Class Uda
Class Uda
Obesidade
nº 72 - novembro/dezembro 2014
Uma publicação da
Jejum, inimigo
da dieta
O impacto no ritmo
do metabolismo
Reganho de peso
A resposta do
organismo após dieta
Suplementos
alimentares
Seus principais grupos,
funções e indicações
na prática esportiva
Palavra do Presidente
Expediente
Balanço e despedida
CHEGAMOS AO FINAL desta gestão (2013/2014). Foram dois anos
intensos à frente da Abeso. Começamos com a reformulação da co-
Associação Brasileira para municação, com a criação de um novo canal: nossa página no Face-
o Estudo da Obesidade e da
Síndrome Metabólica book; e o fortalecimento de canais já existentes: modernização da
revista, do site, e mais interatividade no Twitter.
DIRETORIA 2013-2014
Presidente Tivemos, logo no início, a missão de realizar o XV Congresso
Dr. Mario K. Carra de Obesidade e Síndrome Metabólica, em Curitiba, organizado pela
Vice-Presidente
Dr. João Eduardo Salles Nunes grande Rosana Radominski. Foi um sucesso, de público e de temas.
Primeira Secretária
Dra. Cintia Cercato A educação e o estudo da obesidade são pontos centrais da nossa
Segundo Secretário atuação como entidade. Nesse aspecto, também contamos com os
Dr. Alexander Benchimol
Tesoureira cursos itinerantes, durante o ano de 2014; e um programa de edu-
Dra. Maria Edna de Melo cação para a população, o Emagreça com Boa Informação. Tam-
Sede bém nos coube a organização da 16ª edição do Congresso, que será
Rua Mato Grosso, 306 - Cj. 1711 no Rio de Janeiro, em 2015. Dessa vez, a organização dos trabalhos
Higienópolis - São Paulo - SP
CEP: 01239-040 ficou a cargo do competente Alexander Benchimol.
Tel.: (11) 3079-2298
Fax:(11) 3079-1732 Nesse período, travamos uma batalha para ver de volta os medica-
email: info@[Link] mentos como opção de tratamento da obesidade. Chegamos a conse-
Secretária guir a suspensão da resolução 52/2011 da Anvisa, por meio do decre-
Renata Felix to legislativo 273/2014, mas fomos surpreendidos com a publicação
Email: info@[Link]
de nova resolução que admite a venda e prescrição desses emagrece-
Site: [Link]
dores, desde que se inicie um novo processo regulatório com estudos
que comprovem sua utilidade. Ou seja, vimos inviabilizada, por hora, a
REVISTA EVIDÊNCIAS EM OBESIDADE
volta desses medicamentos, já que esses estudos demoram anos para
Diretora responsável e Editora Científica serem concluídos. Manifestamos repúdio e continuamos na luta.
Dra. Cintia Cercato
Editora responsável Outra ação importante desta gestão foi a campanha do Dia Na-
Luciana Oncken (MTB 46.219-SP) cional de Prevenção da Obesidade, em 11 de outubro, promovida,
Redação este ano, em cinco estados. Realizada pela Sbem, com apoio da
Banca de Conteúdo
Responsável: Luciana Oncken
Abeso, é o pontapé inicial para grandes ações que têm como obje-
Rua Dr. Melo Alves, 392, cj. 601 tivo colocar a obesidade em foco.
Cerqueira Cesar - São Paulo - SP
CEP: 01417-010 Destaco, ainda, a aproximação positiva entre a Abeso e a
Fone: (11) 99305-0230 Sociedade Brasileira de Cirurgia
Email: redacao@[Link]
Bariátrica e Metabólica.
OSMAR BUSTOS
novembro/dezembro 2014
3
Editorial
Tempo de mudanças
4 Evidências em Obesidade
Reportagem
novembro/dezembro 2014
5
Artigo
Ecos farmacoterápicos
do Obesity Week
J
á faz algumas semanas que voltei de Boston, daquele que considero
o mais importante evento do mundo, o Obesity Week (que reúne o
congresso clínico e o cirúrgico em seis dias de congresso e um de
pré-congresso) e é hora de resumir minhas impressões.
