De Rabisco em Rabisco
Por Kawuan Bezerra.
Linha
A porta se abre. A sua frente, a Bagunça, já entidade de nome próprio, lhe dá um
malicioso olá. Indiferente como Cristo no mar, Jorge caminha entre pilhas de cuecas
e livros e, num ato quase violento, abre a janela.
A luz de uma tardezinha miúda é a deixa para um sambinha, daqueles meio triste
meio alegre, começar a saltitar pelo quarto. Um cheiro de chá flutua pelo ar, e um
leve fedorzinho emerge, rabugento.
No palco, feito mancha abstrata, um desenhista se espreguiça e se debruça sobre
o que chama de “escritórinho”: Uma mesa, pequena em altura mas exageradamente
espaçosa, repleta de rabiscos e manchas de chá, sobre a qual cacarecos
desenhísticos, como cadernos, lápis e flores, se esparramam, como se exaustos.
Em uma cadeira giratória, daquelas que crianças brincam de pião, o jovem encara
uma folha em branco. Pega um lápis. O acaricia, o passa entre seus dedos, sente o
roçar da madeira e o lança a folha. Um traço, outro traço, uma borracha. Um traço,
uma régua, outro traço. Uma forma, um traço, um detalhe, uma borracha, uma
régua, um traço e, quando vê, Jorge está desenhando.
Vejam este louco: tem o zelo de um pai, a paixão de um amante e a serventia de
um telégrafo. Tudo isso por algo que não existe, uma ideia que não fala, não beija,
não vende. Algo sem sentido, todo esse esforço, todo esse tempo gasto, apenas
para alguns rabiscos em uma folha velha.
Contudo, quem vê pela janela não vê o pássaro. Não vê o pequeno amontoado de
garrancho que, pouco a pouco, de rabisco em rabisco, ganha forma, ganha peso,
ganha pena. Duas manchas se espicham, se moldam e desatinam a voar. Duas
linhas se engrossam em pequenos pézinhos e de um pequeno pontinho sai um
sonzinho estridente, feito apito de criança. A cada vez que o lápis toca a folha, o
grunhido fica mais canto. A ave, cada vez mais esplendorosa, pousa no cocuruto
daquele singelo maluco, brinca com seu cabelo e canta para o animar. Quanto mais
ela canta, mais ele desenha, e quanto mais ele desenha, mais belo fica o canto.
E assim o céu muda de cor. De azul para laranja, de laranja para vermelho, de
vermelho para rosa, de rosa para roxo, de roxo para o breu. O vento que entra pela
janela é frio e agressivo, a rua é deserta e até a música parou.
Jorge sente fumaça sair de seus ouvidos. Dói o que pode doer, treme o que pode
tremer e o desenhista está cansado. Olha para a pássara, ainda incompleta, e ela
assente.
Jorge desmaia.
Forma
A lâmina dourada se encontra em um vermelho escuro, a névoa densa oprime a luz
e seus olhos estão nas curvas de uma mulher…
Ah, não, esse é o sonho.
Jorge, acorda.
Uma pincelada de um raio de sol e o soco do vento. Ele dormiu com a janela
aberta?
Ele dormiu com a janela aberta!
Seu corpo dá um salto, e olhos zonzos tentam procurar o que devia está lá mas
não está. O que não consegue, pois tudo o que devia está lá mas não está, está lá.
Que?
Jorge despertou. Seu corpo se arrasta até alguma pia de algum banheiro, que, por
só ter um na casa, deve ser seu. Enfia um rosto de expressão kafkiana na água, na
esperança de afogar a preguiça enquanto seus neurônios travam um típico diálogo
matutino:
“...Está atrasado para..” “...céu de pedra a..” “...é domingo e…” “...sol de cobre é..”
“...tenho que..” “...ninguém tem…”.
Por fim lava o rosto e olha para o espelho. O que vê? Ouve o cantar da ave, ao
mesmo tempo doce e impaciente, e sorri. Ao que tudo indica, vê um desenhista.
De volta ao escritórinho. Vê a cantora, linda, sublime, mas ainda incompleta. Tão
bela, ela merece algo que extrapole o extraordinário. Será que aquele mero
paspalho consegue fazer algo assim?
Encara a folha, pega o lápis, pensa e vai comer.
Come, volta, senta, encara a folha, pega o lápis e vai escovar os dentes.
Escova, volta, senta, encara a folha, pega o lápis, faz um risco. Faz dois. Faz três.
