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O documento aborda a produção e o mercado do feijão irrigado no Brasil, destacando os desafios enfrentados devido a problemas climáticos e sanitários que impactaram a colheita. A análise indica uma queda na produção e no consumo per capita, além da necessidade de garantir a qualidade do produto para atender à demanda. Também menciona a legislação trabalhista e o combate ao trabalho escravo, ressaltando a importância de compreender as obrigações legais para os produtores rurais.
Direitos autorais
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O documento aborda a produção e o mercado do feijão irrigado no Brasil, destacando os desafios enfrentados devido a problemas climáticos e sanitários que impactaram a colheita. A análise indica uma queda na produção e no consumo per capita, além da necessidade de garantir a qualidade do produto para atender à demanda. Também menciona a legislação trabalhista e o combate ao trabalho escravo, ressaltando a importância de compreender as obrigações legais para os produtores rurais.
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Universidade de São Paulo
Escola Superior de Agricultura "Luiz de Queiroz"
Departamento de Produção Vegetal

FEIJÃO IRRIG DO
Tecnologia & Produção
DOI: 10.11606/9786562060089

A. L. Fancelli

D. Dourado Neto
(EDITORES)

Piracicaba - SP
2005
UNIVERSIDADE DE SÃO PAULO
Reitor - Prof. Dr. Adolpho José Melfi
Vice-reitor - Prof. Dr. Hélio Nogueira da Cruz

Escola Superior de Agricultura “Luiz de Queiroz”


Diretor - Prof. Dr. José Roberto Postali Parra
Vice-diretor - Prof. Dr. Raul Machado Neto

Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP)


DIVISÃO DE BIBLIOTECA - DIBD/ESALQ/USP

Feijão irrigado: tecnologia & produção [recurso eletrônico] / editores Antônio Luiz Fancelli e
Durval Dourado Neto.- - Piracicaba : ESALQ/Departamento de Produção Vegetal, 2005.
174 p. : il.

ISBN: 978-65-6206-008-9
DOI: 10.11606/9786562060089

1. Feijão - Produção 2. Irrigação 3. Tecnologia agrícola I. Fancelli, A. L., ed. II. Dourado
Neto, D., ed. III. Título

CDD 635.652

Índice para o catálogo sistemático:

1. Feijão irrigado : Produção : Tecnologia CDD 635.652

Maria Angela de Toledo Leme - CRB-8/3359

Esta obra é de acesso aberto. É permitida a reprodução


parcial ou total desta obra, desde que citada a fonte e a
autoria e respeitando a Licença Creative Commons
MERCADO DE FEIJÃO

Vlamir Brandalizze 1

1 Introdução
O mercado do Feijão novamente estará vivendo um ano de aperto no
abastecimento, porque tivemos graves problemas na primeira safra, onde o
clima e problemas sanitários reduziram fortemente a produção que tinha
indicativos de colheita na faixa das 1,3 milhões de toneladas, mas devido às
perdas que começaram com a seca no RS, passaram para a seca no lrecê e
na seqüência tivemos perdas grandes com chuvas em excesso nas lavouras
de Minas Gerais, Goiás e São Paulo, alem de pontos do Paraná e para
completar tivemos nestas últimas semanas seca sobre lavouras do Paraná e
São Paulo.
Com agravante da entrada forte da Mosca Branca nas lavouras da
Bahia, principalmente no lrecê e junto com este problema em lavouras de São
Paulo. Desta forma os números que começaram com muito otimismo agora
terão que ser revisados para baixo. Como a primeira safra é a mais importante
em volume, agora já se comenta que os números não deverão passar muito
alem das 800 mil toneladas, e com isso estaremos dependentes da segunda
safra e das irrigadas da Terceira safra, essas com limitação de potencial de
plantio e de área.
Com indicativos que poderemos ter um quadro bastante ajustado no
mercado brasileiro, com oferta ao redor das 2,7 milhões de toneladas muito
abaixo das expectativas iniciais que apontavam para 3 até alguns apontando
para as 3,3 milhões de toneladas. O quadro de oferta tem baseado na oferta da
primeira safra algo próximo das 800 mil toneladas, seguida pela segunda safra,
que poderá resultar na faixa das 1,3 milhões, agora com estimulo das boas
cotações e a terceira safra que mostra potencial de oUtras 600.000 toneladas,
que teríamos como oferta total de 2,7 milhões de toneladas.

2 Consumo esbarra na oferta limitada


O consumo de feijão no Brasil que vem sendo apontado por dados do
IBGE, Conab e órgãos particulares com queda constante no volume per capita
porque a população está crescendo e a demanda total de feijão tem ficado
estabilizada há muitos anos. Dessa forma, segue com queda na participação
do feijão no cardápio diário dos brasileiros.
Alguns fatores podem ser apontados como fatores limitantes ao feijão,
sendo esses assim distribuídos: (i) o primeiro vem da oferta de alimentos
substitutos, como o frango que teve forte crescimento da oferta interna e
grande avanço na tecnologia que barateou o custo final do produto, que fez do
Brasil o maior exportador mundial desse produto e com isso aumentando a
oferta também no mercado interno, que passou de um consumo de 15kg por
habitante ao ano no começo da década de 90 para a casa de 34kg que estão
sendo previstos para 2005. Enquanto isso, o feijão que tinha demanda de 22kg

1
Engº Agr°, Consultor de Mercado Agrícola. Brandalizze Consultlng. Fone: +41.2648719.
brandalizze@[Link] ou brandalizze@[Link].
2

por habitante no começo da década de 90, mostra agora menos de 15kg per
capita.
O Frango cresceu em volume de oferta e está com preços iguais ao
feijão ao consumidor. Outro produto que está ganhando espaço junto aos
consumidores é o Suíno que, através de seus derivados (salsichas, lingüiças e
embutidos baratos), tem ganho espaço nos pratos dos consumidores.
Por outro lado, o avanço no período do consumo do trigo e derivados,
que passou das 6 milhões de toneladas no mesmo período acima citado para a
casa das 1O milhões atuais e com isso aumentando as ofertas de produtos
como: macarrão, biscoitos e pães com preços competitivos e desta forma
também avançando sobre a demanda do prato tradicional dos brasileiros.
Outro fator que tem que ser levado em consideração é o bom
crescimento do setor da pecuária bovina, que avanço no tamanho do rebanho
e também nas ofertas de cortes baratos e assim também servindo como mais
uma alternativa. Não devemos deixar de apontar que o Brasil nestes últimos
anos teve crescimento no poder aquisitivo, que através dos estudos do IBGE
mostram que já temos uma grande parte da população acima do peso ideal,
fato este que não se verificava há 15 anos atrás, este quadro justamente
porque passamos a consumir alimentos com maior teor de gordura e produtos
ditos rápidos, que facilitam a vida dos trabalhadores, mas que diminuem a
qualidade de vida da população.
O ponto mais importante para o Feijão é que o consumo não cresceu,
porque não tivemos avanço na produção, já que estamos colhendo neste ano
de 2005 o mesmo volume colhido há 15 anos. Se não tivermos oferta não
conseguiremos ter demanda porque não há como importar grandes volumes de
feijão.
Para resolver este problema teríamos que ter um zoneamento de
produção para que os produtores pudessem plantar com a garantia de ter a
comercialização com ganhos econômicos e na ponta do consumidor se
mantivesse a oferta constante de produto com boa qualidade, porque nos
últimos anos temos visto momentos com leve crescimento da produção, mas
nestes mesmos momentos aumentando a oferta de produto de qualidade
baixa, que não tem aceitação pelos consumidores, principalmente para a dona
de casa ou do consumo domestico para onde vão cerca de 13 kg per capita.
No estudo divulgado pelo IBGE em 2004 mostrava que o maior consumo
regional do feijão continua se dando no Nordeste, com 17,9kg per capita,
contra o pior nível que esta no Sul do país com 9,8kg, mostrando o Norte com
10,2kg, Centro Oeste com 10,3 kg e Sudeste com 11,5kg, fechando o Brasil
com 12,9kg. Lembrando que cerca de 2 a 5 kg de feijão nestas regiões são
consumidos fora dos domicílios.
3

85 US$J60KG

75

65

55

45

35

25

15
75 82 90 97 02 04
Figura 1. Evolução dos preços (cotações méaias) de feijão comercial no Brasil.

3 Demanda pela qualidade


Continuamos pregando aos produtores que o feijão para ter liquidez tem
que ter qualidade, porque se for produto de lavouras mal conduzidas ou de
áreas que tiveram excesso de chuva na colheita não conseguirá boas cotações
e não servem para serem armazenados e necessitam que sejam liquidados
rapidamente para não atrapalharem os negócios do produto de qualidade que
será colhido na seqüência.
Neste ano estamos com produto em Unaí, que para não atrapalhar o
produto bom que está chegando deverá ser negociado em pouco tempo e
assim deixar o mercado livre. Com boas expectativas de demanda de feijão do
Brasil Central, neste ano pelos consumidores do Nordeste que terão baixa
oferta de produto da região do lrecê que está apontada em apenas 20 mil
toneladas contra expectativas que superavam a marca das 100 mil toneladas,
mas devido à seca teve grandes perdas e também tem necessidade de produto
de fora da região e assim devendo demandar o produto de Unaí, com espaço
para produto barato como também para o nobre.

Tabela 1. Oferta e demanda de feijão no Brasil (1.000 toneladas).


04/05* 03/04 02/03 O1/02 00/01
Estoque Inicial 8 108 48 33 163
Produção 2.800 2.900 3.125 2.965 2.845
Oferta Total 2.808 3.008 3.208 3.048 3.128
Consumo 2.800 3.000 3.000 3.000 3.095
Estoque Final 8 8 108 48 33
(*) estimativas

A Tabela acima mostra a oferta e demanda do feijão no mercado


interno e não leva em conta as importações de feijão Preto da Argentina que
4

tem ficado em volumes menores que 100 mil toneladas e também dos poucos
volumes de feijão que são importados do Chile e outros fornecedores para o
produto branco e alguns exóticos, que tem pouca expressão de mercado. Para
os produtores o quadro deste ano é bastante interessante para ganhos
econômicos porque tivemos perdas à demanda caminha para levar todo o
produto ai ofertado e com um pouco de esforço os produtores poderão estar
formando as cotações, como o setor do frango tende a crescer novamente na
exportação este poderá ser um setor que diminuirá a pressão de venda e assim
deixando o feijão mais livre para operar.
Aos produtores que produzem as variedades de menor volume como
Jalo, que segundo IBGE tem consumo de meio kg por ano por habitante e tem
mercado localizado, junto com outros produtos que tem produção e consumo
limitado, também esta mostrando boas expectativas de demanda e com isso
espaço para e se produzir, principalmente pelos irrigantes do Brasil Central e
Bahia, que poderão estar colocando produto com valores de 20 a 40% acima
do que se pratica o Carioca, que segue como o mais consumido. O Preto teve
perdas na primeira safra e caminha para ter oferta de 280 a 320 mil toneladas,
para um consumo nacional anual de 400 mil toneladas e assim obrigando os
negociantes a ir a busca de produto importado na Argentina para cobrir a
diferença e como os produtores Argentinos querem receber ao redor dos
US$30,00 e acima pela saca e se o câmbio que está nos priores movimentos
dos últimos três anos, sofrer correções positivas veremos que não poderá se
comprar feijão abaixo dos R$85,00 por saca de origem Argentina.

4 Considerações finais
O mercado do feijão é firme, tem uma dica de vazio de oferta entre os
meses de março e abril, quando necessitaremos de grandes volumes do
produto para atender a demanda e não teremos colheita expressiva e assim
valorizara o pouco do grão de ponta que estiver sendo ofertado.
5

NOÇÕES SOBRE LEGISLAÇÃO TRABALHISTA E TRABALHO


ESCRAVO

Adahilton Dourado Júnior1

1 Introdução
Muitas são as vezes em que se vê estampadas em revistas e jornais,
notícias de que o Governo Federal vem se empenhando no combate ao
trabalho escravo no Brasil.
O Ministério do Trabalho, por exemplo, divulgou oficialmente que até
abril de 2004, sua Secretaria de Inspeção do Trabalho já teria libertado, desde
1995, 11.254 pessoas que viviam na condição de escravos.
Esta é mais uma lista divulgada pelo Ministério do Trabalho em que se
aponta, por Estado, onde se localizam empresas que praticam o trabalho
escravo, fazendo-se constar o nome do empregador, CPF ou CGC, o nome da
empresa e a quantidade de trabalhadores em situação análoga à escravidão,
em condições precárias de higiene, sem alimentação adequada, sem
pagamento e com documentos retidos.
Vale dizer, os responsáveis não terão acesso a recursos financeiros de
instituições estatais, perderão os direitos a benefícios fiscais, outros subsídios,
além de que, constatada a prática, poderão vir até a perder sua propriedade
rural.
O tema é relevante para o produtor e proprietário rural que emprega
mão-de-obra campesina, na medida em que o coloca sob a mira de todas as
iniciativas nacionais governamentais tendentes ao combate do trabalho
escravo, quando no desenvolvimento de suas atividades agrícolas
dependentes de relações de trabalho.
Também, porque, em muitos casos, é notória a incompreensão do fato
social à luz dos valores eleitos pela lei brasileira e convenções internacionais
acerca do tema. Quando levado a juízo, por exemplo, acusado de redução de
trabalhadores à situação análoga a de escravo, o empregador rural, réu, tem
alegado: (i) não existe trabalho escravo no Brasil; (ii) a escravidão foi extinta
em 13 de maio de 1888; (iii) a lei não explica detalhadamente o que é trabalho
escravo. Com isso, o empresário não sabe o que é proibido fazer; (iv) a culpa
não é do fazendeiro e sim de gatos, gerentes e prepostos. Com isso o
empresário não pode ser responsabilizado; (v) esse tipo de relação de trabalho
já faz parte da cultura da região; (vi) não é possível aplicar a legislação
trabalhista em certas regiões, isso geraria desemprego; (vii) a fiscalização
abusa do poder e é guiada por um viés ideológico; e (viii) o Estado está
ausente da região de fronteira agrícola e só aparece para punir quem está
desenvolvendo o país.
Estes argumentos, como se constatará ao final desta exposição, não
podem prosperar e estão a indicar falta de entendimento da questão como
devido.

1
Engenheiro Agrônomo, Produtor Rural, Advogado da União, Diretor do Departamento de
Análise e Elaboração Legislativa da Secretaria de Assuntos Legislativos do Ministério da
Justiça.
6

Vale dizer, a Constituição Federal, estabelece competência à União para


desapropriar por interesse social, para fins de reforma agrária, o imóvel rural
que não esteja cumprindo sua função social (art. 184) e que dita função social
é cumprida quando a propriedade rural atende, como requisitos indispensáveis
e simultaneamente, o aproveitamento racional e adequado; a utilização
adequada dos recursos naturais disponíveis e preservação do meio ambiente;
a observância das disposições que regulam as relações de trabalho; e
exploração que favoreça o bem-estar dos proprietários e dos trabalhadores
(art. 186).
Parece-nos, portanto, que a compreensão da questão é fundamental
para que o empreendedor agrícola possa, com tranqüilidade, desempenhar o
seu importantíssimo papel social e econômico, produzindo alimentos, criando
empregos e receitas fiscais, dentro da lei, em respeito aos princípios que
informam, especialmente, o Direito do Trabalho e o Direito Penal.
Certamente foi com este objetivo, que o tema foi incluído na pauta do
dia, neste VIII Simpósio sobre Feijão, e o propósito da palestra será o de atingi­
lo, o que tentarei fazer com informações jurídicas, mas também com o uso de
um pouco da experiência que obtive no campo, no exercício da profissão de
Engenheiro Agrônomo, para presumir quais seriam as informações mais úteis à
compreensão do tema.
Para isso, necessário se faz uma breve digressão do assunto principal, o
trabalho escravo, a fim de entender-se, primeiro, mesmo que de modo bastante
sintético, qual seja, nesta parte, a preocupação do Direito do Trabalho -
necessária na medida em que o público alvo em geral não tem formação
jurídica-, para, por último, compreendermos melhor o que caracterizaria uma
relação trabalhista tipificável como crime de escravidão.
Importa-nos o tratamento da matéria sob indagações à luz tanto do
Direito do Trabalho como do Direito Penal, na medida em que da mesma
conduta que trataremos (redução de alguém a condição análoga a de escravo),
pode advir conseqüências jurídicas de natureza civil, na forma de condenação
judicial de indenizar o trabalhador por danos morais, como de natureza
criminal, na forma de condenação a pena restritiva de liberdade.
Vale dizer, a despeito de estarmos limitados ao crime citado, previsto no
art. 149, que é um crime contra a liberdade individual, situado no Título I do
Código Penal brasileiro que trata dos crimes contra a pessoa, este mesmo
diploma legal, possui um outro Título (Título IV), que trata especificamente dos
crimes contra a organização do trabalho em que estão previstas outras
condutas de certo modo relacionadas com a conduta que estudaremos.
Isto quer dizer que, no caso concreto, mesmo que não se configure a
hipótese específica em estudo, outra poderá ficar configurada (como por
exemplo, frustração de direito assegurado por lei trabalhista, art. 203, e
aliciamento de trabalhadores de um local para outro do território nacional),
invocando ainda mais atenção nas contratações de trabalho rural.

2 Fato, valor e norma como dimensões essenciais da realidade jurídica


"Direito é o conjunto de princípios, regras e institutos voltados a
organizar situações ou instituições e criar vantagens, obrigações e deveres no
contexto social. "2.

2
DELGADO, Mauricio Godinho. Princípios de direito individual e coletivo do trabalho, 2001,
7

Sendo o direito uma dimensão essencial da existência humana, uma


espécie de lei de gravidade social, que atua em todos os sentidos, embora com
intensidade até certo ponto variada, parece óbvio que toda pessoa tenha
alguma vivência - matriz de sua pré-compreensão - desse fenômeno de
alcance coletivo, estando habilitada, só por isso, a participar e a se fazer ouvir
em qualquer debate que tenha por objeto a compreensão da coisa direito,
daquilo que ao longo dos séculos, no processar-se da Humanitas na História,
os homens têm vivido como experiência jurídica. 3•
O Direito reflete a História. Posta assim a questão, podemos dizer que a
essência do direito, em seu modelo permanente, apresenta três aspectos,
dimensões ou momentos. Trata-se de uma unidade ontológica, plena e
incindível, embora fracionável idealmente para efeito de análise por todos
quantos se dediquem à sua investigação. O Direito não será, então, apenas a
lei. Direito será, assim, fato, valor e norma.
A lei é apenas a norma expedida pelo órgão competente para expressar
o valor que a sociedade dá ao fato. É apenas uma das três dimensões do
Direito.
Não é, também, somente um fato social, nem tampouco apenas um
conjunto de normas que se impõem a todos sob a ameaça de sanções
socialmente organizadas. É, na verdade, a realização, no plano social e
histórico, de uma tábua de valores, que fundamentam e legitimam essa
coercibilidade numa sociedade de homens livres4 •
A partir dessa visão unitária e totalizante, podemos encarar o direito
debaixo das três perspectivas que põem em evidência as suas dimensões
essenciais.

