REALIZAÇÃO:
AGENDA
POLÍTICA PÚBLICA
APOIO:
VOLUME 21, MARÇO 2026
Soluções Baseadas na Natureza
e como implementá-las FINANCIAMENTO:
Hannah Arcuschin Machado e Riciane Pombo
Principais Mensagens
As soluções baseadas na natureza (SBN) são uma abordagem
promissora para enfrentar desafios urbanos contemporâneos,
especialmente aqueles relacionados às mudanças climáticas, à
degradação ambiental e à desigualdade socioambiental nas
cidades.
Ao integrar processos ecológicos ao planejamento urbano,
essas soluções podem reduzir riscos climáticos e aumentar a
resiliência, além de gerar benefícios econômicos e sociais, como
a geração de emprego e renda e a melhoria da saúde urbana.
A consolidação das SBN exige avanços institucionais e técnicos,
como a padronização de parâmetros técnicos, o aprimoramento
de mecanismos de monitoramento e avaliação e sistematização
de evidências sobre custos e benefícios.
Outro aspecto fundamental refere-se à própria saúde e
resiliência dos ecossistemas utilizados nessas soluções: como
muitas SBN dependem do uso de vegetação, fatores como
seleção de espécies, adaptação climática e manutenção
adequada tornam-se elementos centrais para garantir sua
eficácia ao longo do tempo.
Autores: Universidade de São Paulo
Reitor: Aluisio Augusto Cotrim Segurado
Hannah Arcuschin Machado Vice-reitora: Lied Légi Bariani Bernucci
Riciane Pombo
Instituto de Energia e Ambiente
da Universidade de São Paulo
Diretor: Prof. Dr. Tércio Ambrizzi
Vice-diretor: Prof. Dr. Ildo Luís Sauer
Ficha Técnica
Financiamento: FUSP – Fundação de Apoio à Universidade de São Paulo
Organização: Pedro Roberto Jacobi e Valeriana Augusta Broetto
Revisão: Valeriana Augusta Broetto
Design: Thiago Panegassi
Ficha Catalográfica
M149 Machado, Hannah Arcuschin.
Soluções baseadas na natureza. [recurso eletrônico] / Hannah Arcuschin Machado e
Riciane Pombo; organização: Pedro Roberto Jacobi e Valeriana Augusta Broetto. -- São
Paulo: IEE-USP, 2026
v. 21: il. 30 cm. (Série: Agenda política pública, v.21, mar. 2026)
ISBN :978-65-88109-81-6
DOI10.11606/9786588109816
1. Degradação ambiental. 2. Políticas públicas. 3. Mudança climática. I. Machado,
Hannah Arcuschin. II. Pombo, Riciane. III. Jacobi, Pedro Roberto, org. IV. Broetto,
Valeriana Augusta. V. Título. VI. Série.
CDU 551.583
Elaborado por Maria Penha da Silva Oliveira CRB-8/6961
©2026 IEE/USP
Esta obra é de acesso aberto. É permitida a reprodução parcial ou
total desta obra, desde que citada a fonte e autoria e respeitando
a Licença Creative Commons indicada.
Introdução
Historicamente, as cidades modernas foram planejadas e construídas de forma relativamente dissociada dos
sistemas naturais. Desde a Revolução Industrial, a expansão urbana tem sido acompanhada pela
impermeabilização do solo, canalização de rios, supressão de vegetação e ocupação de áreas ambientalmente
sensíveis. Esse modelo de urbanização trouxe ganhos importantes em infraestrutura e produtividade econômica,
mas também contribuiu para problemas ambientais que afetam diretamente a qualidade de vida nas cidades, como
enchentes, ilhas de calor, poluição do ar e degradação de ecossistemas (Marques et al., 2021).
Nesse contexto, diferentes campos do conhecimento – como arquitetura da paisagem, planejamento urbano e
ecologia urbana – vêm propondo estratégias para reintegrar processos naturais ao ambiente construído. A proposta
central é utilizar as funções ecológicas dos ecossistemas para enfrentar desafios urbanos contemporâneos,
combinando conservação ambiental, infraestrutura e bem-estar social (Marques et al., 2021).
Apesar disso, é importante reconhecer que a ideia de integrar natureza e sociedade não é nova. Povos indígenas e
comunidades tradicionais mantiveram, ao longo de milênios, práticas de manejo e convivência com os ecossistemas
que favorecem processos de adaptação e coevolução entre sociedades humanas e natureza. Essas experiências
oferecem importantes referências para a construção de estratégias contemporâneas de sustentabilidade e
resiliência (Jacobi; Pombo, 2025).
