Sócrates
Estátua do filósofo grego Sócrates: autoconhecimento como porta para a sabedoria
e prática do bem Crédito: Wikimedia Commons/Wikipedia
Sócrates é amplamente reconhecido como o pai da filosofia ocidental. Embora
não tenha sido o primeiro filósofo (título frequentemente atribuído a Tales de Mileto), ele
inaugurou uma mudança revolucionária no pensamento humano. Antes de Sócrates, os
filósofos procuravam explicar o mundo baseando-se na observação das forças da
natureza. Com Sócrates, o ser humano voltou-se para si mesmo. Como diria mais tarde o
pensador romano Cícero, coube ao grego Sócrates trazer a filosofia do céu para a terra e
concentrá-la no homem e em sua alma (em grego, a psique).
Sócrates (c. 469-399 a.C.) nasceu em Atenas, que em meados do século V a.C.
tornou-se a metrópole da cultura grega.
Da sua infância pouco se sabe para além de sua origem pobre. Ele era filho de um
escultor, Sofronisco, e uma parteira, Fenarete, da qual Sócrates pegaria a ideia do parto
para sua forma de fazer filosofia.
Nessa época, teve início a segunda fase da filosofia grega, conhecida como
socrática ou antropológica, onde Sócrates foi o principal filósofo desse período da
filosofia antiga. Nessa fase, os filósofos passaram a se preocupar com os problemas
relacionados ao indivíduo e a organização da humanidade. Passaram a perguntar: O que
é verdade? O que é o bem? O que é a justiça?
A preocupação de Sócrates era levar as pessoas, por meio do autoconhecimento,
à sabedoria e à prática do bem.
Mas nessa empreitada de colocar a filosofia a serviço da formação do ser humano,
Sócrates não estava sozinho. Os pensadores sofistas também se voltavam para o homem,
porém com um objetivo totalmente diferente e mais imediato: formar as elites dirigentes.
Isso significava transmitir aos jovens não o valor e o método da investigação, mas um
saber enciclopédico, além de desenvolver sua eloquência, que era a principal habilidade
esperada de um político.
As Fontes de Informações Sobre Sócrates
Sócrates não nos deixou qualquer fonte escrita e, portanto, sua vida e suas ideias
só podem ser tratadas sob a ótica de outros pensadores que as registraram. Dentre aqueles
que o retrataram, temos Aristófanes, na comédia As nuvens, que ridiculariza a figura de
Sócrates; temos os escritos de Aristóteles, que não conviveu ele e que idealiza seus dizeres
e feitos; e por últimos temos os escritos de seus discípulos Platão e Xenofonte, que
mostram uma visão bem madura acerca dele e chegam a consensos significativos
Ensino pelo Diálogo
Sócrates considerava sua missão andar por aí (nas ruas, praças e ginásios, que
eram as escolas atenienses de atletismo), dialogando e persuadindo jovens e velhos a não
se preocuparem tanto com o corpo ou com a fortuna, mas antes com o autoconhecimento
e a perfeição da alma.
Defensor do diálogo como método de Educação, Sócrates discordava dos métodos dos
sofistas. Para Sócrates, o verdadeiro mestre não é um provedor ou transmissor de
conhecimentos, mas alguém que desperta os espíritos. Sócrates comparava sua função
com a profissão de sua mãe, parteira - que não dá à luz a criança, apenas auxilia a
parturiente.
Autoconhecimento e Domínio Próprio
Para Sócrates, ninguém adquire a capacidade de conduzir-se, e muito menos de
conduzir os demais, se não possuir autoconhecimento e a capacidade de autodomínio.
Para Sócrates, livre é o homem que não se deixa escravizar pelos próprios apetites
e segue os princípios que, por intermédio da Educação, afloram de seu interior.
Principais Ideias de Sócrates
Ruínas do Oráculo de Delfos, templo do deus Apolo. Em sua entrada, lia-se "conhece-te a ti mesmo"
Para Sócrates, existiam verdades universais, válidas para toda a humanidade em
qualquer espaço e tempo. Para encontrá-las, era necessário refletir sobre elas. Essa
percepção de Sócrates de que a verdade existe e é alcançável é um fator de diferenciação
entre ele e os sofistas.
O princípio da filosofia de Sócrates estava na frase "Conhece-te a ti mesmo",
um oráculo universal dado pelo deus Apolo na mitologia grega. Antes de lançar-se em
busca de qualquer verdade, o homem precisa se autoanalisar e reconhecer sua própria
ignorância.
O próprio Sócrates ao consultar o Oráculo de Delfos recebeu a mensagem de que
ele era o mais sábio entre os gregos.
Sócrates percebeu que ele era realmente o mais sábio porque, dentre todos os
sábios, ele era o único que julgava não saber e, por causa disso, buscava constantemente
o verdadeiro conhecimento.
Da afirmação de sua própria ignorância, Sócrates faz surgir a célebre frase:
“Só sei que nada sei”.
A partir desta ideia, Sócrates desenvolve o Método Socrático.
