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Crustáceos

Chapter · January 2009

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Georgina Bond-Buckup Paula Beatriz Araujo


Federal University of Rio Grande do Sul Federal University of Rio Grande do Sul
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Adriane Zimmer Aline Ferreira Quadros


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Crustáceos
Georgina Bond-Buckup
Ludwig Buckup
Paula Beatriz Araujo
Adriane Ramos Zimmer
Aline Ferreira Quadros
Carolina Coelho Sokolowicz
Daiana da Silva Castiglioni
Daniela Barcelos
Raoni Gonçalves

L Buckup
Crustáceos

Crustáceos

Resumo

Biodiversidade dos Campos do Planalto das Araucárias


A carcinofauna límnica dos campos de cima da serra, abrangendo o norte do Rio Grande do Sul e
sul de Santa Catarina, vem sendo identificada desde a década de 70, e mostra um elevado endemis-
mo de espécies especialmente dos caranguejos anomuros da família Aeglidae. A pesquisa apoiou-se
em dados históricos de ocorrência das espécies, em análises da coleção científica da UFRGS e nas
amostragens realizadas nas principais bacias hidrográficas da região. As amostragens da carcinofauna
aquática foram realizadas no período de agosto a dezembro de 2004, totalizando 85 pontos de coleta.
Foram explorados diversos habitats/nichos disponíveis nas cabeceiras do Rio Pelotas, pertencente
à bacia do Rio Uruguai, incluindo vários de seus tributários, tanto na margem direita quanto na
esquerda. Na serra gaúcha amostraram-se afluentes e nascentes do rio das Antas, pertencente à
bacia hidrográfica Taquari/Antas e nascentes da bacia do rio Caí, em áreas com altitudes superiores
a 800 m. Na maioria das amostras foram encontrados crustáceos, contabilizando-se o total de 85
amostras, onde somente em 6 não foi obtido nenhum espécime. Dois grupos de crustáceos foram
encontrados nos cursos d’água, pertencentes aos caranguejos Anomura Aeglidae e aos Amphipoda
Dogielinotidae ( Hyalellinae). Com relação aos eglídeos, encontraram-se 13 espécies entre 2.845
indivíduos coletados, sendo três espécies novas para a ciência e 11 espécies endêmicas dos cursos
d´água da região. Os espécimens de anfípodos, na sua totalidade ainda não identificados, pertencem
a cinco espécies do gênero Hyalella e foram registradas como endêmicas para a região, sendo quatro
delas novas para a ciência. Foram obtidos quatro novos registros de eglídeos e ao menos quatro do
gênero Hyalella para bacias hidrográficas. Constatou-se um fato inédito para os eglídeos, ainda não
registrado na literatura, que foi a ocorrência de quatro espécies simpátricas em um mesmo local de
amostragem, em tributário do rio Canoas.
A diversidade e o forte endemismo dos eglídeos e hialelíneos, verificados no inventariamento das
bacias hidrográficas e alagados dos campos de cima da serra, mostram a importância desses cursos
d´água para a conservação da carcinofauna límnica.
Como recomendações propõe-se que os resultados dessa pesquisa sejam levados a órgãos públicos,
federais, estaduais e municipais e especialmente, aos Comitês de Bacias Hidrográficas da região,
para que incorporem essas informações nos planejamentos e desenvolvimento das políticas pú-
blicas relacionadas aos cursos d´água da região do Planalto com Araucárias. Sugere-se ainda que o
conhecimento sobre a biodiversidade da fauna aquática, sua importância e os impactos que sofrem
as populações sejam amplamente divulgados junto à comunidade dos municípios que pertencem
aos Campos de Cima da Serra.