Faz quatro, apaga tudo e vai ler um livro.
A musa indecifrável canta, ele tenta ignorar, ela canta mais alto. Ele pede arrego,
ela cede. Mas, a cada virar de página, a cada linha, ele sente o seu olhar, magoado,
ferido, traído. Ela não canta. Muda, deixa que o silêncio faça o seu papel de pedra
de cícero, de dedo indicador. Nesse ponto ele já não lê, as palavras vão se
empilhando uma em cima outra, formando uma medonha sopa de tinta.
Ele larga o livro e vai desenhar.
Um traço ruim, outro. Apaga. Péssimo, horrível. Apaga e tenta de novo. A ponta
quebra. Aponta, aponta, está prestes a quebrar o lápis quando a ave o cutuca.
Tem um olhar compreensivo, sincero, doce, uma trégua. Ele devolve o olhar, a
agradece e sai.
Ela não o acompanha.
Ele anda, anda, anda: nada de novo. O céu ainda é azul, o frio ainda é agridoce. As
crianças ainda riem, os cachorros ainda latem e os gatos ainda miam.
Os gatos ainda miam. A ternura é doce, mas às vezes desce como o fel. Contudo,
os gatos ainda miam. “O ego é a última coisa que morre em um homem”. Os gatos
ainda miam.
E ainda miam enquanto ele corre desesperado para a casa. Desesperado, porém
discreto, soturno. Não queria acordar a pássara.
Pega uma folha. A encara e o lápis desce, Vai aqui, vai lá, borracha, régua, lápis.
Traço, outro traço, uma forma, um detalhe, um traço.
Sim, o céu muda de cor, um louco na janela, novamente apaixonado por algo que
não existe. Suas mãos dançam, trabalham em puro êxtase, o riscar do lápis é o
ápice do prazer.
Achava que estava morto, mas olha só! De grafite em grafite, manchas, linhas,
pontos. Orelhas, patas, cauda e garras. Ganham forma, ganham textura, ganham
pelos e sete vidas.
Sim, ali está, se esfregando em suas pernas, derrubando coisas, se esparramando
sobre a mesa. Ali está o gato.
E ali está a pássara. A pássara vê o gato. O gato vê a pássara. O gato mia. A
pássara pia. A pássara tem bico e assas. O gato tem garras e patas.
Os dois estão irritados, muito irritados. E Jorge?
Foi tão ligeiro que só deu para ouvir ele fechar a porta.
Perspectiva
E o som durou. Ainda dura, se arrastando, derretendo aos poucos, seu corpo
esticado sobre o Silêncio.
O quarto é pequeno, e, com tanta bagunça, não tem muito espaço. Mas o Frio não
se importa. Ele se enrosca em tudo o que pode, inclusive em si mesmo. Seus
tentáculos, navalhados e intrusivos, invadem e arrombam a alma de dois coitados,
em pelo e pena.
Estes, encolhidos como se presos ao chão, estão, em suma, incompletos.
A porta abre. Para espantar o Frio, Jorge fecha a janela. Para afugentar o Silêncio,
utiliza música, pedindo ajuda a Paganini e seus demônios. Funciona tanto quanto
jogar lenço umedecido no mar. Indiferentes, eles o assistem puxar uma cadeira e,
num suspiro, se sentar na velha mesa. O desenhista começa sua pequena peleja.
A folha do gato, mal a toca e ave pestaneja. Tendo a ave razão, o pobre diabo lhe
dá atenção, o que irrita o gato. Ele também tem razão, mas o desenhista não pode
cuidar dele sem ter que se preocupar com a ave, e não pode cuidar da ave sem ter
que se preocupar com o gato.
A dança continua em estado crescente. Jorge é o muro de Berlim. Duas criaturas
incompletas, uma rosna outra grunhe, uma voa outra salta, as duas têm garras.
Sabia que esboços também sangram? Por puro sarcasmo, o Silêncio deixa que
Paganini toque mais alto, agora abraçando o violino como uma mãe a um filho. O
Frio, em contrapartida, se esparrama ainda mais, esticando os tentáculos; enfiando,
empurrando, penetrando.
E ninguém percebe a nova folha. Não percebem o risco distraído, seguido de outro,
outro, outro. Não percebem a metamorfose da face, do jeito, da aura. Não vêem o
riso que se escancara, os olhos que flamejam, as mãos que enlouquecem e tudo
mais que pode ser relacionado a loucura de um adúltero.
E é assim que ele se sente quando, já meio tarde, todos percebem.