3 O direito como fato social


Preliminarmente, temos que o direito se apresenta como um fato ou
fenômeno social, que só existe na sociedade e fora dela sequer pode ser
concebido5 • Sem alteridade, isto é, sem outrem com quem estabelecer ou
manter relações sociais, não se pode conceber a idéia de direito.
Conexa a essa idéia de alteridade tem-se a de bilateralidade, a traduzir a
indissociável correlação entre direitos e deveres como uma das características
mais importantes do fenômeno jurídico6 , que busca em última análise, a justiça
social.
Na busca da justiça social, a alteridade ou pluralidade de pessoas tem
como sujeitos, de um lado, os particulares ou membros da sociedade (como
devedores) - no caso que estudaremos, o empregador rural -, e, de outro, a
sociedade (como credora).
Se justiça é a virtude de se dar a "outrem" o que lhe é "devido", segundo
uma "igualdade", o "devido", no plano social, será a realização do bem comum,
ou, mais precisamente, a contribuição de cada um para sua realização. E a
"igualdade" que a orienta, será de natureza proporcional ou relativa.A justiça

fd�ELHO, Inocêncio Mártires. Curso Avançado de Direito Constitucional, IDP, 2004, p. 21.
COELHO, Inocêncio Mártires, op. cit, p. 23.
4

Cf., por todos, sobre o caráter social do fenômeno jurídico, O Direito e a Vida Social. A .L.
5

Machado Neto & Zahidé Machado Neto ( orgs.). São Paulo,:Companhia Editora
Nacional/EDUSP, 1966.
COELHO, Inocêncio Mártires, op. cit., p. 24.
6
8

social será a virtude pela qual os membros da sociedade dão a esta, sua
contribuição para o bem comum, observada uma igualdade proporcional7 •
O Direito, então, lê o fato social e o formaliza por meio da norma de
acordo com determinados valores, criando direitos e deveres aos atores das
relações jurídicas disciplinadas, com o fim último de fazer o que a sociedade
que o alimenta entende por justo.
E se a lei reflete a História, para compreensão da leitura que o Direito
faz hoje do fato social objeto da valoração normativa que nos interessa, a
relação de trabalho subordinado, importante colocá-la em perspectiva histórica.
Na Inglaterra, no século XVIII, por exemplo, os menores eram oferecidos
aos distritos industrializados, em troca de alimentação, fato muito comum nas
atividades algodoeiras em Lancashire. A subdivisão territorial do condado, à
época chamada de paróquia, encarregava-se, oficialmente, de organizar esse
tráfico, que nesse intercâmbio, podia especificar que o industrial teria que
aceitar, no lote de menores, os idiotas, na proporção de um para vinte.
O industrial de algodão Samuel Oldknow, v.g., contratou, em 1796, com
uma paróquia a aquisição de um lote de 70 menores, mesmo contra a vontade
dos pais; Yarranton tinha, a seu serviço, 200 meninas que fiavam em absoluto
silêncio e eram açoitadas se trabalhavam mal ou demasiado lentamente;
Daniel Defoe pregava que não havia nenhum ser humano de mais de quatro
anos de idade que não podia ganhar a vida trabalhando; não era geral, mas era
comum vigilantes aplicarem brutalidades a menores que não conseguissem
suas obrigações na fábrica; em certos locais, cisternas de água pluvial era
fechada à chave8 •
Cita-se, também, porque ilustrativo da realidade que vigorava nesses
tempos, o relato de Claude Fohlen, de perguntas feitas por uma comissão
encarregada de apurar fatos desta natureza à época, dirigidas ao pai de duas
menores: "1. Pergunta: A que horas vão as menores à fábrica? Resposta:
durante seis semanas, foram às três horas da manhã e voltaram às dez horas
da noite. 2. Pergunta: Quais os intervalos concedidos, durante as dezenove
horas, para descansar ou comer? Resposta: Quinze minutos para o desjejum,
meia hora para o almoço e quinze minutos para beber. (...) 10. Pergunta: Suas
filhas sofreram acidentes? Resposta: Sim, a maior, a primeira vez que foi
trabalhar, prendeu o dedo numa engrenagem e esteve cinco semanas no
hospital de Leeds. 11. Pergunta: Recebeu o salário durante esse tempo?
Reposta: Não, desde o momento do acidente cessou o salário (...) 13. Qual era
o salário em semana normal? Resposta: Três Shilings por semana, cada uma.
14. Pergunta: E quando faziam horas suplementares? Resposta: Três Shilings
e sete pence e meio (...) ,ll_
O trabalho dos menores cercava-se de más condições sanitárias. Nas
oficinas não havia higiene e eram organizadas casas de aprendizagem, raras,
todavia, com dormitórios comuns para meninos e meninas.
A situação das mulheres não era diferente. Paralelamente aos trabalhos
por elas desenvolvidos em minas, fábricas metalúrgicas e de cerâmicas, havia
o sweating system - sistema do suor -, ou seja, trabalho prestado a domicílio
no ramo da tecelagem, do calçado e da indumentária, com remuneração por
unidade de obra. Como a retribuição era por unidade de obra produzida, as
7
MONTORO, André Franco. Introdução à Ciência do Direito, RT, 1999.
8 NASCIMENTO, Amauri Mascaro. Curso de Direito do Trabalho, Saraiva, 1997, pgs. 11 e 15.
9 NASCIMENTO, Amauri Mascaro, op. cit., p. 11.
9

jornadas de trabalho não eram inferiores a 14 horas diárias, fenômeno comum


em toda parte, na Inglaterra, nos Estados Unidos, na França, na Alemanha e
na Rússia.
A liberdade de fixar a duração diária do trabalho não tinha restrições. Os
empregadores tomavam a iniciativa de, segundo os próprios interesses,
estabelecer o número de horas de trabalho que cabia aos empregados cumprir.
Não havia distinção entre adulto, menores e mulheres ou mesmo entre tipos de
atividades, penosas ou não.
Na metade do século XIX na França, trabalhava-se 12 horas na
província e 11 horas em Paris, com variações segundo o ramo de produção.
Nas minas de Loire, segundo Georges Duveau, os mineiros passavam 12
horas diárias no fundo e cumpriam 1 O horas de trabalho efetivo. Havia jornadas
de 14 e 15 horas nas fábricas de alfinete. As tecelagens exigiam 14 ou 15
horas, se o trabalho era a domicílio, e 12 horas, na própria fábrica. Em Lille, no
ano de 1864, numa fiação de linho situada em Descamps-Mahieu, os obreiros
trabalhavam sem interrupção desde 5 até às 19,30 horas 10•
Os salários eram muitos baixos, tanto assim que algumas medidas
governamentais, como levantamentos e pesquisas, foram reclamadas, como
ocorreu na Alemanha e Inglaterra. Os salários, sempre insuficientes, nas
indústrias eram mais elevados que na agricultura, e os homens ganhavam mais
que as mulheres e os menores.
Estes fatos, com o passar do tempo, passaram a ser repudiados pelas
sociedades do mundo inteiro. O Direito, então, traduzindo um novo valor,
passou a regrar condutas que os evitassem.

4 O direito como norma


Quando o legislador, por exemplo, define como crime reduzir alguém a
condição análoga à de escravo, quer submetendo-o a trabalhos forçados ou a
jornada exaustiva, quer sujeitando-o a condições degradantes de trabalho, quer
restringindo, por qualquer meio, sua locomoção em razão de dívida contraída
com o empregador ou preposto, o faz tão somente porque considera
indispensável à convivência social um mínimo de respeito à dignidade da
pessoa humana, sem o qual essa mesma convivência estaria comprometida.
A tipificação da conduta como crime exprime valoração do fato, o que se
faz por intermédio da norma. Pois bem, essa estreita vinculação entre as
normas jurídicas e os valores morais e até religiosos torna manifesta a
necessidade de não isolarmos conceitualmente o fenômeno jurídico, sob pena
de nos colocarmos numa perspectiva unilateral e reducionista, que nos
ofereceria apenas uma dimensão do direito, deformando ou até mesmo
impedindo a sua compreensão integral.
Com efeito, se por um lado o direito se apresenta como instrumento de
controle social, por outro lado exerce, também, uma importantíssima função
como instrumento de mudança social. Foi pela lei que se conseguiu mudar
aquela realidade descrita, de longas jornadas de trabalho de crianças e
mulheres, de muita injustiça social.
A ação humanitária de pensadores progressistas e da Igreja (que em
vista da situação precária de vida dos trabalhadores à época propalavam a
necessidade de se volver atenção à classe obreira desprotegida); o surgimento

10
NASCIMENTO, Amauri Mascaro, op. cit., p.12 a 15.
10

de novas doutrinas sociais e econômicas tendentes a modificar a atitude não


intervencionista do Estado Liberal Clássico; o socialismo reformista; o impacto
das duas grandes guerras com o Tratado de Versalhes, a criação da OIT -
Organização Internacional do Trabalho e a Organização das Nações Unidas
pelo seu Conselho Econômico e Social, coadjuvaram, de modo importante, o
processo de formação de um novo ramo do Direito, o Direito Trabalhista,
protagonizado pelo associacionismo da classe trabalhadora movida pela sua
consciência de classe11.
A norma jurídica traduziu, então, na medida do tempo, as mudanças dos
valores sociais dados ao fato consistente na relação entre empregados e
empregadores. Desincumbia-se desta missão como instrumento de controle
social, ao mesmo tempo em que exercia função de instrumento de mudança
social.
Como resultado de todo um complexo processo de atuação de forças, o
Estado passou a tomar posição-chave na economia, desenvolvendo um plano
de ação que compreendia uma nova posição perante as relações sociais.
Valeu-se de técnicas que se tornaram cada vez mais aceitas, como o
planejamento, o dirigismo econômico, a interferência nos contratos, o Direito
Social.
A regulamentação jurídica do trabalho pelo Estado revestiu-se
inicialmente de características às quais foi dado o nome de legislação
industrial. Nesta legislação predominava o propósito de proteger o trabalho do
menor e da mulher e o de limitar a duração da jornada de trabalho, como
reação valorativa àqueles fatos relatados.
Cita-se, por exemplo, como um marco para o Direito Trabalhista, a Lei
de Peel, de 1802, da Inglaterra, de amparo aos trabalhadores. O autor do
projeto, o moleiro Robert Peel, teve o propósito de disciplinar o trabalho dos
aprendizes paroquianos nos moinhos e dos quais as autoridades paroquianas
procuravam descartar-se, entregando-os aos donos de fábricas. Peel
apresentou o projeto de lei para dar proteção a essas crianças, limitando a
jornada de trabalho a 12 horas, estabelecendo deveres com relação à
educação, higiene do local de trabalho, em especial os dormitórios. Essa lei, no
entanto, só se tornou eficaz quando Peel, com a ajuda de Robert Owen,
conseguiu a aprovação de uma segunda lei no mesmo sentido, em 1819,
tornando ilegal o emprego de menores de 9 anos e restringindo o horário de
trabalho dos adolescentes de menos de 16 anos a 12 horas diárias, nas
prensas de algodão12•
Nesta lei, estabelecia-se, também, que as paredes e os tetos das
oficinas deveriam ser branqueados com cal duas vezes ao ano; cada oficina
deveria ter janelas bastantes para assegurar ventilação conveniente; cada
aprendiz devia receber duas vestimentas completas, renovadas à razão de
uma por ano, pelo menos; dormitórios separados deviam acomodar os
menores de sexos diferentes, com número de camas suficientes para que não
fossem colocadas nunca mais de dois menores em uma cama; as jornadas de
trabalho não deveriam ultrapassar 12 horas, excluídos os intervalos de
refeição; o trabalho não poderia prolongar-se após às 21 horas nem começar

11
GOMES, Orlando & GOTTSCHALK, Elson. Curso de Direito do Trabalho. Forense, 1984,
P:2-1-4.
NASCIMENTO, Amauri Mascaro, op. cit., p.33.
11

antes das 6 horas; os aprendizes deviam aprender a ler, a escrever e a contar,


sendo subtraído das horas de trabalho o tempo consagrado às lições diárias.
Em 1833, ainda na Inglaterra, provocada pela Comissão Sadler,
constituída para sindicar condições de trabalho nas fábricas, nova lei proibiu o
emprego de menores de 9 anos, limitou a jornada diária de menores de 13
anos a 9 horas, dos adolescentes de menos de 18 anos a 12 horas.
Nota-se um sentimento de humanidade em crescimento. Em 1842,
proíbe-se o trabalho de menores e de mulheres em subsolo; em 1844, nova lei
institui para as mulheres, o dia de trabalho de 1 O horas; em 1850 e 1853, fixa­
se a jornada geral de trabalho dos homens em 12 horas.
Na França, em 1813, fica proibido por lei o trabalho dos menores em
minas; em 1814, é proibido o trabalho em domingos e feriados; em 1841, é
proibido o emprego de menores de 8 anos de idade; em 1848, foi estabelecida
jornada de trabalho geral de 12 horas.
Na Alemanha, em 1839 foi publicada lei que proibia o trabalho de
menores de 9 anos e restringiu a 1 O horas a jornada diária de menores de 16
anos; em 1853, nova lei elevou a idade mínima do menor operário para 12
anos, limitando a jornada de menores de 14 anos a 6 horas; em 1869, uma lei
de inspeção trabalhista estabeleceu que todo empregador era obrigado a
fornecer e a manter, à sua própria custa, todos os aparelhos necessários ao
trabalho, tendo em vista sua natureza, em particular, do ramo da indústria a
que servia, e o local de trabalho em ordem a fim de proteger os operários, tanto
quanto possível, contra riscos de vida e de saúde.
A legislação industrial, nessa altura de seu desenvolvimento, passava a
se estender a outras atividades, conseqüência da própria modificação da
estrutura social, das invenções das técnicas, das novas máquinas, do surto de
desenvolvimento das comunicações e dos novos tipos de profissão que iam
surgindo, daí porque, gradativamente, passou a transformar-se em direito
operário.
O Direito do Trabalho rapidamente institucionalizou-se, fenômeno
recente, cujas totais manifestações ainda estão ocorrendo. Seus princípios
foram adotados pelos Estados, moldados pelo ideal que os anima na época
contemporânea: a realização de justiça social.
Daí a penetração do Direito do Trabalho nas Constituições modernas: do
México (1917 e 1962); Chile (1925); Peru (1933); Áustria (1925); Rússia (1918
e 1935); Brasil (1934, 1937, 1946, 1967, 1969 e 1988), Espanha (1931);
Uruguai (1934); Bolívia (1938), Nicarágua (1939); Honduras (1936); Colômbia
(1936 e 1945); Romênia (1948); República Federal Alemã (1949); República
Democrática Alemã (1949); Tchecoslováquia (1948); Venezuela (1947 e 1961);
Turquia (1961); Iugoslávia (1921 e 1963) e Guatemala (1965) 13 •
Não só por meio de leis, constitucionais ou ordinárias, positivou-se o
Direito do Trabalho. O seu pluralismo gera outras normas emanadas de fontes
não estatais. Nos Estados Unidos, as convenções coletivas de trabalho, fruto
de negociações diretas entre sindicatos interessados, cobrem a maior parte da
sua ordem jurídica. A Organização Internacional do Trabalhador - OIT,
promulga convenções que em muitos países têm força de lei federal. Na
Europa são freqüentes os tratados internacionais, bilaterais ou multilaterais,
especialmente sobre previdência social.

13
NASCIMENTO, Amauri Mascaro, op. cit., p. 35.
12

A OIT, por sua vez, possui a sua Constituição Interna e prevê os seus
órgãos executivos e legislativos. Dentre estes últimos, merecem destaque
especial as "Conferências Internacionais do Trabalho", das quais participam
delegados representantes dos Governos dos Estados-Membros, além de
representantes das organizações profissionais, empregadores e empregados,
paritariamente, fato este sem precedente na história das relações entre os
povos.
A "Conferência" pode elaborar "Convenções" e "Recomendações",
sujeitas à ratificação ou homologação pelos estados Convenentes.
Cita-se, ainda no âmbito internacional, influindo na idéia de justiça social,
a Declaração Universal dos Direitos do Homem, a Carta Social Européia, a
Carta Internacional Americana de Garantias Sociais.
São, todas estas regras nacionais e internacionais, normas jurídicas
tradutoras de um valor eleito por todos os povos como regra elementar de
convivência social: a justiça social.

5 O direito como valor


Se a sociedade é o local de emergência de todos os valores e, por isso,
também, dos valores jurídicos, que dela dependem para se converterem em
concretas formas de agir, realisticamente devemos levar em conta as
possibilidades históricas dessa concretização.
Se, por outro lado, o direito como objeto cultural reflete uma certa
concepção do homem e do mundo, integrando-se numa cosmovisão mais
ampla, que abrange a totalidade da experiência histórica e social, não pode e
não deve ser pensado fora desses parâmetros, sob pena de se tornar
irrealizável e frustrar as possibilidades da sua realização14.
Dentro desta perspectiva, de Direito como norma que expressa o valor
dado por uma sociedade a determinado fato em determinado tempo, podemos
inferir a importância dos princípios na ordem jurídica.
Princípio é valor. É o mandamento nuclear de um sistema, verdadeiro
alicerce dele, disposição que se irradia sobre diferentes normas, compondo­
lhes o espírito e servindo de critério para sua exata compreensão e inteligência
exatamente por definir a lógica e a racionalidade do sistema normativo, no que
lhe confere a tônica e lhe dá sentido harmônico 15.
A relação desequilibrada entre o empregador, sujeito que produz
critérios para o contrato de trabalho e o empregado, que fica condicionado a
aceitar o modelo contratual que lhe é imposto, é de onde emerge o conceito
protetivo do Direito do Trabalho, pois influencia a lógica de como atuar
enquanto direito, daí podermos dizer que o principal princípio norteador de toda
a legislação trabalhista é o Princípio da Proteção ao trabalhador.
No Direito do Trabalho a preocupação central é a de proteger uma das
partes com o objetivo de mediante essa proteção, alcançar uma igualdade
substancial verdadeira entre as mesmas. O Princípio da Proteção "orienta o
Direito do Trabalho, pois este, ao invés de inspirar-se num propósito de
igualdade, responde ao objetivo de estabelecer um amparo prefaciai a uma das
partes: o trabalhador.". 16
14
COELHO, Inocêncio Mártires, op. cit., p. 33.
15
Celso Antônio Bandeira de Mello apud SILVA, Luiz de Pinho Pedreira da. Principiologia do
Direito do Trabalho, 1999, p.12.
16
RODRIGUES, Américo Piá. Princípios de Direito do Trabalho, 2000, p.26.
13

A motivação de proteger é a inferioridade do contratado em face do


contratante, onde a superioridade existente permite ao empregador, ou a um
organismo que o represente, impor unilateralmente as cláusulas do contrato,
tendo em vista que o empregado não tem a possibilidade de discutir, cabendo­
lhe aceitá-las ou recusá-las em bloco.17
Gerard Couturier teorizou sobre as várias espécies de inferioridades
existentes em uma relação contratual: inferioridade-constrangimento,
inferioridade-ignorância e inferioridade-vulnerabilidade. 18
Na lógica desenvolvida pelo autor fica evidenciado que no contrato de
trabalho, em relação ao consentimento, opera a inferioridade-constrangimento,
eis que a necessidade de obter um posto de trabalho remunerado lhe
constrange a discutir qualquer espécie de cláusula do contrato, ainda mais no
atual contexto de recessão dos postos de trabalho.
Aliás, a inferioridade não deve ser tomada somente quando da aceitação
contratual, mas também ao longo do contrato de trabalho, eis que o trabalhador
não pode expor a sua vontade com liberdade.
Contudo, Pinho Pedreira salienta que é a inferioridade-ignorância que
faz essencial diferença entre o trabalhador e o empregador, eis que ao
trabalhador faltam informações sobre a conclusão do contrato. A ignorância
pode ser em razão do regime iurídico aplicável em face da incompreensão dos
seus elementos constitutivos. 1 é
Por fim, resta a concepção de "inferioridade-vulnerabilidade" que na
concepção de Couturier, advém do fato de que o contrato de trabalho implica
em vender a força física, incide de certo modo sobre o corpo do empregado,
tanto o é que a proteção do trabalhador teve início pelas regras de segurança
física.20
Obviamente os três elementos podem atuar em intensidades diferentes
no contrato de trabalho, mas o certo é que estarão presentes em qualquer
relação onde exista prestação de labor em troca da remuneração.