Introdução

Os crustáceos límnicos constituem um grupo de incluindo o Chile, Brasil, Argentina, Uruguai, Bolivia e
invertebrados com valor biológico informativo sobre Paraguai. A bacia do Rio Grande, que limita os estados
a qualidade dos corpos d´água. Alguns grupos de crus- de São Paulo e Minas Gerais, é o limite norte de ocor-
táceos de água doce mostram um endemismo na região rência das espécies no Brasil e nos tributários do baixo
meridional da América do Sul, como Anomura Aeglidae, Rio Uruguai, na fronteira com o Uruguai, situam-se os
cuja diversidade de espécie vem sendo inventariada registros de ocorrência meridionais no espaço brasileiro.
nos últimos 15 anos (Bond-Buckup, 2003) Além desse, Até o momento, foram registradas 16 espécies endê-
outros grupos vêm sendo estudados, destacando-se os micas para o Chile, sete para a Argentina e 36 para o
caranguejos (Magalhães, 2003), os camarões de água sul do Brasil. As espécies de Aegla constituem uma das
doce (Melo, 2003) e mais recentemente, Amphipoda principais fontes de alimento da “truta” nos sistemas
Dogielinotidae, pertencentes ao gênero Hyalella, que fluviais do Chile (Burns, 1972). Dados de ocorrência
ocorrem em corpos d´água continentais, cujas espécies das espécies anteriores mostram registros de 10 espécies
freqüentemente são utilizadas em testes laboratoriais para as bacias hidrográficas sulbrasileiras dos Campos
avaliando a toxicidade de efluentes.
de Cima da Serra (Bond-Buckup, 2003). O sul do Brasil,
Os anomuros do gênero Aegla destacam-se como especialmente o nordeste do Rio Grande do Sul e sul
elemento endêmico importante da Região Neotropical, de Santa Catarina, mostram ambientes aquáticos ainda

111
Crustáceos
com relativa boa qualidade, o que favorece a presença de coletas. Foram explorados diversos habitats/nichos
desses crustáceos em suas nascentes e em corpos d´água disponíveis nas cabeceiras do Rio Pelotas, pertencente
vizinhos. à bacia do Rio Uruguai, incluindo vários de seus tribu-
As informações sobre as espécies de Amphipoda do tários. Na margem direita do Rio Pelotas, foram amos-
Biodiversidade dos Campos do Planalto das Araucárias

gênero Hyalella, que ocorrem nas bacias hidrográficas trados o Rio Lava Tudo, o Rio Canoas e muitos de seus
do Brasil, são esparsas e muitas ainda com problemas na tributários e ainda, o Rio Caveiras. Na margem esquerda
identificação específica. Registros anteriores mencionam do Rio Pelotas, em municípios gaúchos, amostraram-se
somente 11 espécies para bacias hidrográficas do Brasil. vários tributários como o Rio do Silveira, Rio do Marco,
(Araujo & Bond-Buckup, 2005). Rio da Divisa, Rio Sepultura e o Rio Manoel Leão. Na
serra gaúcha, amostraram-se afluentes e nascentes do
Material e Métodos rio das Antas, pertencente à bacia hidrográfica Taquari/
Antas e nascentes da bacia do rio Caí, em áreas com
Biodiversidade dos Campos do Planalto das Araucárias

altitudes superiores a 800 m.


