Habilidades
socioemocionais
na infância
Como as crianças aprendem
(e nós também)
a ter inteligência emocional
Marcela Bernardi
Sumário
INTRODUÇÃO ................................................................. 3
INTELIGÊNCIA EMOCIONAL ......................................... 5
CÉREBRO DA CRIANÇA x CÉREBRO DO ADULTO.....17
BIRRAS, COMO LIDAR? ................................................ 28
DICAS FINAIS ................................................................. 42
MATRIZ DE EISENHOWER ........................................... 52
Introdução
Como ensinar as habilidades socioemocionais para a
criança? Antes dessa, a pergunta deveria ser:
EU JÁ CONHEÇO, EU SEI LIDAR COM AS EMOÇÕES? COM
AS MINHAS PRÓPRIAS?
Sem saber o que são, como lidar com as próprias emoções,
fica mais difícil (senão impossível) conseguir ajudar o outro
– mesmo que esse outro seja uma criança – a lidar com as
suas próprias. Não é verdade?
Então além de aprender a construir habilidades
socioemocionais para si mesmo, já fica nesse início outra
dica essencial. A criança aprende muito se espelhando em
você. O que você faz, como faz, como age, como reage.
Como você fala, responde, os gestos que usa: você, como
educador, é um adulto de referência na vida da criança.
Pais, mães, familiares, responsáveis, professores: somos
educadores e as crianças dependem de nós.
A questão de valores e habilidades socioemocionais
3
passa por isso. Como ensinar se talvez nem você tenha, até
então, aprendido? Aprendido sobre autoconhecimento,
empatia, autocontrole, educação emocional. Aprendido não a
negar as emoções, mas a saber o que fazer com elas quando
aparecem. A se acalmar, a se autocontrolar, a respirar fundo
antes de responder alguém no meio de um episódio de raiva...
Pode ter certeza: precisamos reconhecer que não
podemos dar às crianças o que não temos! Quem somos e
o modo como nos relacionamos com tudo à nossa volta
significa muito na Educação. Especialmente em se tratando de
valores e habilidades socioemocionais (e é importante ter
ciência disso já, no início, pois se há a intenção de ensinar
para as crianças precisa haver a intenção de aprender antes).
Você é capaz de ensinar com plenitude, de ir muito além de
ensinar a criança (além dos aprendizados de conteúdo que ela
precisa ter), ensinando pelo próprio reflexo de quem você é.
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Inteligência
emocional
O nome já é tão bonito – mistura a parte da inteligência,
racional, com a parte das emoções. E pelo nome então já
dá para perceber que é justamente essa integração do
cérebro todo. E precisamos dessa integração, precisamos
saber como aplicar a inteligência emocional nas práticas do
dia a dia.
Falar de inteligência emocional é falar de equilíbrio,
razão e emoção. Tem a ver com SAÚDE MENTAL – que é
importantíssima, não pode ser deixada de lado de forma
alguma. Então antes de tudo:
1- NÃO NEGUE os próprios sentimentos!
Se você sentir raiva, medo, tristeza, frustração: aceite cada
um deles. Está tudo bem não estar bem o tempo todo,
todos os dias. Somos seres humanos, emocionais. Esse
reconhecimento para a aceitação é super importante.
A partir disso, tenha em mente que pensamentos levam
a sentimentos que levam a ações que levam
a resultados.
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2-
PENSAMENTOS
SENTIMENTOS
AÇÕES
RESULTADOS
Ou seja, se você quer um resultado diferente, onde
tudo começa? Nos pensamentos. Então se você reconhece
uma sensação, um sentimento (ainda que não seja
considerado bom), você aceita. Aceitar significa não que
você não vai mudar, mas reconhecer com tranquilidade,
sem julgamento, que é um desses sentimentos ‘negativos’.
3- Você parte para o passo de ANALISAR QUAIS
PENSAMENTOS ESTÃO POR TRÁS DESSA SENSAÇÃO. O
que a sua mente estiver mastigando é o que ela vai
provocar de reação em você, no seu corpo... se você estiver
pensando só em incertezas, dificuldades, focado em coisas
que estão tirando sua atenção do momento presente, você
possivelmente vai sentir ansiedade, concorda?
Agora pare para pensar, mude um pouco seus
pensamentos: solte a imaginação para lembrar de algum
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momento muito feliz da sua vida! Talvez o momento mais
feliz de todos!!! Lembre como estava aquele dia, aquele
momento... se era de manhã, se era tarde ou noite... quem
estava com você, se você estava sozinho... se tinha alguma
música, algum som naquele ambiente... algum cheiro.
Lembra de algum perfume? Tenta resgatar na memória...
veja as cores desse momento! Tem alguma cor que marca
você? Pode pintar na memória agora esse momento com
alguma cor que você gosta bastante. E grave bem na
memória essa cena agora: com essa cor, com essa música,
esse momento alegre! Lembre-se bem dele, com riqueza
de detalhes...
Quando você não se sente tão bem assim,
reconhecendo que está em um daqueles dias não tão
bons, relembre essa cena na cabeça. Quanto mais
experiências, mais detalhes tiver em uma cena, em um
momento real ou da mente, mais a mente vai visualizar
aquilo. Aliás, para a mente é difícil saber se é real ou
imaginário, sabia disso? De tão real que é... não é fantástico
saber disso? Que potencial tremendo todos nós temos, as
soluções estão dentro de nós mesmos, na mente! Sair de
uma sensação ruim, um sentimento triste, negativo,
depende de você focar, se apegar a momentos positivos,
felizes, até conseguir que aquela sensação mude (desde
que seja isso o que você realmente deseja).
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Então anote isso em um caderno para você:
ESCREVA QUAL É ESSE MOMENTO FELIZ DA SUA VIDA,
COM RIQUEZA DE DETALHES – COR, MÚSICA, PESSOAS...
Essa cena é uma cena à qual você pode se apegar sempre
que precisar. Isso pode ser um GATILHO DA CALMA para
você.