6 Do empregado rural
A Convenção nº 141 da OIT, de 1975, define trabalhador rural como
toda pessoa que se dedica, em região rural, a tarefas agrícolas ou artesanais
ou a serviços similares ou conexos, compreendendo não só os assalariados,
mas também aquelas pessoas que trabalham por conta própria, como
arrendatários, parceiros e pequenos proprietários.21
No Brasil, a Lei nº 4.214, de 2 de março de 1963, tratava do tema. Era o
chamado Estatuto do Trabalhador Rural, que estabelecia quase os mesmos
direitos trabalhista do trabalhador urbano. O trabalho rural era disciplinado pelo
estatuto da Terra (Lei nº 4.504, de 30 de novembro de 1964). Os avulsos,
provisórios ou volantes, após um ano de serviço passavam a ser considerados
empregados permanentes (art. 6 ° da Lei 4.214 de 1963).

17 SILVA, Luiz de Pinho Pedreira da. Principiologia do Direito do Trabalho, 1999, p.22.
18
COUTURIER, Gerard citado por SILVA, Luiz de Pinho Pedreira da. Principiologia do
Direito do Trabalho, 1999, p.22.
19
SILVA, Luiz de Pinho Pedreira da. Principiologia do Direito do Trabalho, 1999, p.23.
2
° COUTURIER, Gerard citado por SILVA, Luiz de Pinho Pedreira da. Principlologia do
Direito do Trabalho, 1999, p.23.
21
MARTINS, Pinto. Direito do Trabalho. Atlas, 2003, p. 155.
14

Atualmente, a norma que cuida do trabalhador rural é a Lei nº 5.889, de


8 de junho de 1973, que revogou a Lei nº 4.214, de 1963 (art. 21). Não se
aplica a CLT ao empregado rural, salvo se houver determinação em sentido
contrário (art. 7°, b, da CLT).
O empregado rural é a pessoa física que, em propriedade rural ou prédio
rústico, presta serviços com continuidade a empregador rural, mediante
dependência e salário (art. 2 ° da Lei nº 5.889/73). O empregador rural é a
pessoa física ou jurídica, proprietária ou não, que explore atividade
agroeconômica, em caráter permanente ou temporário, diretamente ou por
meio de prepostos e com auxílio de empregados (art. 3° da Lei nº 5.889/73).
Os contratos típicos, como o de parceria, meação, são regidos pelo
Direito Civil. As parcerias e meações consideradas fraudulentas, no entanto,
afastam a legislação comum, aplicando-se a legislação especial do trabalho,
configurando-se o vínculo de emprego, garantindo-se todos os direitos
trabalhistas aos trabalhadores, que serão considerados trabalhadores rurais.
A Constituição igualou de vez os direitos do trabalhador urbano e do
rural no caput do art. 7°. Assim, trabalhadores urbanos e rurais têm os mesmos
direitos.

7 Da realidade brasileira
Pareceu-nos importantes as noções gerais traçadas até aqui, acerca do
que seja, em apertada síntese, Direito e o que pretende tutelar a legislação
trabalhista, não só a brasileira, mas a internacional, para entender-se,
principalmente, que o quê o Estado brasileiro pretende, com as suas incursões
no interior de propriedades rurais, por meio da Polícia Federal, do Ministério
Público e Fiscais do Trabalho, é o alcance desta proposta hunanitária, que o
Direito procura concretizar em nível mundial: estabelecer-se uma sociedade
justa.
No Brasil, a história do Direito do Trabalho não apresenta as mesmas
características que o direito trabalhista estrangeiro. País de imensa área
territorial e em grande parte situado entre as áreas subdesenvolvidas do
mundo, e em parte, de médio desenvolvimento, não teve tempo histórico,
ainda, para se preparar e enfrentar os grandes problemas que alhures surgiram
com a Revolução Industrial.
A rarefação de sua população relativa, a explosão de seus centros
habitacionais, os resíduos do tradicional sistema colonial, a lenta formação de
um mercado interno auto-suficiente, uma infra-estrutura industrial e profissional
rarefeita e ganglionar, uma legislação antiliberal, não têm permitido ao nosso
país criar um Direito do Trabalho com as mesmas características dos povos
europeus e alguns americanos.22
Já se disse, não sem certa razão, que o nosso Direito do Trabalho tem
sido uma dádiva da lei, uma criação de cima para baixo, em sentido vertical,
mas nem a força normativa de mudança social foi capaz de eliminar totalmente
a escravidão no Brasil. Um desdobramento natural de conquista de lutas
sociais, como ocorreu na Europa, não ocorreu no Brasil, e por isso, ainda
ocorrem fatos tão parecidos como aqueles que descrevemos como ocorrente
alhures, há mais de duzentos anos atrás.

22 GOMES, Orlando & GOTTSCHALK, Elson. Curso de Direito do Trabalho. Forense, 1984, p.7.
15

Caio Prado Júnior, escritor brasileiro, dizia que o historiador brasileiro -


na década de 1930 - era um privilegiado, pois que teria condições de conhecer
em pleno século XX quadros históricos próprios dos séculos anteriores. A
reflexão é atualíssima para o Brasil de hoje, aonde há muita dúvida acerca dos
números da escravidão no país. Para alguns são vinte e cinco mil e para outros
duzentos mil escravos, conforme dados reunidos pela CPT (Comissão Pastoral
da Terra).
A história da escravatura no Brasil tem origem no século XVI, quando os
portugueses tentaram escravizar os índios para a exploração da cana-de­
açúcar. Logo se observou que o indígena não se adaptava às novas atividades.
Por esta razão o trabalho indígena foi substituído pelo trabalho negro importado
da África, abolido em 1888, dois anos antes do final do monarquismo, mas
certamente não se mostrou eficaz e adequada para transformar as relações
sociais no Brasil.
A escravidão no Brasil, não se explica somente por fatores culturais,
mas também políticos, econômicos e históricos. A escravidão foi em grande
parte financiada por banqueiros holandeses que investiam altas somas em
dinheiro no comércio de açúcar. Durante o período de 1580-1640, quando
Portugal passou a ser controlado pela Espanha, os negócios holandeses foram
apagados no Brasil, todavia o modelo escravista não foi alterado. Depois da
restauração da monarquia portuguesa em 1640, a escravidão no Brasil foi
fortemente financiada em parte pelos ingleses, que exercia ascendência
política sobre Portugal até o século XIX.
No Brasil se iniciou a campanha abolicionista quando surgiu a
exploração da cultura do café que precisava de mão de obra assalariada. Em
1850, entrou em vigor a Lei Eusébio de Queirós, proibindo o tráfico de
escravos. Em 13 de maio de 1888, a Princesa Isabel decretou a escravidão
como atividade ilegal. Contudo, são muitos os relatos de permanência da
escravidão no país, a chamada escravidão moderna.
Vale dizer, de acordo com o Relatório Global da OIT de 2001, as
diversas modalidades de trabalho forçado no mundo têm sempre em comum
duas características: o uso da coação e a negação da liberdade. No Brasil, o
trabalho escravo resulta da soma do trabalho degradante com a privação de
liberdade. O trabalhador fica preso a uma dívida, tem seus documentos retidos,
é levado a um local isolado geograficamente que impede o seu retorno para
casa ou não pode sair de lá, impedido por seguranças armados. A OIT, em
seus documentos, ao descrever esta situação brasileira, utiliza o termo
"trabalho escravo".
Tudo se inicia quando o "gato" faz contratos com modestos
trabalhadores de regiões pobres e passa a oferecer empregos. Os
trabalhadores que aceitam a proposta recebem de imediato uma soma em
dinheiro para deixar com sua família. Em seguida, são transportados até o
novo local de trabalho. Chegando na Fazenda, o peão é alojado em barracos
precários, de madeira, sem janelas, sem vasos sanitários e com pouca
iluminação. Vivem sem água potável e recebem alimentação inadequada. São
obrigados a comprar produtos vendidos em armazéns do próprio fazendeiro.
Chegado o dia do primeiro pagamento, o trabalhador é surpreendido ao
saber que tem grande débito com o patrão e que deverá pagar pelas
ferramentas de trabalho (como moto-serras, facões, etc.), equipamentos que
utiliza em sua atividade (como botas, chapéus, etc), pelo adiantamento em
16

dinheiro e pelos custos despendidos com seu transporte e alimentação. Na


maioria dos casos o peão percebe que está prisioneiro, escravo, rendido e
vigiado por pessoas armadas.
As cifras sobre trabalho escravo no Brasil, durante o período da ditadura
militar (1964-1985), são desconhecidas, uma vez que os governos militares
não permitiam as pesquisas sobre a existência dos trabalhadores cativos.
Ainda assim, durante o período de 1970 a 1986 foram constatados 11O
cativeiros. Em 55 casos foram contados 19.713 escravos (somente 1.292
conseguiram fugir). Em 1970, por exemplo, 500 trabalhadores foram libertados
de uma fazenda no norte do Mato Grosso, 50 eram menores (Martins, 1986, p.
41).
Em pleno século XXI o quadro não é diferente e não se modificará se as
causas da escravidão não forem atacadas, a pobreza extrema da maioria da
população, a falta de perspectivas, a frágil fiscalização do Estado, aliadas à
impunidade que permite a reprodução das condutas criminosas. Segundo
informa a Comissão Especial para o Combate ao trabalho Escravo, do
Ministério da Justiça, existem nas Regiões Norte e Nordeste aproximadamente
10.000 trabalhadores escravos; de acordo com a CPT, somente na Amazônia
existem 15.000 trabalhadores escravos (Folha de São Paulo, 20.10.2002, p. A-
4) e cerca de 25.000 em todo o país (Jornal do Senado, 7.11.2002, p.7).
Recentemente (Folha de São Paulo, 22.02.2004, p. A-13), a CPT revisou seus
números para anunciar que os escravizados podem chegar a 200.000.
Os trabalhadores escravos, em sua grande parte, são provenientes de
Estados pobres do Nordeste, principalmente da Paraíba e do rio Grande do
Norte, e comumente trabalham em propriedades com direção nos Estados do
Pará, Tocantins, Maranhão, Pernambuco, Mato Grosso, Mato Grosso do Sul,
Minas Gerais, São Paulo e Rio Grande do Sul.
Nestes últimos anos algumas medidas foram tomadas. O GERTRAF
(Grupo Executivo de Repressão ao Trabalho Forçado), coordenado pelo
Ministério do Trabalho e composto por representantes de outros Ministérios e
de organizações não governamentais (ONGs), divulgaram que suas equipes de
fiscalização lograram libertar 11.254 trabalhadores entre os anos de 1995 e
2003.

Tabela 1. Número de operações (NO), número de trabalhadores libertados


(NTL) e número de estabelecimentos fiscalizados (NEF) referente ao
período de 1995 a 2004.
Ano NO NTL NEF
1995 11 84 77
1996 26 425 219
1997 20 394 95
1998 18 159 47
1999 19 725 56
2000 25 527 88
2001 27 1297 147
2002 33 2493 94
2003 66 4879 196
2004 (até abril) 08 271 19
TOTAL 253 11.254 1.038
Fonte: SITrrEM.
17

Para bem exprimir a realidade nacional, no que atine ao fato recriminável


em si e também a ação governamental no sentido de combatê-lo em
atendimento a um compromisso não só constitucional, de direito interno, mas
também internacional, cita-se matéria publicada no site do Ministério Público do
Trabalho23 , verbis: A escravidão contemporânea é diferente daquela que existia
até o final do século 19, quando o Estado garantia que comprar, vender e usar
gente era uma atividade legal. Mas é tão perversa quanto, por roubar do ser
humano sua liberdade e dignidade. E ela não se resume à terra de ninguém
que é a região de expansão agrícola amazônica, mas está presente nas
carvoarias do cerrado, nos laranjais e canaviais do interior paulista, em
fazendas de frutas e algodão do Nordeste, nas pequenas tecelagens do Brás e
Bom Retiro, da cidade de São Paulo.
A nova escravidão é mais vantajosa para os empresários que a da
época do Brasil-Colônia e do Império, pelo menos do ponto de vista financeiro
e operacional. O sociólogo norte-americano Kevin Bales, considerado um dos
maiores especialistas no tema, traça em seu livro "Disposable People: New
Slavery in the Global Economy" (Gente Descartável: A Nova Escravidão na
Economia Mundial), paralelos entre esses dois sistemas.
Antigamente, a propriedade legal era permitida, hoje não. Mas era muito
mais caro comprar e manter um escravo do que hoje. O negro africano era um
investimento dispendioso que poucas pessoas podiam ter. Hoje, o custo é
quase zero - paga-se apenas o transporte e, no máximo, a dívida que o sujeito
tinha em algum comércio ou hotel. Além do fato de que, se o trabalhador fica
doente, é só largá-lo na estrada mais próxima e aliciar outra pessoa. O
desemprego é gigantesco no país, e a mão-de-obra, farta.
Na escravidão contemporânea, não faz diferença se a pessoa é negra,
amarela ou branca. Os escravos são miseráveis, independentemente de raça.
Porém, tanto na escravidão imperial quanto na do Brasil de hoje, mantém-se a
ordem por meio de ameaças, terror psicológico, coerção física, punições e
assassinatos. Ossadas têm sido encontradas em propriedades durante ações
de fiscalização, como na fazenda de Gilberto Andrade, família influente da
região Sul do Pará.(.. .)
As primeiras denúncias de formas contemporâneas de escravidão no
Brasil foram feitas em 1971 por dom Pedro Casaldáliga, na Amazônia. Sete
anos depois, a CPT denunciou a fazenda Vale do Rio Cristalino, pertencente à
montadora de veículos Volkswagen e localizada no sul do Pará. O depoimento
dos peões que conseguiram fugir a pé da propriedade deu visibilidade
internacional ao problema.
Outro exemplo de envolvimento de grandes empresas é o das fazendas
reunidas Taina Recan, em Santa do Araguaia, e Alto Rio Capim, em
Paragominas, ambas no Pará, pertencentes ao grupo Bradesco, onde, entre as
décadas de 70 e 80, foram encontrados trabalhadores reduzidos à condição de
escravidão. O governo acaba envolvido indiretamente com o trabalho forçado
quando financia empresas que se utilizam da prática. A Superintendência para
o Desenvolvimento da Amazônia (Sudam), por exemplo, bancou a Companhia
Real Agroindústria e as fazendas Agropalma, também no Pará, pertencentes
ao Banco Real, em que foram encontradas irregularidades no início da década

23
[Link]
18

de 90. Tudo isso é fruto da política de desenvolvimento adotada durante a


ditadura militar, de incentivar os grandes empreendimentos na região
amazônica, que fechou o olho para os direitos humanos e trabalhistas. Quem
protestava ou reivindicava era preso e torturado.
Apesar de as convenções internacionais de 1926 e a de 1956, que
proibiam a servidão por dívida, entrarem em vigor no Brasil em janeiro de 1966,
o país demorou para criar um mecanismo para combatê-la. O que veio a
acontecer apenas em 1995, quando foram instituídos os grupos móveis de
fiscalização. Essas equipes, coordenadas pela Secretaria de Inspeção do
Trabalho (SIT) do Ministério do Trabalho e Emprego, respondem diretamente a
Brasília, são acompanhadas de policiais federais e contam com o suporte do
Ministério Público do Trabalho e da Justiça do Trabalho.
O Plano Nacional para Erradicação do Trabalho Escravo, lançado no
início de 2003, reúne 76 medidas de combate à prática. Entre elas, projetos de
lei como o que expropria terras em que for encontrado trabalho escravo e
transfere para a esfera federal os crimes contra os direitos humanos, limitando
assim as influências locais nos processos. A implantação do plano tem sido
lenta e muitas vezes esbarra na falta de verbas, pressão da bancada ruralista e
na incapacidade do governo federal de liberar recursos para aumentar e
aparelhar a fiscalização.
Nos últimos meses, mudanças na legislação tornaram mais duras as
penas para quem for pego com trabalho escravo. Outros importantes
instrumentos foram a determinação da suspensão no crédito agrícola de quem
foi condenado pela prática e a criação de 269 novas Varas do Trabalho, a
primeira delas a ser instalada em Redenção, sul do Pará. Vale ressaltar que o
combate ao trabalho escravo avançou graças à dedicação pessoal dos
auditores do grupo móvel do Ministério do Trabalho e Emprego, mesmo com
falta de recursos financeiros, equipamentos, veículos que não quebrem em
serviço e telefones que funcionem na imensidão verde da Amazônia.(...)