O conceito de Soluções Baseadas na Natureza (SBN) surge nesse contexto como uma abordagem integradora.
Embora o termo tenha se consolidado recentemente – especialmente a partir da década de 2010 e com crescente
difusão na América Latina após 2020 – ele reúne diferentes abordagens já existentes, como infraestrutura verde,
infraestrutura natural e adaptação baseada em ecossistemas (Marques et al., 2021).
Uma das definições mais difundidas foi proposta pela União Internacional para a Conservação da Natureza
(IUCN), que define SBN como:
Ações para proteger, gerir de forma sustentável e restaurar ecossistemas naturais ou modificados que
enfrentem desafios sociais de maneira efetiva e adaptativa, proporcionando simultaneamente benefícios para o
bem-estar humano e para a biodiversidade (Cohen-Shacham et al., 2016).
No contexto urbano, essas soluções podem incluir iniciativas como parques lineares ao longo de rios, jardins de
chuva, telhados verdes, arborização urbana e restauração de áreas naturais em regiões metropolitanas. Além de
contribuírem para a conservação ambiental, essas intervenções podem melhorar o conforto térmico, reduzir riscos
de desastres e ampliar a qualidade dos espaços públicos (Ferreira; Di Giulio, 2025).
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Saiba Mais!
Tipologias de soluções baseadas na natureza
As SBN podem assumir diferentes formas e níveis de intervenção nos ecossistemas. Uma
classificação frequentemente utilizada organiza essas soluções em três tipos principais,
compreendidos como pontos de um continuum entre conservação e engenharia ecológica:
Tipo 1 Conservação de ecossistemas naturais
Intervenções mínimas voltadas à manutenção ou ampliação dos serviços ecossistêmicos já existentes,
como a proteção de áreas verdes urbanas ou de mananciais.
Tipo 2 Manejo ou restauração de ecossistemas
Ações que buscam recuperar ou modificar ecossistemas para aumentar a oferta de determinados
serviços, como restauração de matas ciliares ou recuperação de áreas degradadas.
Tipo 3 Criação de ecossistemas ou infraestrutura verde
Intervenções projetadas e construídas para incorporar processos ecológicos ao ambiente urbano,
como telhados verdes, jardins de chuva, biovaletas e parques urbanos.
No caso das soluções do tipo 3, as intervenções podem ocorrer em diferentes escalas – desde
edificações e lotes urbanos até bairros e cidades inteiras – combinando elementos de engenharia e
ecologia para produzir benefícios ambientais e sociais.
Soluções baseadas na natureza para resiliência climática
Um dos campos de aplicação mais relevantes das SBN é a adaptação às mudanças climáticas e o aumento da
resiliência urbana. Com o avanço das mudanças climáticas, cidades ao redor do mundo enfrentam maior exposição
a eventos extremos, como enchentes, ondas de calor, secas e deslizamentos de terra. Nesse contexto, soluções
baseadas na natureza podem complementar ou, em alguns casos, substituir infraestruturas tradicionais ao utilizar
processos ecológicos para reduzir riscos e vulnerabilidades (Van Zanten et al., 2023).
Para que sejam eficazes, essas soluções precisam ser planejadas a partir de uma abordagem sistêmica,
considerando a ecologia da paisagem, a infraestrutura existente e o funcionamento das bacias hidrográficas. Em
muitos casos, seus benefícios tornam-se mais evidentes quando analisados em escala territorial mais ampla, como
bairros, cidades ou regiões metropolitanas.
As SBN podem contribuir para reduzir diversos tipos de ameaças climáticas em áreas urbanas (Van Zanten et al.,
2023, Ferreira; Di Giulio, 2025), como alagamentos, enchentes e inundações, erosão costeira e ribeirinha, regulação
hídrica e secas, ilhas de calor e deslizamento de encostas. No entanto, estudos recentes alertam que essas soluções
não devem ser tratadas como respostas universais ou automaticamente benéficas. Sua implementação precisa
considerar desigualdades socioespaciais, processos de governança e a distribuição dos benefícios entre diferentes
grupos sociais, evitando que intervenções ambientais reforcem exclusões ou processos de valorização imobiliária
que desloquem populações vulneráveis (Torres et al., 2023).
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Exemplos de SBN para resiliência climática
Alagamentos, enchentes e inundações
Espaços verdes, áreas permeáveis e restauração de vegetação podem reduzir o escoamento superficial da água,
armazenar volumes de chuva e diminuir a intensidade de inundações urbanas.