Os dados de registros históricos de ocorrência nos
campos de cima da serra dos crustáceos límnicos foram Duas metodologias distintas foram usadas nas cole-
obtidos através de um levantamento bibliográfico. Para tas dos eglídeos, uma mais extensiva, de procura visual
os eglídeos, incorporaram-se alguns dados inéditos, pelos habitats mais apropriados e outra, mais intensiva,
não publicados e, ainda, os resultados das revisões de empregada sempre que as condições da morfologia
Bond-Buckup & Buckup, 1994 e Bond-Buckup, 2003. e do volume do curso d´água se assim o permitisse.
Além desses, foram revisados os lotes depositados na Nessa segunda metodologia, constituída de somente
coleção de crustáceos do Departamento de Zoologia sete amostragens, adotou-se o tempo padrão de seis
da UFRGS, que constituem atualmente a maior coleção minutos, coletando-se intensivamente com um puçá
científica mundial de eglídeos, tanto quanto ao núme- manual e revolvendo-se as pedras e substrato.
ro de lotes, e representatividade de todas as espécies Foi estabelecido um protocolo de campo, contendo
conhecidas. vários aspectos sobre a caracterização do entorno e do
Com relação aos registros dos crustáceos hialelíneos, próprio curso d´água. Considerando que o Rio Tainhas
as informações são escassas para a região, não havendo é tributário do Rio das Antas, optou-se por agrupar os
nenhum registro para as bacias hidrográficas de Santa seus dados nas análises.
Catarina. Os registros de hialelíneos para os corpos Os lotes que possuíam as coordenadas do local de
d’água do território gaúcho, foram compilados de Bond- ocorrência dos eglídeos foram incorporados às análi-
Buckup & Araujo, 1998; Araujo & Bond-Buckup, 2005 ses e representaram 26 novos pontos de amostragem
e Gonzales et al. 2006. realizados na região (Figuras 4.10 e 4.11). Tais lotes se
As campanhas de coleta foram realizadas no período encontram depositados na Coleção de Crustáceos do
de agosto a dezembro de 2004, totalizando 85 pontos Departamento de Zoologia da Universidade Federal do
Rio Grande do Sul.

Figura 4.10. Locais de amostragem da carcinofauna nas bacias hidrográficas nos Campos de Cima da Serra.

112
Crustáceos
Nas análises da rarefação baseada em amostras ranguejos). Com os dados de amostragens extensivas
(curva do coletor) utilizou-se o aplicativo EstimateS houve 82 amostras, com um total de 1942 indivíduos
7.5 (Colwell, 2005). As demais análises foram execu- de eglídeos coletados nas 13 espécies. Entre zero e 180
tadas com o aplicativo PASt (Paleontological Statistics, indivíduos foram encontrados por ponto amostral; em
Hammer & Harper). média, 23,68 (±3,313 e.p.) indivíduos ocorreram por
Na análise da similaridade qualitativa, considerando amostra (vide Tabela - página 124).
os dados de presença/ausência das espécies, utilizou- Em termos das espécies, detectou-se um fato inédito
para os eglídeos, ainda não registrado, com a presença

Biodiversidade dos Campos do Planalto das Araucárias


se o índice de Jaccard, entre a composição da fauna de
Aegla entre as sub-bacias amostradas. de quatro espécies simpátricas, em um mesmo local
de amostragem, em tributário do rio Canoas. Assim, a
média de espécies coexistindo é de apenas 1,20 (±0,102
Resultados e Discussão
e.p.) espécies por ponto amostral. Isto poderia ser inter-
pretado como uma indicação de que as interações entre
Os dados totais dizem respeito às informações obti- as espécies nesta assembléia são relativamente restritas,
das em lotes coletados anteriormente acrescidos das 85 ou seja, corrobora o que se observa nos ambientes, de
amostragens a campo, cada uma em pontos diferentes das que na maioria dos cursos d’água ocorre somente uma
grandes bacias em seis rios: Rio Caí, na bacia de mesmo espécie.
nome, Antas e Tainhas, na bacia do Rio Taquari-Antas,
e Canoas, Caveiras e Pelotas na bacia do Rio Uruguai. Analisando a ocorrência de determinada espécie com
(Figuras 4.12 e 4.13). Constatou-se que na maioria das relação à localização do curso d´água, se em campo de
amostras foram encontrados crustáceos, mostrando que altitude ou em floresta ombrófila mista, constata-se
do total de 85 amostras, somente em seis não foi obtido que algumas espécies mostram alguma associação. Os
registros de ocorrência, até agora disponíveis, das es-
nenhum espécime. Foram identificados dois grupos
pécies A. inconspicua, A. leptodactyla, A. serrana, A. plana,
de crustáceos pertencentes a Peracarida Amphipoda
e três novas espécies, sugerem que a distribuição esteja
Dogielinotidae (Figuras 4.14 e 4.15) e aos caranguejos
associada a cursos d´água de campo. No entanto, A.
Decapoda Anomura Aeglidae (Figuras 4.16 e 4.17).
jarai, espécie com distribuição mais ampla que as de-
Foram encontradas 13 espécies de eglídeos entre mais, ocorre tanto em rios de campo quanto de floresta
2845 indivíduos coletados. Considerando todos os umbrófila mista.
dados, em cada ponto amostral foram coletados entre
De uma maneira geral, percebe-se um acréscimo
zero e 528 indivíduos. Esta grande variação se deve,
nas informações sobre a distribuição geográfica ante-
em parte, à utilização dos dois métodos. A amostragem riormente conhecida das espécies. Para a bacia do Rio
intensiva gerou 791 dos indivíduos coletados totais, e Caveiras foram registradas novas ocorrências como de
duas delas foram as mais abundantes (383 e 209 ca- A. jarai, A. odebrechtii e a. spinosa e para os tributários da