8 O trabalho escravo no Direito Penal brasileiro


A escravidão referida no Código Penal brasileiro, pois, por tudo que foi
dito, deve ser muito bem entendida, na medida em que consiste em conduta
criminosa, reprimível com pena restritiva de liberdade, de reclusão, de dois a
oito anos, e multa, além da pena correspondente à violência.
Diz o art. 149 do Código Penal brasileiro, com a alteração introduzida
pela Lei nº 10.803, de 11 de dezembro de 2003: Art. 149. Reduzir alguém a
condição análoga à de escravo, quer submetendo-o a trabalhos forçados ou a
jornada exaustiva, quer sujeitando-o a condições degradantes de trabalho, quer
restringindo, por qualquer meio, sua locomoção em razão de dívida contraída
com o empregador ou preposto: (Redação dada pela Lei nº 10.803, de
11.12.2003}. Pena - reclusão, de dois a oito anos, e multa, além da pena
correspondente à violência. (Redação dada pela Lei nº 10.803, de 11.12.2003}.
§ 1º Nas mesmas penas incorre quem: (Incluído pela Lei nº 10.803, de
11.12.2003): 1 - cerceia o uso de qualquer meio de transporte por parte do
trabalhador, com o fim de retê-lo no local de trabalho; (Incluído pela Lei nº
10.803, de 11.12.2003): li - mantém vigilância ostensiva no local de trabalho
ou se apodera de documentos ou objetos pessoais do trabalhador, com o fim
de retê-lo no local de trabalho. {Incluído pela Lei nº 10.803, de 11.12.2003). §
2º A pena é aumentada de metade, se o crime é cometido: {Incluído pela Lei nº
19

10.803. de 11.12.2003}: 1 - contra criança ou adolescente; (Incluído pela Lei nº


10.803. de 11.12.2003); e li - por motivo de preconceito de raça, cor, etnia,
religião ou origem. {Incluído pela Lei nº 10.803. de 11.12.2003}.
Vê-se que até o advento da Lei nº 10.803/2003, o texto do referido
dispositivo legal, ao descrever a conduta incriminadora, referia-se apenas à
redução de alguém à "condição análoga à de escravo", que podia ser
entendida como o fato do sujeito transformar a vítima em pessoa totalmente
submissa à sua vontade, como se escravo fosse, nas condições historicamente
reconhecidas como caracterizadoras desse tipo de relação.
Na vigência da antiga redação do dispositivo, havia, pois, muita
discussão na doutrina e jurisprudência acerca da perfeita caracterização do
que constituiria realmente à chamada "condição análoga à de escravo", um
termo um tanto quanto genérico, o que deveria ter sido evitado pelo legislador
em face do princípio penal norteador da tipicidade legal.
De acordo com a nova redação, previu-se de forma mais clara e precisa
o que constituiria o conceito de "condição análoga à de escravo".
Como se vê, de acordo com o art. 149 do Código Penal brasileiro, com
redação dada pela Lei n. 10803/2003, tal condição estará caracterizada quando
a vítima for submetida à ação do empregador ou preposto, previstas nos
verbos reduzir (alguém a condição análoga à de escravo); submeter (a
trabalhos forçados ou a jornada exaustiva); sujeitar (a condições degradantes
de trabalho), restringir (por qualquer meio, sua locomoção em razão de dívida
contraída com o empregador ou preposto), cercear (o uso de qualquer meio de
transporte por parte do trabalhador, com o fim de retê-lo no local de trabalho),
manter (vigilância ostensiva no local de trabalho), ou apoderar (de documentos
ou objetos pessoais do trabalhador, com o fim de retê-lo no local de trabalho),
sob pena restritiva de liberdade de dois a oito anos, e multa, além da pena
correspondente à violência, pena esta aumentada de metade, se o crime é
cometido contra criança ou adolescente ou por motivo de preconceito de raça,
cor, etnia, religião ou origem.
Este crime está previsto no Capítulo VI, relativo aos crimes contra a
liberdade individual, do Título 1, dos crimes contra a pessoa, da Parte Especial
do Código Penal brasileiro.
Importa-nos isso, na medida que podemos concluir que a lei penal, no
art. 149, quando tipifica a conduta "Redução a Condição Análoga à de
Escravo", trata de proteger a liberdade individual, ou seja, o estado de
liberdade do homem, que é o direito que todo ser humano tem de estar livre da
servidão ou do poder de fato de outra pessoa.
Vale citar, a Convenção Americana sobre Direitos Humanos, conhecida
como Pacto de São José da Costa Rica, assinado pelo Brasil, no seu art. 6.1,
estabelece que "Ninguém pode ser submetido a escravidão ou a servidão, e
tanto estas como o tráfico de escravos e o tráfico de mulheres são proibidos
em todas as formas".
Tutela-se, desta forma, sobretudo, a dignidade da pessoa humana, que
não pode ser submetida a tratamento desumano ou degradante, inclusive no
exercício do trabalho, conforme preceitua nossa Constituição Federal, tanto no
inciso Ili do seu art. 5°, como conforme a especial proteção contida no art. 7°,
afora as proibições previstas na legislação pátria.
20

8.1 Formas de cometimento do crime


A primeira forma de se reduzir alguém à condição análoga à de escravo
é submetê-la a trabalhos forçados. Isto significa que a vítima é privada da
liberdade da escolha de não executar o trabalho, ou seja, decorre de uma
relação de dominação e sujeição da qual não pode se insurgir. Isto é, o agente
criminoso constrange a vítima a executar o trabalho: a) mediante violência ou
ameaça; ou b) mediante a criação ou o aproveitamento de circunstâncias que a
impossibilitem de exercer a opção de não se submeter ao trabalho.
Seria o caso de situação análoga a de escravo, quando, numa fazenda,
os trabalhadores estivessem sendo tratados como antigos escravos, estando
impedidos de deixá-las, não recebendo salários.
Praticará, também, o crime, quem submeter outrem a jornada exaustiva
ou a condições degradantes de trabalho. Neste caso o abuso está, a despeito
do consentimento da vítima, na exigência, quer quanto à quantidade, quer
quanto às condições propiciadas para sua execução.
Por condições degradantes entendem-se as aviltantes e humilhantes,
não apenas em geral consideradas, mas também em face das condições
pessoais da vítima, que afrontam sua dignidade.
Para a configuração do crime, no entanto, não basta a mera violação
das normas tutelares das relações trabalhistas. Exige-se que o abuso resulte
da submissão ou sujeição, ou seja, que decorra de uma relação de dominação
na qual a vítima está subjugada, privada de sua liberdade de escolha.
Uma última forma de cometimento do crime consiste na privação da
liberdade de alguém em razão de dívida, muitas vezes artificiosamente criada
ou incentivada como pretexto para subseqüente exploração abusiva do
trabalho. O crime se configura mediante a restrição da liberdade de locomoção
da vítima por qualquer meio, abrangidos o enclausuramento e o confinamento.
Exige-se, porém, que a conduta seja praticada em razão de dívida contraída
com o empregado ou preposto, não descaracterizando a infração a
circunstância de ser o crédito legítimo.
É esse o caso quando alguém força trabalhador a serviço pesado e
extraordinário, com proibição de deixar a propriedade agrícola sem liquidação
dos débitos pelos quais é responsável24.
Acresça-se que, de acordo com o § 1 ° do art. 149 do Código Penal, há
previsão de outros meios específicos de que se pode valer o agente para
reduzir a vítima à condição análoga à de escravo. Punem-se as seguintes
condutas que restringem a liberdade de locomoção do trabalhador com a
finalidade específica de impedi-lo de deixar o local de trabalho: (i) cerceamento
ao uso de meio de transporte; (ii) vigilância ostensiva; ou (iii) retenção de
documentos ou objetos pessoais do trabalhador.
Vale registrar, por último, que: (i) o Poder Judiciário já formou
entendimento, antes da redação do novo dispositivo, que qualquer
constrangimento gerado por irregularidades nas relações laborativas não é
suficiente para determinar a incidência do art. 149 do Código Penal; (ii) a
redução de alguém a condição análoga à de escravo, por meio de qualquer das
formas que assuma a conduta, exige certa duração no estado de submissão da
vítima, ou seja, não se configurará o crime com uma única ação do agente; (iii)
a inconsciência da vítima quanto à condição análoga à de escravo a que está

24
MIRABETE, Julio Fabbrini. Manual de Direito Penal. Atlas, 2004, p.192 a 196.
21

submetido, não afasta o crime; (iv) o consentimento da vítima não afasta a


ilicitude do fato (em razão da indisponibilidade do bem "liberdade individual");
(v) o crime pode ser praticado na forma tentada, ou seja, ocorre a tentativa
quando o agente não consegue o resultado de submissão à sua vontade
apesar das condutas praticadas; (vi) trata-se de crime doloso, ou seja, exige-se
a consciência do agente de estar reduzindo alguém a um estado de submissão
por uma das formas relatadas; (vii) se o fim da conduta for o de criar, educar,
corrigir ou proteger uma pessoa, não existirá o crime por ausência de dolo
(poderá, contudo, se houver excesso, ocorrer a caracterização do crime de
maus-tratos); (viii) a conduta é sempre comissiva, não existe este crime de
forma omissiva, ou seja, a sujeição de alguém a outrem, independente da
vontade desta última, não caracteriza o crime por não ocorrência da conduta
típica; (ix) se a conduta é cometida contra criança ou adolescente, ou ainda por
motivo de preconceito de raça, cor, etnia, religião ou origem, configurar-se-á o
crime na sua forma qualificada, o que determina o aumento da pena pela
metade; (x) mesmo que não se configure a condição análoga a de escravo, a
conduta poderá configurar maus-tratos; constrangimento ilegal; seqüestro ou
cárcere privado; tortura (inciso li do art. 1° da Lei nº 9.455, de 7 de abril de
1997); frustração de direito assegurado por lei trabalhista, etc; (xi) o trabalho
abusivo no curso da execução da pena pode configurar delito de abuso de
poder (art. 350) ou de abuso de autoridade (previsto na Lei nº 4.898, de 9 de
dezembro de 1965); e (xii) a submissão de idosos a condições desumanas ou
degradante, a trabalho excessivo ou inadequado, expondo-o sua saúde e
integridade a perigo, configura o delito previsto no art. 99 da Lei nº 10.741, de
1 ° de outubro de 2003 (Estatuto do Idoso). (Júlio Fabbrini Mirabeti).
8.2 A jurisprudência criminal25
Ilustrativo, também, da situação do fato frente ao ordenamento jurídico
brasileiro atual, é o enfrentamento da questão pelo Poder Judiciário, o que
pode ser visualizado de trecho do recente Acórdão do relator Ministro Gilson
Dipp, do Superior Tribunal de Justiça, em 25/05/2004, julgando a pretensão de
acusado de trabalho escravo ao benefício legal de apelar de sua condenação,
em primeiro grau, solto, no HC nº 33716 / SP. Do pedido e da fundamentação
exposta pelo recorrente, entendeu o STJ: "{ ...) o paciente foi condenado por
manter dez pessoas em condições análogas às de escravos, apoderando-se
de seus documentos, obrigando-as a realizar trabalhos imoderados, em
extensa jornada, e submetendo-as a péssimas condições de higiene, saúde,
alimentação e moradia. Não há ilegalidade na decisão monocrática que não
reconheceu, em favor do paciente, o benefício de apelar solto, (...)" "A
gravidade do crime praticado pelo sentenciado, em flagrante desencontro com
as intenções do Estado Brasileiro, no sentido da erradicação do trabalho
escravo, e também a personalidade voltada para a prática deste delito, pois,
nem mesmo o início da ação judicial envolvendo os fatos praticados pelo réu
impediu que ele continuasse a aliciar outras pessoas da região, submetendo-as
às mesmas condições de trabalho das vítimas, mostram-se hábeis à
manutenção da custódia. Aspectos suficientes para impedir a revogação da
prisão como garantia da ordem pública, extremamente abalada pelos delitos
praticados pelo réu. (...)"

25
[Link]
risprudencí[Link]
22

9 Repercussão civil da constatação da conduta na Justiça do trabalho -


Jurisprudência civil/trabalhista26
No âmbito das ações civis/trabalhistas, vale citar condenação de
obrigação de indenizar trabalhador por danos morais (além de verbas
rescisórias, reconhecida a relação empregatícia; multa legal; repouso semanal
remunerado; restituição de descontos; obrigação de retificar a CTPS), como se
pode extrair de trecho da seguinte sentença judicial da Justiça do Trabalho
(Reclamação trabalhista nº 00322.2004.661.05.00-2, Vara do Trabalho de
Barreiras/BA-TRT 5ª região): (...) A farta e robusta prova documental carreada
aos autos atesta a existência de triste e vergonhoso quadro constatado pelo
MTE em fiscalização na fazenda da primeira reclamada, quando em agosto -
2003 foram libertados cerca de 800 (oitocentos) trabalhadores submetidos a
condições desumanas e degradantes. Toda sorte de violação a lei 5.899/73, e
antes disso, ao princípio constitucional da dignidade da pessoa humana foi
comprovado na oportunidade. Trabalhadores mal nutridos, refeições
insuficientes e preparadas sem condições de higiene, ausência de
fornecimento de água potável, proliferação de doenças em quadro próximo de
epidemia, trabalhadores amontoados em barracas de lona e sem separação
por sexo e entre solteiros e casais, ausência de sanitários, ausência de
fornecimento de proteção individual. Este o quadro encontrado pelo MTE,
sendo desarrazoado não situar os reclamantes em tal conjuntura, tendo eles
trabalhado na fazenda da reclamada, apenas estando de folga quanto (sic) da
inspeção ministerial. Os fatos atraíram a atenção da mídia nacional e
estrangeira, triste "propaganda" para o Brasil e o oeste da Bahia, apontado
como um dos focos de trabalho escravo e degradante em nosso País. O
paraíso existente na Fazenda Roda Velha, descrito pela primeira testemunha
do rol da primeira reclamada contradiz o que foi visto por milhões de pessoas
através dos órgãos de imprensa, não merecendo credibilidade por parte do
juízo. (... ) A prova oral conduziu em sentido absolutamente diverso, a
corroborar a prova documental produzida nos autos. Quando interrogado disse
o preposto da primeira reclamada que a empresa conta com 40 (quarenta)
empregados fixos, tendo o segundo reclamado levado cerca de 350 (trezentos
e cinqüenta) trabalhadores para a fazenda. Tal assertiva não se coaduna
encontrada pelo MTE, que detectou, no momento da fiscalização, cerca de 763
(setecentos e sessenta e três) trabalhadores. Destes, conforme declaração do
preposto do segundo reclamado, apenas 150 (cento e cinqüenta) tinham sua
CTPS anotada antes da ação fiscalizadora. As testemunhas mencionaram: que
os trabalhadores dormiam em barracos de lona; que não havia instalações
sanitárias adequadas; que os trabalhadores bebiam água em carro pipa, ou em
reservatórios; que os alojamentos não contavam com banheiros; que as
divisórias dos alojamentos eram feitas de lona; que não eram fornecidas EPl's
aos trabalhadores; que os alojamentos eram cobertos com palha. Em nosso
entendimento, é o que basta para caracterização do trabalho degradante. Sem
razão os reclamados, que procuram afastar a caracterização do trabalho
análogo a escravo, pela ausência de privação da liberdade dos Reclamantes.
Esta de fato não se comprovou, demonstrando a instrução processual que não
houve cerceio do direito de ir e vir dos Autores. Entretanto, a diferenciação

26
[Link]
[Link]
23

doutrinária entre trabalho escravo e trabalho degradante não foi recepcionada


pela nova redação do art. 149 do Código Penal, com a redação que lhe foi
emprestada pela Lei 10.803/2003. Com efeito, a norma dispõe caracterizar
redução a escravo, quando alguém submete outrem"... a trabalhos forçados ou
a jornada exaustiva quer sujeitando-o a condições degradantes de trabalho,
quer restringindo, por qualquer meio, sua locomoção em razão de dívida
contraída com o empregador ou preposto". A norma legal não diferencia como
gêneros distintos o trabalho escravo e o trabalho degradante, considerando
este uma espécie daquele. E o trabalho degradante restou sobejamente
provado no caso em tela. O direito brasileiro dispõe que aquele que por ação
ou omissão voluntária, violar direito, ou causar prejuízos a terceiros, fica
obrigado a repara o dano. A Constituição Federal de 1988, art. 5.0, V e X, prevê
a possibilidade reparação do dano moral, prestigiando a imagem, a honra, a
vida privada e a imagem (sic) das pessoas reconhecendo o direito de
indenização pelo dano moral e material decorrentes de sua violação. Admite
assim a reparação dos danos, que se divide em moral e material. O dano moral
atinge bens de natureza não patrimonial, entre os quais a honra, imagem,
dignidade, ou seja, as qualidades morais, o respeito pessoal e social
construído. Roberto Brebbia conceitua o dano moral como aquela espécie de
agravo constituída pela violação dos direitos inerentes à personalidade (in "EI
Dario Moral", Ed. Bibliografia Argentina, Buenos Aires, 1950, pg. 91).
Inicialmente reconhecendo proteção ao direito à vida e à honra, a moderna
doutrina e jurisprudência hoje englobam dentre os direitos personalíssimos
passíveis de reparação, o dano estético, o dano à intimidade, o dano à vida de
relação (honra, dignidade, honestidade, imagem, nome, liberdade), o dano
biológico (vida) e o dano psíquico. Inquestionavelmente todos estes tipos de
violação de direitos personalíssimos encontram campo fértil de aplicação no
Direito do Trabalho. Se por um lado a personalidade do empregado é tutelada
em face do caráter pessoal, subordinado e duradouro da prestação de serviço;
por outro lado, a personalidade do empregador também encontra proteção ante
a preservação do poder diretivo, dos segredos do empreendimento, das
normas e da imagem empresarial. O dano moral, violando bens jurídicos
insusceptíveis de avaliação econômica, traduzir-se-ia em estrago à alma,
podendo o gravame manifestar-se na ofensa a qualquer bem jurídico não
material inerente à personalidade. No caso sub judice, a instrução processual
demonstrou à saciedade, sujeição dos trabalhadores a condições desumanas,
com grave prejuízo à honra dos Reclamantes, redução de sua estima própria
e/ou social, violado sua moral e respeitabilidade, atingindo os direitos de sua
personalidade. Ante a tudo exposto, defere-se o pedido de indenização por
dano moral, na razão de R$ 9.275,00 (nove mil, duzentos e setenta e cinco
reais), para cada Reclamante, na razão de metade do piso normativo para
cada de duração do vínculo empregatício.

1 O Das ações governamentais para combate ao trabalho escravo27


Já em 1994, um acordo entre Ministério do Trabalho, Ministério Público
do Trabalho, Ministério Público Federal e a Polícia Federal foi firmado, visando
a prevenção, a repressão e a erradicação de práticas de trabalho forçado, de

27
[Link]
[Link]
24

trabalho ilegal de crianças e adolescentes, de crimes contra a organização do


trabalho e de outras violências à saúde e aos direitos dos trabalhadores, em
especial no ambiente rural. Este acordo é a principal parceria entre os órgãos
mencionados, dinamizando a complexidade de competências que estão
insertas no contexto do trabalho escravo e degradante.
No mês de junho de 1995, o Ministro do Trabalho assinou as Portarias
números 549 e 550, ambas de 14 de junho, criando o Grupo Especial de
Fiscalização Móvel - GEFM e estabelecendo procedimentos para sua atuação.
Foram criadas quatro Coordenações Regionais de Fiscalização Móvel,
dividindo o território nacional em seis regiões de atuação. Os auditores fiscais
do trabalho nomeados como coordenadores regionais sempre atuam em
localidades diversas de sua lotação de origem, no intuito de ficarem livres de
pressões ou ameaças no desenvolvimento dos trabalhos de fiscalização.A
Portaria Ministerial nº 265, de 6 de junho de 2002, transformou as
Coordenações Regionais em Coordenações Operacionais.
Em junho de 1995, o então Presidente da República editou o Decreto nº
1.538, criando o Grupo Executivo de Repressão ao Trabalho Forçado -
GERTRAF, com direção do Ministério do Trabalho e Emprego, e composto
pelos Ministérios da Justiça, da Previdência Social, do Meio Ambiente, da
Agricultura, da Reforma Agrária e da Indústria e do Comércio. As reuniões do
GERTRAF contam também com a presença de representantes da Contag,
CNA, CPT, Ministério Público Federal e do Departamento de Polícia Federal28.
O atual governo priorizou o combate à escravidão. Em abril, adotou um
Plano para a Erradicação do Trabalho Escravo e, em 31/7/03, o presidente Lula
assinou decreto que cria a Comissão Nacional de Erradicação do Trabalho
Escravo, a Conatrae, formada por nove representantes de ministérios e nove
de entidades privadas não-governamentais que possuam atividades relevantes
relacionadas ao combate ao trabalho escravo.