Erosão costeira e ribeirinha
Ecossistemas naturais como manguezais, vegetação ripária e áreas úmidas contribuem para estabilizar margens de
rios e zonas costeiras, reduzindo a erosão e protegendo áreas urbanizadas contra a perda de solo e danos à
infraestrutura.
Ilhas de calor urbanas
A arborização urbana, telhados verdes e corpos d’água ajudam a reduzir temperaturas nas cidades por meio de
sombreamento e evaporação, mitigando o efeito de ilha de calor e reduzindo impactos na saúde da população.
Soluções baseadas na natureza e infraestrutura cinza
Tradicionalmente, os desafios ambientais urbanos têm sido enfrentados por meio da chamada infraestrutura cinza,
composta por obras de engenharia convencionais como piscinões, canais de drenagem, barragens, muros de
contenção, diques e sistemas de drenagem subterrânea.
Essas estruturas desempenham papel importante na gestão de riscos e na provisão de serviços urbanos, mas
frequentemente apresentam custos elevados de construção, além de baixa capacidade de adaptação a mudanças
ambientais de longo prazo (IPCC, 2022).
As SBN não substituem automaticamente a infraestrutura tradicional, mas podem complementá-la ou integrá-la,
formando sistemas híbridos que combinam engenharia e processos ecológicos. Em muitos casos, essa integração
permite alcançar maior eficiência, flexibilidade e múltiplos benefícios ambientais e sociais (Van Zanten et al., 2023).
Outro aspecto importante refere-se à estrutura de custos dessas soluções. Projetos de infraestrutura tradicional
costumam apresentar elevados custos iniciais de construção, enquanto soluções baseadas na natureza tendem a
ter custos iniciais menores, mas demandam manutenção e monitoramento contínuos para garantir seu
funcionamento ao longo do tempo (Van Zanten et al., 2023).
Soluções baseadas na natureza no arcabouço Saiba Mais!
institucional brasileiro
No Brasil, o tema das soluções baseadas na natureza vem ganhando espaço nas políticas públicas federais,
especialmente em iniciativas relacionadas à adaptação climática, restauração ecológica e planejamento urbano
sustentável. No campo legal, avanços recentes incluem a incorporação das SBN em decretos e legislações federais
voltadas à gestão de riscos, adaptação climática e planejamento urbano. Entre os programas e iniciativas que
incorporam essa abordagem destacam-se:
Programa Cidades Verdes Resilientes (2024), que busca fortalecer a resiliência climática urbana por meio da
valorização dos serviços ecossistêmicos (Decreto nº 12.041/2024 e resoluções CG-PCVR Nº 1, 2 e 3 de 2026).
Novo Programa de Aceleração do Crescimento – Novo PAC (2023), que inclui SBN como critério de seleção em
projetos de prevenção a desastres naturais;
Plano Plurianual 2024–2027, que incorpora SBN no Programa de Bioeconomia para um Novo Ciclo de
Prosperidade;
Plano Nacional de Recuperação da Vegetação Nativa (Planaveg), que reconhece a SBN como estratégia para
gestão hídrica e redução de riscos climáticos;
Apesar desses avanços, ainda existem desafios importantes para ampliar a adoção das SBN. Entre eles
destacam-se a necessidade de maior padronização técnica, definição de indicadores de monitoramento e
integração das SBN aos instrumentos de planejamento urbano, como planos diretores e políticas municipais de
adaptação climática.
Orçamentação de soluções baseadas na natureza Saiba Mais!
A implementação de SBN em políticas públicas também depende da capacidade de planejar e orçar
adequadamente esses projetos.
No Brasil, o Sistema Nacional de Pesquisa de Custos e Índices da Construção Civil (Sinapi) constitui a principal
referência para estimativas de custos em obras públicas. O sistema reúne composições de custos unitários para
materiais, equipamentos e mão de obra utilizados em obras de infraestrutura e edificações.
Estudos recentes indicam que 95% dos insumos e serviços necessários para a implantação de cinco tipologias de
soluções baseadas na natureza (jardim de chuva, biovaleta, canteiro pluvial, grade viva e escada hidráulica
vegetada) já pode ser estimada a partir das bases de dados existentes do Sinapi. Isso demonstra que a
orçamentação dessas soluções é tecnicamente viável dentro dos sistemas atualmente utilizados pela administração
pública.
