Luto
Luto
PROCESSO DUAL
Resumo:
Introdução
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Graduanda de Psicologia da Universidade La Salle, E-mail raquel.caye0182@[Link] e
[Link]@[Link]. Trabalho de Conclusão de Curso, semestre 2024/1.
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Prof. Orientador Dr. Leonardo Martins Costa. Doutor em Psicologia Social e Institucional pelo
PPGPSI/UFRGS, Mestre em Psicologia Social e Institucional PPGPSI/UFRGS Pós-graduado em
Análise Institucional.
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traçar, e que, agora, chega ao fim.
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perda, o que resulta na perda da conexão com o processo natural do morrer e na negação
da importância do luto como parte do processo de enfrentamento da perda (Veras, L.
Soares, J.2016).
Morrer é definido pela visão científica e biológica como o fim irreversível das
funções vitais de um determinado organismo, que encerra suas atividades cerebrais, de
respiração e seus batimentos cardíacos. Entendemos então que a morte é um processo
de falha em nosso sistema (Klarsfeld, A. Revah, F. 2003). Morrer faz parte do
desenvolvimento humano, e, na mesma proporção, o significado da morte ocupa um
papel bastante plural de acordo com cada cultura, tipo de morte e pano de fundo religioso
(Busa, A. Silva, G. Rocha, F. 2019).
Segundo Freitas (2018), o luto é um processo que se inicia nesta repentina
remoção do outro enquanto corporeidade, o que gera o rompimento de todos os sentidos
habituais e conhecidos que temos com este outro. Segundo o dicionário de Cambridge
(2018), a palavra “luto” é definida como um estado de sofrimento causado pela morte de
alguém. Também pode se referir a um período de tempo durante o qual as pessoas
demonstram respeito pela morte de alguém, muitas vezes marcado por práticas como
vestir roupas escuras, realizar cerimônias fúnebres e observar rituais de luto.
De acordo com Swerts, Coelho, Bonfatti, Batista, Noé e Grincenkov (2022):
O processo de luto surge a partir do rompimento de um vínculo
importante ou perda significativa, não se restringindo apenas a
perdas reais, como a própria morte, mas também a perdas
simbólicas, a exemplo do término de um relacionamento ou uma
demissão. Portanto, o enlutamento pode ser definido como a reação
à perda de algo ou alguém que possua um valor afetivo ao sujeito, e
é compreendido como uma experiência multidimensional para dar
significado a essa falta. O luto é uma vivência saudável e esperada
diante da perda, sendo uma resposta que mostra a capacidade que o
sujeito tem de expressar a sua dor, reconhecendo-a, elaborando-a e
ressignificando a sua história (Swerts et al. 2022, p. 2)
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mostram necessárias flexibilidade e capacidade para assumir novas funções, bem como
desempenhar funções adicionais no sentido de promover a adaptação necessária para
lidar com a crise gerada a partir da morte de um integrante do grupo familiar, que até
então desempenhava estes papéis. Desta forma, o grupo familiar encontra-se envolvido
em uma reorganização deste sistema e à busca por significados na experiência do luto
(Hottensen, 2010 apud Rodriguez, 2014).
O suporte familiar, social e da rede de apoio ocupa um papel crucial neste
processo, podendo ajudar o indivíduo enlutado a alcançar a aceitação desta nova
realidade. Vale ressaltar que o principal objetivo ao buscar tal aceitação não é o de
esquecer a pessoa perdida, mas de aprender a conviver com a ausência e retomar a vida
a partir das necessárias adaptações às mudanças, que são inevitáveis. Não existe uma
forma “correta” de enfrentar e viver o luto, pois é necessário considerar a individualidade e
particularidade de cada indivíduo, que influenciará diretamente a forma de vivenciar e
expressar a perda e o seu luto. De qualquer maneira, se faz necessário auxiliar a jornada
de recuperação emocional da pessoa que enfrenta o luto (Worden, 1998 apud Torres,
2018).