11 Das medidas Legislativas


Os componentes do Fórum Contra a Violência no Campo (Ministério
Público Federal, Ministério Público do Trabalho, OAB, Ministério do Trabalho,
Contag, CPT, dentre outros), aceitaram o desafio de representar a sociedade
na luta contra o trabalho escravo e degradante. Das discussões e reuniões
surgiu o PL nº 925, do Deputado Federal Paulo Rocha que, contando com o
apoio de vários outros parlamentares dos mais diversos partidos, foi convertido
na Lei nº 9.777, de 30 de dezembro de 1998, alterando os artigos 132, 203 e
207 do Código Penal, contemplando o clamor pelo agravamento da pena de
aliciamento de trabalhadores e caracterizando outros tipos penais relacionados
ao fornecimento de mercadorias no ambiente de trabalho29.
11.1 A Proposta de Emenda à Constituição Nº 438-C, de 2001
Importa registrar, também, que para efeito da concretização de efetivo
combate ao trabalho escravo no Brasil, pretende-se alterar a própria
Constituição Federal brasileira. Aliás, estamos prestes a ver atendido clamor

28
SECCHIN, Cláudio. Matéria: Atuação da fiscalização contra o trabalho escravo e degradante.
Como Funciona as ações de fiscalização. Consulex, 2002, pp. 14 a 19.
29
SECCHIN, Cláudio. Matéria: Atuação da fiscalização contra o trabalho escravo e degradante.
Como Funciona as ações de fiscalização. Consulex, 2002, p.14.
25

social constituindo instrumentos que permitirão a erradicação do trabalho


escravo no Brasil.
Registra-se que após intenso debate, buscou-se acordo para a redação
final do dispositivo. Para este efeito, apresentou-se emenda aglutinativa que
toma por base a PEC nº 232, apresentada pelo Deputado Paulo Rocha,
precursor da matéria na Câmara do Deputados, que antecipou-se ao Senado.
A proposta de emenda do Deputado Paulo Rocha, datada de 1995, foi a
primeira tentativa de se inserir o tema no âmbito da Constituição. Incorporou­
se, outrossim, no caput do art. 243 a previsão de expropriação também dos
imóveis urbanos, ao lado dos rurais, e retirou-se do dispositivo algumas
expressões que efetivamente poderiam gerar tensões.
Retirou-se a previsão de que os trabalhadores que estivessem
executando serviços na condição de escravos ou em plantações de
psicotrópicos pudessem ter preferência no assentamento. As terras serão
destinadas simplesmente ao assentamento de agricultores, que se fará de
acordo com a política nacional de reforma agrária vigente.
Eliminou-se do parágrafo único a remissão prevista para recursos
oriundos de bens de valor econômico apreendidos e expropriados em razão de
trabalho escravo ou de produção de plantas psicotrópicas, e propôs-se a
criação de um fundo. A lei estabelecerá a destinação dos recursos dali
oriundos.
A redação para o segundo turno de discussão da proposta de Emenda à
Constituição nº 438-C, de 2001, que "dá nova redação ao artigo 243 da
Constituição Federal", ficou assim finalmente proposta: Art. 1° O art. 243 da
Constituição Federal passa a vigorar com a seguinte redação: "Art. 243. As
propriedades rurais e urbanas de qualquer região do país onde forem
localizadas culturas ilegais de plantas psicotrópicas ou a exploração de
trabalho escravo serão expropriadas e destinadas à reforma agrária e a
programas de habitação popular, sem qualquer indenização ao proprietário e
sem prejuízo de outras sanções previstas em lei, observado, no que couber, o
disposto no art. 5°. Parágrafo Único. Todo e qualquer bem de valor econômico
apreendido em decorrência do tráfico ilícito de entorpecentes e drogas afins e
da exploração de trabalho escravo será confiscado, e reverterá a fundo
especial com a destinação específica, na forma da lei."
11.2 Projeto de Lei do Senado nº 46, de 2004
Outro projeto merece registro. É o PLS nº 46, de 2004, apresentado em
15 de março de 2004, pelo Senador Cristovam Buarque, que altera o art. 6° da
Lei nº 8.629, de 25 de fevereiro de 1993, que dispõe sobre a regulamentação
de dispositivos constitucionais relativos à reforma agrária, previstos no Capítulo
Ili, do Título VII da Constituição Federal, e estabelece os critérios pelos quais
uma propriedade pode ser considerada produtiva.
Este projeto ficará prejudicado com a aprovação da PEC 438 referida,
porque trata da questão de modo a indicar não o confisco - o que não dá
direito à indenização -, mas desapropriação por interesse social. Se não
aprovada a PEC, poderá constituir hipótese, então, de desapropriação para fins
de reforma agrária (com indenização).
O art. 1º O art. 6° da Lei nº 8.629, de 25 de fevereiro de 1993, passaria a
vigorar acrescido do seguinte § 9°: "Art. 6° § 9° Não será considerado
propriedade produtiva, para os fins desta Lei, o imóvel rural no qual for
constatada a ocorrência de uma das seguintes situações: 1 - trabalho escravo,
26

ou pessoa sujeita à situação análoga à de escravo; li - trabalho infantil; Ili -


crime ambiental, nos termos da legislação especial; IV - culturas ilegais de
plantas psicotrópicas. (NR)".
Faço referência, também, aos Projetos de Lei nºs 3500, 3524 e 2022. O
primeiro, de 2004, de autoria do Deputado Edson Duarte, veda destinações de
recursos de empresas públicas e sociedades de economia mista a pessoas
físicas e ou jurídicas condenadas por empregar em regime de trabalho análogo
à escravidão. O segundo, também de 2004, é de autoria da Deputada lriny
Lopes e persegue propósito idêntico. O último, é de 1996, de autoria do
Deputado Eduardo Jorge, com o mesmo propósito, tramita em apenso ao PL
1.292, de 1995, que altera dispositivos da Lei nº 8.666, de 21 de junho de
1993. Parece que o PL 2.022, de 1996, sistematiza melhor a matéria,
adequando inclusive a lei de licitações públicas. Demais disso, a aprovação do
PL 2.002 figura como tópico específico - no contexto das Ações Gerais do
Plano Nacional para a Erradicação do Trabalho Escravo, lançado recentemente
pelo Governo federal.

12Considerações finais
Parece-nos, agora, que é possível dizer, de modo compreensível, que a
redação de todas as normas, aqui referidas, editadas ou projetadas para a
proteção do trabalhador e de repúdio ao trabalho escravo, estão a traduzir uma
recriminação social, uma apreciação valorativa ao fato compreendido como
redução do trabalhador, pelo empregador, a condição análoga à de escravo,
quando praticadas as condutas descritas, o que se faz por imposição
constitucional, do regime jurídico pátrio e até internacional, na medida da
inserção do Brasil na comunidade mundial globalizada, signatário que é dos
acordos e convenções que tratam da escravidão contemporânea.
Mas, vale dizer, mesmo a fiscalização, multas, prisão dos envolvidos,
cortes em linhas de crédito deixam a causa em aberto, porque estas medidas
atacam as conseqüências. Mesmo o trabalhador resgatado não vê opções para
a sobrevivência e acaba caindo de novo na armadilha da escravidão
contemporânea.
Os trabalhadores que caem neste tipo de contratação são de locais onde
a situação de pobreza é terrível. Se não houver uma política de fundo para
gerar emprego e renda e fixar a população nos seus Estados de origem, de
nada vai adiantar todas as iniciativas citadas.
A saída, portanto, é a conscientização de que a questão envolve a
atuação de todos para que se promova a mudança social que se pretende,
mormente a do empregador produtor proprietário rural.
Aliás, foi com este propósito, de mudança social, que o Constituinte no
título da ordem econômica e financeira disciplinou com o declarado propósito
de assegurar a todos existência digna, conforme os ditames da justiça social,
associando este propósito a inúmeros dispositivos que permitem restrições à
propriedade privada, quando o exercício desse direito se tornar incompatível
com o interesse social.
O mesmo se diga do título dedicado à ordem social, em cujo texto
encontramos ordens para que se densifique a cidadania e se reafirme a força
normativa da Constituição.
27

13 Links sobre a matéria


Ministério do Trabalho e Emprego / MTE [Link]
FiscaTrab/ trabescravo/[Link]
OIT / Organização Internacional do Trabalho [Link] portugue/
region/ ampro/brasilia/trabalho forcado/[Link]
Ação Educativa - visa a construir a cidadania e a superar das desigualdades:
[Link]
Amnesty lnternational - campanha internacional em defesa dos direitos
humanos: [Link]
Anti-Slavery lnternational - quer eliminar sistemas escravistas de trabalho:
[Link]
Caritas lnternationalis - busca justiça social: [Link]
Centro de Justiça Global - documenta violações de direitos humanos:
[Link]
Human Rights Watch - contra a discriminação e a favor da liberdade política:
[Link]
lbase - análises sociais e econômicas pelo fim da desigualdade:
[Link]
Pólis - busca a ampliação dos direitos da cidadania e a democratização da
sociedade: [Link]
Ministério da Justiça - [Link]
Ministério do Desenvolvimento Agrário - [Link]
Ministério do Trabalho e Emprego - [Link]/ Temas/ FiscaTrab/
trabescravo
Secretaria dos Direitos Humanos - [Link]/sedh
Fundação Nacional do [ndio - FUNAI - [Link]
Supremo Tribunal Federal - STF - [Link]
Superior Tribunal de Justiça - STJ - [Link]
Tribunal Superior do Trabalho - TST - [Link]
Senado Federal - [Link]
Câmara dos Deputados - [Link]
Comissão de Direitos Humanos - [Link]/cdh
Procuradoria Geral da República - [Link]
Ministério Público da União - [Link]
Alto Comissariado das Nações Unidas para Direitos Humanos - [Link]
Corte Européia de Direitos Humanos - [Link]
Organização das Nações Unidas - [Link]
Organização dos Estados Americanos - [Link]
Organização Internacional do Trabalho - [Link] / [Link]
Associação Brasileira de ONGs - ABONG - [Link]
Ações em Gênero, Cidadania e Desenvolvimento AGENDE -
[Link]
Anistia Internacional - [Link]
Biblioteca Virtual de Direitos Humanos - [Link]
Cidadania, Estudo, Pesquisa e Ação - CEPIA - [Link]
Comissão Brasileira de Justiça e Paz - [Link]
CNDH/OAB - [Link]/comissoes/cndh
Consórcio Direitos Humanos - [Link]
Fundação Instituto de Direitos Humanos - [Link]
28

Gabinete de Assessoria Jurídica às Organizações Populares - GAJOP -


[Link]
Gélédés - Instituto da Mulher Negra (SP) - [Link]
Guia de Direitos Humanos para Jornalistas - [Link]
Human Rights Watch - [Link]
Instituto Brasileiro de Análises Sociais e Econômicas - !BASE -
[Link]
Movimento Tortura Nunca Mais [Link]
[Link]
Movimento Nacional de Direitos Humanos - MNDH - [Link]
Rede Nacional de Direitos Humanos - RNDH - [Link]
Rede de Direitos Humanos das Mulheres - WHRNET - [Link]
29

MANEJO RACIONAL DE PLANTAS DANINHAS NA CULTURA


DE FEIJÃO

Pedro Jacob Christoffoleti1


Ramiro López Ovejero2
Marcelo Nicolaf

1 Introdução
Nas regiões Sudeste e Centro-Oeste do Brasil a cultura de feijão
(Phaseolus vulgaris L.) é normalmente semeada sob irrigação, no período de
inverno, em áreas extensivas, obtendo-se um bom retorno econômico ao
produtor. Sendo assim, o feijoeiro cultivado nessa época (período seco), atrai
médios e grandes produtores, geralmente usuários de alta tecnologia. Sendo
regiões extensas, devido ao elevado custo da mão-de-obra e a baixa eficiência
do cultivo mecânico nas linhas da cultura, o manejo de plantas daninhas é
efetuado através da aplicação de herbicidas, que oferecem maior praticidade e
eficiência. Ademais, por ser uma cultura de ciclo curto, as medidas de controle
devem ser executadas no momento certo, porque a indecisão ou demora na
aplicação das práticas de manejo, geralmente resulta em prejuízos na
produção final causado pela interferência das plantas daninhas não
controladas.
O controle efetivo de plantas daninhas nos sistemas de produção que
envolve a cultura de feijão requer a integração de práticas culturais e uso de
herbicidas aplicadas de forma racional e econômica. O tipo de programa de
manejo a ser adotado depende da variedade de feijão, das espécies de plantas
daninhas que infestam a área, rotação de culturas, tipo de solo e sistema de
irrigação, quando utilizado, nas áreas de produção.
O monitoramento da área antes do plantio da cultura de feijão e o
planejamento das atividades a serem desenvolvidas durante a condução da
cultura é fundamental para um bom manejo de plantas daninhas. O mesmo
inicia-se na fase de pré-plantio da cultura, através de um bom preparo do solo
ou manejo da vegetação antes da semeadura da cultura.
A eliminação mecânica ou química da vegetação antes da semeadura
deve ser orientada no sentido de desfavorecer a infestação da planta daninha
na cultura implantada a seguir, proporcionando uma vantagem competitiva para
a cultura durante as fases iniciais de desenvolvimento. A implantação da
cultura deve ser feita em um ambiente favorável para a rápida germinação da
cultura. Após a implantação da cultura a aplicação de herbicidas em pré­
emergência pode ser uma tática de manejo adotada pelo produtor, sendo que,
alguns cuidados devem ser adotados na escolha e aplicação destes herbicidas
na cultura, dentre elas destacam-se os aspectos relativos a umidade do solo e
presença de palha na superfície do solo em relação a eficácia do herbicida.
A tática de aplicação de herbicida em pós-emergência das plantas
daninhas e da cultura de feijão pode ser complementar aos herbicidas pré-
1
Engº Agr°, Ph.D., professor associado, ESALQ/USP, Departamento de Produção Vegetal, Av.
Pádua Dias 11, caixa postal 09, 13418-900-Piracicaba-SP, e-mail: pjchrist@[Link].
2
Engº Agr°, M. Se., doutorando da ESALQ/USP, P.P.G. em Fitotecnia, Av. Pádua Dias 11,
caixa postal 09, 13418-900-Piracicaba-SP, e-mail: rfloveje@[Link].
30

emergentes. Nas aplicações de herbicidas em pós-emergência, cuidados


devem ser tomados com relação à seletividade dos herbicidas para a cultura,
observando o estádio fenológico ideal de aplicação do herbicida que
proporcione o mínimo de injúria para a cultura, e o estádio ideal de aplicação
na planta daninha que proporcione a melhor eficácia de controle. Quando
necessário, em algumas situações, herbicidas dessecantes em pré-colheita da
cultura podem ser utilizados. Esta operação é feita com o objetivo de facilitar a
colheita, eliminar plantas daninhas de infestação tardia na cultura e uniformizar
a maturação da cultura. Ainda, a persistência dos herbicidas no solo utilizado
na cultura deve ser observada para evitar prob[emas com culturas sucedâneas.

2 Importância das plantas daninhas na cultura de feijão


A infestação de plantas daninhas na cultura do feijão pode representar
um fator de redução da expressão do potencial produtivo de uma lavoura de
feijão da ordem de 23 a 80%, quando não manejada corretamente (Arevalo &
Rozanski, 1991 ). Portanto, o manejo de plantas daninhas na cultura do feijão é
uma prática agrícola indispensável para uma produtividade econômica da
cultura. No entanto, o manejo de plantas daninhas na cultura pode representar
custos significativos no sistema de produção; sendo assim, o manejo racional
das plantas daninhas, que é o objetivo deste capítulo deve ser uma meta do
produtor de feijão.
Além disso, as plantas daninhas podem reduzir a qualidade dos grãos.
Infestações tardias de plantas daninhas podem resultar em maturação
desuniforme dos grãos, além de dificultar a operação e onerar o custo de
colheita da cultura. A prática da colheita manual de feijão, operação muito
comum nos sistemas de produção no Brasil é tremendamente dificultado
quando plantas daninhas que apresentam espinhos em suas sementes ou
caules, conforme pode ser observados em lavouras infestadas de capim­
carrapicho ( Cenchrus echinatus), carrapicho-de-carneiro (Acanthospermum
hispidum) ou picão-preto (Bidens pi/osa), por exemplo. Por isso, conforme
destacado no item relativo ao manejo de plantas daninhas em pré-colheita, a
preocupação de manejo de plantas daninhas na cultura do feijão não deve
apenas ser realizada durante o período crítico de prevenção da interferência,
mas durante todo o ciclo da cultura.
Ainda, algumas plantas daninhas são hospedeiras de pragas e doenças
comuns à cultura do feijoeiro, portanto, podem servir de vetor de transmissão
entre duas culturas em anos sucessivos. Desta forma o manejo racional de
plantas daninhas durante o período de entressafra dos cultivas de feijão é de
fundamental importância para a manutenção da sanidade da cultura.

3 Monitoramento e planejamento de implantação do manejo de plantas


daninhas
O monitoramento da área onde será implantada a cultura de feijão é
essencial para o planejamento de um sistema racional de manejo de plantas
daninhas. Este monitoramento deve ser feito no mínimo em dois momentos, ou
seja, antes da colheita da cultura precedente à cultura de feijão, e depois de
aproximadamente quatro semanas após a implantação da cultura de feijão. O
primeiro monitoramento serve de base para todas as recomendações inclusas
nas táticas de manejo, e o segundo monitoramento é necessário para
recomendações de herbicidas em pós-emergência, caso o produtor adote esta
31

tática, e para avaliar o desempenho das medidas adotadas, antes que as


eventuais infestações de plantas daninhas que ocorre neste momento iniciem a
interferência negativa sobre a cultura de feijão (Christoffoleti & Passini, 1999).
Dentre as notações necessárias nos monitoramentos, destacam-se as
determinações de quais são as espécies de plantas daninhas dominantes na
área, manutenção de um sistema de registro das espécies e severidade das
infestações destas espécies na área para cada talhão de implantação da
cultura (Zimdahl, 1993). A antecipação da previsão de infestação de plantas
daninhas em uma área pode ajudar grandemente na otimização do
estabelecimento de um programa de manejo de plantas daninhas na cultura.
Em algumas situações é preferível evitar a implantação da cultura de feijão em
áreas severamente infestadas de plantas daninhas perenes, como por
exemplo, tiririca (Cyperus rotundus) ou grama-seda (Cynodon dactylon), pois
pode inviabilizar uma produção econômica nestas áreas, bem como a atenção
deve ser redobrada em áreas onde plantas daninhas altamente competitivas
com a cultura ocorrem, como por exemplo, capim-marmelada (Brachiaria
plantaginea) e corda-de-viola (/pomoea spp).