Figura 4.11. Locais de ocorrência de crustáceos eglídeos nas bacias hidrográficas nos Campos de Cima da Serra, incorpo-
rando os dados Probio e os dados históricos.

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Crustáceos
Biodiversidade dos Campos do Planalto das Araucárias
Biodiversidade dos Campos do Planalto das Araucárias

Figura 4.12. Local de ocorrência de crustáceos eglídeos, Rio do Silveira, município São José dos Ausentes, RS. Foto: L.
Buckup.

Figura 4.13. Local de ocorrência de curusstácios anfípodos hialelíneos, tribútario do rio Canoas, Sc. Foto: L. Buckup

bacia do Rio Canoas, a espécie A. odebrechtii. Os cursos informações disponíveis sobre o conhecimento da
d´água escolhidos para as amostragens mostraram-se diversidade do grupo, as amostras ainda estão sendo
adequados, já que houve ampla correspondência na examinadas. Como se trata de um grupo de crustáceos
presença de representantes dos eglídeos. Três espécies com somente quatro espécies conhecidas para bacias do
de eglídeos foram identificadas como novas para a Rio Grande do Sul, como um todo, e nenhum registro
ciência e estão sendo descritas. para os cursos d’água de Santa Catarina, era de se esperar
Com relação aos anfípodos, devido às poucas que fossem encontradas espécies novas para a ciência.
De fato, foram identificadas quatro novas espécies para
114
Crustáceos
a bacia do Pelotas, sendo três espécies nos tributários rinenses. Duas espécies foram descritas, Hyalella castroi
da margem esquerda e uma espécie em um afluente e H. pleoacuta Gonzalez et al, 2006, enquanto as demais
da margem direita. Esse último representa o primeiro espécies ainda estão sendo estudadas.
registro de Dogi-elinotidae para os cursos d’água cata-

Biodiversidade dos Campos do Planalto das Araucárias


Figura 4.14. Exemplar de Hyalella castroi Gonzalez, Bond-Buckup & Araujo.
Foto: L. Buckup.

Figura 4.15. Exemplar de Hyalella pleoacuta Gonzalez, Bond-Buckup & Araujo. Foto: L. Buckup.

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Crustáceos
Biodiversidade dos Campos do Planalto das Araucárias
Biodiversidade dos Campos do Planalto das Araucárias

Figura 4.16. Exemplar de Aegla camargoi Buckup & Rossi. Foto: L. Buckup.

Figura 4.17. Exemplar de Aegla leptodactyla Buckup & Rossi. Foto: L. Buckup.

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Crustáceos
Diversidade Alfa

Comparação entre Bacias: Riqueza de Espécies.