O que é isso? É você se apegar a um gatilho, a uma
coisa que te acalme na hora em que você precisa. O que
mais pode ser o seu GATILHO DA CALMA?
Automaticamente o ser humano ativa duas reações
fisiológicas: da raiva e da calma. Alguma coisa que
acontece e tira você do sério, coloca você em um estado de
raiva (GATILHO DA RAIVA) e, pelo contrário, alguma coisa
que você faz/que você lembra que é um gatilho da calma,
que leva você instantaneamente para uma sensação de
calma.
Se a criança cai e se machuca – o adulto briga com ela?
Tem gente que tem essa reação instantânea de brigar...
mas por que isso? Não faz sentido a criança se machucar e
ainda ouvir bronca, certo? Isso porque possivelmente
ativou o gatilho da raiva daquela mãe, daquele pai.
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O fato é que somos ativados pelos gatilhos da raiva e da
calma - mas se você começa a ter autoconhecimento para
identificar quais situações vão ativar o Gatilho da Raiva, por
exemplo, pode trabalhar nisso em você! Assim como se
sabe o que vai ativar a calma também é super útil, faz parte
da inteligência emocional. Você sabe o que fazer para
buscar a calma dentro de você!
Outra coisa que também faz muita diferença quando é
necessário ativar o GATILHO DA CALMA:
O NOSSO ESTADO FISIOLÓGICO ALTERA O NOSSO
PSICOLÓGICO.
Por conta disso, por exemplo, dançar faz bem:
fisiologicamente a explicação é de que o organismo libera
hormônios, neurotransmissores do prazer, do bem-estar...
então também ajuda muito! Colocar aquela música
animada, aquela sua preferida, que faz você se sentir bem,
perceba como isso funciona: a sensação que você está
sentindo, é fisiológico mesmo – de você se colocar em
movimento, pular, fazer polichinelo, qualquer coisa – o
organismo muda, porque vai liberar substâncias que
inundam o corpo com prazer, bem-estar, alegria, calma.
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Essa percepção própria, que faz parte do
autoconhecimento, fica cada vez mais natural quanto
mais você praticar. Toda vez que vier uma sensação, pare e
perceba quais pensamentos estão ali, por trás da
sensação... e faça esse ciclo para mudar o pensamento.
Quanto mais praticar, mais fácil vai ser.
E o que ajuda a ter essa AUTOPERCEPÇÃO, para
identificar quais sensações está sentindo, como você está
emocionalmente falando? Porque muitas vezes não
sabemos nem nomear as nossas emoções: então silencie a
mente. Foque no presente. No aqui e agora. Uma mente
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que divaga muito no passado, que pensa muito no futuro,
não é uma mente presente. Não é uma mente focada no
aqui agora. E aí se escapam muitas coisas do mundo à
nossa volta, do nosso mundo interior... porque a nossa
mente está por aí, divagando, em qualquer lugar – menos
aqui e agora. Cientificamente falando:
há vários estudos e pesquisas que mostram que
pessoas que meditam, que conseguem silenciar a
mente, que praticam o mindfulness (que é o foco no
aqui e agora) têm inúmeros benefícios. E o mais
interessante é que sempre dá para começar a praticar,
nunca é tarde para isso.
Se você realmente quer se autoconhecer, identificar as
próprias emoções (só assim vai poder lidar com elas, não
tem como querer mudar, se não reconhece nem quais
emoções estão presentes), comece a praticar o
mindfulness, a meditação, esse silenciar da mente. Isso:
permite uma nova relação com pensamentos e
sensações;
ajuda na regulação emocional e do humor;
aumenta o bem-estar e as emoções positivas;
potencializa a autopercepção;
reduz sintomas de ansiedade e depressão;
muda até a estrutura física do cérebro.
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Essa prática é muito poderosa! Atenção sem julgamentos
no momento presente. E pense o porquê a sua mente
anda cheia de coisas, pensando em coisas do futuro, do
passado... será que você está se sentindo sobrecarregado?
E por quê? Como está seu quadro de prioridades – você
tem tentado ‘apagar’ incêndio o tempo todo, resolver tudo
ao mesmo tempo?
Responda com sinceridade para você:
Estou com responsabilidades demais?
Tenho assumido compromissos demais?
Estou tentando mudar algo que está fora do meu
controle?
Estou esperando que os outros me façam sentir
completo(a) ou feliz?
Estou fisicamente bem?
Sofri algum trauma que não estou reconhecendo?
Estou dormindo o suficiente? Fazendo atividade
física?
Estou me alimentando corretamente? E me
hidratando o necessário?
O que está deixando meu nível de
ansiedade/stress/raiva tão alto?
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Só se autoconhecendo você consegue desenvolver o
autocontrole: não sair gritando quando está com raiva, não
prolongar uma discussão quando você está alterado
emocionalmente, porque você vai perceber quais são os
gatilhos da raiva, saber quais são os gatilhos da calma -
tanto com crianças quanto com qualquer outra pessoa.
“Eu não gostei disso, não estou feliz com isso que
aconteceu, mas eu estou com raiva agora, vou esperar
essa minha raiva passar, baixar um pouco, para eu
voltar e conversar aqui com você!”
Por que não tentar algo assim?
Uma pessoa no momento de emoções afloradas, em
um episódio de explosão emocional como a raiva, por
exemplo, não vai ser sábia, não estaria usando a
inteligência emocional se falasse naquele momento. Então
acabaria falando coisas que não deve, que podem
magoar... depois vem o arrependimento – mas uma
palavra dita não se desdiz.
Então não seja você essa pessoa. Pare, reflita, pense,
perceba: quais emoções estão ali presentes em você? Por
que, quais são os pensamentos...? E até voltar ao seu
estado ‘natural’, sem a dominação de uma dessas
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emoções que não são consideradas positivas (como a
raiva), se afaste, se isole, silencie. Jamais tome decisões
assim. Até isso baixar... porque é normal haver esses
‘ataques’, esses acessos de raiva, explosão de emoções,
lógico que é! Somos seres humanos, somos seres
emocionais; não é para apartar as emoções, nem as que
não são consideradas positivas. É para saber lidar com
elas. Isso é inteligência emocional. E não tem como você
ensinar a criança a ter mais controle sobre as emoções se
você não consegue ter em você mesmo; é uma habilidade
para se praticar para vida!