De acordo com Worden (2013), existem mediadores que devem ser analisados ao
considerarmos a complexidade do luto, e que proporcionalmente influenciam o tipo, a
intensidade e a duração do mesmo. O primeiro mediador diz respeito aos fatores
relacionais, e contempla a natureza do relacionamento que se tinha com a pessoa que
morreu. O segundo mediador aborda os fatores circunstanciais, que provoca uma análise
mais detalhada sobre a circunstância a qual este luto se apresentou, como por exemplo
do luto inconclusivo - quando não há provas de que houve o falecimento da pessoa. Já o
terceiro mediador diz respeito aos fatores históricos, e abre espaço para analisarmos
experiências anteriores de luto e de que forma as reações foram apresentadas e
experienciadas no passado. O quarto medidor fala sobre a personalidade da pessoa
enlutada, que está diretamente relacionada à sua habilidade para lidar com estressores
emocionais. Por último, o quinto medidor engloba os fatores sociais, já que o luto pode ser
entendido enquanto um processo social e tende a ser enfrentado de forma mais
adaptativa quando ele se descortina em um ambiente social no qual seja possível
encontrar apoio e reforço junto aos outros. Pontua-se que a análise destes mediadores
nos permite compreender a tamanha complexidade e extensão do enfrentamento do luto
por parte de indivíduos enlutados.
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Os aspectos psicológicos do luto e da morte foram tema de estudos de diversos
cientistas, que deram luz a diferentes teorias que visam encontrar conclusões sobre a
forma menos lesiva de vivenciar o luto. Porém, a vivência do luto tem interpretações
complexas, que variam de um sujeito para o outro, o que por si só traz dificuldades à
possibilidade de encontrar modelos pré-estabelecidos de estágios do luto que respeitem e
reflitam de forma mais fidedigna este processo (Freitas, J. 2018).
Elizabeth Kübler-Ross introduziu o modelo mais amplamente utilizado para
compreensão do luto e outros processos significativos da vida, em seu livro “On Death and
Dying” (1969). Sua teoria, conhecida como o Modelo dos Cinco Estágios do Luto,
tornou-se muito popular em diferentes públicos, e seu livro delineia os cinco estágios do
luto que seriam experienciados pelos indivíduos: negação, raiva, barganha, depressão e
aceitação. Tal modelo é fruto de um estudo qualitativo e experiencial, onde a autora
explorou a experiência do morrer por meio de entrevistas com pacientes terminais (Tyrrel,
P. Harberger, S. Schoo, C. Siddiqui, W. 2023).
Apesar da grande popularidade e significativa contribuição para o desenvolvimento
do tema luto em diferentes campos, o modelo tem enfrentado diversas críticas nos
últimos anos. A principal limitação levantada diz respeito à rigidez e linearidade
apresentada na teoria e na prática do modelo. Outro ponto levantado é que entende-se que
o indivíduo deve, necessariamente, enfrentar os cinco estágios antes de alcançar a
“aceitação” da morte (Tyrrel, P. Harberger, S. Schoo, C. Siddiqui, W. 2023).
A Teoria do Apego de John Bowlby, amplamente conhecida nos dias de hoje,
também discorre sobre pontos que têm sido relacionados ao processo de luto. A teoria de
Bowlby conceitua o apego e o relaciona ao impacto deste no desenvolvimento dos
indivíduos, destacando como os vínculos estabelecidos entre os bebês e suas figuras de
apego influenciam o comportamento e a forma como os indivíduos veem e experimentam
o mundo quando crescem (Ramires, V. Schneider, M. 2010). Há quatro principais tipos de
apego: apego seguro, apego inseguro, apego ambivalente e apego confuso (Meireles, I.
Lima, F. 2015).
Desta forma, entende-se que a morte compreende um dos eventos da vida adulta
que será experienciado pelo indivíduo de maneira distinta levando em consideração os
tipos de apego que o mesmo pôde estabelecer em seu desenvolvimento. Neste sentido,
Bowlby, em colaboração com Colin Partes, identificou quatro fases de reações diante à
perda de alguém significativo, sendo elas: choque e descrença, busca e anseio,
desorganização e reparação, e reconstrução e cura. Apesar da teoria possuir como foco a
não linearidade do processo do luto, encontram-se críticas a respeito da generalização
das fases, potencial patologização do luto e atenção insuficiente à resiliência dos
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indivíduos (Meireles, I. Lima, F. 2015).