As curvas estimadas de acumulação de espécies (Figura com as estimativas do número de espécies obtidas após
4.18) diferem entre os rios na medida que as amostras 8 amostras em cada sub-bacia, provenientes do Rio
do rio Tainhas-Antas, Caveiras e as do Pelotas indicam Caveiras, o Pelotas aparece como o mais rico em

Biodiversidade dos Campos do Planalto das Araucárias


uma leve tendência à estabilização, ao passo que as duas espécies, com significância nesta diferença apenas em
outras sub-bacias ainda apresentam-se quase lineares. relação ao Tainhas-Antas; para os demais rios, não há
Tendo em vista as diferenças de tamanho amostral, diferenças significativas (Figura 4.19)
considerando o número de pontos de coleta entre as A variação de riqueza de espécies, avaliando a quan-
sub-bacias, uma comparação entre a riqueza de espécies tidade de espécies em cada local de coleta, ou seja, a
das mesmas exige o uso da rarefação apresentada acima, fauna local convivendo num dado trecho de rio, revelou
ou seja, avalia o número geral de espécies presentes ausência de diferenças na riqueza de espécies para as
numa sub-bacia com o acúmulo de amostras. Assim, sub-bacias (F5;75 = 1,585; p = 0,175; Figura 4.20).

Figura 4.18. Rarefação baseada em amostragens de eglídeos nas diferentes sub-bacias dos Campos de Cima da Serra.

Distribuição de Abundância Entre Espécies

Os caranguejos eglídeos apresentam uma distribui- seguindo-se A. leptodactyla, A inconspicua, A. n. sp. 2 e A.


ção de abundância desigual entre as 13 espécies: uma camargoi com mais de 10% de abundância. De acordo
espécie, Aegla jarai, domina sobre as demais, sendo com os números absolutos, nenhuma espécie poderia
responsável por cerca de 18% da abundância total, ser considerada rara (Figura 4.21).

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Crustáceos
Biodiversidade dos Campos do Planalto das Araucárias

riqueza de espécie
Biodiversidade dos Campos do Planalto das Araucárias

Caí Caveiras Canoas Pelotas Tainhas-


Antas

sub-bacias

Figura 4.19. Comparação da riqueza de espécies (± i.c.) entre as sub-bacias padronizada pelo tamanho amostral de
eglídeos nos Campos de Cima da Serra, RS e SC (letras iguais não diferem significativamente).
riqueza de espécie(s)

Caí Caveiras Canoas Pelotas Tainhas-


Antas

sub-bacias

Figura 4.20. Comparação da riqueza média (± e.p.) de espécies entre as sub-bacias dos Campos de Cima da Serra, RS
e SC, para eglídeos. Não há diferenças significativas entre as riquezas para as sub-bacias sob uma ANOVA simples.

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Crustáceos
Diversidade Beta
Cinco das 13 espécies de eglídeos ocorreram somente em a sua distribuição geográfica (Anexo 2).
um rio/sub-bacia, A. inconspicua, A. ligulata, A. aegla n. sp. O rio Canoas e o Pelotas, os rios mais bem amostra-
3, A. camargoi e A. leptodactyla (Anexo 1 - Tabela 4.1 I). dos, apresentam em sua bacia (Pelotas-Uruguai) sete
Outras quatro espécies ocorreram em 3 rios/sub- espécies que não ocorrem nem na bacia do Caí nem
bacias distintas (A. franciscana, A. serrana, A. jarai, A. na do Taquari-Antas. De forma semelhante, a bacia

Biodiversidade dos Campos do Planalto das Araucárias


odebrechtii e A. spinosa). Nenhuma espécie ocorreu em do Taquari-Antas possui apenas uma espécie exclusiva
todas as sub-bacias amostradas. (A. ligulata), porém esta é abundante (293 indivíduos
Analisando a distribuição geográfica das espécies, coletados) e ocorre nos dois rios amostrados na bacia.
constata-se que todas as espécies são endêmicas das O mesmo ocorre com A. inconspicua, que embora tenha
bacias hidrográficas amostradas, ocorrendo no máxi- registro anterior para o Pelotas, foi encontrada somente
mo em três sub-bacias. Constitui exceção Aegla jarai, na bacia do Caí e ocorrendo lá em considerável abun-
espécie muita abundante na região e que se encontra nos dância (466 indivíduos).
cursos d´água das bacias do Itajaí-Açú, Pelotas, Canoas e O padrão qualitativo apresentado acima é corro-
Caveiras. Outras espécies, no entanto, apresentam um borado na análise quantitativa de agrupamento dos
forte endemismo, como A. leptodactyla que é encontrada rios/sub-bacias por similaridade. Os rios da bacia do
somente em tributários da margem esquerda do Pelotas, Pelotas-Uruguai formam um agrupamento fortemente
a nordeste do RS. A espécie A. odebrechtii, com regis- distinto dos rios da bacia do Taquari-Antas e do Caí
tros de ocorrência para as bacias Pelotas e Itajaí-Açu, (Figura 4.22), denotando uma exclusividade das faunas
no centro e leste de SC, norte e nordeste do RS, foi de bacias diferentes, relacionada a padrões históricos e
encontrada na bacia do Caveiras e Canoas, ampliando biogeográficos mais amplos.