A minha apresentação favorita neste ano foi a de Richard Atkinson (Pro-
fessor Emérito de Medicina e Ciências Nutricionais na Universidade de
Wisconsin em Madison e Conselheiro da Obesity Society), que recebeu o
prêmio Mickey Stunkard Lifetime Achievement. Esse prêmio foi designado
para reconhecer pessoas que tiveram uma vida de contribuições relevantes
na área da obesidade em termos de estudo, orientação e educação. Sua pa-
lestra foi sobre como combater a obesidade, e ele foi sincero dizendo que
as coisas não estão bem nessa área, especulando sobre o que se pode fazer
no futuro para melhorar os resultados, principalmente abordando ciência
básica e genética. A epigenética foi enfocada como uma área muito impor-
tante e como uma das principais causas da obesidade. Mulheres em idade
fértil são, portanto, uma prioridade.
Michael Goran, Professor de Medicina Preventiva e Pediatria na Escola
de Medicina Keck da Universidade do Sul da Califórnia, ganhou o prêmio
ARQUIVO PESSOAL
6 Evidências em Obesidade
Artigo
novembro/dezembro 2014
7
Artigo
participantes com idade de 55 anos; 50% masculino; -Lite foi melhorada com 3,0 mg (11,7 ± 14,7), mas não
IMC 37 (27-68) kg/m²; HbA1c 7,9%; duração do dia- com 1,8 mg (9,1 ± 14,1), versus placebo (7,6 ± 12,6; di-
betes 7,3 (0,2-36) anos; 11% em dieta e exercício, 57% ferença estimada (ED) e IC 95%: 2,7 [0,6-4,9]; p=0,014).
com metformina em monoterapia, 31% em antidiabéti- Liraglutida 3,0 mg, mas não 1,8 mg, melhorou também
cos orais em combinação (sulfas, metformina, pioglita- a DTSQ vs. placebo (ED: 1,4 [0,4-2,5], p<0,01) e isso de-
zona) que foram randomizados (2:1:1) para 56 semanas veu-se a melhora da função física do paciente. Portanto,
de liraglutida 3,0 mg (n=423), 1,8 mg (n=211) ou place- em indivíduos com sobrepeso e obesidade com diabetes,
bo (n=212), além de dieta com 500 kcal de déficit diário liraglutida 3,0 mg, como adjuvante da dieta e exercício,
e recomendação de exercício. Questionários específicos foi superior ao placebo e a liraglutida 1,8 mg na perda de
IWQoL e DTSQ foram utilizados para avaliar a saúde re- peso (p <0,0001 e p = 0,0024, respectivamente), e tam-
lacionada com o resultados. Na semana 56, a perda de bém melhorou significativamente a qualidade de vida e
peso (média ± SD) foi de 5,9% ± 5,5%, 4,6% ± 5,5% e a satisfação no tratamento do diabetes.
2,0% ± 4,3% com liraglutida 3,0 mg; 1,8 mg e placebo, Na próxima revista seguem mais informações sobre
respectivamente. A pontuação total média de IWQoL- o Obesity Week 2014.
Referências bibliográficas
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dpoints and Quality of Life are Related to the Degree brain structure. TLB-2003-P.
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-Blind SCALE Sleep Apnea Trial. T-2144-P. change in the Low- Carbohydrate Diet versus the Orlis-
2. Olivia Farr, … , Christos Mantzoros. Liraglutide alters tat Plus Low-Fat Diet Trial. TLB-2007-P.
activation of the parietal cortex with high fat food cues. 9. Nancy Bohannon, et al. Effects of Phentermine and To-
TLB-2004-P. piramate Extended-Release (PHEN/TPM ER) Treatment
3. Frank Greenway, Carel le Roux, David Lau, Arne Astrup, on Weight Loss (WL) and Metabolic Syndrome (MetS)
Ken Fujioka, Alfredo Halpern, et al. Additional Analyses Parameters in Subjects with Body Mass Index (BMI)
of the Weight-Lowering Efficacy of Liraglutide 3.0 mg in ≥35kg/m2. T-2359-P.