Ao mesmo tempo, a criação de um caderno técnico específico para SBN poderia aprimorar a precisão e
padronização dos orçamentos, facilitando sua adoção em projetos públicos e ampliando a escala de implementação
dessas soluções no país.
Estudos de caso e boas práticas
Recuperação socioecológica do Lago Cabrinha
(Londrina – PR, Brasil)
O Complexo de Lazer do Córrego Cabrinha, inaugurado em 2004 na zona norte de Londrina, tornou-se um exemplo
da insuficiência das infraestruturas cinzas tradicionais. O local sofria intensamente com o lançamento a céu aberto
de águas pluviais vindas de galerias de drenagem, cujo alto volume e velocidade causavam severa erosão nas
margens, destruição de estruturas de concreto (como dissipadores e passarelas) e o assoreamento contínuo dos
lagos.
Diante desse cenário de degradação, que incluía nascentes sufocadas por pedras e ausência de vegetação, o projeto
de requalificação do Lago Cabrinha surgiu com o objetivo de mitigar a degradação ambiental e aumentar a
resiliência do sistema de drenagem frente a eventos de chuva intensa, utilizando exclusivamente SBN, servindo
como modelo para outras políticas públicas na região.
A intervenção no Córrego Cabrinha priorizou a recuperação dos ecossistemas locais, com mínima interferência
artificial. A premissa central foi a exclusão do uso de concreto, adotando-se estratégias baseadas na hidrodinâmica
natural e na regeneração da vegetação. Nesse contexto, foram implementadas SBN, incluindo a remoção de pedras
que obstruíam e sufocavam as nascentes, bem como o plantio de vegetação ripária, com espécies arbustivas típicas
do bioma local, entre as rochas remanescentes.
Também foram implantados amortecedores ripários – áreas vegetadas ao longo do curso d’água – e sequências de
degraus e poças (step pools), formadas por piscinas escalonadas e pequenos barramentos com pedras
semi-enterradas. Essas estruturas contribuem para reduzir a velocidade do escoamento das águas pluviais, dissipar
energia hidráulica e favorecer a infiltração, por meio da conformação côncava do terreno e da criação de pequenas
depressões ao longo do leito.
Essas ações não apenas controlam o impacto do volume e da velocidade do escoamento superficial das águas, mas
também promovem a melhoria do microclima local, a redução do risco de deslizamentos e o resgate da
biodiversidade.
O projeto destacou-se por sua ampla articulação, sendo viabilizado através do Projeto INTERACT-BIO,
implementado pelo ICLEI (Governos Locais pela Sustentabilidade), em parceria com o Governo da Alemanha
(Ministério do Meio Ambiente, Proteção da Natureza e Segurança Nuclear) e a Prefeitura de Londrina. A governança
do projeto foi estruturada a partir da colaboração de múltiplos atores do poder público local, setor privado, academia
e sociedade civil. Houve também o envolvimento estratégico da iniciativa privada local (fornecedores regionais), o
que ajudou a expandir o conhecimento sobre SBN no mercado de arquitetura e engenharia da região,
transformando as práticas adotadas em soluções escalonáveis para futuras políticas públicas. Atualmente as
intervenções são monitoradas e mantidas pela prefeitura e se transformaram em um estudo de caso com potencial
de ser replicado em diversos contextos urbanos, especialmente em fundos de vale e parques lineares sujeitos a
processos erosivos.
Sociotopos indígenas e gestão ecológica do território:
o casoda Tekoa Itakupé (São Paulo – SP, Brasil)
A aldeia Tekoa Itakupé, localizada na Terra Indígena do Jaraguá, em São Paulo, se apresenta como um
exemplo de gestão territorial indígena que incorpora princípios alinhados às Soluções Baseadas na Natureza.
O conceito de sociotopo indígena refere-se à forma como comunidades tradicionais organizam o território a
partir da interação entre cultura, espiritualidade e ecologia, estruturando espaços de uso coletivo que mantêm
o equilíbrio entre atividades humanas e processos naturais.
Nesse contexto, a ocupação do território não se baseia na transformação intensiva da paisagem, mas na
manutenção de ciclos ecológicos e na utilização sustentável dos recursos naturais. A organização espacial da
aldeia envolve áreas de moradia, cultivo, coleta e preservação ambiental, mantendo relações de reciprocidade
com a floresta e os cursos d’água. Entre as principais intervenções estão a proteção e recuperação de
nascentes, incluindo isolamento de áreas sensíveis, recomposição da vegetação nativa e controle de
processos erosivos. Também estão em curso intervenções no curso d’água a partir da criação de lagos para
criação de peixes, construídos com materiais locais como pedras, bambu e troncos.