Figura 4.21. Frequência relativa de eglídeos, considerando os registros anteriores e as amostragens nos campos
de Cima da Serra-RS e SC. Projeto Biodiversidade dos Campos do Planalto das Araucárias.

Conclusões

Os crustáceos anomuros eglídeos estão restritos a inventariamento nos campos de cima da serra no sul do
região Neotropical da América do Sul, sendo o único Brasil. A ocorrência de quatro espécies em um mesmo
grupo de anomuros que só ocorre em águas continen- curso d´água, fato inédito na literatura, revela a diversi-
tais. A maioria das espécies se encontra em uma bacia dade dessa carcinofauna e a importância na conservação
hidrográfica ou em duas adjacentes. Mostram, portanto, da qualidade das águas.
um grande endemismo, o que foi confirmado nesse

119
Crustáceos

Os dados quantitativos aqui analisados representam resíduos orgânicos, oriundos de esgotos e da criação de
uma primeira visualização dos padrões ecológicos das animais domésticos. A substituição das matas ciliares,
assembléias de crustáceos dos Campos de Cima da com sérias conseqüências no assoreamento dos rios e
Biodiversidade dos Campos do Planalto das Araucárias

Serra, especialmente dos eglídeos, constituindo uma na diversidade da fauna aquática, é visível na grande
exploração inédita dos aspectos faunísticos ecológicos maioria dos tributários das bacias. Nos campos de cima
deste grupo. da serra, por outro lado, a terra vem sendo cultivada,
em grande escala, com a maçã e batata, com o uso
A diversidade e o forte endemismo dos eglídeos e
não controlado de defensivos agrícolas, que afetam a
hialelídeos, verificados nos resultados desse estudo, qualidade das águas e consequentemente, diminuem as
destacam a importância da conservação dos rios e populações de crustáceos límnicos pela destruição de
alagados da região dos campos de cima da serra para a habitats e pela quebra da teia trófica límnica.
preservação da carcinofauna.
Biodiversidade dos Campos do Planalto das Araucárias

Ameaças para a Carcinofauna Agradecimentos


As ameaças para a diversidade da carcinofauna são Aos colaboradores que participaram em alguma etapa
consequência dos impactos que sofrem os ambientes do projeto, acadêmicos de biologia Felipe Bavaresco,
do entorno da bacia hidrográfica. Os cursos d´água Vinicius Souza e Mariele Santos Lopes. Especial agra-
estão sendo fortemente impactados, tanto pelas práticas decimento ao Dr. Milton Mendonça Jr. pelo importante
de silvicultura de exóticas, como pelo lançamento de auxílio nas análises estatísticas.

Figura 4.22. Tributário do rio Canoas, SC, mostrando arroio de águas impactadas com elevada matéria orgânica em suspensão.
foto G. Bond-Buckup.