Overweight and Obese Adults: The SCALE Obesity and 10. Andres Acosta, et al. Effects of Phentermine-Topiramate
Prediabetes Randomized Trial. T-3027-OR. Extended-Release on Gastric Functions, Satiety, Satia-
4. Ken Fujioka, Arne Astrup, Frank Greenway, Alfredo Hal- tion and Gut Hormones in Obese Patients. T-2535-P.
pern, et al. Liraglutide 3.0 mg Reduces Body Weight 11. Timothy Church, Lucia Bonnemaison. Effects of Phen-
and Improves Health-Related Quality of Life (HRQoL) in termine and Topiramate Extended-Release (PHEN/TPM
Overweight or Obese Adults without Diabetes: the SCA- ER) on Weight Loss (WL), Risk of Type 2 Diabetes Melli-
LE Obesity and Prediabetes Randomized, Double-Blind, tus (T2DM), and Concomitant Medication Costs in Older
Placebo- Controlled, 56-week Trial. T-3031-OR. Obese/Overweight Subjects. T-2544-P.
5. Robert Kushner, et al. Weight Loss with Liraglutide 3.0 12. Donna Ryan, et al. Effects of Phentermine and Topira-
mg Is Associated with Improved Health-Related Quality mate Extended-Release (PHEN/TPM ER) on Weight Loss
of Life (HRQoL) and Treatment Satisfaction in Overwei- (WL) in Older Obese/Overweight Subjects Over 2 Years.
ght or Obese Adults with Type 2 Diabetes (T2D): The T-2614-P.
SCALE Diabetes Randomized, Double-Blind, Placebo- 13. Craig Peterson, et al. Prospective, Pharmacoepidemio-
-Controlled 56-week Trial. T-3030-OR. logic Database Analysis of Qsymia® (Phentermine and
6. Steven Smith, et al. Combination Weight Management Topiramate Extended-Release [PHEN/TPM ER]) Usage
(WM) Pharmacotherapy with Lorcaserin (LOR) and Im- from a Representative US Sample of Patients. T-2640-P.
mediate Release (IR) Phentermine (phen). Late-Late
Breaking Abstract. Todas as referências são do 32nd Annual Scientific Meeting
7. Olivia Farr, ... , Christos Mantzoros. Metreleptin therapy of The Obesity Society, Obesity Week 2-7 November 2014,
alters appetite and neural responses to food stimuli in Boston, MA, USA.
8 Evidências em Obesidade
Artigo
Para o paciente
Aproveite as festas de
final de ano sem culpa
F
inal de ano chegou. Além da Ceia de Natal e Ano Novo, ocorrem
muitas comemorações com comidas gostosas e bebidas alcoólicas,
em geral, com elevado teor calórico.
Essa não é a melhor época para iniciar uma dieta. A questão é: para
aqueles que já estão seguindo um plano alimentar para redução de peso,
esses momentos podem ser transformados em terríveis pesadelos. Para
evitar a situação, é importante planejar as ceias. Pequenas atitudes farão
toda diferença na manutenção e/ou redução de peso. E você poderá apro-
veitar a festa, sem peso na consciência, ou na balança.
• Sente-se em uma mesa longe do bufê, coma devagar, mastigando bem to-
dos os alimentos, apreciando e prestando atenção no que está comendo.
• Inicie com uma salada rica em folhas verdes, que irá garantir saciedade.
Use molho a base de azeite extra virgem e ervas finas, evitando os mais
gordurosos como, por exemplo, os molhos à base de creme de leite.
• Prefira preparações assadas ou grelhadas, evitando as frituras. E mo-
dere no consumo de carnes gordurosas, como leitão, pernil e costela.
Prefira aves (peru e Chester) sem pele, peixes, lombo de porco magro.
• Como acompanhamento, legumes cozidos e frutas são excelentes opções.
Apenas experimente o arroz (que pode estar com passas, amêndoas etc.),
Mônica Beyruti a farofa, o salpicão ou a salada de batatas. Não exagere nesses alimentos.
Nutricionista CRN-3/4477 • Bebidas alcoólicas devem ser ingeridas com moderação, intercale com
Especialista em Nutrição
em Cardiologia pela
água, suco de tomate ou refrigerante light.
SOCESP (Sociedade de • Para sobremesa, invista nas frutas da época.