O melhor jeito de mudar como você se sente é
mudando como você age. Muitas ações e reações que
temos são automáticas e não são pensadas, isso torna o
processo mais difícil: mas se há compreensão disso e
decisão de mudar, de agir, tudo fica mais fácil e mais leve.
COM INTELIGÊNCIA EMOCIONAL É MUITO MAIS SIMPLES
SE RELACIONAR COM O OUTRO E TAMBÉM COM A
CRIANÇA.
Agir na direção do que é importante é difícil.
Especialmente em se tratando de emoções. Mas persista,
insista, responda para você quais são os seus gatilhos da
calma... quais são os da raiva, para você saber/sentir
antes.... mude o que você puder. E se há algum fato que
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você realmente não pode mudar, o que você pode fazer?
Só aceitar essa situação. Controle o que você pode
controlar, aceite o que você não pode. Claro que nem
sempre vai ser fácil; mudança é difícil, aceitação da
mudança é difícil. Ainda vai ser o caminho mais fácil o da
aceitação, sem julgamento, do reconhecimento.
Quando se fala de um ataque de raiva, de alguma coisa
que instantaneamente tira você do sério, é o GATILHO DA
RAIVA para você. E se você aprende a perceber o que te
stressa, quais são os stressores que te levam a isso, fica
mais fácil de controlar. Obviamente nem sempre, porque
aliado a esse gatilho o contexto pode estar dificultando as
coisas, deixando a paciência mais curta. Então o que
precisa fazer?
Trabalhar para aumentar o nível de paciência!
Concentre-se depois em anotar quais são os seus
gatilhos da calma, o que ajuda você a se tranquilizar,
somado a essas dicas tanto de silenciar a mente quanto de
se colocar em movimento.
E para finalizar, uma última pergunta. Por que você
não está pior hoje? Para você refletir sobre isso, porque
as respostas pra essa pergunta são o que te sustentam.
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É o que você reconhece como VALOR. O que te segura, os
pilares, seus alicerces. E é super importante você conhecer
e reconhecer esses pilares também. Para, além de ser
grato, lembrar deles e se agarrar a eles quando alguma
situação parecer fugir do controle.
Lembre:
NÃO SÃO AS EMOÇÕES QUE TÊM VOCÊ. É VOCÊ QUEM
TEM AS EMOÇÕES. ISSO É INTELIGÊNCIA EMOCIONAL.
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Cérebro da criança
x cérebro do adulto
Se tudo acontece no cérebro, como saber o que fazer
para educar a criança, do que ela precisa para aprender, se
não se sabe nem como o cérebro funciona!? E olha, quanta
coisa, quanto potencial, quantas possibilidades! A
neurociência ajuda muito nesse sentido, é um campo
científico tremendo que estuda o cérebro, o sistema
nervoso e as suas funcionalidades e consegue trazer para
nós o que acontece quando determinado estímulo externo
ocorre, quando o bebê, a criança recebe afeto ou não,
quando tem amor... ou seja: é possível a gente entender o
processo de desenvolvimento humano para poder ser
efetivo em cada gesto, cada ação, na Educação como um
todo.
Sabe por que normalmente a criança tem
dificuldade de se acalmar em uma briga, uma discussão,
em um momento mais tenso? Porque a parte racional
do cérebro dela não está completamente formada.
Vale lembrar, super importante, que se você, mãe ou pai,
adulto, educador, enfim, está no meio disso, por exemplo: a
criança está brigando, gritando, agindo só com as emoções -
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se você se irritar também, se deixar se levar pela emoção
(pela raiva do momento), a situação não vai se resolver...
Entre a criança e você: quem tem mais maturidade
emocional é você! Por uma razão fisiológica mesmo. O
cérebro do adulto está preparado, o da criança ainda não.
O cérebro vai se adaptar ao longo da vida toda,
construir novas sinapses, aprender com as experiências, se
moldar: mas a parte racional na criança ainda não está
completamente desenvolvida. E para fazer uma gestão
ótima das emoções, parece contraditório, mas precisa da
razão. Por quê? Estamos falando das habilidades
socioemocionais sim, mas para CONTROLAR isso, saber
LIDAR com as emoções: quem nos ajuda é a parte da
RAZÃO do nosso cérebro.
Tanto no nosso cérebro quanto no cérebro da criança
existem o cérebro conhecido como:
- CÉREBRO RACIONAL
&
- CÉREBRO REPTILIANO
Na criança esse reptiliano geralmente vai falar mais alto. E
o que é isso? Olhando para o cérebro de cima, é possível
ver 3 partes do órgão:
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Há a base do cérebro, que é a base mesmo, que é a
área REPTILIANA – responsável pelas ações instintivas.
Mais no meio, a parte EMOCIONAL, que alguns
pesquisadores chamam de área MAMÍFERA, porque está
ligada ao sentir, às emoções (é o sistema límbico); e acima,
o NEOCÓRTEX, que é responsável pela parte racional,
pensar, tomar decisões racionais.
Esta (neocórtex) é a área que ainda não está pronta na
criança (vai se formar completamente por volta dos 23
anos de idade). Quando estamos assustados, por exemplo,
é ativada a área do cérebro reptiliano, a parte mais antiga
dele, que age automaticamente quando sente uma
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ameaça e nos diz se deveríamos lutar ou fugir. Para tomar
uma decisão, contudo, você precisa do cérebro racional –
você só consegue se perguntar qual é a melhor forma de
enfrentar um problema se agir com o cérebro racional.
Pelo fato de ser antigo, o cérebro reptiliano, com seu
repertório limitado (como a raiva ou a fuga de alguma
situação), pode piorar ainda mais uma situação difícil, ao
passo que o cérebro racional enxerga o que é preciso pra
tomar a atitude adequada.