120
Crustáceos
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123
Crustáceos

Anexo 1
Biodiversidade dos Campos do Planalto das Araucárias

Tabela 4.1. Crustáceos amostrados por bacia hidrográfica nos Campos de Cima da Serra - Projeto PROBIO RS/SC.
Biodiversidade dos Campos do Planalto das Araucárias

%$&,$ (63e&,(
$HJO D I UD QFLVFD QD %XFN XS 5RVVL    
$HJO D LQVFRQVS LFXD %RQG%XFN XS %XFN XS    
56 &Dt $HJO D S O D QD %XFN XS 5RVVL    
$HJO D VHU UD QD %XFN XS 5RVVL    
+\D O HO O D VSS
$HJO D O LJXO D WD %RQG%XFN XS %XFN XS    
$HJO D I UD QFLVFD QD %XFN XS 5RVVL    
567DTXDUL$QWDV $HJO D S O D QD %XFN XS 5RVVL    
$HJO D VHU UD QD %XFN XS 5RVVL    
+\D O HO O D VSS
$HJO D MD UD L %RQG%XFN XS %XFN XS    
$HJO D RG HE UHFKWLL 6FKPLWW    
$HJO D VS LQRVD %RQG%XFN XS %XFN XS    
6&&DY HLUDV
$HJO D Q VS 
$HJO D Q VS 
+\D O HO O D VSS
$HJO D MD UD L %RQG%XFN XS %XFN XS    
$HJO D RG HE UHFKWLL 6FKPLWW    
6&&DQRDV $HJO D VS LQRVD %RQG%XFN XS %XFN XS    
$HJO D Q VS 
+\D O HO O D VSS
$HJO D FD PD U JRL %XFN XS 5RVVL    
$HJO D I UD QFLVFD QD %XFN XS 5RVVL    
$HJO D MD UD L %RQG%XFN XS %XFN XS    
$HJO D O HS WRG D FW\O D %XFN XS 5RVVL    
$HJO D RG HE UHFKWLL 6FKPLWW    
$HJO D VHU UD QD %XFN XS 5RVVL    
6& 563HORWDV $HJO D VS LQRVD %RQG%XFN XS %XFN XS    
$HJO D Q VS 
$HJO D Q VS 
+\D O HO O D PRQWHQHJULQD H %RQG%XFN XS $UD XMR    
+\D O HO O D FD VWURL *RQ]k OH] %RQG%XFN XS $UD XMR    
124 +\D O HO O D S O HRD FXWD *RQ]k OH] %RQG%XFN XS $UD XMR    
+\D O HO O D VSS
Crustáceos . Anexos

Anexo 2

Mapas de Ocorrência das Espécies de


Crustáceos Límnicos no Planalto das Araucárias/RS e SC.

Biodiversidade dos Campos do Planalto das Araucárias


Figura 4.23. Mapa de altitude com os locais de ocorrência de Aegla camargoi Buckup & Rossi, 1977.

Figura 4.24. Mapa de altitude com os locais de ocorrência de Aegla franciscana Buckup & Rossi, 1977.

125
Crustáceos . Anexos
Biodiversidade dos Campos do Planalto das Araucárias

Figura 4.25. Mapa de altitude com os locais de ocorrência de Aegla inconspicua Bond-Buckup & Buckup,
1994.

Figura 4.26. Mapa de altitude com os locais de ocorrência de Aegla jarai Bond-Buckup & Buckup, 1994.

126
Crustáceos . Anexos

Biodiversidade dos Campos do Planalto das Araucárias


Figura 4.27. Mapa de altitude com os locais de ocorrência de Aegla leptodactyla Buckup & Rossi, 1977.

Figura 4.28. Mapa de altitude com os locais de ocorrência de Aegla ligulata Bond-Buckup & Buckup, 1994.

127
Crustáceos . Anexos
Biodiversidade dos Campos do Planalto das Araucárias

Figura 4.29. Mapa de altitude com os locais de ocorrência de Aegla odebrechtii Schmitt, 1942.

Figura 4.30. Mapa de altitude com os locais de ocorrência de Aegla plana Buckup & Rossi, 1977.

128
Crustáceos . Anexos

Biodiversidade dos Campos do Planalto das Araucárias


Figura 4.31. Mapa de altitude com os locais de ocorrência de Aegla serrana Buckup & Rossi, 1977.

Figura 4.32. Mapa de altitude com os locais de ocorrência de Aegla spinosa Bond-Buckup & Buckup, 1994.

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