Cardiologia do Estado de
São Paulo) Especialista em Se após tudo isso, a intenção for relaxar sem se preocupar, não deixe de
Fisiologia do Exercício pela
UNIFESP/EPM (Universidade comer seu prato predileto. Para opções mais calóricas, porções menores.
Federal de São Paulo / Es- Mais importante que se preocupar com o que fazer do dia 24 de dezem-
cola Paulista de Medicina) bro ao dia 1 de janeiro é se preocupar com o que fazemos do dia 1 de janeiro
Email: beynutri@[Link]
ao dia 24 de dezembro. Tenha um hábito saudável!
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9
Artigo
Suplementos alimentares
no esporte e na saúde
V
isando o aprimoramento físico e a melhora no desempenho atlé-
tico, cada vez mais, buscam-se recursos que possam facilitar, ou
mesmo otimizar, esses objetivos.
Assim, é cada vez mais comum ouvirmos pessoas relatarem que estão
usando este ou aquele suplemento que irá prover esta melhora. Algumas
vezes o uso é orientado por um profissional capacitado na área, outras ve-
zes, o uso é feito por meio de sugestões de colegas, ou mesmo de profissio-
nais, sem instrução especializada nesse campo do conhecimento.
Com essa demanda crescente do mercado fitness, em parte até pela cres-
cente luta contra a obesidade, também tem crescido o mercado de suplemen-
tos alimentares para atletas profissionais e amadores, porém observa-se com
frequência o uso equivocado dos suplementos por falta de devida instrução
dos pacientes ou mesmo dos profissionais que os estão indicando.
E quais os principais grupos de suplementos e sua função? De um modo
geral, eles podem ser separados nos seguintes grupos:
• Hipercalóricos
• Hiperprotéicos
ARQUIVO PESSOAL
• Termogênicos
Convém ressaltar quem, para que haja um benefício palpável neste cam-
po, é necessária uma abordagem multidisciplinar envolvendo o médico, o
nutricionista e o educador físico.
Suplementos Hipercalóricos
10 Evidências em Obesidade
Artigo
novembro/dezembro 2014
11
Artigo
constitui-se em desperdício, pois não será aproveitado • Hidrolisada: forma com concentração de proteínas
pelo organismo. igual ou maior que a isolada, com a vantagem das pro-
Assim sendo, o aporte de proteína deve ser fraciona- teínas já serem parcialmente pré-digeridas e hidrolisa-
do ao longo do dia e com um limite máximo a depender das, visando absorção mais rápida. Obs: quanto mais
das características do paciente (tabela 1). isolada e hidrolisada, mais caro fica o suplemento.
12 Evidências em Obesidade
Artigo
queima de gordura. Pela sua característica estimula- Mesmo a cafeína ou os outros termogênicos her-
tória, também têm sido utilizados para melhorar a dis- bários devem ser ingeridos com cautela e sob rígida
posição para atividades físicas. supervisão médica. O principio de ação catecolaminér-
O principal componente lícito dos termogênicos é a gico destes suplementos podem causar ou acentuar
cafeína. Este suplemento tem como objetivo melhorar casos de hipertensão, arritmias ou outros distúrbios
o desempenho durante a atividade física, diminuindo a cardiovasculares, além de serem contraindicados em
sensação de fadiga, dando mais disposição para o trei- paciente com histórico de crises convulsivas.
no. Por esse principal motivo, auxilia no processo de Deve-se ter especial atenção com suplementos ter-
perda de peso. mogênicos que contenham precursores ou derivados
A cafeína não necessariamente precisa ser in- da efendrina ou dimetilamilamina, como o extrato de
gerida por meio de suplementos, pode também ser MaHuang ou o óleo de Gerânio. Essas substâncias, além
ingerida pelo consumo do cafezinho normal (des- de constarem na lista de substâncias proibidas pelo co-
de que na quantidade adequada). Em suplementos, mitê olímpico e demais entidades esportivas, podem
por ser encontrada de forma isolada ou associado também causar alterações cardiovasculares importantes.
a outros itens com atividade semelhante, como o Quando indicados, devido à meia-vida curta, estes su-
chá verde ou o citrus aurantium (extrato da laranja plementos devem ser ingeridos cerca de uma hora antes
amarga que contém uma substância chamada sine- da atividade física. A dose de cafeína utilizada varia de 3
frina, catecolaminérgico, com dita predominância a 7 mg/kg de peso do atleta, podendo variar para mais ou
de ação em receptores β3). para menos, dependendo da sensibilidade do indivíduo.