QUANDO O CÉREBRO RACIONAL É ACIONADO, VOCÊ
FICA MAIS CAUTELOSO, COM MAIS ATENÇÃO E MENOS
IMPULSIVO.
E em um momento de briga, de alguma situação caótica,
(falando aqui de algo que envolva a criança, mas cada vez
mais você vai perceber que esse é um repertório para se
aprender para a vida, para lidar com outros adultos,
porque isso tem a ver com autocontrole), você precisa
acessar o cérebro racional para resolver.
Por exemplo: se a criança está emburrada, brigando, em
vez de você brigar, mandar melhorar aquele humor (como
acontece às vezes), pergunte a si mesmo antes: “O que eu
posso fazer para que ela se sinta segura e para que eu não
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‘manche’ nosso relacionamento?” Não dê seus conselhos
na hora de uma necessidade emocional da criança, dê o
que ele precisa. Conecte-se com a criança ANTES de
redirecionar o comportamento. Sempre precisa haver uma
conexão emocional, no sentido de acolher aquele
sentimento da criança, se ela está daquele jeito ela não
está bem.... então não adianta você chegar gritando,
brigando. Já tem uma dor emocional envolvida. Usando o
cérebro racional você vai se conectar emocionalmente com
a criança para entender o que está acontecendo e, depois
dessa acolhida emocional, aconselhar, redirecionar.
QUANTO MAIS VOCÊ ACESSAR O CÉREBRO
RACIONAL, MELHOR VAI SER.
E o que você precisa fazer com a criança? Ser um guia,
você é referência para ela e ela precisa de você para
aprender.
Se a criança está com alguma dor, se caiu e se
machucou, se cortou... você sabe o que tem que fazer. Vai
socorrer, vai levar ao médico, vai dar para a criança o que
ela precisa naquele momento. Mas em se tratando de
questões emocionais, internas: se a criança diz que está
triste e não quer fazer a tarefa, se ela está se mostrando
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irritadiça: normalmente o que acontece? Pai, mãe já fala
para a criança engolir aquele choro, ou parar de fazer
manha, sentar e estudar ou fazer a tarefa...
Porém, como na criança a parte racional do cérebro
ainda não está pronta (que é área responsável pela tomada
de decisões, planejamento), qual normalmente é a
resposta ou reação dela para as coisas que acontecem?
RESPOSTAS EMOCIONAIS! ESSE ‘ESTAR IRRITADIÇO’,
FAZER MANHA, TER UM ATAQUE DE BIRRA EM ALGUM
MOMENTO – TUDO ISSO, ROTULADO ASSIM POR NÓS,
NADA MAIS É DO QUE A CRIANÇA TENTANDO SE
EXPRESSAR.
Só que como ela não consegue verbalizar exatamente o
que sente, do que precisa, o que não está bom, o que está
faltando pra ela, qual necessidade não está sendo
atendida: ela externaliza isso por meio das emoções.
Cérebro reptiliano a todo vapor, cérebro racional em
desenvolvimento. E olhando para o cérebro de outra
maneira, enxergamos então os dois lados dele: lado
esquerdo e o lado direito. O cérebro esquerdo é mais
lógico e linear, contempla as palavras, as linguagens, o
raciocínio lógico. É a parte do cérebro que gosta
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de sequência, de ordem. O cérebro direito é mais intuitivo,
artístico, imaginativo (tom de voz, gestos, lembranças...)
As crianças pequenas, na primeiríssima infância,
especialmente até 3 anos de idade, têm o lado direito do
cérebro predominante. Então elas ainda não sabem como
usar a lógica e expressar os sentimentos por meio de
palavras, por exemplo. E por conta disso elas vivem
absortas no que está acontecendo naquele momento.
Quando a criança já começa a perguntar: por que/ por
que isso, por que aquilo? Aí sabemos que o cérebro
esquerdo está começando a entrar em ação! E é essencial
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integrar os dois lados. Não tem como a gente nadar só com
um braço, não é verdade? Lado esquerdo e direito
precisam ser trabalhados. Então em um momento de birra,
de explosão emocional, o que você vai fazer com a criança?
1)CONECTAR-SE COM A CRIANÇA;
2) REDIRECIONAR PARA O COMPORTAMENTO
PRETENDIDO
Para integrar o cérebro, trabalhar o todo, é preciso se
CONECTAR com a CRIANÇA. Quando você se conecta com
a criança você cria um clima de cooperação e dá menos
margem para briga, tristeza, choro... cérebro direito com
cérebro direito, por exemplo. Se o comportamento da
criança está típico de lado direito, é com o lado direito que
você vai se conectar (Mesmo que você queira trazer a
situação para a parte mais racional, mais lógica, puxar para
o lado esquerdo – que é assim que a gente trabalha esse
todo do cérebro), antes você se conecta para depois
redirecionar.
Porque quando uma criança está incomodada,
emocionalmente falando, com qualquer coisa, não vai
adiantar tentar trazer a situação para o lado lógico. A
criança não vai nem entender. Antes precisa ser atendida
essa necessidade emocional, de lado direito do
cérebro, para então depois redirecionar.
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Então o principal aprendizado que fica é que não
podemos querer exigir de qualquer criança um
entendimento como o nosso. Porque isso cientificamente
não é possível, o cérebro racional de uma criança ainda
está se moldando... e por isso aquelas reações emocionais
são mais frequentes – ou deveriam ser – na infância do que
na vida adulta. O nosso cérebro já é diferente do das
crianças.
NÓS, ADULTOS, CONSEGUIMOS ‘PENSAR RÁPIDO’ E
‘PENSAR DEVAGAR’, OU SEJA, COM CONSCIÊNCIA.
O nosso cérebro conta com esses dois sistemas pra guiar
as nossas ações e reações. O sistema de pensar rápido age
o tempo todo de forma automática, sem um controle
voluntário. Se eu levo um susto aqui eu grito! Imediato. O
pensar devagar faz parte do sistema do nosso cérebro que
acessa o lado mais sábio, mais racional. Faz eu avaliar, me
concentrar, escolher. E na criança esse pensar devagar
ainda não está assim. E aí o seu, o meu, o nosso papel é
fazer a criança integrar o máximo possível do cérebro dela.
