0 ≤ i ≤ n, 0 ≤ j ≤ m. Defina
(n+1)(m+1)−1
Ψn,m : Pnk × Pmk → Pk
(3.87)
[X0 : · · · : Xn ] × [Y0 : · · · : Ym ] → [· · · : Xi Yj : · · · ]
Não é difícil escrever equações que zeram em im Ψn,m. De fato,
im Ψn,m ⊂ V(Wij Wkl − Wkj Wil , 0 ≤ i, k ≤ n, 0 ≤ j, l ≤ m) (3.88)
Mais ainda, se [Wij ] ∈ im Ψn,m podemos supor sem perda de generalidade que W00 ̸= 0. Assim,
se k = l = 0, as equações acima nos dão
e portanto [Wij ] = Ψ([W00 : W10 : · · · : Wn0 ] × [W00 : W01 : · · · : W0m ]). Assim, finalizamos a
(n+1)(m+1)−1
construção de um mergulho Ψn,m : Pnk × Pm k → Pk
Vamos agora discutir a propriedade local do produto mencionada anteriormente. Considere
(n+1)(m+1)−1
U0 = Pnk \ V(X0 ), V0 = Pm k \ V(Y0 ) e Z00 = Pk \ V(W00 ). Por construçao, temos
Ψm,n (U0 × V0 ) = Z00 ∩ im Ψm,n (3.90)
Sejam xi = Xi /X0 , yj = Yj /Y0 , wij = Wij /W00 coordenadas afins em U0 , V0 . Z0 respectiva-
mente. Assim, pelas equações homgêneas de im Ψn,m temos
wi0 = Wi0 /W00 = Xi Y0 /X0 Y0 = xi ; (3.91)
w0j = W0j /W00 = X0 Yj /X0 Y0 = yj ; (3.92)
E portanto o mapa
φ: Ank × Ank → Z00 ∩ im Ψm,n
(3.94)
(x1 , . . . , xn , y1 , . . . , ym ) → [1 : wij ]
é um isomorfismo. Isto completa a construção do mergulho Ψm,n .
O mergulho Ψm,n é chamado de mergulho de Segre e a variedade projetiva Sm,n = im Ψm,n a
variedade de Segre associada a o par (n, m). Este mergulho nos permite definir uma topologia de
Zariski em Pnk × Pm n m
k : um subconjunto F ⊂ Pk × Pk é fechado se, e somente se Ψn,m (F ) é fechado
em Sm,n .
Considere o anel
S = k[X0 , . . . , Xn , Y0 , . . . , Ym ] (3.95)
49
3.6 Produtos de Variedades Quasiprojetivas
deg Xi = (1, 0)
e
R = k[X0 , . . . , Xn , y1 , . . . , ym ]
deg(Xi ) = 1.
com Fi ∈ S homogêneo.
(b) Todo subconujunto fechado X ⊂ Pnk ×Amk , na topologia induzida pelo mergulho de Segre,
é da forma
V(F1 , . . . , Fk )
com Fi ∈ R homogêneo. ♡
Uma vez definido o conceito de produto entre duas variedades qusiprojetivas, podemos investigar
mais diferenças entre as variedades afins e as variedades projetivas. No Teorema 3.4.6 provamos
que não existem mapas regulares não-constantes em variedades projetivas. Mais ainda, o Teorema
50
3.6 Produtos de Variedades Quasiprojetivas
3.4.9 nod diz que nâo há morfismos não triviais de uma variedade projetiva para um esoaçco afim.
Provaremos agora a verdadeira razão disto.
Teorema 3.6.4
Seja f : X → Y um morfismo entre duas variedades qusiprojetivas. Então o gráfico
Γf := {(x, f (x)); x ∈ X}
é um subconjunto fechado de X × Y. ♡
φ : X × Pmk → Pm
k × Pk
m
(3.99)
(x, p) → (f (x), p)
e a diagonal
∆Pm
k
= {(x, x); x ∈ Pm m m
k } ⊂ Pk × Pk (3.100)
−1
É claro que ∆ é um subconjunto fechado de Pm m
k × Pk e que Γf = φ (∆). Assim, pela
continuidade de φ Γf ⊂ X × Pm
k é fechado.
Teorema 3.6.5
Seja X uma variedade projetiva e Y uma variedade quasiprojetiva. Então a segunda projeção
p:X ×Y →Y
leva fechados em fechados. ♡
Demonstração Observe que se X ⊂ Pnk , então Z ⊂ X × Y é fechado se, e somente se, Z é fechado
em Pnk × Y. Mais ainda, como ser fechado é uma propriedadr local, podemos supor que Y é uma
variedade afim e, pelo argumento anterior, podemos supor Y = Am k
Seja Z = V(f1 (X, y), . . . , fs (X, y)) ⊂ Pnk ×Am
k um fechado e p : Pnk ×Am
k a projeção na segunda
coordenada. Então
p(Z) = {y0 ∈ Ank ; f1 (X, y0 ) = · · · = fs (X, y0 ) = 0 possui uma solução não-nula.} (3.101)
Agora, se m ⊂ k[X0 , . . . , Xn ] é o ideal irrelevante, então pelo Nullstellensatz
51
3.6 Produtos de Variedades Quasiprojetivas
52
Capítulo 4 Teoria de Dimensão
O nome morfismo finito é justificado pelo próximo teorema, que infere que um mapa finito
possui fibras finitas.
Teorema 4.1.2
Seja f : X → Y um morfismo finito entre duas variedades afins. Se y ∈ Y , então f −1 ({y}) é
finito. ♡
Já vimos anteriormente que, ao contrário de um mapa entre variedades projetivas, um mapa entre
variedades afins não necessariamente leva fechados em fechados. Provaremos agora que mapas finitos
são aplicações fechadas.
Teorema 4.1.4
Sejam f : X → Y um morfismo finito e Z ⊂ X um subconjunto fechado. Então f (Z) ⊂ Y é
um subconjunto fechado. ♡
Demonstração É suficiente provar para o caso em que Z é irredutível. Pelo Teorema 2.5.7, f (Z) =
V((f ∗ )−1 (I(Z))), que é um ideal primo de k[Y ]. Agora, a extensão de anéis k[Y ]/(f ∗ )−1 (I(Z)) ⊂
k[X]/I(Z)) é inteira, e portanto o mapa Z → f (Z) é finito e, pelo Teorema 4.1.3 é sobrejetivo.
Resta para nós definir o que seria um mapa finito entre variedades quasiprojetivas em geral. Para
isto, precisamos primeiramente mostrar que a finitude de um mapa é um conceito local. Isto é o que
provaremos a seguir.
Teorema 4.1.5
Seja f : X → Y um morfismo entre duas variedades afins. Se para todo p ∈ Y existe uma
vizinhança U de p tal que
(a) U é isomorfa a uma variedade afim;
(b) f −1 (U ) é isomorfa a uma variedade afim;
(c) f : f −1 (U ) → U é finito;
Então f é um mapa finito. ♡
Demonstração
Seja U um aberto de X isomorfo a uma variedade afim com anel de coordenadas k[U ]. Se
g ∈ k[Y ], então f ∈ k[U ] e Yg ∩ U = Ug . Mais ainda, temos
f −1 (Uf ) = {p ∈ f −1 (U ); g(f (p)) ̸= 0} = f −1 (U )f ∗ (g) (4.4)
Assim, podemos supor que Y possui uma cobertura aberta da forma
Y = Yg1 ∪ · · · ∪ Ygr (4.5)
de forma que f : Xf ∗ (gi ) → Ygi sejam mapas finitos. Algebricamente, temos que g1 , . . . , gr ∈
k[Y ], (g1 , . . . , gr ) = k[Y ] e k[Y ][1/gi ] ⊂ k[X][1/gi ] inteira. Sejam então wi1 , . . . , wini ∈ k[X]
geradores de k[X][1/f ∗ (gi )] como k[Y ][1/gi ]-módulo. Se x ∈ k[X], então
x X cij
= αj wij (4.6)
1 j
g i
P αj
Agora, existem hij ∈ k[Y ] tais que hij gi = 1. Assim,
α
X X
x = 1x = x hij gi j = cij hij wij (4.7)
e portanto x é inteiro sobre k[Y ].
Estamos agora prontos para definir o que é um mapa finito entre variedades quasiprojetivas.
54
4.1 Mapas Finitos
Definição 4.1.6
Seja f : X → Y um morfismo entre duas variedades quasiafins. Dizemos que f é um mapa
finito se para todo p ∈ Y existe um aberto U contendo p tal que:
(a) U é isomorfo a uma variedade afim;
(b) f −1 (U ) é isomorfo a uma variedade afim;
(c) f : f −1 (U ) → U é finito.
♣
Por fim, como ser fechado é uma propriedade local, as conclusões do Teorema 4.1.3 também
valem para um morfismo finito entre duas variedades quasiprojetivas.
A teoria de morfismos finitos têm também consequências sobre a estrutura de morfismos em
geral.
Teorema 4.1.7
Seja f : X → Y um morfismo dominante entre variedades quasiprojetivas. Então im f possui
um aberto de Y . ♡
Demonstração Basta provar o teorema no caso em que X, Y .são variedades afins e irredutíveis. Se
r = tr. degk(Y ) , existem u1 , . . . , um ∈ k[X] algebricamente independentes sobre k[Y ] tais que k(X)
é inteira sobre k(Y ). Como k[Y ][u1 , . . . , um ] = k[Y × Amk ], as inclusões de anéis
é finito.
Vejamos agora que, sob certas hipóteses, a projeção πE com centro em um espaço linear E ⊂ Pnk
é um morfismo finito.
Teorema 4.1.8
Seja X ⊂ Pnk um fechado e E ⊂ Pnk um subespaço linear de dimensão d e disjunto de X. Então
a projeção πe : X → πE (X) é um mapa finito.
♡
Demonstração Considere a projeção πE : Pnk → Pn−d−1k dada por πE (x) = [L0 (x) : . . . , Ln−d−1 (x)].
Sejam Y0 , . . . , Yn−d−1 coordenadas homogêneas em Pkn−d−1
, Vi = V(Yi ) e Ui = πE−1 (Vi ) = X \V(Li ).
Então Ui e Vi são afins. Como a propriedade de ser um morfismo finito é local, basta provar que
πE : Ui → Vi ∩ π(X) é um mapa finito.
Seja então g ∈ k[Ui ]. Devemos mostrar que g é inteiro sobre k[Vi ]. Para isso, note que g = G/Lm i ,
55
4.1 Mapas Finitos
não possui nenhuma solução em Pn−d k . Pelo Nullstellensatz projetivo (Teorema ) existe k > 0 tal que
k
Zn−d ∈ (Z0 , m . . . , Zn−d−1 , F0 , . . . , Fm ). Daí, temos que
X X
k
Zn−d = Hj Zj + Pj Fj , Hj , Pj ∈ k[Z0 , . . . Zn−d ] (4.13)
Assim, restringindo a ∈ φ, e tomando componentes homogêneas, temos
X
k
Zn−d − Zj (Hj )k−1 = 0 em im φ (4.14)
X
Gk − Lj (Hj )k−1 = 0 em im φ (4.15)
∗
formas lineares tais que Fi = vm (Li ). Se πE é a projeção de PN
k com centro em E = V(L0 , . . . , Lm ),
d
então im φ = π ◦ vd . Como X ≃ vd (X) e vd (X) → πE (vd (X)) é um morfismo finito pelo Teorema
anterior (vd (X) ∩ E = ∅), X → πe ◦ vd (X) = φ(X) é um morfismo finito.
Teorema 4.1.10
Seja X uma variedade quasiprojetiva.
(a) Se X é uma variedade projetiva irredutível, então existem m ∈ N um morfismo finito
φ : X → Pmk .
(b) Se X é uma variedade afim irredutível, então existe em m ∈ N e um morfismo finito
φ : X → Ank .
♡
m−1
Demonstração (a): Suponha que X ⊊ Pm m
k . Se p ∈ Pk \ X, a projeção πp : X → Pk define um
m−1 m
mapa finito x → πp (X), que por sua vez é um fechado em Pk . Se φ(X) = Pk − 1, acabou. Se
não, podemos repetir o processo até obter um mapa finito X → Pm k .
(b): Seja X ⊂ Ak e X ⊂ Pk seu fecho projetivo. Se X ̸= Ank , então existe um ponto
n n
56
4.2 Dimensão de Variedades Algébricas
p ∈ (Pm m
k \ Ak ) \ X. Tome πp a projeção com centro em p. Então X → πp (X) é finita e πp (X) está
contida em uma parte afim de Pm−1
k . A demonstração então segue de maneira análoda ao item (a).
Definição 4.2.2
Sejam Y ⊂ X variedades quasiprojetivas irredutíveis. A codimensão de Y em X é definida por
codimX Y = dim X − dim Y. ♣
Exemplo 4.1 Se X = p ∈ Ank , então k({p}) = k. Portanto dim X = 0. Reciprocamente, suponha que
X ⊂ Pnk seja um conjunto finito e tome L ⊂ Pnk uma forma linear com L ∩ X = 0. Assim, X ⊂ Pnk \ L
e podemos supor sem problemas que X ⊂ Ank .
Agora, temos que X = k[x1 , . . . , xn ]/I(X) e, como dim X = 0, as funções coordenadas xi são
algébricas sobre k. Assim, cada coordenada t − i toma valores em um conjunto finito e portanto X é
finito.
Exemplo 4.2 Vimos no capítulo anterior que a Grassmanianna G(r, n + 1) é coberta por abertos
r(n+1−r)
isomorfos a Ak e portanto dim G(r, n + 1) = r(n + 1 − r).
Exemplo 4.3 Sejam X ⊂ Ank , Y ⊂ Am k subconjuntos fechados do espaço afim com dim X =
N, dim Y = M. Sejam x1 , . . . xn , y1 , . . . , ym coordenadas em Ank , Am
k . Sem perda de generalidade,
57
4.2 Dimensão de Variedades Algébricas
É claro que k(X × Y ) é algébrico sobre k(x1 , . . . , xN , y1 , . . . , yM ). Suponha que exista uma
relação polinomial
X αM
F (x1 , . . . , xN , y1 , . . . , yM ) = aα (x1 , . . . , xN )y1α1 · · · yM = 0. (4.19)
α
Teorema 4.2.4
Sejam X, Y duas variedades quasiprojetivas com Y irredutível e X fechado em Y . Se dim X =
dim Y, então X = Y. ♡
Demonstração Observe que X = Y se, e somente se, para todo aberto U ⊂ Y tem-se
U ∩ X = U. (4.20)
Assim, podemos supor que Y é uma variedade afim e, como U ∩ X é fechado em U , também
podemos supor que X é afim. Mais ainda, podemos supor que X é irredutível também. Sejam
entãp x1 , . . . , xn coordenadas afins em Y . Como toda relação polinomial em Y induz uma relação
polinomial em X, segue que
dim Y = tr. degk k(Y ) ≥ tr. degk k(X). = dim X.
Suponha agora dim X = dim Y = m e tome t1 , . . . , tm funções coordenadas algebricamente
independentes em X, Por consequência, estas funções são algebricamente independentes sobre Y . Se
X ̸= Y, tome f ∈ k[Y ] uma função regular não-nula tal que f ≡ 0 em X. Como tr. degk k(Y ) =
m, f é algébrica sobre k(x1 , . . . , xm ) e portanto existe uma relação algébrica, irredutível sobre
k(x1 , . . . , xm ), tal que
ak (x1 . . . , xm )f k +ak−1 (x1 , . . . , xm )f k−1 +· · ·+a1 (x1 . . . , xm )f +a0 (x1 . . . , xm ) = 0, ai (x1 . . . , xm ) ∈ k[x1 , . . . ,
(4.21)
58
4.3 Dimensão de Interseção com Uma Hipersuperfície
com a0 ̸= 0. Agora, a relação acima nos mostra que a0 ≡ 0 em X e, pela independência algébrica de
x1 . . . , xm , segue que a0 é identicamente nulo. Contradição.
O teorema acima e sua demonstração é uma versão geométrica do Teorema C.9.3, que afirma que
se p ⊊ q são dois ideais primos do anel de polinômios k[x1 , . . . , xn ], então
tr. degk Frac(k[x1 , . . . , xn ]/q) < tr. degk Frac(k[x1 , . . . , xn ]/p). (4.22)
Mais ainda, o Teorema C.9.4 nos diz que se R = k[x1 , . . . , xn ]/p é um domínio, então
tr. degk R = dim R (4.23)
onde
dim R = sup{n; existe uma cadeia p0 ⊊ p1 ⊊ · · · ⊊ pn ; pi ∈ Spec R} (4.24)
é a dimensão de Krull do anel R. Como consequência desta discussão, temos uma terceira noção
de dimensão, que podemos chamar de definição combinatória de dimensão para uma variedade
quasiprojetiva.
Teorema 4.2.5
Seja X uma variedade quasiprojetiva. Então
dim X = sup{n ∈ N; ∃X0 ⊊ X1 ⊊ · · · ⊊ Xn ⊂ X; Xi irredutível.}
♡
e portanto, no estudo de variedades definidas por mais de uma equação, é necessário estudar a
interseção de uma variedade projetiva com uma hipersuperfície. Faremos este estudo nesta seção.
Começãmos caracterizando as hipersuperfícies no espaço projetivo.
Teorema 4.3.1
Seja X = V(F ) ⊂ Pnk uma hipersuperfície. Então todas as componentes irredutíveis de X
possuem dimensão n − 1. ♡
Demonstração Basta provar para o caso em que X = V(f ) é uma hipersuperfície do espaço afim
Ank . Como k[Ank ] = k[x1 , . . . , xn ] é um domínio de fatoração única, temos que
f = f1a1 · · · fm
am
e V(f ) = V(f1 ) ∪ · · · V(fm ) (4.26)
e portanto, podemos supor que f é irredutível. Como f irredutóvel implica (f ) ideal primo. então
X é irredutível e k[X] = k[x1 , . . . , xn ]/(f ) = k[x1 , . . . , xn ]. Como f (x1 , . . . , xn ) = 0, temos
tr. degk k(X) ≤ n − 1.
Suponha que f envolva a variável xn . Assim, k(X) é algébrico sobre k(x1 , . . . , xn−1 ). Afirma-
mos que x1 , . . . , xn−1 é um conjunto algébricamente independente sobre k. Caso isto não ocorra,
59
4.3 Dimensão de Interseção com Uma Hipersuperfície
existe uma relação polinomial F (x1 , . . . , xn−1 ) = 0 em k(X) = Frac(k[x1 , . . . , xn ]/(f )). Assim,
F (x1 , . . . , xn−1 ) ∈ (f ), o que é impossível, pois f possui xn em seu desenvolvimento, enquanto F
não.
Comentário Pelo Teorema do Ideal Principal de Krull, ht(f ) = 1 (ver Teorema C.9.20). Como o
anel de polinômios k[x1 , . . . , xn ] é catenário (ver ) ele satisfaz
ht p + dim k[x1 , . . . , xn ]/p = n para todo p ∈ Spec k[x1 , . . . , xn ] (4.27)
Isto dá uma outra demonstração para o Teorema acima.
Teorema 4.3.2
Seja X ⊂ Pnk uma variedade projetiva irredutível tal que dim X = n − 1. Então X é uma
hipersuperfície e I(X) é principal.
♡
60
4.3 Dimensão de Interseção com Uma Hipersuperfície
tais que
X ⊋ X 1 ⊋ X 2 ⊋ · · · ⊋ X s ⊋ X s+1 = ∅
dim X i > dim X i+1 (4.28)
Xi+1 = Xi ∩ V(Fi )
Afirmamos que s = dim X. Daí, segue automaticamente que dim X i = dim X − i e dim(X ∩
V(F )) = dim X 1 = dim X − 1. A condição X s+1 = ∅ é equivalente a dizer que F, F1 , . . . , Fs não
possuem zeros comuns em X. Pelo Teorema (universidade) segue que
φ: X → Psk
(4.29)
x → [F : F1 : · · · , Fs ]
é um mapa finito. Assim, dim X = dim Psk .
A demonstração do Teorema acima possui algumas impicações interessantes. Vejamos algumas
delas.
Teorema 4.3.4
Seja X uma variedade algébrica projetiva. Então X possui subvariedades Y ⊂ X de dimensão
0 ≤ d ≤ dim X ♡
Teorema 4.3.5
Seja X uma variedade projetiva irredutível. Então
dim X = 1 + sup dim Y
onde Y percorre todas as subvariedades projetivas próprias de X. ♡
Teorema 4.3.6
Seja X uma variedade projetiva irredutível e F1 , . . . , Fs formas homogêneas que não se anulam
identicamente em X. Enão
dim(X ∩ V(F1 , . . . , Fs )) ≥ dim X − s.
♡
61
4.4 O Teorema da Dimensão das Fibras
Por fim, provamos o seguinte Teorema, importantíssimo para o estudo de Teoria da Interseção no
espaçco projetivo.
Teorema 4.3.8
Sejam X, Y ⊂ Pnk variedades projetivas irredutíveis tais que dim X + dim Y ≥ n. Então
dim(X ∩ Y ) =≥ dim X + dim Y − n.
Em particular, X ∩ Y ̸= ∅. ♡
seja igual a d. Então é natural pensar que dim X = dim Y + d. Nosso objetivo nesta seção é provar
exatamente este teorema.
Teorema 4.4.1 (O Teorema das Dimensão das Fibras)
Seja f : X → Y um morfismo sobrejetivo entre duas variedades irredutíveis.
(a) Se Xy = f −1 (y) é a fibra sobre y ∈ Y, então
dim Xy ≥ dim X − dim Y.
(b) Existe um aberto U ⊂ Y tal que dim Xy = dim X − dim Y para todo ∈ U.
♡
Demonstração A conclusão do item (a) não muda se escolhermos um aberto U ⊂ Y que contém a.
Dessa forma, podemos supor sem perdas que Y é uma variedade afim.
Agora, tome F1 , . . . , Fdim Y um conjunto de polinômios com dim(Z = X ∩V(F1 , . . . , Fdim Y )) =
0 e y ∈ Z. Restringindo o aberto U se necessário, podemos supor que Z = {p.} Assim
Xy = V(f ( F1 ), . . . , f ∗ (Fdim Y )) =⇒
(4.31)
dim Xy ≥ dim X − dim Y.
Vamos agora provar a segunda parte. Novamente, podemos trocar Y por um aberto W afim.
62
4.4 O Teorema da Dimensão das Fibras
e portanto xi é algebricamente dependente sobre sobre k(x1 , . . . , xN −M ] ) Esta relação vale sobre cada
componente irredutível de Xy e portanto dim Xy ≤ dim X − dim Y para todo y ∈ U.
Teorema 4.4.2
Seja f : X → Y um morfismo sobrejetivo entre duas variedades quasiprojetivas. Os conjuntos
Ys = {y ∈ Y ; dim Xy ≥ s}
é um subconjunto fechado. ♡
Demonstração Seja d = dim X − dim Y. O Teorema da dimensão das fibras, parte (a) afirma que
Yd = Y. Pelo item (b), segue que Yk está contido em fechado Z. se k > d. Seja Zi uma componente
irredutível de Z e Xi = f −1 (Zi ). Como dim Zi < dim Y, Podemos novamente aplicar o teorema da
dimensão das fibras ao morfismo Xi → Zi . O teorema então segue por indução.
Muitas vezes as propriedades geométricas das fibras de um mapa regular sobrejetivo f : X → Y
nos dá alguma informação sobre X. Vejamos um exemplo.
Teorema 4.4.3
Seja f : X → Y um morfismo sobrejetivo entre variedades projetivas. Suponha que
1. Y é irredutível.
2. A fibra Xy é irredutível para todo y ∈ Y.
3. A função y → dim Xy é constante em Y.
Então X é irredutível. ♡
63
4.5 Aplicações
4.5 Aplicações
possui uma solução em Pnk . Para tentar entender este problema, identifiquemos o espaço das
Nn,d −1
formas homogêneas de grau di em Pnk com o espaço projetivo Pk i e considere o subconjunto
N −1 N −1
Γ = {(F0 , . . . , Fn , p) ∈ X = Pk n,d0 × · · · × Pk n,dn × Pnk ; p ∈ (F0 , . . . , Fn )}. (4.37)
Observe que Γ é um fechado em X. Assim, o cpnjunto
N −1 N −1
Y = π1 (Γ) ⊂ Pk n,d0 × · · · × Pk n,dn , (4.38)
N −1
que corresponde ao sistemas 4.36 que possuem uma solução em Pnk é um fechado de ×···× Pk n,d0
Nn,dn −1
Pk que pela demonstração do Teorema 4.3.3 é próprio. Vamos calcular dim Y.
Para isto, note que existem sistemas do tipo 4.36 que possuem um número finito de soluções.
Portanto existem fibras de dimensão zero para π1 e portanto pelo Teorema da Dimensão das Fibras:
(a) Existe um aberto de Zariski U ⊂ Y tal que os sistemas 4.36 correspondentes possui uma
quantidade finita de soluções.
(b) dim Γ = dim Y + 0 = dim Y.
Agora, precisamos calcular dim Γ. Seja p ∈ PN k . Como o anulamento de uma forma de grau d
Nn,d −1
em p corresponde a uma equação linear em Pk , segue que
X
dim π2−1 (p) = (Nn,di − 1) − n − 1 (4.39)
e portanto o Teorema da dimensão das Fibras nos dá
X X
dim Γ = dim π2−1 (p) + dim Pnk = (Nn,di − 1) − n − 1 + n = (Nn,di − 1) − 1 (4.40)
Pelo Teorema 4.4.3, Γ é irredutível e portanto Y é irredutível. Mais ainda, codim Y = 1 e
portanto Y é defiida por uma equação multihomogênea. Em resumo:
64
4.5 Aplicações
Teorema 4.5.1
Sejam n ≥ 0 e F0 , . . . , Fn ∈ k[X0 , . . . , Xn ] de graus d0 , . . . , dn . Então existe uma forma
irredutível Fd0 ,...,dn homogênea em cada conjunto de coeficientes das formas Fi tal que
V(F0 , . . . , Fn ) ̸= ∅ ⇐⇒ Fd0 ,...,dn (F0 , . . . , Fn ) = 0.
♡
Teorema 4.5.2
♡
65
Capítulo 5 O Estudo Local das Variedades
Algébricas
Comentário Se X é uma subvariedade irredutível, OX,p coincide com o anel das funções racionais
em X que são regulares em p.
Definição 5.2.1
Sejam X = V(f ), l ⊂ Ank uma reta e φ como na discussão acima. A multiplicidade de
interseção ente l e X em p é definida por
mp (l, X) = max{n; tn |φ∗ (f )}.
♣
Definição 5.2.2
Seja X = V(f ) ⊂ Ank uma hipersuperfície e p ∈ X.
(a) Uma reta l ⊂ Ank é tangente a X em p se mp (l, X) ≥ 2.
(b) O espaço tangente a X em p é a união Tp X = l entre todas as retas l ⊂ Ank tais que
S
mp (l, X) ≥ 2.
♣
Precisamos encontrar um critério para que uma reta l pertença ao espaço tangente Tp X de uma
hipersuperfície X. Para isto, introduzimos o conceito de diferencial de uma função.
Definição 5.2.3
Seja f ∈ k[x1 , . . . , xn ] e p = (a1 , . . . , an ) ∈ Ank . A diferencial de f em p é a forma linear
X n ∂f
dp f (x) = lim f (p)(xi − pi )
i=1 ∂xi
♣
Na definição acima, utilizamos o conceito formal de derivadas parciais. Observe que todo
polinômio f ∈ k[x1 , . . . , xn ] pode ser escrito da forma
deg f
X
f (x1 , . . . , xn ) = f (p) + dp f (x1 , . . . , xn ) + fd (x1 − p1 , . . . , xn − pn ) (5.2)
i=2
onde fi é uma forma homogênea de grau i. Assim, é fácil ver que se l = {p + (a1 , . . . , an )t},
então
n
X ∂f
mp (l, X) ≥ 2 ⇐⇒ f (p) = (p)ai = 0. (5.3)
i=1
∂x i
67
5.2 O Espaço Tangente Geométrico
para algum 1 ≤ i ≤ n. ♣
Tendo a noção de espaço tangente a uma hipersuperfície, é imediato definir a noção de espaço
tangente a uma variedade afim X = V(f1 , . . . , fm ).
Definição 5.2.6
Seja X = V(f1 , . . . , fm ) uma variedade afim. O espaço tangente a variedade X no ponto
p ∈ X é definido por
\m
Tp X = Tp (V(fi )).
i=1
♣
Definição 5.2.7
Seja X uma variedade afim e p ∈ X. O espaço cotangente de Zariski a X em p é o k-espaço
vetorial
(Tp X)∗ = mp /m2p .
♣
Definição 5.2.8
Seja X uma variedade afim e p ∈ X. O espaço tangente de Zariski a X em p é o k-espaço
vetorial
(Tp X) = (mp /m2p )∗ .
♣
68
5.3 Suavidade e Singularidades de Variedades Algébricas
Assim como entre variedades diferenciáveis, um morfismo φ : X → Y entre duas variedades afins
induz uma aplicação linear dp φ : Tp X → Tf (p) Y. De fato, seja φ∗ : k[Y ] → k[X] o homomorfismo
de k-álgebras associado. Então φ∗ (mf (p) ) ⊂ mp e φ∗ (m2f (p) ) ⊂ m2p . Assim, temos um homomorfismo
de k-espaços vetoriais
(Tf (p) Y )∗ = mf (p) /m2f (p) → (Tp X)∗ = mp /m2p (5.7)
o qual podemos tomar o dual, obtendo assim um homomorfismo de k-espaçõs vetoriais
dp φ : Tp X → Tf (p) Y. (5.8)
Vamos calcular dp φ. Sejam x1 , . . . , xn e y1 , . . . , ym coordenadas afins em X, Y respectivamente
e suponha, por simplicidade, que p = f (p) = 0. Por fim, escreva f (p) = (f1 (p), . . . , fm (p)) e
(2)
fi (x1 , . . . , xn ) = dp fi (x) + fi (5.9)
(2)
onde fi possui apenas monômios de grau maior que 1. Assim, temos
φ∗
mf (p) −→ mp → mp /m2p
n (5.10)
P ∂fi
yi → fi (x1 , . . . , xn ) → ∂xj
(p)dp xj
j=1
que induz, nos espaços cotangentes, o homomorfismo
(Tf (p) Y )∗ → (Tp X)∗
n
P ∂fi (5.11)
df (p) yi → ∂xj
(p)dp xj
j=1
Tomando o dual, obtemos a diferencial entre os espaçõs tangentes como a transformação linear
que, representada na base dual {dp x∗i }, {df (p) yi∗ }, é dada pela matriz
h i
∂fi
∂xj (5.12)
1≤i≤m,1≤j≤n.
comumente chamada de matriz jacobiana de f em p.
69
5.3 Suavidade e Singularidades de Variedades Algébricas
Definição 5.3.1
Seja X uma variedade algébrica e
s = min dim Tp X.
p∈X
Um ponto x ∈ X é dito um ponto não-singular se dim Tp X = s, e singular caso contrário. O
subconjunto (necessariamente fechado) dos pontos singulares de X é denotado por Sing(X)
♣
Teorema 5.3.2
Seja X ⊂ Ank uma variedade algébrica afim irredutível. Se p ∈
/ Sing(X), então dim Tp X =
dim X. ♡
1
f (x1 , . . . , xn ) = F (1, X1 /X0 , . . . , Xn /X0 ). (5.15)
X0d
Diferenciando a relação acima em relação a Xi obtemos
1 ∂F ∂f 1
d ∂X
(p) = (X1 /X0 , . . . , Xn /X0 ). (5.16)
X0 i ∂xi X0
Assim, o espaço tangente (afim) de X em p é dado por
n n
X ∂f pi X 1 ∂F pi
0= (p)(xi − ) = d−1
(p)(xi − ) (5.17)
i=1
∂xi p0 i=1
X0 ∂Xi p0
Tomando o fecho projetivo de Tp X em Pnk temos
n n n
X ∂F X ∂F X ∂F
0= (p)(p0 Xi − pi X0 ) = −( pi (p))X0 + p0 (p)Xi (5.18)
i=1
∂X i i=1
∂X i i=1
∂X i
70
5.4 O anel local de um ponto não-singular.
a qual calcularemos agora. Suponha, sem perda de generalidade, que p ∈ U0 . Assim, temos
π: π −1 (U0 ) → U0
(5.22)
(X0 , . . . , Xn ) → (X1 /X0 , . . . , Xn /X0 )
Cuja matriz jacobiana em q = (q0 , . . . , qn )é dada por
−q1 /q02 1/q0 0 0 ··· 0
−q2 /q02
0 1/q 0 0 · · · 0
−q /q 2 0 0 1/q0 · · · 0
Jq π = 3 0 (5.23)
. . . . . .
.. .. .. .. . . ..
2
−qn /q0 0 0 0 · · · 1/q0
Assim, se ∂
∂X0
, . . . , ∂X∂ n é a basede Tq An+1
k , então Jq π é sobrejetora e
X ∂
ker Jq π =< qi >. (5.24)
∂Xi
Desta forma, identificando Tq An+1
k com An+1k , vemos que ker Jq π é exatamente o subespaço
vetorial lq gerado por q. Assim,
Tp Pnk ≃ Tq An+1
k /lq . (5.25)
De maneira similar, podemos provar uma mesma relação para qualquer variedade projetiva X.
Se C(X) ⊂ An+1
k é o cone afim sobre X, p ∈ X e q ∈ π −1 (p), então
Tp X = Tq C(X)/lq . (5.26)
71
5.4 O anel local de um ponto não-singular.
Anéis regulares possuem diversas características interessantes, que se refletem na geometria das
variedades afins em vininhanças de pontos são-singulares.
Teorema 5.4.2
Sejam X uma variedade afim de dimensão n, p ∈ X um ponto não-singular e mp athcalOX,p =
(u1 , . . . , un ). Então p é um ponto não-singular de V(ui ) e
\
Tp V(ui ) = 0.
♡
Demonstração Segue diretamente do fato que {dp ui ; 1 ≤ i ≤ n} é uma base para mp /m2p .
Teorema 5.4.3
Seja X uma variedade não necessariamente irredutível. Se x é um ponto não singular de X,
então x está contido em uma única componente irredutível de X. ♡
gi f
fi = (5.27)
hi
72
5.5 Variedades Normais
Demonstração Escreva f (p) = [f0 (p) : · · · : fN (p)] com cada fi uma função regular em X. Se
p é um ponto não-singular de X, podemos supor que X é uma variedade afim, que fi ∈ OX,p e que
mdc(f0 , . . . , fm ) = 1.
T T T
Agora, dom(f ) = X \ V(fi ). Afirmamos que codim V(fi ) ≥ 2. De fato, se codim V(fi ) =
p
1, o Teorema 5.4.4 nos diz que (f1 , . . . , fm ) = (g) ⊊ OX,x , o que contradiz mdc(f0 , . . . , fm ) = 1.
Teorema 5.4.6
Seja C uma curva projetiva suave. Então todo mapa racional φ : C → PN k é um morfismo.
Em particular, duas curvas algébricas projetivas suaves são birracionais se, e somente se, são
isomorfas. ♡
Um exemplo de variedades normais são variedaders algébricas afins tais que k[X] é um domínio
de fatoração única. De fato, seja f /g ∈ k(X) inteiro sobre k[X]. Podemos supor que f, g não possuem
fator comum. Assim, existe uma relação polinomial
(f /g)n + an−1 (f /g)n−1 + · · · + a0 = 0, ai ∈ R, a0 ̸= 0. (5.28)
Que nos dá
f n + an−1 f n−1 g + an−2 f n−2 g 2 + · · · + a1 f g n−1 + a0 g n = 0 =⇒ g|f n (5.29)
o que contradiz o fato de f, g não possuirem fator comum.
Vamos mostrar qgora que a normalidade de uma variedade afim (e por consequência, a normali-
73
5.5 Variedades Normais
dade de uma variedade quasiprojetiva) pode ser verificada em todos os seus anéis locais.
Teorema 5.5.2
Seja X uma variedade afim irredutível. São equivalentes:
1. X é normal.
2. Para toda subvariedade irredutível Y ⊂ X, OX,Y é integralmente fechado em k(X).
3. Para todo p ∈ X, o anel local OX,p é integralmente fechado em k(X).
♡
Demonstração conteúdo...
Seja X uma variedade algébrica irredutível e não-singular. Então, para todo p ∈ X o anel
local OX,p é um anel local regular, e portanto um domínio de fatoração única. Segue que OX,p é
integralmente fechado em k(X). Assim, provamos:
Teorema 5.5.3
Seja X uma variedade algébrica irredutível e não-singular. Então X é normal. ♡
O teorema acima mostra que, em um certo sentido, a noção de variedade normal é uma "versão
mais fraca"da noção de não-singularidade. Veremos agora um exemplo desta ideia: Vamos mostrar
que toda subvariedade de codimensão 1 em uma variedade irredutível e normal X possui uma equação
local em algum aberto de X.
Teorema 5.5.4
Seja X uma variedade normal e Y uma subvariedade de codimensão um. Então existe um
aberto afum U ⊂ X tal que I(Y ∩ U ) ⊂ k[U ] é principal.
♡
Já mostramos previamente que, dada uma variedade algébrica X, o conjunto dos pontos singulares
Sing(X) é um fechado próprio de X. Vamos mostrar que se X é uma variedade normal, então Sing(X)
é especialmente pequeno.
Teorema 5.5.5
Seja X uma variedade normal. Então
codimX Sing(X) ≥ 2.
♡
74
5.6 O Teorema de Whitney para Variedades Algébricas Projetivas
gerada. SeX̃ é uma variedade algébrica com k[X̃] = R, então X̃ é uma variedade normal e a inclusão
k[X] ,→ R nos dá um morfismo finito
f
X̃ →
− X. (5.30)
Definição 5.5.7
Seja X uma variedadequasiprojetiva irredutível. Dizemos que um par (X̃, f ) é uma norma-
lização de X se X̃é uma variedade quasiprojetiva normal e f : X̃ → X é um mapa finito e
birracional. ♣
Desta forma, o Teorema 5.5.6 se lê da seguinte forma: toda variedade afim X admite uma
normalização que também é afim. O próximo Teorema versa sobre algumas propriedades universais
da normalização de uma variedade afim.
Teorema 5.5.8
Seja X uma variedade afim irredutível e (X̃, f ) uma normalização de X.
(a) Seja g : Y → X um morfismo finito e birracional. Então existe um morfismo h : X̃ → Y
tal que f = g ◦ h.
(b) Se Y é uma variedade afim normal e g : Y → X é um morfismo dominante, então existe
um morfismo h : Y → X̃ tal que g = f ◦ h. ♡
Demonstração Temos inclusões k[X] ≃ f ∗ (k[X]) ⊂ k[Y ] ⊂ k(Y ) ≃ k(X). Assim, podemos supor
que
k[X] ⊂ k[Y ] ⊂ k(X) (5.31)
com k[Y ] integral sobre k[X]. Desta forma, se R é o fecho inteiro de k[X] em k(X), então
k[Y ] ⊂ S. As inclusões
k[X] ⊂ k[Y ] ⊂ R = k[X̃] (5.32)
75
5.6 O Teorema de Whitney para Variedades Algébricas Projetivas
Nosso primeiro passo é caracterizar mapas finitos que são, de fatos mergulhos fechados.
Teorema 5.6.2
Seja X uma variedade quasiprojetiva e f um morfismo finito partindo de X. O morfismo
induzido f : X → f (X) é um isomorfismo se, e somente se:
(a) f : X → f (X) é um morfismo finito;
(b) f é injetiva;
(c) A diferencial dp f : Tp X → Tf (p) Y é injetiva.
♡
Comentário As condições (b) e (c) no enunciado do Teorema acima são descritas comumente com
as frases:O morfismo f separa pontos (condição (b)) e separa vetores tangentes (condição (c)).
Demonstração Devemos provar que a aplicação inversa g = f −1 : Y = f (X) → X (que existe,
pois f é injetiva) é de fato um morfismo. Como a regularidade de uma função é uma condição local,
podemos supor que X, Y são variedades afins e que a extensão de anéis f ∗ [Y ] ⊂ k[X] é integral.
Sejam p ∈ X e q = f (p) .Dualizando a condição (c) das hipótese do teorema, segue que o
homomorfismo induzido f ∗ : mq /m2q → mp /m2p é sobrejetivo. Assim, se mq OY,q = {u1 , . . . , uk },
então as imagens f ∗ (u1 ), . . . , f ∗ (uk ) geram mp /m2p . Assim, pelo lema de Nakayama (Teorema C.4.16),
mp O)X, p = (f ∗ (u1 ), . . . , f ∗ (uk )), isto é,
mp OX,p = f ∗ (mq )OX,q . (5.33)
Afirmação: OX,p é um OY,q −módulo finitamente gerado.
Como k[X] é uma k-álgebra finitamente gerada, o anel k[X] éum k[Y ]-módulo finitamente
gerado. Vamos mostrar que se x1 , . . . , xn geram k[X] como k[Y ] módulo, então x1 /1, . . . , xn /1
geram OX,p como ′ mathcalOY,q -módulo.
Seja então a ∈ k[X]\mp . Como p ∈ / V(a), a injetividade de f diz que q ∈/ f (V(a)). Como f é um
mapa finito, f (V(a)) é fechado e portanto existe c ∈ I(f (V(a))))) com c(q) ̸= 0. Assim, f ( c) ∈
/ mp
∗
e V(a) ⊂ V(c). Pelo Nullstellenszats, existe n ∈ N, b ∈ k[X] tais que f (c)n = ab. Observe que
b∈/ mp .
Agora, seja x/a ∈ OX,p . Pelo argumento acima, existe ∈ k[X] \ mp com ab = f ∗ (c) e c ∈ / mq e
76
5.6 O Teorema de Whitney para Variedades Algébricas Projetivas
x X f ∗ (ci ) xi
= (5.34)
a f ∗ (c) 1
e portanto x1 /1, . . . , xn /1 geram OX,p como OY,q -módulo.
Agora, por (5.33) segue que
k ≃ OX,p /mp OX,p = OX,p /f ∗ (mq )OX,p . (5.35)
Pelo Lema de Nakayama (Teorema C.4.16) OX,p é gerado sobre OY,q por 1. Assim f ∗ OY,q = OX,p .
Para concluir a prova, observe que em OX,p , temos que xi /1 = f ∗ (yi /hi ) para algum yi ∈
OY, q, hi ∈ / mq . Assim, se Y ′ = Y \ V(h1 · · · hn ) e X ′ = f −1 (Y ′ ), o homomorfismo de anéis
f ∗ : k[Y ′ ] → k[X ′ ] é um isomorfismo. O Teorema está provado.
n−1
Seja X ⊊ PN N
k uma varierdade projetiva não-singular, ξ ∈ Pk \ X e πξ : X → Pk . Pelo
Teorema 4.1.8 πξ é um morfismo finito que é injetivo sem e somente se, cada reta l que passa por p
intersecta X em no máximo um ponto. Mais ainda, se l é uma reta que passa por um ponto p, temos
que ker dp πξ = l. Assim, (dp πξ )|Tp X é injetiva se, e somente se, l ̸⊂ Tp X.
Assim, para provar o Teorema 5.6.1, devemos encontrar ξ ∈ PN k \ X tal que
(a) Para toda reta l passando por ξ, temos |l ∩ X| ≤ 1;
(b) Se p ∈ l ∩ X, l ̸⊂ Tp X.
Para provar (a), defina em Pnk × X × X a variedade de incidência
Γ1 = {(ξ, a, b) ∈ Pnk × X × X; ξ, a, b são colineares}. (5.36)
com as projeções
π π
Pnk ←−
1 2
Γ1 −→ X ×X (5.37)
Como a condição de ser colinear é uma condição determinantal nas coordenadas de ξ, a, b, segue que
Γ1 é fechado. Observe que
Pn × {a} × {b}, se a = b;
−1 k
π2 (a, b) = (5.38)
lab × {a} × {b}, se a ̸= b
e portanto o Teorema da Dimensão das Fibras (Teorema 4.4.1) nos dá
dim Γ1 = 2n + 1 (5.39)
e portanto U1 = π1 (Γ1 ), o conjunto dos pontos ξ para o qual alguma reta passando por ξ intersecta
X em pelo menos dois pontos, é um fechado irredutível e dim U1 ≤ 2n + 1.
Defina agora a variedade de incidência
Γ2 = {(ξ, p) ∈ Pnk × X; lξ,p ⊂ Tp X} (5.40)
Observe que lξ,p ⊂ Tp X se, e somente se lξ,p ⊂ ker dp πξ , que é uma condição algébrica em ξ, p.
Portanto Γ2 ⊂ Pnk × X é fechado. Considere as projeções
π π
Pnk ←−
1 2
Γ2 −→ X. (5.41)
É claro que π2−1 (p) = Tp X × {p}. Assim, um novo uso do Teorema da Dimensão das Fibras nos
dá
dim Γ2 = dim X + dim X = 2n. (5.42)
77
5.7 Os Teoremas de Bertini
Teorema 5.7.2
Suponha que k é um corpo de característica zero. Se f : X → Y é um morfismo dominante
entre duas variedades irredutíveis tais que X se mantém irredutível sobr e k(Y ). Então existe
um aberto U ⊂ Y tal que
y ∈ U =⇒ Xy = f −1 (y) é irredutível.
