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SOFISTAS

O termo 'sofista' originalmente significava 'sábio', mas passou a ter uma conotação negativa associada ao uso de raciocínios enganosos. Os sofistas surgiram em um contexto de mudanças sociais e culturais no século V a.C., focando em temas humanísticos e na educação, desafiando a aristocracia e promovendo a ideia de que a virtude pode ser adquirida. A sofística não possui um sistema unificado, mas representa uma série de esforços independentes que evoluíram ao longo do tempo, com diferentes correntes e abordagens.

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SOFISTAS

O termo 'sofista' originalmente significava 'sábio', mas passou a ter uma conotação negativa associada ao uso de raciocínios enganosos. Os sofistas surgiram em um contexto de mudanças sociais e culturais no século V a.C., focando em temas humanísticos e na educação, desafiando a aristocracia e promovendo a ideia de que a virtude pode ser adquirida. A sofística não possui um sistema unificado, mas representa uma série de esforços independentes que evoluíram ao longo do tempo, com diferentes correntes e abordagens.

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Sofistas

1. SIGNIFICADO DO TERMO “SOFISTA”


O termo sofista, em seu sentido original, significa simplesmente “sábio”,
“especialista no saber”, “possuidor do saber”. Significa não só algo positivo, mas
altamente positivo. Sua acepção negativa - aquele que, fazendo uso de raciocínios
capciosos, busca, por um lado, enfraquecer e ofuscar o verdadeiro e, por outro, reforçar
o falso, revestindo-o das aparências do verdadeiro – tornou-se corrente, talvez, a partir
de Sócrates e, certamente, de seus discípulos Platão e Xenofonte; e também,
posteriormente, Aristóteles, que codificou tudo que dissera seu mestre Platão.
Platão, no diálogo Sofista, aponta para seis características definidoras, todas
negativas: 1. Caçador remunerado de jovens ricos; 2. Importador de conhecimentos que
interessam à alma; 3. Biscateiro dessas coisas; 4. Mercador dos próprios produtos
científicos; 5. Atleta de agonística aplicada aos discursos; 6. Purificador espiritual de
opiniões que impedem a alma de saber.
Xenofonte, em sua obra Memoráveis, chega a fazer uma analogia dos sofistas com
a prostituição, dizendo que quem vende a sabedoria se assemelha a que vendem sua beleza
por dinheiro. E em Cynegeticus, diz: Os sofistas falam para induzir ao engano. E
escrevem para o próprio ganho, e não beneficiam em nada ninguém (...).
Aristóteles conclui, nas Refutações sofisticas, que: A sofistica é uma sabedoria
aparente, não real; o sofista é um mercador de sabedoria aparente, não real.
A estas acusações, aduzidas por filósofos, acrescentam-se depois também as que
surgiram dos aristocratas. Os aristocratas em particular não perdoaram os sofistas por
terem contribuído para a sua perda de poder e por terem dado forte incentivo à formação
de uma nova classe, que não se valia mais da nobreza de nascimento, mas dos dotes e
habilidades pessoais, e que era, justamente, aquela classe que os sofistas pretendiam criar
ou, pelo menos, educar sistematicamente.
Só a partir do fim do século passado o apuramento do método historiográfico
permitiu pouco a pouco libertar os sofistas daquela condenação, e possibilitou uma
integral reavaliação e uma justa inserção deles na história das ideias. Todos os estudiosos
mais qualificados são, hoje, concordes em afirmar que “... os sofistas são um fenômeno

1
tão necessário quanto Sócrates ou Platão, antes, sem aqueles estes são efetivamente
impensáveis”.1

2. RAZÕES DO SURGIMENTO DA SOFÍSTICA


Há dois tipos de mudanças que possibilitaram a emergência da sofística. Mudança
de interesse sobre temas/objetivos/problema e mudanças históricas (sociais, culturais e
econômicas).
1. O esgotamento das especulações naturalistas. Estes tinham então chegado ao
ponto de se anularem mutualmente. Pareciam, então, que todas possíveis soluções
tinham sido propostas e não eram pensáveis outras. Era fatal, portanto, que o
pensamento filosófico deixasse de lado a physis, e deslocasse o próprio interesse
para outro objetivo. O novo objetivo foi, justamente, aquele que os naturalistas
descuidaram por completo, ou só marginalmente tocaram, vale dizer, o homem e
tudo o que há de tipicamente humano. E por isso compreende-se que os demais
temas dominantes da especulação sofística tenham se tornado a ética, a política, a
retórica, a arte, a língua, a religião, a educação, tudo aquilo que nós hoje
chamamos de cultura humanística. Com os sofistas, em suma, começa aquele que,
com expressão correta, foi chamado de período humanista da filosofia antiga.
2. Além e junto com isso agiram, e de modo decisivo, as novas condições históricas
que foram amadurecendo progressivamente no curso do século V a.C., e os novos
fermentos sociais, culturais e também econômicos que, em parte criaram, em parte
foram criados, pelas novas condições históricas. (a) A crise da aristocracia: a
aristocracia vai perdendo prestígio político com o crescente poder do demos, do
povo. Isso comportou, ao mesmo tempo, uma crise da antiga areté, dos valores
tradicionais, que eram justamente os valores prezados pela aristocracia. A
crescente afirmação do poder do demos e a ampliação a círculos mais vatos da
possibilidade de chegar ao poder fizeram ruir a convicção de que a areté
dependesse do nascimento, isto é, que se nascia excelente e não se tornava tal, e
trouxeram para o primeiro plano o problema de como se adquiria a “excelência
política”. (b) O afluxo para as cidades: especialmente Atenas, sempre mais
maciço dos metecos. (c) A ampliação do comércio: superando os estreitos limites