O Método Socrático
O Método Socrático buscava revelar contradições e inconsistências nas crenças
das pessoas, levando-as a reconhecerem sua própria ignorância e a um estado de reflexão
e autodescoberta. Ou seja, a dialética socrática tinha como objetivo questionar as crenças
habituais de seu interlocutor para posteriormente, assumir sua ignorância e buscar um
conhecimento verdadeiro. O método socrático busca afastar a doxa (opinião) e alcançar
a episteme (conhecimento).
Sendo assim, o Método Socrático é composto por dois momentos: ironia e
maiêutica.
1. Ironia
A primeira parte do método socrático conhecida como ironia, vem da expressão
grega que significa "perguntar, fingindo não saber". Esse primeiro momento do diálogo
socrático possui um caráter negativo, pois nega as pré-concepções, os pré-julgamentos e
os pré-conceitos (preconceitos).
A ironia era composta de perguntas feitas ao interlocutor com o objetivo de deixar
claro que o conhecimento que ele julgava possuir, não passava de mera opinião (doxa) ou
uma interpretação parcial da realidade.
Para Sócrates, o não conhecimento ou a ignorância é preferível ao mau
conhecimento (conhecimento baseado em preconceitos). Com isso, as perguntas de
Sócrates voltavam-se para que o interlocutor percebesse que não está seguro de suas
crenças e reconhecesse a própria ignorância.
Sócrates, com suas perguntas, muitas vezes incomodava seus interlocutores e
esses abandonavam a discussão antes de prosseguir e tentar definir o conceito.
Os diálogos socráticos que acabam sem se completar são chamados de diálogos
aporéticos (aporia significa "impasse" ou "inconclusão").
2. Maiêutica
A segunda etapa do método socrático é conhecida como maiêutica, que significa
"parto" ou “dar à luz”. Nesse segundo momento, o filósofo continua fazendo perguntas,
agora com o objetivo de que o interlocutor chegue a uma conclusão segura sobre o assunto
e consiga definir um conceito.
O nome "maiêutica" teve como inspiração a própria família de Sócrates. Sua mãe,
Fainarete, era parteira e o filósofo tomou-a como exemplo e afirmava que os dois
possuíam atividades semelhantes. Enquanto a mãe auxiliava mulheres a darem à luz a
crianças, Sócrates auxiliava as pessoas a darem à luz a ideias.
Sócrates compreendia que as ideias já estão dentro das pessoas e são conhecidas
por sua alma eterna. Entretanto, a pergunta correta pode fazer com que a alma se recorde
de seu conhecimento prévio.
Para o filósofo, ninguém é capaz de ensinar alguma coisa a outra pessoa. Somente
ela mesma pode tomar consciência, dar à luz a ideias. A reflexão é a forma de atingir o
conhecimento.
Por isso, é importante concluir a maiêutica. Nela, a partir da reflexão, o sujeito
parte do conhecimento mais simples que já possui e segue em direção a um conhecimento
mais complexo e mais perfeito.
Esse pensamento socrático serviu de base para a "teoria da reminiscência"
desenvolvida por Platão.
O Julgamento de Sócrates
Jacques-Louis David, A Morte de Sócrates, retrata o momento após o julgamento em que o filósofo recebe o cálice com
cicuta
Os últimos momentos da vida de Sócrates foram retratados por seu discípulo
Platão, em uma de suas mais relevantes obras “Apologia de Sócrates”.
Sócrates foi acusado por três atenienses: Anyto, um político democrata; Meleto,
um poeta; e Lykon, um retórico. Eles o acusavam de corromper a juventude, de não
acreditar nos deuses do Estado e de divulgar e adorar outros deuses.
Como forma de se defender a essas condenações, Sócrates profere eloquentes monólogos;
no entanto, ao se analisar o texto, percebe-se que a sua intenção nunca foi a de ser
perdoado, até porque para ser perdoado ele deveria ter feito algo verdadeiramente errado
e ele discordava disso.
Segundo o próprio Sócrates, o motivo de eles lhe dirigirem tanto desgosto era uma
consequência de suas próprias ignorâncias.
A defesa de Sócrates é, em diversos aspectos, bastante religiosa, o que se
contrapõe às acusações de que ele não acreditava nos deuses. O fato é que independente
do que fosse dito ali, os atos de Sócrates não seriam perdoados. Por fim, após sua
condenação, sob a tradição de Atenas, lhe é oferecida uma opção mais amena que a pena
capital, que o proibiria de expressar qualquer uma de suas ideias novamente. Sócrates
considerou isso algo pior do que a morte, principalmente porque ele acreditava na
imortalidade da alma e, assim, não tinha motivos para temer o fim de sua vida.
Voluntariamente, ele aceita a pena e se compromete a tomar a cicuta.
Os seus últimos momentos são retratados no diálogo Fédon e também na pintura
do francês Jacques-Louis David. A vida de Sócrates fez dele uma pessoa amada por
muitos, mas sua morte o eternizou como um símbolo.