Direito Processual Penal (1) - Prof.
Marcelo Rocha Monteiro
NOÇÕES INICIAIS
Processo: conjunto de atos que tem por finalidade a solução da lide/ o
julgamento ou atendimento prático da pretensão. Ius puniendi e pretensão
punitiva estatal. Nulla pœna sine iudicio.
EVOLUÇÃO DO PROCESSO PENAL
1. Sistema acusatório individualista (Antiguidade, Roma):
- acusação penal privada ( qualquer do povo/ofendido); processo: "coisa das
partes"; iudex secundum allegata et probato partium decidire.
2. Sistema inquisitorial (Idade Média, Europa continental):
- inquisa = investigação
- interesse do Estado em combater o crime;
- juiz-inquisidor: investiga, “acusa” e julga; parcialidade do juiz; iniciativa da
investigação e do processo na busca da “verdade real”.
- relação processual linear (e não triangular); réu objeto de investigação;
confissão.
- sistema da prova tarifada, como tentativa de limitar os poderes do juiz.
3. Sistema acusatório atual:
- separação rígida de funções: função persecutória (investigação e acusação) é
do Estado-Administração (polícia e MP); função jurisdicional é do Judiciário
- publicização: acusação a cargo de um órgão público; Ministério Público
como garantia da neutralidade do Judiciário;
- a influência da cultura inquisitorialista da Europa continental. O sistema
anglo-saxão.
- Brasil: CF de 88 x CPP de 41: “Garantismo” x Escola Positiva (defesa
social); a inspiração fascista do CPP brasileiro (Código Rocco) e a CF liberal
democrática.
- resquícios de inquisitorialismo no CPP: arts. 5°, II (requisição da autoridade
judiciária); 13, II; 10, § 3°; art. 28 (redação antiga, temporariamente em
vigor); art. 26 (não recepcionado).
4. Aperfeiçoamento do sistema acusatório no Brasil: “pacote anticrime”: Lei
n. 13.964/2029 (entrou em vigor em 23 de janeiro de 2020); exemplos:
- CPP Art. 3º-A. O processo penal terá estrutura acusatória, vedadas a
iniciativa do juiz na fase de investigação e a substituição da atuação probatória
do órgão de acusação.
- CPP Art. 3º-B. O juiz das garantias é responsável pelo controle da legalidade
da investigação criminal e pela salvaguarda dos direitos individuais cuja
franquia tenha sido reservada à autorização prévia do Poder Judiciário (...)
- CPP Art. 28. Ordenado o arquivamento do inquérito policial ou de quaisquer
elementos informativos da mesma natureza, o órgão do Ministério Público
comunicará à vítima, ao investigado e à autoridade policial e encaminhará os
autos para a instância de revisão ministerial para fins de homologação, na
forma da lei.
Obs.: redação antiga: "Art. 28. Se o órgão do Ministério Público, ao invés de
apresentar a denúncia, requerer o arquivamento do inquérito policial ou de
quaisquer peças de informação, o juiz, no caso de considerar improcedentes
as razões invocadas, fará remessa do inquérito ou peças de informação ao
procurador-geral, e este oferecerá a denúncia, designará outro órgão do
Ministério Público para oferecê-la, ou insistirá no pedido de arquivamento,
ao qual só então estará o juiz obrigado a atender."
PRINCÍPIOS DO DIR. PROCESSUAL PENAL:
1. Due process of law. Art. 5°, LIV, CF. A prevalência do direito individual
sobre a pretensão punitiva estatal.
2. Neutralidade (ou imparcialidade) do juiz: o juiz como estranho aos
interesses em conflito. Iniciativa das partes. A inércia do Judiciário: não há
jurisdição sem ação. Ne procedat iudex ex officio. Nemo iudex sine actore.
3. Contraditório: igualdade das partes. Art. 5°, LV, CF. Art. 261 CPP.
4. Publicidade. Publicidade absoluta ou geral (art. 792 CPP) e restrita ou
especial (§ 1°); art. 5°, LX, CF.
5. Princípio da inocência. Art. 5°, LVII, CF.
6. Princípio do favor rei. Arts. 386, VII; 609, p. único; 617; 621 (CPP).
Obs.: o suposto princípio da “verdade real” no modelo garantista e acusatório
de processo penal:
- Sist. inquisitivo: a "verdade real" como objetivo do processo; pesquisa
unilateral e ilimitada de uma "verdade absoluta" pelo juiz; (Exp. Motivos, II e
VII).
- Sist. acusatório: solução do conflito como objetivo do processo; o devido
processo legal (presidido por juiz imparcial, com vedação de prova ilícita,
etc.) como garantia do indivíduo (CF 88, art. 5°, LIV e LV) e a probable truth:
verdade "humana e eticamente possível" (Antonio Magalhães Gomes Filho:
“Direito à Prova no Processo Penal”).