Existem dois tipos de luz: a que entra em nossos olhos, oriunda de sol ou lâmpada,
e a que destes sai. E é por esta segunda que Jorge se vê irradiado. O gato, a
pássara, o Frio e o Silêncio. Todos pararam o que quer que estivessem fazendo e
se reduziram ao simples papel de plateia. Ou será de jurados? Salvo o bom e velho
Paganini, que já estava lá pelo décimo oitavo caprice e tinha mais o que fazer.
O palco é a boa e velha escrivaninha. Mas não é ela a contemplada, nem seu
estado de guerra, as folhas que se aglomeram, as manchas de chá ou a cadeira
quase manca. Na verdade é uma simples folha, uma folha da qual saiu um ainda
mais simples escorpião.
A obra. E o autor?
Novamente, só deu para ver a porta bater.
Cores
Uma pequena nuvem toca o teto de madeira. Água fervendo cai em uma xícara,
onde se relaciona com um saco de ervas. Pouco a pouco, sua cor muda, sua textura
fica um pouco mais pesada e o aroma que dela sobe se torna doce.
Jorge a segura pelo corpo, e não pela asa. Quer sentir o seu calor. Abre uma
janelinha, e se concentra em uma árvore lá longe, no limiar entre o céu e a terra,
entre o dia e a noite.
O calor da água passa para o copo, que passa para seus dedos. É uma linda visão,
o adoecer do sol. Leva a xícara a sua face, quer sentir o seu odor. Não quer pensar
em nada.
O dia passou rápido demais. Ou é ele que não fez nada? Não pensar em nada. Ele
tentou o suficiente? Em nada. Quente demais para beber. Beba aos poucos,
molhando o bico, como um pássaro. Uma pássara. Em nada. Um gato. Em nada.
Um escorpião. Não pense! Foque no calor em sua garganta; no dia virando noite; no
tempo passando, na vida virando morte… Não pense em nada. Lembre-se de sua
morte, medite, se ilumine, descubra a si mesmo antes que o sistema te devore. Não
pense em nada. Não olhe no espelho, não perca seu tempo. Apenas beba o seu
chá.
O chá acabou.
Ele largou a xícara? Ele está em frente a porta. Porta estranha, o tipo de porta que
se bate para entrar. Por que ele bateu? Não é como se alguém fosse abrir para ele.
A porta abriu. Ou ele abriu a porta, tanto faz. O que importa é que ele está no
quarto. Que quarto caótico! É coisa pra tudo que é lado, cueca ali, meia aqui. Uma
barata! Um rato! Um vulto!
Um vulto? Ele fecha os olhos. Vultos somem quando se fecha os olhos.
Um vulto? Sim, um vulto. O vulto não sumiu? Não, o vulto está lá.
O que é um vulto? Foque a visão, ou vulto some ou ele se torna algo. Focou a
visão, mas o vulto continua lá. Mas o que é um vulto? O vulto é o Não É. É a
sombra de algo que esqueceu de existir. É um Frankenstein, um amontoado de
coisas mortas, como um gato, uma ave, um escorpião…
Pare! Parar com o que? Com o vulto? O vulto está aqui, está ali, está lá, está aí.
Sim, está aí. Não? Sim. Você é o vulto. Eu sou o vulto. Nós somos o vulto.
Jorge não quer ser um vulto. E o que Jorge quer ser? Não quer ser um vulto. Não
quer ser Jorge. Não quer ser.
Jorge não quer ser nada.
Uma, duas, três, quatro, cinco. Em cinco pontas, Jorge é o Nada.
Do Nada, nada se fez. E assim foi, até que a Anciã Tempo lhe deu o Tédio. O
Tédio, ao adentrar no Nada, sentiu-se sozinho, e mordeu a própria língua.
Dela saiu um líquido denso e quente, chamado de lava.
A lava era furiosa e inconsequente, e assim foi, até que a Anciã Tempo lhe esfriou.
E, esfriando, a lava se tornou rocha.
A rocha era grande, forte, orgulhosa e solitária. E assim foi, até que a Anciã Tempo
lhe feriu. Ferida, a rocha se fragmentou em várias de si mesma, todas pequenas,
insignificantes perante o universo. E assim foi, até que a Anciã Tempo as juntou em
argila.
A argila sofre, se espicha, se alonga, se queima. Se faz braço, se faz perna; se faz
as mãos, loucas. Se faz os olhos, a boca, os ouvidos, e, de rabisco em rabisco, a
argila se faz Jorge.