Essas práticas territoriais contribuem para a conservação da biodiversidade, proteção de nascentes e
manutenção de serviços ecossistêmicos fundamentais, como regulação hídrica e estabilidade do solo. Dessa
forma, os sociotopos indígenas podem ser compreendidos como sistemas socioecológicos que antecipam
princípios hoje associados às SBN. As intervenções técnicas são acompanhadas por um processo de
governança comunitária e transmissão de conhecimentos tradicionais, envolvendo assembleias locais,
participação da comunidade nas atividades de restauração e integração com práticas culturais associadas ao
manejo da água e da floresta.
Ação educativa sobre os lagos da aldeia Itakupé - Jaraguá
Crédito da foto: Riciane Pombo, 2018
Parque Orla Piratininga (Niterói – RJ, Brasil)
Localizada na Região Oceânica do município de Niterói, a Lagoa de Piratininga sofreu por décadas com poluição,
assoreamento e crescimento urbano desordenado em seu entorno. A degradação ambiental comprometeu o uso
público da área e afastou a população local, que passou a perceber o espaço como inseguro e degradado. Diante
desse cenário, a Prefeitura de Niterói desenvolveu o Parque Orla Piratininga, com o objetivo de recuperar o
ecossistema da lagoa e requalificar o espaço urbano para uso público.
Implantado entre 2020 e 2024, o parque ocupa aproximadamente 11 km do entorno da lagoa e recebeu
investimento de cerca de R$ 100 milhões. O projeto inclui três sistemas de alagados construídos, conhecidos como
jardins filtrantes, que realizam a fitorremediação das águas provenientes dos rios que deságuam na lagoa. Nesses
sistemas, a vegetação aquática consome matéria orgânica e favorece a atividade de microrganismos responsáveis
pela decomposição de poluentes. A água captada pelos vertedouros é conduzida para bacias de sedimentação e,
posteriormente, para os jardins filtrantes, onde ocorre o processo de tratamento natural. Os principais
contaminantes retidos nesses sistemas são sedimentos provenientes da erosão das margens, esgoto clandestino e
resíduos sólidos (Castro et al., 2025).
Além dos jardins filtrantes, o parque incorpora biovaletas ao longo do seu sistema de drenagem urbana. Essas
estruturas lineares e permeáveis, preenchidas com camadas filtrantes de areia e brita e complementadas por drenos
e vegetação herbácea, permitem captar e infiltrar águas pluviais, contribuindo para reduzir alagamentos e melhorar
a qualidade da água antes de seu retorno ao sistema hídrico (Castro et al., 2025).
A implantação do parque exigiu cuidados técnicos significativos devido às características ambientais da área. Como
parte do projeto foi construída sobre antigo leito da lagoa, os solos apresentam elevado grau de assoreamento e
baixa estabilidade, o que demandou estudos geotécnicos e soluções específicas para evitar recalques que
pudessem comprometer a integridade das tubulações e das estruturas dos jardins filtrantes. Outro condicionante
importante foi a limitação física do espaço disponível entre o espelho d’água da lagoa e as áreas urbanizadas do
entorno. O projeto buscou conciliar a implantação das infraestruturas ecológicas com a permanência das
comunidades locais, evitando remoções sempre que possível (Castro et al., 2025). Dessa forma, a extensão e o
formato dos sistemas de alagados foram definidos a partir dessas restrições territoriais, mantendo como princípio a
mínima intervenção sobre o leito da lagoa e sobre as áreas habitadas.
Recomendações
Incorporar SBN nos instrumentos de planejamento urbano, como planos diretores, planos de
adaptação climática, políticas de drenagem urbana e estratégias de desenvolvimento urbano,
garantindo que infraestrutura verde e azul seja considerada desde as etapas iniciais do
planejamento territorial.
Desenvolver parâmetros técnicos e diretrizes nacionais para SBN, através de normas técnicas,
manuais e guias de implementação que orientem gestores públicos sobre tipologias e critérios de
implantação e de manutenção.
Criar sistemas de monitoramento e avaliação de resultados: estabelecer indicadores padronizados
para mensurar efetividade, custos e co-benefícios das SBN, permitindo avaliar impactos em
redução de riscos climáticos, qualidade ambiental, saúde urbana e bem-estar social.
Fortalecer mecanismos de financiamento e incentivos públicos: incorporar SBN em programas
federais de infraestrutura, adaptação climática e desenvolvimento urbano, ampliando o acesso a
recursos para projetos municipais e regionais que integrem infraestrutura verde.