1
Dizer que, sem os sofistas, Sócrates e Platão são totalmente impensáveis significa dizer que os sofistas
representam algo totalmente novo e, de algum modo, operaram uma revolução com relação aos filósofos
da physis: é esta revolução, junto com as razões que produziram, que agora devemos esclarecer.

2
da cidade, o comercio levava cada uma delas ao contato com um mundo mais
amplo. (d) A difusão das experiências e conhecimentos dos viajantes: o
confronto dos usos, costumes e leis helênicas com usos, costumes e leis totalmente
diferente deviam constituir a premissa do relativismo, gerando convicção de que
o que era tido por eternamente válido era, ao invés, privado de valor em outros
ambientes e em outras circunstâncias.

Os sofistas souberam apreender de modo perfeito estas instâncias da época em


que viveram, souberam explicitá-las, dar-lhes forma e voz. E isto explica por que
obtiveram tanto sucesso, sobretudo junto aos jovens: eles respondiam às reais
necessidades do momento, diziam aos jovens, que então não estavam mais satisfeitos nem
com os valores tradicionais que a velha geração propunha nem com o modo pelo qual os
propunha, a palavra nova que eles esperavam.

3. O MÉTODO EMPÍRICO- INDUTIVO DA PESQUISA SOFISTICA


É bem evidente agora que, mudado o objeto de pesquisa relativamente aos
naturalistas, a sofística devia mudar também o método.
• O MÉTODO DOS NATURALISTAS: Os filósofos da natureza, estabelecido o
princípio primeiro, deduziam dele as várias conclusões, procedendo com método
prioritariamente dedutivo.
• O MÉTODO DOS SOFISTAS: Tem seu ponto de partida na experiência e tenta
ganhar o maior número possível de conhecimentos em todos os campos da v ida,
dos quais, depois, extrai algumas conclusões, em parte de natureza teórica, como
por exemplo sobre a possibilidade do saber, sobre as origens, o progresso e o fim
da cultura humana, sobre a origem e a constituição da língua, sobre a origem e a
essência da religião, sobre a diferença entre livres e escravos, helenos e bárbaros;
em parte, ao invés, de natureza prática, sobre a configuração da vida do indivíduo
e da sociedade. Ela [a sofística] procede, portanto, segundo o modo empírico-
indutivo.

4. FINALIDADES PRÁTICAS DA SOFÍSTICA


Insistiu-se muito, por exemplo, no fim prático e não mais puramente teórico da
sofística e isto foi considerado como uma queda especulativa e moral: os sofistas faziam
do seu saber uma verdadeira profissão. Mas a finalidade prática das suas doutrinas tem
3
também um e levado significado: com eles, o problema educativo e o empenho
pedagógico emergiram ao primeiro plano e assumiram um novíssimo significado. Contra
a pretensão da nobreza, que sustentava ser a virtude uma prerrogativa de nascimento e de
sangue, os sofistas pretenderam fazer valer o princípio segundo o qual todos podem
adquirir a areté, e esta, mais que na nobreza de sangue, funda-se sobre o saber. E à luz
disso explica-se ainda melhor o fato de os sofistas quererem ser dispensadores do saber,
e não simples indagadores, mas educadores. Foi com os sofistas que nasceu a ideia
ocidental de educação, que se estrutura e se constitui justamente sobre o saber2.

5. O PAGAMENTO EM ESPÉCIES COBRADO POLOS SOFISTAS


Platão e outros antigos assinalaram a venalidade dos sofistas e consideraram este
costume de cobrar o ensinamento como um indiscutível sinal de baixeza moral. Mas note-
se que Platão era, neste juízo, muito mais do que se crê, vítima do preconceito
aristocrático. Em geral, a cultura era herança espiritual dos aristocratas e dos ricos, que,
tendo solucionado todos os problemas de subsistência, davam-se à cultura como a
sublime otium3 e consideravam-na totalmente destacada de tudo o que tem relação com o
lucro e com o dinheiro, e como puro fruto de desinteressada comunhão espiritual. Mas -
e este é o ponto a enfatizar – os sofistas não tinham morada fixa, nem renda, e, portanto,
tendo concebido o seu saber e a sua obra tal como a explicamos, deviam necessariamente
fazer deles uma profissão, e exigir um pagamento em dinheiro para viver.