4 Manejo de plantas daninhas na cultura de feijão


Os objetivos do manejo de plantas daninhas na cultura de feijão são de
minimizar as perdas devido a interferência, beneficiar as condições de colheita,
reduzir o banco de sementes, evitar a seleção de biótipos de plantas daninhas
resistentes, tudo isso com a menor contaminação ambiental possível. A melhor
tática de manejo de plantas daninhas na cultura de feijão começa com a boa
implantação e posterior condução da cultura. Para isso, as técnicas culturais,
realizadas de forma adequada, têm papel fundamental no manejo de plantas
daninhas. Elas objetivam, dentre outras coisas, a supressão do crescimento
das plantas daninhas. Por técnicas culturais entende-se boas práticas agrícolas
em geral, as quais devem fazer parte de programa de manejo racional de
plantas daninhas. As táticas de manejo de plantas daninhas na cultura de feijão
devem iniciar por atividades realizadas antes da semeadura da cultura, de
forma preventiva, objetivando o manejo do banco de sementes existente no
solo. Em seguida, práticas efetuadas durante a condução e colheita da cultura
devem ser realizadas, sendo também necessárias medidas de manejo de
plantas daninhas em pós-colheita da cultura.
4.1 Dinâmica do banco de sementes de plantas daninhas
O banco de sementes existente no solo é a base ecológica de existência
da infestação de plantas daninhas em uma lavoura de feijão. Portanto, a
compreensão da sua dinâmica é fundamental para o manejo racional de
plantas daninhas. O banco de sementes em uma área agrícola pode variar em
tamanho de 300 milhões a 3,5 bilhões em número de sementes por hectare.
Sendo que, este tamanho e a taxa de crescimento ou decréscimo ao longo do
cultivo da cultura de feijão são variáveis entre as espécies de plantas daninhas,
práticas culturais e ambientes. Uma das práticas culturais mais importantes que
regulam a dinâmica do banco de sementes de plantas daninhas na cultura de
feijão é o tipo de manejo efetuado antes da semeadura da cultura, que
normalmente é feito através ou de sistemas convencionais de preparo de solo
(preparo mecânico do solo) ou através de sistema de semeadura direta
(utilização de herbicidas dessecantes).
32

4.2 Manejo de plantas daninhas em pré-semeadura


4.2.1 Sistema convencional de preparo do solo
O preparo mecânico do solo (sistema de produção convencional) pode,
temporariamente de uma forma preventiva, controlar muitas das principais
plantas daninhas infestantes na cultura do feijão, através da ação mecânica
dos implementes utilizados. No entanto, o revolvimento do solo tem um efeito
de quebra de dormência da maioria de sementes de plantas daninhas
fotobláticas positivas (sementes cujo processo de quebra de dormência ocorre
devido à incidência da luz solar). Outra conseqüência do preparo mecânico do
solo para a semeadura da cultura de feijão é o rápido secamente da superfície
do solo. Algumas plantas daninhas podem emergir mesmo quanto enterradas a
profundidades de vários centímetros em solos com a superfície seca, porém
com umidade nas camadas mais profundas, onde se encontra o banco de
sementes. Além disso, irrigações subseqüentes, muito comuns nos sistemas
de produção da cultura de feijão, poderão estimular a germinação de outras
espécies de plantas daninhas. Por estas razões, o controle mecânico das
plantas daninhas em pré-semeadura, deve normalmente ser complementado
com herbicidas após ou no momento da semeadura da cultura de feijão,
quando utilizado o sistema convencional de preparo de solo para a implantação
da cultura.
Se entre o preparo de solo e a semeadura do feijão ocorrer uma semana
o mais com o solo em pousio, os seedlings de plantas daninhas podem emergir
antes mesmo da semeadura ou emergência da cultura de feijão, representando
um grande potencial de competição. Nesta situação é recomendável uma nova
gradagem superficial do solo, na profundidade em torno de 5 cm,
proporcionando assim para a cultura uma vantagem competitiva em relação à
planta daninhas, pois as plantas da cultura emergem primeiro que as plantas
daninhas. Esta prática pode em algumas situações representar uma forma até
de conservação de umidade no solo.
Kluthcouski et ai. (1988) comparando diferentes formas de preparo para
implantação da cultura de feijão, observaram uma redução de 89% na
fitomassa seca das plantas daninhas quando o solo foi previamente preparado
pelo método da aração invertida, utilizando arado de aivecas, em comparação
com solo preparado com grade aradora.
4.2.2 Sistema de semeadura direta
A prática da semeadura direta na cultura de feijão tem sido adotada de
forma ampla pelos produtores no Brasil nos últimos anos, principalmente pelos
mais tecnificados. A aplicação de um herbicida dessecante com o objetivo de
eliminação da vegetação daninha ou cultura de cobertura/rotação de cultura, e
a formação de uma cobertura vegetal morta (palhada) constituem a base do
sistema de plantio direto da cultura de feijão. As implicações sobre a dinâmica
populacional de plantas daninhas deste sistema de produção refletem na
seleção de plantas daninhas adaptadas ao não revolvimento do solo,
destacando plantas daninhas perenes.
Uma boa dessecação das coberturas vegetais antes da semeadura do
feijão permite uma boa germinação e emergência das plantas, utilização
racional de máquinas e mão-de-obra e uma vantagem competitiva das plantas
de feijão sobre as plantas daninhas. Um outro aspecto bastante importante da
boa dessecação é que ela não permite o aumento do banco de sementes no
33

solo, pois vegetação dessecada no momento certo no permite a chuva de


sementes novas no solo e, portanto o enriquecimento do banco de sementes.
Caso o produtor opte por uma cultura de cobertura ou rotação de culturas, com
o objetivo de formação de palhada, é fundamental a escolha de uma cultura
adequada, que proporcione uma grande quantidade de biomassa seca e
supressão da infestação de plantas daninhas. Para isso é necessário o
conhecimento das adaptações edafoclimáticas das culturas de cobertura com a
região onde está se implantando a cultura de feijão. Existe uma relação
inversamente proporcional entre a quantidade de cobertura vegetal morta,
formada após dessecação, e a infestação de plantas daninhas.
Dentre os principais herbicidas recomendados para a dessecação da
vegetação antes da semeadura da cultura de feijão destacam-se o glyphosate,
o paraquat e o paraquat + diuron. Os herbicidas glyphosate e paraquat são
herbicidas de ação total, ou seja, não são seletivos e de amplo espectro de
controle de plantas daninhas. O glyphosate por ter ação sistêmica, e é
normalmente indicado para o controle de plantas daninhas anuais e perenes
até estádios fenológicos de pré-floração, já o paraquat (contato) tem seu uso
indicado para o manejo de plantas daninhas anuais e que não apresentam
estruturas especializadas de propagação. Esses herbicidas não apresentam
efeito residual no solo permitindo a semeadura da cultura logo após aplicação.
Para o paraquat + diuron é recomendada uma única aplicação quando as
plantas daninhas tiverem menos de 20 cm. Acima desse valor utilizar
seqüencial.
O herbicida 2,4-D pode ser utilizado como dessecante no plantio direto
para o controle de folhas largas, mas deve ser observado um intervalo entre a
aplicação e a semeadura da cultura para evitar fitotoxicidade. Segundo Cobucci
(2004) quando esse produto é utilizado na dessecação pré-plantio deve-se
observar um período de carência de 1 O dias na dose de 1.080 g/ha e de 7 dias
para 720 g/ha da formulação amina. O produto, para ser degradado, deve estar
no solo e não retido na palha, sendo assim, é necessária uma chuva ou
irrigação para provocar sua lixiviação. Assim, segundo o mesmo autor se
ocorrem chuvas acima de 40 mm após aplicação do 2,4-D esse período pode
ser reduzido para três a quatro dias, já que o herbicida é facilmente lixiviado
para camadas abaixo do nível das sementes. O glyfosate pode ser combinado
com 2,4-D-amina para controle de folhas largas.
Um dos aspectos. que deve ser planejado adequadamente na
dessecação da vegetação para implantação da semeadura direta é o momento
da dessecação em relação à data da semeadura da cultura de feijão.
Dessecações muito antecipadas em relação à semeadura do feijão (15 a 30
dias antes da semeadura) podem permitir que ocorram fluxos de emergência
de plantas daninhas antes da semeadura, e assim, causando interferência
negativa significativa na cultura e maior dificuldade de manejo destas plantas
daninhas pelos herbicidas seletivos aplicados em pós-emergência na cultura.
Por outro lado a dessecação feita muito próxima da semeadura (dessecações
feitas até no dia da semeadura) podem gerar problemas de alelopatia da
vegetação que está sendo dessecada e ainda está em processo de morte
quanto a cultura de feijão encontra-se em fase de emergência. Nesta situação
pode ainda ocorrer competição por nitrogênio entre a cultura e os
microrganismos responsáveis pela decomposição da vegetação em processo
de decomposição e também algumas pragas comuns da cultura de feijão e a
34

vegetação em processo de dessecação podem ser transferidas diretamente


para a cultura. No entanto, apesar destas possíveis desvantagens da
dessecação da vegetação próxima da semeadura, a infestação de plantas
daninhas tem uma tendência de ser menor durante os primeiros momento de
crescimento e desenyolvimento da cultura, gerando assim uma vantagem
competitiva para a cultura em relação a infestação de plantas daninhas. Desta
forma, o planejamento do momento da dessecação e o herbicida a ser utilizado
para este fim deve ser cuidadosamente escolhido.
4.3 Pós-semeadura
4.3.1 Fenologia da cultura de feijão e infestação de plantas
daninhas nas modalidades de cultivo da cultura
O feijoeiro é uma planta que apresenta baixa capacidade competitiva
pois apresenta um sistema radicular superficial, altura relativamente pequena
(50 a 60 cm), e crescimento inicial lento (Dourado-Neto & Fancelli, 2000). O
período que antecede a interferência das plantas daninhas ocorre normalmente
entre os estádio V1 (emergência) e V3 (emissão da primeira folha trifoliada),
sendo que com o início da aceleração do crescimento em V4 (emissão da
terceira folha trifoliada) até o R5-R6 (Botões florais-Florescimento) é que ocorre
o período crítico de interferência das plantas daninhas. O período crítico de
interferência das plantas daninhas é dependente da região, época de
semeadura, sistema de produção e condições ambientais onde o feijão está
sendo cultivado. Após R6 as plantas daninhas que emergirem não competem
mais com a cultura, porém poderão interferir na colheita e qualidade dos grão,
conforme já destacado (Christoffoleti & Passini, 1999). O componente de
produção mais prejudicado pela interferência de plantas daninhas é o número
de vagens por planta e indiretamente a qualidade comercial do produto (grãos
deformados, enrugados, pouco densos e, eventualmente, manchados)
(Dourado-Neto & Fancelli, 2000).
Para o estado de São Paulo, onde o "feijão das águas" é colhido de
novembro a março, existe uma forte interferência das plantas daninhas na
cultura, principalmente com predomínio de folhas largas nas semeaduras
realizadas entre agosto a meados de outubro e predomínio de gramíneas nas
semeaduras realizadas entre novembro e dezembro. No "feijão das secas",
cuja colheita é realizada entre abril a maio, existe predominância de gramíneas
nos primeiros meses de semeadura 0aneiro a março) e predominância de
folhas largas quando a semeadura é feita nos meses de abril e maio. Já no
feijão de inverno, com colheita nos meses de setembro e outubro, com
semeadura nos meses de junho e julho, existe predominância de folhas largas,
em baixas infestações, embora, normalmente nesta modalidade de cultivo a
cultura é irrigada, proporcionando assim umidade suficiente para a infestação
de plantas daninhas, porém a temperatura é favorável apenas para algumas
espécies de plantas daninhas de inverno.
4.3.2 Medidas culturais
O objetivo das medidas culturais é fortalecimento da capacidade
competitiva da cultura (rápido estabelecimento e desenvolvimento) e prevenção
das infestações e disseminações de plantas daninhas. Espaçamento e
densidade de semeadura da cultura podem influenciar diretamente a
produtividade da cultura, bem como a incidência de plantas daninhas na
cultura. As variedades de feijão de hábitos de crescimento 1 (determinado
35

arbustivo) e li (indeterminado arbustivo), que apresentam um porte ereto e


menor número de ramos laterais, são mais sensíveis a competição, ao passo
que variedades de feijão de hábito de crescimento Ili (indeterminado ramador),
manifestam maior capacidade competitiva. Assim a escolha do espaçamento e
da densidade para cada hábito de crescimento, que permita a cobertura rápida
do solo, pode suprimir grande parte do crescimento das plantas daninhas ou
impedir a germinação das mesmas, antes de atingir o período crítico de
interferência das plantas daninhas na cultura (Dourado-Neto & Fancelli, 2000;
Cobucci, 2004).
A escolha de cultivares adaptada à região junto com semeadura na
época, espaçamentos e densidades adequadas constitui medidas culturais
racionais de manejo de plantas daninhas. O ideal é que o feijoeiro esteja com
18 a 20 trifólios por ocasião do pleno florescimento. Ainda, a utilização de
sementes fiscalizadas é também uma medida cultural de manejo de plantas
daninhas. Assim, o agricultor não deve economizar esforços no sentido de
adquirir uma semente de alta qualidade fisiológica, sanitária e varietal. Nos
estados produtores, alguns dos principais problemas da cultura de feijão são a
baixa utilização de sementes fiscalizadas, ou o uso de sementes de má
qualidade, sem conhecimento do seu estado sanitário.
4.3.3 Medidas mecânicas
Depois do estabelecimento da cultura alguns produtores utilizam
cultivadores para o controle de plantas daninhas pós-semeadura da cultura.
Estes cultivadores podem limitar o crescimento das plantas daninhas que
eventualmente sobreviveram aos métodos culturais e químicos utilizados
previamente a sua aplicação. A operação de utilização de cultivadores deve ser
feita com cuidado para evitar danos à parte aérea dos seed/ings de feijão, ou
corte do sistema radicular superficial da planta. Tais injúrias podem predispor
os seedlings do feijoeiro ao ataque de doenças de solo, e retardar o
crescimento da cultura.
4.3.4 Herbicidas
Os herbicidas registrados para a cultura do feijão diferem entre si pelo
tipo de plantas daninhas que eles controlam e pelas condições sob as quais
são otimamente usados. As doses podem variar, dependendo da textura,
umidade, conteúdo de matéria orgânica, momento de aplicação entre outros.
Além disso, as variedades de feijão podem variar com relação à tolerância aos
diferentes herbicidas. Os herbicidas podem ser aplicados em pré ou pós­
emergência, de acordo com o estádio de crescimento das plantas daninhas. A
eficácia de controle e seletividade do herbicida aplicado na cultura de feijão é
função da época de aplicação e do estádio fenológico da cultura e das plantas
daninhas.
[Link] Pré-plantio incorporado
A maioria dos herbicidas aplicados em condições de pré-plantio é
aplicada na superfície do solo e incorporada imediatamente após sua
aplicação, sendo a cultura semeada a seguir. Estes herbicidas são chamados
de herbicidas de pré-plantio-incoroporado (ppi), e requerem, após sua
incorporação, umidade no solo para melhor eficácia. Os herbicidas de ppi
podem ser aplicados em uma mesma operação, com trator equipado de
pulverizador e cultívador, ou aplicado primeiramente em uma operação de
pulverização e em seguida uma operação de incorporação.
36

O produto mais utilizado em PPI é a trifluralina 448 g.L-1, que exige sua
incorporação após aplicação no máximo, até 8 horas, por ser volátil,
comumente, fotodecomponivel e de baixa solubilidade. Não é recomendada a
aplicação desse produto em solos com teor de matéria orgânica inferior a 2% e
superior a 6%.
É importante que a operação de incorporação seja feita na profundidade
de emergência do banco de sementes de plantas daninhas, normalmente em
torno de 4 a 8 cm de profundidade. Quando a incorporação do herbicida for
feita com grade ou cultivador de enxadinhas, o equipamento deve trabalhar a
uma profundidade correspondente ao dobro da profundidade que se deseja
incorporar o herbicida, ou seja, 8 a 16 cm. Quando o equipamento de
incorporação for acionado pela potência do trator, como no caso da enxada
rotativa, a profundidade de trabalho do equipamento deve ser a mesma da
profundidade de incorporação desejada do herbicida, ou seja 4 a 8 cm. A
incorporação do herbicida deve ser feita com duas passagens do equipamento
de incorporação de forma cruzada (uma operação em um sentido e outra no
sentido de 90 graus da primeira). As operações mecânicas realizadas após a
incorporação do herbicida, como semeadura e cultivo não devem ser mais
profundos que a profundidade de incorporação do herbicida, pois com isso
sementes de plantas daninhas podem ser trazidas para a superfície do solo.
[Link] Pré e pós-emergência
Herbicidas aplicados em pré-emergência são aplicados antes que as
plantas daninhas tenham emergido, enquanto que herbicidas de pós­
emergência controlam plantas daninhas que estão ativamente crescendo. Os
herbicidas pós-emergentes apresentam a vantagem da escolha racional do
produto específico de acordo com a comunidade florística presente na lavoura
e da possibilidade de mistura de ingredientes ativos para ampliar o espectro de
ação. Poucos herbicidas utilizados na cultura do feijão têm eficácia tanto em
pré quanto em pós-emergência. A combinação de herbicidas é freqüentemente
uma das formas mais efetivas de controlar complexos de espécies de plantas
incidentes na área.
Em pré-emergência são utilizados produtos como trifluralina em
formulação de 600gL 1 ou metolachlor, que são aplicados simultaneamente,
logo após a semeadura, no sistema plante-aplique, ou no máximo 2 dias
depois. Se aplicado em solo seco e não chover pelo menos 1 O mm, no prazo
de 5-7 dias, a eficiência do produto é reduzida. No caso da trifluralina, para
aumentar a eficiência do produto, pode-se realizar incorporação superficial (2
cm) e a dose maior é para solos com teores de matéria orgânica acima de 5%.
O metolachlor não deve ser aplicado em solos arenosos por provocar
fitotoxicidade ao feijoeiro e é recomendado para solos com teor de matéria
orgânica superior a 2% e baixa infestação de capim-marmelada (Brachiaria
p/antaginea). A dosagem desses produtos é definida em função da textura do
solo e do teor em matéria orgânica, controlam gramíneas e algumas folhas
largas, com período residual variável.
A estratégia de aplicação de herbicidas em pós-emergência pode ser
feita em pós-emergência considerada precoce das plantas daninhas (cultura
com até 1 trifólio e plantas daninhas folhas largas com até duas folhas e
gramíneas não perfilhadas). Esta normalmente é a fase ideal de aplicação de
herbicidas, pois o herbicida é aplicado antes do início do período crítico de
interferência das plantas daninhas. Herbicidas seletivos pós-emergentes
37