E Jorge bate à porta.
Luz e Sombra
A porta se abre. Ela range, toda manhosa, querendo fazer mistério. Pode-se dizer
que conseguiu.
Mesmo sendo ele que arrumou, a visão daquele quarto, daquele cômodo, daquele
antro de balbúrdia, daquele santuário da desordem, daquele altar do caos; assim,
daquele jeito, na mais perfeita e clara ordem, era algo de, no mínimo, sair na capa
da revista.
Não foi nem um pouco fácil. Primeiro teve que dar uma de Teseu, se guiar no
labirinto da besta fera que, olha só, era ele mesmo!
Sem Ariadne, teve que ser na marra mesmo. Em algum momento, ele consegue se
sentir mais ou menos localizado o suficiente para traçar um plano, que envolvia
colocar tudo em uma pilha para dar mais espaço para ele poder traçar um plano
melhor.
Concluída essa parte, foi a tarefa tediosa, mas agradável por causa da música, de
separar roupa, livro, caderno e coisas estranhas.
Havia um caderno que ele não via desde o ensino médio, um livro da biblioteca que
agora deve ter uma multa de quase meio milhão, umas cinco colheres, uns seis
copos e o Barnabé, o leão gótico da Finlândia.
Dito isso, o principal, foi, por obviedade, a Escrivaninha.
Judiada, cansada, ferida, manchada, rabiscada. Jorge conseguiu, pelo menos,
mudar o seu aspecto de moribunda para anciã.
E agora, o Dia D. Jorge respira e encara a janela aberta. Lá fora, o sol parece se
importar com o momento, brilhando amarelo, como um holofote. Respira
novamente, dessa vez controlando o ar como um músico, de forma lenta e
minuciosa. O desenhista se senta no bom e velho escritórinho.
As três folhas. Não as acha. Ah, mas isso é porque ele as colocou em uma pasta de
manhã. Não dá para perder algo em tão pouco tempo. Está ali.
Não? Então está aqui. Também não? Lá? Cá? Acolá?
Ele perdeu a pasta. E consequentemente as folhas, e talvez sanidade.
Bom, deve ser mais fácil, agora que o quarto está arrumado.
Não é mais fácil. Na verdade, é até mais difícil. Pois se antes ele tinha a desculpa
da desordem, agora é pura incompetência mesmo.
No desespero, ele procura até na geladeira. No fogão, na privada, e, por que não,
dentro do chão.
A ideia lhe veio de forma repentina, e de forma repentina ele enfia a mão no chão,
e, de forma repentina, porém natural, ela afunda, como se em areia de praia.
Tateia, tateia, acha algo. Com as duas mãos ele pega, e puxa a caixa para a
superfície.
Pesada. O ar em volta se torna carregado, como o céu que atlas sustentou. A sua
aparência é meio disforme, obscura. O que se tem nela é mais o conceito de caixa
do que a imagem de caixa,
Sem saber direito o porquê, Jorge tem a estranha sensação de “é agora!”. Um
estímulo desesperado, como uma horda de batuques, o leva a querer a abrir como
se por instinto de sobrevivência.
-Não!
Quem disse isso? Ele olha a sua volta, e lhe ocorre a natural ideia de que foi a sua
sombra. O sol está cada vez mais amarelo, como um sorriso de dentes de ouro. A
luz é forte e, consequentemente, sua sombra também.
A sombra se levanta, como uma parede de escuridão. Jorge se senta de pernas
cruzadas, como quem vai ouvir uma história.
- Não tem medo de mim?
- É o meu instinto natural, mas a Anciã Tempo me disse que somos árvores da
mesma raiz, e um não existe sem o outro.
A sombra se senta. Jorge, que controla a respiração para manter a expressão
estoica, quebra o silêncio:
- O que tem naquela caixa?
- Coisas meio vivas e meio mortas.
- Como assim?
A sombra fala de forma calma, porém tímida.
- Pense em uma vontade. Esta vontade acarreta uma ação, que pode resultar em
duas ações: sucesso ou fracasso. Certo?
- Estou acompanhando.
Mais confiante, a sombra continua.
- Você gosta de fracassar? Óbvio que não. É nosso instinto repulsar o fracasso, ele
é sinônimo de dor e sofrimento. Não seria ótimo viver sem dor ou sofrimento? Sim,
seria, por isso eu coloco as ações na caixa, assim elas não dão nem certo e nem
errado, ficam para sempre meio vivas e meio mortas. Não é incrível?