Para além dos modelos mencionados, pode-se encontrar diferentes teorias que
contribuem amplamente para a compreensão do luto, tal como a Teoria das Quatro
Tarefas de Woden e o Modelo de Construção de Significado de Niemeyer. Cada teoria
oferece uma análise única da forma como os indivíduos enfrentam o processo do luto
(Tyrrel, P. Harberger, S. Schoo, C. Siddiqui, W. 2023).
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A orientação para a perda, um dos pólos da oscilação apresentada pela teoria,
refere-se ao processamento e foco voltado para diversos aspectos da experiência do luto,
especialmente relacionada à pessoa que faleceu. Revisitar circunstâncias e eventos que
cercaram a morte, relembrar a pessoa falecida e momentos vividos juntos, sentir saudade
e olhar fotos são exemplos de atividades que fazem parte deste processo. Diferentes
reações emocionais podem surgir a partir destas ações, desde lembranças reconfortantes
até profunda dor e sensação de solidão.
No início do luto, a orientação à perda se faz mais presente, e ao longo do tempo
as atividades e emoções originadas em tal orientação podem sofrer alterações. Se faz
presente neste pólo elementos de trabalho do luto, a intrusão do luto em tarefas do
dia-a-dia, o estabelecimento de um processo gradual de ajuste emocional após o luto,
relacionados ao “deixar ir” e a “realocar laços e vínculos”, acompanhado de momentos de
negação e evitação das mudanças. Há uma inegável importância na continuidade do
vínculo e relacionamento com a pessoa falecida como importante fator determinante para
os resultados do processo do luto, de forma que haja continuidade deste vínculo e
relacionamento mesmo após a perda no estado de matéria (Stroebe, M. Schut, H. 1999).
O pólo da restauração também requer uma série de ajustes emocionais e práticos
como, por exemplo, o desenvolvimento de uma nova identidade, novos papéis e novos
relacionamentos após a perda, sendo necessária a reconstrução da própria visão do
ambiente em que o indivíduo enlutado está inserido e da sua visão do mundo a partir
deste evento. Como podemos perceber, a restauração acaba por envolver uma série de
mudanças e desafios secundários decorrentes da perda. Apesar disto, este pólo não se
refere a um resultado específico, mas compreende diversos aspectos práticos e
emocionais relacionados à adaptação a uma vida sem a pessoa que faleceu, evocando
uma ampla gama de reações emocionais que podem partir desde o alívio e orgulho, até
ansiedade, medo e solidão. Há um maior foco para o reconhecimento e capacidade de
lidar com as mudanças da vida, exploração e engajamento em atividades diferentes das
habituais, que auxiliam no redescobrimento de interesses e, na mesma medida, ajudam a
desviar a atenção do luto e emoções associadas, assim como a tentativa de negação
destes sentimentos. (Stroebe, M. Schut, H. 1999)
De acordo com Stroebe e Schut (1999), a oscilação ocupa espaço central entre os
dois pólos citados anteriormente, desempenhando um papel fundamental dentro do
Modelo do Processo Dual. Descrito como mecanismo de processo cognitivo regulatório, a
oscilação é identificada como necessária para o alcance a longo prazo deste
enfrentamento satisfatório do luto, e tal reconhecimento de sua importância e relevância
dentro do processo de luto contrasta com teorias apresentadas anteriormente. A negação
do luto a longo prazo é comprovadamente prejudicial à saúde do indivíduo.
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Metodologia
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Tradução livre do autor sobre a imagem:
O Modelo do Processo Dual de Enfrentamento do Luto: Experiência do dia a dia. Orientação à perda:
Trabalho de luto; Intrusão do luto; Quebra de laços/vínculos/realocação; Negação/evitação das
mudanças de restauração. Oscilação. Orientação a restauração: Participando de mudanças da vida;
Realizando novas atividades; Distração do luto; Negação/evitação do luto; Novos
papéis/identidades/relacionamentos.