podem também ser aplicados em pós-emergência normal, ou seja quando a


cultura apresenta 2 a 3 trifólios e as plantas daninhas com 4 a 6 folhas e as
gramíneas com 1 a 3 perfilhas. Eventualmente, porém não recomendadas
aplicações de herbicidas seletivos em pós-emergência tardia (cultura com até 4
trifólios e plantas daninhas folhas largas com mais de 6 folhas e gramíneas
com mais de 3 perfilhas). Esta modalidade de aplicação não é normalmente
recomendada pois o efeito competitivo das plantas daninhas já ocorreu, sendo
indicado apenas em situações de falhas de controle por algumas das
modalidades de aplicação anteriormente executada. A dosagem dos herbicidas
para aplicação nessa modalidade é definida de acordo com o estádio de
desenvolvimento das plantas daninhas (doses maiores em estádios fenologicos
mais adiantados).
A ação efetiva de herbicidas em pós-emergência depende da qualidade
da aplicação (uniformidade e recobrimento) e da retenção do produto pela
folha, o que está relacionado com a regulagem adequada do equipamento,
escolha da ponta de pulverização, velocidade correta e constante de aplicação,
volume da calda adequado para cada caso e controle satisfatório da pressão
de trabalho do pulverizador e utilização de adjuvantes. Também, são
importantes as condições climáticas no momento da aplicação. A ocorrência de
chuvas ou irrigação logo após a aplicação pode reduzir a eficiência desses
produtos mas, a maioria são absorvidos rapidamente (precisam de 1 hora sem
chuva ou irrigação), e outros, como acifluorfen-sódio e tepraloxydin precisam
mais de 2 horas e o bentazon aproximadamente de 6 horas. Assim, de forma
geral, recomenda-se irrigar a área tratada, no mínimo até 1 hora após
aplicação.
Deve-se considerar a capacidade de translocação de cada produto
aplicado, já que a cobertura necessária para controle eficiente, utilizando-se um
produto sistêmico, deve ser inferior à necessária para um produto de contato
(ex: fomesafen, bentazon, bentazon+paraquat, acifluorfen-sódio).
Para a cultura de feijão existem herbicidas com ação específica para o
controle de folhas largas (bentazon, bentazon + paraquat, fomesafen,
imazamox, acifluorfen-sódio) e outros para gramíneas (clethodin, sethoxydin,
clethodin+fenoxiprop-ethyl, quizalofop-ethyl, fluazifop-p-butil e tetraloxydim) e
aqueles de ação mais ampla sobre fluxos das duas classes (fluazifop-p­
butil+fomesafen ou outras misturas). O fomesafem é compatível com
graminicidas ou latifolicidas como fluazifop-p-butil, sethoxydim e alguns outros
herbicidas de pós-emergência. A maioria dos graminicidas são incompatíveis
na mistura com herbicidas latifolicidas. No caso de fluxos de folhas largas
podem ser utilizados herbicidas específicos ou misturas para aumentar o
espectro de ação. Havendo predominância de gramíneas, podem ser utilizados
os graminicidas e no caso de infestação composta por gramíneas e folhas
largas, pode-se optar pela aplicação sequencial de um graminicida e um
latifolicida (ou inverso dependendo do fluxo) ou mistura, formulada de fluazifop­
p-butil+fomesafen.
Atualmente, em lavouras de feijão, podem ser aplicados alguns produtos
em esquema seqüencial, dividindo a dose única em duas aplicações (½ dose +
½ dose) com objetivo de reduzir a probabilidade de ocorrência de fitotoxicidade
nas culturas seguintes (herbicidas de residualidade acentuada), principalmente
milho ·e menor risco para a cultura (feijão). Ainda, aumenta-se a eficiência de
controle de plantas daninhas em estádios de crescimento mais avançados, ou
38

infestações densas e permite o controle de diferentes fluxos de germinação


(ex: leiteiro). Em lavouras bem conduzidas existe, ainda, a possibilidade de
evitar a segunda aplicação, o que implica em redução de custos e menor
contaminação do meio. Isso pode ocorrer quando a cultura forma densa
cobertura foliar rapidamente e suprimem o desenvolvimento das plantas
daninhas poucos dias após a primeira aplicação. Ocorrendo reinfestação, o
controle deverá ser realizado novamente, a um custo final muito semelhante ao
de uma única aplicação da dose recomendada.
Os produtos utilizados nessa técnica são acifluorfen-sódio, fluazifop-p­
butil+fomesafen e fomesafen. A primeira aplicação é feita a partir do primeiro
trifólio e a segunda, até o início da formação do quarto trifólio (intervalo de 7 a
1O dias), respeitando o estádio em que as plantas daninhas são mais
suscetíveis aos herbicidas.
[Link] Problemas de fitotoxicidade causada pelos herbicidas aplicados
no feijoeiro
Estudos da seletividade têm mostrado que o herbicida imazamox na
dose de [Link]-1, aplicado isolado entre o aparecimento do segundo e terceiro
trifólios, provocou redução do porte das plantas de feijão e coloração
amarelada das folhas, observando-se redução média de 9,2% do rendimento
do feijoeiro em relação à testemunha. Entretanto, quando se realiza a mistura
imazamox na dose de [Link]-1 + bentazon na dose de 0,[Link]-1, além de
eliminar por completo a fitotoxicidade, tal mistura proporcionou ganho médio de
5,5% no rendimento da cultura. No caso, o antagonismo tem sido atribuído à
redução de absorção foliar do herbicida pela planta do feijoeiro, sendo
recomendada a utilização associada desses produtos. A mistura de imazamox
+ fomesafen não proporcionou diminuição da fitotoxicidade do feijoeiro
(Cobucci, 1999). Em trabalhos realizados pela Fundação abc por dois anos
consecutivos, com os principais herbicidas utilizados na cultura, não foram
observados efeitos negativos no rendimento de grãos da cultura (Buzatti,
2001).
É muito comum ocorrerem, alguns dias após a aplicação, sintomas como
clorose ou necrose das plantas de feijoeiro, em função da fitotoxicidade de
alguns produtos recomendados para o controle de plantas daninhas de folha
larga. Sendo assim, a aplicação desses produtos normalmente é recomendada
nos estádios iniciais de desenvolvimento da cultura ( entre o primeiro e o
terceiro trifólio), uma vez que nessa fase de desenvolvimento a planta
apresenta grande capacidade de recuperação sem que ocorra queda de
rendimento.
No caso de fomesafen, em condições de umidade excessiva do solo,
pode ocorrer leve descoloração das folhas do feijão. Esse efeito desaparece
em poucos dias (15 dias), desde que seguidas as recomendações de uso, pois
o efeito fitotóxico à cultura é transitório e desprezível. Com a aplicação de
bentazon e paraquat há uma fitotoxicidade caracterizada por uma queima leve
das folhas do feijoeiro, que logo após se recupera, sem causar queda na
produção. Para o acifluorfen-sódio deve-se evitar cobertura nitrogenada até 7
dias após aplicação e não deve ser aplicado nas cultivares Jalo e Preto. Entre
a aplicação de basagran e de inseticidas fosforados deve ocorrer um intervalo
mínimo de 7 dias e não é recomendada a aplicação desse produto enquanto as
folhas da cultura estiverem úmidas.
39

[Link] Infestações tardias de plantas daninhas


Infestações tardias de plantas daninhas na cultura de feijão podem não
afetar a produção final. No entanto, tais plantas daninhas geralmente dificultam
as operações de colheita e aumentam os custos de colheita e beneficiamento
dos grãos. A presença de restos de plantas daninhas nos grãos pode reduzir a
qualidade dos grãos. Um outro aspecto importante a ser considerado na
infestação tardia de plantas daninhas na cultura de feijão é que as sementes
produzidas por estas plantas comporão o banco de sementes do solo onde
será cultivada a cultura do feijão no próximo ciclo. Assim, quanto menor a
infestação de plantas daninhas tardiamente maior a incorporação de sementes
no banco de sementes (Christoffoleti & Passini, 1999). Ainda, quando a
maturação das plantas daninhas e da cultura é simultânea (produtores de
sementes), a legislação nacional estabelece limites de tolerância para
sementes de espécies daninhas toleradas e determina as espécies proibidas
(Cobucci, 2004).
Uma maneira de reduzir esses problemas é a utilização de herbicidas na
pré-colheita, prática comum em culturas como a de soja e algodão. A
dessecação se faz com o uso de produtos químicos apropriados e resulta em
rápida secagem de todas as partes da planta. Alguns autores relatam que os
herbicidas utilizados na pré-colheita permitem uniformizar a maturação,
proporcionando uma secagem uniforme das vagens e grãos; antecipam a
colheita; não prejudicam o rendimento de grãos, pois não induzem a deiscência
(abertura) das vagens; não afetam a germinação e o vigor das sementes;
diminuem o teor de umidade dos grãos e; controlam as plantas daninhas
(Mpanzo, 1999; Dourado-Neto & Fancelli, 2000; Zagonel, 2002).
Nessa modalidade é importante observar o momento de aplicação para
evitar perdas de rendimento. Assim o mesmo deve ocorrer após maturação
fisiológica (quando o grão se desprende da vagem) e entre 60 e 70% de
vagens secas (vagens superiores + verdes em maturação fisiológica). Ainda
esse momento de aplicação pode variar com o padrão de maturação e cultivar
e também deve ser respeitado o Intervalo mínimo de colheita para evitar
resíduo (cinco a sete dias). Em ensaio conduzido por Penckowski et ai. (no
prelo, 2004) na região de Castro-PR os tratamentos com glufosinato de amônio
+ etephon (240 + 200 e 440 + 400 [Link]-1 i.a), diquat (300 e 600 [Link]-1 i.a) e
glufosinato de amônio (300 g [Link]-1) foram eficientes na dessecação da
cultura do feijão, antecipando a colheita em 6 dias não afetando a germinação
e vigor das sementes, que apresentaram valores similares ao da testemunha.

5 Efeito residual dos herbicidas no solo


Nos cultives intensivos (irrigados ou safrinha), o efeito residual pode
comprometer a cultura seguinte. O potencial de injúria de resíduos de
herbicidas nas culturas sucedâneas depende da suscetibilidade da cultura a
ser plantada a estes resíduos e também da taxa de degradação no solo dos
herbicidas que foram utilizados (Cobucci, 2004). Cobucci et ai. (1998)
determinaram no sistema irrigado a concentração no solo dos herbicidas
fomesafen, acifluorfen e imazamox que não afetam as culturas de milho, sorgo
e arroz (Tabela 1). Ainda, o mesmo autor relata que a quantidade de água
fornecida a cultura de feijão (umidade do solo) é o principal fator para
degradação dos herbicidas no solo (Cobucci, 2004).
40

Tabela 1. Concentração de herbicidas no solo (ppb) que não causam efeitos


fitotóxicos às culturas sucedâneas (Cobucci et ai., 1998).
Cultura Herbicida ([Link]-1)
Sucedânea Fomesafen (250) lmazamox (40) Acifluorfen (170)
Sorgo <5,0 <5,0 <5,0
Milho 11,6 12,5 14,7
Arroz 24,4 39,9 15,2

6 As plantas daninhas são mais difíceis de serem controladas na


agricultura atual que no passado?
É comum ouvir relatos de produtores de feijão e outros cereais que o
problema com o manejo de plantas daninhas nos dias atuais é ainda maior,
quanto comparado com 15 a 20 anos atrás. Parece ser mais difícil hoje
estabelecer um programa de manejo racional de plantas daninhas, que
proporcione um controle aceitável, a um custo compatível com o sistema de
produção. Esta afirmação esta baseada no fato que definitivamente hoje
existem novas espécies de plantas daninhas que têm se tornado mais
freqüente na cultura de feijão, como por exemplo, trapoeraba (Commelina spp),
corda-de-viola (/pomoea spp), erva-quente ( Spermacoce /atifolia), leiteiro
(Euphorbia heterophylla), capim-marmelada (Brachiaria plantaginea), dentre
outras. Estas plantas daninhas não são controladas por muitos das estratégias
de manejo e, portanto, a intensidade de infestação tem aumentado
rapidamente nas lavouras de feijão. Este tipo de mudança de infestação de
plantas daninhas é denominado de mudança interespecífica de plantas
daninhas, isto é uma mudança na composição da comunidade de plantas
daninhas ao longo dos anos de cultivo da cultura e uso repetitivo da mesma
tática de manejo. O segundo tipo de mudança da infestação de plantas
daninhas ao longo do tempo em uma área é chamado de mudança
intraspecífica de infestação de plantas daninhas, e envolve um aumento em
uma subpopulação (biótipo) de uma espécie de planta daninha. Esses biótipos
poderiam ser resistentes aos herbicidas ou poderiam emergir tardiamente no
ciclo de crescimento da cultura, evitando o controle químico ou mecânico. Nas
lavouras de produção de feijão no estado de São Paulo, provavelmente
estamos experimentando resultados de ambos os tipos de mudança de
infestação de plantas daninhas, causada pela pressão de seleção dos
herbicidas aplicados ao longo dos anos. Esta é a resposta para o título deste
tópico, ou seja existem hoje mais plantas daninhas para serem controladas na
cultura de feijão que 15 ou 20 anos atrás.
Existem muitas maneiras de reduzir a pressão de seleção sobre as
populações de plantas daninhas, desde que as estratégias de manejo
envolvam rotações de culturas, práticas culturais e programas de herbicidas.
Cada cultura e sistema de produção pode selecionar certas espécies de
plantas daninhas e portanto, quanto mais complexa for a rotação menores
serão as chances de seleção de uma espécies ou biótipo de planta daninha. O
cultivo pode ser um método efetivo de controle de plantas daninhas, mas os
efeitos são temporários e podem causar estímulo na germinação das sementes
de plantas daninhas, conforme explicado em item anterior. A falha no controle
de plantas daninhas durante qualquer das etapas do sistema de produção ou
rotação de cultura pode ter um impacto significativo em longo prazo. Sementes
41

de muitas espécies de plantas daninhas podem persistir no solo por mais de 1 O


anos e, portanto refletir na infestação futura de plantas daninhas nas áreas
durante vários anos.

7 Considerações finais
Qualquer estratégia que torne a cultura de feijão mais competitiva deve
ser adotada. A combinação de espaçamentos mais estreitos com variedades
adaptadas é uma estratégia para aumentar a competitividade da cultura. Nesta
situação, a seleção varietal é crítica, pois espaçamentos mais estreitos podem
aumentar o potencial de aumento de incidência de doenças.
É importante ressaltar também para os produtores de feijão que não é
necessário manter o campo totalmente livre da infestação de plantas daninhas
durante todo o ciclo da cultura para maximizar os lucros. As pesquisas têm
mostrado que manter a cultura livre de plantas daninhas durante seis semanas
após emergência é suficiente para eliminar a interferência das plantas
daninhas. Por outro lado o controle de plantas daninhas após o período crítico
de competição é as vezes necessário por causa dos prejuízos das infestações
tardias, conforme ressaltado em item anterior. Sendo assim, existe uma dúvida
em qual das estratégias de manejo seria mais racional, ou seja, controlar as
plantas daninhas apenas durante o período crítico e assim evitar a pressão de
seleção sobre as plantas daninhas, ou controlar as plantas daninhas durante
todo o ciclo e assim evitar os problemas das plantas daninhas de infestação
tardia. O melhor sistema de manejo de plantas daninhas é aquele que
proporciona um controle adequado ao menor custo e combina as diferentes
estratégias de manejo possíveis (química, mecânica e cultural).

8 Referências bibliográficas
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SEMINÁRIO SOBRE PRAGAS E DOENÇÃS DO FEIJOEIRO, 4. 1991,
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1991. 71p. Editado por B.C. Barros, L.G. Leite, J.O.M. Menten.
BUZATTI, W.J. Plantas daninhas na cultura de feijão. Informativo fundação
abc, N14, Setembro, Castro-PR. p.10-12
CHRISTOFFOLETI, P.J.; PASSINI, T. Manejo integrado de plantas daninhas
na cultura de feijão. ln: FANCELLI, A.L.; DOURADO-NETO, D. Feijão
Irrigado - Estratégias básicas de manejo Piracicaba:Publique, 1999. P. 80-
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COBUCCI, T. Avaliação da compatibilidade de latifolicidas na cultura do feijão.
ln: FANCELLI, A.L.; DOURADO-NETO, D. Feijão Irrigado - Estratégias
básicas de manejo Piracicaba:Publique, 1999. P. 143-144.
COBUCCI, T. Manejo e Controle de plantas daninhas em feijão. ln: Manual de
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Embrapa Uva e Vinho, Bento Gonçalves, RS, 2004. 453-480.
COBUCCI, T; PRATES, H.T.; FALCÃO, C.L.M.; REZENDE, M.M.V.; Efect of
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DOURADO NETO, D.; FANCELLI, A.L. Produção de feijão. Guaíba:
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KLUTHCOUSKI, J.; BOUZINAC, S.; SEGUY, L. Preparo do solo. ln:
ZIMMERMANN, M.J. de O.; ROCHA, M.; YAMADA, T. ed. Cultura do
42

feijoeiro: fatores que afetam a produtividade. Piracicaba: Potafós, 1988.


p.249-259.
MPANZO, D. Avaliação de dessecantes e de épocas de aplicação no
feijão: Efeitos na qualidade fisiológica das sementes. Lavras: UFLA,
1998. 89p. (Tese-Doutorado em Fitotecnia).
ZAGONEL, J.; VENANCIO, W.S.; SOUSA NETO, A.M. de. Eficácia do
herbicida diquat na dessecação em pré-colheita da cultura do feijão. Revista
Brasileira de Herbicidas, v.3, n.1, 2002. p.17-21.
ZIMDAHL, R.L. Fundamentais of Weed Science. California: Academic Press,
1993 450p.
43

CONTROLE RACIONAL DAS PRAGAS DO FEIJOEIRO

Octavio Nakano 1

1 Introdução
A participação cada vez maior da mulher no mercado de trabalho vem
modificando o habito alimentar familiar no tocante a alimentação, deixando de
lado o preparo do alimento mais demorado, como é o caso do feijão.
Proliferam-se a cada dia a venda de sanduíches, alterando o habito alimentar,
inclusive com a formação de jovens obesos, em função desse tipo de
alimentação.
Com isso e também a proliferação de comida "por quilo", vem sendo
reduzido o consumo de feijão, face a grande quantidade de variedade de
comida a disposição do consumidor.
Fora esses argumentos, o aumento cada vez mais elevado dos insumos
reduzindo a margem de lucro dos produtores dessa oleaginosa reduziu o
interesse pelo seu cultivo. Além desses problemas, o produtor enfrenta outros
que em função das condições climáticas pode agravar o aparecimento de
pragas e doenças, sendo a seca favorável às pragas e as chuvas, favorável às
doenças.
Dentre as pragas são citadas: a mosca branca, as cigarrinhas, as
lagartas e as vaquinhas como pragas de ocorrência normal; entretanto, como
plantio direto, têm surgido outras em decorrência desse tipo de cultivo que,
habitando a palhaça, conseguem _desenvolver enormes populações, causando
prejuízos não menos assustador do que as pragas convencionais. São elas:
caramujos e lesmas, centopéias, grilos e outras pragas que se aproveitam do
novo meio ambiente para atuarem de forma avassaladora.
A própria lavoura de soja que se expandiu espetacularmente nos últimos
anos, vem contribuindo para aumentar também o numero de pragas como é o
caso do tamanduá e dos percevejos. O ciclo vegetativo, relativamente curto
dessa leguminosa tem colaborado com a minimização dos danos que as
pragas causam.
Existem pragas que danificam as folhas como as lagartas e as
vaquinhas que podem tolerar um certo nível de desfolhamento; outras como os
grilos, a elasmo, a lagarta rosca e outras pragas que cortam o caule das
plantas já causam dano direto devendo receber maior atenção, pois cada
planta danificada é uma planta perdida, entretanto esse dano é visual e mais
fácil de ser contabilizado. Diferente das viroses transmitidas pelos insetos
sugadores como a mosca branca, como demora a aparecer os sintomas, o
dano não é percebido e nesse caso o controle deve ser preventivo. Pragas de
solo ou de raiz como o percevejo castanho, também não é percebido em tempo
e por isso seu controle deve ser preventivo.

1
Engº Agr°, Ph.D., Prof. Titular do Depto de Entomologia, Fitopatologia e Zoologia Agrícola da
ESALQ-USP.
44

2 Manejo de pragas
Deduz-se então que uma das ferramentas mais importantes no cultivo
das plantas de valor econômico é a detecção do dano quando se pode tolerar
um nível de dano como é o caso das lagartas desfolhadoras.
Diversos são os métodos para se conhecer o nível de controle das
pragas, sendo eles realizados por meio de amostragens. Quanto maior o
número de amostras tomadas, mais próximos ficam os resultados da realidade.
É como a imagem fotográfica ou de televisão; quanto maior os pontos tomados,
mais nítida fica a imagem. Entretanto, devido ao custo das amostragens,
usualmente se utiliza o bom senso, adotando critérios econômicos com certa
margem de erro tolerável.
Esse cálculo deve ser proporcional ao valor da produção. Assim, se a
lavoura rende pouco não compensa nenhuma medida de controle, muito
menos uma amostragem. Já para uma cultura cujo rendimento líquido é de R$
100,00/ha pode se investir até 10% desse valor para amostragens que seriam
de 3 a 4 durante a safra.
A amostragem poderia ser uma vistoria em forma de diagonal cruzada e
que por hectare seria 142 m x 2 (Figura 1) o que levaria para cada amostragem
ou levantamento, cerca de 1 hora (R$2,00 a R$3,00/hora). Para área
superiores a 1 ha, os valores seriam proporcionais.