♡
78
5.8 O Grau de um Mapa Finito
Teorema 5.7.3
Seja f : X → Y um morfismo dominante entre variedades irredutíveis sobre um corpo
algebricamente fechado de característica zero. Se X é uma variedade não-singular, então
existe um aberto U ⊂ Y tal que
y ∈ U =⇒ Xy = f −1 (y) é não-singular.
♡
φ : k[X0 , . . . , Xn , Y1 , . . . , Yn ] → k[X0 , . . . , Xn ]
Xi → Xi (5.48)
Yj → Lj
cujo núcleo é dado pelo ideal bihomogêneo
I(Π) =< Yi Lj − Yj Li ; 1 ≤ i < j ≤ n > . (5.49)
As equações acima, então, definem a explosão de Pnk com centro em p.
Observe que σ induz um isomorfismo entre os conjuntos Π \ σ −1 (p) e Pnk \ p. Mais ainda, sobre p
as equações de I(Π) são trivialmente satisfeiras, o que nos leva a concluir que σ −1 (p) = {p} × Pn−1
k .
−1 −1
A variedade Π é lisa fora da fibra σ (p). Vejamos o que acontece em um ponto (q, t) ∈ σ (p).
79
5.9 Explosão de uma Subvariedade
Neste caso, podemos supor sem perda de generalidade que Y1 (t) ̸= 0 e portanto Π é definida em uma
vizinhança de (q, t) pelas equações
Lj (X) = L1 (X)yj (5.50)
Da equação acima, vemos que embora σ −1 seja apenas um mapa racional não definido em p, o
mapa racional σ|l−1 pode ser estendido a um morfismo
σ −1 : l → Π (5.52)
definindo σ −1 (p) = (p, [α1 : α2 : · · · : αn−1 : 1]).
Por último, mostramos que Π é irredutível. COnsidere para isto a segunda projeção π2 : Π →
Pk . As considerações acima mostram que a fibra π2−1 (q) sobre um ponto q ∈ Pn−1
n−1
k é isomorfa a uma
n−1
reta. Desta forma, o morfismo π2 : Γ → Pk possui fibras irredutíveis e portanto Π é irredutível.
80
5.9 Explosão de uma Subvariedade
Resta, novamente, analisarmos o que acontece com os pontos y = (p, q) ∈ σ −1 (p).Sem perda de
generalidade, podemos supor que Y1 (q) ̸= 0. Assim, no aberto X × U1 temos, se yi = Yi /Y1
I(Y ) < uj − yj u1 ; 2 ≤ j ≤ n > (5.55)
e portanto em OΠ,y temos dy (uj ) = yi dy (u1 ) + u1 (p)dy (yi ) = yi dy (u0 ) e portanto
my /m2y =< dy u1 , . . . , dy un + dy y2 , . . . , dy yn >=< dy u1 , dy y2 , . . . , dy yn > . (5.56)
Assim, temos que dim Π = n e dim Ty Π ≤ n e portanto Π é uma variedade não-singular ao
longo da fibra σ −1 (p).
Temos neste momento uma pergunta importante: o que acontece caso utiliemos um outro sistema
de parâmetros w1 , . . . , wn satisfazendo as propriedades 1 e 2? Denotando por σ ′ : Π → X a
construção acima utilizando o sistema de parâmetros w1 , . . . , wn é imediato verificar que os morfismos
φ : Π \ σ −1 (p) → Π′ \ σ ′−1 (p) e ψ : Π \ σ ′−1 (p) → Π \ σ −1 (p) dados por
φ(x, q) = (x, [w1 (x) : · · · : wn (x)])
ψ(x, q) = (x, [u1 (x) : · · · : un (x)]) (5.57)
81
5.9 Explosão de uma Subvariedade
82
Capítulo 6 Divisores
Seja X uma variedade irredutível tal que codim Sing(X) ≥ 2. Desta forma, toda subvariedade
C ⊂ X de codimensão 1 possui uma equação local πC em um aberto U ⊂ X com C ∩ U ̸= ∅. Sendo
assim, se C ⊂ X é um divisor primo, o anel local OX,C é um anel local de dimensão 1 e o ideal
maximal I(C)OX,C é igual ao ideal gerado pela equação πC , isto é I(C)OX,C = (πC ).
Definição 6.1.2
Sejam X uma variedade irredutível tal que codim Sing(X) ≥ 2.
(a) Se φ ∈ k[X], defina a ordem de f ao longo de C por
ordC (f ) = max{k; f ∈ I(C)k OX,C };
(b) Se φ = f /g ∈ k(X), defina
ordC φ = ordC (f ) − ordC (g)
♣
6.2 Divisores de Cartier
O conjunto
[
Supp(fi , Ui ) = +vC ≥ 0 (6.4)
A discussão acima mostra que se X é uma variedade não-singular, então todo divisor de Weil é
um divisor de Cartier. O suporte de um divisor de
O conjunto de divisores de Cartier de uma variedade X forma um grupo. Sejam D =
(Ui , fi ), D′ (Vj , gj ) dois divisores de Cartier. Podemos refinar as coberturas de forma a definir re-
presentações equivalentes D = (fij , Ui ∩ Vj ), D′ = (gij , Ui ∩ Vj ) definindo fij = fi e gij = gj .
Assim, podemos definir D + D′ como o divisor de Cartier
D + D′ = (fij gij , Ui ∩ Vj ). (6.5)
Definindo −D = (fi−1 , Ui ), temos que (CaDiv(X), +) é um grupo abeliano. Mais ainda, o
conjunto dos divisores principais, isto é, divisores da forma (f, X) forma um subgrupo CaDiv0 (X)
dos divisores de Cartier principais.
84
6.3 Divisores e Morfismos para Pnk .
Definição 6.2.2
Seja X uma variedade irredutível. O grupo de Picard de X é o grupo abeliano
Pic(X) = CaDiv(X)/ CaDiv0 (X).
♣
A noção de divisor de Cartier nos permite definir o pullback de um divisor de Cartier via um
morfismo. Seja f : X → Y um morfismo entre variedades e (fi , Ui ) um divisor de Cartier em Y tal
que f (X) ̸⊂ Supp(fi , Ui ). Então a família (f ∗ (fi ), f −1 (Ui )) define um divisor de Cartier em X de
forma que f ∗ (fi ) não é identicamente nula.
Desta forma, se f : X → Y é um morfismo dominante, podemos definir o pullback
f ∗ : CaDiv(Y ) → CaDiv(X)
(6.6)
(fi , Ui ) → (f ∗ (fi ), f −1 (Ui ))
Observe, por último, que se (g, Y ) é um divisor principal em Y , então (f ∗ (g), X) também é um
divisor principal em X, e portanto o pullback f ∗ se estende a um homomorfismo de grupos de Picard
f ∗ : Pic(Y ) → Pic(X). (6.7)
Exemplo 6.1O Divisor de uma Forma Homogênea. Seja X ⊂ Pnk uma variedade projetiva não-
singular e F uma forma omogênea de grau d em Pnk . Tome uma cobertura aberta X = Ui onde
S
Ui = X \ V(Gi ) com deg G= deg F. (Verifique a existência de uma cobertura como essa.) Defina a
família (F/Gi , Ui ). Em Ui ∩ Uj temos
F/Gi Gj
= , (6.8)
F/Gj Gi
que é uma função regular e sem zeros em Ui ∩ Uj e portanto (F/Gi , Ui ) é um divisor de Cartier.
Observe que este divisor independe das escolhas de Gi e portanto, F define um divisor de Weil efetivo
DF em X. Mais ainda, se deg G = deg F, então F/G é uma função racional em X e portanto DF
e DG são linearmente equivalentes. Se L é uma forma linear em X, é então fácil ver que DF é
linearmente equivalente ao divisor dDL .
Retornando ao problema de se estudar o pullback de divisores induzido por um morfismo f :
X → Y , vamos mostrar agora que é possível driblar a restrição de que f é um morfismo dominante.
Teorema 6.2.3
Seja X uma variedade quasiprojetiva não-singular, D um divisor de Weil em X e x1 , . . . , xn ∈
/ Supp D′ .
X. Então existe um divisor de Weil D ∼ D tal que xi ∈ ♡
Demonstração
Podemos reduzir ao caso em que D é um divisor primo. Vamos provar o Teorema por indução.
Suponha que {x1 , . . . , xk−1 } ∈ / Supp(fi , Ui ) mas xk ∈ Supp(fi , Ui ).
Seja π uma equação local para D numa vizinhança de xk . Podemos supor que π ∈ k[X].
De fato, basta multiplicar π por alguma função que cancele os pólos de π e que siga sendo uma
equação local. Agora, tome gi funções regulares tais que gi (xi ) ̸= 0 e gi identicamente nula em D ∪
{x1 , . . . , xi−1 , xi+1 , . . . , xn }. Por fim, existem constantes α1 , . . . , αm−1 tais que f = π + m−1 2
P
i=1 αi gi
85
6.3 Divisores e Morfismos para Pnk .
l
Y
πijj = gh. (6.13)
j
86
6.3 Divisores e Morfismos para Pnk .
Considere M ∈ GLn+1 (k) uma matriz não-singular e g0 , · · · , gn definidos pela equação matricial
(g0 , . . . , gn ) = (f0 , . . . , fn ) · M (6.16)
O mapa racional ψ : X 99K Pnk definido por (g0 , . . . , gn ) é, essencialmente, o mapa racional ψ.
Mais precisamente, M induz um automorfismo linear h : Pnk → Pnk talq ue ψ = h ◦ φ, ou seja, ψ e φ
diferem apenas por uma mudança de coordenadas em Pnk .
A discussão acima nos leva a dizer que se quisermos definir φ sem pensar em um sistema de
coordenadas projetivas fixado, devemos considerar o subespaço vetorial V ⊂ k(X) gerado pelas
funções racionais f0 , . . . , fn . Observe que se f ∈ V, então ÷f − D é um divisor efetivo. Isto nos leva
a fazer algumas definições.
Definição 6.3.2
Seja X uma variedade irredutível não singular e D um divisor em X. O espaço de Riemann-
Roch associado a D é
L(D) = {f ∈ k(X); ÷(f ) + D} ≥ 0.
♣
Observe que L(D) parametriza todos os divisores efetivos que são linearmente equivalentes a D.
Definição 6.3.3
Um sistema linear de divisores efetivos (ou, mais resumidamente, um sistema linear) é um
conjunto de divisores da forma
S = {Div f − D; f ∈ V }
onde V é um subespaço vetorial de L(−D) para algum divisor D. Um sistema linear é dito:
1. sem componentes comuns se para todo divisor primo C ∈ X, existe um divisor D̃ ∈ S
tal que C ∈/ Supp D̃.
S
2. livre de pontos base se para todo p ∈ X exite um divisor D̃ ∈ S com p ∈
/ C ′ ∈Supp D̃ C.
3. completo se V = L(−D) para algum divisor D. Neste caso, escrevemos S = |D| e que
|D| é o sistema linear (completo) associado ao divisor D.
♣
Retornemos a nossa discussão. Recorde que φ : X 99K Pnk é um mapa racional dado por
[f0 : · · · : fn ], Di = Div(fi ) e D = mdc(D0 , . . . , Dn ). Sob a luz da definição acima, Di − D efetivo
implica que o k-espaço vetorial V ⊂ k(X) gerado por f0 , . . . , fn é um sistema linear contido em
L(−D). Observe também que φ está definida a menos de um conjunto de codimensão nomáximo
2 (ver Teorema ??). Isto se reflete no fato que de os divisores D0 − D, . . . , Dn − D não possuem
componentes comuns.
Finalmente, é fácil entender geometricamente os divisores D̃ assiciados ao sistema linear V .
De fato, suponha que D̃ = Div(f ) − D para f ∈ L(−D). Assim, existem α0 , . . . , αn ∈ k com
αi fi e portanto D̃ = φ∗ (Div(αi Xi )).
P
f=
Outra pripriedade interessante do mapa racional φ é que ele permanece o mesmo se multiplicar-
mos todas as funções fi por uma mesma função racional g. Neste caso, o divisor D é substituído pelo
divisor D + Div g.
87
6.3 Divisores e Morfismos para Pnk .
Teorema 6.3.4
Sejam X uma variedade quasiprojetiva não-singular e D, D′ dois divisores em X linearmente
equivalentes. Se D = D′ + Div(g), então a função
L(D) → L(D′ )
f → gf
é um isomorfismo de espaços vetoriais.
♡
É fácil ver quando a imagem do mapa racional φ está contida em um subespaço linear de Pnk :
isto ocorre exatamente quando as funções f0 , . . . , fn formam um conjunto linearmente dependente.
Extraindo-se um conjunto linearmente independente, digamos f0 , . . . , fk . Desta forma, temos um
teorema análogo ao Teorema anterior para mapas racionais φ : X → Pnk tais que φ(X) não esteja
contida em nenhum subespaço linear H ⊂ Pnk .
Teorema 6.3.6
Seja X uma variedade quasiprojetiva não-singular. Existe uma correspondência entre:
(a) Mapas racionais φ : X 99K Pnk tais que φ(X) não esteja contida em nenhum subespaço
linear de Pnk
(b) Um trio ([D], S, {f0 , . . . , fn }) onde [D] é uma classe de divisores de Weil em X, S é um
sistema linear associado a um subespaço V ⊂ L(−D) de dimensão n sem componentes
comuns e {f0 . . . , fn } é uma base de V .
♡
Por fim, a conclusão do Teorema 6.3.1 é equivalente a dizer que o sistema linear S associado ao
mapa racional φ não possui pontos de base. De fato, p ∈ X pertence a Supp Div(f ) − D para todo
divisor Div f − D ∈ S se e somente se p ∈ Supp Div(fi ) − D. Assim, temos:
Teorema 6.3.7
Seja X uma variedade quasiprojetiva não-singular. Existe uma correspondência entre:
(a) Morfismos φ : X → Pnk tais que φ(X) não esteja contida em nenhum subespaço linear
de Pnk
88
6.3 Divisores e Morfismos para Pnk .
(b) Um trio ([D], S, {f0 , . . . , fn }) onde [D] é uma classe de divisores de Weil em X, S é
um sistema linear associado a um subespaço V ⊂ L(−D) de dimensão n sem pontos de
base e {f0 . . . , fn } é uma base de V .
♡
89
Parte III
Ou, no caso discutido nestas notas, o caso em que X, Y são variedades projetivas e, para cada
U ⊂ X aberto de Zariski, o conjunto
Mor(U ; Y ) = {f : U → Y mapa regular}. (7.3)
Observe que, em ambos os casos, se U ⊂ V são dois abertos de X, então f ∈ C(U ; Y ), D(U ; Y ), Mor(U ; Y ) =
{f : U → Y mapa regular} se restringe a um elemento de f ∈ C(V ; Y ), D(V ; Y ), Mor(V ; Y ), respec-
tivamente. A ideia central da defdinição de pré-feixe é, então, generalizar esta estrutura de restrição.
Definição 7.1.1
Seja X um espaço topológico. Um pré-feixe de grupos abelianos F sobre X é um funtor
contravariante
F : Opn(X) → Ab .
Definição 7.1.2
O pré-feixe trivial sobre um espaço topológico X é o pré-feixe
0: (Opn)(X) → Ab
U → (0).
♣
7.1 A Categoria dos Pré-Feixes
Vamos trazer a definição acima a uma linguagem mais terrena: denote por F(U ) ogrupo abeliano
aberto U ⊂ X e se U ⊂ V, denote F(U ,→ V ) = ρVU . Então definição de feixe nos diz que se
U ⊂ V ⊂ W, então
ρW V W
U = ρU ◦ ρV . (7.5)
ρW
V
F(W ) −−
→ F(V )
. ↘ ρW
U ↙ ρVU (7.6)
F(U )
é comutativo.
Seja F um pré-feixe de grupos sobre um espaço topológico X e x ∈ X. O sistema (F(U ), ρVU ), p ∈
U forma um sistema direto, conforme a Definição (??), e portanto faz sentido considerar o grupo
Fp = lim F(U ), (7.7)
→
onde o limite direto é tomado sobre os abertos que contém p.
Definição 7.1.3
Sejam X um espaço topológico e F um pré-feixe de grupos sobre X. O grupo Fx definido
acima é chamado de talo do pré-feixe em x ∈ X. A imagem de um elemento σ ∈ F(U ) em Fx
é chamado de germe de σ em x e é denotado por σx . ♣
φ(U )
F(U ) −−−→ G(U )
↓ρ ↓ρ (7.10)
φ(V )
F(V ) −−−→ G(V )
92
7.1 A Categoria dos Pré-Feixes
Vamos mostrar que a Definição acima transforma a categoria de pré-feixes sobre X em uma
categoria abeliana.
Teorema 7.1.5
Seja φ : F → G homomorfismo de pré-feixes.
(a) A associação
U → ker φ(U )
é um pré-feixe sobre X.
(b) A associação U → Coker φ(U ) é um pré-feixe sobre X.
♡
93
7.2 A Categoria dos Feixes
e portanto é possível falar de sequências exatas de pré-feixes. Observe que, neste caso, 0 → F →
G → H → 0 é uma sequência exata de pré-feixes se, e somente se, para todo U ⊂ X aberto temos
que a sequência
0 → F(U ) → G(U ) → H(U ) → 0 (7.17)
Exemplo 7.1 O pré-feixe das funções constantes em Rn é um exemplo de um pré-feixe que não é um
feixe. Seja U = U1 ∪ U2 com U1 , U2 abertos disjuntos. Se c1 ∈ C(U1 ), c2 C(U2 ), é claro que a condição
de compatibilidade da parte (b) da definição de feixe é cumprida, mas existe uma seção c ∈ C(U )
restringindo a c1 , c2 se, e somente se, c1 = c2 .
Os homomorfismos entre dois feixes F, G são, simplesmente, os homomorfismos de pré-feixes
entre eles.
Teorema 7.2.2
S
Sejam X um espaço topológico, F um feixe sobre X, U ⊂ X um aberto e Ui uma cobertura
aberta de U . Considere o sistema S = {F(Ui ), F(Ui ∩ Uj )}. Então
F(U ) ≃ lim F(V )), V ∈ S.
←−
♡
94
7.2 A Categoria dos Feixes
ρU
Ui ∩Uj
F(Ui ) (7.20)
ρU
U
i
U
ρUi ∩U
i j
F(Uj ) U
F(Ui ∩ Uj )
ρUj∩U
i j
Induz o homomorfismo ψU : F(U ) → lim F (UV ) dado por ψ(m) = (ρUV )(m). Observe que,
←−
pela definição de lim F(UV ) (ver a demonstração do Teorema ??) um elemento (mV ) ∈ lim F (UV )
←− ←−
define uma seção m ∈ F(U ) por colagem. Este é o homomorfismo inverso.
Teorema 7.2.3
Sejam F um feixe sobre um espaço topológico X e σ ∈ F(U ). Então σ = 0 se, e somente se,
σp = 0 para todo p ∈ U.
♡
Uma diferença marcante estre as categorias dos pré-feixes e a categoria dos feixes é que o pré-feixe
Coker φ, onde φ é um homomorfismo de feixes, não é em geral um feixe.
Exemplo 7.2 content...
Este problema é remediado através da construção da feixificação de um pré-feixe F. De maneira
intuitiva, a feixificação F̃ de um pré-feixe F é a maneira "mais eficiente"de transformar F em um
feixe. Vamos ao enunciado preciso. ilde
Definição 7.2.5
Sejam X um espaço topológico e F um pré-feixe em X. Uma feixificaço de F é um par (F̃, φ)
onde:
(a) F é um feixe;
(b) φ : F → F̃ é um homomorfismo de pre-feixes;
(c) Se G é um feixe e ψ : F → G é um homomorfismo de pré-feixes, então existe um único
95
7.2 A Categoria dos Feixes
Demonstração Antes de começar a prova proprieamente dita, vale a pena discutirmos a ideia central
da construção: construiremos F realizando as colagens que "faltam"no pré-feixe F.
S
Mais precisamente, seja U ⊂ X um aberto e defina E(U ) = p∈U Fp , a união disjunta dos talos
sobre os pontos p ∈ U e
F̃(U ) = {σ : U → E(U ); para todo p ∈ U existem V ⊃ {p} aberto e h ∈ F(V ) tais que σ(p) = hp ∈ Fp }.
(7.22)
Observe que, naturamente, F̃ é um pré-feixe de grupos abelianos em X. Se h ∈ F(U ), definindo
σh : U → E(U )
(7.23)
p → hp ∈ Fp
constrói-se um homomorfismo de pré-feixes φF : F → F̃. É imediato verificar que φF induz
um isomorfismo nos talos de F, F̃.
Vamos mostrar agora que F̃ é um feixe. É imediato verificar a condição (a) da definição de feixes.
U
Verifiquemos (b). Suponha entáo que U = Ui e sejam σi ∈ F̃(Ui ) tais que ρUUii ∩Uj (σi ) = ρUji ∩Uj (σj ).
S
é bem definida e que ρUUi (σ) = σi , garantindo que F̃é de fato um feixe.
Vamos agora a prova da propriedade universal. Primeiramente, note que se σ ∈ F̃(U ) é da forma
σh para algum h ∈ F(U ), então ψ̃(σ) = ψ(h). Seja agora um elemento σ ∈ F̃(U ) qualquer e tome
S
uma cobertura aberta Vi de U e hi ∈ F(Vi ) tais que σ(p) = (hi )p para p ∈ Vi .
Agora, considere os elementos ψ(hi ) ∈ G(Vi ). Como (hi )p = (hj )p em Ui ∩ Uj , segue que
ψ(hi )p − ψ(hj )p = 0 para todo p ∈ Ui ∩ Uj , e portanto pelo Teorema 7.2.3 ρVVii ∩Vj (ψ(hi )) =
V
ρVji ∩Vj (ψ(hj )). Como G é um feixe, segue que existe uma única seção s ∈ G(U ) tal que ρUVi = ψ(hi ).
Definindo ψ̃(U )(σ) = s, construímos o homomorfismo de feixes ψ̃ : F̃ → G desejado.
96
7.2 A Categoria dos Feixes
97
7.3 Imagens Diretas e Inversas de Feixes
Teorema 7.2.9
Seja φ : F → G um isomorfismo na categoria de feixes. Então φ é um isomorfismo na categoria
de pré-feixes. Em outras palavras, φ é um isomorfismo na categoria de feixes se, e somente se,
φ(U ) é um isomorfismo para cada U ⊂ X.
♡
Teorema 7.2.10
φ ψ
Seja 0 → F −
→G−
→ H → 0 uma sequência exata de feixes. Então a sequência
φ(U ) ψ(U )
0 → F(U ) −−−→ G(U ) −−−→ H(U )
é exata para todo aberto U ⊂ X ♡
98
7.3 Imagens Diretas e Inversas de Feixes
para cada aberto de Zariski U ⊂ Y . É tentador dizermos então que f ∗ induz um homomorfismo entre
os feixes de funções regulares de X e Y . Um cuidado deve ser tomado: homomorfismos de feixes
são construídos a partir de feixes sobre um mesmo espaço topológico. Para remediar este problema,
temos o seguinte resultado.
Teorema 7.3.1
Sejam f : X → Y uma função contínua entre dois espaços topológicos e F um feixe sobre X.
O funtor
U → F(f −1 (U )), U ∈ Opn(Y )
é um feixe sobre Y . ♡
Demonstração Imediato.
Definição 7.3.2
Sejam f : X → Y uma função contínua entre dois espaços topológicos e F um feixe sobre X.
O feixe construído no Teorema 7.3.1 é chamado de imagem direta de F por f e é denotado por
f∗ F. ♣
φV
f∗ F(V ) = F(f −1 (V )) f∗ G(V ) = G(f −1 (V ))
ρU
V ρU
V
(7.34)
99
7.3 Imagens Diretas e Inversas de Feixes
não necessariamente tem-se que f (U ) é aberto em Y . Agora, note que o sistema {F(V ), ρW
V } onde
V é um aberto contendo U , é um sistema direto. Assim, podemos considerar
U→ lim F(V ). (7.36)
−V−⊃f
−− →
(U )
Definição 7.3.3
Sejam f : X → Y uma função contínua entre dois espaços topológicos e F um feixe sobre Y .
A feixificação do pré-feixe dado por
U→ lim F(V )
−V−⊃f
−− →
(U )
Teorema 7.3.4
Sejam f : X → Y uma função contínua entre espaços topológicos, F um feixe sobre X e G um
feixe sobre Y . Então existe uma bijeção
MorSh(X) (f −1 G, F) → MorSh(Y ) (G, f∗ F)
funtorial em F, G. ♡
100
7.4 Reconstruindo Feixes
comutaivo
ψ(W )
G(W ) f∗ F(W ) = F(f −1 (W ))
f −1 (W )
f −1 (W ) ρU
ρU
V ρ −1 (7.41)
f (V )
f −1 (V )
ψ(U ) ρU
−1
G(V ) f∗ F(V ) = F(f (V )) F(U )
nos dá, pela propriedade universal do limite direto, um homomorfismo lim G(V ), V ⊃ f (U ) → F(U ).
−→
Pela propriedade universal da feixificação, temos um homomorfismo f −1 G → F.
Os detalhes finais da demonstração deste Teorema são deixados a cargo do leitor.
Definição 7.4.2
Seja X um espaço topológico com uma base U de abertos para a topologia de X. Um feixe
de grupos abelianos sobre a base U é uma associação F : U → Obj(Ab), juntamente com
homomorfismos ρUV : F (U ) → F (V ) para cada par de abertos básicos V ⊂ U ∈ U tais que:
(a) ρUU = idF (U ) ;
(b) ρVW ◦ ρUV = ρUW para todo trio de abertos básicos W ⊂ V ⊂ U ;
(c) Se U = Vi , com U, Vi abertos básicos e s ∈ F (U ) é tal que ρUVi (s) = 0 para todo Vi ,
S
então s = 0;
V
(d) Se U = Vi , U, Vi abertos básicos e dados si ∈ F (Vi ) tais que ρVWi (si ) = ρWj (sj ) para
S
Teorema 7.4.3
Seja X um espaço topológicos, U uma base para a topologia de X e F um feixe sobre a base
U . Então existe um feixe F, único a menos de isomorfismo, tal que F(U ) ≃ F (U ) para todo
aberto básico U ∈ U e com mapas de restrição compatíveis.
♡
101
7.4 Reconstruindo Feixes
Fx = lim F (U ) (7.42)
−→
A verificação do axioma de colagem também é imediata. Dadas si ∈ F(Ui ) tais que φUUii ∩Uj (si ) =
U
φUji ∩Uj (sj ), a função
s: U → E(U )
(7.44)
x → (si )x se x ∈ UI
é bem definida: se x ∈ Ui ∩ Uj , existe um aberto básioo V ⊂ Ui ∩ Uj contendo x e σ ∈ F (V )
tal que (si )x = σx = (sj )x .
Resta mostrar que para cada U ∈ U temos um isomorfismo F (U ) ≃ F(U ) compatível com as
restrições. Este isomorfismo é dado por
ψU : F (U ) → F(U )
(7.45)
σ → s, onde sx = σx
A demonstração de que ψU é um isomorfismo decorre imediatamente das propriedades de colagem
de um feixe em uma base. Observe também que ψU induz isomorfismos ψx : Fx → Fx nos talos. A
partir daí, também decorre a unicidade por isomorfismos.
Sejam X um espaço topológico e F um feixe sobre X. Se U ⊂ X é um aberto, podemos definir
um feixe F|U sobre U definindo
em Ui ∩ Uj ∩ Uk .
♡
102
7.4 Reconstruindo Feixes
Demonstração conteúdo...
103
7.5 Exercícios
7.5 Exercícios
Exercício 7.1 Seja X um espaço topológico. Um feixe F é dito um feixe flasque se os morfismos de
restrição sãop todos sobrejetivos. Prove que se
0→F →G →H →0
é uma sequência exata de feixes com F flasque, então
Γ(X, G ) → Γ(X, H )
é sobrejetiva.
Exercício 7.2 Sejam X um espaço topológico e
0→F →G →H →0
uma sequência exata de feixes. Prove que se F , G são feixes flasque, então H é flasque.
Exercício 7.3 Sejam Fλ , λ ∈ L uma família de feixesde grupos abelianos sobre um espaço topológico
X.
(a) Mostre que a associação M
U→ Fλ (U )
λ∈L
é um pré-feixe. Prove que a feixificação deste pré-feixe é uma soma direta para a família {Fλ }
na categoria ShX .
(b) Prove que se X é um esquema noetheriano, então o pré-feixe
M
U→ Fλ (U )
λ∈L
é de fato um feixe.
(c) Mostre que a associação Y
U→ Fλ (U )
λ∈L
é um feixe sobre X. Prove que este feixe é um produto direto para a família {Fλ } na categoria
ShX .
Exercício 7.4 Seja {Fλ , φµλ , λ, µ ∈ L} um sistema dirigido de feixes de grupos abelianos sobre um
espaço topológico X.
(a) Mostre que a associação
U → lim Fλ (U )
−→
é um pré-feixe. Prove que a feixificação deste pré-feixe é um limite direto para a família
{Fλ , φµλ } na categoria ShX .
(b) Prove que se X é um esquema noetheriano, então o pré-feixe
U → lim Fλ (U )
−→
é de fato um feixe.
(c) Mostre que a associação
U → lim Fλ (U )
←−
104
7.5 Exercícios
é um feixe sobre X. Prove que este feixe é um limite inverso para a família {Fλ , φµλ } na categoria
ShX .
Exercício 7.5 Sejam X um espaço topológico e F um feixe sobre X. Defina a associação
[
U −→ {σ : U → Fx ; s(x) ∈ Fx }.
x∈U
(a) Prove que esta associação é um feixe, denotado por F desc . Este feixe é denominado o feixe de
seções descontínuas de F . Prove que F desc é flasque.
(b) Prove que existe um homomorfismo injetivo F → F desc .
(c) Prove que F → F desc é um funtor da categoria de feixes nela mesma.
Exercício 7.6 Sejam X um espaço topológico, U ⊂ X aberto e F um feixe em U .
(a) Prove que a associação
F (V ), se V ⊂ U
V →
0, se V ̸⊂ U
é um pré-feixe em X.
(b) O feixe j! F construído a partir do pré feixe do item anterior é chamado de extensão de F a X
por zero. Calcule os seus talos.
105
Capítulo 8 Esquemas Afins
Definição 8.1.2
Um espaço anelado é um par (X, OX ) onde X é um espaço topológico e OX é um feixe de
anéis sobre X. O feixe OX é chamado de feixe estrutural de X. ♣
Definição 8.1.3
Sejam (X, OX ), (Y, OY ) dois espaços anelados. Um morfismo entre espaços anelados é um
par (f, f # ) dados por:
(a) uma função contínua f : X → Y ;
(b) um homomorfismo de feixes de anéis f # : OY → f∗ OX . ♣
Como limites diretos existem na categoria de anéis, podemos considerar, dado um espaço anelado
(X, OX ), e x ∈ X, o talo Fx que também é um anel. Mais ainda, se (f, f # ) : (X, OX ) → (Y, OY )
é um morfismo de espaços anelados, temos que para todo aberto V ⊂ Y que contenha o ponto f (x),
f −1 (V ) é um aberto contendo x. Assim, existe um homomorfismo natural
f∗ Ff (x) = lim f∗ F(V ), f (x) ∈ V = lim F(f −1 (V )) , f (x) ∈ V → lim F(U ), x ∈ U = F, (8.1)
−→ −→ −→
e portanto (f, f # ) induz um homomorfismo de anéis
fx# : OY,f (x) → OX,x . (8.2)
È um bom exercício para o leitor descrever este homomorfismo explicitamente. Também é um
bom exercício provar que a associação (f, f # ) → fx# é funtorial.
Definição 8.1.4
Um espaço anelado (X, OX ) é dito um espaço localmente anelado se para todo x ∈ X o talo
OX,x é um anel local.
♣
Dado um espaço localmente anelado (X, OX ), denotaremos por mX,x o único ideal maximal de
8.2 O Espaço Topológico Spec(R)
OX,x
Definição 8.1.5
Sejam (X, OX ), (Y, OY ) dois espaços localmente anelados. Um morfismo de espaços anelados
(f.f # ) : (X, OX ) → (Y, OY ) é dito um morfismo de espaços localmente anelados se, para
todo x ∈ X, temos que
fx# (mY,f (x) ) ⊂ mX,x .
♣
Definição 8.1.6
Seja (X, OX ) um espaço localmente anelado e f ∈ OX (X). Definimos o valor de f em x como
a imagem de f no corpo
OX,x
k(x) = .
mX,x
♣
No que segue, ao nos referirmos a um espaço localmente anelado (X, OX ), isemos frequentemente
omitir o feixe estrutural OX , denotando o mesmo simplesmente por X. TAmbém, dado um morfismo
(f, f # ) de espaços localmente anelados, frequentemente omitiremos o homomorfismo de feixes
estruturais f # , denotando-o simplesmente por f .
Este conjunto pode ser munido de uma topologia. Seja I ⊂ R um ideal qualquer. Defina
Demonstração
107
8.2 O Espaço Topológico Spec(R)
(a) Imediata.
(b) Imediata.
(c) Ver Teorema C.1.17, (b).
(d) Imediata.
(e) Ver Teorema C.1.16.
O Teorema 8.3 nos diz que os conjuntos da forma V(I) podem ser declarados como os fechados
de uma topologia em Spec(R), a qual também chamamos de Topologia de Zariski em Spec(R).
Teorema 8.2.3
Seja f : R → S um homomorfismo entre anéis comutativos com unidade. Então a aplicação
f a : Spec(S) → Spec(R)
p → f −1 (p)
é contínua. ♡
Demonstração Pelo Teorema C.1.13, f −1 (p) ∈ Spec(R) para todo p ∈ Spec(S). Mais ainda, é fácil
ver que, para todo I ⊂ S ideal, que
f −1 (V(I)) = V(f −1 (I)) (8.4)
Exemplo 8.1 Sejam R um anel, I ⊂ R e f : R → R/I o homomorfismo quociente. Pelo Teorema
C.1.8, temos que a aplicação f a é um homeomorfismo entre Spec(R/I) e o fechado V(I) ⊂ Spec(R.)
Mais ainda, se f : R → S é um homomorfismo de anéis que é sobrejetivo, então S ≃ R/ ker(f ) e
portanto f a : Spec(S) → Spec(R) é um homeomorfismo entre Spec(S) e V(ker(f )).
Exemplo 8.2 Sejam R um anel, S ⊂ R um sistema multiplicativo e φ : R → S −1 R o homomorfismo
de localização. Então φa : Spec(S −1 R) → Spec(R) é um homeomorfismo entre Spec(R) e o
conjunto
{p ∈ Spec(R); p ∩ S = ∅} (8.5)
108
8.3 O Feixe Estrutural OSpec(R)
Teorema 8.2.5
O espaço topológico Spec(R) é quasicompacto, isto é, toda cobertura aberta de Spec(R) possui
subcobertura finita. ♡
Demonstração
Basta provar o Teorema para coberturas por abertos distinguidos. Suponha que Spec(R) =
S P
i∈L Spec(Rf ). Pela demonstração do Teorema anterior, segue que V( i∈L (fi )) = ∅. Assim (1) =
pP P
i∈L (fi ) = i∈L (fi ). Assim, existem f1 , . . . , fn e g1 , . . . , gn ∈ R tais que
f1 g1 + · · · + fn gn = 1. (8.8)
Portanto (f1 , . . . , fn ) = (1) e portanto Spec(R) = ni=1 Spec(Rfi ).
S
induz um homeomorfismo
Spec(R/I) → Spec(R/I 2 ). (8.10)
A nossa missão nesta seção é construir um feixe de funções OSpec(R) sobre Spec(R) que faça esta
distinção. Faremos esta construção de duas formas diferentes.
ρfg : Rf → Rg
1
(8.11)
f
→ grn
Afirmamos que (F, ρfg ) é um feixe sobre a base de abertos distinguidos. É claro que as condições
(a) e (b) da Definição 7.4.2 são satisfeitas. Para provar (c), notemos que se Xf é um aberto distinguido
S
e Xg é uma cobertura aberta por abertos distinguidos de X, então Xg é um aberto distinguido de
Xf . Assim, podemos reduzir a prova de (c) para o seguinte lema:
109
8.3 O Feixe Estrutural OSpec(R)
Lema 8.3.1
Sejam R um anel e f1 , . . . , fn ∈ R elementos que conjuntamente geram o ideal (1) e ρfi : R →
Rfi os homomorfismos de localização. Se r ∈ R é tal que ρfi (r) = 0 para todo i, então r = 0.
♡
Demonstração Se a/1 = 0 em Rfi , existe ni ∈ N tal que fini a = 0. Agora, por hipótese, existem
g1 , . . . , gn tais que
Xn
gi fini = 1. (8.12)
i=1
Demonstração Escreva xi = ai /fiki . Sem perda de geleralidade, podemos supor que ki = k para
1 ≤ i ≤ n. Desta forma, existem
ai aj
k
= k =⇒ (fi fj )mij (ai fjk − aj fik ) = 0 (8.13)
fi fj
Novamente, sem perda de generalidade, podemos tomar mij = m para todo par i, j. Como
ai /fik = ai f m /fim+k , podemos supor, sem perda de generalidade, que
fjk ai = fik aj . (8.14)
Agora, existem b1 , . . . , bn ∈ R tais que bj fjk = 1. Defina s =
P P
bi ai . Assim
X X X
fik s = fik bj aj = bj (fik bj ) = bj fjk ai = ai =⇒ s = ai /fik em Rfi . (8.15)
Assim, de fato (F, ρfg ) é um feixe na base de abertos distinguidos de X. Portanto F induz
um feixe OSpec(R) . Observe que, para cada f ∈ R, F (Xf ) é um anel. Como, pelo Teorema 7.2.2,
F(U ) = lim Rf , Xf ⊂ U, segue que F(U ) também é um anel. Mais ainda, as operações de anéis
←−
são compatíveis com as restrições de F. Assim, dizemos que F é um feixe de anéis.
Definição 8.3.3
Seja R um anel comutativo com unidade. O feixe de anéis OSpec(R) é chamado de feixe estrutural
de Spec(R).
♣
110
8.3 O Feixe Estrutural OSpec(R)
QSpec(R).p ≃ Rp
♡
É claro que estes homomorfismos são compatíveis com as restrições do feixe QSpec(R) e portanto
definem um homomorfismo
φp : QSpec(R),p → Rp (8.20)
Demonstração Seja m = a/f n ∈ Rf . É claro que m define uma seção ψ(m) sobre Xf , a saber:
ψ(m)(p) = φp (m) ∈ Rp (8.21)
onde φp : Rf → Rp é o homomorfismo de localização. Assim, ψ : Rf → QSpec R (Xf ) é
um homomorfismo de anéis. Agora, ψ(m) = 0 se, e somente se φp (m) = 0 em Rp para todo
111
8.4 A Funtorialidade de R → (Spec(R), OSpec(R) ).
Como estes homomorfismos são compatíveis com as restrições nos abertos distinguidos, que
formam uma base da topologia de Zariski de Y , temos um homomorfismo de feixes φ# : OSpec(A) →
f∗ OSpec(B) .
Mais ainda, tomando o limite direto do homomorfismo definito em (8.22) sobre todos os elementos
f ∈ A \ p, temos um homomorfismo nos talos
φ#
p : OSpec(A),p) = Ap → Bφa (p) = (f∗ OSpec(B) )p = OSpec B,φa (p) . (8.23)
Observe que, se φ : A → B, ψ : B → C são dois homomorfismos de anéis, então (ψ ◦ φ)a =
φa ◦ ψ a . Mais ainda, é claro que (ψ ◦ φ)# = (φ)# ◦ ψ # . Assim, a associação
é um funtor contravariante da categoria dos anéis comutativos com unidade sobre a categoria do
espaços localmente anelados, que denotaremos por Spec .
Definição 8.4.1
Seja (X, OX ) um espaço localmente anelado. Dizemos que (X, OX ) é um esquema afim se
existe um anel comutativo R e um isomorfismo de espaços localmente anelados
(X, OX ) ≃ (R, OSpec(R) .
♣
Definição 8.4.2
A categoria AffSch é a categoria onde os objetos são os esquemas afins e os morfismos são os
morfismos de espços localmente anelados entre esquemas afins.
♣
Teorema 8.4.3
O funtor Spec : CRing → AffSch é uma equivalência de categorias. ♡
112
8.5 Exemplos de Esquemas Afins
f
A B
(8.27)
Aφa (p) Bp
φ#
p
Definição 8.6.2
Sejam F, G dois feixes de OX -módulos sobre um espaço localmente anelado (X, OX ). Um
homomorfismo de OX -módulos φ : F → G é uma coleção de homomorfismos de OX (U )-
módulos
φ(U ) : F(U ) → G(U )
tais que
ρUV ◦ φ(U ) = φ(V ) ◦ ρUV .
113
8.6 Feixes de Módulos sobre Esquemas Afins
Lema 8.6.4
Sejam R um anel, M um R-módulo e f1 , . . . , fn ∈ R elementos que conjuntamente geram o
ideal (1) e mi ∈ Mfi tais que
f
ρffii fj (mi ) = ρfji fj (mj ).
Fp = lim Mf , f ∈
/ p = Mp (8.29)
−→
Definição 8.6.5
Seja X = (Spec(R), OSpec(R) ) um esquema afim e M um R-módulo. O feixe M
f é dito o feixe
associado a M . ♣
φf : Mf → Nf (8.30)
114
8.6 Feixes de Módulos sobre Esquemas Afins
φ
e:M f→N e . Por outro lado, se p ∈ Spec(R), podemos tomar o limite direto sobre os abertos U que
contém p para obter um homomorfismo φ ep nos talos. Este homomorfismo é o homomorfismo
bp : Mp → Np
φ (8.32)
induzido pela localização em p.
Nâo é difícil verificar que, se ψ : N → P é um segundo homomorfismo de R-módulos, então
^
(ψ ◦ φ) = ψ◦ e Assim, M → M
e φ. f é um funtor covariante da categoria ModR na categoria ModO .
Spec(R)
Teorema 8.6.6
Seja R um anel comutativo. Então o funtor M → M
f é um funtor fielmente cheio.
♡
Demonstração Seja F um feixe de OSpec(R) -módulos. Defina Γ(F) = F(OSpec(R) ). Mais ainda, se
φ : F → G é um homomorfismo de OX -módulos, defina Γ(φ) = φ(OX ). É claro que Γ : ModOX →
ModR é um funtor e que Γ(M f) = M e Γ(fe) = f para todo R-módulo M e todo homomorfismo
f : M → N.
Agora, devemos provar que a função HomR (M, N ) → HomOX (M f, Ne ) é bijetora. A injetividade
f→N
é imediata. Para a sobrejetividade, seja f : M e e φ = Γ(f ). Como φp = fp , segue que e(φ) = f.
□
Sob a luz do Teorema acima, faz sentido colocarmos a seguinte definição.
Definição 8.6.7
Seja X = Spec R um esquema afim. Um feixe de OX -módulos F é dito um feixe quasicoerente
se F = Mf para algum R-módulo M .
♣
115
Capítulo 9 Esquemas
Neste capítulo, fazemos a construção de esquemas em geral.
Quando for claro no contexto, denotaremos um esquema (X, OX ) simplesmente pelo seu espao
topológico X.
Definição 9.1.2
Um morfismo de esquemas f : (X, OX ) → (Y, OY ) é simplesmente um morfismo entre espaços
localmente anelados. A categoria de esquemas será denotada por Sch ♣
φ
X Y
ρX ρY
(9.1)
S
é comutativo. Os esquemas sobre S, junto com os morfismos de esuqemas sobre S formam uma
categoria, que denotamos por SchS .
OX (U ) → OX (U ∩ V ) = OX (j −1 (V )) = j∗ OU (V ) (9.2)
Definição 9.1.5
Um morfismo de esquemas j : Y → X é dito uma imersão aberta se j : Y → j(Y ) é um
homeomorfismo, j(Y ) é aberto em X e j # : OX |j(Y ) → f∗ OY é um isomorfismo de feixes.
♣
Proposição 9.1.6
Seja X um esquema afim e U, V ⊂ X dois abertos isomorfos a esquemas afins. Então, para
cada x ∈ X, existe um aberto Z ⊂ U ∩ V que é um aberto distinguido de ambos os abertos. ♠
O esquema X construído acima é chamado de união disjunta dos Xi . Este esquema corresponde
a soma direta na categoria Sch .
Demonstração Defina o espaço topológico X como a união disjunta dos espaços topológicos Xi .
Para a topologia de X, declare que U ⊂ X é aberto se, e somente se, Ui = U ∩ Xi é aberto em Xi .
Defina ji : Xi → X como a inclusão.
Definamos agora o feixe estrutural OX . Para isto, defina
Y
OX (U ) = OXi (U ∩ Xi ). (9.3)
i∈L
Partimos para a definição de ji# : OX → (ji )∗ OXi . Se U ⊂ X é aberto, ji# (U ) deve ser um
homomorfismo de anéis
Y
OXi (U ∩ Xi ) → OXi (U ∩ Xi ). (9.4)
i∈L
117
9.1 Esquemas e Morfismos
É claro que (X, OX ) é um esquema. Provemos que ji é uma imersão aberta. É claro que
OX |ji (Xi ) ≃ (ji )∗ OXi via ji# . Resta provarmos a propriedade universal de X.
Para isto, basta observar que se fi : Xi → Y, i ∈ L é uma família de funções contínuas, existe
uma única função contínua f : X → Y tal que fi = f ◦ ji . Isto decorre do fato que a união disjunta é
uma osma direta na categoria dos espaços topológicos.
