Tutorial 9
Tutorial 9
1 Introdução
Neste tutorial serão apresentadas a representação de sistemas lineares utilizando espaço de
estados e a linearização de sistemas não lineares.
Será mostrado que, sob determinadas condições, sistemas não lineares podem ser linearizados
em torno de um ponto de equilı́brio (ou operação) com boa precisão, para isso exploraremos
Séries de Taylor em Matlab. Esse procedimento é frequente em análise e controle de sistemas
dinâmicos.
1
O modelo matemático genérico desse tipo de sistema é dado pela EDO
Observação 1. É importante não confundir variável de estado (ente matemático) com variável
fı́sica. Por exemplo, consideremos um sistema dinâmico descrito pelo sistema de equações
diferenciais abaixo, no qual x1 , x2 e suas derivadas são variáveis fı́sicas:
ẍ1 + ẋ1 + x1 − x2 = 0
ẋ2 − 2x1 + x2 = 0
Nesse caso, existem 3 variáveis de estado: duas para a coordenada x1 e uma para a coor-
denada x2 , sendo x1 e x2 (variáveis de estado (matemática)) iguais a x1 e x2 (deslocamentos
(fı́sico)), respectivamente, e x3 (variável de estado (matemática)) igual a ẋ1 (velocidade (fı́sico)).
Voltando ao exemplo, as variáveis de estado serão x1 = y e x2 = ẏ. Derivando, obtemos:
ẋ1 = ẏ
1 1
ẋ2 = (−ky − cẏ) + u
m m
Vemos que a primeira equação não depende da dinâmica do sistema, enquanto que a segunda
depende. Em termos de variáveis de estado:
ẋ1 = x2
k c 1
ẋ2 = − x1 − x2 + u
m m m
que são as equações de estado. Sob forma matricial:
" 0 #
1 x
" #
0
ẋ1 1
= k c + 1 u
ẋ2 − − x2
m m m
A equação de saı́da, assumindo a variável de saı́da y = x1 , pode ser escrita como
x1
y = [y] = 1 0
x2
Essas duas últimas equações matriciais são, respectivamente, a equação de estado e a equa-
ção de saı́da. Em forma padrão:
ẋ = Ax + Bu
y = Cx + Du
2
sendo
x1 ẋ
x= , ẋ = 1 , u = [u(t)]
x2 ẋ2
" # " #
0 1 0
A= k c , B= 1 , C= 1 0 , D = [0]
− −
m m m
Exemplo 2 (Representação de um sistema de 2ª ordem com dois graus de liberdade). Seja o
sistema mecânico da Figura 1.
x1 (t ) x2 (t )
k1 k2
m1 f1(t) m2 f2(t)
c1 c2
Figura 1: Sistema mecânico com 2 GDL.
Pedem-se:
a) as variáveis de estado e as equações de estado;
b) supondo que as entradas do sistema sejam f1 (t) e f2 (t) e que a saı́da seja x1 , obter a
equação da saı́da;
c) repetir o item b), porém agora as saı́das são x1 e ẋ1 .
Solução:
O modelo matemático é dado pelo sistema de EDOs:
x1 = x1 , x2 = x2 , x3 = ẋ1 , x4 = ẋ2 .
ẋ1 = x3
ẋ2 = x4
k1 + k2 k2 c1 + c2 c2 1
ẋ3 = − x1 + x2 − x3 + x4 + f1 (t)
m1 m1 m1 m1 m1
k2 k2 c2 c2 1
ẋ4 = x1 − x2 + x3 − x4 + f2 (t)
m2 m2 m2 m2 m2
3
Note que as duas primeiras equações não dependem da dinâmica do sistema, enquanto
que as duas últimas dependem. Reescrevendo o sistema de equações acima em forma
matricial, temos
ẋ1 0 0 1 0 x1 0 0
ẋ2 0 0 0 1 x2 0 0 f1 (t)
= k1 +k2 k2
− c1m+c1 2 mc21 x4 x3 + m11 0 f2 (t)
ẋ3 − m m1
1
ẋ4 k2
m2
− mk22 + mc22 − mc22 x4 0 m12
x1
x1 1 0 0 0 x 2
0 0 f 1 (t)
y= = +
x3 0 0 1 0 x3 0 0 f2 (t)
x4
4
2.1.2 Equações do espaço de estados
Três tipos de variáveis aparecem na modelagem de sistemas dinâmicos por espaço de estados:
• variáveis de entrada;
• variáveis de saı́da;
• variáveis de estado.
Seja o sistema dinâmico da Figura 2, o qual possui
u1 y1
u2 x1 , x2 ,, xn y2
ur ym
Figura 2: Sistema com r entradas e m saı́das.