Um cérebro integrado traz como resultado melhores
tomadas de decisão, controle maior do corpo e das
emoções, relacionamentos mais saudáveis, formação de
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uma pessoa íntegra e capaz – e tudo começa com as
experiências que nós, educadores, cuidadores daquela
criança, oferecemos para ela.
E nós, adultos, obviamente que também precisamos
desse cérebro por inteiro. A gente precisa se olhar, se
analisar também, para poder olhar para aquela criança.
Então tarefa para você: comece a perceber situações no dia
a dia em que você está usando ‘só’ o cérebro direito, ou
mais o cérebro esquerdo... e com o passar da prática vai
ficar mais fácil perceber isso na criança também.
Se a gente fosse imaginar o nosso cérebro como uma
cidade, é como se o cérebro na infância fosse uma cidade
antiga, daquelas cheias de ruazinhas, cheias de atalhos, de
caminhos diferentes, de possibilidade de ir de um lugar
para o outro... e o nosso cérebro depois disso, já adulto, é
uma cidade nova, arrumada. Com rua, estradas... e tem o
ponto positivo e negativo disso. Porque consertar uma rua
já asfaltada, fazê-la mudar a rota, é mais difícil do que
consertar enquanto ainda é uma estradinha de chão, não
é?
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Então imagine isso acontecendo no cérebro da criança que
acabou de nascer especialmente até fazer 3 anos de idade:
você está ajudando a construir as ruazinhas dessa cidade,
que mais tarde vão se tornar uma cidade planejada, com
tudo bem estruturado. E como vão ser essas estruturas?
Como você quer que sejam essas estradas?
DEPENDE DE VOCÊ EDUCAR UM OUTRO SER HUMANO. E
ISSO É TREMENDO!
27
Birras, como
lidar?
Não adianta olhar para a criança com a cabeça de
adulto, porque se for olhar assim está errado. A criança,
como já se sabe, não tem o cérebro 100% formado e ‘só’ aí
já é uma enorme diferença para nós, adultos.
SE A CRIANÇA ESTÁ CHORANDO, FAZENDO BIRRA: ELA
ESTÁ SOFRENDO! É UM PEDIDO DE SOCORRO, UMA DOR
EMOCIONAL DELA.
Então não podemos simplesmente ignorar ou não
sermos empáticos nessa hora. Se há birra, há uma dor.
Birra no dicionário significa ter o mesmo comportamento
repetidamente, ser teimoso. E o que é ser teimoso? Às
vezes é ser persistente na vida adulta. E na infância isso se
traduz como teimosia. Nosso olhar é muito distante do que
deveria ser com relação à infância, que é uma fase nobre,
linda, recheada de aprendizado! A base pra nossa vida
toda: base porque é o que fica no início mesmo, como a
construção de uma casa. Vai começar pela base. Olha o
quanto precisa ser sólida para sustentar tudo depois... na
vida é a mesma coisa. Base da nossa vida é a infância.
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Se uma criança não consegue regular as próprias
emoções, a nossa resposta deve ser de ajuda. Em vez de
você, adulto, reagir só com emoção também, pare e pense:
POR QUE,
O QUE,
COMO?
POR QUE a criança está agindo assim?
O QUE eu quero ensinar para ela nesse momento?
COMO posso ensinar melhor essa lição?
Se, como adultos, sempre formos reagir de cabeça
quente, só com a emoção nesses casos, não
conseguiremos resolver o que precisa ser resolvido. Se
existe ‘birra’ a criança está querendo mostrar alguma coisa.
Pondere sobre o que está acontecendo, esses são os
melhores momentos para disciplinar, para aprender (tanto
a criança quanto nós).
Se a criança age sempre com a emoção, lembre que
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o cérebro dela ainda não está formado. O seu está. Ela é
uma criança. Você não. O que você realmente quer ensinar
para ela? Se você se acostumar com isso, daqui a pouco
essa ideia fica mais natural. Por que, o que, como? Você vai
ajudar a moldar o cérebro da criança para que ela aprenda
a conexão entre os sentimentos e o comportamento,
aprenda a tomar decisões melhores.
O que precisa ficar claro é que
A BIRRA É SÓ O QUE É APARENTE, ALGO MAIS ESTÁ
ACONTECENDO COM A CRIANÇA PARA ELA EXPRESSAR
ISSO ATRAVÉS DA BIRRA.
É uma forma de expressão emocional dela. O que tem
por trás dessa birra, o que provocou isso? Enxergue como
se fosse um iceberg – a birra é o que você vê. Você precisa
explorar para descobrir o que está embaixo dessa ponta
do iceberg: e pense que se chegou a aparecer pela birra, a
criança já vinha demonstrando sinais de outras formas de
que algo não estava bem... então sempre antes de tudo
preste atenção aos sinais que a criança dá. A importância
de você estar atento, presente, para já perceber se algo
não vai bem, alguma necessidade da criança não está
sendo atendida... isso é prevenir! Se você percebe antes e
age antes, nem chega na birra!
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E se chegou, você vai aprender a lidar com ela: a criança
pode se jogar no chão, gritar, bater... mas considere que é
uma criança! Ela não aprendeu a lidar com os sentimentos,
a falar o que está sentindo, a se expressar com um cérebro
mais racional. Como você espera que ela reaja a uma
explosão de sentimentos? Que ela se acalme, te escute,
descreva como está se sentindo...? Ela não consegue! E no
meio de uma explosão de raiva, vamos combinar... você
consegue? É fácil se acalmar? O que você espera que a
criança faça talvez possivelmente nem você consiga fazer,
porque o nosso cérebro, o nosso organismo, está
dominado por neurotransmissores, hormônios que
explodiram com o impulso emocional (como o cortisol).
Então não espere da criança o que não existe nem para
nós, adultos. É angustiante para a criança conseguir se
expressar, colocar pra fora o que ela está sentindo.