Resta construir f # . Para isto, note que se U ⊂ Y é um aberto, então temos uma coleção de
homomorfismos de anéis
fi# (U ) : OY (U ) → OXi (fi−1 )U ) = OXi (ji−1 (f −1 (U ))). (9.5)
Pela propriedade universal do produto direto, existe um único homomorfismo de anéis
Y
g(U ) : OY (U ) → OXi (fi−1 (U ) ∩ Xi ) (9.6)
i∈L
#
tal que g(U ) = f (U ) ◦ ji# (U ). É fácil verificar que f # = g é o homomorfismo de feixes
procurado.
□
Uma vez demonstrada a existência de uma soma direta em Sch, podemos também construir um
"limite direto".
Teorema 9.1.8
Sejam (Xi , OXi )i∈L uma família de esquemas, Uij ⊂ Xi familia de abertos para cada par de
elementos i, j ∈ L e isomorfismos de esquemas
φij : Uij → Uji
tais que:
(a) Uii = Xi e φii = idXi
(b) φij = φ−1
ji
(c) φjk ◦ φij = φik em Uij ∩ Uik .
Então existe um único esquema (X, OX ) e imersões abertas φi : Xi → X tais que, para todo
esquema Y e família de morfismos ψi : Xi → Y tais que ψi = ψj ◦ φij em Uij , existe um único
morfismo de esquemas ψ : X → Y tal que ψi = ψ ◦ φi . ♡
118
9.1 Esquemas e Morfismos
OX (V ) = OXi (φ−1
i (V )). (9.8)
É claro que os abertos e os morfismos definidos acima satisfazem as condições do Teorema 9.1.7.
O esquema construído a partir da colagem acima é denotado por P1R , o espaço projetivo unidimensional
sobre Spec R. As imagens φi : Xi → P1R são as chamadas cartas afins de P1R .
Para facilitar a visão sobre P1R , suponha que R é um corpo. Observe que p ∈ Xx para todo
p ̸= (0). Assim, φ1 (p) = φ2 (q) para algum q ∈ Yy . Calculemos q.
Considere então a φ12 : Spec R[x]x → Spec R[y]y . Temos então que qy = φ−1 21 (p). Agora, temos
n
que p = (f ) para algum polinômio irredutível f = a0 + a1 x + · · · an x . Assim,
a0 a1 an a0 y n a1 y n−1 an
qy = ( + +· · ·+ n ) = ( )+ +· · ·+ =⇒ q = (a0 y n +a1 y n−1 +· · ·+an ). (9.12)
1 y y 1 1 1
Em particular, se p = (x − a), a ̸= 0, então q = (ay − 1) = (y − 1/a).
119
9.1 Esquemas e Morfismos
120
9.1 Esquemas e Morfismos
morfismo desejado por colagem. Vejamos uma condição para realizar esta tarefa.
Proposição 9.1.10
T
Sejam X um esquema, Ui uma cobertura aberta de X e fi : Ui → Y morfismos de esquemas
tais que fi |Ui ∩Uj = fj |Ui ∩Uj para todo i ̸= j. Então existe um único morfismo de esquemas
f : X → Y tal que f |Ui = fi .
♠
Teorema 9.1.11
Seja X um esquema e Y = Spec R um esquema afim. Então existe uma bijeção funtorial
HomSch (X, Y ) ↔ HomCRing (R, OX (X)).
♡
(9.21)
121
9.1 Esquemas e Morfismos
Definição 9.1.13
Seja (X, OX ) um espaço anelado. Um feixe de ideais sobre X é um feixe de submódulos J de
OX . ♣
Definição 9.1.14
Seja X um esquema. Um subesquema fechado Z ⊂ X é um subconjunto fechado Z ⊂ X
juntamente com um feixe de anéis OZ de forma que (Z, OZ ) é um esquema e, se iZ : Z → X é
a inclusão, então (iZ )∗ OZ é isomorfo a OX /J para um feixe de ideais J ⊂ OX .
♣
Teorema 9.1.16
Seja Y ⊂ X um subesquema fechado com OY ≃ OX /J com J ⊂ OX um feixe de ideais.
Então, para todo aberto afim U = Spec R ⊂ X, temos que
J |U = ã
para algum ideal a ⊂ R. Em particular, se X = Spec R, então todo subsesquema fechado Y
de X é da forma Spec(R/a).
♡
Demonstração Seja V = Spec R um aberto afim de X que contém y = q ∈ Spec R. Temos que
T
Y ∩ V é um fechado de V . Tome f ∈ R um elemento tal que f ∈ ( p∈Y ∩V p) \ q.
Seja W = Spec S ⊂ Y ∩ V um aberto afim contendo y. A inclusão W → V induz um
homomorfismo de anéis π : R → S e é imediato verificar que, se Vf = Spec Rf = V \ V(f ), então
Spec Sπ(f ) = Wπ(f ) = W \ V(π(f )) = Vf ∩ W. Assim, Vf é o aberto procurado.
□
Sigamos com a demonstração do Teorema.
Demonstração Pelo Exercício ??, basta demonstrar que, para todo todo ponto x ∈ X, existe um
aberto afim U = Spec R de x tal que J |U é quasicoerente.
Pelo Lema demonstrado acima, existe uma vizinhança afim U = Spec R de y tal que U ∩ Y =
Spec S. Defina I = ker φ, onde φ : R → S corresponde a inclusão Spec S → Spec R. Afirmamos
que J |U ≃ I.
e
122
9.2 Propriedades Básicas de Esquemas
Seja f ∈ R. Temos
If = ker φf : Rf → Sφ(f ) = ker(OU (Spec Rf ) → i∗ OY (Spec Rf ) = OY (Spec Rφ(f ) ) = J (Spec Rf ).
(9.22)
□
Corolário 9.1.18
Seja X um esquema e Y um subesquema fechado associado a um feixe de ideais J . Então para
todo aberto afim U = Spec R ⊂ X, temos que Y ∩ U é um aberto afim e isomorfo a Spec R/a
para algum ideal a ⊂ R. ♡
Também temos a seguinte caracterização para imersões fechadas, que é uma releitura do corolário
acima.
Corolário 9.1.19
Um morfismo f : Y → X é uma imersão fechada se,e só se f −1 (U ) ⊂ Y é um aberto afim para
todo aberto afim U ⊂ X e o homomorfismo
OX (U ) → OY (f −1 (U ))
é sobrejetivo. ♡
Proposição 9.2.2
Seja X um espaço topológico irredutível. Então todo aberto U ⊂ X é denso.
♠
123
9.2 Propriedades Básicas de Esquemas
Demonstração Suponha que R admita um único ideal primo minimal p. Seja Y ⊂ X um fechado
que contém p. Então Y contém todos os ideais primos que contém p. Como todo ideal primo de R
contém p, segue que Y = Spec R. Logo Spec R é irredutível.
Reciprocamente, sejam pi i∈L o conjunto do primos minimais de R. Se i ̸= j, é claro que
S
pi ∈/ V(pj ). Portanto X = i∈L V(pi ) e nenhum destes fechados pode ser descartado. Logo X
irredutível implica que L é unitário.
Definição 9.2.5
Seja X um esquema. Dizemos que x ∈ X é um ponto genérico de X se {x} = X. Em outras
palavras, dizemos que x é um ponto genério de X se {x} é denso em X.
♣
Observe que, na topologia induzida, {x} ⊂ X é sempre irredutível. Como o fecho de um conjunto
irredutível é também irredutível, um esquema que possui um ponto genérico é necessariamente
irredutível.
Proposição 9.2.6
Seja X = Spec R um esquema afim. Então X possui um ponto genérico x se, e somente se, X
é irredutível. Neste caso. x = p, o único primo minimal de R. ♠
Demonstração Seja R um anel com um único primo minimal p. Então Spec R = V(p).
□
Teorema 9.2.7
Um esquema X é irredutível se,e somente se possui um único ponto genérico ξX . ♡
124
9.2 Propriedades Básicas de Esquemas
Definição 9.2.9
Seja X um esquema e Y ⊂ X um subesquema fechado.
1. Se Y é irredutível, definimos a codimensão de Y em X por
codimX Y = sup{n| existe uma cadeia Z = X0 ⊊ X1 ⊊ · · · ⊊ Xn }
com Xi ⊂ X fechado irredutível.
2. Se Y não é irredutível, definimos
codimX Y = inf{codimX Z; Z ⊂ Y é fechado irredutível}.
♣
Teorema 9.2.11
Seja X um esquema localmente noetheriano e U = Spec A um aberto afim de X. Então A é
um anel noetheriano. ♡
S
Demonstração Seja Ui = Spec Ai uma cobertura aberta de X por abertos afins e U = Spec A
um aberto afim de X. Pela Proposição 9.1.6, segue que o aberto U ∩ Ui pode ser coberto por abertos
distinguidos de Spec A e Spec Ai . Observe que os abertos distinguidos de Spec Ai são espectros de
anéis noetherianos. Assim, Spec A possui uma cobertura por abertos distinguidos Spec Af que são
todos noetherianos. O resultado então segue do próximo lema.
□
Lema 9.2.12 (Noetherianidade é uma propriedade local)
Sejam A um anel comutativo e f1 , . . . , fn elementos que juntos geram o ideal (1). Então A é
noetheriano se, e somente se, Afi é noetheriano para todo i
♡
Demonstração Todo ideal de Af é da forma IAf para algum ideal de A. Portanto A noetheriano
implica que Af é noetheriano para todo f ∈ R.
Provemos a recíproca enunciada. Para isto, seja F = {fi }i∈L um conjunto gerador para um ideal
I. Como Afi é noetheriano, existe Fi = {fi1 , . . . , fiji } ⊂ F tal que
125
9.2 Propriedades Básicas de Esquemas
é uma cadeia descententes de fechados, então existe k tal que Xi = Xk para todo i ≥ k. ♣
Observação Se R é um anel noetheriano, então X = Spec R é um espaço topológico noetheriano.
O contrário não é verdade. De fato, seja
R = k[xi ; i ∈ N]/(xi+1
i ; i ∈ N). (9.25)
O anel R não é noetheriano, pois o ideal primo p = (xi : i ∈ N)/(xi+1
i ; i ∈ N) não é finitamente
gerado. Por outro lado, p é o único ideal primo de R, e portanto Spec R é noetheriano.
O próximo resultado é deixado como exercício para o leitor.
Teorema 9.2.14
Seja X um espaço topológico noetheriano. Então
X = X1 ∪ · · · ∪ Xn
onde cada Xi é um fechado irredutível e Xi ̸⊂ Xj para i ̸= j.
♡
Proposição 9.2.15
Seja X um esquema noetheriano. Então X é um espaço topológico noetheriano.
♠
S
Demonstração Seja (Ui = Spec Ai ) uma cobertura aberta de X tl que Ai é noetheriano para
todo i. Como X é quasicompacto, podemos supor que esta cobertura é finita. Seja então X1 ⊃
X2 ⊃ X3 ⊃ . . . uma cadeia descendente de fechados. Como Ui é noetheriano, existe ji ∈ N tal que
Xk ∩ Ui = Xji ∩ Ui para todo k ≥ ji . Tomando j = max ji , segue que Xk = Xj para todo k ≥ j.
Proposição 9.2.16
Se U ⊂ X é um subesquema aberto de um esquema localmente noetheriano X, então U é
localmente noetheriano. Se X é noetheriano, então U também é noetheriano. ♠
126
9.2 Propriedades Básicas de Esquemas
Proposição 9.2.18
Seja (X, OX ) um esquema. Então X é reduzido se, e somente se, OX,x é reduzido para todo
x ∈ X. ♠
127
9.2 Propriedades Básicas de Esquemas
Então existe uma única imersão fechada f : Xred → Y tal que i = j ◦ f.. ♡
Teorema 9.2.22
Um morfismo de esquemas f : X → Y é localmente de tipo finito se, e somente se, para todo
aberto afim U = Spec A de X, o aberto f −1 (U ) possui uma cobertura aberta afim Spec Bi
S
Demonstração Seja Spec A ⊂ Y um aberto afim e Spec Bi uma cobertura aberta de f −1 (Spec(A))
S
128
9.2 Propriedades Básicas de Esquemas
Agora, Afi ≃ A[x]/(1 − xfi ). Assim, Bij é uma álgebra finitamente gerada sobre Afi , que é
finitamente gerada sobre A. Logo cada Bij é finitamente gerada sobre A.
Corolário 9.2.23
Seja f : X → Y um morfismo localmente de tipo finito. Se U = Spec A ⊂ Y e V = Spec B ⊂
X são abertos afins e f (V ) ⊂ U, então B é uma A-álgebra finitamente gerada.
♡
Demonstração Seja Spec Bi uma cobertura aberta de f −1 (Spec A) tal que Bi é uma A-álgebra
S
finitamente gerada. Se g ∈ Bi , o isomorfismo (Bi )g ≃ Bi [x]/(1 − xg) nos diz que (Bi )g é finitamente
S
gerada. Assim, é possivel tomar uma cobertura aberta e finita Spec Bfi de B tal que Bfi é uma A-
algebra finitamente gerada.
Seja b ∈ B e
bi1 bij
ki1
, . . . , kiji (9.27)
fi fi i
geradores de Bfi como A-álgebra. Sem perda de generalidade, podemos supor que kil = k para todo
i, l.
Assim, temos que
b Pi (bi1 , . . . , biji )
= (9.28)
1 fid
para algum polinômio Pi com coeficientes em A. Assim, podemos supor sem perda de generali-
dade que d é tal que fid b = Pi (bi1 , . . . , biji ). Agora, tome g1 , . . . gn tais que gi fid = 1.
P
gi fid Pi (bi1 , . . . , biji ) e portanto B é gerado como A-álgebra por {bi j}.
P
Temos que b =
Corolário 9.2.24
Seja f : X → Y um morfismo de tipo finito. Se Y é localmente noetheriano, então X é
localmente noetheriano. ♡
Definição 9.2.25
Um morfismo de esquemas f : X → Y é um morfismo quasicompacto se existe uma cobertura
por abertos afins i Spec Ai de Y tal que f −1 (Ai ) é quasicompacto.
S
♣
Teorema 9.2.26
Um morfismo de esquemas f : X → Y é quasicompacto se, e somente se, para todo aberto
afim U = Spec A ⊂ Y, f −1 (Ai ) é quasicompacto.
♡
129
9.3 Produtos de Esquemas
Corolário 9.2.28
Um morfismo de esquemas f : X → Y é de tipo finito se, e somente se, para todo aberto afim
U = Spec A ⊂ Y, existe uma cobertura aberta e finita i Spec Bi de f −1 (Spec(A)) tal que Bi
S
Teorema 9.2.30
Um morfismo de esquemas f : X → Y é um morfismo finito se, e somente se, para todo aberto
U = Spec A ⊂ Y, f −1 (Spec A) = Spec B é afim e B é finito como A-módulo.
♡
X ×S Y
πX πY
X Y (9.29)
ρX ρY
S
seja comutativo. Mais ainda, exigimos que o trio (X ×S Y, πY , πY ) seja universal com esta
propriedade: dado um esquema Z e morfismos f, g tais que o diagrama
Z
f g
X Y (9.30)
ρX ρY
130
9.3 Produtos de Esquemas
Z C
g f ρ#
X ρ#
Y
Spec A Spec B A B
ρX ρY f# g#
Spec C OZ (Z)
(9.31)
que nos permite identificar que se Z é o produto X ×S Y procurado, então OZ (Z) é a soma direta
de A, B na categoria das C-álgebras. Esta última soma direta existe, e corresponde ao anel A ⊗C B.
Assim, temos que (X ×S Y, πX , πY ) existe, e o diagrama
ρX ρY
Spec C
é dado pela aplicação do funtor Spec ao diagrama de anéis comutativos
C
ρ#
X ρ#
Y
A B (9.33)
a→a⊗1 b→1⊗b
A ⊗C B
Assim, provamos:
Teorema 9.3.1
Sejam X = Spec A, Y = Spec B dois esquemas afins sobre Spec C. Então Spec(A ⊗C B) é
uma soma direta de X, Y na categoria de esquemas sobre Spec C. ♡
131
9.3 Produtos de Esquemas
g ρY (9.34)
ρU =(ρX )|U
U S
Compondo g com a inclusão i : U → X, a propriedade universal de X ×S Y nos dá um único
morfismo φ : X ×S Y tal que o diagrama
f
Z Y
πY
φ
g (9.35)
X ×S Y ρY
πX
i
U X ρX S
−1
é comutativo. Por este diagrama, é claro que φ(Z) ⊂ πX (U ). A demonstração do lema está
completa.
□
Agora, demonstramos uam espécie de recíproca do Lema acima.
Lema 9.3.3
S
Sejam X, Y esquemas sobre um esquema S e i Xi uma cobertura aberta de X tal que Xi ×S Y
existe para todo i. Então X ×S Y existe. ♡
Demonstração Para cada par (i, j), defina Uij = πU−1i (Xi ∩ Xj ). Pelo Lema anterior, segue que
Uij = (Xi ∩ Xj ) ×S Y. Como o mesmo vale para Uji , segue que existe um único isomorfismo
de esquemas Uij → Uji . À partir desta unicidade, vemos que as hipóteses do Teorema 9.1.7 são
satisfeitas. Seja Z o esquema obtido pela colagem dos esquemas Xi ×S Y. Observe que a composição
Xi ×S Y → Xi → X nos permite a construir, pelo Teorema 9.1.7, um morfismo πX : Z → X. Da
mesma forma, podemos definir πY : Z → Y.
Seja agora um par de morfismos de esquemas sobre S f : Z ′ → X, g : Z ′ → Y. Definindo
Zi′ = f −1 (Xi ), obtemos morfismos (únicos) φi : Zi′ → Xi ×S Y tais que f |Zi′ = πXi ◦ φi . Por
construção, estes morfismos coincidem em Zi′ ∩Zj′ e portanto colam para um único morfismo φZ ′ → Z
compativel com πX e πY . Logo Z = X ×S Y.
□
Agora estamos aptos a demonstrar a existência de X ×S Y quando S = Spec R.
Lema 9.3.4
Sejam X, Y esquemas sobre um esquema afim S = Spec R. Então existe X ×S Y. ♡
S
Demonstração Suponha, inicialmente, que Y é afim. Tome i Xi uma cobertura aberta de X por
abertos afins. Pelo Teorema 9.3.1, temos que Xi ×S Y existe. Assim, pelo Lema 9.3.3, segue que
132
9.3 Produtos de Esquemas
Demonstração Seja i Si uma cobertura aberta de S por esquemas afins e defina Xi = ρ−1 −1
S
X (Si ), ρY (Si ).
Pelo Lema 9.3.4, segue que Xi ×Si Yi existe.
Afirmação: Xi ×Si Yi ≃ Xi ×S Y.
De fato, sejam f : Z → Xi , g : Z → Y um morfismo definido sobre S. É claro que g(Z) ⊂ Si
e portanto Xi ×Si Yi satisfaz a propriedade universal para Xi ≃S Y.
O teorema segue então do Lema 9.3.3.
□
Definição 9.3.6
Sejam ρX : X → S, ρY : Y → S dois esquemas sobre um esquema S. O esquema X ×S Y é
chamado de produto fibrado de X, Y sobre S.
No caso em que S = Spec Z, escrevemos apenas X × Y. ♣
f (9.36)
idX
X X
temos que (Y, πX = f, πY = idY ) = X ×X Y.
Como todo ideal primo de Spec Ap é da forma qAp , onde q ∩ φ(B \ φ(p)) = ∅. Assim, qAp ∈
fp−1 (pBp )
se, se só se, φ−1 (q) ⊂ p.
133
9.4 O Esquema ProjR
que nos dá um morfismo Spec k(p) → Spec B cuja imagem de (0) ∈ Spec k(p) = p. Assim,
temos um diagrama
Spec k(p)
(9.41)
Spec A Spec B
e, neste caso, Spec(A ⊗B Bp /pBp ) é o produto fibrado Spec A ×Spec B k(p). Isto nos motiva a
seguinte definição.
Definição 9.3.7
Seja f : X → Y um morfismo de esquemas e y ∈ Y. A fibra de f sobre y é definida pelo
esquema
X ×Y k(y),
X f
Y
♣
134
9.4 O Esquema ProjR
Definição 9.4.1
Seja R = ∞
L
n=0 Rn um anel graduado e R+ o ideal definido pelos elementos de grau positivo.
Definimos
Proj(R) = {p ⊂ R; p é um ideal primo homogêneo que não contém R+ }.
♣
(ver Definição C.7.5). De maneira análoga a demonstração realizada na seção 8.3, demosntra-se
que:
Os conjuntos da forma D(f ) formam uma base para a topologia de Zariski em Proj(R);
A associação D(f ) → R(f ) é um feixe nesta base.
Assim, pelo Teorema 7.4.3, construímos um feixe OProj(R) de anéis sobre Proj(R), que denomi-
manos de feixe estrutural de Proj(R).
É simples calcular os talos do feixe estrutural (OProj(R) )p sobre um ideal primo homogêneo p :
onde R(p) é a localização homogênea de R com respeito ao sistema multiplicativo formado pelos
elementos homogêneos de R que não pertencem a p.
Teorema 9.4.2
L
Seja R = n≥0 Rn um anel graduado e f ∈ R+ . Então o subesquema aberto
(D(f ), OProj(R) |D(f ) ) é isomorfo ao esquema afim Spec R(f ) .
♡
Demonstração Seja p ∈ D(f ) um ideal primo homogêneo. Como S(f ) é um subanel de Sf , podemos
definir
φ : D(f ) → Spec S(f )
(9.45)
p → pSf ∩ S(f ) .
Afirmamos que φ é bijetora. De fato, suponha que φ(p) = φ(q). Se a ∈ p é um elemento
homogêneo de grau d1 , então existe b ∈ q homogêneo de grau d2 tais que
135
9.4 O Esquema ProjR
a b
d
= d2 . (9.46)
f 1 f
Assim, existem m, n naturais tais que
f ma = f nb (9.47)
e portanto a ∈ q e p ⊂ q. Analogamente prova-se a inclusão reversa.
Para provar que φ é sobrejetiva, seja p ⊂ Spec S(f ) um ideal primo. Seja {gi /f n ; deg gi =
n deg f } um conjunto gerador de p e tome I = (g1 , . . . , gn ) ⊂ R. Afirmamos que I é um ideal primo,
homogêneo e que não contém (f ).
De fato, se f n ∈ I para algum I, então ISf = Sf e portanto p = S(f ) . Agora, sejam a, b
elementos homogêneos de R tais que ab ∈ I mas b ∈ / I.
É claro que φ é um homeomorfismo.
Vejamos agora a definição de φ# : OSpec R( f ) → φ∗ OProj(R) |D(f ) . Para isto, basta notar que
se h = g/f n ∈ R(f ) , então Spec R(f ),g = Spec Rf g e portanto φ# (Spec R(f ),g ) é simplesmente o
isomorfismo R(f ),g → R(f g) .
□.
Teorema 9.4.3
Seja S = R[x0 , . . . , xn ] um anel de polinômios em n + 1 variáveis sobre um anel R e graduado
de forma que
(a) deg(r) = 0 para todo r ∈ R;
(b) deg(xi ) = 1.
Então Proj(S) ≃ PnR como esquemas.
♡
Agora, considere uma relação polinomial f (x1 /x0 , . . . , xn /x0 ) = 0. Multiplicando por uma
potência conveniente de x0 , obtemos que xδ0 f (x1 , . . . , xn ) = 0, o que é impossível pois x0 , . . . , xn são
algebricamente independentes sobre R. Assim, o homomorfismo R[y01 , . . . , y0n ] → S(x0 ) definido
por y0i → xi /x0 é um isomorfismo, que induz um isomorfismo de esquemas afins Spec S(x0 ) →
Spec R[y01 , . . . , y0n ]. Compondo com a imersão aberta R[y01 , . . . , y0n ] ,→ PnR , construímos, para
cada 0 ≤ i ≤ n, imersões abertas
Nos resta agora demonstrar que estes isomorfismos são compatíveis com a colagem. Para isto,
observe que há um diagrama comutativo de isomorfismos
136
9.5 Esquemas e Morfismos Separados
onde ψ é dada pela propriedade universal da localização e φ10 é o morfismo de colagem de PnR
(ver subseção [Link]). Assim, existe um único morfismo Proj(S) → PnR compatível com as imersões
abertas ξi , que é um isomorfismo.
idX f (9.51)
f
X Y
Pela propriedade universal do produto fibrado (X ×Y X), π1 , π2 ), existe um único morfismo
∆ : X → X ×Y X tal que π1 ◦ ∆ = π2 ◦ ∆ = idX .
Definição 9.5.1
Um morfismo de esquemas f : X → Y é dito um morfismo separado se ∆ : X → X ×Y X é
uma imersão fechada. ♣
Definição 9.5.2
Um esquema X é dito um esquema separado se o morfismo f : X → Spec Z é separado. ♣
Demonstração Por definição, temos que (a) =⇒ (b). Provemos que (b) =⇒ (a).
137
9.5 Esquemas e Morfismos Separados
Demonstração Já demonstramos que (a) ⇐⇒ (b). Também é claro que (c) =⇒ (d). Vamos
provar que (a) =⇒ (c).
Sejam U, V dois abertos afins de X. Temos uma imersão aberta dada pela composição U × V →
U × X → X × X. Observe que, como U, V são esquemas afins, U × V também é um esquema afim
e OX×X (u × V ) ≃ OX (U ) ⊗ OX (V ).
Agora, observe que ∆ é uma imersão fechada, e portanto, pelo Teorema 9.1.19, ∆−1 (U × V ) =
U ∩ V é afim e o homomorfismo
OX×X (U × V ) ≃ OX (U ) ⊗ OX (V ) → OX (U ∩ V ) (9.52)
é sobrejetivo.
A demonstração da implicação (d) =⇒ (a) é uma aplicação do Exercício 9.1.
Como resultado imediato do Teorema acima, temos o seguinte Teorema:
Teorema 9.5.6
O morfismo PnZ → Spec Z é separado.
♡
Demonstração A interseção de duas cartas afins de PnZ satisfaz a condição (c) do Teorema anterior.
138
9.5 Esquemas e Morfismos Separados
Exemplo 9.2 Seja X o esquema dado pela reta afim com duas origens sobre um corpo k. O morfismo
de inclusão U1 = A1k \ {(x)} → X possui duas extensões possíveis para A1k , a saber, (x) → (x) ou
(x) → (y).
Esta ideia se traduz no seguinte Teorema:
Teorema 9.5.7
Sejam f : X → Y um morfismo de esquemas e R um domínio de valorização discreta com
corpo de frações k. Sejam
1. i : Spec k → Spec R induzido pela projeção R → k;
2. g : Spec k → X, h : Spec R → Y morfismos tais que o diagrama
g
Spec k X
i f
Spec R h
Y
comuta.
Então existe no máximo um morfismo g ′ : Spec R → X tal que o diagrama
g
Spec k X
g′
i f
Spec R h
Y
comuta. ♡
Teorema 9.5.8
Separabilidade é preservada por extensão de base. Em outras palavras, f : X → Y é um
morfismo separado e g : Z → Y um morfismo de esquemas, todos noetherianos. Então o
morfismo πZ : Z ×Y X → Z também é separado. ♡
g πX
Spec k X ×Y Z X
g2
i πZ f (9.53)
g1
g
Spec R h
Z Y
onde R é um domínio de valorização discreta e k é seu corpo de frações. Devemos provar que
g1 = g2 . Pelo diagrama comutativo, segue que πZ ◦ g1 = πZ ◦ g2 . Agora, pela separabilidade do
morfismo f : X → Y, segue que πX ◦ g1 = πX ◦ g2 . Assim, epla propriedade universal so produto
fibrado, temos que g1 = g2 .
□
139
9.6 Morfismos Próprios
Corolário 9.5.9
Seja X um esquema separado. Então, para todo esquema Y , o morfismo πX : X × Y → Y é
separado. ♡
Seja i : X → Y uma imersão, aberta ou fechada. É claro que (X, i, idY ) é um produto fibrado
para o diagrama
X
i (9.54)
idY
Y Y
e portanto:
Corolário 9.5.10
Sejam X, Y esquemas noetherianos e j : X → Y uma imersão aberta. Então i é separado. ♡
Corolário 9.5.11
Sejam X, Y esquemas noetherianos e j : X → Y uma imersão fechada. Então j é separado. ♡
πX (9.55)
W πW X ×S W ≃ X ×Y (Y ×S W ) X
πY
Y ×S W Y
observamos a existência de um morfismo produto f × g : X ×S Z → Y ×S W.
Corolário 9.5.12
Se f : X → Y, g : Z → W são morfismos de esquemas noetherianos separáveis de S-
esquemas, então f × g : X ×S Z → Z ×S W é separado. ♡
140
9.6 Morfismos Próprios
Exemplo 9.1 Seja k um corpo algebricamente fechado, X = A1k = Spec k[x] e f : X → Spec k.
Afirmamos que f não é própria. De fato, tensorizando o morfismo k → k[x]por k[x] (sobre k!) nos
dá o homomorfismo
g : k[x] → k[x, y]
(9.56)
xx → x
que induz o morfismo de mudança de base φ : X ×Spec k X → X.
Considere o subconjunto fechado V(xy − 1) ⊂ X ×Spec k X. Temos que φ((xy − 1)) = (0) e,
se ab = 1 então φ−1 ((x − a, y − b)) = (x − a)). Logo φ(V(xy − 1)) = Spec k[x] \ {x}, que não é
fechado.
A ideia de um morfismo próprio está nao seguinte critério valuativo para um morfismo próprio.
Teorema 9.6.2
Sejam f : X → Y um morfismo de esquemas e R um domínio de valorização discreta com
corpo de frações k. Sejam
1. i : Spec k → Spec R induzido pela projeção R → k;
2. g : Spec k → X, h : Spec R → Y morfismos tais que o diagrama
g
Spec k X
i f
Spec R h
Y
comuta.
Então existe um único morfismo g ′ : Spec R → X tal que o diagrama
g
Spec k X
g′
i f
Spec R h
Y
comuta. ♡
141
9.6 Morfismos Próprios
Teorema 9.6.3
Sejam f : X → Y, g : Z → Y morfismos de esquemas noetherianos com f um morfismo
próprio. Então πZ : X ×Y Z → Z é próprio. ♡
i πZ f (9.57)
h
Spec R Z g Y
Como o morfismo f é próprio, existe um único morfismo ψ : Spec R → X que torna o diagrama
abaixo comutativo:
g πX
Spec k X ×Z X
i πZ f (9.58)
h
Spec R Z g Y
Demonstração Uma imersão fechada é separável pelo Corolário 9.5.11. É claro que toda imersão
fechada é um morfismo de tipo finito. Por fim, uma imersão fechada é universalmente fechada pelo
Exercício 9.3.
Mais propriedades de morfismos próprios são listadas nos exercícios deste capítulo.
Por último, demonstramos o seguinte resultado.
Teorema 9.6.5
O morfismo PnZ → Spec Z é um morfismo próprio.
♡
i f (9.59)
h
Spec R Spec Z
Como o morfismo PnZ → Spec Z é separado, basta provar que existe um morfismo ψ : Spec R →
PnZ completando o diagrama (9.59). Seja P ∈ PnZ = Proj Z[x0 , . . . , xn ] a imagem do único ponto
142
9.7 Morfismos Projetivos, Produtos de Espaços Projetivos
T
de Spec k. Podemos supor, sem perda de generalidade, que P ∈ D(xi ). Desta forma, as funções
racionais xi /xj são todas invertíveis em OPnZ ,P .
Agora, o morfismo Spec k → PnZ nos dá um homomorfismo de anéis locais OPnZ ,P → k que induz
um homomorfismo de corpos k(P ) → k.
Denote por fij as imagens de xi /xj em k,v : K → Z a valorização associada e j tais que v(fj0 )
seja mínimo. Assim
=⇒
R Z Spec R Spec Z
(9.62)
E portanto existe um morfismo ψ : Spec R → PnZ completando o diagrama (9.59). O Teorema
está demonstrado.
Observe que, pelos Teoremas 9.5.8 e 9.6.3, os morfismos AnS → S e PnS → S são separados e
PnS → S é um morfismo próprio.
143
9.7 Morfismos Projetivos, Produtos de Espaços Projetivos
Definição 9.7.1
Seja f : X → Y um morfismo de esquemas. Dizemos que f é um morfismo
1. projetivo se existe um mergulho fechado i : X → PnY tal que o diagrama
PnY
f
X Y
é comutativo.
2. quasiprojetivo se existe um morfismo projetivo g : X ′ → Y e uma imersão aberta
i : X → X ′ tal que f = g ◦ i. ♣
Observe que todo morfismo projetivo é próprio, pois é a composição de dois morfismos próprios
(ver Exercício 9.13. Mais ainda, todo morfismo quasiprojetivo é separado, pois é a composição de
dois morfismos próprios, e de tipo finito.
Exemplo 9.1 O produto de espaços projetivos PnZ × Pm Z é projetivo sobre Spec Z. De fato, considere
os anéis de polinômios
R = Z[X0 , . . . , Xn , Y0 . . . , Ym ] (9.66)
S ′ = Z[Wij ; 0 ≤ i ≤ n, 0 ≤ j ≤ m] (9.67)
144
9.8 Exercícios
9.8 Exercícios
Exercício 9.1 Prove que ser uma imersão fechada é uma propriedade local: um morfismo f : X → Y
S
é uma imersão fechada se, e somente se, existe uma cobertura aberta afim Ui de Y tal que f −1(Ui )
é afim e OY (Ui ) → f∗ OX (Ui ) = OX (f −1 (Ui )) é sobrejetivo.
Exercício 9.2 Prove que morfismo de esquemas f : X → Y é quasicompacto se, e somente se, para
todo aberto afim U = Spec A ⊂ Y, f −1 (Ai ) é quasicompacto.
Exercício 9.3 Sejam f : X → Y, g : Z → Y morfismos de esquemas com f uma imersão fechada.
Prove que πZ : X ×Y Z → Z é uma imersão fechada.
Exercício 9.4 Sejam S um esquema e f : X → Y um morfismo de S-esquemas. Prove que existe um
morfismo de esquemas Γf : X → X ×S Y tal que πX ◦ Γf = idX e πY Γf = f.
Exercício 9.5 Sejam S um esquema noetheriano e f : X → Y um morfismo de S-esquemas. Mostre
que se X é um esquema próprio sobre S, então a imagem de f é um fechado de Y .
Exercício 9.6 Sejam X, Y, Z esquemas e f : X → Y, g : Z → Y morfismos localmente de tipo
finito. Então πZ : X ×Y Z → Z é um morfismo localmente de tipo finito.
Exercício 9.7 Na mesma situação do exerçicio anterior, prove que se X, Y, Z são esqquemas
noetherianos e f, g são morfismos de tipo finito, então πZ : X ×Y Z → Z é um morfismo de tipo
finito.
Exercício 9.8 Prove que PnR ≃ PnZ × Spec R. Conclua que o morfismo PnR → Spec R é próprio.
L
Exercício 9.9 Seja R um anel e S = Sd uma álgebra finitamente gerada graduada sobre R gerada
por elementos de grau um. Prove quem Um homomorfismo sobrejetivo R[x0 , . . . , xn ] → S induz um
morfismo de esquemas Proj S → PnR .
Exercício 9.10 Sejam R, S duas álgebras graduadas finitamente geradas sobre R0 = S0 por
elementos de grau um e φ : R → S um homomorfismo graduado e sobrejetivo. Prove que o morfismo
de esquemas Proj S → Proj R induzido é um mergulho fechado.
Exercício 9.11 Prove que um morfismo de esquemas f : X → Y é de tipo finito se, e somente se, é
localmente de tipo finito e quasicompacto.
Exercício 9.12 Prove o Corolário 9.5.12
Exercício 9.13 Prove que se f X → Y, g : Y → Z são separados, então g ◦ f é separado. Prove o
mesmo para morfismos próprios.
Exercício 9.14 Sejam f : X → Y, g : Y → Z dois morfismos com g ◦ f separado. Prove que f é
separado.
Exercício 9.15 Prove que um morfismo f : X → Y é separado se, e somente se, existe uma cobertura
aberta Vi de Y tal que o morfismo f : f −1 (VI ) → Vi é um morfismo separado.
S
O objetivo dos próximos exercícios é construir o produto de espaços projetivos PnR ×Spec R Pm
R a
partir de anéis bigraduados.
L
Exercício 9.16 Seja R = d,e≥0 R(d,e) um anel bigraduado, isto é, tal que
R(d,e) · R(d′ ,e′ ) ⊂ R(d+d′ ,e+e′ )
e satisfazendo R(d,e) = 0 se d < 0 ou e < 0.
145
9.8 Exercícios
(a) Prove que se S ⊂ R é um conjunto multiplicativo formado por elementos homogêneos, então a
localização S −1 R é naturalmente um anel bigraduado. Explique a graduação deste anel e defina
a localização bihomogênea como o anel
S −1 R(0,0) .
Escreveremos R(f ) para a localização bihomogênea do sistema multiplicativo {1, f, f 2 , . . . , } e
R(p) para o caso em que S é formado pelos elementos homogêneos que não pertencem a o ideal
primo homogêneo p.
(b) Defina R++ ⊂ R como o ideal de R consistindo dos elementos de bigrau (d, e) com de > 0 e
defina
MultiProj(S) = {p ⊂ R; p é um ideal primo homogêneo tal que p ̸⊃ R++ }.
Mostre que os conjuntos da forma V(I) = {p ∈ MultiProj(R); p ⊃ I} para I ⊂ R ideal
homogêneo satisfazem as condições para serem os fechados de uma topologia em MultiProj(R),
chamada de Topologia de Zariski em MultiProj(R).
(c) Seja f ∈ R um elemento homogêneo de bigrau (d, e) com de > 0. Mostre que os abertos
da forma D(f ) = MultiProj(R) \ V((f )) formam uma base da topologia de Zariski em
MultiProj(R). Mais ainda, prove que a associação
D(f ) → R(f )
é um feixe nesta base. Assim, este feixe na base induz em MultiProj(R) um feixe, que
denotaremos por OMultiProj(R) . Se p ∈ MultiProj(R), conclua que OMultiProj(R),p = R(p) .
(d) Seja f ∈ R um elemento homogêneo de grau (d, e) com de > 0. Prove que (D(f ), OMultiProj(R) |D(f ) ) ≃
Spec R(f ) . Conclua que MultiProj(R) é um esquema.
Exercício 9.17 Seja R um anel e S = R[X0 , . . . , Xn , Y0 , . . . , Ym ] um anel de polinômios em n+m+2
variáveis tais que
(a) deg(r) = 0 para todo r ∈ R;
(b) deg(Xi ) = (1, 0) e deg(Yi ) = (0, 1).
Prove que MultiProj(S) ≃ PnR ×Spec R Pm R.
Exercício 9.18 Seja R um anel e S uma R-álgebra bigraduada gerada por elementos de graus (1, 0) e
(0, 1). Prove que todo homomorfismo sobrejetivo que preserva grau R[X0 , . . . , Xn , Y0 , . . . , Ym ] → S
induz um morfismo de esquemas MultiProj(S) → PnR ×Spec R Pm R que é uma imersão fechada.
Exercício 9.19 Pense na generalização do exercício acima para anéis multigraduados, e dê a construção
de um produto finito de espaços projetivos como um MultiProj .
146
Capítulo 10 Feixes Quasicoerentes e Coerentes
Definição 10.1.2
Sejam (X, OX ) um espaço lanelado e F um feixe de OX -módulos. O feixe dual de F é o feixe
F ∗ = H om(F , OX ).
♣
Outra possível construção possível é o produto tensorial de dois feixes. Dados dois feixes de
OX -módulos F , G , podemos considerar o pré-feixe
U → F (U ) ⊗OX (U ) G (U ) (10.3)
Definição 10.1.3
Sejam (X, OX ) um espaço anelado e F , G feixes de OX -módulos. O produto tensorial F ⊗ G
é a feixificação do pré-feixe
U → F (U ) ⊗OX (U ) G (U ).
♣
O leitor é convidado a demonstrar, no Exercício 10.3, que os funtores f ∗ , f∗ são funtores adjuntos,
de maneira análoga ao Teorema 7.3.4.
Teorema 10.2.2
Seja X = Spec R um esquema afim, I ⊂ R um ideal finitamente gerado e F = M f um feixe
quasicoerente.
(a) Se s ∈ Γ(X, F ) é tal que Supp(s) ⊂ V (I), então existe n ∈ N tal que I n s = 0.
(b) Reciprocamente, se s ∈ Γ(X \ V(I), F ), então existe n ∈ N tal que f n s se estende a
148
10.2 Feixes de Módulos sobre Esquemas Afins, Parte II
F (Ui ) → F (Ui ∩ Uj )
Q Q
Φ: i∈L i̸=j
(10.6)
(mi ) → (mij )
onde
U
mij = ρUUii ∩Ui (mi ) − ρUji ∩uJ (mj ). (10.7)
149
10.3 Feixes Quasicoerentes e Coerentes
□
Seja 0 → F → G → H → 0 uma sequência exata de OX módulos. Já vimos que o funtor
Γ(X, −) é exato a esquerda, e que em geral Γ(X, G ) → Γ(X, H ) não é sobrejetora. Este problema
não acontece quando X é afim e F é quasicoerente
Proposição 10.2.4
Seja X = Spec R um esquema afim e
α β
0→F −
→G →
− H →0
uma sequência exata de feixes de OX -módulos. Se F é coerente, então
Γ(X, G ) → Γ(X, H )
é sobrejetora. ♠
da cobertura. existe n > 0 tal que fin s = β(mi ) para mi ∈ Γ(X, G ). Tomando uma relação da forma
1 = gi fin , temos que se m = gi mi então β(m) = s.
P P
□
150
10.3 Feixes Quasicoerentes e Coerentes
Definição 10.3.1
Seja (X, OX ) um esquema e F um feixe de OX -módulos. Dizemos que F é quasicoerente se
para todo aberto afim U = Spec R de X, temos que F |U = M
f para algum R-módulo M .
Mais ainda, se Xé um esquema noetheriano e cada M acima é finitamente gerado, dizemos que
F é um feixe coerente. ♣
A classe dos feixes quasicoerentes (resp. coerentes) formam uma subcategoria cheia da catergoria
de OX -módulos sobre um esquema X (resp. esquema noetheriano X), denominada QCohX (resp.
CohX ).
Proposição 10.3.2
Seja X um esquema. A categoria QCohX é uma categoria abeliana. Se X é ume esquema
noetheriano, então CohX é uma categoria abeliana. ♠
Demonstração O problema é local, e portanto podemos reduzir ao caso em que X = Spec R. Neste
caso, o teorema segue da equivalência entre as categorais QCohX e ModR .
Teorema 10.3.3
Seja X um esquema e
0→F →G →H →0
0 F G H 0.
Pela quasicoerência de F , H , os homomorfismos verticais externos são isomorfismos, e por-
tanto G ≃ Γ(X, G )∼ .
Proposição 10.3.4
Seja f : X → Y um morfismo de esquemas. Se G é um feixe dee OY quasicoerente, então f ∗ G
é quasicoerente. Se X, Y são esquemas noetherianos, o mesmo vale para esquemas coerentes. ♠
Demonstração O problema é local, e portanto podemos supor que X = Spec S, Y = Spec R. Desta
forma, se G = M
f, temos que f ∗ G = (M ⊗R S)∼ . □
151
10.4 Feixes Localmente Livres, Feixes Invertíveis e Grupo de Picard
Teorema 10.3.5
Seja f : X → Y um morfismo de esquemas e F um feixe quasicoerente sobre X. Se
(a) X é noetheriano, ou;
(b) f é quasicompacto e separado,
então f∗ F é quasicoerente. ♡
Demonstração Podemos supor que Y é afim e que f é sobrejetiva. Suponha que f é quasicompacto
e separado. Assim, temos que X possui uma cobertura aberta afim e finita ni=1 (Ui = Spec Ri ).
S
Observe que, como f é um morfismo separado, temos que Uij = Spec Ri ∩ Spec Rj é afim. Pela
propriedade de colagem de feixes, existe uma sequência exata de feixes sobre Y
M
0 → f∗ F → f∗ F |Ui → f∗ F |Uij (10.10)
Li
Pela Proposição 10.2.1 (c), temos que i f∗ F |Ui , f∗ F |Uij são quasicoerentes e portanto f∗ F
é quasicoerente.
No caso em que X é noetheriano, não temos necessariamente que Ui ∩Uj é afim. Mas sabemos que
este aberto é quasicompacto e portanto possui uma cobertura finita por abertos afins. A demonstração
a partir deste ponto é análoga.
□.
Este fato dá uma nova demonstração para o Corolário 9.1.18.
Corolário 10.3.6
Seja X = Spec R um esquema afim e Y ⊂ X um subesquema fechado. Então existe a ⊂ R um
ideal tal que Y ∼ Spec R/a.
♡
152
10.5 Feixes de Módulos sobre Proj(R)
Proposição 10.4.2
Seja X um esquema e F um OX -módulo localmente livre. Então o funtor
G → G ⊗OX F
é um funtor exato. ♠
É claro que se L , L ′ são dois feixes invertíveis, então L ⊗OX L ′ é um feixe invertível. Mais
ainda, L ∗ também é um feixe invertível. A próxima proposição justifica a terminologia invertível.