Então, o sistema pode ser descrito por n equações diferenciais de 1ª ordem, que são as
equações de estado:
onde f1 , f2 , . . . , fn são não lineares, em geral. Por outro lado, as saı́das do sistema são funções
das variáveis de entrada, das variáveis de estado e do tempo, constituindo as equações de saı́da:
y1 (t) = g1 (x1 , x2 , · · · , xn ; u1 , u2 , . . . , ur , t)
y2 (t) = g2 (x1 , x2 , · · · , xn ; u1 , u2 , . . . , ur , t)
..
.
ym (t) = gm (x1 , x2 , · · · , xn ; u1 , u2 , . . . , ur , t)
5
Definindo
x1
x2
x=
...
⇒ vetor de estado
xn
u1
u2
u=
...
⇒ vetor de entrada
ur
y1
y2
y=
...
⇒ vetor de saı́da
ym
as equações de estado e de saı́da podem ser escritas sob forma matricial compacta como
ẋ(t) = f (x, u, t)
y(t) = g(x, u, t)
Se as funções vetoriais f (·) e g(·) envolvem o tempo t explicitamente, então o sistema é dito
variante no tempo. Um caso particular ocorre quando o sistema é variante no tempo e linear.
Neste caso,
onde A(t) ∈ Rn×n é a matriz de estado (ou matriz dinâmica), B(t) ∈ Rn×r é a matriz de
entrada, C(t) ∈ Rm×n é a matriz de saı́da e D(t) ∈ Rm×r é a matriz de transmissão direta.
Se o sistema é variante no tempo e não-linear, as equações de estado e de saı́da, em certos
casos, podem ser linearizadas em torno de um ponto de operação, de modo a permitir o uso
das equações de estado e de saı́da para um sistema linear.
Por outro lado, se as funções vetoriais f (·) e g(·) não envolvem o tempo t explicitamente,
então o sistema é dito invariante no tempo e, nesse caso, as equações de estado e de saı́da
podem ser simplificadas para
ẋ(t) = Ax(t) + Bu(t)
(1)
y(t) = Cx(t) + Du(t)
onde A, B, C e D são matrizes constantes.
x(t) = [x1 x2 · · · xn ]T
foi escolhido adequadamente e para o qual a representação no espaço de estados é dada por (1).
Consideremos, também, um outro conjunto de variáveis
6
relacionado ao primeiro pela transformação matricial
x = P x∗ (2)
sendo P uma matriz n × n não singular (determinante não nulo), com elementos constantes.
Substituindo (2) em (1), temos
e definindo
P −1 AP = A∗
P −1 B = B ∗
CP = C ∗
temos que
que está precisamente na mesma forma da expressão (1), logo representa também o mesmo
sistema dinâmico, porém utilizando um outro conjunto de variáveis de estado, o que vem
demonstrar que o conjunto de variáveis de estado não é único.
x = P x∗
onde P é a matriz modal associada à matriz A, ou seja, P é a matriz cujas colunas são os
autovetores da matriz A. Da Álgebra Linear sabemos que
P −1 AP = Λ (3)
onde Λ é uma matriz diagonal cujos elementos da diagonal principal são os autovalores da
matriz A. Então, as equações de estado que utilizam um vetor de estados x∗ que satisfaça a
transformação (3) tomam a forma especial
o que garante o desacoplamento das equações de estado, uma vez que a matriz Λ é diagonal.
7
Exemplo 3. Seja um sistema dinâmico cujo modelo matemático é descrito pela EDO
ẍ + 5ẋ + 4x = f (t)
x1 = x
x2 = ẋ
Derivando:
ẋ1 = ẋ = x2
ẋ2 = ẍ = −5ẋ − 4x + f (t)
ẋ1 = x2
ẋ2 = −5x2 − 4x1 + f (t)
∆(λ) = det(λI − A) = 0
e são tais que λ1 = −4 e λ2 = −1. Os autovetores, por sua vez, podem ser obtidos
determinando a solução não nula da equação
(A − λI)v = 0
8
A matriz modal do sistema é, então, obtida concatenando os autovetores nas colunas, ou
seja,
−1 1
P = v1 v2 =
4 −1
e substituindo em (4):
−1
∗ −4 0 ∗ −1 1 0
ẋ = x + f (t)
0 −1 4 −1 1
−1 1
x∗
y= 1 0
4 −1
Finalmente,
∗ −4 0 ∗ 1/3
ẋ = x + f (t)
0 −1 1/3
y = −1 1 x∗
Verificamos, pois, que com a adoção das variáveis de estado x∗ as equações de estado se
tornam desacopladas.