Aprimorar instrumentos de orçamento e contratação pública: desenvolver referências técnicas
específicas para SBN em sistemas como o Sinapi, facilitando a elaboração de projetos, estimativas
de custos e licitações públicas voltadas à infraestrutura verde urbana.
Priorizar implementação em áreas urbanas vulnerabilizadas: direcionar projetos de SBN para
territórios com maior exposição a enchentes, deslizamentos, ilhas de calor e déficit de áreas
verdes, contribuindo para reduzir desigualdades socioambientais nas cidades.
Valorizar conhecimentos locais e saberes tradicionais: incorporar práticas de manejo e gestão de
ecossistemas desenvolvidas por povos indígenas e comunidades tradicionais.
Fortalecer capacidades institucionais dos governos locais por meio da capacitação técnica de
gestores municipais, equipes de planejamento urbano e profissionais de engenharia e arquitetura
da paisagem para ampliar a adoção e gestão adequada das SBN.
Estimular participação social e governança colaborativa, envolver comunidades, organizações da
sociedade civil e setor privado na concepção, implementação e manutenção das SBN, garantindo
maior legitimidade social e sustentabilidade das intervenções.
Integrar soluções baseadas na natureza à infraestrutura cinza: quando a SBN não for suficiente
para endereçar o problema, elaborar projetos híbridos que combinem obras de engenharia
convencional à SBN, visando o aumento da biodiversidade e à prestação de serviços
ecossistêmicos.
Referências
CASTRO, Dionê Maria Marinho et al. Parque Orla Piratininga Alfredo Sirkis: Natureza, inovação e justiça
socioambiental. Niterói: Texto & Café Comunicação e Editora, 2025.
COHEN-SHACHAM, E.; WALTERS, G.; JANZEN, C.; et al. (org.). Nature-based solutions to address global societal
challenges. Gland: IUCN – International Union for Conservation of Nature, 2016.
FERREIRA, L.; DI GIULIO, G. Caminhos possíveis para fortalecer os nexos entre clima, natureza e saúde nas cidades.
Ciência e Cultura, v. 77, n. 3, p. 18–25, 2025.
IPCC. Human Settlements Fact Sheet. Sixth Assessment Report (AR6): Working Group II – Impacts, Adaptation and
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JACOBI, P. R.; POMBO, R. M. R. Diálogos entre ciência e saberes ancestrais para a resiliência urbana. Áltera Revista
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MARQUES, T. H. N.; RIZZI, D.; FERRAZ, V.; et al. Soluções baseadas na natureza: conceituação, aplicabilidade e
complexidade no contexto latino-americano, casos do Brasil e Peru. Revista LABVERDE, v. 11, n. 1, p. 12–49, 2021.
TORRES, P. H. C. et al. Just cities and nature-based solutions in the Global South: a diagnostic approach to move
beyond panaceas in Brazil. Environmental Science & Policy, v. 143, p. 24–34, 2023.
VAN ZANTEN, B. T.; GUTIERREZ GOIZUETA, G.; BRANDER, L.; et al. Assessing the benefits and costs of
nature-based solutions for climate resilience: a guideline for project developers. Washington, DC: World Bank,
2023. DOI: [Link]
Hannah Arcuschin Machado é doutoranda em Riciane Pombo é mestranda em Ciência
Ciência Ambiental pelo PROCAM-IEE da Ambiental pelo PROCAM-IEE da Universidade
Universidade de São Paulo (PROCAM-IEE), de São Paulo (PROCAM-IEE), especialista em
mestre em Gestão e Políticas Públicas pela Planejamento Ambiental de Bacias
FGV-EAESP e graduada em Arquitetura e Hidrográficas e graduada em Arquitetura e
Urbanismo pela FAU-USP. Atua como Urbanismo. É sócia-fundadora da Guajava
coordenadora-adjunta e pesquisadora Arquitetura da Paisagem e Urbanismo,
principal do programa Cidades +2ºC, do responsável pela criação de projetos de
Insper. Possui experiência no setor público e arquitetura e paisagismo a partir de Soluções
em organizações internacionais, colaborando Baseadas na Natureza e Infraestrutura Verde.
na formulação de políticas públicas voltadas à Entre 2018 e 2023, elaborou projetos de
adaptação à mudança climática, drenagem sustentável para os Cadernos de
desenvolvimento urbano, transporte e saúde Bacias da Prefeitura de São Paulo.
pública.