Proposição 10.4.4
Sejam X um esquema e L um feixe invertível sobre X. Entao
L ⊗OX L ∗ ≃ OX .
♠
153
10.5 Feixes de Módulos sobre Proj(R)
Demonstração Como R é gerada sobre R0 em grau um, segue que Proj(R) é coberto por abertos
afins da forma D(f ) com deg(f ) = 1. Agora, quando deg(f ) = 1, temos que
(M ⊗ N )(f ) ≃ M(f ) ⊗R(f ) N(f ) (10.15)
como R-módulos graduados. Logo (M ⊗ N )∼ = Mf ⊗O
Proj(R)
N
e.
De agora em diante, escreveremos OProj(R) (n) para representar o feixe R(n).
] Por fim, se F é um
feixe de OProj(R) -módulos, escreveremos F (n) para representar o feixe F ⊗OProj(R) OProj(R) (n).
154
10.5 Feixes de Módulos sobre Proj(R)
Definição 10.5.4
Seja R um anel graduado. O feixe de torção de Serre assoriado a R é o é o feixe de OProj(R) -
módulos OProj(R) (1) = OProj(R)
^(1).
♣
Proposição 10.5.5
Seja R um anel graduado que é gerado como R0 -álgebra por elementos de grau um. O feixe
OProj(R) (n) é um feixe localmente livre de posto um.
♠
Demonstração Seja f ∈ S1 . Vamos mostrar que OProj(R) (n)|D(f ) é um R( f )-módulo livre de posto
um. Isto completa a demonstração da Proposição.
Afirmamos que, para cada n ∈ Z, o homomorfismo R( f ) → R(d)(f ) dado pela multiplicação por
f d é um isomorfismo. De fato, este homomorfismo é invertível, com inversda dada pela multipĺicação
por f −d . Isto conclui a demonstração.
O próximo resultado, sobre o pullback e o pushforward de feixes de módulos segue diretamente
das propriedades para morfismos entre esquemas afins e da localização homogênea.
Proposição 10.5.6
Sejam R, S dois anéis graduados gerados por elementos de grau um e φ : R → S um
homomorfismos de anéis graduados. Se U ⊂ Proj S é o domínio do morfismo f : U → Proj R
induzido por φ, então
f ∗ OProj(R) ∼ OProj S (n)|U
e
f∗ OProj S (n)|U = (f∗ OU )(n).
♠
Se f ∈ Rd e s ∈ Γ(X, F (n)), então é claro que f s é uma seção global de F (n + d). Portanto,
podemos construir o R-módulo graduado
M
Γ∗ (X, F ) = Γ(X, F (n)). (10.17)
n∈Z
Definição 10.5.7
Seja X = Proj R F um OProj(R) -módulo. O R-módulo Γ∗ (X, F ) é o módulo graduado
associado a F . ♣
155
10.5 Feixes de Módulos sobre Proj(R)
livre e Ui ∩ Uj é quasicompacto. Então, para cada seção s ∈ Γ(Xf , F ), existe n tal que
f n s é uma seção global de L ⊗n ⊗ F
♡
Demonstração Suponha (a). Pela quasicompacidade de X, podemos supor que existe uma cobertura
aberta afim ni=1 Spec Ri de X tal que L |Spec Ri ≃ OSpec Ri . Escreva f |Spec Ri = fi ∈ Ri . Como
S
(L ⊗n ⊗ F )Spec Ri ≃ F |Spec Ri , pelo Teorema 10.2.2, existe ni tal que fini s|Spec Ri = 0. Assim, se
n = max ni , temos que f n s|Spec Ri = 0 para todo i.
A demonstração do item (b) é análoga a demonstração do Teorema 10.2.2, item (b).
Tome uma cobertura de X como nas hipóteses do item (b) e tome s ∈ Γ(Xf , F ). Então s
restringe a uma seção si ∈ Ui ∩ Xf . Agora, si = sj sobre o aberto Ui ∩ Uj ∩ Xf e portanto, pelo item
a, existe kij tal que f kij (si − sj ) = 0 em Ui ∩ Uj . Assim, se k = max kij , temos que f k si = f k sj em
Ui ∩ Uj e portanto f k s se estende a uma seção global de L ⊗k ⊗ F .
Já vimos anteriormente que existe a possibilidade de que dois R-módulos graduados diferentes
possuam a mesma feixificação sobre Proj R. Vamos demonstrar agora que se R é finitamente gerada
sobre R0 por elementos de grau um, então
156
10.5 Feixes de Módulos sobre Proj(R)
f1 ≃ M
f2 ⇐⇒ M1 M2
M ≃ .
ΓR+ (M1 ) ΓR+ (M2 )
Teorema 10.5.10
Sejam R um anel graduado finitamente gerado sobre R0 por elementos de grau um e F um
feixe quasicoerente sobre Proj R. Então existe um isomorfismo
Γ∗ (X, F )∼ → F .
♡
Demonstração Seja s uma seção do feixe Γ∗ (X, F )∼ . Dado f ∈ R1 , a definição de ∼ nos diz que
existe d ∈ N e m ∈ Γ(X, F (d)) tal qu
m
s= d (10.20)
f
A multiplicação por f −d ∈ OProj(R) (−d) nos dá a seção m ⊗ f −d ∈ F (D(f )). Isto define um
homomorfismo de feixes Γ∗ (X, F )∼ → F .
Agora, por hipótese, Proj R = ni=1 D(fi ) para alguns f1 , . . . , fn ∈ R1 . Pela Proposição 10.5.5,
S
OProj(R) (1) é localmente livre de posto um, e como D(fi ) ∩ D(fj ) é afim, o Teorema anterior se
aplica. Assim, o item (b) implica que o homomorfismo construído é um isomorfismo.
Vamos agora concluir a prova da afirmação prévia ao enunciado do Teorema. Jà vimos anterior-
mente que Γ∗ (Proj R, Mf) ∼ Γ∗ (Proj R, M/Γ^ R+ (M )). Resta então mostrar a seguinte proposição.
Proposição 10.5.11
Seja R uma R-álgebra graduada e M um R-módulo graduado tal que ΓR+ (M ) = 0. Então
f)∼ .
M ≃ Γ∗ (X, M
♠
finitamente gerada sobre R0 por elementos de grau um, segue que m ∈ ΓR+ (M ) = 0.
Teorema 10.5.12
Seja A um anel e Y um subesquema fechado de PnA = Proj(R = A[X0 , . . . , Xn ]). Então existe
um ideal homogêneo a ⊂ R tal que Y ≃ Proj(R/a).
♡
157
10.5 Feixes de Módulos sobre Proj(R)
Teorema 10.5.13
Seja X um esquema sobre Spec A. Então X é projetivo sobre Spec A se, e somente se, X ≃
Proj R para algum anel graduado R com R0 = A e finitamente gerado sobre A por elementos
de grau um. ♡
Demonstração Por definição, existe uma imersão fechada i : X → PnA . Pelo Teorema anterior, temos
que i(X) ≃ Proj A[X0 , . . . , Xn ]/I para algum ideal homogêneo I ⊂ A[X0 , . . . , Xn ]. O Teorema
está demonstrado. □
Por fim, gostaríamos de discutir, usando a tecnologia desenvolvida nesta seção, morfismos
projetivos. Seja X um esquema e considere o morfismo de projeção πX : PnX = X × PnZ → PnZ .
Definição 10.5.14
Seja X um esquema e πX : PnX → PnZ o morfismo definido acima. O feixe de torção de Serre
sobre PnX é definido por
OPnX (1) = πX
∗
(OPnZ (1)).
♣
Não é difícil descrever a estrutura deste feixe. Se U = Spec R ⊂ X é um aberto afim, então
OPnX (1)|U ≃ OPnR (1).
Seja f : X → Y um morfismo projetivo e i : X → PnY uma imersão fechada compatível com o
morfismo estrutural PnY → Y. Então X possui um feixe invertível destacado, a saber, i∗ OPnY (1).
Definição 10.5.15
Seja f : X → Y um morfismo de esquemas e L um feixe invertível sobre X. Dizemos que L
é um feixe muito amplo com respeito a f (ou a Y ) se existe n ∈ N, um fechado Z ⊂ Pnk e uma
imersão aberta i : X → Z tal que L = i∗ OPnY (1).
♣
Proposição 10.5.16
Sejam Y um esquema noetheriano e f : X → Y um morfismo de esquemas. São equivalentes:
(a) f é um morfismo projetivo.
(b) f é um morfismo próprio e existe um feixe invertível L sobre X, muito amplo com respeito
a f. ♠
158
10.5 Feixes de Módulos sobre Proj(R)
Definição 10.5.17
Sejam X um esquema e F um feixe de OX -módulos. Dizemos que F é gerado por seções
globais existe uma família de seções globais {si ∈ Γ(X, L ); i ∈ I } tais que {(si )x ; i ∈ I }
geram o talo Fx para todo x ∈ X. ♣
Demonstração Seja i : X → PnR uma imersão fechada com L = OPnR . Como a torção de
Serre comuta com i∗ e este é apenas a restrição de escalares, podemos supor que X = PnR =
Proj R[X0 , . . . , Xn ].
Agora, existem R-módulos finitamente gerados Mi sobre R[X0 , . . . , Xn ](Xi ) tal que F |D(Xi ) ≃
fi . Se {sij } é um conjunto finito de geradores de Mi , o Teorema 10.5.9 junto com a finitude dos
M
geradores nos diz que existe n natural tal que Xin sij é a restrição de uma seção global de F (n).
Observe que, sem perda de generalidade, este natural n pode ser tomado o mesmo para todos os
abertos D(Xi ).
Agora, é imediato verificar que se F (n)|D(Xi ) = Mi′ , então a multiplicação por Xin nos dá um
isomorfismo Mi ≃ Mi′ . Assim, as seções Xin sij geram Mi′ e portanto F (n) é gerado por seções
globais.
Seja F um feixe coerente sobre PnR , com R um anel noetheriano. Então F (n) é gerado por
seções globais para algum n > 0 e portanto existe uma sobrejeção OPknR → F (n). Tensorizando por
OPnR (−n) temos, podemos concluir o seguinte Teorema.
Teorema 10.5.20
Sejam X um esquema noetheriano e projetivo sobre Spec R para um anel noetheriano R e F
um feixe coerente sobre X. Então existe uma sequência exata longa
· · · → Fn → . . . F1 → F0 → F → 0
inte tal que M
Fi ≃ OX (−j)βij
j∈Z
159
10.5 Feixes de Módulos sobre Proj(R)
Proposição 10.5.21
Sejam A um anel noetheriano R um anel graduado, finitamente gerado sobre R0 = A por
elementos de grau um. Se X = Proj R e F um feixe coerente sobre X, então existe um
R-módulo graduado e finitamente gerado M tal que F = M
f.
♠
Demonstração Pela proposição anterior, podemos supor que X = Proj(R = A[X0 , . . . , Xn ]) = PnR
eF =M f para um R-módulo graduado e finitamente gerado M . Repetidas aplicações do Teorema
C.8.1, temos uma filtração graduada de de M da forma
0 ⊂ M1 ⊂ M2 ⊂ · · · ⊂ Mn = M (10.24)
tal que Mi+1 /Mi ≃ R/pi (di ) para algum ideal primo homogêneo pi ⊂ R. Mais ainda, para todo
i, temos a sequência exata de seções globais
0 → Γ(X, M fi ) → Γ(X, M] ^
i+1 ) → Γ(X, (Mi /Mi+1 )) (10.25)
E portanto, por indução, basta mostrar que Γ(X, R/p(n))
g é finitamente gerado sobre A para todo
ideal primo p e n inteiro. Pelo Exercício 10.5, podemos supor que X = Proj R/p. Assim, reduzimos
o nosso problema a provar a seguinte afirmação:
Afirmação: Seja R um domínio graduado finitamente gerado sobre A = R0 por elementos de
grau um e X = Proj R.. Então Γ(X, R(n)) ] é finitamente gerado sobre R0 para todo n inteiro.
Sejam x0 , . . . , xn elementos de grau um que geram R como R0 -álgebra. Observe que a mul-
tiplicação por xi nos dá um homomorfismo injetivo Γ(X, R(n))] → Γ(X, R(n ^ + 1)). Assim, basta
]
mostrar que Γ(X, R(n)) é finitamente gerado para n suficientemente grande.
Já vimos, na demonstração do Teorema que Γ∗ (X, R) e é um subanel R′ da interseção T Rx .
i
′
Seja x ∈ R . Assim, existe k tal que yx ∈ S para todo 0 ≤ i ≤ n e deg(y) > k. Segue, por
indução, que yxd ∈ S. Segue, portanto, que R[x] ⊂ yS e portanto x é integral sobre R.
Como R é uma k-álgebra finitamente gerada, segue que seu fecho integral S ′ em Frac(R) é finito
como R-módulo. □
Corolário 10.5.23
Sejam k um corpo e f : X → Y é um morfismo projetivo e de tipo finito de Spec k-esquemas.
Se F é um feixe coerente sobre X, então f∗ F é coerente sobre Y . ♡
160
10.6 Morfismos f : X → PnA
Uma vez que caracterizamos todos os morfismos f : X → PnA , outra pergunta natural é estabelecer
quando que tal morfismo é uma imersão fechada. Para isto, sejam L um feixe invertível e s0 , . . . , sn
seções globais que geram L .
Suponha inicialmente que o morfismo f : X → PnA definido por estas seções é uma imersão
fechada. Então Xi ≃ f (X) ∩ D(Ti ) e portanto Xi é afim. Mais ainda, como f (Xi ) ∩ D(Ti ) é um
subesquema fechado de D(Ti ), segue que o homomorfismo (10.26) é sobrejetivo.
É imediato verificar que se f (X) ∩ D(Ti ) é afim e o homomorfismo (10.26) é sobrejetor, então
f (X) ∩ Xi → D(Ti ) é uma imersão fechada e portanto f (X) é um subesquema fechado de PnA . Assim,
provamos:
Teorema 10.6.2
Sejam X um esquema, L um feixe invertível sobre X e s0 , . . . , sn seções globais que geram
L . Então o morfismo f : X → PnA = Proj[T0 , . . . , Tn ] é uma imersão fechada se, e somente
se, para todo 0 ≤ i ≤ n temos
(a) Xi = f −1 (D(Ti )) é um esquema afim;
161
10.6 Morfismos f : X → PnA
(b) O homomorfismo
φi : Spec A[T0 /Ti , . . . , Tn /Ti ] → Γ(Xi , OXi )
Tj /Ti → sj /si
é sobrejetor. ♡
Teorema 10.6.3
Sejam k um corpo algebricamente fechado, X um esquema projetivo sobre Spec k e f : X →
Pnk = Proj k[T0 , . . . , Tn ] um morfismo de Spec k-esquemas correspondendo a um feixe invertível
L e um conjunto de seções globais s0 , . . . , sn e V o subespaço linear de Γ(X, L ). Então f é
uma imersão fecahda se, e somente se
(a) V separa pontos: para todo par de pontos fechados x, y ∈ X, existe s ∈ V tal que
sx ∈ mx Lx e sy ∈ / my Ly .
(b) V separa vetores tangentes: para todo x ∈ X, o conjunto {sx ; s ∈ V } gera o k-espaço
vetorial mx Lx /m2x Lx
♡
Demonstração Os itens (b) e (c) nos dizem que R/mR ≃ S/mS S = S/mR S. Logo, pelo lema de
Nakayama, 1S gera S como R-módulo.
Exemplo 10.1 Sejam X = PnR = Proj R[X0 , . . . , Xn ], L = OProj(R) (d) e as seções globais
{X0α0 . . . Xnαn ; αn = d} ⊂ Γ(X, OProj(R) (d)).
P
162
10.7 Feixes Invertíveis Amplos
É imediato verificar que estas seções globais geram o feixe OProj(R) (d) e que satisfazem as
N (n,d)
condições do Teorema 10.6.3, e portanto definem uma imersão fechada PnR → PR , onde N (n, d) =
n+d
n
d
− 1. Esta imersão é denominada de d-ésimo mergulho de Veronese de PR .
Em particular, os feixes OProj(R) (d) são muito amplos para todo d > 0.
Exemplo 10.2 Sejam X = PnR ×Spec R Pm n m
R e π1 : X → PR , π2 : X → PR as projeções associadas.
Para cada par (d, e) ∈ Z2 , podemos considerar o feixe invertível
π1∗ (OPnR (d) ) ⊗ π2∗ (OPm
R
(e)). (10.27)
O leitor é convidado a demonstrar, no Exercício 10.15, que estes feixes são todos muito amplos
com respeito a Spec R. A imersão fechada associada ao feixe invertível π1∗ (OPnR (1) ) ⊗ π2∗ (OPm
R
(1)) é
n m mn+n+m
exatamente o mergulho de Segre PR ×Spec R PR → PR .
Observe que L é um feixe amplo se, e somente se L ⊗n é amplo para algum n > 0 (ver Exercício
10.9).
Teorema 10.7.2
Seja X um esquema de tipo finito sobre Spec A, com A anel noetheriano. Então L é amplo se,
e somente se L ⊗n é muito amplo com respeito a Spec A para algum n > 0. ♡
Demonstração Suponha que L seja amplo. Dado x ∈ X, tome U uma vizinhança afim de X tal
que L |U ≃ OU . Seja também Y = X \ U e JY o feixe de ideais que induz a estrutura reduzida de
esquema em Y . Pela amplitude de L , existe n ≤ 0 tal que JY ⊗ L ⊗n é gerado por seções globais.
Tome então s ∈ Γ(X, JY ⊗ L ⊗n ) ⊂ Γ(X, L ⊗n ) tal que sx ∈ / mx Lx⊗n . Temos então que Xs ⊂ U e
como L |U ≃ OU , temos Xs = Us é um aberto afim.
Assim, para todo x ∈ X existe um par (U, s) onde U é aberto afim de X e s é seção global de
L tal que x ∈ U = Xs . Como X é de tipo fionito sobre Spec R, temos que X é quasicompacto e
⊗n
portanto X pode ser coberto po uma quantidade finita (Ui , si ∈ L ⊗ni ) de tais abertos. Sem perda de
generalidade, podemos supor que ni = n para todo i.
163
10.7 Feixes Invertíveis Amplos
Para cada i, seja Bi = Γ(Ui , OUi ). Temos que Bi é um A-álgebra finitamente gerada, e portanto
podemos escolher um conjunto de geradores {bij , 1 ≤ j ≤ ki }. Pelo Teorema 10.5.9, existe m > 0
i bij se estende a uma seção global cij de L
⊗mn
tal que sm . Tome então o morfismo f : X → PM A =
Proj A[{Ti }, {Tij }] definido por L ⊗mn m m
e as seções globais {si , cij } (observe que as seções si geram
L ⊗mn ).
Para completar, observe que o morfismo Xi → D(Ti ) induz o homomorfismo de anéis
φ : A[Tj /Ti , Tij /Ti ] → Bi
m m
Tj /Ti → si /sj (10.28)
Tij /Ti → cij /sm
i = bij
que é sobrejetivo. Logo f : Ui → D(Ti ) é uma imersão fechada. Assim L ⊗n é muito amplo com
respeito a Spec A.
164
10.8 Exercícios
10.8 Exercícios
Exercício 10.1 Seja (X, OX ) um espaço anelado. Prove que a associação U → H omOX (U ) =
HomOX (F |U , G |U ) é um feixe de OX -módulos sobre X.
Exercício 10.2 Sejam (X, OX ) um espaço anelado. Prove que existe um homoomorfismo funtorial
em F , G , H
H omOX (F , G ) ⊗ H → H omOX (F , G ⊗ H ).
165
10.8 Exercícios
possui uma estrutura de R-módulo bigraduado. Prove que se F é um feixe quasicoerente sobre
MultiProj(R), então F = Γ∗ (MultiProj(R), F ).
Exercício 10.14 No Exercício 9.17, demonstramos que PnR ×Spec R Pm
R ≃ MultiProj R[X0 , . . . , Xn , Y0 , . . . , Ym ],
onde {Xi , Yj } são algebricamente independentes sobre R, deg X0 = (1, 0) e deg(Ym ) = (0, 1). Mostre
que todo subesquema fechado de PnR ×Spec R Pm R é da forma MultiProj(R[X0 , . . . , Xn , Y0 , . . . , Ym ]/a)
para algum ideal (bi)homogêneo a.
Exercício 10.15 Ainda na notação do exercício anterior, prove que OMultiProj(R) (d, e) ≃ π1∗ (OPnR (d) ) ⊗
π2∗ (OPm
R
(e)). Prove também que este feixe é muito amplo com respeito a Spec R.
166
Capítulo 11 Divisores Revisitados
Vamos agora definir, sob certas hipóteses, o grupo de divisores de Weil sobre um esquema X.
Observe as semelhanças com a definição de divisor de Weil em uma variedade algpebrica irredutível
(Definição 6.1) .
Definição 11.1.2
Seja X um esquema noetheriano, integral, separado e regular em codimensão um. O grupo
Div(X) de divisores de Weil de X é o grupo livre gerado pelos subesquemas fechados e
irredutíveis de X de codimensão um. ♣
P
Assim, um divisor D é uma soma formal nY Y , onde Y é um subesquema irredutível de X de
codimensão um. Se nY ≥ 0 para todo Y ⊂ X irredutível, então D é dito um divisor efetivo.
Seja X um esquema como da Definição 11.1.2 e ξX o seu ponto genérico. Então K = OX,ξ é um
corpo. Mais ainda, para cada subesquema irredutível de codimensão um Y ⊂ X, o anel local OX,Y
é um anel de valorização discreta com corpo de frações K. Assim, se vY é a valorização associada a
OX,Y podemos definir, para cada f ∈ K \ {0}, a soma
X
div(f ) = vY (f )Y. (11.1)
A próxima proposição mostra que div(f ) é de fato um divisor.
Proposição 11.1.3
Seja X um esquema noetheriano, integral, separado e regular em codimensão um com ponto
genérico ξ. Se f ∈ OX,ξ \ {0}, então vY (f ) = 0 a menos de um subconjunto finito de
subesquemas irredutíveis Y . ♠
Teorema 11.1.5
Seja X = Spec R um esquema noetheriano, integral e afim. Então R é normal e Cl(X) = 0 se,
e somente se, R é um domínio de fatoração única.
♡
Seja p um ideal primo de R de altura um. Como Cl(X) = 0, temos que p = div(f ) para
algum f ∈ Frac(R). Afirmamos que p = (f ). De fato, como vq (f ) = 0 para q ̸= p, temos que
S
f ∈ ht p=1 Rp = R. Mais ainda, se g ∈ p, temos que vp (g) > 1 e portanto vp (g/f ) ≤ 0. Assim,
S
g/f ∈ ht p=1 Rp = R e portanto g ∈ (f ).
Corolário 11.1.6
Seja R um domínio de fatoração única. Então Cl(AnR ) = 0.
♡
168
11.1 Divisores de Weil em Esquemas
Seja Y = (F ) um divisor primo de grau d sobre X e defina H o divisor primo associado ao ideal
(X0 ). Como f /X0d é uma função racional sobre X e portanto [Y ] = [dH] = d[H].
Seja F ∈ R[X0 , . . . , Xn ] um elemento homogêneo de grau d. Como R[X0 , . . . , Xn ] é um
Q ai
domínio de fatoração única, segue que F = Fi com fi irredutível. Portanto, a cada elemento
homogêneo F ∈ R[X0 , . . . , Xn ] podemos considerar o divisor
X
div(F ) = ai Yi ; Yi = (Fi ). (11.6)
P
Observe que deg(div(F )) = ai deg Fi = deg(F ) e portanto [div(F )] = deg(F )[H]. Mais
ainda, é imediato verificar que todo divisor efetivo é da forma div F para algum elemento homogêneo
F ∈ R[X0 , . . . , Xn ].
Por fim, seja f ∈ R[X0 , . . . , Xn ]((0)) . Então f = F/G é o quociente de dois elementos
homogêneos de mesmo grau. É imediato verificar que
div(f ) = div F − div G (11.7)
e portanto deg div(f ) = 0. Por outro lado, todo divisor de grau zero é a diferença de dois divisores
efetivos de mesmo grau. Como todo divisor efetivo é da forma div F para algum elemento homgêneo
de R[X0 , . . . , Xn ], segue que todo divisor de grau zero é principal. Assim, ker deg = Div0 (X) e
portanto, temos:
Teorema 11.1.7
Seja R um domínio de fatoração única e X = PnR = Proj R[X0 , . . . , Xn ]. Então o homomor-
fismo de grupos abelianos
deg : Cl(X) → Z
é um isomorfismo de grupos. ♡
Os grupos de classe de divisores de Weil possuem uma propriedade de excisão. De fato, sejam
X um esquema como na Definição 11.1.2 e Z ⊊ X um subesquema fechado. Se Y ⊂ X é um divisor
primo, temos que Y ∩ U é vazio ou um divisor primo. Assim, convencionando que Y ∩ U = 0 em
Div(U ) se Y ∩ U = ∅, temos um homomorfismo de grupos
ψ: Div(X) → Cl(U )
P P (11.8)
ny Y → nY [(Y ∩ U )],
169
11.1 Divisores de Weil em Esquemas
ψ: Cl(X) → Cl(U )
P P (11.9)
ny [Y ] → nY [(Y ∩ U )],
Agora, observe que se codim Z > 2, então todo divisor primo de X intersecta U . Portanto o
homomorfismo acima é um isomorfismo. Por fim, se Z = Z1 ∪ . . . , Zn ∪ Z ′ , com Zi irredutível de
codimensão um e codim Z ′ > 2, temos que ψ(Y ) = 0 para um divisor primo Y se, e somente se,
Y = Zi para algum i. Assim, provamos:
Teorema 11.1.8
Sejam X um esquema noetheriano, integral, separado e regular em codimensão um, Z ⊊ X
fechado e U = X \ Z.
(a) O homomorfismo de grupos de classe
ψ: Cl(X) → Cl(U )
P P
ny [Y ] → nY [(Y ∩ U )],
é sobrejetivo;
(b) se codim Z > 1, então ψ é um isomorfismo;
(c) se Z = Z1 ∪ · · · ∪ Zn ∪ Z ′ , com Zi irredutível de codimensão um e, como Cl(U ) = 0
(Teorema ?? ) codim Z ′ ≥ 2, então existe uma sequência exata
M
Z · Zi → Cl(X) → Cl(U ) → 0.
♡
Exemplo 11.1 Podemos usar o Teorema 11.1.8 para mostrar que se R é um domínio de fatoração
única e X = PnR = Proj R[X− , . . . , Xn ], então Cl(X) ≃ Z e gerado pela classe de H = div X0 . De
fato, temos que U = AnR e portanto temos um homomorfismo sobrejetivo Z → Cl(PnR ) cuja imagem
de 1 é [H].
Exemplo 11.2 Sejam R um domínio de fatoração única, X = PnR e Y = V(F ) com F um elemento
irredutível de grau d. Então temos uma sequência exata
Z → Cl(PnR ) → Cl(X \ Y ) → 0
(11.10)
1 → d[H]
e portanto Cl(X \ Y ) é isomorfo a Z/dZ.
Exemplo 11.3 Seja X = Spec k[x, y, z]/(xy − z 2 ), k um corpo. Vamos calcular Cl(X). Para isto,
seja Y ⊂ X o divisor primo dado por V(x, z). Agora, y é uma unidade em (k[x, y, z]/(xy − z 2 ))(x,z)
e portanto
mY = (z) ⊂ OX,Y . (11.11)
Considere a função regular y ∈ OX (X). Temos que V (y) = Y e, mais ainda, vY (y) = 2,
pois y = z 2 /x em OX,Y . Assim, 2Y é um divisor principal em Div(X).. Por fim, vamos calcular
Cl(X \ Y ). Pelo que acabamos de calcular, temos que X \ Y = Spec(k[x, y, z]/(xy − z 2 ))y . Como
x = z 2 /y, segue que (k[x, y, z]/(xy − z 2 ))y ≃ k[y, z]y , que é um domínio de fatoração única. Logo
Cl(X \ Y ) = 0. Temos então uma sequência exata
Z · Y → Cl(X) → Cl(X \ Y ) → 0 (11.12)
170
11.1 Divisores de Weil em Esquemas
e portanto Cl(X) é gerado pelo divisor primo [Y ] que satisfaz 2[Y ] = 0. Assim, temos que Cl(X) = 0
ou Cl(X) = Z/2Z.
Mostraremos que Cl(X) ̸= 0. Para isto, o leitor é convidado inicialmente a demonstrar que
o domínio k[x, y, z]/(xy − z 2 ) é normal (ver Exercício). Agora, considere o ideal maximal m =
(x, y, z) ⊂ k[x, y, z]/(xy − z 2 ). Como o cone é singular na origem, temos que x̄, ȳ, z̄ formam
uma base para o k-espaço vetorial m/m2 . Assim, ȳ, z̄ é um conjunto linearmente independente de
(y, z)/m(y, z) e portanto o ideal primo (y, z) não é principal em k[x, y, z]/(xy − z 2 ). Assim, pelo
Teorema 11.1.5, Cl(X) ̸= 0.
Exemplo 11.4 Seja X um esquema noetheriano, integral, separado e regular em codimensão um com
ponto genérico ξ. O objetivo deste exemplo é calcular Cl(X × A1Z ) = Cl(X × Spec Z[x]).
Primeiramente, é claro que X é um esquema noetheriano, integral e separado. Vamos mostrar que
X × Spec Z[t] é um esquema regular em codimensão um. Para isto, podemos supor que X = Spec R
para um domínio noetheriano R.
Agora, seja p ∈ Spec R[t] um ideal primo de altura um e considere o ideal primo q = p ∩ R.
Como a extensão qR[t] é um ideal primo de R[t], temos duas possibilidades:
(a) q é um ideal primo de R de altura um.
Neste caso, temos que Rq é um anel local regular de dimensão um, com qRq = (u). Assim,
(qR[t])R[t]qR[t] = (u) e R[t]qR[t] é um domínio de valorização discreta.
(b) q é um ideal primo de altura zero, isto é, q = (0).
Neste caso, R[t]p é uma localização do anel de polinômios K[t], onde K é o corpo de frações
de R. Como K[t] é um domínio de ideais principais, todas as suas localizações em ideais de
altura um são domínios de valorização discreta. Logo Spec R[t] é regular em codimensão um.
Assim, mostramos que existem dois tipos de divisores de Weil primos D em X × A1Z :
(1) aqueles tais que πX (D) é também um divisor de Weil D′ = V(p)) primo em X. Neste caso,
−1
D = V(πX (p)).
(2) aqueles tais que πX (D) = ξ.
Podemos então definir um homomorfismo de grupos ψ : Div(X) → Div(X × A1Z definindo
−1
ψ(D) = πX (D) e estendendo linearmente a Div(X). É claro que ψ leva divisores principais em
divisores principais, e portanto ψ define um homomorfismo entre os grupos de classes de divisores.
Afirmamos que este homomorfismo é um isomorfismo de [Link] então que D ∈ Div(X)
é um divisor tal que ψ(D) é um divisor principal de X × A1Z . Assim, existe uma função racional
f /g ∈ K(t) tal que ψ(D) = div(f /g)) com f, g relativamente primos. Se f ∈ / K ou g ∈ / K,
div(f /g) possuiria um divisor primo de tipo (2) em seu suporte. Isto é impossível, pois ψ(D) possui
apenas divisores de tipo (1) em seu suporte. Logo f /g ∈ K e D = div(f /g). Isto prova que ψ é
injetiva.
Vamos agora provar que ψ é sobrejetiva. Para isto, basta provar que todo divisor primo de tipo
(2) é linearmente equivalente a um divisor primo de tipo (1).
Seja Z ⊂ X × A1Z um divisor primo de tipo (2). Localizando no ponto genérico de X, obtermos
um divisor primo Z ′ de Spec K[t], que com certeza é principal. Assim, Z ′ = div f /g, f /g ∈ K(t).
Assim, enxergando f /g como uma função racional sobre X × A1Z , vemos que div f /g = Z + D, onde
171
11.2 Divisores de Cartier em Esquemas
Exemplo 11.5 Seja X um esquema noetheriano, integral, separado, regular em codimensão um com
ponto genérico ξ. Pelo que mostramos no Exemplo anterior, segue que X × PnZ também é um esquema
noetheriano, integral, separado e regular em codimensão um. Vamos calcular Cl(X × PnZ ).
Escreva PnZ = Proj Z[X0 , . . . , Xn ] e H = V(X0 ). Então Z = πP−1
n (H) ≃ X × H é um divisor
Z
n
primo de X × PZ . Pelo Teorema 11.1.8, temos uma sequência exata
φ ψ
Z ·Z− → Cl(X × (PnZ \ H)) → 0
→ Cl(X × PnZ ) − (11.13)
Como PnZ \ H ≃ AnZ , o exemplo anterior nos diz que Cl(X × (PnZ \ H)) ≃ Cl(X). Assim, temos
uma sequência exata
φ ψ
→ Cl(X × PnZ ) −
Z ·Z− → Cl(X) → 0 (11.14)
Seja D um divisor primo de X. Podemos definir o divisor µ(D) = D × PnZ ∈ Div(X × PnZ ).
Estendendo µ linearmente, obtemos um homomorfismo de grupos µ : Div(X) → Div(X × Pn ) que
leva divisores principais em divisores principais. Pelo Exercício 11.1, µ é uma seção de ψ. Afirmamos
agora que φ é injetiva. Assim, como ψ admite seção, temos que Cl(X × PnZ ) ≃ Cl(X) ⊕ Z.
Agora, localizando no ponto genérico ξ, obtemos o esquema Y = Proj K[X0 , . . . , Xn ], onde
K = OX,ξ . ASsim, todo divisor principal de X × PnZ restringe a um divisor de grau zero em Y . Como
nZ restringe a um divisor de grau n em Y , segue que φ é injetiva.
172
11.2 Divisores de Cartier em Esquemas
Relembremos da Seção 6.2 a definição de um divisor de Cartier sobre uma variedade irredutível
X sobre um corpo algebricamente fechado k: uma coleção (fi , Ui ) onde Ui ⊂ X é um aberto,
S
X = Ui , fi ∈ k(Ui ) \ {0} é uma função racional e fi /fj é um elemento invertível do anel de
funções regulares k[Ui ∩ Uj ].
Denote por R∗ o conjunto dos elementos invertíveis de um anel R. Em termos de feixes, um
divisor de Cartier em X corresponde a uma coleção de seções fi ∈ K (Ui ) de forma que fi ≡ fj
mod OX (Ui ∩ Uj )∗ .
Definição 11.2.1
Seja X um esquema e K o feixe de frações totais de OX . Um divisor de Cartier em X é uma
seção global do feixe K ∗ /OX
∗
. O grupo abeliano de divisores de Cartier sobre X é denotado
por
CaDiv(X) = Γ(X, K ∗ /OX ∗
)
Desta forma, um divisor de Cartier em X pode ser representado por uma coleção (fi , Ui ), onde
Ui = X e fi ∈ Γ(Ui , K ) e fi /fj ∈ Γ(Ui ∩ Uj , OX ∗
S
). Se um divisor de Cartier D admite uma
representação (fi , Ui ) de forma que fi ∈ Γ(Ui , OX ), o divisor D é dito um divisor efetivo. As
equações locais fi definem um subesquema fechado X(D) de X, que chamaremos de subesquema
associado ao divisor de Cartier efetivo D. Observe que, desta forma, existe uma correspondência
bijetora entre os subesquemas Y ⊂ X definidos por feixes de ideais IY localmente principais e
divisores de Cartier efetivos sobre X.
Toda seção global f ∈ Γ(X, K ∗ ) induz uma seção global f ∈ Γ(X, K ∗ /OX ∗
). Os divisores de
Cartier desta forma são chamados de divisores principais. Estes divisores formam um subgrupo de
CaDiv(X), que denotamos por CaDiv0 (X). Dois divisores de Cartier D, D′ são ditos linearmente
equivalentes se sua diferença D − D′ é um divisor principal. Também escreveremos D ∼ D′ nesta
situação.
Vimos na Seção 6.2 que Teorema da Equação Local (Teorema 5.4.4) nos diz que se X é uma
variedade algébrica lisa, então todo divisor de Weil é um divisor de Cartier. Reciprocamente, vimos
também que se Sing(X) possui codimensão pelo menos dois, então todo divisor de Cartier define em
X um divisor de Weil. Vejamos o que acontece no caso de esquemas.
Teorema 11.2.2
Seja X um esquema integral, separado, noetheriano e regular em codimensão um. Suponha
ainda que todos os anéis locais OX,Y sejam domínios de fatoração única. Então existe um
isomorfismo de grupos
Div(X) → CaDiv(X)
Demonstração Sendo X um esquema integral e ξ seu ponto genérico, o feixe K (X) é simplesmente
173
11.3 Feixes Invertíveis e Divisores
Chamemos este valor comum de vD (Q). Assim, para cada divisor de Cartier Q = (fi , Ui ) ∈
Γ(X, K ∗ /OX
∗
), temos um divisor de Weil bem definido
X
φ(Q) = vD (Q) · D (11.18)
e portanto um homomorfismo de grupos φ : CaDiv(X) → Div(X). Observe que, se Q =
(f, X), f ∈ Γ(X, K ∗ ), então φ(Q) = div(f ). Assim, φ(CaDiv0 (X)) ⊂ Div0 (X).
Agora, precisamos construir o homomorfismo inverso ψ : Div(X) → CaDiv(X). Para isto,
tome um divisor de Weil D e x ∈ X. Então D induz um divisor de Weil (possivelmente nulo)
Dx ∈ Spec OX,x . Como este último é um domínio de fatoração única, segue que Dx = div(fx ), f ∈
Frac OX,x = OX,ξ . Observe que D = Dx a menos de componentes de D, Dx que não passam por
x. Como o número destas componentes são finitas, podemos tomar Ux um aberto contendo x tal que
D = Dx = div fx em Ux .
Agora, podemos cobrir X por uma quantidade finita de tais abertos Ux . Note que fx , fy definem
o mesmo divisor de Weil em Ux ∩ Uy , e portanto fx /fy é uma função regular que não se anula em
Ux ∈ Uy , isto é, fx /fy ∈ OX (Ux ∩ Uy )∗ . Portanto ψ(D) = (fx , Ux ) é um divisor de Cartier em X e
isto nos dá um homomorfismo de grupos ψ : Div(X) → CaDiv(X). É umediato verificar que φ, ψ
são inversas uma da outra.
Observe que se X é um esquema noetheriano, separado, integral e regular em codimensão um, o
homomorfismo φ sempre está definido. A imagem de φ corresponde as divisores de Weil em X que
são localmente principais.
Exemplo 11.1 Seja X = Spec k[x, y, z]/(xy − z 2 ). Na seção anterior, demonstramos que Cl(X) ≃
Z/2Z, e gerado pelo divisor primo D = V(x, z). Como este divisor não é principal no anel local em
p = (0, 0, 0), segue que D não é um divisor de Cartier.
Exemplo 11.2 Seja X = Proj k[X, Y, Z]/(Y 2 Z − X 3 ). Observe que este esquema não é regular em
codimensão um (pois o ponto [0 : 0 : 1] é um ponto singular desta curva projetiva.) Desta forma, não
faz sentido falarmos em divisores de Weil sobre X, mas ainda assim podemos falar de divisores de
Cartier.
174
11.3 Feixes Invertíveis e Divisores
Definição 11.3.1
Sejam X um esquema e D ∈ CaDiv(X). O feixe L (D) é o feixe invertível associado ao divisor
D. ♣
Assim, a cada divisor de Cartier D, temos um feixe invertível L (D) que é um subfeixe do feixe
de frações totais K (X). Observe que se D é um divisor de Cartier efetivo então L (−D) é o feixe de
ideais que define o subesquema associado X(D) ⊂ X.
Tome agora um subfeixe invertível L ⊂ K (X). Seja Ui uma cobertura aberta de X tal que
S
L |Ui ≃ fi OUi , com fi ∈ K (Ui ). É imediato verificar que D = (fi−1 , Ui ) é um divisor de Cartier
sobre X. Assim, provamos
Proposição 11.3.2
Existe uma bijeção entre os divisores de Cartier sobre um esquema X e feixes invertíveis
L ⊂ K (X).
♠
é injetivo. ♠
175
11.4 Sistemas Lineares em Variedades Lisas
Corolário 11.3.5
Seja X = PnR onde R é um domínio de fatoração única. Então todo feixe invertível L sobre X
é isomorfo a OPnR (d) para algum d ∈ Z.
♡
Demonstração Pelos Teoremas 11.2.2 e 11.3.4, temos que Cl(PnR ) ≃ Pic(X) e portanto um gerador
de Pic(X) corresponde a um gerador de Cl(X). Seja [H] = V(X0 ). Sob o isomorfismo acima, temos
que L ([H]) ≃ OPnR (1) (veja Exercício 11.2). Isto demonstra o corolário.
O corolário acima nos permite caracterizar todos os morfismos φ : PnR = Proj R[X0 , . . . , Xn ] →
PmR = Proj R[Y0 , . . . , Ym ] onde R é um domínio de fatoração única. De fato, seja φ um tal morfismo.
Então φ∗ OPm R
(1) é um feixe invertível muito amplo de PnR com respeito a Spec R. Como OPnR (d)
não possui seções globais se d < 0, segue que para φ∗ OPm R
(1) ≃ OPnR (d), d > 0 e as seções
∗
globais φ (Yi ) ∈ R[X0 , . . . , Xn ]d geram OPnR (d). Em outras palavras, um morfismo φ : PnR =
Proj R[X0 , . . . , Xn ] → PmR = Proj R[Y0 , . . . , Ym ] é dado por (m + 1) formas homogêneas de mesmo
grau d sem zeros em comum em Proj R[X0 , . . . , Xn ] (compare coma Definição 3.5.1). Se relaxarmos
a condição de que estas formas homogêneas não possuem zeros em comum, caracterizamos os mapas
racionais φ : PnR = Proj R[X0 , . . . , Xn ] 99K Pm R = Proj R[Y0 , . . . , Ym ].
Demonstração D é um divisor de Cartier. Escreva D = (Ui , fi ). Desta forma, L |Ui = fi−1 OUi .
Seja f a função racional associada a seção global s. A descrição de D como divisor de Cartier
implica que s é representada em Ui por fi f. Assim, Ds = D + div(f ). □.
Sigamos com a notação da demonstração acima. De D′ é um divisor efetivo tal que D′ =
D + div(f ), então f /fi ∈ OUi e portanto f nos dá uma seção global de L (D). Assim, temos
Proposição 11.4.2
Seja D um divisor em X e L (D) seu feixe invertível associado. Então todo divisor efetivo D′
linearmente equivalente a D é o divisor de zeros de alguma seção global s ∈ Γ(X, L (D)).
♠
176
11.4 Sistemas Lineares em Variedades Lisas
divisor em uma variedade projetiva lisa, no sentido clássico. Desta forma, toda a teoria de sistemas
lineares de divisores
177
11.5 Exercícios
11.5 Exercícios
Exercício 11.1 No contexto do Exemplo 11.5 deste capítulo, prove que o homomorfismo µ : Cl(X) →
Cl(X × PnZ ) é uma seção da composição
∼
Cl(X × PnZ ) → Cl(X × (Pn \ H)) −
→ Cl(X).
Aqui, o último isomorfismo é aquele construído no Exemplo 11.4.
Exercício 11.2 Neste exercício mostraremos que se R é um domínio de fatoração única, então
Cl(PnR × Pm 2
R ) ≃ Z utilizando uma técnica análoga a utilizada na demonstração do Teorema 11.1.7.
Para isto, utilizaremos a identificação PnR × Pm R = MultiProj S, S = R[X0 , . . . , Xn , Y0 , . . . , Ym ],
discutida no Exercício 9.17.
(a) Conclua, utilizando o Exercício 10.14, que todo divisor de Weil primo de PnR × Pm R é da forma
V(p) para algum ideal (bi)homogêneo p ∈ MultiProj(S) de altura um.
(b) Considere em PnR = Proj R[X0 , . . . , Xn ] o divisor de Cartier D = V(X0 ). Prove que L (D) ≃
OPnR (1).
(c) Seja p ⊂ MultiProj S. Então p é um ideal principal gerado por um elemento homogêneo de
grau (d, e). Assim, se D é o divisor de Weil primo V(p), podemos definir deg D = (d, e).
Estendendo linearmente, temos um homomorfismo
deg : Div(PnR × Pm 2
R) → Z .
Prove que deg div(F ) = (d, e) e que todo divisor de Weil efetivo de PnR × Pm
R é da forma div F
para algum F ∈ S (bi)homogêneo.
(e) Prove que se H1 = V(X0 ), H2 = V(Y0 ) e deg D = (d, e), então D é linearmente equivalente a
dH1 + eH2 .
(f) Seja D ∈ Div(PnR × Pm R ). Prove que deg D = (0, 0) se, e somente se D é principal.
(g) Conclua que Cl(PR × Pm
n 2
R ) ≃ Z e é gerado pelas classes [H1 ] e [H2 ].
178
Capítulo 12 Blow-ups
Definição 12.1.2
Seja (X, OX ) um espaço localmente anelado e f : OX → R, g : OX → S duas OX -álgebras.