3 Linearização de Sistemas
3.1 Série de Taylor
Sistemas lineares são ‘realmente’ lineares somente dentro de um intervalo limitado. Em geral,
sistemas fı́sicos, quı́micos, biológicos, ecológicos, etc. são não lineares, isto é, o princı́pio da
superposição não se aplica a esses sistemas.
A operação normal de um sistema não linear pode variar em um intervalo em torno de um
ponto de equilı́brio. Neste caso, o valor das variáveis envolvidas não varia significativamente.
Note que podem existir várias situações em que a afirmação anterior não é válida. Entretanto,
se um sistema não linear opera em torno de um ponto de equilı́brio, é possı́vel aproximar com
boa precisão o comportamento do sistema não linear usando um modelo linear.
Uma abordagem para linearização de uma função (sistema) não linear consiste em expandir
a função em uma Série de Taylor em torno de um ponto de equilı́brio e desprezar os termos de
ordem maior ou igual a dois. Se os termos de ordem superior à primeira forem suficientemente
pequenos teremos um modelo linear interessante.
Seja y = f (x). A expansão em série de Taylor de f (x) em torno do ponto x̄ é
∂f 1 ∂ 2f
y = f (x̄) + · (x − x̄) + · (x − x̄)2 + · · ·
∂x x=x̄ 2! ∂x2 x=x̄
∂f 2
onde as derivadas , 1 ∂f
∂x x=x̄ 2! ∂x2
, . . . são funções avaliadas em torno do ponto x̄, isto é,
x=x̄
medem a sensibilidade de (x − x̄). Se a variação de (x − x̄) for pequena, pode-se desprezar os
9
termos de ordem igual ou superior a dois, resultando no modelo linear dado por
y = f (x)
∂f
y = f (x̄) + ·(x − x̄)
∂x x=x̄
| {z }
K
y − ȳ = K(x − x̄)
∆y = K∆x
y = f (x, u) ,
Desprezando os termos de ordem igual ou maior que dois e avaliando as derivadas parciais de
f (x, u) em x = x̄ e u = ū temos
∂f ∂f
rcly − ȳ = ·(x − x̄) + ·(u − ū)
∂x x=x̄ ∂u x=x̄
u=ū u=ū
| {z } | {z }
A B
y − ȳ = A(x − x̂) + B(u − û)
∆y = A∆x + B∆u
4 Exercı́cios
...
1. Dada a equação diferencial de 3ª ordem x + ẍ + 2ẋ + x = 2f (t), represente-a no espaço de
estados e em função de transferência considerando a saı́da y = x. Dica: utilize o comando
ss2tf.
2. Dado o sistema mecânico rotacional da figura 3, cujo modelo matemático é dado pelo
sistema de equações diferenciais
10
1 (t ) 2 (t)
k1 k2 k3
J1 J2
T
Figura 3: Sistema Massa-Mola.
ẋ = f (x, u)
ẋ = v · cos(θ)
ẏ = v · sen (θ)
θ̇ = ω
11
UM robô móvel sobre rodas, normalmente, é composto de um chassi
montado sobre rodas, dentre as quais algumas são atuadas por motores por
meio de acoplamentos mecânicos e elétricos, realizando movimentos de ro-
lamento e de esterço [2]. Além disso, têm-se os sistemas de sensoriamento e
navegação, que englobam sistemas de comunicação, eletrônicos e computaci-
onais, cujas atribuições podem ser classificadas como percepção, tomada de
decisão e ação. Dentre essas funções, podem-se destacar o fornecimento de
informações de localização, ambiente e orientação do robô, geração de traje-
tórias, envio e recebimento de comandos e, ainda, gerência do funcionamento
do robô.
As características cinemáticas de um robô móvel sobre rodas são de-
finidas pela forma de atuação, disposição e tipo das rodas empregadas em
sua construção [2, 3]. De acordo com a estrutura do robô definida por meio
dessas características cinemáticas, esse sistema robótico pode ser sujeito a li-
mitações de movimento, conhecidas como restrições não holonômicas. Um
exemplo de um sistema não holonômico é o robô móvel sobre rodas dife-
rencial (RMRD), mostrado na Figura 1.1, composto de duas rodas simples
atuadas de maneira independente, cujo único movimento é de rolamento, e
outras duas rodas livres, cuja função é exclusivamente sustentação. Dessa
maneira, esse robô realiza apenas movimentos combinados de deslocamentos
longitudinais e rotacionais. Apesar disso, o robô pode atingir qualquer ponto
de seu ambiente.
yA
w
v
θ −w Roda atuada
y Roda livre
Vel. Longitudinal
Vel. Rotacional
−v
A x xA
12