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PASSO A PASSO PARA VOCÊ SABER COMO AGIR NO MEIO
DE UM ATAQUE DE BIRRA DA CRIANÇA:
1) acalme-se. A sua reação ajuda a criança, é um exemplo
para ela;
2) acolha a criança (conecte-se). Literalmente: dê colo,
abrace, validando os sentimentos dela... “eu sei que você
queria, mas hoje não dá etc.”
3) resolva. Depois de se acalmar, acolher, conectado com a
criança (emocional com emocional) aí sim você vai propor
alternativas (redirecionar o comportamento).
36
QUAL DOR ESTÁ POR TRÁS DA BIRRA QUE A CRIANÇA
TEM FEITO?
Pare para pensar e anote quando você conseguir ver
pelo menos um motivo sobre o determinado
comportamento. A partir desse motivo você consegue
redirecionar. E redirecionar se conectando com a criança!
Não brigando porque ela fez birra. Redirecionar para o
caminho desejado através de um entendimento real.
Reflexões, conversas: tudo faz parte da comunicação.
Educar é se comunicar. Quando a comunicação flui, tudo
acontece. Você escuta, entende a criança. Explica, conversa,
redireciona.
O que a criança está sentindo, qual a falta dela, a
necessidade que não está sendo atendida? Fome? Sono?
Cansaço físico? Saudade de alguém, de alguma coisa?
Amor? Por mais que você ame a criança, ela precisa sentir
o afeto... às vezes o ‘potinho’ do amor dela está vazio, ou
não totalmente preenchido, e ela demonstra isso pela
birra, que é o jeito de lidar com a questão emocional. São
situações ricas pra aprendizagem.
A CONEXÃO acalma. Imagine que você está mal,
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cansado, um pouco irritado, talvez triste... e vem alguém e
diz: “você precisa melhorar! Melhore esse humor, levante!
Você tem que parar de ficar assim. Que exagero, chega!”
Isso seria o menos interessante para ouvir nesse
momento, concorda? Porque é a hora que a emoção está
dominando. Então não adianta chegar assim para tentar
ajudar. Porque isso não conecta! Isso não faz nenhum
sentido - por que então faria para a criança?
Outra coisa bem importante: as palavras têm poder.
Sempre lembre que uma situação é uma situação. Por
exemplo -se a criança está fazendo birra, ela está fazendo
birra. Não julgue, não fale que ela é teimosa, birrenta,
chata, qualquer coisa assim, negativa.... porque a criança
vai internalizar aquilo. E vai se associar a essa palavra que
o adulto de referência colocou para ela (pais, professores,
educadores, responsáveis: são adultos de referência). E vai
se acostumar com o RÓTULO. Em uma próxima vez você
pode acabar ouvindo da criança- “ah, mas o pai falou que
eu sou teimoso mesmo”. Ou: “a professora disse que eu
sou assim, sou chato”.
A criança internaliza esse rótulo. Tanto rótulos bons
quanto ruins, rótulos sempre são rótulos. E
especialmente em se tratando de adultos de referência: a
criança vai fazer de tudo para se encaixar no que o
adulto falou, para atender as expectativas dele.
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Além de a criança não ter a compreensão como nós,
adultos, temos, quanto menor ela é mais se parece com
uma esponja.
A CONEXÃO NÃO-VERBAL ENTRE A CRIANÇA E OS
ADULTOS DE REFERÊNCIA É MUITO MAIOR
DO QUE A VERBAL.
Então mesmo sem verbalizar, sem colocar em palavras,
a criança sente o ‘clima’, as sensações... se tem um
momento de angústia, de ansiedade na casa, na escola... se
você deseja que ela tenha determinado comportamento,
lembre sempre que ‘o que eu faço fala tão alto que o que
eu grito ninguém escuta’.... essa frase exemplifica muito
na questão da educação.
A todo tempo a criança nos observa e aprende
conosco. Como agimos com ela, como agimos com as
pessoas à nossa volta. Quer que ela faça alguma coisa?
Lembre do que e como tem ensinado... ensinar sempre
simplesmente mandando não vai funcionar. ‘Mandar’ é
dizer: ‘eu sou adulto e tenho voz ativa. Você, sendo criança
não tem direitos nem voz ativa. Eu mando. Você obedece.”
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Será que uma criança vai se sentir bem assim?
QUANTO MENOS A CRIANÇA SE SENTE BEM, MENOS
COLABORATIVA ELA VAI SER!
Esta é justamente a maior contradição que existe em
uma disciplina autoritária. Para que a criança seja
colaborativa, faça o que precisa ser feito, ela precisa se
sentir ouvida, respeitada, amada. Quando você erra, chora,
possivelmente vai encontrar um ombro amigo para
desabafar e receber consolo... e quando a criança erra? O
que acontece?
Ou seja: o adulto é livre para errar, para fazer do erro
uma oportunidade de aprendizado. Já o erro da criança...
esse é visto como mau comportamento. Fato é que
tratamos um mau comportamento muitas vezes como
manipulação, manha, birra... sem entender que isso são
pedidos de ajuda da criança. É assim que ela vai levantar
uma bandeira para dizer: “estou aqui, me mostre como
estou seguro, como sou amado...” e vai ficar tudo bem.
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Você adulto também reclama, também chora, sente raiva -
e já tem a parte racional mais desenvolvida... pense a
criança!
Antes de finalizar esse capítulo, cabe pontuar sobre
uma fase bem específica da infância, que acontece por
volta dos 2 anos de idade. Chegando nos 2 anos a criança
percebe que ela é um ser humano, um OUTRO ser
humano! E como um outro indivíduo, a criança luta para
conquistar o espaço dela. E como ela faz isso se ela ainda
não tem um cérebro totalmente formado, se ainda não
conta com a parte mais racional, consegue ativar somente
a parte reptiliana...? Gritando, batendo, jogando coisas no
chão, fazendo birra. Entender isso não significa que é fácil
ser mãe, ser pai, passar por essa fase, claro que não!