Um morfismo de feixes de anéis ψ : R → S é dito um morfismo de OX -álgebras se g = ψ ◦ f. ♣
Definição 12.1.3
Seja X um esquema. Uma OX -álgebra R é dita uma OX -álgebra quasicoerente se F é um
OX -módulo quasicoerente. ♣
Teorema 12.1.4
Seja X um esquema e R uma OX -álgebra quasicoerente. Então existe um único esquema X̃ e
um morfismo f : X̃ → X tal que, para todo U = Spec R ⊂ X aberto afim, temos que:
(a) f −1 (U ) ≃ Spec R(U ) e o morfismo Spec R(U ) → U é indozudo pelo morfismo estrutu-
ral OX (U ) → R(U );
(b) Para todo par de abertos afins V ,→ U, a inclusão f −1 (V ) ,→ f −1 (U ) é dada pelo
homomorfismo de restrição R(U ) → R(V ).
♡
φ(W )
R = OX (U ) Rf = OX (W ) ≃ Sg = OX (W ) S = OX (V )
ψ(W )
R(U ) R(U )f = R(W ) ≃ R(V )g = R(W ) R(V )
(12.1)
que induz o diagrama comutativo de esquemas afins
≃
Spec R(U ) Spec R(U )f Spec R(V )g Spec R(V )
≃
Spec R Spec Rf Spec Sg Spec S
(12.2)
Agora, pela Proposição 9.1.6, existe uma cobertura aberta de U ∩ V por abertos distinguidos
de U e de V , simultâneamente. Assim, a quasicoerencia de R, as propriedades de localização e os
diagramas comutativos acima demonstram eque os esquemas YU = Spec R(U ) podem ser coladosem
um esquema X̃, pelo Teorema 9.1.8. Mais ainda, Os morfismos Spec R(U ) → U podem ser colados
em um morfismo f : X̃ → X. com as propriedades desejadas. □
Definição 12.1.5
Seja (X, OX ) um esquema e R uma OX -álgebra. Denotamos o X- esquema X̃ construído no
teorema anterior por Spec R. ♣
180
12.1 Preliminares: As Construções Relativas Spec e Proj; Fibrados Vetoriais
Teorema 12.1.7
Sejam (X, OX ) um esquema e R uma OX -álgebra quasicoerente. Então existe um único
esquema X̃ e um morfismo πR : X̃ → X tal que, para todo aberto afim U = Spec R ⊂ X,
f −1 (U ) ≃ Proj R(U )
e f : f −1 (U ) → U é induzido pelo homomorfismo estrutural OX (U ) → R(U ).
♡
Proposição 12.1.9
Seja X um esquema, R uma OX -álgebra graduada e π : Y = Proj R → X o homomorfismo
estrutural.
(a) π é um morfismo próprio.
(b) Se X admite um feixe muito amplo L , então π é um morfismo projetivo. Mais ainda,
o feixe OY (1) ⊗ L ⊗n é um feixe muito amplo de Y com respeito a X para algum n
conveniente. ♠
181
12.1 Preliminares: As Construções Relativas Spec e Proj; Fibrados Vetoriais
Demonstração O item (a) é apenas uma consequência do fato que a condição de ser morfismo
próprio é uma condição local.
Para o item (b), podemos uspor sem perda de generalidade que o feixe R1 ⊗ L é gerado por
seções globais, que nos permite construir um morfismo sobrejetivo de feixes
OX
n+1
−→ R1 ⊗ L . (12.4)
Tomando os funtores Sym e Proj com relação ao morfismo acima, obtemos um mergulho fechado
Proj Sym(R1 ⊗ L ) ,→ PnX . Pelo Lema anterior, temos Proj Sym(R1 ⊗ L ) ≃ Proj R.
Observe que podemos refrasear o Teorema 10.6.1 da seguinte maneira: se X é um esquema
sobre Spec R, então dar um morfismo X → PnR é equivalente a dar feixe invertível L sobre X e um
morfismo sobrejetivo de feixes
OXn+1
−→ L . (12.5)
A condição (a) da definição acima implica que f −1 (Ui ) é isomorfo a AnUi e o morfismo f :
f −1 (Ui ) → Ui é o morfismo natural AnUi → Ui .
Seja p ∈ Y e U = Spec R afim tal que f −1 (U ) = Spec R[x1 , . . . , xn ]. Assim, f −1 (p) ⊂ U e
portanto
182
12.1 Preliminares: As Construções Relativas Spec e Proj; Fibrados Vetoriais
isto é, as fibras de f sobre um ponto p é um espaço afim sobre Spec k(p). Mais ainda, tomando
o morfismo induzido nas fibras pelos homomorfismos de trânsição, o item (b) nos diz que as funções
de transição são lineares fibra a fibra.
É simples construir exemplos de fibrados vetoriais sobre um esquema X através de OX -módulos
localmente livres. Recorde que, se M é um módulo sobre um anel comutativo R, podemos considerar
a álgebra simétrica de M , SymR (M ). Recorde também que se M possui uma apresentação finita
m n
φ
M M
R · fj −
→ R · ei → M → 0 (12.7)
j=1 i=1
P P
e φ(fj ) = aij ei , então Sym(M ) ≃ R[T1 , . . . , Tn ]/⟨ aij Ti ⟩. Segue, então, que a associação
Spec Rf → SymRf (Mf ) (12.8)
é um feixe de álgebras sobre a base de abertos principais de Spec R e portanto define um feixe
de de OSpec R -álgebras que denotaremos por SymOSpec R (M̃ ). Observe que, por construção
^
SymOSpec R (M̃ ) ≃ SymR (M ). (12.9)
Assim, se F é um feixe quasicoerente sobre Spec R, o feixe de OSpec R -álgebras SymOSpec R F é
um feixe quasicoerente de OSpec R -álgebras.
Seja agora X um esquema e F um feixe quasicoerente. Se (Ui = Spec Ri ) é uma cobertura
S
183
12.1 Preliminares: As Construções Relativas Spec e Proj; Fibrados Vetoriais
Definição 12.1.13
Seja f : X → Y um fibrado vetorial. Uma seção de f sobre um aberto U ⊂ Y é um morfismo
s : U → X tal que f ◦ s = idU . ♣
onde o último isomorfismo é dado por φs → (φs (x1 ), . . . , φs (xn )). Assim, S(U ) possui uma
estrutura de OX (U )-módulo. Observe que, por construção, S é um OX -módulo localmente livre.
Teorema 12.1.14
Sejam X um esquema, F um feixe coerente de OX -módulos localmente livre, f :
Spec SymOX (F ) → X o fibrado vetorial associado e S o feixe de seções de f . Então
F ∗ = H om(F , OX ) ≃ S .
♡
184
12.2 A Explosão de um Esquema ao longo de um Subesquema
X̃ ⊂ X × Pn
πX π Pn (12.17)
φ
X Pn
185
12.2 A Explosão de um Esquema ao longo de um Subesquema
No que segue, precisaremos de uma nova noção, chamada de imagem inversa de um feixe de
ideais por um morfismo f : X → Y. Seja J um feixe de ideais sobre Y . Nós então temos um feixe
de ideais f −1 J ⊂ f −1 OY . Utilizando o morfismo de feixes f −1 OY → OX induzido por f , podemos
tomar a extensão
f −1 J · OX , (12.20)
que chamaremos de imagem inversa do feixe de ideais J . Note que este feixe de ideais é a
imagem do homomorfismo natural f −1 J ⊗f −1 OY OX → OX .
Proposição 12.2.2
Sejam X um esquema noetheriano, Y ⊂ X subesquema fechado com feixe de ideais J ,
U = X \ Y e πY : X̃ → X o blouwup de X com centro em Y . Então πY : π −1 (U ) → U é um
isomorfismo. ♠
O resultado acima mostra que o subesquema de X̃ definido pelo feixe de ideais πY−1 J · OX̃ é
um divisor em X̃, que chamamos de divisor excepcional de X̃. Este divisor excepcional é dado por
Proj J d /J d+1 . (12.21)
Exemplo 12.1 Vamos analisar um exemplo já conhecido, a explosão de X = Ank = Spec k[x1 , dots, xn ]
em um ponto fechado p ∈ Ank . Por simplicidade, vamos supor que k é algebricamente fechado e
p = (0, . . . , 0). Neste caso, o feixe de ideais associado é dado pelo ideal I = (x1 , . . . , xn ). Como
k[x1 , . . . , xn ][T1 , . . . , Tn ]
k[x1 , . . . , xn ][It] ≃ , (12.22)
⟨xi Tj − xj Ti ; 1 ≤ i, j ≤ n⟩
temos que X̃ é um subesquema fechado de Proj k[x1 , . . . , xn ][T1 , . . . , Tn ] = Ank ×k Pkn−1
Analisemos o subesquema associado ao feixe invertível π −1 Ie · OX̃ . O subesquema definido por
este ideal é dado por Proj( I d /I · I ) = Proj I d /I d+1 = Proj k[x̄1 , . . . , x̄n ] ≃ Pn−1
L L d L
k .
186
12.2 A Explosão de um Esquema ao longo de um Subesquema
Exemplo 12.2 Seja X um esquema integral e noetheriano. Dizemos que um feixe de ideais J é
S
localmente uma interseção completa se existe uma cobertura aberta Ui = Spec Ri de X tal que,
para todo i temos I = (f1 , . . . , fr ), onde (f1 , . . . , fr ) é uma sequência regular. Neste caso, o divisor
excepcional da explosão de Spec Ri ao longo de V(I) é dado por
M R
Proj I d /I d+1 = Proj [f¯1 , . . . , f¯r ] (12.23)
I
Este último anel é isomorfo a um anel de polinômios em r variáveis (Bruns-Herzog, Teorema
1.1.8) e portanto temos que o divisor excepcional é isomorfo a V(I)×Pr−1 Z . Assim, se J é localmente
uma interseção completa, então o divisor excepcional de X̃ é um fibrado projetivo sobre V(J ).
Vamos demonstrar agora que o blowup de X com respeito a um feixe de ideais J é um objeto
final com respeito a propriedade demonstrada na Proposição anterior.
Teorema 12.2.4
Sejam X um esquema noetheriano, Y ⊂ X um subesquema fechado definido por um feixe de
ideais J e πY : X̃ → X o blowup de X com centro em Y . Se f : Z → Y é um morfismo de
esquemas tal que f −1 J · OZ é um feixe invertível, então existe um único morfismo f˜ : Z → X̃
tal que o diagrama
f˜
Z X̃
πY
f
X
é comutativo. ♡
187
12.2 A Explosão de um Esquema ao longo de um Subesquema
f˜
X̃ Ỹ
π2 π1
f
X Y
é comutativo. ♡
Proposição 12.2.6
Suponha que, na notação do Corolário 12.2.5, o morfismo f seja uma imersão fechada. Então
f˜ : Ỹ → X̃ é uma imersão fechada. ♠
Demonstração Suponha que f seja uma imersão fechada. Então, o morfismo de feixes de anéis OX →
f∗ OY é um morfismo sobrejetivo de anéis. Desta forma, existe uma sobrejeção J → f −1 J · OY =
J ′ , que nos dá um homomorfismo sobrejetivo de OX -álgebras graduadas d≥0 J d → d≥0 J ′ d .
L L
Pelo Exercício 12.5 temos que Ỹ = Proj d≥0 J ′ d → X̃ = d≥0 J d é uma imersão fechada.
L L
188
12.3 Exercícios
12.3 Exercícios
Exercício 12.1 Seja f : X → Y um morfismo afim. Prove que f∗ OX é uma OY -álgebra quasicoerente
e que X ≃ Spec f∗ OX como ym Y -esquema.
Exercício 12.2 Seja f : X → Y um morfismo afim. Prove que f∗ induz uma equivalência entre a
categoria dos OX -módulos com a categoria dos f∗ OX -módulos. (Dica: Se tuido é afim, qual é o
funtor inverso de f∗ ?)
Exercício 12.3 Seja X um esquema. Prove que, dado um homomorfismo de OX -álgebras quasicoe-
rentes f : F → G , existe um único morfismo de esquemas sobre X φ : Spec G → Spec F tal que,
para todo aberto afim U = Spec R ⊂ X, o morfismo φU : Spec G (U ) → F (U ) é induzido por f (U ).
Prove que se f é sobrejetivo, então φ é uma imersão fechada.
Exercício 12.4 Prove que a subcategoria cheia de SchX formada pelos esquemas da forma Spec F , F OX -
álgebra quasicoerente, é equivalente a categoria das OX -álgebras quasicoerentes.
Exercício 12.5 Seja X um esquema. Prove que, dado um homomorfismo de OX -álgebras graduadas
e quasicoerentes f : F → G , existe um único morfismo de esquemas sobre X φ : Proj G → Proj F
tal que, para todo aberto afim U = Spec R ⊂ X, o morfismo φU : Proj G (U ) → Proj F (U ) é
induzido por f (U ). Prove que se f é sobrejetivo, então φ é uma imersão fechada.
Exercício 12.6 Sejam XS um esquema noetheriano, E um feixe localmente livre de posto pelo menos
2 e π : Proj Sym E → X o fibrado projetivo associado.
(a) Prove que existe um isomorfismo de álgebras graduadas
M
Proj Sym E −→ π∗ (OProj Sym E )(d).
d∈Z
(b) Existe um morfismo sobrejetivo π ∗ E → OProj Sym E )(1).
Exercício 12.7 Demonstre o Corolário 12.2.5.
189
Capítulo 13 Morfismos Suaves
Capítulo 14 Cohomologia de Feixes
cohomologia de F por
H i (X, F ) = Ri (Γ(X, □)).
Precisamos desenvolver mecanismos para calcular cohomologia. Uma destas ferramentas consiste
em flexibilizar os objetos permitidos para formar a resolução que utilizamos para definir cohomologia.
O próximo resultado é um resutlado clássico de álgebra homológica, que omitimos a demonstração.
Teorema 14.1.3
Sejam C uma categoria abeliana com muitos injetivos, F um funtor aditivo, covariante e exato
à direita e
0 → A0 → A1 → A2 → · · ·
Proposição 14.1.4
Sejam (X, OX ) um espaço anelado e F um OX -módulo injetivo. Então para todo U ⊂ V
aberto, o homomorfismo de restrição
ρUV : Γ(V, F ) → Γ(U, F )
é sobrejetivo. ♠
Demonstração Para cada U ⊂ X aberto, considere o feixe sobre X OU a extensão por zero do feixe
OX |U .
Assim, temos uma sequência exata
0→V →U (14.6)
que nos dá uma sequência exata
HomOX (OU , F ) = F (U ) → HomOX (OU , F → 0) = F (V ). (14.7)
Um feixe satisfazendo a conclusão do Teorema acima é dito um feixe flasque. Sobre feixes
flasque, temos:
Proposição 14.1.5
Sejam (X, OX ) um espaço anelado e F um feixe flasque sobre x. Então H i (X, F ) = 0 para
i > 0. ♠
192
14.1 Cohomologia de Feixes via Funtores Derivados
Assim, H 1 (X, F ) = 0 e H i (X, F ) ≃ H i−1 (X, G ) para i ≥ 2. Pelo Exercício 7.2 segue que G
é flasque. O resultado segue por indução.
Seja (Fλ , φµλ ), λ, µ ∈ L um sistema dirigido de OX -módulos. Mesmo que Fλ seja um OX -
módulo injetivo para todo λ, não é verdade que lim F seja um OX -módulo injetivo. Veremos que
−→
ismo não acontece para feixes flasque sobre espaços topológicos noetherianos.
Proposição 14.1.6
Seja X um espaço topológico noetheriano e (Fλ , φµλ ), λ, µ ∈ L um sistema direto dirigido de
feixes flasque. Então
lim Fλ
−→
é flasque. ♠
é sobrejetivo. Como (lim Fλ )(U ) = lim Fλ (U ) para todo aberto U ⊂ X (Exercício 7.4), o resultado
−→ −→
segue. □
Com este resultado, podemos analisar a relaçao entre os funtores de cohomologia e limites diretos.
Teorema 14.1.7
Seja X um espaço topológico noetheriano e(Fλ , φµλ ), λ ∈ L um sistema dirigido de feixes.
Então existe um isomorfismo funtorial
lim H i (X, Fλ ) ≃ H i (X, lim Fλ ).
−→ −→
♡
193
14.2 O Teorema de Anulamento de Grothendieck
Agora, pelo Exercício 7.5, temos uma sequência exata de sistemas dirigidos
0 → F λ → Gλ → H → 0 (14.14)
com G flasque.
Agora, pela propriedade universal de limites diretos, temos para cada λ ∈ L, um diagrama
comutativo
··· H i (X, Gλ ) H i (X, Hλ ) H i+1 (X, Fλ ) H i+1 (X, Gλ ) ···
··· H i (X, lim Gλ ) H i (X, lim Hλ ) H i+1 (X, lim Fλ ) H i+1 (X, lim Gλ ) ···
−→ −→ −→ −→
(14.15)
Tomando o limite direto na primeira linha do diagrama acima, temos um diagrama comutativo de
linhas exatas
··· lim H i (X, Gλ ) lim H i (X, Hλ ) lim H i+1 (X, Fλ ) lim H i+1 (X, Gλ ) ···
−→ −→ −→ −→
··· H i (X, lim Gλ ) H i (X, lim Hλ ) H i+1 (X, lim Fλ ) H i+1 (X, lim Gλ ) ···
−→ −→ −→ −→
(14.16)
,
onde os homomorfismos verticais são aqueles descritos em (14.12).
Agora, como Gλ é flasque, lim Gλ é flasque. Portanto lim H i (X, Gλ ) = H i (X, lim Gλ ) = 0.
−→ −→ −→
Assim, temo o diagrama comutativo de linhas exatas
(14.17)
(14.18)
194
14.2 O Teorema de Anulamento de Grothendieck
Teorema 14.2.1
Seja X um espaço topológico noetheriano de dimensão (topológica) n e F um feixe de grupos
abelianos sobre X. Então
H i (X, F ) = 0
Vamos dividir a prova em diversas etapas. A ideia central é utilizar indução na dimensão de X.
Lema 14.2.2
Sejam Y ⊂ X com espaços topológicos com Y fechado em X. Se i : Y → X um morfismo
fechado e F um feixe de grupos abelianos sobre X. Então
H i (Y, F ) ≃ H i (X, i∗ F ).
♡
Demonstração Seja I • uma resolução de F por feixes flasque. É imediato verificar que, f∗ I • é
uma resolução flasque de f∗ F .
Assim, temos
H i (X, F ) = H i (Γ(Y, F )) = H i (Γ(X, i∗ F )) = H i (X, i∗ F ). (14.19)
Retornemos a demonstração do Teorema de Grothendieck:
Passo 1: Podemos supor X irredutível.
De fato, escreva X = ni=1 Xi . Se U = X \ X1 e Y = Ū . Se j : Y → X é a inclusão, temos
S
Observe que U possui uma componente irredutível a menos que X, ao passo que X1 é irredutível.
Logo, por indução, podemos supor que X é irredutível.
Passo 2: O caso zero dimensional.
Neste caso, o único aberto não-vazio de X é o próprio X. Neste caso, a categoria de feixes de X
é equivalente a categoria de grupos abelianos e o funtor Γ(X, □) é o funtor identidade, que é exato.
Passo 3: Redução ao caso Finitamente Gerado.
Considere B = F (U ), onde a união é tomada sobre todos os abertos U ⊂ X e seja A o
S
0 → Fα → Fβ → G → 0. (14.21)
Observe que G é gerado por #β − #α seções e, por indução, podemos supor que F é gerado
por uma única seção s ∈ F (U ). Assim, ZU é a extensão por zero a X do feixe constante Z sobre U ,
temos uma sequência exata curta
195
14.3 Cohomologia de Čech
0 → G → Z → F → 0. (14.22)
0 → ZU → Z → i∗ Z|Y → 0. (14.24)
Como o feixe constante Z é flasque em X, temos que H i (X, Z) = 0 para i > 0 e portanto temos
isomorfismos
H i (X, ZY ) ≃ Hi−1 (X, i∗ ZY ) ≃ H i−1 (Y, Z|Y ) = 0sei > n (14.25)
onde a última igualdade segue por indução, pois dim Y < dim X
Mais ainda, para todo i0 < i1 < · · · < ip , podemos definir o homomorfismo dp : C p (U, F ) →
Č p+1 (U, F ) onde
p+1
X
p
d (α)i0 ,i1 ,...,ip+1 = (−1)j αi0 ,i1 ,...,iˆj ,...,ip+1 |Ui0 ∩···∩Uij ∩···∩Uip+1 (14.27)
j=0
196
14.3 Cohomologia de Čech
É imediato verificar que, nas condições da definição acima, que d0 ((si )) = 0 se, e só se
si |Ui ∩Uj = sj |Ui ∩Uj . Portanto, para qualquer cobertura U de X, temos
Ȟ 0 (U, F ) = Γ(X, F ).
Exemplo 14.1
Vamos começar com um exemplo simples da topologia. Considere sobre o círculo unitário
S 1 ⊂ R2 , com a topologia usual, o feixe constante Z. Se U1 = S 1 \ {(0, 1)} e U2 = S 1 \ {(0, −1)}.
Como Γ(U, Z) é o conjunto das funções U → Z localmente constantes, temos
Γ(S 1 , U1 ) = Z;
Γ(S 1 , U2 ) = Z; (14.28)
Γ(S 1 , U1 ∩ U2 ) = Z ⊕ Z.
O complexô de Čech associado a esta cobertura é
d0
0→Z⊕Z−
→Z⊕Z→0 (14.29)
Observe que d0 (a, b) = (a − b, a − b) e portanto
ker d0 = H 0 ({U1 , U2 }, Z) ≃ Z · (1, 1) ≃ Z. (14.30)
Mais ainda,
Coker d0 = H 1 ({U1 , U2 }, Z) ≃ Z · (1, −1) ≃ Z. (14.31)
Exemplo 14.2
Seja X = P1k para um corpo k e considere a cobertura aberta U1 , U2 onde
U1 = Spec k[x]
U2 = Spec k[y] (14.32)
U1 ∩ U2 = Spec k[x, y = 1/x].
Observação Sejam X um espaço topológico e U uma cobertura aberta de X. em geral, uma
sequência exata curta de feixes de grupos sobre X não induz uma sequência exata longa de grupos de
cohomologia de Čech Ȟ i (U, X). De fato, como o funtor Γ(U, □) não é exato, o funtor F → C • (U, F )
não é exato.
Comentário É possível construir os grupos de cohomologia de Čech que é independente da cobertura
tomada do espaço topológico X. Como isto não será necessário para o que segue, não faremos esta
abordagem no texto. Veremos que, no contexto de esquemas noetherianos, apenas a cohomologia de
Čech associada a certas coberturas já é o suficiente para calcular os grupos de cohomologia H i (X, F ).
Uma pergunta natural que aparece é: qual a relação entre Ȟ i (U, F ) e H i (X, F )? Para esta
missão, começamos com um a modificação do complexo de Čech de forma a termos um complexo de
feixes. Seja V ⊂ X um aberto e, por siplicidade, denote por f : V → X o morfismo de inclusão.
197
14.3 Cohomologia de Čech
Demonstração O item (a) é imediato. Para provar o item (b), considere para cada x ∈ Xo complexo
de talos C • (U, X)x .
Vamos mostrar que é possível definir um homomorfismo kp : C p (U, X)x → C p−1 (U, X)x .
De fato, seja i tal que x ∈ Ui ∈ U . Cada elemento σx ∈ C p (U, X)x , é induzido por uma seção
σ ∈ Γ(V, C p (U, F )) e, sem perda de generalidade, podemos supor que V ⊂ Ui . Da igualdade
V ∩ Ui0 ∩ · · · ∩ Uip = V ∩ Uj ∩ Ui0 ∩ · · · ∩ Uip (14.35)
para i0 < · · · < ip podemos definir kp tomando o talo em x do homomorfismo
(kp (s))i0 ...ip = (−1)∗ sj,i0 ...ip (14.36)
(aqui, ∗ depende da posição de j em termos de i0 , . . . , ip ). É imediato verificar que k p ◦ dp−1 +
dp ◦ k p−1 = id . Assim, temos uma homotopia entre o homomorfismo identidade e o homomorfismo
nulo. □
Vejamos a consequência da proposição acima para feixes flasque F . É claro que se F é um
feixe flasque sobre X, então F |U é um feixe flasque U para todo aberto U ⊂ X. Mais ainda, f∗ F |U
também é flasque sobre X. portanto o complexo C • (U, X) é uma resolução flasque de F . Assim,
temos
H i (X, F ) = H i (Γ(X, C • (U, F ))) = Ȟ(U, F ). (14.37)
Corolário 14.3.3
Seja X um espaço topológico e F um feixe flasque de grupos abelianos sobre X. Então
Ȟ i (U, F ) = 0
para toda cobertura aberta U de X. ♡
0 F I•
198
14.4 Cohomologia de Feixes Quasicoerentes
199
14.4 Cohomologia de Feixes Quasicoerentes
Demonstração Pelo Critério de Baer, temos que mostrar que se b ⊂ R todo homomorfismo
f : b → Γa → I se estende a R:
R
(14.45)
f i
b Γa (I) I
Tome n tal que an f (b) = f (an b) = 0. Pelo lema de Artin-Rees, existe m > n tal que b ∩ am ⊂ an b.
Assim, f se fatora por b/b ∩ am , nos dando o diagrama comutativo
R R/am
(14.46)
f¯ i
b b/b ∩ am Γa (I) I
f
Demonstração Como R é noetheriano, existe n tal que AnnR (f m ) = AnnR (f n ) para todo m > n.
Seja y ∈ If . Então existe x ∈ I e r ∈ N tais que y = x/f r . Afirmamos que o homomorfismo
φ : (f n+r ) −→ If f n+r −→ f n x (14.48)
é bem definido. De fato, (f n+r ) ≃ R/ AnnR (f n+r ) = R/ AnnR f n e AnnR )f n ⊂ AnnR (f n y).
200
14.4 Cohomologia de Feixes Quasicoerentes
Antes de enunciar o próximo Teorema, introduziremos uma nova notação. Seja X um esquema,
F e Z ⊂ X um subconjunto fechado. Defina, para todo U ⊂ X aberto,
ΓZ (X, F ) = {s ∈ Γ(X, F ); Supp(s) ⊂ Z}. (14.50)
Teorema 14.4.3
Sejam R um anel noetheriano e I um R-módulo injetivo. Então Ie é flasque sobre Spec R. ♡
e Se U ⊂ X é um aberto, devemos mostrar que o homomorfismo
Demonstração Seja Y = Supp(I).
e → Γ(U, I)
Γ(X, I) e (14.51)
é sobrejetivo. Observe que isto é trivial de Y ∩ U = ∅. Suponha então que U ∩ Y ̸= ∅ e tome
f ∈ R tal que Xf ⊂ U e Xf ∩ Y = ∅. Defina Z = X \ Xf . Temos uma composição:
Γ(X, I)
e Γ(U, I)
e ˜
Γ(Xf , I) (14.52)
201
14.4 Cohomologia de Feixes Quasicoerentes
Teorema 14.4.5
Sejam X um esquema noetheriano e F um feixe quasicoerente sobre X. Se U é uma cobertura
aberta de X por abertos afins, então
Ȟ i (U, F ) = H i (X, F )
para todo i ≥ 0. ♡
Demonstração Pelo Exercício 10.7, temos que provar que X = ni=1 Xfi , fi ∈ Γ(X, OX ) tais que
S
Observe que como fi ∈ Γ(X, J ), temos Xfi ⊂ U = Spec R é afim. Logo basta provar que
(f1 , . . . , fr ) = Γ(X, OX ).
Para isto, considere o homomorfismo de feixes OXr
→ OX definido pelas seções globais f1 , . . . , fr
e seja F o seu núcleo.
Tome uma filtração de OX r
por feixes livres
OX ⊂ OX
2
⊂ · · · ⊂ OX
r
(14.58)
e sua interseção com J
J1 = OX ∩ J ⊂ J2 = OX
2
∩ J ⊂ · · · ⊂ Jr OX
r
∩J. (14.59)
202
14.5 Cohomologia em Espaços Projetivos
n
Y
H (X, F ) = Ȟ (U, F ) = Coker(
n i
SX0 ...X̂i ...Xn → SX0 ...Xn ). (14.66)
i=1
Observe que SX0 ...Xn é livre sobre R, com base X0α0 · · · Xnαn com (α1 , . . . , αn ) ∈ Zn . Mais ainda,
cada SX0 ···X̂i ···Xn também é livre sobre R, com base dada pelos monômios da forma X0α0 · · · Xnαn com
(α1 , . . . , αn ) ∈ Zn e αi ≥ 0. Assim, é fácil verificar que a imagem de dn é composta pelas classes de
monômios X0α0 · · · Xnαn tal que algum αi é não negativo. Desta forma, temos
M
H n (X, F ) = R · X0α0 · · · Xnαn (14.67)
α0 ,...,αn <0
e portanto
M
H n (X, OPnR (d)) ≃ R · X0α0 · · · Xnαn . (14.68)
P
α0 ,...,αn <0; αi =d
Observe que H n (X, OPnR (−n−1)) ≃ R, gerado pela classe X0−1 · · · Xn−1 . Mais ainda, H n (X, F )
203
14.5 Cohomologia em Espaços Projetivos
Sd ×H n (X, F )−n−1−d = Sd ×H n (X, OPnR (−n−1−d)) → H n (X, F )−n−1 = H n (X, OPnR (−n−1))
com αi , βi ≥ 0. Sob as condições dadas, a multiplicação em (14.69) é não nula se, e somente se
αi = βi para 0 ≤ i ≤ n. Assim, temos um isomorfismo
H n (X, OPnR (−d−n−1)) ≃ HomR (H 0 (X, OPnR (d)), H n (X, OPnR (−n−1))) = HomR (H 0 (X, OPnR (d)), R)
(14.70)
−α0 −1 −α −1 α α
onde o elemento X0 · · · Xn n é dual ao elemento X0 · · · Xn .
0 n
C • (U, F ) na variável Xn . É imediato verificar que o resultado final desta localizaão é o complexo de
Čech de F |D(Xn ) sobre a cobertura aberta U′ = {Ui ∩ Un } de Un . Assim, temos
H i (U, F )Xn = H i (U′ , F |D(Xn ) )) = 0 (14.71)
para i > 0, pelo Teorema 14.4.4. Assim, temos que H i (X, F )Xn = 0 e portanto todo elemento
de H i (X, F ), i > 0, é anulado por alguma potência de X n .
A multiplicação pela seção global X n ∈ OPnR (1) nos dá uma sequência exata
·X
0 → F (−1) −−→
1
F → F′ → 0 (14.72)
Suponha agora, por indução, que H i (Pn−1 , OPn−1 (d)) = 0 para todo d e 0 < i < n (Observe que
R
isto é trivialmente verdade para n = 1) e Usando a sequência exata longa de cohomologia em (14.72),
temos a sequência exata
·Xn ψ ·Xn
0 H 0 (X, F )(−1) H 0 (X, F ) H 0 (X, F |H ) H 1 (X, F )(−1)
H 1 (X, F ).
(14.74)
Como ψ é simplesmente a aplicação quociente, segue que a multiplicação por Xn é injetiva sobre
S-módulo graduado H 1 (X, F ). Como todo elemento deste módulo é anulado por uma potêncnia de
Xn , segue que H 1 (X, F ) = 0. Agora, se 1 < i < n − 1, a hipótese de indução nos dá uma sequência
exata
·Xn
0 = H i−1 (X, F |H )) H i (X.F )(−1) H i (X.F ) H i (X.F |H ) = 0. (14.75)
Pela mesma razão do caso anterior. temos H i (X, F ) = 0. Resta analisarmos H n−1 (X, F ).
Temos uma sequência exata de cohomologia
204
14.5 Cohomologia em Espaços Projetivos
·Xn
0 H n−1 (X, F )(−1) H n−1 (X, F ) H n−1 (X, F |H )
τ (14.76)
f
0 C n−1 (U, F (−1)) C n−1 (U, F ) C n−1 (U, F /Xn · F )) 0
g (14.77)
h
0 C n (U, F (−1)) C n (U, F ) C n (U, F /Xn · F ) 0
−α
Um gerador de H n−1 (X, F ) é representado por um monômio da forma X0−α0 · · · Xn−1n−1 , que é
imagem do elemento α ∈ C n−1 (U, F ) onde
n
−αn−1
(α)i0 ...in−1 = X0−α0 · · · Xn−1 , se ij = j; 0, caso contrário. (14.78)
Assim temos, a menos de sinal.
−α −α
g(α) = X0−α0 · · · Xn−1n−1 = h(X0−α0 · · · Xn−1n−1 Xn−1 ) (14.79)
daí τ é dada pela multiplicação por Xn−1 e, portanto, injetiva. Assim, a multiplicação por Xn em
H n−1 (X, F ) também é um isomorfismo e portanto H n−1 (X, F ) = 0. Vamos resumir esta discussão
no seguinte Teorema.
Teorema 14.5.1 (Cohomologia dos Feixes Invertíveis de PnR )
Sejam R um anel noetheriano, S = R[X0 , . . . , Xn ] e X = Proj S. Então para todo d ∈ Z,
temos
(a)
0, se d < 0;
H 0 (X, OPnR (d)) = Sd ≃ .
R(d+n n ) , se d ≥ 0.
(b)
0, se d > −n − 1;
H (X, OPR (d)) ≃
n n
R(1−d
n ) , se d < −n − 1.
(c)
H i (X, OPnR (d)) = 0, se 0 < i < n.
(d)
H n (X, OPnR (−d − n − 1)) ≃ HomR (H 0 (X, OPnR (d)), R).
♡
É uma consequência imediata do Teorema acima que o feixe OPnR (d) é acíclico para n suficien-
temente grande. É uma consequência imediata deste fato que se F uma soma direta finita de feixes
invertíveis sobre PnR , então F (n) é acíclico para n suficientemente grande. Vamos demonstrar que
205
14.5 Cohomologia em Espaços Projetivos
Demonstração Seja i : X → PnR um mergulho fechado tal que L = i∗ OPnR (1). Pelo Lema 14.2.2,
temos
H i (X, F ) = H ( Pn , i∗ F )
(14.80)
H i (X, F ⊗ L ⊗n ) = H i (PnR , i∗ F (n))
e portanto podemos supor que X = Pn e L = OPnR .
Pelo Teorema de Serre (Teorema 10.5.19), temos que existem n0 ∈ Z, r > 0 e uma sequência
exata de feixes
0 G E = OPnR (−n0 )d F 0 (14.81)
A sequência exata longa de cohomologia associada ao Teorema acima, juntamente com o Teorema
do Anulamento de Grothendieck (Teorema 14.2.1) nos dá uma sequência exata
H n−1 (X, E (d)) −→ H n−1 (X, F (d)) −→ H n (X, G (d)) −→ H n (X, E (d)) −→ H n (X, F (d)) → 0.
(14.82)
Como H (X, E (d)) é finitamente gerado para todo i, d (Teorema 14.5.1), segue que H (X, F (d))
i n
é finitamente grado para todo d e se anula para d suficientemente grande para todo feixe quasicoerente
F . Em particular, o mesmo vale para o feixe (coerente) G e, portanto, H n−1 (X, F (d)) é finitamente
gerado para todo feixe coerente F e d ∈ Z. Mais ainda, se n > 1, H n−1 (X, F (d)) = 0 para d
suficientemente grande. Observe que o Teorema está demonstrado para n = 1 e, portanto podemos
supor n > 1.
Agora, se 1 ≤ i ≤ n − 2, temos isomorfismos
H i (X, F (d)) ≃ H i+1 (X, G (d)) (14.83)
e o resultado segue por indução.
Comentário Podemos dar uma segunda demonstração para o Teorema acima utilizando técnicas de
sequências espectrais. De fato, pelo Teorema 10.5.20, existe um complexo de feixes
E• : ··· E2 E1 E0 0 (14.84)
com Ei = j=0 OPnR (−dij ), H0 (E• ) = F e Hi (E• ) = 0 para i > 0. Tomando os complexos de
Ln
206
14.5 Cohomologia em Espaços Projetivos
0 0 0 0
0 0 0 0
1 p,q
A primeira iteração Ever é concentrado na linha −n. isto é
0 0 0 0
1 p,q
Ever : ··· 0 0 0 0 0
··· 0 0 0 0 0
.. .. .. ..
. . . .
0 0 0 0
(14.86)
Agora, na nossa situação, o funtor C • (U, □) é um funtor exato. Desta forma, a primeira iteração
207
14.5 Cohomologia em Espaços Projetivos
1 p,q
Ehor é concentrada na coluna 0, isto é
0 0 0 0
··· 0 0 0 C 0 (U, F ) 0
··· 0 0 0 C 1 (U, F ) 0
(14.87)
.. .. .. ..
. . . .
··· 0 0 0 C n (U, F ) 0
0 0 0 0
Desta forma, tomando a segunda iteração em cada uma das sequências espectrais e analisando a
convergência, temos
Estes últimos R-módulos, sendo subquocientes de H n (X, Ei (d)) são finitamente gerados e se
anulam se d é suficientemente grande.
Corolário 14.5.3
Sejam X um esquema projetivo sobre Spec R para um anel noetheriano R, L um feixe muito
amplo com respeito a L e
F1 −→ F2 −→ · · · −→ Fn
Demonstração Sem perda de generalidade podemos supor que temos uma sequência exata da forma
d d dn−1
0 → F1 −
→1
F2 −
→2
· · · −−−→ Fn → 0. (14.89)
Como o funtor □L ⊗n é exato, temos sequências exatas
0 → im di−1 ⊗ L ⊗n → Fi ⊗ L ⊗n → im di ⊗ L ⊗n → 0, (14.90)
e portanto sequências exatas em cohomologia
0 → Γ(X, im di−1 ⊗ L ⊗n ) → Γ(X, Fi ⊗ L ⊗n) → Γ(X, im di ⊗ L ⊗n ) → H 1 (X, im di−1 ⊗ L ⊗n ).
(14.91)
Pelo Teorema ?? segue que H (X, im di−1 ⊗ L ) = 0 para todo i, desde que tomemos d
1 ⊗n
208
14.5 Cohomologia em Espaços Projetivos
0 → Fn −→ Fn−1 −→ · · · −→ F1 −→ F0 → 0 (14.96)
temos n
X
(−1)i χ(Fi ) = 0. (14.97)
i=0
Comecemos o nosso estudo com o caso em que dim Supp F = −1. Neste caso, H i (X, F ) = 0
para i ≥ 0 e portanto H(n) = 0 para todo n ∈ Z.
Suponha, por indução, que se dim Supp F = i, então HF é um polinômio de grau i − 1.
Sem perda de generalidade, podemos supor que Supp F ̸⊂ V (X0 ). A multiplicação pela seção
X0 ∈ OPnR (1) nos dá uma sequência exata
0 → K ←− F (−1) −→ F −→ Q → 0 (14.98)
209
14.5 Cohomologia em Espaços Projetivos
é polinomial. ♡
É possível mostrar que, como HF é um polinômio que leva números inteiros em números inteiros,
então temos que
ad ad−1 d−1
HF (n) = nd + n + . . . a1 n + a0 (14.100)
d! (d − 1)!
e d = dim Supp F − 1.
Definição 14.5.5
Sejam R um anel artiniano, X um esquema projetivo sobre Spec R, L um feixe invertível muito
amplo com respeito a Spec R, e F um feixe coerente sobre X. O polinômio HF é chamado de
polinômio de Hilbert de F . ♣
210
14.5 Cohomologia em Espaços Projetivos
para i > 0 e n ≥ n0 . ♡
Demonstração Suponha que L é amplo. Então existe m > 0 tal que L ⊗m é muito amplo. Assim,
aplicando o Teorema 14.5.2 aos feixes coerentes F ⊗ L ⊗i e ao feixe invertível muito amplo L ⊗m ,
para 0 ≤ i ≤ m − 1.
Vamos agora demonstrar a recíproca. Como X é um esquema noetheriano, basta mostrar que para
todo x ∈ X ponto fechado existe uma vizinhança aberta Ux de x e nx inteiro tal que (F ⊗ L ⊗n )|Ux
é gerado por restrições de seções globais de F ⊗ L ⊗n para n > nx .
Sejam x ∈ X um ponto fechado e Jx o feixe de ideais do esquema x com a sua estrutura
reduzida. Temos uma sequência exata
0 → Jx F −→ F → F ⊗ k(x) → 0 (14.108)
que nos dá a sequência exata de cohomologia
H 0 (X, F ⊗ L ⊗n ) −→ H 0 (X, F ⊗ k(x) ⊗ L ⊗n ) −→ H 1 (X, Jx F ⊗ L⊗n ). (14.109)
Por hipótese, existe n0 tal que H 1 (X, Jx F ⊗ L⊗n ) = 0 para n ≥ n0 .
Assim, tomando F = OX , podemos repetir o argumento acima e concluir que existe n1 tal que
L |Ux é gerado por seções globais de L ⊗n1
⊗n1
Agora, para cada 0 ≤ i < n0 , existem vizinhanças abertas Ui de x tais que F ⊗ L ⊗n0 +i |Ui é
gerado por seçõs globais de F ⊗ L ⊗n0 +i . Se definimos
U = Ux ∩ U0 ∩ Un−1 , (14.110)
Temos que as restrições a U dos feixes L n1 e F ⊗ L ⊗n0 +i , 0 ≤ i < n1 , são gerados por seções
globais destes feixes. Assim, se n ≥ n0 , temos n − n0 = n1 q + r, 0 ≤ r < n1 e portanto
211
14.6 Dualidade de Serre
completa a demonstração.
Proposição 14.6.2
Sejam (X, OX ) espaço anelado e I um OX -módulo injetivo. Então J |U é um OU -módulo
injetivo para todo U ⊂ X aberto. ♠
f
0 F G
g (14.112)
I |U
Restingindo a U , temos um diagrama similar. Tomando extensão por zero, temos o diagrama de
linhas exatas
f
0 j! (F |U ) j! (G |U )
g (14.113)
0 j! (I |U ) I
0 j! (I |U ) I
Tomando a restrição i∗ completamos o diagrama inicial. e portanto IU é um OU -módulo injetivo.
Observe que, pela definição do feixe H omOX (F , G ), temos um isomorfismo funtorial H omOX (F , G )|U ≃
H omOU (F |U , G |U ).
Agora, se I é uma resolução injetiva de G , temos que I |U é uma resolução injetiva de G |U , e
212
14.6 Dualidade de Serre
portanto
E xtiOU (F |U , G |U ) = H i (H omOU ((F |U , G |U )) = H i (H omOX (F , G )|U ) = E xtiOX (F , G )|U ,
(14.115)
onde o último isomorfismo decorre da exatidão do funtor F → F |U .
Em resumo, temos:
Proposição 14.6.3
Se (X, OX ) é um espalo anelado e U ⊂ X é um aberto, então
E xtiOX (F , G )|U ≃ E xtiOU (F |U , G |U ).
♠
Teorema 14.6.5
Sejam (X, OX ) ume spaço anelado, F um OX -módulo e
· · · −→ E2 −→ E1 −→ E0 → 0
uma resolução de F por OX -módulos localmente livres de posto finito. Então, para todo
OX -módulo G , existe um isomorfismo
φi : E xtiOX (F , G ) → H i (H om(E• , G )),
funtorial em G . ♡
Demonstração
Primeiramente a Proposição 14.6.4 nos diz que se E é um feixe localmente livre de posto finito,
então H omOX (E , □) é um funto exato. Portanto, uma sequência exata curta de feixes
0 −→ F −→ G ′ −→ G ′′ −→ 0 (14.117)
nos dá uma sequência exata curta de complexos
213
14.6 Dualidade de Serre
Agora, podemos supor que o OX -módulo G ′ da sequência exata (14.119) é injetivo. Assim,
H om(□, G ′ ) é exato e a sequência exata de cohomologia aplicada a (14.119) nos dá o diagrama
comutativo de linhas exatas
Relembre do Exercício 10.4 que se L é um OX -módulo localmente livre de posto finito, então
temos uma equivalência de funtores
HomOX (□ ⊗ L , F ) ≃ HomOX (□, H omOX (L , F )). (14.120)
Agora, pelo Exercício 10.2, este último funtor é equivalente a
HomOX (□, F ⊗ L ∗ ). (14.121)
Observe que se F é injetivo, o funtor HomOX (□ ⊗ L , F ) é exato por ser a composição de dois
funtores exatos. Portanto, temos:
Proposição 14.6.6
Seja (X, OX ) um espaço localmente anelado, L , I dois OX -módulos com L localmente livre
de posto finito e I injetivo. Então L ⊗ I é um OX -módulo injetivo. ♠
Vamos nos aprofundar na discussão acima. Seja L um OX -módulo localmente livre de posto
finito. Considere, para cada F , os funtores isomorfos HomOX (F ⊗ L , □) e HomOX (F , L ∗ ⊗ □).
Ambos os funtores são covariantes e exatos à esquerda. Se I • é uma resolução injetiva de G , temos
H i (HomOX (F ⊗ L , I • )) = ExtiOX (F ⊗ L , G ) (14.122)
H i (HomOX (F , L ∗ ⊗ I • )) = ExtiOX (F , L ∗ ⊗ G ). (14.123)
Teorema 14.6.7
Sejam (X, OX ) um espaço anelado, L um OX módulo localmente livre. Então existe um
isomorfismo
ExtiOX (F ⊗ L , G ) ≃ ExtiOX (F , L ∗ ⊗ G )
funtorial em F , G . ♡
Na mesma situação que acima, temos isomorfismos de funtores (ver Exercícios 10.2 e 10.4))
H omOX (F ⊗ L , □) ≃ H omOX (F , L ∗ ⊗ □) ≃ H omOX (F , □) ⊗ L ∗ (14.124)
Um argumento similar ao anterior nos dá
Teorema 14.6.8
Sejam (X, OX ) um espaço anelado, L um OX módulo localmente livre. Então existe um
isomorfismo
E xtiOX (F ⊗ L , G ) ≃ E xtiOX (F , L ∗ ⊗ G ) ≃ E xtiOX (G , G ) ≃ E xtiOX (F , G ) ⊗ L ∗ ,
funtoriais em F , G . ♡
Por fim, provaremos dois resultados relacionando os funtores Exti e E xti no caso especial em
que X é um esquema noetheriano.