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A pesquisa qualitativa é guiada por investigações específicas e faz uso de métodos e
teorias adequados ao que se foi proposto estudar. Neste modelo de revisão, a reflexividade
do pesquisador e da pesquisa ocupa um papel central ao longo do processo de escrita,
permitindo ao pesquisador que faça uso, em partes, desta sua capacidade reflexiva para
construção do todo (Flick, 2004 apud SILVA et al., 2021).
Para a escrita deste trabalho, foram realizadas buscas nas seguintes bases de
dados: Pubmed, Scielo, IndexPsi, LILACS e Pepsic, utilizando os descritores: Luto AND
Jovem Adulto; The Dual Process Model of Coping with Bereavement OR O Modelo do
Processo Dual do Enfrentamento do Luto.
Para que os artigos e leituras fossem considerados adequados e inseridos nesta
revisão qualitativa de literatura, os mesmos precisam abordar o tema sobre o luto em
indivíduos enlutados e os variados modelos de enfrentamento utilizados pelos enlutados,
podendo utilizar da língua portuguesa ou inglesa. Foram delimitados os campos “título”,
“palavra-chave” e “resumo”.
Foram encontrados 65 artigos e, depois da triagem inicial, foram selecionados 10
artigos. Além disso, foram utilizados 4 livros de literatura clássica acerca do tema.
Critérios de Inclusão
O presente estudo baseia-se em literatura que atenda aos objetivos propostos e aos
seguintes critérios:
- Publicações integralmente disponíveis nas seguintes bases de dados: Pubmed,
Scielo, IndexPsi, LILACS e Pepsic.
- Literatura clássica relacionada ao tema.
- Publicações em língua portuguesa e inglesa.
- Publicações alinhadas com o objetivo geral do estudo.
Critérios de Exclusão
- Publicações que não possuam exploração teórica satisfatória.
- Leituras que abordassem temas divergentes ao proposto.
Análise e discussão
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processamento do luto, delineadas a partir deste modelo, influenciam o enfrentamento do
luto em indivíduos enlutados.
A elaboração desta escrita também trouxe uma breve análise sobre o que é
apresentado a respeito do luto a partir de diferentes perspectivas e teorias, estas por vezes
mais rígidas e deterministas sobre como se deve vivenciar a perda a partir de etapas ou
tarefas que, de forma processual, buscam encaminhar o indivíduo enlutado para uma
resolução adequada e saudável. Teorias como de Elizabeth Kübler-Ross, John Bowlby, de
Woden ou de Niemeyer são amplamente aceitas pela academia e também são populares
entre pessoas não profissionais da psicologia ou da medicina. Tal popularidade anuncia
aderência e coerência para um amplo grupo de pessoas que passam por este processo. Foi
justamente a partir da teoria do Modelo dos Cinco Estágios que iniciei minha compreensão
sobre o luto e os mais variados sentimentos e pensamentos que vivenciamos ao nos
depararmos com uma perda significativa na vida. Por muito tempo pensei que este era o
único olhar que nos cabia, como estudante e profissionais da psicologia, analisar e apoiar a
elaboração da pessoa enlutada.
Com isto sendo dito e explorado neste trabalho, é possível perceber a inegável
contribuição e compreensão sobre o complexo processo de enfrentamento do luto
apresentado pelas demais teorias popularmente conhecidas e trabalhadas. Kübler-Ross e
seu Modelo dos Cinco Estágios, por exemplo, abordam esta importante estrutura que
identifica os estágios de negação, raiva, barganha, depressão e aceitação, sendo a última
experienciada apenas após conclusão das demais tarefas. Os lutos que iniciam antes
mesmo do falecimento do indivíduo adoecido, como em casos de doenças terminais, me
parece ser abraçado de forma bastante sensível e coerente pelo presente modelo.