A sombra toma fôlego. Jorge, que ouvia atento, estuda e repete mentalmente cada
palavra que foi dita, até que diz:
- Sem dor e sofrimento?
- Sim.
- Acha mesmo que deu certo?
A sombra hesita, mas diz:
- Como assim?
- Seja sincera, você gosta de como as coisas estão? Realmente quer que
permaneça assim até a hora da morte?
A sombra permanece sem dizer nada, inexpressiva. Jorge continua, controlando a
respiração em cada sílaba:
- Não, você não quer, e eu sei disso. Está apenas fugindo do medo do fracasso e
mentindo para si mesma, dizendo que está tudo bem. Estou certo?
Tímida, a sombra concorda. Tanto ela quanto Jorge parecem mais calmos, como
duas cidades que trocaram os muros por uma ponte.
- Mas e a dor do fracasso?
- Ela é necessária.
-Como assim?
- A Anciã Tempo me contou que, quando se leva uma vontade à sério, ela se torna
um caminho. Um caminho é composto por várias ações, uma levando a outra.
- Mas como posso ter certeza que ainda estou no caminho certo, mesmo depois de
tantos fracassos?
Jorge deixa escapar um riso.
- Aí está uma pergunta difícil. Digamos que o caminho meio que não existe.
- Não?
- Não.
- Isso é loucura.
- Exatamente, e essa é a graça da coisa. É lúcido dizer que um caminho existe ao
se olhar para as pegadas que você deixou, mas olhar um chão vazio e dizer que há
um caminho nele é uma completa e total loucura.
- E então?
- Apenas se esforce. Bom, foi isso o que a Anciã me disse. Se estiver errado,
reclame com ela.
Novamente o silêncio. As duas figuras descobrem um certo prazer nesse momento,
de contemplar a si mesmo sem estar em um ringue ou campo de batalha.
Dessa vez é a sombra que quebra o silêncio:
- E aí, vamos abrir a caixa?
- Tem certeza?
Por mais pose que fizesse, Jorge nunca abandonaria seu receio e sempre seria
meio medroso.
- Sim. É o que tem pra hoje.
Composição
E o lápis foi, o lápis veio, e Jorge está acabado. É um cansaço bom, revigorante,
estimulante. Sente que pode sair na chuva sem se molhar.
Mesmo assim, os frutos de seu trabalho, os desenhos, não estão nem um pouco
tão bons quanto imaginava que ficariam. “Apenas se esforce”.
Fecha os olhos. Não sabe para onde vai, o que tem de ser feito, nem se algo deve
ser feito. Quando se lembra da discussão com a sua sombra, lhe parece algo vago,
distante, como se tudo aquilo fosse dito por outra pessoa. Com certeza, alguém
bem mais confiante.
Ali, deitado com as pernas apontadas para as estrelas, sua mente vai divagando,
navegando pelo Kaos. Às vezes anda em círculos, repassando fatos passados,
como se quisesse os decorar. Depois, ele pega esses fatos, os recorta e os cola,
montando cenas completamente aleatórias, tipo ônibus alados e lápis assassinos.
Mas há algo em comum em todas essas cenas: Em todas toca a mesma melodia.
Um ponto fixo, um lugar de paz. Lembra chocolate amargo.
Jorge desperta de seu transe. Como um borrão, da cama vai para uma janela que
de fechada vai para aberta, em menos de dois segundos.
Faz tempo que a noite já caiu. O ar tipicamente frio parece meio doce, como se
compreensivo, calmo. O canto atravessa a noite, como um anjo em uma carruagem
de fogo.
Lá longe, talvez em um poste, um monte ou um dragão, uma figura de ar soberano
canta.
Não é um anjo, apesar das asas. É uma ave esbelta, com penas que parecem
apontar para cima, como facas. O seu bico e garras fazem lembrar mármore.
Ostenta imponência, junto com doçura.
Em seu canto, em seu olhar, em seu jeito. Parece reverenciar o céu que a cobre, e
saudar quem quer que a escutasse.
Ao seu lado, há um gato de postura irreverente, debochada. Apesar da noite, a
pelagem é reluzente, e os olhos contraditoriamente meigos.
Para completar, o escorpião, sempre atento, a sua cauda armada como gancho de
pirata, parece guardar o grupo.
“Ainda acho que poderiam ter sido melhor desenhados.”
- Apenas se esforce.
Jorge sorri. Anciã de uma figa.