6. O ESPÍRITO PAN-HELÊNICO DA SOFISTICA: OS CIDADÃOS DA HÉLADE


Os sofistas foram também tachados de erradios, por irem de cidade em cidade e,
portanto, infringirem a fidelidade à sua cidade, rompendo o laço que o grego (que se
sentia, muito mais que indivíduo privado, essencialmente cidadão de determinada cidade)
considerava intocável. Pois bem, se para o homem de então a reprovação se compreende,
esta se inverte e se toma mérito quando nos pomos numa perspectiva histórica mais
ampla: os gregos, para salvar-se politicamente e sair das mortais lutas entre cidades,
precisavam ancorar-se num sólido ideal pan-helênico; e os sofistas foram, justamente,
expressão deste ideal: sentiram que os estreitos limites da polis não se justificavam mais,
não tinham mais razão de ser e, mais que cidadãos de determinada cidade, sentiram-se

2
Antes a educação era “pensada” (ou seria melhor dizer reproduzida) a partir da imitação e mesmo
inspiração da poesia.
3
Ócio, tempo livre ou lazer

4
cidadãos da Hélade. E nisso eles souberam ir até mesmo além de Platão e de Aristóteles,
que continuarão a ver na polis o paradigma de Estado.

7. O ILUMINISMO DA SOFÍSTICA
Ligada às características acima examinadas, e até mesmo como mínimo
denominador comum entre todas, aparece a liberdade de espírito própria da sofística.
Essa liberdade de espírito e essa libertação espiritual de todas as tradições que foram
próprias dos sofistas valeram-lhes o epíteto de "iluministas gregos": epíteto que, se
entendido adequadamente, define-os muito bem. Os sofistas conquistaram essa sua
libertação na base da razão, pois ao negar o absoluto do pensamento não significava para
eles negar o pensamento. O seu ataque contra as representações acabadas, que na sua
generalidade afogavam as sensações e os particulares, era a exigência do pensamento
crítico que quer exercitar o seu poder e o seu domínio sobre todos. Assim, no próprio
sentido do relativismo sofístico, o pensamento se demonstra feitor e, ao mesmo tempo,
destruidor das representações e, como tal, não se revela mais como um poder limitado,
circunscrito, finito.

8. AS DIFERENTES CORRENTES DA SOFÍSTICA


Para concluir, devemos esclarecer um último ponto. Não existe um sistema
sofístico ou uma doutrina sofística; é impossível reduzir o pensamento dos vários sofistas
a proposições comuns. Mas também não é verdade que as doutrinas dos sofistas
individuais constituam unidades incomensuráveis entre si. A sofística do século V a.C.,
representa um complexo de esforços independentes para satisfazer, com meios análogos,
necessidades idênticas4 e uma série de problemas idênticos5.
A sofística, com efeito, sofreu uma evolução, antes, uma involução muito
marcada, e entre os mestres da primeira geração e os discípulos da segunda geração existe
uma diferença notável, como em parte o próprio Platão já observara. É preciso, portanto,
distinguir pelo menos três grupos de sofistas: 1) os grandes e famosos mestres da primeira
geração, de modo algum privados de discrição moral e, antes, como Platão reconhece,
substancialmente dignos de respeito; 2) os “eristas", isto é, aqueles que, explorando o
método sofístico e exaltado o seu aspecto formal sem qualquer interesse pelos conteúdos

4
As necessidades do século V a.C., que evoluía para a democracia.
5
Concernente ao homem, à sua areté, à tábua dos valores morais. Em poucas palavras, são os temas e
problemas éticos-políticos.

5
e sem a discrição moral dos mestres, transformaram a dialética sofística numa estéril arte
de contendas através de discursos, e numa verdadeira arte da logomaquia6; 3) enfim os
"políticos sofistas", homens políticos e aspirantes ao poder político, que, desprovidos de
qualquer discrição moral, usaram ou, melhor, abusaram de certos princípios sofísticos
para teorizar um verdadeiro imoralismo, que desembocou no desprezo da “assim chamada
justiça", de toda lei constituída, de todo princípio moral: mas estes, mais que o espírito
autêntico da sofística, representam a excrescência patológica da própria sofística.

6
Discussão, disputa ou bate-boca que gira em torno de palavras, muitas vezes sem um propósito prático.

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