Sejam F , G dois OX -módulos com F coerente. O que podemos dizer sobre os talos E xtiOX (F , G )x ?.
214
14.6 Dualidade de Serre
Por outro lado, temos que (F• )x é uma resolução livre do OX,x -módulo F e portanto
H i (HomOX,x ((F• )x , Gx )) = ExtiOX,x (Fx , Gx ). (14.131)
Assim, provamos o seguinte Teorema:
Teorema 14.6.9
Sejam X um esquema noetheriano e F um feixe coerente sobre X. Então, para todo x ∈ X
existe um isomorfismo
E xtiOX (F , G )x . ≃ ExtiOX,x (Fx , Gx )
funtorial em G . ♡
215
14.6 Dualidade de Serre
Teorema 14.6.10
Sejam X um esquema projetivo sobre Spec R para R anel noetheriano, L um feixe invertível
muito amplo sobre X e F , G OX -módulos coerentes. Então existe n0 tal que
Γ(X, E xtiOX (F , G ⊗ L ⊗n )) ≃ Exti (F , G ⊗ L ⊗n )
para todo n > n0 . ♡
Demonstração Considere os funtores Γ(X, E xtiOX (□, G ⊗ L ⊗n )), Exti (□, G ⊗ L ⊗n ). É imediato
verificar que estes funtores são isomorfos quando i = 0.
Agora, o primeiro funtor aplicado a F = OX , nos dá o módulo nulo pela Proposição 14.6.4. Já
o funtor da direita é equivalente ao funtor H i (X, G (n)), pelo Exercício 14.1. Pelo Teorema 10.5.19,
temos que este último se anula para n suficientemente grande.
Apliquemos agora o primeiro funtor a um OX -módulo localmente livre F . Novamente, pela
Proposição 14.6.4 obtemos o módulo nulo. Já para o segundo funtor, aplicamos o Teorema 14.6.7:
prtanto
H n (X, ωX ) ≃ k, (14.133)
e este isomorfismo pode ser tomado de forma independente da escolha de coordenadas homogê-
neas em X
Agora, se F é um feixe coerente sobre X, um homomorfismo φ ∈ HomOX ()K , ωX ) nos dá um
homomorfismo H n (φ) : H ( X, F ) → H n (X, ωX ) e portanto um pareamento
HomOX (F , ωX ) × H n (X, F ) −→ H n (X, ωX ) ≃ k
(14.134)
(φ, x) −→ H n (φ)(x).
Afirmamos que este pareamento é perfeito. Como em outros resultados sobre feixes coerentes,
começamos supondo que F ≃ OPnk (d). Neste caso, temos o pareamento
HomOX (OPnk (d) , ωX ) × H n (X, OPnk (d) ) ≃ HomOX (OPnk (d), ωX ) × H n ([Link] (d)) ≃
HomOX (OPnk , ωX (−d)) × H n (X, OPnk (d) ) ≃ Γ(X, ωX (−d)) × H n (X, OPnk (d)) −→ k,
(14.135)
onde este último pareamento é o perfeito, construído no Teorema 14.5.1. Desta forma, se
F ≃ OPnk (d), temos um isomorfismo
H n (X, F )∗ ≃ HomOX (F , ωX ), (14.136)
216
14.6 Dualidade de Serre
onde □∗ é o funtor Homk (□, k). Como os funtores H n (X, □)∗ , HomOX (□, ωX ) comutam com somas
diretas finitas, segue que o isomorfismo acima também vale para feixes que são somas diretas finitas
de feixes do tipo OPnk (d). Agora, se F é um feixe coerente, temos uma sequência exata
Mm n
M
E1 = OPnk (ej ) −→ E0 = OPnk (di ) −→ F −→ 0 (14.137)
j=1 i=1
e portanto um diagrama de linhas exatas
≃ ≃ ≃
rema 14.5.1, e Ext1OX (OPnk (OPnk (−d), ωX )) ≃ Ext1OX (OPnk , ωX (d))nd = H 1 (X, ωX (d))nd = 0, pelo
Exercício 14.1 e pelo Teorema 14.5.1. Assim, existe um isomorfismo funtorial em F
217
14.6 Dualidade de Serre
1. O pareamento
HomOX (F , ωX ) × H n (X, F ) −→ H n (X, ωX ) ≃ k
(φ, x) −→ H n (φ)(x).
é um pareamento perfeito.
2. Para todo i ≥ 0, existe um isomorfismo, funtorial em F ,
H n−i (X, F )∗ ≃ ExtiOX (F , ωX )
♡
Queremos entender quais são os esquemas que admitem uma dualidade como a dualidade descrita
acima. Para isto, preparamos uma definição.
Definição 14.6.12
Seja X um esquema próprio e de dimensão n sobre um corpo k. Um feixe dualizante para X é
um par (ω, ι), onde ω é um feixe coerente sobre X e ι : H n (X, ω) −→ k é um homomorfismo,
chamado de homomorfismo de traço, de forma que se F é um feixe coerente sobre X, então o
pareamento
HomOX (F , ω) × H n (X, F ) −→ H n (X, ω) ≃ k
(φ, x) −→ ι(H n (φ)(x)).
é um pareamento perfeito. ♣
Proposição 14.6.13
Seja X um esquema próprio de dimensão n sobre um corpo k. Se (ω, ι), (ω ′ , ι′ ) são dois feixes
dualizantes para X, então existe um único isomorfismo φ : ω → ω ′ tal que ι = ι′ ◦ H n (φ).
♠
Demonstração Por definição, temos que Hom(ω, ω ′ ) ≃ H n (X, ω)∗ ≃ k. Como ι ∈ H n (X, ω)∗ ,
existe um único homomorfismo φ : ω → ω ′ . correspondente a ι. Pela definição do pareamento, isto
implica que ι′ ◦ H n (φ) = ι.
Similarmente, existe ψ : ω ′ → ω tal que ι ◦ H n (ψ) = ι′ . Assim,
ι ◦ H n (ψ ◦ φ) = ι ◦ H n (ψ) ◦ H n (φ) = ι′ ◦ H n (φ) = ι. (14.144)
Logo H n (ψ ◦ φ) = idH n (X,ω) . Dualizando, temos que ψ ◦ φ = idω . Similarmente, temos
φ ◦ ψ = idω′ . A proposição está provada.
Vamos demonstrar a existência de feixes dualizantes para esquemas projetivos. Começcamos
agora a nossa jornada.
Proposição 14.6.14
Vn
Sejam k um corpo e Y um subesquema fechado de X = Pnk de codimensão r e ωX = ΩX|k .
Então
E xtOX (OY , ω) = 0
para i < r. ♠
218
14.6 Dualidade de Serre
Demonstração Oberse que, como OY é coerente, E xtiOX (OY , ωX ) = H i (H omOX (E• , ωX )) para
uma resolução localmente livre E• de OY . Assim, E xtiOX (OY , ωX ) é um feixe coerente sobre X.
Agora, pelo Teorema 14.6.10, temos que
Γ(E xtiOX (OY , ωX ))(n) = ExtiOX (OY , ωX (n)) (14.145)
para n suficientemente grande. Pela Dualidade de Serre em espaços projetivos, temos
Assim, pelo Teorema do Anulamento de Grothendieck (Teorema 14.2.1), temos que Γ(E xtiOX (OY , ωX ))(n) =
0 para n suficientemente grande. Agora, se n é suficientemente grande, o feixe E xtiOX (OY , ωX )(n) é
gerado por seções globais. O Teorema está demonstrado.
Proposição 14.6.15
Vn
Sejam k um corpo e Y um subesquema fechado de X = Pnk de codimensão r e ωX = ΩX|k .
Se ωY = E xtrOX (OY , ωX ) e F um OY -módulo, então existe um isomorfismo
HomOY (F , ωY ) ≃ ExtrOX (F , ωX ).
♠
219
14.6 Dualidade de Serre
OX (F , ωX ) ≃ H (X, F ) ,
−n ∗
HomOY (F , ωY ) ≃ ExtN n
(14.152)
e portanto
HomOY (ωY , ωY ) ≃ H n (X, ωY )∗ (14.153)
Se t é a imagem de idωY em H n (X, ωY )∗ , o isomorfismo 14.152 nos diz que (ωY , t) é um feixe
dualizante para Y .
Recorde que um anel local (R, m) é um anel Cohen-Macaulay se m admite uma sequência
regular {x1 , . . . , xn } ⊂ m tal que n = dim R, isto é, depth R = dim R. Tais anéis são sempre
equidimensionais. Os próximos Teoremas são a versão geométrica do Teorema da Dualidade Local
para anéis Cohen-Macaulay que admitam um módulo canônico.
Teorema 14.6.17 (Dualidade de Serre para Esquemas Projetivos, Parte I)
Sejam k um corpo e X um esquema de dimensão ne projetivo sobreSpec k, admitindo um feixe
dualizante ωX .,Se F é um feixe coerente sobre X e L é um feixe muito amplo com respeito a
Spec k, então existe um homomorfismo
θi : ExtiOX (F , ωX ) → H n−i (X, F )∗
tal que θ0 é o homomorfismo induzido pela Definição 14.6.12.
♡
0 = Exti−1
OX (E , ωX ) Exti−1
OX (G , ωX ) ExtiOX (F , ωX ) ExtiOX (E , ωX ) = 0
θi−1 θi−1 θi
220
14.6 Dualidade de Serre
Teorema 14.6.18
Sejam k um corpo algebricamente fechado, X um esquema de dimensão n, projetivo sobre
Spec k, admitindo um feixe dualizante ωX . Se F é um feixe coerente sobre X e L é um feixe
muito amplo com respeito a Spec k. São equivalentes:
(a) X é um esquema equidimensional e OX,x é Cohen-Macaulay para todo x ∈ X.
(b) Para todo feixe localmente livre F temos H i (X, F ⊗ L ⊗(−q) ) = 0 para i < r e q
suficientemente grande.
(c) Para todo feixe coerente F , os homomorfismos θi definidos no Teorema 14.6.17. ♡
Demonstração Tome uma imersão fechada i : X ,→ PN k = Proj S. Observe que, para todo x ∈ X,
depth Fx = depth OX,x = n.
Agora, F é um feixe coerente sobre PN
k e depth Fx pode ser calculado sobre OPN
k ,x
, que é um
anel local regular. Assim, projdimO N Fx < ∞. Mais precisamente, pela fórmula de Auslander-
P ,x
k
Buchsbaum, temos
projdimO Fx = N − depth Fx = N − n. (14.157)
PN ,x
k
Desta forma, para todo x ∈ X, temos E xtiOX (F , □)x = ExtiO (Fx , □x ), pelo Teorema 14.6.9,
PN ,x
k
e este último se anula para i > N − n pela equação acima. Assim, para q suficientemente grande
temos, pelo Teorema 14.6.10,
ExtiO (F , ωX (q)) = Γ(Pnk , E xtiOX (F , ωX (q))) = 0 (14.158)
PN ,x
k
para i > N − n e q suficientemente grande. Pela dualidade de Serre no espaço projetivo, temos que
H N −i (X, F (−q))∗ = ExtiO (F , ωX (q)) = 0 (14.159)
PN ,x
k
para 0 ≤ i < n e d suficientemente grande. Segue então do Teorema 14.6.10 que E xtiO N (OX , OPNk ) =
P
k
0 e portanto
221
14.6 Dualidade de Serre
para i > N − n e x ∈ X ponto fechado. Assim, projdimO OX,x ≤ N − n e portanto depth OX,x ≥
PN ,x
k
n. Como dim OX,x = n, temos que OX,x é Cohen-Macaulay de dimensão n.
Sem maiores informações sobre o esquema projetivo X ⊂ PN k , não é possível obter a estrutura do
feixe dualizante ωX . Vamos mostrar adiante que se o feixe de ideais IX é localmente uma interseção
completa (isto é, localmente gerado por uma sequência regular), então ωX é um feixe invertível.
Teorema 14.6.19
Sejam k um corpo algebricamente fechado e X ⊂ Pnk um subesquema fechado de codimensão
r tal que o feixe de ideais associado I é localmente uma interseção completa. Então
ωX ≃ ωPnk ⊗ (I /I 2 )∗ .
♡
Demonstração
Tome (Uj = Spec Ri ) uma cobertura aberta e afim de P n tal que Xj = Uj ∩ X é um abertoa
S
este feixe.
Agora, fixemos um aberto U = Spec R aberto afim de Pnk tal que I = I |U = (f1 , . . . , fr ). e
escreva V = U ∩ X. Assim, temos que o complexo de Koszul K• (f1 , . . . , fr ; R) é uma resolução de
R/(f1 , . . . fr ). Feixificando esta resolução, obtemos uma resolução OX -livre de OV , que escrevemos
K• (f1 , . . . , fr ). Assim, pelo Teorema 14.6.5, temos que
E xtrOPn (OPnk )(OX , ωPnk )|U = H r (H omOX (K• (f1 , . . . , fr ), ωPnk |U )) ≃ ωPnk |U ⊗ OY . (14.166)
k
Observe que o isomorfismo acima depende da escolha de uma sequência regular geradora de I.
De fato, se (g1 , . . . gr ) = Φ(f1 , . . . , fr )T , temos um diagrama comutativo
∼
E xtrOPn (OPnk )(OX , ωPnk )|U H r (H omOX (K• (f1 , . . . , fr ), ωPnk |U )) ωPnk |U ⊗ OY
k
∼ · det Φ · det Φ
222
14.7 Imagens Diretas de Ordem Superior
≃
( r I /I 2 )|U ⊗ E xtrOPn (OPnk )(OX , ωPnk )|U H r (H omOX (K• (f1 , . . . , fr ), ωPnk |U )) ωPnk |U ⊗ OY
V
k
≃
( r I /I 2 )|U ⊗ E xtrOPn (OPnk )(OX , ωPnk )|U H r (H omOX (K• (g1 , . . . , gr ), ωPnk |U )) ωPnk |U ⊗ OY
V
k
(14.168)
Realizando este procedimento para os conjuntos geradores (14.163), o diagrama acima nos mostra
que os isomorfismos descritos em (14.166) colam em um isomorfismo
^r
I /I 2 ⊗ sExtrOPn (OPnk )(OX , ωPnk ) ≃ OX ⊗ ωPnk . (14.169)
k
Vejamos f∗ (□) com maior cuidado. Temos que f∗ (□)(U ) = Γ(f −1 (U ), □) = Γ(f −1 (U ), □|U ).
Desta forma, faz sentido compararmos os funtores Ri f∗ (□) com o funtor
onde □∼ corresponde a feixificação. Observe que {Ri f∗ (□)}i≤0 e F i i≤0 são ambas sequências
fortemente conectadas de funtores e que R0 f∗ ≃ F 0 .
Seja I um OX -módulo injetivo, e portanto, flasque. A restrição F |f −1 (U ) é um feixe flasque
sobre f −1 (U ) para todo aberto U ⊂ Y aberto, e portanto H i (f −1 (U ), U |f −1 (U ))) = 0. Logo
223
14.7 Imagens Diretas de Ordem Superior
Corolário 14.7.3
Sejam f : X → Y um morfismo de espaços anelados e F um feixe flasque sobre X. Então
Ri f∗ (F ) = 0 para i > 0.
♡
Corolário 14.7.4
Se f : X → Y é um morfismo de espaços anelados e F é um feixe de OX −módulos, então
Ri f∗ pode ser calculado em ModOX .
♡
Demonstração Todo OX -módulo injetivo é flasque e, pelo corolário anterior, Ri f∗ pode ser calculado
via resoluções flasque.
Vejamos o que diz o Teorema 14.7.2 no caso em que Y é um esquema afim.
Corolário 14.7.5
Seja f : X → Y = Spec R um morfismo de esquemas, com X noetheriano. Então
Ri f∗ (□) = H i (X, □)∼
na categoria dos feixes quasicoerentes sobre X.
Em particular, se f : X → Y é um morfismo de esquemas com X, noetheriano, então para
todo feixe quasicoerente F sobre X, temos que Ri f∗ F é um feixe quasicoerente sobre Y . ♡
Demonstração Os funtores definidos formam uma sequência conectada de funtores. Vejamos o que
acontece quando i = 0. Como f∗ F é um OY -módulo quasicoerente, temos
É claro que ambos os funtores se anulam quando i > 0 e F é flasque. Portanto eles são
isomorfos.
Por último, analisamos os funtores magem direta sob o contexto do teoremad e anulamento de
Serre.
Teorema 14.7.6
Sejam f : X → Y um morfismo projetivo de esquemas noetherianos, L um feixe invertível
sobre X muito amplo com respeito a Y e F um feixe coerente sobre X.
(a) Para todo n suficientemente grande, temos que f ∗ f∗ F (n) → F (n) é sobrejetivo.
(b) Para todo i ≥ 0, temos que Ri f∗ F é um feixe coerente sobre Y .
(c) Ri f∗ (F ⊗ L⊗n ) = 0 para todo n suficientemente grande e i > 0.
♡
224
14.8 Morfismos Planos e Mudança de Base
Demonstração O item (a) é uma questão local em Y . Mais ainda, como Y é noetheriano, ele é
quasicompacto e portanto o mesmo vale para (b) e (c). Logo podemos supor Y = Spec R.
Desta forma, temos que f∗ F = Γ(X, F )∼ e portanto o morfismo desejado é o morfismo natural
Γ(X, F ⊗ L⊗n ))∼ → F (n). A sobrejetividade deste homomorfismo de feixes para n suficientemente
grande equivale então ao fato de F ⊗ L ⊗n ser gerado por seções globais para n suficientemente
grande. Isto é exatamente o que diz o Teorema de Serre (Teorema 10.5.19).
Agora, temos que Ri f∗ F = H i (X, F )∼ . Pelo Teorema 14.5.2, item (a), H i (X, F ) é um
R-módulo finitamente gerado, e portanto vale (b).
O item (c) decorre do Teorema 14.5.2, item (b).
Demonstração Imediato.
Proposição 14.8.3
Sejam f : X → Y um morfismo, F um OX -módulo plano sobre Y e g : Z → Y um morfismo
qualquer. Se XZ = X ×Y Z e π1 : XZ → X, π2 : XZ → Z são as projeções, então π1∗ (F ) é
plano sobre Z. ♠
Demonstração Como a propriedade é local, podemos supor que todos os esquemas envolvidos são
afins. Passando aos talos, a demonstração seque do seguinte fato para anéis:
Se φ : R → S, ψR → T são homomorfismos de anéis e M é um S-módulo que um R-módulo
plano, então M ⊗R T é um T -módulo plano.
Proposição 14.8.4
Sejam f : X → Y, g : Y → Z dois morfismos de esuqmas e F um OX -módulo plano sobre Y .
Se g é um morfismo plano, então F é plano sobre Z. ♠
225
14.8 Morfismos Planos e Mudança de Base
Proposição 14.8.5
Se X é um esquema noetheriano e F é um feixe coerente, então F é plano sobre X e, e só se,
é localmente livre. ♠
Demonstração Passando aos talos, o resutado segue do fato que se R é um anel local e M é um
R-módulo plano e finitamente gerado, então M é livre.
226
14.9 Exercícios
14.9 Exercícios
Exercício 14.1 Seja (X, OX ) um espaço anelado. Prove que
ExtiOX (OX , F ) ≃ H i (X, F )
para todo OX -módulo F .
Exercício 14.2 Sejam k um corpo algebricamente fechado, X um esquema projetivo de dimensão n
sobre Spec k tal que OX,x é Cohen-Macaulay paras todo ponto x ∈ X. Se ωX é um feixe dualizante
para X, então
H i (X, F ) ≃ H n−i (X, F ∗ ⊗ ωX )∗
227
Apêndice A Linguagem Básica de Categorias
f ◦ idA = f
idA ◦ g = g (A.2)
para todo B objeto de C e f ∈ MorC (A, B), g ∈ MorC (B, A). É imediato verificar que idA
é único com esta propriedade. Uma categoria D é dita uma subcategoria de uma categoria D se
Obj(D) é uma subclasse de C e, para todo par de objetos A, B em Obj(D), temos que MorD (A, B)
é um subconjunto de MorC (A, B). Dizemos que D é uma subcategoria cheia se
MorD (A, B) = MorC (A, B). (A.3)
Exemplo A.1 O exemplo mais simples de categorias é a categoria Set, a categoria dos conjuntos. A
classe Obj(Set) é a classe de todos os conjtuntos. Dados X, Y dois conjuntos, definimos MorSet (A, B)
como o conjunto de todas as funções de A em B. Se A = ∅, convencionamos a existência de uma
única função f : A → B chamada de função vazia.
Podemos também definir a subcategoria FSet, cuja classe de objetos consiste de todos os conjuntos
finitos. Se definimos, dados dois objetos A, B, MorFSet (A, B) como o conjunto de todas as funções
de A em B, vemos que FSet é uma subcategoria cheia de Set .
Exemplo A.2 Outro exemplo de cagetorias é a a categoria Grp, a categoria dos grupos. A classe
Obj(Grp) é a classe de todos os grupos. Dados dois objetos G, H desta categoria, definimos
MorGrp (G, H) = Hom(G, H), o conjunto de todos os homomorfismos de grupos de G em H.
A.1 Categorias e Funtores
A categoria Grp admite uma importante subcategoria cheia Ab, cuja classe de objetos corres-
ponde a classe de todos os grupos abelianos.
Exemplo A.3 Seja k um corpo. A categoria Veck é a categoria cuja classe Obj(Veck ) é a classe
dos espaços vetoriais sobre k. Dados V, W k- espações vetoriais, definimos MorVeck (V, W ) =
Homk (V, W ) como o conjunto de todas as transformações lineares de V em W . A categoria Veck
também admite uma importante subcategoria cheia, a categoria dos espaços vetorias de dimensão
finita.
Exemplo A.4 A categoria Ring é definida como a categoriacuja classe Obj(Ring) é a classe dos anéis
com unidade. Dados R, S anéis, definimos MorRing (R, S) = Hom(R, S), o conjunto de todos os
homomorfismos de anéis de R em S. Aqui, assumimos que tais morfismos levam 1R em 1S
Esta categoria admite uma subcategoria cheia, denominada CRing, cujos objetos são os anéis
comutativos com unidade.
Exemplo A.5 Seja R um anel. A categoria ModR é a categoria cuja classe Obj(ModR ) corresponde
aos R-módulos a esquerda. Dados dois R-módulos a esquerda M, N, define-se MorModR (M, N ) =
HomR (M, N ) como o conjunto dos homomorfismos de R-módulos à esquerda de M em N . De
maneira análoga, define-se R Mod tomando como objetos a classe dos R-módulos à direita. Definimos
MorR Mod de maneira análoga.
Dados dois anéis R, S, denotamos por S ModR a subcategoria de ModR (e de S Mod) cujos
objetos são os gupos abelianos M que são R-módulos à esquerda e S-módulos á direita.
Exemplo A.6 A categoria Top é a categoria cuja classe Obj(Top) é a classe dos espaços topológicos.
Dados dois espaços topológicos X, Y , definimos MorTop (X, Y ) = C(X, Y ), o conjunto das funções
contínuas de X em Y .
Uma importante categoria aseada em Top é a categoria pTop dos espaços topológicos pontuados.
Os objetos de pTop são pares (X, x) onde X é um espaço topológico e x ∈ X. Definimos
MorpTop ((X, x), (Y, y)) = {f ∈ C(X, Y ); f (x) = y}.
Exemplo A.7 A categoria Diffk é a categoria cuja classe Obj(Diffk ) é a classe das variedades
diferenciáveis de classe C k . Se M, N são dois objetos desta categoria, definimos MorDiffk (M, N ) =
C k (M, N ), o conjunto de todas as funções f : M → N de classe C k .
Exemplo A.8 Seja X um espaço topológico. A categoria Opn(X) é a categoria cuja classe
Obj(Opn(X)) é a classe de todos os subconjuntos abertos de X. Definimos
∅, se U ̸⊂ V ;
MorOpn(X) (U, V ) =
{iU,V : U → V }, se U ⊂ V.
onde iU,V é a inclusão de U em V .
Considere as categorias Grp e Set. Para cada objeto G ∈ Obj(Grp), considere Set(G) o conjunto
de elementos de G. Assim, podemos definir uma associação
F : Obj(Grp) → Obj(Set)
(A.4)
G → Set(G).
Agora, para cada homomorfismo de grupos f ∈ MorGrp (G, H) é uma função entre conjuntos.
229
A.1 Categorias e Funtores
Isto é, para cada homomorfismo de grupos f ∈ MorGrp (G, H), temos uma associação
F(f ) : Set(G) → Set(H)
(A.5)
x → f (x).
Observe que, para todo par de morfismos f, g para os quais f ◦ g está definido, temos que
F(f ◦ g) = F(f ) ◦ F(g).
Vejamos agora um segundo exemplo. Seja X um espaço topológico e considere R com a sua
topologia usual. O anel das R-funções contínuas em X é definido por
C(X) = {f : X → R contínua}.
com as operações de anel dadas pela soma e pelo produto de funções. Assim, temos uma
associação
G : Obj(Top) → Obj(CRing)
(A.6)
X → C(X).
Seja agora f : X → Y uma função contínua entre espaços topológicos. Então para toda
φ ∈ C(Y ) a composta f ∗ (φ) = φ◦f ∈ C(X). É imediato verificar que se f : X → Y, g : Y → Zsão
contínuas, então (g ◦ f )∗ = f ∗ ◦ g ∗ . Assim, se definimos para cada f ∈ MorTop (X, Y ) a função
Definição A.1.2
Sejam C, D duas categorias. Um funtor contravariante F : C → D é definido pelas seguintes
propriedades:
(a) A cada objeto C ∈ Obj(C), associamos um objeto F(C) ∈ Obj(D).
(b) A cada morfismo f ∈ MorC (C, D) um morfismo F(f ) ∈ MorD (F(D), F(C)) de forma
que
F(g ◦ f ) = F(f ) ◦ F(g)
230
A.1 Categorias e Funtores
De acordo com as definições acima, a associação F definida no início desta seção é o exemplo
de um funtor covariante, enquanto a associação G definida no início desta seção é o exemplo de um
funtor contravariante.
Definição A.1.3
Seja F : C → D um funtor covariante. Dizemos que F é um funtor:
(a) cheio se para todo par de objetos C, D ∈ Obj(C), a função induzida
MorC (C, D) → MorD (F(C), F(D))
é sobrejetiva.
(b) fiel se para todo par de objetos C, D ∈ Obj(C), a função induzida
MorC (C, D) → MorD (F(C), F(D))
é injejetiva.
Um funtor covariante é dito fielmente cheio se é fiel e cheio ao mesmo tempo. ♣
231
A.2 Propriedades de Morfismos
F(B) Φ(B)
G(B)
é comutativo. Dizemos que Φ é um isomorfismo de funtores se existe uma transformação natural
Ψ : G → F tal que
Ψ ◦ Φ(A) = idF (A)
Φ ◦ Ψ(A) = idG(A)
Definição A.1.6
Sejam F, G : C → D dois funtores contravariantes. Uma transformação natural Φ : F → G é
uma coleção de morfismos
Φ(A) : F(A) → G(A), A ∈ Obj(C)
tal que, para todo f ∈ HomC (A, B), o diagrama
Φ(B)
F(B) G(B)
F (f ) G(f )
F(A) Φ(A)
G(A)
é comutativo. Dizemos que Φ é um isomorfismo de funtores se existe uma transformação natural
Ψ : G → F tal que
Ψ ◦ Φ(A) = idF (A)
Φ ◦ Ψ(A) = idG(A)
232
A.2 Propriedades de Morfismos
Definição A.2.1
Sejae f ∈ MorC (A, B) um morfismo. Dizemos que
(a) f admite uma inversa à esquerda se existe g ∈ MorC (B, A) tal que g ◦ f = idA .
(b) f admite uma inversa à direita se existe g ∈ MorC (B, A) tal que f ◦ g = idB .
♣
Teorema A.2.2
Seja f ∈ MorC (A, B) um morfismo que admite uma inversa a direita g1 e uma inversa à
esquerda g2 . Então g1 = g2 . ♡
Demonstração
g2 = g2 ◦ idB = g2 ◦ (f ◦ g1 ) = (g2 ◦ f ) ◦ g1 = idA ◦g1 = g1 .
□
Definição A.2.3
Um morfismo f ∈ MorC (A, B) é dito um isomorfismo se f admite uma (necessariamente única)
inversa a esquerda e uma inversa à direita. ♣
Observe que é possível que os objetos de uma categoria não sejam conjuntos, ou que os mor-
fismos de uma categoria não sejam ,necessariamente, funções. Assim, a noção de injetividade e
sobrejetividade não necessariamente fazem sentido.
Definição A.2.4
Sejam C uma categoria e f ∈ MorC (A, B) um morfismo. dizemos que
(a) f é um monomorfismo se, para todo objeto C e para todo par de morfismos g1 , g2 ∈
MorC (C, A) tem-se
f ◦ g1 = f ◦ g2 =⇒ g1 = g2 .
(b) f é um epimorfismo se, para todo objeto C e para todo para todo par de morfismos
g1 , g2 ∈ MorC (B, C) tem-se
g1 ◦ f = g2 ◦ f =⇒ g1 = g2 .
(c) f é um bimorfismo se é um monomorfismo e um epimorfismo. ♣
Observe que todo morfismo que admite uma inversa à esquerda é um monomorfismo, e analo-
gamente, todo morfismo que admite uma inversa à direita é um epimorfismo. Em particular, se os
objetos de uma categoria C são conjuntos e os morfismos funções, então todo morfismo injetivo é um
monomorfismo, e todo morfismo sobrejetivo é um epimorfismo.
Exemplo A.1 Considere a categoria Grp e f ∈ Hom(G, H) um morfismo
Suponha que f é um monomorfismo. Vamos provar que f é injetivo. De fato, sejam a, b ∈ G
tais que f (a) = f (b). Sejam φ1 , φ2 : Z → G tais que φ1 (1) = a, φ2 (1) = b. Assim
f ◦ (φ1 (1)) = f (a) = f (b) = f (φ2 (1)) =⇒ f ◦ φ1 = f ◦ φ2 =⇒ φ1 = φ2 =⇒ a = b. (A.9)
Assim, em Grp, todo monomorfismo é injetivo. Também é possível mostrar (com muito mais trabalho,
e por isso omitimos a prova) que todo epimorfismo de grupos é de fato sobrejetivo.
233
A.3 Funtores Representáveis e Lema de Yoneda
Exemplo A.2 Considere agora a categoria CRing, dos anéis comutativos com unidade. Considere o
homomorfismo de anéis φ : Z → Q.
Como φ é uma função injetiva, segue que φ é de fato um monomorfismo. Agora, φ também é
um epimorfismo. De fato, Q é o corpode frações de Z e portanto para todo anel comutativo S temos
uma bijeção entre os conjuntos
Hom(Q, S) e {f : Z → S; f (Z \ {0}) consiste de elementos invertíveis de S}. (A.10)
Como o segundo conjunto possui no máximo um elemento, segue que φ é um epimorfismo.
Assim, na categoria CRing, epimorfismos não são necessariamente sobrejetivos.
Definição A.3.2
Sejam C uma categoria e F : C → Set um funtor contravariante. Dizemos que F é representável
se existe um objeto A ∈ Obj C e um isomorfismo de funtores Φ : F → HomC (□, A).
♣
Seja F : HomC (A, □) → F uma transformação natural de funtores de C em Set. Aplicando esta
transformação sobre o objeto A, temos uma função
F (A) : HomC (A, A) → F(A) (A.13)
e portanto podemos considerar o objeto F (A)(idA ) ∈ F(A).
234
A.3 Funtores Representáveis e Lema de Yoneda
Demonstração Vamos estudar F (X) para algum objeto X ∈ Obj(C). Dado um morfismo f ∈
HomC (A, X), temos um diagrama comutativo induzido pela transformação natural F
f∗
HomC (A, A) HomC (A, X)
F (A) F (X) (A.14)
F (f )
F(A) F(X)
F (Y )(f∗ (g)) = F (Y )(f ◦ g) = F(f ◦ g)(B) = F(f ) ◦ F(g)(B) = F(f )(F (X)(g)) (A.17)
e portanto F é uma transformação natural. O Teorema está demonstrado.
Também temos uma versão contravariante para o Lema de Yoneda.
Teorema A.3.4 (Lema de Yoneda)
Seja C uma categoria e F : C → Set um funtor contravariante. Então a aplicação
Ψ : Nat(HomC (□A, ), F) → F(A)
F → F (A)(idA )
é uma bijeção.
♡
O Lema de Yoneda nos dá a receita de como construir transformações naturais que relacionam
um funtor F com as possíveis representações deste funtor. Vejamos quando que estas transformações
são um isomorfismo de funtores.
235
A.4 Objetos Especiais, Núcleos e Conúcleos
Definição A.3.5
Seham C uma categoria e F : C → Set um funtor covariante. Um objeto universal para F é um
par (A, u), A ∈ Obj C, u ∈ F(A) tal que, para todo elemento X ∈ Obj C e v ∈ F(X), existe
um único morfismo f ∈ HomC (A, X) tal que v = F(f )u.
♣
Definição A.3.6
Seham C uma categoria e F : C → Set um funtor contravariante. Um objeto universal para F
é um par (A, u), A ∈ Obj C, u ∈ F(A) tal que, para todo elemento X ∈ Obj C e v ∈ F(X),
existe um único morfismo f ∈ HomC (X, A) tal que u = F(f )v.
♣
Proposição A.3.7
Sejam C uma categoria e F : C → Set um funtor. Se (A, u), (B, v) são dois objetos pares
universais com respeito a F, então existe uma único isomorfismo f ∈ HomC (A, B) tal que
F(f )u = v.
♠
236
A.4 Objetos Especiais, Núcleos e Conúcleos
Observe que,dados dois objetos iniciais A, B de uma mesma categoria são , existe um único
isomorfismo φ : A → B. De fato, existem únicos morfismos f : A → B, g : B → A. Como idA é
o único elemento de MorC (A, A) segue que g ◦ f = idA . Analogamente, f ◦ g = idB . e portanto
f, g são isomorfismos. Analogamente, dois objetos finais de uma catgoria são sempre (unicamente)
isomorfos.
Exemplo A.1 A categoria Set possui um único objeto inicial, a saber, o conjunto vazio ∅. Já os objetos
finais de Set são os conjuntos unitários. O mesmo vale para a categoria FSet dos conjuntos finitos.
Exemplo A.2 Na categoria Grp e também na categoria Ab, o grupo trivial < e > é tanto um objeto
inicial quanto um objeto final. Assim, estas categorias possuem um objeto zero.
O mesmo vale para as categorias ModR , R Mod, S ModR e Veck .
A existência de um elemento zero em uma categoria nos permite falar sobre morfismos nulos.
De fato, seja 0 um objeto zero de uma categoria C. Como HomC (A, 0) e HomC (0, B) são conjuntos
unitários, existe um único homomorfismo 0A,B : A → B que é a composição
A → 0 → B. (A.19)
Definição A.4.2
Sejam C uma categoria com objeto zero 0 e A, B objetos de C. O morfismo 0AB definido acima
é chamado de morfismo zero. ♣
Definição A.4.3
Sejam C uma categoria com objeto zero e f : A → B um morfismo. Um núcleo de f é um par
(K, φ), onde K é um objeto de C e φ ∈ MorC (K, A) satisfazendo a seguinte propriedade:
(a) A composição f ◦ φ = 0K,B .
(b) Se (K ′ , φ′ ) é outro par satisfazendo f ◦ φ′ = 0K ′ ,B , então existe um único morfismo
ψ : K ′ → K tal que φ′ = φ ◦ ψ. ♣
Observe que o item (b) da definição acima implica que se (K, φ) é um núcleo para um morfismo
f : A → B, então φ é um monomorfismo.
Comentário Do ponto de vista de representação de funtores, a definição acima nos diz que o núcleo
de um morfismo, quando existe, é um objeto universal. De fato, seja f : A → B um morfismo e
237
A.4 Objetos Especiais, Núcleos e Conúcleos
Demonstração Seja g : C → A tal que f ◦ g = 0C,B . Agora, 0C,B = 00,B ◦ 0C,0 = f ◦ 00,A ◦ 0C,0 .
Como f é um monomorfismo, g = 00,A ◦ 0C,0 . O Teorema está provado.
Exemplo A.3 A categoria Grp admite núcleo para qualquer morfismo f : G → H. De fato, defina
Kf = {g ∈ G; f (g) = eH } (A.21)
e seja i : Kf → G a inclusão. É claro que Kf é um subgrupo de G. Seja agora (K, φ′ ) tal que
f ◦ φ′ é um morfismo trivial. Isto significa que φ′ (K) ⊂ Kf . Assim, temos que φ′ = i ◦ ψ, onde
ψ ∈ Hom(K, Kf ) é dada por ψ(k) = φ′ (k). A injetividade de i fornece a unicidade de ψ.
O mesmo vale para as categorias Ab, ModR , R Mod, S ModR e Veck .
Definição A.4.6
Sejam C uma categoria com objeto zero e f : A → B um morfismo. Um conúcleo de f é um
par (C, φ), onde C é um objeto de C e φ ∈ MorC (B, C) satisfazendo a seguinte propriedade:
(a) A composição φ ◦ f = 0A,C .
(b) Se (C ′ , φ′ ) é outro par satisfazendo φ′ ◦ f = 0A,C ′ , então existe um único morfismo
ψ : C → C ′ tal que φ′ = ψ ◦ φ.
Observe que o item (b) da definição acima implica que se (C, φ) é um conúcleo para um
morfismo f : A → B, então φ é um epimorfismo. ♣
Comentário Do ponto de vista de representação de funtores, a definição de conúcleo nos diz que o
conúcleo e um morfismo, quando existe, é um objeto universal. De fato, seja f : A → B um morfismo
e considere o funtor covariante F : C → Set onde
F(C) = {g ∈ Hom(B, C); g ◦ f = 0A,C .}. (A.22)
A definição de núcleo corresponde a dizer que (B, φ) é um núcleo para f se, e somente se (B, φ)
é um par universal para F. Desta forma, temos que (C, φ) é um conúcleo para F se, e somente se,
HomC (B, □) é isomorfo a F.
238
A.4 Objetos Especiais, Núcleos e Conúcleos
Exemplo A.4 Considere Ab a categoria dos grupos abelianos. É bem sabido que se f ∈ Hom(G, H),
então
im(f ) = {f (g); g ∈ G} (A.23)
Exemplo A.5 Se f é um morfismo que é uma função entre conjuntos, a imagem categórica não
coincide, em geral, com a imagem de f . De fato, considere a categorai Grp e f : G → H um
morfismo. Se f adminte um conúcleo Coker f , então a imagem categórica de f é o núcleo do
homomorfismo H → Coker f e portanto é um subgrupo normal de H. Logo, se im f não for um
subgrupo normal de H, então a imagem de f não coincide com a imagem categórica de f .
De fato, é possível mostrar que se g : G → H é um morfismo em Grp, então H/NH (im f ), onde
NH (im f ) é o normalizador do subgrupo imagem im f , juntamente com o homomorfismo quociente
formam um conúcleo para f. Assim, a imagem categórica de um morfismo em Grp é o normalizador
da imagem de f como função.
Teorema A.4.10
Sejam C, D categorias com objetos nulos 0C , 0D e F : C → D um funtor covariante com
F(0C ) = 0D .
1. Se f, F(f ) são morfismos que admitem núcleos (K, φ) e (K ′ , φ′ ), então existe um único
morfismo ψ : F(K) → K ′ tal que F(φ) = φ′ ◦ ψ.
2. Se f, F(f ) são morfismos que admitem núcleos (C, f ) e (C ′ , f ′ ), então existe um único
239
A.5 Pushouts e Pullbacks
Demonstração Observe que a condição F(0C ) = 0D . implica que F(0A,B ) = 0F (A),F (B) . Como
f ◦ φ = 0K,B segue que
F(f ) ◦ F(φ) = 0F (K),F (B) . (A.24)
Assim, pela propriedade (b) da definição de núcleo, existe um único morfismo ψ : F(K) → K ′
tal que F(φ) = φ′ ◦ ψ.
A demonstração do item b é análoga.
Também temos uma versão do Teorema acima para funtores contravariantes.
Teorema A.4.11
Sejam C, D categorias com objetos nulos 0C , 0D e F : C → D um funtor contravariante com
F(0C ) = 0D .
1. Se f admite núcleo (K, φ) e F(f ) admite conúcleo (C, ψ), então existe um único morfismo
η : C → F(K) tal que ψ = F(φ) ◦ η.
2. Se f admite conúcleo (C, φ) e F(f ) admite núcleo (K, ψ), então existe um único morfismo
η : F(C) → K tal que F(φ) = ψ ◦ η.
♡
ψ
P B
φ f (A.26)
C g A
é comutativo. Em outras palavras, queremos estudar o funtor contravariante F : C → Set dado por
F(□) = {(ψ, φ) ∈ HomC (□, B) × HomC (□, C); f ◦ ψ = g ◦ ϕ}. (A.27)
Caso o funtor F seja representável em C, dizemos que o diagrama (A.25) admite um pullback
em C. Temos a seguinte definição.
240
A.5 Pushouts e Pullbacks
Definição A.5.1
Considere, em uma categoria C, um diagrama de pullback como em (A.25). Um terno (P, p1 , p2 )
é dito um pullback para (A.25) se:
(a) P é um objeto de C;
(b) p1 ◦ g = p2 ◦ f ;
(c) Se (P ′ , p′1 , p′2 ) é um segundo terno com p′1 ◦ g = p′2 ◦ f, então existe um único morfismo
ψ : P ′ → P tal que p′1 = p1 ◦ ψ e p′2 = p2 ◦ ψ.´
♣
Desta forma, temos que (P, p1 , p2 ) é um pullback para (A.25) se, e somente se, temos um
isomorfismo de funtores
HomC (□, P ) ≃ F(□) = {(ψ, φ) ∈ HomC (□, B) × HomC (□, C); f ◦ ψ = g ◦ ϕ}. (A.28)
Representando em forma de diagrama, temos:
p′1
P′
∃!ψ
p1 (A.29)
p′2 P B
p2 f
C g A
Uma categoria onde quaisquer pares de morfismos como em (A.25) admite um pullback é
chamado de categoria com pullbacks. Assim como em todas as construções envolvendo propriedades
universais, dois pullbacks são sempre isomorfos, e via um único isomorfismo. Quando f, g são claras
no contexto, escreveremos P = B ×A C no lugar de (P, p1 , p2 ).
Exemplo A.1 Sejam C uma categoria com núcleos e f : A → B um morfismo. Então o núcleo de f
é um pullback:
0 K 0
φ (A.30)
f f
B A B A
Exemplo A.2 Seja
B
f (A.31)
C g A
um diagrama de pullback na categoria Set . Afirmamos que o pullback deste diagrama existe.
De fato, defina X = {(b, c) ∈ A × B; f (b) = g(c)} e p1 , p2 as projeções na primeira e na segunda
coordenadas, respectivamente. É claro que as condições (a) e (b) da definição de pullback valem.
Agora, considere um diagrama comutativo da forma
241
A.5 Pushouts e Pullbacks
Y p′1
(A.32)
p′2
X p1 B
p2 f
g
C A
Como f (p′1 (y)) = g(p′2 (y)) para todo y ∈ Y, podemos definir ψ(y) = (p′1 (x), p′2 (x)) ∈ X. Logo ψ
completa o diagrama comutativo. A unicidade de ψ é clara.
Observe que tomando A como um conjunto unitário (objeto final da categoria Set), obtemos
B ×A C = B × C, o produto cartesiano ordinário.
Outro exemplo interessante de produto fibrado na categoria Set é a tomada de pré-imagem. De
fato, seja f : B → A uma função e seja C ⊂ A um subconjunto. É fácil verificar que o trio
(f −1 (C), p1 , p2 ), onde
p1 : f −1 (C) → C é definida por
p1 (x) = y ⇐⇒ f (x) = y;
p2 é a inclusão;
é de fato um pullback do diagrama
B
f , (A.33)
ι
C A
onde ι representa a inclusão de C em A.
Dual a noção de diagrama de pullback, temos os diagramas de pushout:
f
A B
g (A.34)
C
Associado a um tal diagrama, temos um funtor covariante F : C → Set definido por
F(□) = {(ψ, φ) ∈ HomC (B, □) × HomC (C, □); ψ ◦ f = ϕ ◦ g}. (A.35)
Caso o funtor F seja representável em C, dizemos que o diagrama (A.34) admite um pushout em
C. Temos a seguinte definição.
Definição A.5.2
Considere, em uma categoria C, um diagrama de pushout como em (A.34). Um terno (Q, q1 , q2 )
é dito um pushout para (A.34) se:
(a) P é um objeto de C;
(b) g ◦ q1 = g ◦ q2 ;
(c) Se (Q′ , q1′ , q2′ ) é um segundo terno com Q′1 ◦ g = Q′2 ◦ f, então existe um único morfismo
242
A.5 Pushouts e Pullbacks
Desta forma, temos que (Q, q1 , q2 ) é um pushout para (A.34) se, e somente se, temos um
isomorfismo de funtores
F(□) = {(ψ, φ) ∈ HomC (B, □) × HomC (C, □); q1 ◦ f = q2 ◦ g}. (A.36)
f
A B
g q1 q1′
q2
C Q (A.37)
∃!ψ
q2′
Q′
Uma categoria onde quaisquer pares de morfismos como em (A.34) admite um pushout é chamado
de categoria com pushout. Assim como em todas as construções envolvendo propriedades universais,
dois pushouts são sempre isomorfos, e via um único isomorfismo. Quando f, g são claras no contexto,
escreveremos Q = B +A C no lugar de (Q, q1 , q2 ).