Mas entender tudo isso faz você compreender
efetivamente que a criança é um outro ser humano, mas
não tem a maturidade de um adulto – ainda precisa de
você para isso. Se você entende isso, que o cérebro
reptiliano dela vai assumir a cena muitas vezes, você
começa a perceber que a criança não está fazendo as
coisas de propósito, pra te irritar... não. No fundo é só
porque ela não tem a maturidade que nós já temos.
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Dicas finais
Algumas coisas podem ajudar você a ter um
relacionamento mais afetivo e assertivo, uma comunicação
mais positiva com a criança e, consequentemente, as
habilidades socioemocionais, que são ensinadas nas
situações reais do dia a dia, são mais facilmente
aprendidas.
a) Educação autoritária, que não favorece a comunicação,
não é eficiente para educar nem para ensinar valores e
habilidades socioemocionais. A comunicação é
importantíssima em qualquer relacionamento, quanto
mais em se tratando de adultos e crianças. Respostas que
não dão espaço para uma boa comunicação, para o diálogo
acontecer, podem gerar irritação na criança: e por vezes a
mãe diz que o filho está ‘birrento, vive irritado’ e não sabe
por que...(mas pode ser por isso).
b) Tenha regras, sim, mas passe com autoridade de modo
gentil. Seja firme com amor! Isso é dar espaço para o
respeito.
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c) Use mais SIMs do que NÃOs! Já ouviu falar disso? Isso faz
parte de uma comunicação positiva. “Ah, então quer dizer
que eu não vou dizer não para a criança?” Não, não é isso!
O ‘não’ é importante, faz parte das regras, dos acordos...
mas tem jeito de falar ‘não’ sem repetir o tempo todo essa
palavrinha, que já é associada a algo negativo.
FALAR MUITO ‘NÃO’ ‘PROSTITUI’ A PALAVRA, FAZ
COM QUE ELA PERCA O SENTIDO.
Ou de tanto ouvir ‘não’ a criança já nem vai seguir aquela
orientação (porque o ‘não’ perdeu o valor, é tanto ‘não’ e
tanto ‘não’ mal colocado e desnecessário que não faz
sentido) ou a criança vai ficar com a impressão que o
tempo todo está fazendo coisas erradas...
Então como você pode substituir um ‘não’, quando é
possível? Se a criança vai comer uma bala antes do almoço,
em vez de só falar: “não coma!” Experimente um diálogo,
dando autonomia para a criança: “Vamos fazer um trato?
Você almoça antes e come a bala depois?”
Você falou a mesma coisa, falou que não, mas sem
dizer não... e lembre de perceber o desenvolvimento de
cada uma das fases da infância: cuidado com os ‘nãos’ até
para não cercear justamente do que a criança precisa
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naquele momento para o desenvolvimento natural dela.
Jogar bola, pular, correr... preste atenção aos ‘nãos’ que
você diz – se são ‘nãos’ que fazem sentido para você, não
para ela (“eu não quero que ela jogue bola aqui, não quero
que fique pulando...”) mas isso faz parte da infância!
OBVIAMENTE QUE O ‘NÃO’ FAZ PARTE DO PROCESSO DE
EDUCAR TAMBÉM, SEM DÚVIDA. A IDEIA É SÓ USAR MAIS
‘SIM’ DO QUE ‘NÃO’, SER MAIS POSITIVO QUE NEGATIVO.
Mas o ‘não’ coerente, usado com equilíbrio, tudo certo.
Sempre é questão de equilíbrio: a criança precisa conhecer
e entender o significado do ‘não’. Só que ela só vai
realmente entender se ele não for usado em exagero,
porque do contrário ele perde a validade para a criança.
d) Fale na altura da criança. Isso é bem importante.
Propicia uma ESCUTA ATIVA da criança. É um gesto de
empatia, fortalece o vínculo entre você e ela e ajuda a
aumentar a autoestima da criança. Simples e muito
poderoso! Não é só se posicionar na altura da criança –
mas sim olhar nos olhos, prestar atenção ao que ela diz,
responder as perguntas... sempre com uma
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atitude respeitadora e amorosa. Você se iguala à criança, é
empático, não fala de cima: isso mostra que você se
importa. E não custa reforçar: se importe de verdade...
e) Não se esqueça da honestidade emocional. As crianças
não exigem perfeição dos adultos, e sim essa honestidade.
Eles aprendem com você. E ensinando os valores, os certos
e errados, a criança vai aprendendo. Conforme as
experiências vão acontecendo, ela vai se fortalecendo
emocionalmente.
Quando acontece um episódio de um ataque de raiva,
por exemplo, e nesse ataque a criança fala um monte de
coisa que não deve (que já sabe que não é o certo), mas
mesmo assim fala... duas alternativas para ela.
Ou ela vai precisar se desculpar depois e saber que vai ter
que lidar com as consequências de ter falado (como o
arrependimento, a dor que isso pode provocar no outro
que ouviu...)
Ou, outro caminho, que é o do autocontrole. Que é a
criança saber que está sentindo aquela raiva, reconhecer
isso, mas com o autoconhecimento perceber que o melhor
a fazer talvez não seja falar um monte naquele momento –
porque falar com raiva nem sempre é o ideal. Fala-se
coisas com razão. Conforme a criança vai crescendo, com
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o passar dos anos, esse autocontrole vai sendo cada vez
mais possível, mais palpável. Pedir desculpas é legal, mas
nem sempre vai resolver. Então dependendo do contexto,
da idade da criança, você já pode até ensinar que o
‘desculpe-me’ é importante, mas que nem sempre é essa
palavra-mágica que já faz tudo ficar bem outra vez. Então o
mais interessante sempre é refletir, pensar no que vai
dizer, aprender e tentar ter mais autocontrole na hora da
raiva...