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A partir da minha análise, compreendo que as contribuições do Modelo do Processo
Dual oferecem uma visão que percebe o enfrentamento do luto de forma mais adaptativa,
proporcionando uma estrutura mais compreensiva e dinâmica. O modelo apresentado pelos
autores, e que vem sendo aplicado e testado por diversas equipes de pesquisa na última
década, oferece uma perspectiva inovadora e resiliente que considera a oscilação entre a
orientação para a perda e a orientação para a restauração de forma a proporcionar uma
visão mais completa e dinâmica do luto. Os materiais encontrados fornecem uma
perspectiva mais profunda sobre como tal oscilação entre estes pólos e, na mesma medida,
a ocupação de cada um deles, desempenha um papel crucial no processo de enfrentamento
do luto. (Stroebe, M. Schut, H. 2010)
Ao me deparar vivendo o meu luto e considerando o que havia estudado até então
sobre o Modelo dos Cinco Estágios, percebi que a teoria e a prática simplesmente não
estavam se conectando na minha vivência prática, que me fez estar não mais no local de
estudante que absorve a teoria com olhar curioso e complacente com o objetivo de apoiar e
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compreender a dor do outro da forma mais correta. Tal distanciamento entre a teoria e a
minha dor provocou em mim ainda mais ansiedade, e me vi questionando de forma profunda
a capacidade da psicologia e todo meu processo terapêutico realizado até então me apoiar
naquele momento. Eu percebia rigidez e uma rápida conclusão de inadequação com tudo
que eu estava sentindo por parte dos profissionais. Enquanto paciente não via minha dor
sendo acolhida, muito menos a especificidade do luto que eu estava vivenciando sendo
abraçado e interpretado. Não havia espaço para os valores e interpretações que eu havia
construído sobre a morte, não percebia minha história encontrando lugar para se conectar
com o que aprendemos, ou local para minha família se fazer presente ali.
Percebi que havia uma expectativa de que eu conseguisse traduzir e alinhar meus
sentimentos e pensamentos de acordo com a fase do luto que eu deveria estar vivendo, mas
minha experiência foi marcada por uma oscilação nada linear e muito aparente. Era
esperado que eu conseguisse traduzir e colocar meus pensamentos e sentimentos em
concordância com o que a fase que eu deveria estar dizia, mas existia ali uma oscilação
muito visível em minha experiência. Em um momento, eu estava imersa em sentimentos de
raiva e tristeza, mas em pouco tempo me via esperançosa e buscando formas de
reconstrução, principalmente porque a vida me exigia isso. Em outro momento, retornava
para uma tentativa de barganha com o mundo, mesmo sabendo que de nada adiantaria. E
havia momentos em que eu simplesmente precisava assistir televisão e me desconectar
totalmente daquela dor.
Considerações finais
Este artigo teve como objetivo principal compreender como as contribuições da teoria
do Modelo do Processo Dual influenciam o enfrentamento do luto em indivíduos enlutados a
partir de uma revisão bibliográfica qualitativa sobre o tema. Para além da revisão qualitativa
de artigos e literatura clássica, a análise crítica do tema foi feita a partir da vivência pessoal
da autora e reflexões acerca do tema.
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O estudo realizado apontou significativa contribuição para o desenvolvimento da
compreensão que temos sobre o processamento do luto a partir da teoria do Modelo do
Processo Dual. O Modelo introduz uma visão flexível e adaptativa, que permite mais fluidez
e espaço para diversos sentimentos e pensamentos que são originados a partir da perda de
algo ou alguém. Além disto, há uma maior adequação para diferentes culturas, grupos e
faixas etárias, permitindo espaço para a inserção da particularidade de cada indivíduo nesta
vivência. Os pólos descritos no na teoria são amplos e possuem espaço para “rechearmos”
com elementos próprios de nossa história.
Desta maneira, podemos concluir que o Modelo do Processo Dual é uma teoria que
pode gerar maior conforto e facilitar a compreensão para analisarmos o processamento do
luto vivido por diferentes indivíduos e nos mais variados contextos e culturas. A orientação
ao pólo da perda ou ao pólo restaurativo, e, na mesma medida, a oscilação entre eles,
também permite uma maior despatologização do luto e gera menor sentimento de
inadequação aos que estão vivenciando este momento. Por fim, esta revisão reforça a
necessidade e importância de um maior desenvolvimento de pesquisas futuras para
exploração e maior respaldo científico sobre o modelo.
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