Observe também que se C é uma categoria C possui objeto zero e admite pushputs, então todo
morfismo f : B → A possui um conúcleo (K, φ). De fato, o par (K, φ) é construído como o pushout
do diagrama
f
A B
(A.38)
0
Exemplo A.3 Pushouts existem na categoria Set . de fato, tome um diagrama de pushout
f
A B
g (A.39)
C
Seja X = B ⊔ C, a união disjunta dos conjuntos B, C. Defina em X a relação
b ∼ c ⇐⇒ existe a ∈ A com f (a) = b, g(a) = c. (A.40)
É óbvio que ∼ é uma relação de esquivalência. Defina P = X/ ∼ e q1 , q2 como as composições
B ,→ X → P e C ,→ X → P.
Agora, considere um diagrama comutativo
f
A B
g q1′ (A.41)
q2
C D
243
A.6 Limites Diretos e Limites Inversos
Defina h : X → D colocando h(b) = q1′ (b) se b ∈ B e h(c) = q2′ (c) se c ∈ C. É claro que
se b ∼ c, então h(b) = h(c) e portanto existe um único morfismo h̄ : P → D com as propriedades
desejadas.
Em forma de diagrama, um par (Mλ , fλµ ) é um sistema indexado por Γ se para todos η ≤ µ1 , µ2 ≤
λ o diagrama
fµη′
Mη Mµ′
fµη fλµ
′ (A.42)
Mµ Mλ
fλµ
é comutativo. Observe que diagramas de pushout e de pullback são casos especiais da Definção acima:
Eles são sistemas indexados pelo conjunto Γ = {1, 2, 3} com a ordem parcial dada por 1 < 2 e 1 < 3.
Associado a um sistema indexado (Mλ , fµλ )λ∈Γ , podemos considerar dois funtores F, G : C →
Set, um covarianre e um contravariante:
Y
F(□) = {(gλ ) ∈ HomC (□, Mλ ); gµ = fµλ ◦ gλ }; (A.43)
Y
G(□) = {(gλ ) ∈ HomC (Mλ , □); gλ = gµ ◦ fµλ }. (A.44)
244
A.6 Limites Diretos e Limites Inversos
Definição A.6.2
Sejam C uma categoria e (Mλ , fλµ ) um sistema indexado por Γ. Um limite inverso para (Mλ , fλµ )
é um par (M, fλ ) onde:
(a) M é um objeto da categoria;
(b) fλ ∈ MorC (M, Mλ ) e satisfazem fλ = fλµ ◦ fµ para quaisquer µ ≤ λ;
(c) Se (M ′ , fλ′ ) é outro par que satisfaz as condições de (b), então existe um único morfismo
ψ : M ′ → M ′ satisfazendo fλ′ = fλ ◦ ψ.
Quando os morfismos são claros no contexto, escrevemos M = lim Mλ .
←−
♣
Desta forma, vemos que (M, fλ ) é um limite inverso para um sistema indexado (Mλ , fµλ )λ∈Γ se,
e somente se, temos um isomorfismo de funtores
Y
HomC (□, M ) = F(□) = {(gλ ) ∈ HomC (□, Mλ ); gµ = fµλ ◦ gλ }. (A.46)
Em termos de diagramas, temos:
fµ′ ′
′
M
∃!ψ
fµ′
lim Mλ Mµ′ (A.47)
←−
fµ′ fλ ′
fµ fλµ
Mµ Mλ
fλµ
Q
Quando a ordem parcial de Γ é trivial, escrevemos lim Mλ = Mλ . Neste caso, dizemos que
Q ←−
Mλ é o produto direto dos objetos Mλ .
Vejamos agora a questão da representabilidade de G.
Definição A.6.3
Sejam C uma categoria e (Mλ , fλµ ) um sistema indexado por Γ. Um limite direto para (Mλ , fλµ )
é um par (M, fλ ) onde:
(a) M é um objeto da categoria;
(b) fλ ∈ MorC (Mλ , M ) e satisfazem fµ = fλ ◦ fλµ para quaisquer µ ≤ λ;
(c) Se (M ′ , fλ′ ) é outro par que satisfaz as condições de (b), então existe um único morfismo
ψ : M → M ′ satisfazendo fλ′ = ψ ◦ fλ
Quando os morfismos são claros no contexto, escrevemos M = lim Mλ .
−→
♣
Desta forma, vemos que (M, fλ ) é um limite direto para um sistema indexado (Mλ , fµλ )λ∈Γ se, e
somente se, temos um isomorfismo de funtores
Y
HomC (M, □) = G(□) = {(gλ ) ∈ HomC (Mλ , □); gµ = fµλ ◦ gλ }. (A.48)
245
A.6 Limites Diretos e Limites Inversos
fλ
fλµ fµ ′ fµ′ ′
fµ
(A.49)
Mµ lim Mλ
−→
∃!ψ
fµ′ M′
L L
Quando a ordem parcial de Γ é trivial, escrevemos lim Mλ = Mλ . Neste caso, dizemos que Mλ
−→
é a soma direta dos objetos Mλ .
Exemplo A.1 A categoria Grp admite limites diretos e limites inversos. De fato, começemos provando
que Grp admite somas e produtos diretos. Para isto, seja Gλ , λ ∈ Γ uma família de grupos. Defina
G = {(gλ )λ∈Γ }. (A.50)
Podemos definir uma estrutura de grupo em G por
(gλ ) ∗ (gλ′ ) = (gλ gλ′ ). (A.51)
Mais ainda, para cada λ ∈ Γ, podemos definir πλ ((gλ )) = gλ . É claro que πλ é um homomor-
fismo de grupos. Agora, é imediato verificar que se {(φλ : H → Gλ ; λ ∈ Γ} é uma família de
homomorfismo de grupos, então
φ: H → G
(A.52)
h → (φλ (h))
é um homomorfismo bem definido de grupos e é o único homomorfismo de H em G tal que φλ = πλ ◦φ.
Assim, temos que (G, πλ ) é um produto direto para a família {Gλ , λ ∈ Γ.}
Com esta construção, é imediato verificar a existência do limite inverso de um sistema indexado
(Gλ , fλµ ). De fato, seja {φλ : H → Gλ } uma família de morfismos tal que φµ = φλ ◦ fλµ para todo
par µ ≤ λ. Pela propriedade universal do produto direto, podems definir o morfismo
Q
φ: H → Gλ
(A.53)
h → φλ (h)
, que é o único com a propriedade φλ = πλ ◦ φ para todo λ ∈ Γ. Agora, é imediato verificar que φ(H)
Q
está contído no subgrupo de Gλ definido por
Y
G = {(gλ ) ∈ Gλ ; gλ = fλµ (gµ ) para todo µ ≤ λ}. (A.54)
Assim, (G, πλ |G ) é um limite inverso para a família (Gλ , fλµ ).
Q
Observe que os grupos Gλ são todos abelianos, então Gλ e lim Gλ também são grupos
←−
abelianos, e portanto Ab admite produtos diretos e limites inversos. Observe que se cada Gλ possui
estrutura de R-módulo para algum anel comutativo R e os homomorfismos fλµ são homomorfismos de
Q
R-módulos, então Gλ e lim Gλ também possuem estrutura de R-módulos, e os homomorfismos πλ
←−
são homomorfismos de R-módulos. Assim, ModR também possui produtos diretos e limites inversos.
246
A.6 Limites Diretos e Limites Inversos
Vamos agora a construção de somas e limites diretos. Para a soma direta, defina o grupo
Y
G = {(gλ ) ∈ Gλ ; #{λ; gλ ̸= e} < +∞}. (A.55)
Defina, também, homomorfismos iµ : Gµ → G, onde
e, se λ ̸= µ
iλ (gµ ) = (aλ ), aλ = (A.56)
gµ , se λ = µ.
F(Mµ )
F (fλµ )
F (fλ ) (A.60)
F(Mλ ) F (fλ )
F(lim Mλ )
−→
Assim, pela propriedade universal de lim F(Mλ ) (pois (F(Mλ ), fµλ )λ∈Γ é um sistema de objetos
−→
de D indexados por Γ), existe um único morfismo φ : lim F(Mλ ) → F(lim Mλ ) tal que o diagrama
−→ −→
247
A.6 Limites Diretos e Limites Inversos
F(Mµ )
F (fλµ )
F (fµ )
F(lim Mλ )
−→
F (fλ )
é comutativo.
Agora, aplicando F ao diagrama comutativo
fµ
lim Mλ Mµ
←−
fλ
(A.62)
fλµ
Mλ
obtemos o diagrama
F (fµ )
F(lim Mλ ) F(Mµ )
←−
F (fλ )
(A.63)
F (fλ µ)
F(Mλ )
e portanto existe um único morfismo ψ : lim F(Mλ ) → F(lim Mλ ) tal que o diagrama
←− ←−
lim F(Mλ )
←−
ψ
fµ
F(lim Mλ ) Mλ (A.64)
←−
fλ
fλµ
Mλ
é comutativo.
Deixamos a cargo do estudante os resultados análogos para F contravariante. Resumimos tudo
no próximo Teorema.
Teorema A.6.4
Sejam C, D categorias admitindo limites diretos e limites inversos, (Mλ , fµλ )λ∈Γ um sistema
indexado por Γ e F : C → D um funtor.
(a) Se F é covariante, então existem únicos morfismos
φ : lim F(Mλ ) → F(lim Mλ );
−→ −→
ψ : lim F(Mλ ) → F(lim Mλ ).
←− ←−
248
A.6 Limites Diretos e Limites Inversos
Podemos aplicar o resultado acima aos funtores HomC (A, □) e HomC (□, A) para obter morfismos
lim HomC (A, Mλ ) → HomC (A, lim Mλ ); (A.65)
−→ −→
lim HomC (A, Mλ ) → HomC (A, lim Mλ ); (A.66)
←− ←−
Por último, mostraremos que podemos considerar lim e lim como funtores partindo de uma
−→ ←−
categoria apropriada. De fato, sejam C uma categoria e Γ um conjunto parcialmente ordenado.
Podemos considerar a categoria S(Γ), cujos objetos desta categoria são os sistemas (Mλ , fµλ )λ∈Γ de
objetos em C indexados por Γ e cujos conjuntos de morfismos são dados por
Y
MorS(Γ) ((Mλ , fλµ )λ∈Γ , (Nλ , fλµ )λ∈Γ )) = {(φλ ) ∈
HomC (Mλ , Nλ ); gλµ ◦ φµ = φλ ◦ fλµ , se µ ≤ λ}.
(A.71)
µ µ
Seja {φλ } ∈ MorS(Γ) (Mλ , fλ )λ∈Γ , (Nλ , fλ )λ∈Γ )) um morfismo de sistemas indexados por Γ.
Temos um diagrama comutativo
φµ
Mµ Nµ
gµ
fλµ µ
gλ (A.72)
gλ
Mλ φλ Nλ lim Nλ
−→
Pela porpriedade universal dos limites diretos, existe um único morfismo lim φλ : lim Mλ → φNλ
−→ −→
249
A.7 Categorias Abelianas
é comutativo. Mais ainda, pela unicidade advinda da propriedade universal de limites diretos,
segue que se {ψλ } ∈ MorS(Γ) (Nλ , gλµ )λ∈Γ , (Hλ , hµλ )λ∈Γ )), então
lim(ψλ ◦ φλ ) − lim(ψλ ) ◦ lim(φλ ), (A.74)
−→ −→ −→
e desta forma lim(□) : S(Γ) → C é um funtor covariante. De maneira análoga ao que fizemos
−→
para limites diretos, vemos que existe um único morfismo lim φλ : lim Mλ → lim Nλ tal que o
←− ←− ←−
diagrama
lim φλ
←−
lim Mλ lim Nλ
←− ←−
fµ gµ
fλ
Mµ
φµ
Nµ (A.75)
gλ
fλµ µ
gλ
φλ
Mλ Nλ
é comutativo. Mais ainda, temos que
lim(ψλ ◦ φλ ) = lim(ψλ ) ◦ lim(φλ ), (A.76)
←− ←− ←−
Definição A.7.2
Uma categoria C é dita uma categoria aditiva se é pré-aditiva e os produtos diretos e somas
diretas de uma quantidade finita de objetos sempre existem. ♣
250
A.7 Categorias Abelianas
Teorema A.7.3
Sejam C uma categoria pré-aditiva. Então o produto direto e a soma direta de uma quantidade
finita de objetos coincidem. ♡
Demonstração Vamos demonstrar o resultado acima para a soma e o produto direto de dois elementos.
O resultado final seguirá por indução.
Seja (A1 × A2 , p1 , p2 ) um produto direto para dois objetos A1 , A2 . Pela propriedade universal do
produto direto, existe um único morfismo i1 : A1 × A1 → A2 tal que o diagrama
p1
A1 × A2
i1
A1 A1 (A.77)
idA1
p2
0
A2
é comutativo. Analogamente, existe um único morfismo i2 : A2 × A1 × A2 tal que o diagrama
p1
A1 × A2
i1
A2 A1 (A.78)
0
p2
idA2
A2
é comutativo. Afirmamos que (A1 × A2 , i1 , i2 ) é uma soma direta entre A1 , A2 . De fato, defina
f = i1 ◦ p1 + i2 ◦ p2 ∈ MorC (A1 × A2 , A1 × A2 ). (A.79)
A partir dos diagramas (A.77) e (A.78) é fácil verificar que o diagrama
A1
p1 p2
idA1 ×A2
A1 × A2 A1 × A2 (A.80)
f
p2 p2
A2
é comutativo. Pela propriedade universal do produto direto, segue que f = idA1 ×A2 .
Seja S um objeto de C e f1 ∈ MorC (A1 , S), f2 ∈ MorC (A2 , S). Defina
g = f 1 ◦ π1 + f 2 ◦ π2 . (A.81)
251
A.7 Categorias Abelianas
g
A1 × A2 S (A.82)
i2 f2
A2
é comutativo. Agora, se g ′ ∈ MorC (A1 × A2 , S) é um outro morfismo que faz o diagrama acima
comutar, então
g − g ′ = (g − g ′ ) ◦ idA1 ×A2 =
(g − g ′ ) ◦ i1 ◦ p1 + i2 ◦ p2 =
(A.83)
g ◦ (i1 ◦ p1 + i2 ◦ p2 ) − g ′ ◦ (i1 ◦ p1 + i2 ◦ p2 ) =
(f1 − f1 ) ◦ p1 + (f2 − f2 ) ◦ p2 = 0.
Assim, (A1 × A2 , i1 , i2 ) satisfaz a propriedade universal de uma soma direta. A demonstração
de que a soma direta é um produto direto é análoga.
Definição A.7.4
Uma categoria C é dita uma categoria abeliana se:
(a) C é uma categoria aditiva.
(b) Todo morfismo possui um núcleo e um conúcleo.
(c) Todo monomorfismo é o núcleo de algum morfismo.
(d) Todo epimorfismo é o conúcleo de algum morfismo, ♣
Teorema A.7.5
A categoria Ab é abeliana. ♡
Demonstração É claro que se G, H são dois grupos abelianos, entâo Hom(G, H) é também um
grupo abeliano. Também é claro que a composição
Hom(G, H) × Hom(H, T ) → Hom(G, T ) (A.84)
é Z-bilinear. Assim, Ab é pré-aditiva.
Seja {Gλ }λ∈L uma família de grupos abelianos. Defina os grupos abelianos
G1 = {(gλ ); gλ ∈ gλ e gλ ̸= eGλ para uma quantidade finita de λ};
G2 = {(gλ ); gλ ∈ Gλ }. (A.85)
Defina também
iµ : Gµ → G
1
e
Gλ , se λ ̸= µ ;
gµ → (gλ ), onde gλ =
gµ , se λ = µ
pµ : G2 → Gµ
. (A.86)
(gλ ) → gµ
252
A.7 Categorias Abelianas
Afirmamos que (G1 , iλ ) é uma soma direta para a família {Gλ }λ∈L . De fato, dada uma família
de morfismos fλ : Gλ → G, um diagrama comutativo da forma
Gλ
iλ
fλ
iµ
Gµ G1 (A.87)
f
fµ G
P
implica que, necessariamente, f ((gλ )) = fλ (gλ ). Como gλ ̸= eλ apenas para uma quantidade
L
finita de índices λ, o homomorfismo f é de fato bem definido. Logo G1 ≃ λ∈L Gλ é uma soma
direta para a família {Gλ }λ∈L .
Afirmamos que (G2 , pλ ) é um produto direto para a família {Gλ }λ∈L . De fato, dada uma família
de morfismos hλ : G → Gλ , um diagrama comutativo da forma
pλ
G2
g
gλ
G Gλ (A.88)
pµ
gµ
Gµ
imploca que, necessariamente, h(g) = (hλ (g)). Como esta função está definida e é um homomor-
Q
fismo de grupos, segue que G2 ≃ λ∈L Gλ . Assim, é imediato verificar que as somas e os produtos
diretos sobre famílias finitas de grupos abelianos coincidem e portanto Ab é uma categoria aditiva.
Jà mostramos que todo morfismo de grupos abelianos f : G → H possui um núcleo, a saber
ker(f ) = {g ∈ G; f (g) = eH }, (A.89)
e um conúcleo, a saber
Coker f = H/ im(f ). (A.90)
253
A.8 Funtores Aditivos e Funtores Exatos
é um homomorfismo de grupos.;
2. F(0C ) = 0D .
♣
Teorema A.8.2
Seja F : C → D um funtor aditivo entre duas categorias aditivas. Então F preserva somas e
produtos diretos finitos. Em outras palavras,
F(C × D) ≃ F(C) × F(D).
♡
254
Apêndice B Elementos de Álgebra Homológica
Mi M i+1
(B.2)
im f i ker f i+1
comuta.
Definição B.1.2
Seja C uma categoria abeliana. Um complexo descendente (M• , f• ) de R-módulos é uma
família (Mi , fi )i∈Z onde
(a) Mi é um objeto de C;
(b) fi ∈ HomC (Mi , Mi−1 );
(c) fi−1 ◦ fi = 0.
♣
Definição B.1.3
Seja M • um complexo de R-módulos e n ∈ Z. O complexo (M • [n], f • [n]) (ou M • [n], de
maneira mais compacta) é o complexo definido por
M i [n] = M i+n ;
B.1 A Categoria Comp(C)
f i [n] = f i+n .
♣
fi+1 fi
··· Mi+1 Mi Mi−1 ··· (B.3)
im f i+1 ker f i
comuta.
Definição B.1.4
Seja (M • , f • ) um complexo ascendente em uma caegoria abeliana C e i ∈ Z.
(a) O i-ésimo objeto de cociclos de M • é definido por
Z i (M • ) = ker f i .
(b) O i-ésimo objeto de cobordos de M • é definido por
B i (M • ) = im f i−1 .
(c) A i-ésima cohomologia de M • é definida por
H i (M • ) = Coker(im f i → ker f i+1 ).
(d) O complexo é exato em M i se
H i (M • ) = 0.
Pelo Teorema do Mergulho de Mitchell, podemos assumir sem perda de generalidade que C é
uma subcategoria cheia da categoria ModR para algum anel R. Desta forma, temos que H i (M • ) é o
quociente Z i (M • )/B i (M • ).
Analogamente, temos:
Definição B.1.5
Seja (M• , f• ) um complexo descendente e i ∈ Z.
(a) O i-ésimo objeto de ciclos de M• é definido por
Zi (M• ) = ker fi .
(b) O i-ésimo objeto de bordos de M• é definido por
Bi (M• ) = im fi+1 .
(c) A i-ésima homologia de M• é definida por
Hi (M• ) = Coker(im fi+1 → ker fi ).
256
B.1 A Categoria Comp(C)
Novamente pelo Teorema do Mergulho de Mitchell, podemos assumir sem perda de generalidade
que C é uma subcategoria cheia da categoria ModR para algum anel R. Desta forma, temos que
Hi (M • ) é o quociente Zi (M • )/Bi (M • ).
Iremos supor, salvo menção explícita, que nossos complexos são ascendentes. A tradução dos
conceitos daqui discutidos para complexos descendentes é imediata. Para simplificar a notação, sempre
que os homomorfismos fi são bem entendidos, escreveremos apenas M • . Em nossas discussões e
demonstrações, iremos supor sempre que C é uma subcategoria cheia de ModR para algum anel R.
Desta forma, podemos simplificar os nossos argumentos pelo uso de diagramas e elementos.
Definição B.1.6
Sejam (M • , f • ), (N • , g • ) dois complexos em uma categoria abeliana C. Um morfismo de
complexos φ• : M • → N • é uma família de orfismos φi : M i → N i tais que
φi+1 ◦ fi = gi ◦ φi .
♣
Definição B.1.7
A categoria Comp(R) é definida por:
(a) Obj(Comp(R)) é o conjunto de todos os complexos de R-módulos;
(b) MorComp(R) (M • , N • ) é o grupo abeliano dado pelos homomorfismos de complexos φ• :
M • → N •. ♣
257
B.1 A Categoria Comp(C)
Teorema B.1.8
Seja φ• : (M • , f • ) → (N • , g • ) ummorfismo de complexos sobre uma categoria abeliana C.
Então, para cada i ∈ Z, temos um morfismo natural de homologia
H i (φ• ) : H i (M • ) → H i (N • ).
Se C é uma subcategoria cheia de ModR para algum anel R, então o homomorfismo acima é
dado, explicitamente, por
ψ : Z|i (M • ) → H i (N • )
(B.7)
z → φi (z) + B i−1 (N • ).
Se z = f i−1 (w), φi (z) = g i−1 ◦ φi−1 (w), e portanto ψ(z) = 0. Assim, ψ induz o homomorfismo
H i (φ) : H i (M • ) → H i (N • )
(B.8)
z → φi (z) + B i−1 (N • ).
□
• • • • •
É fácil verificar que se φ : M → N , ψ : N → K são dois homomorfismos de complexos,
então H i (ψ • ◦ φ• ) = H i (ψ) ◦ H i (φ), isto é, H i (−) é um funtor covariante de Comp(R) em R Mod.
É imediato verificar que este funtor é aditivo.
É bem possível que φ• não seja um morfismo trivial de complexos, mas o morfismo induzido nas
cohomologias sejam. Vejamos um critério para isto.
Definição B.1.9
Sejam φ• , ψ • : (M • , f • ) → (N • , g • ) dois morfismos de complexos sobre uma categoria
abeliana C. Dizemos que f, g são homotópicos se existe uma família de morfismos hi : M i →
N i−1 , i ∈ Z tais que
ψ i − φi = g i−1 ◦ hi + hi+1 ◦ fi . ♣
Teorema B.1.10
Sejam φ• , ψ • : (M • , f • ) → (N • , g • ) dois morfismos de complexos sobre uma categoria
abeliana C. Se f, g são homotópicos então H i (f ) = H i (g) para todo i ∈ Z.
♡
258
B.1 A Categoria Comp(C)
Demonstração Basta provar o Teorema para o caso em que φi = 0. Desta forma, seja hi : M • → N •
uma homotopia entre φ• e 0• . Temos
ψ i (z + B i−1 (M • )) =
ψ i (z) + B i−1 (N • ) =
B i−1 (N • ). (B.10)
Teorema B.1.12
Seja
f g
0 M N P 0
uma sequência exata curta sobre uma categoria abeliana C. São equivalentes:
(a) Existe um homomorfismo k : N → M tal que k ◦ f = idM ;
(b) Existe um homomorfismo j : P → N tal que g ◦ j = idP ;
(c) Existe um isomorfismo de complexos
f g
0 M N P 0
idM h idP
0 M i
M ⊕P π P 0
onde i(m) = (m, 0) e π(m, p) = p.
Uma sequência exata satisfazendo as hipóteses acima é dita uma sequência exata que cinde. ♡
Demonstração Seja {pλ }λ∈L um conjunto gerador de P. Tome N ′ ⊂ N o submódulo gerado por
{nλ }, onde cada nλ é escolhido de forma que g(nλ ) = pλ .
P P
Agora, seja p ∈ P. Se p = aλ pλ , gostaríamos de definir j(p) = aλ nλ . Mostremos que j
está bem definida.
Começamos afirmando que todo elemento de N é da forma f (m) + n′ com n′ inN ′ . De fato, se
n ∈ N , existe n′ ∈ N ′ tal que g(n) = g(n′ ). Daí, n − n′ ∈ ker g e portanto n − n′ = f (m) para algum
m ∈ M . Agora, afirmamos que tal expressão é única. De fato
f (m1 ) + n′1 = f (m2 ) + n′2 =⇒ f (m1 − m2 ) = n′2 − n′1 =⇒ g(n′2 − n′1 ) = 0. (B.11)
259
B.1 A Categoria Comp(C)
□
Seja F : ModR → ModR um funtor aditivo e covariante e (C • , d• ) um complexo. Da igualdade
F(dn+1 ◦ dn ) = F(dn+1 ) ◦ F(dn ) e da aditividade de F, segue que (F(C • ), F(d• )) é também um
complexo. Também é fácil verificar que se ψ • : (C • , d• ) → (C ′• , d′• ) é um morfismo de complexos,
então F(ψ • ) : (F(C • , d• ), F(C ′• , d′• )) é um morfismo de complexos. Portanto F induz um funtor
CompR → CompR que também denotaremos por F. O mesmo pode ser dito sobre funtores aditivos e
contravariantes, com uma alteração na notação: ao aplicarmos um funtor contravariante a um complexo
ascendente (C • , d• ), escreveremos (F(C • ), F(d• )) como um complexo descendente (D• , p• ), onde
Di = F(C −i ) e pi = F(d−i ). Faremos a mesma convenção ao aplicar um funtor contravariante a um
complexo descendente.
Teorema B.1.13
Sejam C uma categoria abeliana e
f g
0 M N P 0
uma sequência exata curta que cinde e F : Comp(C) → C um funtor covariante e aditivo.
Então o complexo
F (f ) F (g)
0 F(M ) F(N ) F(P ) 0
é uma sequência exata curta que cinde. ♡
Definição B.1.15
Um funtor F : C → D entre duas categorias abelianas é dito um funtor exato se leva complexos
exatos em complexos exatos. ♣
que um funtor F é exato se, e somente se, preserva sequências exatas curtas. Desta forma, temos:
260
B.1 A Categoria Comp(C)
Teorema B.1.16
Sejam C, D categorias abelianas,f ∈ HomC (A, B) um homomorfismo de R-módulos e F :
C → D um funtor exato.
(a) Se F é covariante, então existem (únicos) isomorfismos
F(ker f ) → ker F(f );
Coker F(f ) → F(Coker f );
Por fim, é possível verificar que Comp(C) é uma categoria abeliana que admite núcleos e
conúcleos. De fato, se φ• : (C • , f • ) → (D• , g • ) é um morfismo de complexos de R-módulos, então
ker φ• é um complexo com diferenciais induzidas pelas restrições de f • . Mais ainda, Coker φ• é
um complexo com as dferenciais induzidas por g • nos quocientes. É imediato verificar que estas
construções fornecem núcles e conúcleos na categoria Comp(C). Assim, é possível definir que uma
sequência de morfismos de complexos
é um complexo exato.
Teorema B.1.17
Seja
φ• ψ•
0 → A• −→ B • −→ C • → 0
uma sequência exata curta de complexos sobre uma categoria abeliana C. Então existem
morfismos δ i : H i (C • ) → H i+1 (A• ) de forma que a o complexo
H i (φ• ) H i (ψ • )
H i (A• ) H i (B • ) H i (C • )
δi
O Teorema acima pode ser refraseado da seguinte maneira: toda sequência exata curta de
261
B.1 A Categoria Comp(C)
complexos dá oridem a uma sequência exata longa em cohomologia. O leitor é convidado a enunciar
Teorema análogo para o caso de complexos descendentes.
Demonstração Denotaremos por dA , dB , dC as diferenciais dos complexos A•, B • , C • . Utilizaremos
x para denotar a classe de cohomologia de um elemento x, quando definida.
Primeiramente, provaremos que para todo i ∈ Z, o complexo
H i (φ• ) H i (ψ • )
H i (A• ) −−−−→→ H i (B • ) −−−−→→ H i (C • ) (B.16)
é exato em H i (B • ). De fato, considere o diagrama comutativo de linhas exatas
.. .. ..
. . .
φi−1 ψ i−1
0 Ai−1 B i−1 C i−1 0
dA dB dC
φi ψi (B.17)
0 Ai Bi Ci 0
dA dB dC
φi+1 ψ i+1
0 Ai+1 B i+1 C i+1 0
.. .. ..
. . .
e seja b ∈ B i tal que H i (ψ • )(b) = (ψ i (b)) = 0. Desta forma, existe c ∈ C i−1 tal que dC (c) = b.
Tome b′ ∈ B i−1 tal que ψ i−1 (b′ ) = c. Verifica-se, pelodiagrama acima, que ψ i (b − dB (b′ )) = 0 e
portanto existe a ∈ Ai com φi (a) = b − dB (b′ ). Novamente, verifica-se pelo diagrama que dA (a) = 0
e portanto b = H i (φ• )(a).
Agora, procedemos para definir o homomorfismo δ i . Seja c ∈ C i tal que dC (c) = 0. Tome b ∈ B i
tal que ψ i (b) = c. Pelo diagrama, temos que ψ i+1 (dB (b)) = 0. Portanto, existe um único a ∈ Ai+1 tal
que φi+1 (a) = dB (b). Pelo diagrama, dA (a) = 0. Afirmamos que a associação
∆i
c ∈ H i (C • ) −→ a ∈ H i+1 (A• ) (B.18)
está bem definida. Inicialmente, vamos mostrar que a classe a não depende da escolha da pré-imagem
b. De fato, se ψ i (b) = ψ i (b′ ) = c e a′ ∈ Ai+1 é tal que φi+1 (a′ ) = dB (b′ ), então existe um único
a′′ ∈ Ai tal que φi (a′′ ) = b − b′ . Pelo diagrama, vemos que a − a′ = dA (a′′ ), e portanto a = a′ .
Agora, se c = dC (c′ ), podemos tomar b no procedimento acima na imagem dB (B i−1 ). Assim,
dC (C i−1 ) ⊂ ker δ i e portanto temos um homomorfismo bem definido
δ i : H i (C • ) → H i+1 (A• ). (B.19)
É claro da construção de δ i que im H i (ψ • ) ⊂ ker δ i . Vamos provar a inclusão reversa.
Suponha então que δ i (c) = 0. Escolha b ∈ B i com ψ i (b) = c e a ∈ Ai tal que φi (a) = b. Por
construção, temos que existe a′ ∈ Ai−1 tal que dA (a′ ) = a. Se b′ = φi (a), então dB (b − b′ ) = 0 e
ψ i (b − b′ ) = ψ i (b) − ψ i (φi (a′ )) = c. Segue daí que
c = H i (ψ • )(b − b′ ). (B.20)
262
B.2 Objetos Injetivos e Projetivos. Resoluções
Nossa última missão é demonstrar que im δ i = ker H i+1 (φ• ). Observe que se a = δ i (c), então
existe b ∈ B i tal que dB (b) = φi+1 (a) e portanto a classe φi+1 (a) ∈ H i+1 (B • ) é trivial.
Por outro lado, se H i (φi+1 )(a) = 0. Assim, φi+1 (a) = dB (b) para algum b ∈ B i . Agora,
dC (ψ i (b)) = ψ i+1 ◦ dB (b) = ψ i+1 ◦ φi+1 (a) = 0. Assim, a = δ i (ψ i (b)). Isto conclui a prova do
Teorema.
Teorema B.2.2
O funtor HomR (M, □) : ModR → ModR é um funtor aditivo, covariante e exato à esquerda.
Mais ainda, um complexo (C • , d• ) é exato se, e somente se, o complexo (HomR (□, C • ), (d• )∗ )
é exato para todo R-módulo M . Em particular, se C é uma categoria abeliana, o funtor
HomC (M, □) é exato à esquerda para todo M ∈ Obj C.
♡
Definição B.2.3
Sejam C uma categoria abeliana e M ∈ Obj(C).
(a) M é um objeto injetivo se o funtor HomC (□, M ) é exato à esquerda.
(b) M é um objeto projetivo se o funtor HomC (M, □) é exato à esquerda.
♣
Como funtores aditivos preservam somas diretas finitas, é imediato ficar que se M ≃ M1 ⊕ M2 ,
então M é injetivo (resp. projetivo) se, e somente se M1 , M2 são objetos injetivos (resp. projetivos).
Em termos de diagramas, um objeto M ∈ Obj(C) é injetivo se todo diagrama linhas exatas (e
flechas sólidas) como abaixo pode ser completado (por uma flecha tracejada, não necessariamente
única):
f
0 N P
g (B.21)
M
Em palavras, todo morfismo de N em M pode ser estendido a um morfismo de P em M . De maneira
análoga, um objeto M ∈ Obj(C) é projetivo se todo diagrama linhas exatas (e flechas sólidas) como
abaixo pode ser completado (por uma flecha tracejada, não necessariamente única):
263
B.2 Objetos Injetivos e Projetivos. Resoluções
M
g (B.22)
f
N P 0
Em palavras, todo morfismo de M em P pode ser levantado a um morfismo de M em N .
Observação Se identificamos, pelo Teorema do Mergulho de Mitchel, a nossa categoria C como
uma subcategoria cheia de ModR para algum anel R, então um objeto injetivo/projetivo de C não é,
necessariamente, um objeto injetivo/projetivo de ModR .
Proposição B.2.4
Sejam C uma categoria e M ∈ Obj(C). São equivalentes:
(a) M é um objeto injetivo de C.
(b) Toda sequência exata curta em C da forma
φ
0→M −
→N →P →0
cinde. ♠
Definição B.2.6
Seja C uma categoria abeliana. Um complexo ascendente C • é dito um complexo positivo se
C i = 0 para i < 0. Analogamente, um complexo descendente Ci é dito um complexo positivo
se Ci = 0 para i < 0. ♣
Definição B.2.7
Seja C uma categorial abeliana. Um complexo ascendente C • é dito um complexo acíclico se é
um complexo positivo e H i (C • ) = 0 para i > 0. Analogamente, um complexo descendente C•
é dito um complexo acíclico se é um complexo positivo e Hi (C • ) = 0 para i > 0.
♣
264
B.2 Objetos Injetivos e Projetivos. Resoluções
Teorema B.2.9
Seja C uma categoria abeliana com objetos projetivos o suficiente. Então todo objeto M ∈
Obj(C) admite uma resolução P• com Pi projetivo.
♡
Teorema B.2.11
Sejam C uma categoria abeliana eum diagrama comutativo
··· P1 P0 M 0
f1 f0 f
··· Q1 Q0 N 0
conde cada linha é um complexo, com Pi projetivo para todo i ≤ 0 e com a linha inferior exata.
Dado um morfismo
f : M → N,
265
B.2 Objetos Injetivos e Projetivos. Resoluções
··· P1 P0 M 0
f1 f0 f
··· Q1 Q0 N 0
é comutativo. Mais ainda, se g• é um segundo morfismo com esta mesma propriedade, então
g• é homotópico a f• . ♡
dP dP
··· Pi Pi−1 Pi−2 ···
fi−1 fi−2 (B.27)
dQ dQ
··· Qi Qi−1 Qi−2 ···
··· P1 P0 M 0
f1 f0 0 (B.29)
d0
··· Q1 Q0 N 0
Temos então o diagrama
P0
f0 (B.30)
dQ
Qi dQ (Q1 ) 0
266
B.2 Objetos Injetivos e Projetivos. Resoluções
e pela projetividade de P0 , segue que existe d0 : P0 → Q1 tal que f0 = dQ ◦d0 = dQ ◦d0 +d−1 ◦0.
Agora, supponha que tenhamos construído di−1 : Pi−1 → Qi . Temos um diagrama
dQ (fi (p)−di−1 (dP (p))) = dQ (fi (p))−(fi−1 (dP (p)))+di−2 (dP (dP (p))) = dQ (fi (p))−dQ (fi (p)) = 0.
(B.32)
Portanto im(fi − di−1 ◦ dP ) ⊂ dQ (Qi+1 ). Assim, temos um diagrama de linha exata
Pi
f0 (B.33)
dQ
Qi+1 dQ (Qi+1 ) 0
0 N Q1 Q2 ···
conde cada linha é um complexo, com Qi injetivo para todo i ≤ 0 e com a linha superior exata.
Dado um morfismo
f : M → N,
0 M P0 P1 ···
f f0 f1
0 N Q0 Q1 ···
é comutativo. Mais ainda, se g • é um segundo morfismo com esta mesma propriedade, então
g • é homotópico a f • . ♡
267
B.2 Objetos Injetivos e Projetivos. Resoluções
Corolário B.2.13
Seja C uma categoria abeliana e M ∈ Obj(C).
(a) Sejam P• , P•′ duas resoluções projetivas de M e φ : P• → P•′ , ψ : P•′ → P• dois
levantamentos de idM . Então ψ • ◦ φ• é homotópica a idP• .
(b) Sejam I • , I ′• duas resoluções injetivas de M e φ• : I • → I ′• , ψ • : I ′• → I • dois
levantamentos de idM . Então ψ • ◦ φ• é homotópica a idI • . ♡
Sejam P• , P•′ duas resoluções projetivas de um mesmo R-módulo M . É possível obter uma
′
relação enre os núcleos ker Pn → Pn−1 e ker Pn → Pn−1 .
Teorema B.2.14 (Lema de Schanuel)
Seja C uma categoria abeliana, e considere duas sequências exatas curtas
f g
0→K→
− P →
− M → 0;
f′ g′
0 → K′ −
→ P′ −
→ M → 0.
268
B.2 Objetos Injetivos e Projetivos. Resoluções
dP ⊕idP ′
→ K → Pn → Pn−1 → · · · → P1 ⊕ P0′ −−−−−→
0
K0 ⊕ P0′ → 0
dP ′ ⊕idP0
(B.38)
′
0→K → Pn′ → ′
Pn−1 → ··· → P1′ ⊕ P0 −−−−−→ K0′ ⊕ P0 → 0
O resultado segue da hippótese de indução aplicada as sequências acima.
Os lemas de Schanuel também valem para o caso de resoluções injetivas. Enunciaremos os
resultados sem demonstração.
Teorema B.2.16 (Lema de Schanuel)
Seja C uma categoria abeliana, e considere duas sequências exatas curtas
f g
0→M →
− I→
− K → 0;
f′ g′
→ I′ −
0→M − → K ′ → 0.
Oos Lemas de Schanuel e seus corolários nos permitem definir duas noções importantíssimas em
álgebra homológica: as dimensões porojetiva e injetiva de um objeto M de uma categoria abeliana C.
Definição B.2.18
Seja C uma categoria com objetos projetivos o suficiente. A dimensão projetiva de M é definida
por
projdim M = min{n; existe resolução projetiva P• de M tal que Pm+1 = 0.}
♣
269
B.3 Funtores Derivados
Definição B.2.19
Seja C uma categoria com objetos injetivos o suficiente. A dimensão injetiva de M é definida
por
injdim M = min{n; existe resolução injetiva I • de M tal que I n+1 = 0.}
♣
É uma consequência imediata dos lemas de Schanuel que se projdim M = n e P• é uma resolução
projetiva de M, então ker(Pn−1 → Pn−2 ) é um objeto projetivo. Analogamente, se injdim M = n e
I • é uma resolução projetiva de M , entçao Coker(I n−2 → I n−1 ) é um objeto injetivo.
Demonstração Sejam I1• , I2• duas resoluções injetivas de M . Então existem levantamentos f • :
I1• → I2• , g • : I2• → I1• de idM . Mais ainda, f ◦ g e g ◦ f são homotópicas as respectivas identidades.
Desta forma, aplicando F em ambos os complexos, temos morfismos de complexos F(f • ) :
F(I1• ) → F(I2• ), G(g • ) : F(I2• ) → F(I1• ) cujas compostas são homotópicas a identidade. Desta
forma, H i (f • ) : H i (F(I1• )) → H i (F(I2• )) é um isomorfismo para todo i ≥ 0.
A demonstração acima pode ser adaptada para mostrar que a associação M → F i = H i (I • ) é
funtorial.
270
B.3 Funtores Derivados
Teorema B.3.2
Sejam C uma categoria abeliana com injetivos o suficiente,D uma categoria abeliana e F :
C → D um funtor aditivo, covariante e exato a esquerda e defina
F i (M ) = H i (F(I • )),
onde I • é uma resolução injetiva de M . Então para cada f ∈ HomC (M, N ), existe um
homomorfismo F i (f ) : F i (M ) → F i (N ) tal que F i é um funtor.
♡
•
Demonstração Sejam f : M → N um morfismo, IM uma resolução injetiva de M e IN• uma
resolução injetiva de N . Tome um levantamento φ• : IM•
→ IN• de f . Aplicando F e tomando
cohomologia, temos homomorfismos
H i (F(φ• )) : H i (F(IM
•
)) → H i (F(IN• )). (B.41)
Note que, como dois levantamentos de f são sempre homotópicos,H i (F(φ• )) é independente
das resoluções injetivas escolhidas e do levantamento escolhido. Assim, podemos definir F i (f ) =
H i ()F(φ• ). É imediato verificar que F i , com esta construção, é um funtor.
Definição B.3.3
Seja F : C → D um funtor adivito, covariante e exato à esquerda entre duas categorias
abelianas. Se C possui objetos injetivos o suficiente, então definimos o i-ésimo funtor derivado
à direita de F como o funtor
Ri F(□) = H i (F(I□• )),
Definição B.3.5
Seja F : C → D um funtor adivito, covariante e exato à direita entre duas categorias abelianas.
Se C possui objetos projetivos o suficiente, então definimos o i-ésimo funtor derivado à esquerda
de F como o funtor
Li F(□) = Hi (F(P•□ )),
271
B.3 Funtores Derivados
Definição B.3.6
Seja F : C → D um funtor adivito, contravariante e exato à direita entre duas categorias
abelianas. Se C possui objetos injetivos o suficiente, então definimos o i-ésimo funtor derivado
à esquerda de F como o funtor
Li F(□) = Hi (F(I□• )),
onde I□• é uma resolução injetiva qualquer de □.
♣
Demonstração Faremos a parte (a). A parte (b) é análoga. Defina B0 = A0 ⊕ C0 . Pela projetividade
de C0 , existe um homomorfismo ψ : C0 → B0 tal que dP = g ◦ ψ. Se φ = f ◦ dM , temos o sequinte
diagrama comutativo:
A1 C1
dA dC
0 A0 B0 = A0 ⊕ C0 C0 0 (B.42)
dM φ⊕ψ dP
f g
0 M N P 0
Vamos mostrar que o homomorfismo construído é sobrejetor. De fato, seja n ∈ N . Existe
c ∈ C0 tal que dP (c) = g(n). Assim, temos que n − (φ ⊕ ψ)(0, c) = f (m) para algum m ∈ M. Se
m = dM (a), é imediato verificar que n = (φ ⊕ ψ)(a, c).
Agora, pelo Teorema B.1.17, temos uma sequêncdia exata curta
e portanto podemos repetir a construção para esta sequência. O lema está demonstrado.
Teorema B.3.8
Seja F : C → D um funtor aditivo, covariante e exato à esquerda entre duas categorias
272
B.3 Funtores Derivados
F (f ) F (g)
0 F(A) F(B) F(C)
δ0
R1 F (g)
R1 F(A) R1 F(B) R1 F(C)
R1 F (f )
δ1
2 2 R2 F (g)
R F(A) R F(B) R2 F(C)
R2 F (f ))
δ2
···
Mais ainda, dado um diagrama comutativo de linhas exatas
f g
0 A B C 0
ψ φ
0 A′ f′
B′ g′
C′ 0
od diagramas induzidos
δi
Ri F(C) Ri+1 F(A)
Ri F (φ)) Ri+1 F (ψ))
δ ′i
Ri F(C ′ ) Ri+1 F(A′ )
são comutativos. ♡
Demonstração Ŝejam IA• , IC• resoluções injetivas de A, C respectivamnente. Pelo lema da sela
de cavalo, podemos construir uma resolução injetiva IB• que se encaixa em uma sequência exata que
cinde
0 → IA• → IB• → IC• → 0 (B.44)
Portanto, ao aplicar o funtor F a sequência exata acima, obtermos uma sequência exata de
complexos
0 → F(IA• ) → F(I • ) → F(IC• ) → 0. (B.45)
273
B.3 Funtores Derivados
Se IA• , IB• , IA• ′ , IB• ′ são resoluções injetivas de objetos A, B, A′ , B ′ e dado um diagrama comutativo,
f
A B
φ ψ (B.46)
A′ g B′
então podemos tomar levantamentos f • , g • , φ• , ψ• de f, g, φ, ψ tais que os diagramas
fj
IAj IBj
φj ψj
(B.47)
IAj ′ IBj ′
gj
F (g) F (f )
0 F(C) F(B) F(A)
δ0
R1 F (f )
R1 F(C) R1 F(B) R1 F(A)
R1 F (g)
δ1
2 2 R2 F (f )
R F(C) R F(B) R2 F(A)
R2 F (g))
δ2
···
Mais ainda, dado um diagrama comutativo de linhas exatas
f g
0 A B C 0
ψ φ
0 A′ f′
B′ g′
C′ 0
od diagramas induzidos
274
B.3 Funtores Derivados
δi
Ri F(A) Ri+1 F(C)
Ri F (ψ) Ri+1 F (φ)
δ ′i
Ri F(A′ ) Ri+1 F(C ′ )
são comutativos. ♡
Demonstração Provamos o resulktado por indução. Como F é exato à esquerda, segue que
H 0 (J • ) = F(M ) = R0 F(M ). Seja K 1 = ker J 1 → J 2 . Temos sequências exatas
0 → M → J 0 → K1 → 0 (B.48)
0 → K1 → J 1 → K 1 → . . . (B.49)
Da sequência exata longa de cohomologia aplicada a primeira das sequências exatas, temos a
sequência exata
275
B.3 Funtores Derivados
Ester fato, somado aos isomorfismos Ri−1 F(K 1 ) → Ri F(M ), i ≥ 2, fazem a prova seguir por
indução em i.