Leitura complementar
1. Rodriguez NR, DiMarco NM, Langley S, American Dietetic 5. Stearns RL, Emmanuel H, Volek JS, Casa DJ. Effects of
A, Dietitians of C, American College of Sports Medicine ingesting protein in combination with carbohydrate
N, et al. Position of the American Dietetic Associa- during exercise on endurance performance: a system-
tion, Dietitians of Canada, and the American College of atic review with meta-analysis. Journal of strength and
Sports Medicine: Nutrition and athletic performance. J conditioning research / National Strength & Condition-
Am Diet Assoc. 2009;109(3):509-27. ing Association. 2010;24(8):2192-202.
2. Genton L, Melzer K, Pichard C. Energy and macronu- 6. Burke LM. Energy needs of athletes. Canadian journal
trient requirements for physical fitness in exercising of applied physiology = Revue canadienne de physiolo-
subjects. Clin Nutr. 2010;29(4):413-23. gie appliquee. 2001;26 Suppl:S202-19.
3. Kreider RB, Wilborn CD, Taylor L, Campbell B, Almada AL, 7. Boirie Y, Dangin M, Gachon P, Vasson MP, Maubois JL,
Collins R, et al. ISSN exercise & sport nutrition review: Beaufrere B. Slow and fast dietary proteins different-
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protein in combination with carbohydrate supplements [Link]/ais/nutrition/supplements.
on acute or repeat endurance exercise performance: a
systematic review. Sports medicine. 2014;44(4):535-50.
novembro/dezembro 2014
13
Artigo
Jejum:
o inimigo silencioso da dieta
A
obesidade emergiu como uma epidemia em países desenvolvidos,
durante as últimas décadas do século XX. No entanto, atualmen-
te, atinge todos os níveis socioeconômicos e vem aumentando sua
incidência também nos países em desenvolvimento. A obesidade não está
limitada a uma região, país ou grupo racial/étnico.
A obesidade é um fenômeno mundial que afeta ricos e pobres e é resul-
tante da ação de fatores ambientais (hábitos alimentares, atividade física
e condições psicológicas) sobre indivíduos geneticamente predispostos a
apresentar excesso de tecido adiposo.
Devido à sua etiologia multifatorial é difícil mensurar a força de cada
uma das variáveis envolvidas no processo do ganho excessivo de peso. En-
tre elas, destaca-se a influência dos fatores socioculturais que impõem um
padrão de beleza esbelto em que as mulheres, especialmente, vivem de
acordo com a tirania da moda, contrariando suas necessidades nutricio-
nais. Controlar a ingestão alimentar por meio de dietas restritivas e tornar
crônico esse comportamento devido à pressão sociocultural, que impõe pa-
drões corporais cada vez mais magros, são atitudes possivelmente desenca-
deadoras de transtornos alimentares. É interessante destacar que também
há o contraponto desse padrão de beleza em alguns países denominados
pré-industrializados, com pouca disponibilidade de alimentos, em que co-
mer “bem” é um símbolo de status até hoje.
A obesidade é uma doença de difícil controle, com altos percentuais de
ARQUIVO PESSOAL
14 Evidências em Obesidade
Artigo
Referências
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normal-weight women, immediately after eating foods phenomenon. Nutr Rev. 1998; 56(4): 106-14.
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15
Artigo
D
ieta é a abordagem terapêutica mais comum para perda de peso
em obesos e pacientes com sobrepeso. Contudo, apesar do ema-
grecimento bem sucedido a curto prazo, o reganho de peso é ex-
tremamente frequente. Menos de 20% dos indivíduos que emagrecem são
capazes uma redução de 10% do peso perdido além de um ano. Em torno
de um terço do peso perdido tende a retornar dentro do primeiro ano e a
maioria retorna ao peso inicial entre 3 a 5 anos.