AS CRIANÇAS PRECISAM APRENDER QUE É POSSÍVEL
COMETER ERROS E QUE AS COISAS NEM SEMPRE SÃO
FÁCEIS OU PERFEITAS.
f) Não tem problema estar triste, sentir raiva, não estar
bem. Tanto para você quanto para a criança. Porque talvez
você tenha sido educado com aquela questão de que não
podia sentir raiva quando era criança (e não é uma crítica
aos seus pais, ao jeito que você foi educado. Não, é uma
evolução natural das coisas - que bom que evoluímos e
aprendemos pra fazer diferente! Se você não sentir raiva
você não vai saber como lidar com ela...) - não queira
‘proteger’ das emoções e sentimentos que são
considerados negativos. Isso acaba sendo nocivo e não
forma um ser humano capaz e resiliente.
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g) então sobre as emoções: importante sim lidar com todas
elas. E a melhor maneira para isso na infância é NOMEAR.
Nomear para a criança entender, mas sem rotular. O que
se passa com a criança se passa, é um sentimento, uma
emoção passageira. Não é o que ela é! Até porque nessa
idade a criança tem dificuldade de perceber que um estado
emocional vai passar... dá a impressão de que ela vai ficar
chorando, triste, para sempre... ela não tem noção que isso
acaba, isso passa. Então explique: “você está se sentindo
triste, né? Mas daqui a pouco você vai se sentir mais
tranquilo e mais feliz”... acolha a criança, envolva, se
conecte - mas explique que isso passa.
Nomear ajuda muito tanto para as emoções quanto
para as sensações no geral. Estimule a linguagem da
criança nesse sentido. “Você está com fome?’ ‘Você está
sentindo calor?” Se você compreender bem as emoções da
criança, e ela também, então vai ficar mas fácil fazer a
gestão delas.
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h) Para estimular, além da habilidade de falar sobre as
emoções, a linguagem e também a memória, faça
perguntas sempre que puder. Perguntar é uma estratégia
excelente de comunicação (com as crianças, com os
adultos). Pergunte: “hoje você foi na casa da sua vovó, né?
Do que você mais gostou?”
i) Para incentivar a criança a usar a parte mais racional do
cérebro, que está se formando, dê a ela a oportunidade de
TOMAR DECISÕES. “Quer tomar água ou suco? Quer vestir
a camiseta amarela ou a vermelha hoje?” “Com qual
disciplina você prefere começar a aula particular:
Português ou Matemática?”
Isso vai estimulando a criança a pensar para tomar as
decisões. Mas para ajudar de fato não deixe uma escolha
aberta. Aponte duas opções, para ela escolher entre duas
alternativas. Se ela tiver muitas opções disponíveis
dificilmente ela vai conseguir escolher... e, claro, deixe ela
tomar decisões coerentes, adequadas à idade, para ela ir
treinando o cérebro racional, treinando a capacidade de
decisão, autonomia. Isso influencia positivamente na
autoestima da criança, porque ela sente que tem voz,
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que faz parte, que é ouvida, é levada em consideração.
j) A criança precisa sempre se sentir amada e segura. Todo
o processo de vínculo afetivo, de interações sólidas nos
relacionamentos familiares garante a construção de
valores e habilidades que vão ser determinantes no futuro.
Afetividade e vínculo são absolutamente necessários para
um desenvolvimento saudável e criativo.
k) Não custa lembrar: a criança ainda não tem a parte
racional do cérebro completamente formada. O cérebro
reptiliano dela vai entrar em ação muitas vezes, mais do
que o seu. Não se esqueça de que você é adulto, escolha
agir com a razão. E quando você sentir que o seu cérebro
reptiliano vai entrar em ação, você está em um gatilho da
raiva, lembre do que te acalma, respire, pondere, deixe a
parte racional entrar em cena.
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l) Brincar! Essa é uma das melhores maneiras de a criança
aprender, aprender habilidades socioemocionais, valores.
Brinque muito, deixe-a também brincar sozinha, com
amigos, com outras crianças. Assim ela vai treinando a
própria capacidade de se relacionar com outros seres
humanos, de expressar as emoções, de identificar
sensações, enxergar as emoções do outro, de cooperar,
partilhar, de ganhar ou de perder.
m) e uma estratégia bem legal, que ajuda a acalmar e a
relaxar é a... respiração! É fato que a respiração profunda
e tranquila ajuda muito a mudar o nosso estado emocional
e fisiológico: porque oxigena bem o cérebro, faz a gente
focar naquele momento presente, respirando... só que a
criança pode ser muito nova - e nesse caso então não
adianta só falar para ela respirar e se acalmar. Uma
sugestão é deitar a criança, falar que vocês vão brincar de
barquinho – e na barriga dela, com a barriga para cima,
colocar um barquinho de papel. Diga para ela prestar
atenção no barquinho, ver o tanto que ele sobe e desce... e
ir repetindo os movimentos assim.
Lembre sempre que você está educando, ensinando o que
é certo e errado – e isso demanda tempo para a criança
assimilar, colocar em prática. Não é de um dia para o
outro. Ela aprende por repetição.
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EDUCAÇÃO DEMANDA TEMPO, ESFORÇO,
PACIÊNCIA. A CRIANÇA ESTÁ APRENDENDO.
E ELA APRENDE MUITO COM VOCÊ.
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Matriz de
Eisenhower
Para finalizar, tenha em mãos a sua própria Matriz de
Prioridades. Como priorizar o que deve ser priorizado,
tomar melhores decisões, organizar a rotina?
Este pode ser um bom começo. Preencha para você
analisar como estão as atividades do seu cotidiano, para
ter tempo de ter tempo para você! Só com tempo para
você consegue começar a identificar os próprios Gatilhos
da Calma, autocontrole, aceitação...
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Marcela Bernardi
Psicóloga formada pela UFPR (CRP 08/32690),
professora e mentora de centenas de professores
através do método MADE - MUITO ALÉM DE
ENSINAR. Com pesquisas publicadas sobre Educação
e Estilos Parentais, ganhou o renomado prêmio
nacional XXII Jovem Cientista. Atendendo
individualmente diversas famílias e ao longo de seus
estudos, pesquisas, consultas e aulas particulares,
concluiu que não há caminho melhor para a Educação
do que entender verdadeiramente quem a criança é.
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Dados Registro CBL
(Câmara Brasileira do
Livro)
ISBN 978-65-00-19482-1