Convidamos o estudante a prover os enunciados para os casos restantes.
Definição B.3.12
Sejam F i : C → D, i ≥ 0, uma família de funtores aditivos e covariantes entre duas categorias
abelianas C, D. Dizemos que esta família é uma família fortemente conectada se:
(a) F 0 é um funtor exato à esquerda.
(b) Para cada sequência exata curta
f g
0→M →
− N→
− P → 0,
existem morfismos δ i : F i (C) → F i+1 (A) tal que a sequência longa
F i (g) δi F i+1 (f )
· · · F i (B) −−−→ F i (C) −
→ F i+1 (A) −−−−→ F i+1 (B) → · · ·
Mais ainda, dado um morfismo entre duas sequências exatas curtas, os diagramas induzidos
pelos funtores F i são todos comutativos. ♣
Comentário Podemos enfraquecer a definição acima retirando a exigência do item (a) e pedindo que
a sequênica exata do item (b) seja apenas um complexo. NEste caso, dizemos que {F i }i≥0 é uma
sequência conectada de funtores.
Também é possível fornecer definições para o caso F 0 contravariante e para os casos F0 exato à
esquerda.
Sejam {Fi }, {Gi }, i ≥ 0 duas famílias fortemente conectadas de funtores aditivos e covariantes
entre duas categorias abelianas. UMa pergunta natural é: dada uma transformação natural ⊖0 : F 0 →
G 0 , é possível obter transformações naturais Ψi : F i → G i tais que morfismos de sequências exatas
curtas induzam morfismos entre as sequências exatas longas induzidas? Neste sentido, temos:
Teorema B.3.13
Sejam {F i }, {G i }, i ≥ 0 duas famílias fortemente conectadas de funtores aditivos e covariantes
entre duas categorias abelianas e suponha que C possui injetivos o suficiente. Se
1. Ψ0 : F 0 → G 0 é uma transformação natural.
2. F i (I) = 0 para todo objeto injetivo I.
Então existem transformações naturais Ψi : F i → G i , i ≥ 0 tais que, dado um morfismo de
entre duas sequências exatas curtas, oas transformações naturais Ψi induzem um morfismo de
sequências exatas longas associadas as famílias de funtores.
Mais ainda, se Ψ0 é um isomorfismo de funtores e G i (I) = 0 para todo objeto injetivo I. , então
cada Ψi é um isomorfismo de funtores. ♡
sequência exata curta com I injetivo. Analisando as famílias conectadas, temos um diagrama de linhas
276
B.3 Funtores Derivados
exatas
0
F 0 (φ) F 0 (ψ) δF
0 F 0 (M ) F 0 (I) F 0 (K) F 1 (M ) 0
Ψ0 (M ) Ψ0 (I) Ψ0 (K) (B.53)
0 G 0 (M ) G 0 (I) G 0 (K) G 1 (M ) 0
G 0 (φ) G 0 (I) 0
δG
Podemos definir Ψ1 (M )(m) da seguinte forma: escolha k ∈ F 0 (K) com δF0 (k) = m. É imediato
verificar que δG0 ◦ Ψ0 (K)(k) independe da escolha de k. Assim, podemos definir
É preciso mostrar que este homomorfismo não depende da escolha da injeção φ : M → I e que,
dado um morfismo f ∈ HomC (M, N ) o diagrama
F 1 (f )
F 1 (M ) F 1 (N )
Ψ1 (M ) Ψ1 (N ) (B.55)
G 1 (M ) G 1 (M )
G 1 (f )
i
δF
0 F i (K) F i+1 (M ) 0
Ψi (K) (B.56)
G I (I) G i (K) i
G i+1 (M ) G i+1 (I)
δG
e portanto podemos definir Ψi (M ) = δGi ◦ Ψi (K) ◦ (δFi )−1 . A conclusão final segue diretamente dos
diagramas envolvidos.
Comentário A demostração do Teorema acima não exige que a sequência exata longa associada a
família {G i } seja exata.
Comentário As hipóteses do teorema acima podem ser enfraquecidas se introduzirmos a noção de
funtores apagáveis. Dada uma família fortemente conectada de funtores covariantes F i , i ≥ 0 com
F 0 exato à esquerda, dizemos que esta família é apagável se, para todo objeto M ∈ Obj C, existe um
monomorfismo f : M → I com F i (f ) = 0 para todo i > 0. Desta forma, é possível mostrar que
podemos trocar a hipótese (a) do Teorema anterior para {F i } apagável.
O Teorema acima também tem as suas modificações. Deixaremos explícito o caso em que F
é contravariante e exato à esquerda. Os enunciados das versões correspondentes a funtores exatos à
direita são deixadas para o estudante.
277
B.4 Sequências Espectrais
Teorema B.3.14
Sejam {F i }, {G i }, i ≥ 0 duas famílias fortemente conectadas de funtores aditivos e con-
travariantes entre duas categorias abelianas e suponha que C possui projetivos o suficiente.
Se
1. Ψ0 : F 0 → G 0 é uma transformação natural.
2. F i (P ) = 0 para todo objeto injetivo I.
Então existem transformações naturais Ψi : F i → G i , i ≥ 0 tais que, dado um morfismo de
entre duas sequências exatas curtas, as transformações naturais Ψi induzem um morfismo de
sequências exatas longas associadas as famílias de funtores.
Mais ainda, se Ψ0 é um isomorfismo de funtores e G i (I) = 0 para todo objeto projetivo P . ,
então cada Ψi é um isomorfismo de funtores. ♡
ψji
H i (Fk• )) H i (Fj• )) H i (F • )) (B.57)
ψki
278
B.4 Sequências Espectrais
M ι
M π
M Fp•
•
0→ Fp−1 →
− Fp• →
− •
→ 0. (B.63)
p∈Z i∈Z p∈Z
F p−1
M
N = H( Fp• /Fp+1
•
), N p,q = Hp+q (Fp• /Fp+1
•
). (B.65)
p∈Z
(B.66)
δ H(π)
N = H( Fp• /Fp+1
•
L
))
onde:
H(ι) é, em bigrau (p, q), o homomorfismo H p+q (Fi ) → H p+q (Fi+1 ) induzidos pela inclusão
Fp• ⊂ Fp+1
•
. O homomorfismo H(ι) possui bigrau (1, −1).
H(π) é, em bigrau (p, q), dado pelo homomorfismo H p+q (Fi• ) → H p+q (Fp• /Fp+1
•
) induzidos
• • •
pela projeção Fp → Fp /Fp+1 . Ele possui bigrau (0, 0).
δ é, em bigrau (p, q) o homomorfismo de conexão H p+q (Fp• /Fp+1
•
) → H p+q+1 (Fp+1•
). Ele
possui bigrau (−1, 0).
im H(ι) = ker H(π), im H(π) = ker δ, im δ = ker H(ι).
Isto nos motiva a estabelecer a seguinte definição:
279
B.4 Sequências Espectrais
Definição B.4.1
Um par exato é uma quíntupla (M, N, φ, ψ, µ) onde
(a) M, N são dois R-módulos;
(b) φ ∈ HomR (M, M ), ψ ∈ HomR (M, N ), µ ∈ HomR (N, M );
(c) im φ = ker ψ, im ψ = ker µ, im µ = ker φ. ♣
Observe que, na situação do diagrama (B.66), temos que H(ι)′ possui bigrau (−1, 1).
Agora, vamos definir ψ ′ : M ′ → N ′ . Seja m ∈ M ′ e m′ tal que φ(m′ ) = m. Temos que
ψ(m′ ) ∈ ker d. De fato, d(m′ ) = ψ ◦ µ ◦ ψ(m′ ) = 0. Deixamos como exercício para o leitor que a
classe ψ(m′ ) ∈ H(N ) é independente da escolha de m′ , e portanto ψ ′ está bem definida.
Observe que, na situação do diagrama (B.66), temos que H(π)′ possui bigrau (1, −1).
Agora precisamos definir µ′ : N ′ → M ′ . Para isto, tome z ∈ ker d. Assim, temos que ψ◦µ(z) = 0
e portanto µ(z) = φ(m) para algum m ∈ M. Se z − z ′ = d(n) para algum n ∈ N , temos que
µ(z − z ′ ) = µ(d(n)) = µ ◦ ψ ◦ µ(n) = 0. Assim, podemos definir µ′ (z) = µ(z), pois este elemento
depende apenas da classe de homologia de z.
Teorema B.4.2
Seja (M, N, φ, ψ, µ) um par exato. Então, na construção acima, (M ′ , N ′ , φ′ , ψ ′ , µ′ ) é um par
exato. ♡
Demonstração Temos que se a = φ(a′ ) ∈ im φ, então ψ ′ (φ′ (a)) = ψ(φ(φ(a′ ))) = 0 pois ψ ◦φ = 0.
Portanto ψ ′ ◦ φ′ = 0.
Ainda sobre a, µ′ ◦ ψ ′ (a) = µ′ (ψ(a′ )) = µ ◦ ψ(a′ ) = 0. Portanto µ′ ◦ ψ ′ = 0.
Agora, seja n ∈ N ′ = H(N ). Temos que φ′ ◦ µ′ (n) = φ(µ(n)) = 0. Assim, φ′ ◦ µ′ = 0.
Provemos agora que ker φ′ = im µ′ . De fato, se a = φ(a′ ), então φ′ (a) = φ(a) = 0 e portanto
a = µ(n), n ∈ N. Agora, d(n) = ψ ◦ µ(n) = ψ(a) = ψ ◦ φ(a′ ) = 0. Logo a = µ′ (n).
Vejamos agora que ker ψ ′ = im φ′ . De fato, seja a = φ(a′ ). ψ ′ (a) = 0 implica que ψ(a′ ) =
ψ(µ(n)) para algum n ∈ N. Logo a′ − µ(n) = φ(a′′ ) o que implica que a = φ(a′ ) = φ ◦ φ(a′′ ) =
φ′ (φ(a′′ )). Assim, a ∈ im φ′ .
Resta provarmos que ker µ′ = im ψ ′ . Para isto, seja n ∈ H(N ) e tal que µ′ (n) = µ(n) = 0. Logo
existe m ∈ M tal que ψ(m) = n. Assim ψ ′ (φ(m)) = ψ(m) = n. O Teorema está demonstrado.
280
B.4 Sequências Espectrais
Definição B.4.3
Seja (M, N, φ, ψ, µ) um par exato. Definomos o r-ésimo par exato derivado
r r r r r
(M , N , φ , ψ , µ ) da seguinte forma:
(a) (M 0 , N 0 , φ0 , ψ 0 , µ0 ) = (M, N, φ, ψ, µ);
(b) (M r+1 , N r+1 , φr+1 , ψ r+1 , µr+1 ) = ((M r )′ , (N r )′ , (φr )′ , (ψ r )′ , (µr )′ ).
♣
281
B.4 Sequências Espectrais
Definição B.4.5
Seja (E r , dr ), r ≥ 1 uma sequência espectral. Definimos os termos limites
\
Z∞ = Zr
r≥1
[
∞
B = Br
r≥1
E ∞ = Z ∞ /B ∞ .
♣
Definição B.4.6
Uma filtração Fi de um R-módulo F é dita uma filtração limitada se existem n ≤ m tais que
Fn = 0 e Fm = F. ♣
Em outras palavras, dizemos que uma sequência espectral converge para H se existe uma filtração
limitada de H de forma que o termo limite E r guarde todos os quocientes associados a esta filtração.
Costumeiramente, denotamos os termos de uma etapa de uma sequência espectral como os pontos
do reticulado Z2 :
.. .. .. .. .. .. .. ..
. . . . . . . .
r r r r r r r
··· E−3,1 E−2,1 E−1,1 E0,1 E1,1 E2,1 E3,1
r r r r r r r
··· E−3,0 E−2,0 E−1,0 E0,0 E1,0 E2,0 E3,0
r r r r r r r
··· E−3,−1 E−2,−1 E−1,−1 E0,−1 E1,−1 E2,−1 E3,−1
. .. .. .. .. .. .. ..
.. . . . . . . .
(B.72)
282
B.4 Sequências Espectrais
Já os quocientes das filtrações aparecem nas diagonais cuja soma dos índices (p, q) é constante :
H −2 H −1 H0 H1 H2 H3 ···
.. .. .. .. .. .. ..
H −3 . . . . . . .
.. ∞ ∞ ∞ ∞ ∞ ∞
. ··· E−3,1 E−2,1 E−1,1 E0,1 E1,1 E2,1
∞ ∞ ∞ ∞ ∞ ∞
··· E−3,0 E−2,0 E−1,0 E0,0 E1,0 E2,0
∞ ∞ ∞ ∞ ∞ ∞
··· E−3,−1 E−2,−1 E−1,−1 E0,−1 E1,−1 E2,−1
. .. .. .. .. .. ..
.. . . . . . .
(B.73)
283
Apêndice C Álgebra Comutativa
para todos a, b, c ∈ R;
(c) A operação · admite um elemento neutro 1 = 1R ̸= 0R ;
(d) A operação · é distributiva com respeito a +, isto é
a · (b + c) = a · b + a · c
para todos a, b, c ∈ R. ♣
Definição C.1.3
A categoria Ring é a categoria onde os objetos são os anéis comutativos com unidade e os
morfismos são os homomorfismos de anéis. ♣
Definição C.1.4
Seja R um anel comutativo com unidade. Um subconjunto I ⊂ R é um ideal se:
(a) 0 ∈ I;
(b) Se a, b ∈ R, então a + b ∈ I;
C.1 Anéis e Ideais
Ideais podem ser operados para construir novos ideais. O próximo teorema indica as operações
entre ideais que serão utilizadas no texto.
Teorema C.1.5 (Operações entre Ideais)
Sejam R um anel e I, J ideais.
(a) I + J = {a + b; a ∈ I, b ∈ J} é um ideal de R, chamado de soma de i e J. É o menor
ideal que contém a união I ∪ J.
(b) I ∩ J é um ideal de R.
n
P
(c) IJ = { ai bi ; ai ∈ I, bi ∈ J} é um ideal de R, chamado de produto entre os ideais I, J.
i=1
(d) (I : J) = {a ∈ R; aJ ⊂ I} é um ideal de R, chamado de ideal quociente de I por J
√
(e) I = {f ∈ R : f n ∈ I para algum n ∈ N}
Mais ainda, se {Iλ ; λ ∈ L} é uma família de ideais, são ideais
X Xn
Iλ = { aλi ; aλi ∈ Iλi }
λ∈L i=1
e \
Iλ
λ∈L
são ideais de R. ♡
285
C.1 Anéis e Ideais
286
C.1 Anéis e Ideais
Teorema C.1.8
Sejam R um anel, I ⊂ R um ideal e πI : R → R/I a projeção canônica.
(a) Se J ⊂ R/I é um ideal, então πI−1 (J) é um ideal de R contendo I.
(b) Se J ⊂ I é um ideal de R, então πI (J) é um ideal de R/I e πI−1 (πI (J)) = J + I.
(c) Se
A = {J ⊂ R ideal; I ⊂ J}
e
B = {J ⊂ R/I ideal de R/I},
então a função
Ψ: A → B
J → πI (J)
é uma bijeção que preserva inclusão.
♡
287
C.1 Anéis e Ideais
Teorema C.1.12
Sejam R um anel e m ⊂ R um ideal. São equivalentes:
1. m é um ideal maximal.
2. Se b ∈ R e b ∈
/ m, então existem m ∈ m e r ∈ R com m + rb = 1.
3. R/m é um corpo.
♡
Teorema C.1.13
Sejam φ : R → S um homomorfismo de anéis e q ⊂ S um ideal.
(a) Se q é um ideal primo, então φ−1 (q) é um ideal primo.
(b) Se q é um ideal radical, então φ−1 (q) é um ideal radical.
.
Em particular, φ define uma função φ∗ : Spec(S) → Spec(R) dada por φ∗ (q) = φ−1 (q).
♡
Definição C.1.14
Seja R um anel.
(a) O nilradical nilrad(R) de R é a interseção de todos os ideais primos de R.
(b) O radical de Jacobson Jac(R) é a interseção de todos os ideais maximais de R.
♣
Teorema C.1.15
Seja R um anel.
p
(a) nilrad(R) = {a ∈ R; an = 0 para algum n ≥ 0}, isto é, nilrad(R) = (0).
(b) Jac(R) = {a ∈ R; 1 − xa é uma unidade para todo x ∈ R}
♡
Uma consequência imediata do teorema acima é a descrição do que é o radical de um ideal através
dos ideais primos que os contém.
288
C.2 Módulos
Teorema C.1.16
Sejam R um anel comutativo e I ⊂ R um ideal. Então
√ \
I= p.
p∈V(I)
♡
para algum i.
(b) Sejam I1 , . . . , In ideais de R e p um ideal primo contendo nj=1 Ij . Então p contém algum
T
Ij .
♡
segue pela hipótese de indução). Por indução existe, para cada 1 ≤ i ≤ n, xi ∈ R tal que
[
xi ∈ I e xi ∈
/ pj . (C.3)
j̸=i
Se xi ∈
/ pi , para algum I o teorema está provado. Caso contrário, temos que
n Y
X
xj ∈ I (C.4)
i=1 j̸=i
mas não pertence a nenhum dos ideais primos pi .
Para provar (b), suponha que p ̸⊃ Ij para todo 1 ≤ j ≤ n Portanto, existem xi ∈ Ij \ p e portanto
n
\
x 1 . . . xn ∈ Ij \ p. (C.5)
j=1
C.2 Módulos
289
C.2 Módulos
290
C.2 Módulos
(m + m′ , n) − (m, n) − (m′ , n)
Demonstração
K → N → L → 0 é exata ⇐⇒
0 → HomR (L, P ) → HomR (N, P ) → HomR (K, P ) → 0 é exata para todo P ∈ ModR =⇒
0 → HomR (M, HomR (L, P )) → HomR (M, HomR (N, P )) → HomR (M, HomR (K, P )) é exata para todo P ∈ M
291
C.3 Condições de Cadeia: Anéis e Módulos Noetherianos e Artinianos
Definição C.3.2
Dizemos que um anel R é noetheriano (resp. artiniano) se R é noetheriano (resp. artiniano)
como R-módulo. ♣
Teorema C.3.5
Se R é um anel noetheriano (resp. artiniano), então todo R-módulo finitamente gerado é
noetheriano (resp. artiniano). ♡
292
C.3 Condições de Cadeia: Anéis e Módulos Noetherianos e Artinianos
Definição C.3.6
Seja M um R-módulo. Uma série de composição para M é uma cadeia de submódulos
0 ⊂ M1 ⊂ M2 ⊂ M3 ⊂ · · · ⊂ Mn = M
tal que Mi /Mi−1 é um submódulo simples. (Um R- módulo M é simples se os unicos submódulos
de M são 0 e M . Observe que M é simples se, e somente se, M ≃ R/m para um ideal maximal
m.) O número n é chamado de comprimento da série de composição.
♣
Um R módulo M pode ou não admitir uma série de composição. Os que admitem uma tal série
possuem uma nomenclatura especial.
Definição C.3.7
Um R−módulo M que admite uma série de composição é dito um R-módulo de comprimento
finito. ♣
Teorema C.3.8
Seja M um R-módulo.
(a) M é um R-módulo de comprimento finito se, e somente se, é noetheriano e artiniano.
(b) (Jordan-Hölder) Se M tem comprimento finito, entào todas as séries de composição de
M possuem o mesmo comprimento. Mais ainda, a quantidade de quocientes isomorfos a
R/m para m ⊂ R maximal é igual para todas as séries de composição.
♡
Definição C.3.9
Seja M um R-módulo de comprimento finito. O comprimento l(M ) de M é o comprimento de
alguma série de composição de M .
♣
293
C.4 Localização e Anéis Locais
é noetheriano se R é noetheriano. ♡
O anel S −1 R é único no sentido de que satisfaz uma propriedade universal. Assim, além de ter
uma receita de como construir homomorfismos de anéis partindo de S −1 R, também temos uma forma
294
C.4 Localização e Anéis Locais
295
C.4 Localização e Anéis Locais
Demonstração Sejam s, a como nas condições do enunciado. Então iS (a) = a/1 = as/s = 0/s =
0/1.
Reciprocamente, a/1 = 0/1 implica, por definição, que existe s ∈ S com 0 = s(a·1−1·0) = as.
Como ss′ ∈
/ p, ou a ∈ p ou b ∈ p e portanto S −1 p é primo.
296
C.4 Localização e Anéis Locais
ϕ : S −1 R ⊗R M → S −1 M
(C.11)
(a/s) ⊗ m → am/s
Agora, não é difícil mostrar que a função
ψ : S −1 M → S −1 R ⊗R M
(C.12)
m/s → 1/s ⊗ m
é bem definida e é o homomorfismo inverso de ϕ.
Passo 2: im S −1 φ = ker S −1 ψ.
Pela funtorialidade da localização, temos que im S −1 φ ⊂ ker S −1 ψ. Temos que mostrar a inclu-
são reversa.
Seja m/s ∈ ker §−1 ψ. Daí, sm/s = m/1 ∈ ker S −1 ψ. Assim, existe s′ ∈ S tal que s′ ψ(m) = 0,
ou seja, s′ m ∈ ker ψ = im φ. Tome então m′ ∈ M ′ com φ(m′ ) = s′ m. Daí
S −1 φ(m′ /ss′ ) = s′ m/ss′ = m/s. (C.14)
297
C.4 Localização e Anéis Locais
Passo 3: Coker S −1 ψ = 0.
Demonstração A única afirmação não-trivial é que (c) =⇒ (a). Suponha então que Mm = 0 para
todo ideal maximal m de R. Se m ∈ M \ {0}, então AnnR (m) ̸= R e, pelo Lema de Zorn, existe um
ideal maximal m ⊃ AnnR (m). Agora m ∈ ker im se, e somente se, existe s ∈
/ m com sm = 0, o que
é impossível, pois m ⊃ AnnR (m).
Teorema C.4.13
Seja R um anel e m um ideal com a seguinte propriedade:
x ∈ R \ m =⇒ x é invertível em R.
Então R é um anel local com ideal maximal m ♡
Já vimos no Exemplo C.2 que uma maneira de construir anéis locais a partir de um anel comutativo
qualquer é localizando em algum ideal primo p ∈ Spec(R).
298
C.4 Localização e Anéis Locais
Teorema C.4.15
Seja R um anel e M um R-módulo finitamente gerado. Se I ⊂ Jac(R) é tal que M = IM,
então M = 0. ♡
Demonstração O item (a) segue do Teorema anterior, pois Jac(R) = m. Para o item b, basta provar
que se m̄1 , . . . , m̄n é um conjunto gerador de M/mM sobre k, então M = Rm1 + · · · + Rmn .
Defina então N = Rm1 + · · · + Rmn . Então
299
C.5 Extensões de Anéis
Definição C.5.2
Sejam R um anel e S, S ′ R-álgebras com homomorfismos estruturais φ, φ′ respectivamente.
Um homomorfismo de R-álgebras é um homomorfismo de anéis ’f : S → S ′ tal que φ′ = f ◦ φ. ♣
Tomando como definição de objetos como as R-álgebras e como morfismos a definição acima,
obtemos a categoria das R-álgebras, denotada por AlgR
Note que se S é uma R-álgebra, então S possui uma estrutura de R-módulo dada por
r · s = φ(r)s, r ∈ R, s ∈ S.
Para facilitar a notação, é comum identificar R/ ker φ com im φ e escrever R ⊂ S. Neste caso, a
estrutura de R-módulo em S é dada pela multiplicação de elementos de S por elementos de R.
300
C.5 Extensões de Anéis
Teorema C.5.3
Seja RR um anel. O anel se polinômios em n variáveis
S = R[x1 , . . . , xn ]
é uma R-algebra e possui a seguinte propriedade universal: Se T é uma segunda R-álgebra e
t1 , . . . , tn ∈ T, então existe um único homomorfismo de R-álgebras
ψ:S→T
tal que ψ(xi ) = ti . Em outras palavras,
HomAlgR (S, T ) ≃ T n .
♡
Definição C.5.4
Seja R um anel.
(a) Uma R-álgebra S é dita finita sobre R se S é um R-módulo finito.
(b) Uma R-álgebra S é dita finitamente gerada sobe R se existe um homorfismo de R-álgebras
sobrejetivo
R[x1 . . . , xn ] −→ S.
♣
Observação Em termos terrenos: se existem x1 , . . . , xn ∈ S tal que todo elemento de S é um
polinômio em x1 , . . . xn com coeficientes em R dizemos que S é um R-álgebra finitamente gerada.
Se todo elemento de S é uma combinação linear de x1 , . . . , xn com coeficientesem R dizemos que S
é uma R-álgebra finita.
Definição C.5.5
Sejam R ⊂ S anéis. Dizemos que s ∈ S é inteiro sobre R se existe um polinômio mônico
f (x) ∈ R[x] tal que f (s) = 0.
♣
Lema C.5.6
Sejam R ⊂ S ⊂ T anéis.
(a) Se T é finito sobre S e S é finito sobre R, então T é finito sobre R.
(b) Se S é finito sobre R, então todo elemento de S é integral sobre R.
(c) Se s ∈ S é integral sobre R, então R[s] é uma R-álgebra finita.
♡
P
Demonstração (a)Se T = St1 + · · · + Stn e S = Rs1 + . . . Rsm , então T = Rti sj .
(b)
(c) Seja f (x) ∈ R[x] um polinômio mônico tal que f (s) = 0. É claro que (f (x)) ⊂ kerφ,
onde φ : R[x] → R[s] é definida por φ(g(x)) = g(s). Como R[x]/(f ()x)) é gerado como R-módulo
pelas imagens de 1, x, . . . , xdeg f −1 ,
R[s] = R + Rs + · · · + Rsdeg f −1 .
301
C.5 Extensões de Anéis
Lema C.5.7
Seja k um corpo infinito e f ∈ k[x1 , . . . , xn ] um polinômio de grau d. Então existem
α1 , . . . , αn−1 tais que
Assim, basta escolher α1 , . . . , αn−1 tais que Fd (α1 , . . . , αn−1 , 1) ̸= 0, o que é possível pois k é
infinito.
Lema C.5.9
Sejam A ⊂ B anéis tais que B é uma A-álgebra finita. Se B é um corpo, então A é um corpo. ♡
Demonstração Seja a ∈ A. Como B é uma A-álgebra finita, a−1 ∈ B é um elemento integral sobre
302
C.6 Primos Associados e Decomposição Primária
Teorema C.6.2
Seja R um anel noetheriano e M um R-módulo. Então Ass(M ) ̸= ∅
♡
Teorema C.6.4
Seja 0 → M ′ → M → M ′′ → 0 uma sequência exata de R-módulos. Então
Ass(M ′ ) ⊂ Ass(M ) ⊂ Ass(M )′ ∪ Ass(M ′′ ).
♡
303
C.6 Primos Associados e Decomposição Primária
Os primos associados podem nãos e comportar bem com respeito aos quocientes, mas se com-
portam bem com relação a localização.
Teorema C.6.5
Seja R um anel Noetheriano e M um R-módulo finitamente gerado. Então
AssRp Mp = {qRp ; q ∈ Ass M e q ⊂ p}.
♡
Demonstração Pelo Teorema C.6.5, Ass Mp = {qRp ; q ∈ Ass(M ), q ⊂ p)}. Por outro lado, como
p é minimal sobre Ann M, temos que Mq = 0 para todo q ⊂ p e portanto
AssRp Mp ⊂ {pRp .} (C.17)
Como, pelo Teorema C.6.2 AssRp Mp ̸= ∅, temos igualdade na inclusão acima e, portanto,
p ∈ Ass M .
Definição C.6.7
Sejam R um anel, M um R-módulo e p ∈ Spec R. N é dito um submódulo p- primário(ou,
simplesmente, primário,) se
Ass(M/N ) = {p}.
Teorema C.6.8
Sejam R um anel, M um R-módulo e N ⊂ M um submódulo. São equivalentes:
(a) Se m ∈/ N e αm ∈ N para algum a ∈ R então αn M ⊂ N para n suficientemente grande.
p
(Equivalentemente, a ∈ Ann(M/N ))
(b) N é um submódulo primário de M
Mais ainda, no caso em que as condições acima são satisfeitas, temos que Ann(M/N ) é um
p
ideal primário de R e Ass(M/N ) = Ann(M/N ).
♡
304
C.6 Primos Associados e Decomposição Primária
p
α, m é um par de elementos satisfazendo as condições do item (a), temos α ∈ Z(M ) = Ann M/N
e portanto an M ⊂ N para n suficientemente grande.
Definição C.6.9
Sejam R um anel, M um R-módulo e N um submódulo de M . DIzemos que N é irredutível se
N = N1 ∪ N2 =⇒ N = N1 ou N = N2 . ♣
Teorema C.6.10
Sejam R um anel e M um R-módulo.
(a) Se N é um submódulo irredutível de M , então N é primário.
(b) Se R é um anel noetheriano e M é finitamente gerado, então todo submódulo N ⊂ M é
uma interseção finita de submódulos irredutíveis.
♡
Demonstração (a) : Suponha que N não e primário. Então existem p, q ∈ Ass(M/N ) ideais primos
distintos e, portanto, dois elementos distintos m1 + N, m2 + N ∈ M/N com p = Ann(m1 + N ), q =
Ann(m2 + M ). Afirmamos que
N = (Rm1 + N ) ∩ (Rm2 + N ). (C.18)
De fato, se n ∈ (Rm1 + N ) ∩ (Rm2 + N ), entã0 (n + N ) ∈ R(m1 + N ) ∩ R(m2 + N ). Daí, se
(n + N ) ̸= 0 + N , teríamos
p = Ann(n + N ) = q (C.19)
305
C.7 Anéis e Módulos Graduados
Teorema C.6.12
Sejam R um anel noetheriano, M um R-módulo finitamente gerado e N ⊂ M um submódulo.
Então existe uma decomposição N = N1 ∩ N2 ∩ · · · ∩ Nm tal que:
(a) Ni é pi -primário;
(b) Se i ̸= j, pi ̸= pj ;
(c) Ass(M/N ) = {p1 , . . . , pm }.
Em particular, Ass(M, /N ) é sempre um conjunto finito.
♡
306
C.7 Anéis e Módulos Graduados
Definição C.7.1
Seja G um grupo abeliano com identidade e. Um anel comutativo R é dito um anel G-graduado
se existe uma decomposição em soma direta
M
R= Rg
g∈G
(a) Cada Rg é um Re -módulo.
(b) Para cada par g, g ′ ∈ G, Rg · Rg′ ⊂ Rgg′ .
♣
Teorema C.7.4
L √
Seja R = g∈G Rg um anel G-graduado e I um ideal homogêneo. Então I também é um
ideal homogêneo. ♡
307
C.8 Decomposição Primária em Anéis Graduados
Definição C.7.5
L
Seja R = g∈G Rg um anel G-graduado e S ⊂ R um conjunto multiplicativo formado apenas
por elementos homogêneos. A localização homogênea de R com respeito a S é o anel
R(S) = (S −1 R)0 .
♣
L
Exemplo C.1 Seja R = g∈G Rg um anel graduado e p ∈ Spec(R) um ideal primo homogêneo.
Então o conjunto
S = {s ∈ R homogêneo ; s ∈
/ p} (C.25)
308
C.9 Teoria de Dimensão
Definição C.9.2
Seja R um anel noetheriano e M um R-módulo. A dimensão de M é definida por
dim M = dim R/ Ann M,
onde a última dimensão é a dimensão de Krull do anel R/ Ann M.
♣
Demonstração Escreva R = k[x1 , . . . , xn ]/p. Resta provar que tr. degk Frac(R) ≤ dim R. Se
dim R = 0, então R é um corpo e p é um ideal maximal. Observe que neste caso, R é algébrico sobre
k e portanto dim R = tr. degk R = 0.
Suponha então tr. degk R = r. Então podemos escrever R = k[α1 , . . . , αn ] com α1 , . . . , αr base
de transcendência de L = Frac(R) sobre k. Se S = k[x1 ] \ 0, temos S ∩ p = ∅ e
k[x1 , . . . , xn ]S /pk[x1 , . . . , xn ]S = k(α1 )[α2 , . . . , αn ] (C.28)
e tr. degk(x1 ) L = r − 1 ≤ dim k[x1 , . . . , xn ]S /pk[x1 , . . . , xn ]S por indução.
Sejam 0 = q0 ⊊ q1 ⊊ · · · qr−1 uma cadeia de ideais primos em k[x1 , . . . , xn ]S /pk[x1 , . . . , xn ]S
e seja p = p0 ⊊ p1 ⊊ · · · pr−1 a contração desta cadeia em k[x1 , . . . , xn ]. Como pr−1 ∩ S = ∅, segue
309
C.9 Teoria de Dimensão
que x¯1 ∈ Frac k[x1 , . . . , xn ]/pr−1 não é algébrico sobre k. Assim k[x1 , . . . , xn ]/pr−1 não é um corpo,
e portanto pr−1 não é maximal.
Se R é uma k-álgebra finitamente gerada que não é um domínio, então é possível mostrar que
dim R = max{dim k[x1 , . . . , xn ]/p; p ∈ Assk [x1 , . . . , xn ](R)} (C.29)
Teorema C.9.7
L
Sejam R = d≥0 Rd uma R0 -álgebra graduada finitamente gerada com R0 artiniano e M
um R-módulo graduado. Então HSM (t) é uma função racional. Mais precisamente, se
R = R0 [x1 ,′ dots, xn ], e ′ degxi = di , então existe f (t) ∈ Z[t] tal que
f (t)
HSM (t) = Qn di
i=1 (1 − t ) ♡
310
C.9 Teoria de Dimensão
O lado esquerdo da equação acima é formado por séries de Hilbert de módulos graduados sobre
R/xn R, que é uma R0 -álgebra graduada gerada por x1 , . . . , xn−1 e portanto
f (t)
Qn−1 . (C.32)
di
i=1 (1 − t )
Por outro lado,
X X
HSM [−di ] (t) = l(M [−di ]d )td = l(Md−di )td−di tdn = tdn HSM (t) (C.33)
d≥0 d≥0
e isto completa a demonstração do Teorema.
O Teorema acima possui uma consequência interessante quando R é uma R0 -álgebra graduada
padrão, ou seja, quando R é gerada sobre R0 por elementos de grau 1. Neste caso, podemos escrever
f (t)
HSM (t) = , f (t) = a0 + · · · + am xm , an ̸= 0, f (1) ̸= 0. (C.34)
(1 − t)d
Agora, no anel se séries formais Z[[t]], temos
∞
1 X d+i−1 i
= t (C.35)
(1 − t)d i=0
d − 1
e portanto para j ≥ m temos
d+j−1 d+j−2 d+j−m
HFM (j) = l(Mj ) = a0 + a1 + ··· + am (C.36)
d−1 d−1 d−1
Observe que cada coeficiente binomial d+j−k
d−1
, 0 ≤ k ≤ m é um polinômio em j com coeficientes
racionais. Mais ainda, reorganizando os termos dos coeficientes binomiais, temos
f (1) d−1
HFS M (j) = j + termos de grau menor. (C.37)
(d − 1)!
Assim, provamos
Teorema C.9.8
L
Sejam R = d≥0 Rd uma R0 -álgebra graduada finitamente gerada por elementos de grau 1 e
M um R-módulo graduado finitamente gerado. Então existe um polinômio PM (t) tal que
HFM (t) = PM (t)
para t suficientemente grande. ♡
311
C.9 Teoria de Dimensão
Definição C.9.9
L
ejam R = d≥0 Rd uma R0 -álgebra graduada finitamente gerada por elementos de grau 1 e
M um R-módulo graduado finitamente gerado. O polinômio PM (t) é chamado de polinômio
de Hilbert de M . ♣
Teorema C.9.10
L
Seja R = d≥0 Rd uma R0 álgebra finitamente gerada por elementos de grau 1, com R0
artiniano e
0 → M ′ → M → M ′′ → 0
312
C.9 Teoria de Dimensão
Definição C.9.13
Seja (R, m, k um anel local. Um ideal I ⊂ R é dito um ideal de definição se é m-primário. Ou,
equivalentemente, se existe n tal que
mn ⊂ I ⊂ m. ♣
A equação (C.44) nos mostra que χI,M (t) é uma função que também é polinomial para t sufici-
entemente grande. Assim, temos
Teorema C.9.15
Seja (R, m) um anel noetheriano local, I um ideal de definição e M um R-módulo finitamente
gerado. Então existe um polinômio PI,M (t), chamado de polinômio de Hilbert-Samuel de M
com respeito a I, tal que
χI,M = PI,M (t)
313
C.9 Teoria de Dimensão
Definição C.9.16
Seja (R, m) um anel local noetheriano e M um R-módulo finitamente gerado. Definimos
d(M ) = deg PI,M (t)
para I algum ideal de definição de R.
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Teorema C.9.17
Seja (R, m) um anel local noetheirano e
0 → M ′ → M → M ′′ → 0
uma sequência exata. Então
d(M ) = max{d(M ′ ), d(M ′′ )}.
Mais ainda, os polinômios PI,M ′ e PI,M − PI,M ′′ possuem o mesmo grau e coeficiente líder.
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Demonstração Tensorizando a seguencia exata por R/I n+1 obtemos sequencias exatas
M ′ /I n+1 M ′ → M/I n+1 M → M ′′ /I n+1 M → 0 (C.46)
M ′ + I n+1 M
0→ → M/I n+1 M → M ′′ /I n+1 M ′′ → 0 (C.47)
I n+1 M
Assim, para n suficientemente grande, temos
M ′ + I n+1 M
φ(t) = l(R/I) ( ) = PI,M (t) − PI,M ′′ (t) (C.48)
I n+1 M
Assim φ(t) é polinomial para t suficientemente grande. Resta, então, mostrar que deg φ = d(M ′ ).
Pelo Teorema dos Isomorfismos, temos
φ(n) = lR/I = (M ′ + I n+1 /I n+1 M ) = lR/I (M ′ /M ′ ∩ I n+1 M ) ≤ lR/I (M ′ /I n+1 M ′ ) = PI,M ′ (n),
(C.49)
′
e portanto deg φ ≤ d(M ). Por outro lado, o Lema de Artin-Rees diz que existe c tal que
I n+1 M ∩ M ′ = I n+1−c (I c M ∩ M ′ ) ⊂ I n+1−c M ′ (C.50)
e portanto
PI,M ′ (n − c) = lR/I (M ′ /I n+1−c M ′ ) ≤ lR/I (M ′ /M ′ ∩ I n+1 M ) = φ(n), para todo n > c. (C.51)
Segue então que deg φ ≥ d(M ′ ) e o Teorema está provado.
Definição C.9.18
Sejam (R, m) um anel local noetheriano e M um R-módulo finitamente gerado. A dimensão de
Chevalley de M é definida por
δ(M ) = min{n; existem x1 , . . . , xn tais que lR (M/(x1 , . . . , xn )) < ∞}.
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Temos que δ(M ) sempre é finito. De fato, δ(M ) ≤ µ(I) para qualquer ideal de definição de R.
Estamos prontos para enunciar e provar o Teorema Fundamental da Dimensão para anéis locais.
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C.9 Teoria de Dimensão
Teorema C.9.19
Sejam (R, m) anel local noetheriano e M um R-módulo finitamente gerado. Então
dim M = d(M ) = δ(M ).
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]
Demonstração Vamos provar que dim M ≤ d(M ) ≤ δ(M ) ≤ dim M.
Etapa 1: dim M ≤ d(M )
Começemos provando que dim R ≤ d(R). Se d(R) = 0, o polinômio de Hilbert-Samuel de R
com respeito a m é constante e portanto o polinômio de Hilbert de grm (R) é zero. Portanto, para
n suficientemente grande, temos que mn = mn+1 e, pelo Lema de Nakayama, mn = 0. Assim, m é
minimal sobre 0 e dim R = 0.
Agora, seja p0 ⊂ p1 ⊂ · · · ⊂ pn uma cadeia ascendente de primos e x ∈ p1 \ p0 . A sequência
exata
x0
0 → R/p0 −→ R/p0 → R/p0 + (x) → 0 (C.52)
em conjunto com o Teorema C.9.17 nos dizem que d(R/p0 + (x)) ≤ d(R) − 1. Como p1 ⊂ · · · ⊂ pn é
uma cadeia de primos em R/p0 +(x) segue que n−1 ≤ dim(R/p0 +(x)) < d(R/p0 +(x)) ≤ d(R)−1
e portanto n ≤ d(R). Como esta desigualdade vale para qualquer cadeia de primos em R, então
dim R ≤ d(R).
Agora, pelo Teorema XX, um R-módulo finitamente gerado M possui uma fintração finita por R-
módulos isomorfos a R/p para primos p ∈ Spec R. Assim,a desigualdade para M segue do Teorema
C.9.17.
Etapa 2: d(M ) ≤ δ(M ) Suponha inicialmente que δ(M ) = 0. Então lR (M ) ≤ ∞ e portanto
√
Supp M = Ass M = m. Daí, Ann M = m e portanto mn M = 0 para n suficientemente grande.
Assim, o polinômio de Hilbert-Samuel é constante e d(M ) = 0.
Suponha agora que δ(M ) = d e que lR (M/(x1 , . . . , xd )M ) < ∞. Temos que δ(M/x1 M ) = d−1
e
lR ((M/x1 M )/mn (M/x1 M )) = lR (M/x1 M + mn M ) = lR (M/mn M ) − lR (x1 M/x1 M ∩ mn M ) =
lR (M/mn M ) − lR (M/(mn M :M x1 )) ≥ lR (M/mn M ) − lR (M/mn−1 M ) (C.53)
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C.10 Dimensão de Anéis Graduados
Demonstração Considere o anel local Rp , que possui dimensão de Krull ht p. Pelo Teorema C.9.19,
temos ht p = δ(Rp ). Como (a1 , . . . , as )Rp é pRp -primãrio, temos δ(Rp ) ≤ s.
Teorema C.9.21 (Teorema do Ideal Principal de Krull (Krull’s Hauptidealsatz), Parte II)
Seja R um anel noetheriano e p ∈ Spec R com ht p = s.
(a) Existe um ideal I = (a1 . . . , as ) tal que p é minimal sobre I;
(b) Se b1 , . . . , br ∈ p, então ht(p/(b1 , . . . , br )) ≥ s − r ;
(c) Sob as hipóteses do item (a),ht(p(a1 , . . . , ar )) = s − r .
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Demonstração Pelo Teorema C.9.19, δ(Rp ) = dim(Rp ) = s, existe I = (a1 /1, . . . , as /1) ⊂ Rp
ideap pRp-primário. Assim, p é minimal sobre (a1 , . . . , as ). Isto prova o item (a).
Para o item (b), seja t = ht(p/(b1 , . . . , br )). Pelo item (a), p/(b1 , . . . , br ) é minimal sobre
(c1 , . . . , ct ) Assim p é minimal sobre (b1 , . . . , br , c1 , . . . , cs ) e portanto r + t ≥ ht p pelo Teorema
C.9.20.
Para provar o item (c), basta provar a desigualdade reversa a provada no item (b). Com este fim,
note que p/(a1 , . . . , ar ) é minimal sobre (ar+1 , . . . , as ), e a desigualdaee oposta também segue do
Teorema C.9.20.
Demonstração Se h = 0, então nada temos a provar. Suponha h > 0. Faremos a prova por indução
em h. Seja
p0 ⊊ p1 ⊊ · · · ⊊ pn = p.
uma cadeia de ideais primos. É claro que p0 é minimal sobre o ideal (0) e portanto p ∈ Ass(R).
Assim, p0 é um ideal homogêneo. Desta forma, podemos supor que R é um domínio e p0 = (0).
Se então x ∈ p \ (0) homogêneo e p1 um primo minimal sobre (x). Pela segunda parte do
Teorema do Ideal PRincipal de Krull, temos que ht P/(x) = h − 1 e portanto existe um primo p1
minimal sobr (x) com ht p/f p1 = h − 1. Como (x) é homogêneo, p1 é homogêneo também. Pela
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C.11 Completamento
hipótese se indução, existe uma cadeia de comprimento h − 1 de ideais primos de R/p1 terminando
em p. O Teorema estã entâo provado.
Teorema C.10.2 (Teorema FUndamental da DImensão para Anéis Graduados)
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C.11 Completamento
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