O peso corporal é afetado por estímulos biológicos, ambientais e com-
portamentais; todos influenciados pela herança genética, a fim de manter
o estado de equilíbrio do peso corporal, ou sua homeostase, que é a pro-
priedade de um sistema com a função de regular seu ambiente interno para
manter uma condição estável, mediante ajustes de equilíbrio dinâmico.
O cérebro recebe sinais da periferia, relacionados aos estoques de energia
(a longo prazo) e disponibilidade de nutrientes (curto prazo) e baseado nos
sinais integrados, ajusta o balanço energético com o objetivo de manter esto-
que de gordura e estado nutricional. Na perda de peso em obesos e pessoas
com sobrepeso, sob restrição alimentar, há diminuição da leptina e insulina
de jejum, os chamados sinais adipocitários. Esta diminuição de insulina e lep-
ARQUIVO PESSOAL
16 Evidências em Obesidade
Artigo
Também em resposta ao déficit energético após per- rações são menores ou transitórias nos estágios iniciais
da de peso, o núcleo arqueado do hipotálamo aumenta de perda de peso.
o estado anabólico, por meio do aumento do neuropep-
tídeo Y, do aumento de AgRP (agouti related peptide) e “The energy gap”
da diminuição da expressão da POMC (proopiomelano-
cortina), enquanto no núcleo paraventricular, diminui O termo “energy gap” significa a diferença entre o
a expressão do hormônio liberador de corticotropina, apetite (aumentado) e o requerimento de gasto ener-
tudo isso promovendo maior desbalanço energético e gético (diminuido), que ocorre durante a manutenção,
consequente ganho de peso. Estudos de ressonância após perda de peso. Esse intervalo energético reflete a
magnética functional tem mostrado atividade neural magnitude do ônus diário que fortalece os esforços cog-
alterada em pós-obesos humanos, que normaliza após nitivos para estabilizar o peso emagrecido. Um outro
três semanas de terapia de reposição com leptina. modelo proposto para explicar o reganho de peso ba-
A sinalização via encéfalo também muda, promoven- seia-se nas características das células adiposas e na ca-
do diminuição da sensibilidade aos sinais de saciedade, pacidade de utilização dos nutrientes perifericamente.
aumenta o tamanho das refeições, aumenta quantidade Extrapolando a fisiopatologia e pensando na prática
de comida ingerida e há menor resposta ao tamanho da clínica, a identificação de fatores de sucesso para manu-
refeição via colecistoquinina intestinal. tenção de peso perdido ajudam no seguimento.
Vários estudos também valorizam a ghrelina plas-
mática como marcador de reganho de peso. 1 Objetivo realista e padrão de emagrecimento: definir
Ainda no processo de adaptação após emagrecimen- um objetivo que o paciente concorde e que seja factí-
to, nas áreas cognitivo-hedônicas, os obesos que emagre- vel de alcançar melhora nos resultados em longo prazo.
ceram exibem respostas de imagem neural a estímulos Parece que uma perda de peso inicial mais significativa
de comida, que favorecem motivação e impulso de comer, favorece este resultado a longo prazo. Perda de peso
e muitas vezes, isso se resolve com administração de lep- >5% do peso após 12 semanas foi um bom indicador de
tina. Dada a importância das distorções cognitivas e da emagrecimento mantido por dois anos, enquanto per-
influência dos mecanismos dopaminérgicos no sistema da ≥ 2,5kg em quatro semanas iniciais de dieta e perda
de recompensa (“vício”), relacionados ao comportamen- ≥ 10% do peso inicial após seis meses não foi preditivo
to alimentar, isso não poderia deixar de ser citado. de manutenção do peso nos próximos dois anos.
Adaptações neuro-endócrinas também ocorrem
após perda ponderal. Com a restrição energética, pode 2 Atividade física: facilita manutenção de peso tanto pelo
ocorrer: diminuição do tônus simpático, diminuição gasto energético diretamente, quanto pela melhora da
nos níveis de hormônios tireoidianos e aumento da ati- sensação de bem-estar, além de facilitar comportamen-
vidade do eixo adreno-hipófise-hipotálamo. Essas alte- tos positivos. Caminhada e ciclismo foram as modalida-
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17
Artigo
des mais praticadas nos estudos e o movimento tam- Tabela 1. Fatores associados com manutenção do peso de
perdido e reganho após perda de peso intencional, de acordo
bém gerou diminuição do tempo em frente à televisão. O
com revisão da literature (fonte: Obesity reviews 2005)
uso de pedômetro facilitou a aderência aos exercícios e
este grupo que “mede a atividade”conquistou melhores Peso mantido Reganho de peso
resultados. A Organização Mundial da Saúde considera Atribuir obesidade a
Objetivo atingido
ativo, o indivíduo que obtém ≥ 7500 passos por dia. fatores médicos
> perda peso
Colocar barreiras a perda de peso
3 Ingestão alimentar: manutenção de peso está obvia- inicial
mente associada a menor ingestão de calorias, por- Estilo de vida ativo Sedentarismo
ções menores, diminuição da frequência de lanches Refeições
História de efeito sanfona
(beliscos) e menor quantidade de gordura. Alguns regulares
trabalhos mostram que a redução de comidas espe- Café da manhã
Descontrole alimentar
presente
cíficas, como: batatas fritas, produtos lácteos, doces,
Mais comidas
carnes vermelhas, queijos, manteiga e sobremesas Muita fome
saudáveis
se associou a melhor manutenção do peso perdido.
Menos beliscos Binge
Além disso, ritmo mais regular das refeições e pre-
Controle de Comer como reação ao estresse
sença de café da manhã diariamente são relevantes.
abusos e emoções negativas
Comparando dietas muito restritivas ou de muito bai-
Automonitorização Estressores psicossociais
xa caloria com as de controle alimentar mais flexível, a
manutenção de peso foi menos associada ao controle Resiliência Pobreza de recursos psíquicos
rígido, já que reforça a dicotomia do comportamento Capacidade de
“tudo ou nada”, que implica em atitudes extremas com Atitude passiva frente
lidar com
aos problemas
proibição de doces e alimentos afins, seguidos de gran- compulsão
des abusos pela sensação de de privação. Binge eating, Autonomia Baixa auto-estima, insegurança
que pode ser traduzido como compulsão alimentar “Narcisismo
periódica, ou seja, ingestão de grande quantidade de Psicopatologias associadas
saudável”
alimento em um período de tempo delimitado (até 2 Razões médicas ou outras pessoas
Motivação
horas), acompanhado de sensação de perda de contro- como motivação
le sobre o que ou o quanto se come; frequentemente Vida estável Dicotomia como pensamento
aparece após dietas restritivas e o maior número de
Relações próximas Ausência de suporte social
episódios de binge, durante o seguimento após dieta,
prediz reganho de peso. Histórico de “efeito sanfona”
também se associa a maior chance de reganho de peso. obesidade e transtornos de humor. Pessoas muito
Ainda não está bem estabelecido se o efeito sanfona ansiosas, com personalidades impulsivas ou droga
causa o binge ou o contrário, mas esta variação de peso adição tem pior resultado relacionado à manutenção
de forma cíclica já está bem correlacionada ao aumento de peso perdido. Também em situações de estresse,
de doença cardiovascular e aumento da mortalidade. os pacientes que reganham peso tendem a comer em
resposta a eventos de vida negativos e usam a comi-
4 Automonitorização e suporte social: a pesagem pe- da para regular o humor
riódica e controle da ingestão alimentar ajudam na
manutenção de peso. Por outro lado, os pacientes que Na transição da manutenção do peso para recaída, o
reganham peso durante o seguimento relatam mais energy gap é influenciado pela composição da dieta (au-
conflitos familiares ou pessoais, problemas médicos mento de proteína, carboidratos controlados e seleção
ou agenda muito ocupada; contudo, os que contam do tipo de gordura), pelo tempo de manutenção de peso
com suporte de familiares, amigos ou dos profissio- após emagrecimento e pelo nível de atividade física.
nais de saúde conseguem melhores resultados. Vale ressaltar ainda o papel valioso da farmacoterapia
bem prescrita e o implemento de estratégias preventi-
5 Diagnóstico de depressão, transtornos de humor ou vas contra o reganho de peso, sobre o qual ainda temos
manejo do estresse: há prevalente coexistência de muito a aprender.
18 Evidências em Obesidade