100m

1 ha 100m

100m

142m
Figura 1. Esquema de amostragem.

Densidade populacional da praga

- NC = Ct

NE

tempo
Figura 2. Esquema de controle curativo (NC = Nível de controle, Ct = Custo do
tratamento, NE = Nível de equilíbrio e A = fatores adversos - inimigos
naturais ou clima adverso).
45

Uma vez estabelecido o nível populacional da praga por ha, o cálculo


para o seu controle obedeceria o seguinte esquema:
Em geral, para insetos desfolhadores, admite-se um dano de 25% de
desfolhamento, pois pesquisas mostram que a queda na produção ocorre
somente depois desse nível. Os ácaros rajado e branco, também atacam as
folhas e podem ser controlados mediante amostragens estabelecidas pelos
sintomas que causam nas folhas.
Para pragas que cortam a base das plantas, como por exemplo grilo,
elasmo ou lagarta rosca, o dano é direto e calcula-se em número de plantas
danificadas. Por exemplo, se 1 ha possui 100 mil plantas e produz 3 mil quilos,
ao preço de R$30,00 a saca de 60 quilos teremos: R$ 1500,00. Cada planta
valerá R$ 0,015, ou melhor, teríamos que ter 2% de plantas destruídas para
equivaler a um tratamento de R$30,00/ha.

Densidade populacional da praga

NE

NC

tempo
Figura 3. Esquema de controle preventivo.

Igualmente prejudiciais são as pragas que atacam diretamente as


vagens ou grãos. Nesse caso, devem ser amostradas as vagens, estimando-se
os danos transformados em valores para a aplicação do nível de controle em
função do custo do tratamento. Aqui também pode-se esperar que a população
evolua até atingir o nível equivalente a esse custo. As pragas que podem ser
encontradas atacando as vagens ou grãos são: Michaelus zebus e Heliothis
spp.
Poderia-se recorrer a agricultura de precisão para o gerenciamento no
controle das pragas do feijoeiro. Ao contrário do que se pode fazer com
modelagem de solo, buscando avaliar fertilidade, erosão, topografia, textura,
etc, no caso das pragas, por serem dinâmicas, o gerenciamento precisa ser
permanente ou periódico, avaliando fatos novos que vão surgindo em tempo,
relativamente curto.
Com o auxílio do GPS é feito o perímetro da área, com suas sub­
divisões; para cada divisão, compara-se a situação e qualquer anormalidade,
requer uma vistoria "in loco" com a finalidade de verificar a variação, não
necessariamente provocada pela praga, podendo ser problema com nutrição,
excesso de água, doença, etc.
A grande vantagem do processo é a precisão da área atacada, inclusive,
sua extensão, permitindo tratamentos localizadas.
46

São fornecidos aqui alguns níveis de controle das principais pragas do


feijoeiro.
2.1 Tripes
São importantes na fase inicial do desenvolvimento das plantas; 1 O
ninfas/planta exige controle o que pode ser feito com inseticidas do grupo dos
neonicotinóides.
2.2 Lagarta da soja
Mede palmo, enroladeira, cabeça de fósforo. Pode-se basear no
desfolhamento; acima de 25% de desfolhamento efetuar o controle que pode
ser químico ou biológico; os piretróides, tipo permetrina tem sido um dos mais
econômicos. Pode se usa o Bt, produto biológico, entretanto, seu custo por ha
é maior do que com os piretróides.
2.3 Lagarta elasmo
Recomenda-se o tratamento de sementes com carbofuran e thiodicarb;
pulverizações com inseticidas lagarticidas como piretóides, fosforados,
spinozad, etc, podem dar bons resultados.
2.4 Lagarta rosca
O mesmo tratamento dado a elasmo. Para pulverizações aplicar Acefato,
direcionado na base das plantas.
2.5 Vaquinhas
O nível de 25% também pode ser adotado; nesse caso os fosforados ou
os carbamatos podem ser mais eficazes.
Lagartas das vagens
2.6 Etiella zinckenella, M. zebus, Heliothis
Pulverizar com piretróides ou formulações mistas de piretróides com
fosforados. Estabelecer os níveis de controle em função dos parâmetros
citados.
2.7 Percevejos
Nezara e Piezodorus guildini, os níveis populacionais são equivalentes
aos da soja. Aplicar os inseticidas Endosulfan ou Engeomax quando forem
constatados por batida de pano 4 percevejos.
2.8 Cigarrinha Empoasca
Trata-se de uma praga importante em feijoeiro da seca, causa maiores
danos a partir da emergência das plantas até a fase de florescimento. O maior
prejuízo é devido a injeção da saliva que é tóxica as folhas o que ocorre
apenas com os adultos. Seu nível de controle está ao redor de dois adultos por
planta.
2.9 Ácaro rajado ou vermelho
Quando forem constatados os primeiros sintomas de ácaros em 25%
das folhas do feijoeiro, fazer a pulverização com acaricida específico podendo
empregar Dicofol ou Cihexatin ou Vertimec (se necessária, mais de uma
aplicação, alternar produtos).
2.1 O Ácaro branco
Quando forem constatados 40% de folhas com bordos em início de
enrolamento (sintomas do ácaro). Empregar os mesmos acaricidas anteriores.
47

2.11 Mosca branca


Além da ação toxicogênica, o adulto injeta vírus, são conhecidas cerca
de 7 viroses importantes na cultura do feijoeiro. Quanto mais cedo ocorrer o
ataque tanto maior será o prejuízo pela infecção nas plantas. A espécie
introduzida recentemente (Bemisia tabaci biótipo-B) introduz o gemini-vírus,
bastante comprometedor; o seu controle deve ser preventivo, isto é, tão logo
seja constatada a sua presença na lavoura. O controle deve ser feito com
inseticidas sistêmicos do grupo dos neonicotinóides, mas a alternância de
diferentes grupos como os fosforados é desejado para evitar a resistência.
Existem também inseticidas fisiológicos como o Buprofezin e o
Piriproxifen para a execução do esquema. Pesquisa mais recente mostra
também o efeito das piridinas como o Pimetrozine e o Flonicamid cujo
mecanismo é a paralização das glândulas salivares do inseto; não podendo se
alimentar, o inseto não transmite virose e morre por inanição.
2.12 Lesmas, caracóis e caramujos
Tem surgido muito em função do plantio direto, se reproduzem como
hermafroditas daí o motivo por qual se multiplicam rapidamente. As pesquisas
mostram que uma lesma por planta pode causar 5% de prejuízo na produção.
Seu controle se baseia principalmente no uso de isca a base de metaldeído.
Atualmente existem pesquisas mostrando que o ácido ferroso pode ser usado
com sucesso na isca.
2.13 Centopéia
Ocorre também nas áreas de plantio direto. Essa praga ataca
normalmente semente em fase de germinação, prejudicando o stand; o
controle preventivo com tratamento de sementes utilizando carbamato é
eficiente.
48

MANEJO RACIONAL DE DOENÇAS DO FEIJOEIRO

Marcelo Giovanetti Canteri1

1 Introdução
Doença é o resultado da interação entre a planta, o ambiente e um ou
mais fatores nocivos. Esses fatores nocivos podem ser agentes bióticos, tais
como fungos, bactérias, nematóides e vírus, ou fatores abióticos, como vento
frio, excesso ou falta de umidade e deficiências nutricionais, entre outros. A
ocorrência de uma doença depende da presença, de modo concomitante, de
um hospedeiro suscetível (neste caso, a planta de feijoeiro, fonte nutritiva dos
patógenos desta cultura), do patógeno e de condições climáticas favoráveis
para o desenvolvimento da doença.
Em algumas situações, a doença não ocorre, simplesmente porque o
patógeno não está presente, isto é, o hospedeiro está presente, o clima é
favorável à infecção, mas não há o inóculo do patógeno. Isto ocorre
principalmente com doenças transmitidas pelo vento. A título de exemplo, na
região sul do Brasil, nas lavouras de feijoeiro semeadas logo após o inverno
(safra das águas), em áreas com rotação de culturas não há muito inóculo do
fungo Phaeoisariopsis griseola e, nessas condições, a mancha angular, apesar
da presença do hospedeiro e da existência de clima favorável, só aparecerá no
final do ciclo da cultura, sem provocar danos às plantas.
O entendimento deste conceito é primordial para se entender a
influência do clima no progresso de epidemias.

2 Fatores que influenciam o progresso de uma epidemia


O desenvolvimento de uma epidemia depende principalmente da
quantidade de inóculo inicial da doença, presente principalmente em sementes
contaminadas ou em áreas sem rotação de culturas e também da taxa de
aumento da epidemia, isto é, da velocidade de sua progressão. A taxa de
progresso da epidemia sofre influência dos fatores climáticos.
A título de ilustração, se uma lavoura de feijão for semeada sem
tratamento de sementes, com um cultivar suscetível à antracnose e se na área
não se utilizar a rotação de culturas são grande as chances de haver uma
epidemia da doença. Além disso, se durante a safra ocorrerem condições
climáticas favoráveis ao desenvolvimento da antracnose, haverá uma alta taxa
de aumento da epidemia e, conseqüentemente, elevados danos à cultura.

3 Patossistema tropical e patossistema temperado


As doenças podem ser classificadas, de acordo com seu comportamento
em função do clima, em patossistemas tropicais e patossistemas temperados.
As epidemias típicas de patossistemas tropicais são diferentes das epidemias
de patossistemas temperados, tanto na estrutura quanto no comportamento.
As epidemias dos patossistemas temperados, mais estudadas, são mais
dependentes de condições climáticas e têm um rápido progresso a partir de um
inóculo inicial baixo. Por outro lado, as epidemias dos patossistemas tropicais

1
Engº Agr°, Prof. Dr. Fitopatologista, Dep. Agronomia, Universidade Estadual de Londrina
49

são menos dependentes do clima (afinal, nos trópicos há baixa formação de


orvalho) e são mais danosas quando ocorre um alto inóculo inicial do patógeno.
3.1 A antracnose e o patossistema temperado
A antracnose, devido às suas características de disseminação, tem
comportamento mais próximo ao de uma epidemia de patossistema temperado.
As condições climáticas precisam ser favoráveis para que a doença se torne
epidêmica. Ela necessita de água livre (chuva e orvalho) para dissolver a
camada mucilaginosa que envolve os conídios, e da movimentação desta água
(respingos e movimentação de implementes) para disseminá-los, além de
temperaturas amenas favoráveis à infecção. Desta forma, neste tipo de
epidemia pode ser utilizado o monitoramento climático para se determinar o
melhor momento de executar uma medida de controle adequada.
3.2 A mancha angular e o patossistema tropical
A mancha angular tem um comportamento mais prox1mo do
patossistema tropical porque depende mais da quantidade de inóculo do que
das condições climáticas. Há uma baixa quantidade de inóculo no plantio da
safra das águas, após o inverno, mas ocorre o inverso na safra da seca, com
um acúmulo de inóculo do patógeno, o que favorece epidemias severas da
doença. Em regiões onde há safra de inverno, ocorrem também epidemias da
doença, que apresenta um comportamento ainda mais severo que na safra da
seca, devido ao acúmulo de inóculo do fungo.

4 Relações da doença com o clima


A água livre e temperatura são os dois principais fatores climáticos
responsáveis pela infecção provocada por patógenos foliares. O ambiente pode
influenciar o progresso de doenças, afetando o patógeno, na sua sobrevivência
e dispersão, o hospedeiro, nos mecanismos de defesa da planta ou no seu
crescimento e a interação entre o patógeno e o hospedeiro, nos processos de
infecção e colonização.
Dentre as condições climáticas, a umidade e a temperatura são as que
mais influenciam o desenvolvimento das doenças. A umidade constitui fator
determinante para a ocorrência de doenças em plantas, principalmente as
doenças foliares. A temperatura age como um catalisador, uma vez que retarda
ou acelera o ciclo do patógeno. O número de gerações de um patógeno, de
esporo a esporo (período latente), é função da temperatura.
Vários estudos sobre o papel do período de molhamente na ocorrência
de doenças têm mostrado que a duração do período de molhamente
necessário para o estabelecimento delas depende da temperatura.
Provavelmente, o molhamente foliar determina a quantidade de esporos que
germinam e penetram os tecidos do hospedeiro, e a temperatura determina a
velocidade e a extensão da infecção.
4.1 Período de molhamento
Em relação à umidade, o importante não é a precipitação total ou o
excesso hídrico, mas sim, o período de molhamente, ou seja, o período de
tempo em que chuva ou orvalho (água livre) permanecem sobre a parte aérea
da planta. A importância do orvalho para o período de molhamente é
acentuada, principalmente quando a precipitação não é freqüente.
A presença de orvalho é de grande importância para a ocorrência de
doenças porque a maioria dos patógenos necessita de água livre na superfície
50

foliar para germinar e penetrar no hospedeiro. A presença ou ausência de


orvalho pode permitir ou paralisar o desenvolvimento do tubo germinativo do
patógeno. O processo de penetração pode ser paralisado, pela morte do tubo
germinativo, quando o molhamente cessa antes de completar-se a penetração.
4.2 Temperatura
A temperatura é o fator ambiental mais estudado em relação à
ocorrência e desenvolvimento das doenças. Ela tem papel limitante nas fases
de germinação, crescimento do tubo germinativo, formação do apressório,
penetração e colonização. Temperaturas abaixo e acima de valores mínimos e
máximos requeridos para a infecção evitam o estabelecimento do patógeno.
Assim, temperaturas acima de 27º C não permitem a germinação de um grande
número de fungos fitopatogênicos. A melhor temperatura para germinação de
esporos nem sempre é a mesma para a colonização e expressão de sintomas.
É interessante ressaltar que temperaturas abaixo do mínimo necessário
para o desenvolvimento do patógeno normalmente fazem com que o período
latente se prolongue, o que pode ser interpretado como um fator de
sobrevivência do fungo.

Tabela 1. Período após a inoculação, para visualização dos primeiros sintomas


das principais doenças da parte aérea do feijoeiro, sob condições
climáticas favoráveis.
Doença Agente causal Número de dias
Mancha angular Phaeoisariopsis griseo/a 8 dias (24°C)
Antracnose Colletotrichum lindemuthianum 2 dias (25° C)
Ferrugem Uromyces appendiculatus 1 O dias (24º C)

5 Condições climáticas favoráveis ao desenvolvimento de doenças


5.1 Mancha angular
Dados obtidos em ambiente controlado mostram que a severidade e o
período de incubação são sensivelmente afetados pela temperatura. A máxima
severidade ocorre na faixa de temperatura entre 21 e 25° C, e o menor período
de incubação, a 25° C, para os cultivares Rosinha e Carioca. Temperaturas
abaixo e acima desta faixa atrasam o desenvolvimento da doença e,
conseqüentemente, prolongam o período de incubação. Em temperaturas
inferiores a 6° C ou superiores a 29° C não são observados sintomas da mancha
angular para a maioria dos cultivares. A infecção e a colonização de
Phaeoisariospsis griseola são favorecidas pela temperatura de 24° C e, nesta
temperatura, os primeiros sintomas da mancha angular surgem 8 dias após a
inoculação do patógeno.
O incremento na severidade da mancha angular, numa mesma folha,
deve-se principalmente ao crescimento das lesões. A taxa de crescimento das
lesões, que está relacionada com a velocidade de colonização dos tecidos pelo
fungo, aumenta à medida que a temperatura se aproxima do ponto ótimo para
o desenvolvimento da doença, em torno de 25° C. Como conseqüência do
aumento na taxa de crescimento das lesões, ocorre um rápido aumento no
tamanho médio das manchas, o que ocasiona uma rápida coalescência das
mesmas.
51

Em relação ao período de molhamente foliar, verificou-se que períodos


superiores a 6 horas são necessários para que se inicie o processo de infecção
e que a severidade da mancha angular do feijoeiro aumenta à medida que
ocorre aumento no período de molhamente foliar.
5.2 Antracnose
A temperatura exerce grande influência sobre a severidade e sobre o
período de incubação da antracnose do feijoeiro. A temperatura mínima para o
desenvolvimento da antracnose está entre 6° C e 10º C, e a máxima, entre 29° C
e 33°C. Quando plantas são mantidas em câmaras de crescimento sob período
de molhamente de 48 horas e temperatura constante de 28º C ou mais, nenhum
sintoma se manifesta, ao passo que plantas mantidas a 16 °C ou 20°C são
severamente atacadas. Plantas em regime de temperatura de 28º C
(diurna)/16ºC (noturna) ou 32º C (diurna)/10º C (noturna) apresentam
moderados sintomas da doença.
Em condições de campo, altas temperaturas reduzem a severidade da
antracnose do feijoeiro. Todavia, é comum observar temperaturas na faixa de
25-35° C no campo, e ainda assim a doença continuar a progredir. Isso
provavelmente se deve ao fato de as baixas temperaturas noturnas moderarem
o efeito das altas temperaturas diurnas, fornecendo condições ambientais
favoráveis à infecção e ao desenvolvimento da doença.
Em relação ao período de incubação, quanto maior a temperatura, mais
rapidamente se desenvolvem os sintomas da antracnose, até a temperatura
limite de 28°C. Sob temperatura favorável à manifestação dos sintomas (25º C),
os primeiros traços da doença surgem 48 horas após a inoculação e 50% das
lesões aparecem entre 105 horas (4,4 dias) a 125 horas (5,2 dias).
Além da temperatura, o molhamente foliar é outro fator essencial para
gue o processo de infecção e, conseqüentemente, a doença se desenvolvam.
E necessário um determinado período de molhamente logo após a deposição
dos conídios sobre as plantas para que ocorra a infecção. Período de
molhamente foliar entre 18 e 24 horas acarreta acentuado aumento de tecido
doente. O período mínimo de umidade para que o processo de infecção por C.
lindemuthianum se inicie se situa entre 5 e 6 horas de molhamente foliar.
5.3 Ferrugem
A temperatura tem um efeito acentuado sobre a ferrugem do feijoeiro. A
maior freqüência de infecção (número de pústulas por folíolo) ocorre em
temperaturas em torno de 15°C, e o menor período latente (período de tempo
compreendido entre a inoculação e a produção de esporos), na faixa de 22 a
24° C. A temperatura mínima para o desenvolvimento da doença se situa entre
7 e 9 °C, e a máxima, um pouco acima de 27° C.
A temperatura influencia a produção de esporos, no período latente e na
germinação. A freqüência de infecção aumenta com o aumento do número de
horas de molhamente, até 20 horas de molhamente. A temperatura e a duração
do molhamente foliar são fatores determinantes na quantidade final de doença.
Na Região Sul, o feijoeiro plantado em junho-setembro está mais sujeito
ao ataque de ferrugem do que o que é plantado no período outubro-janeiro. O
período de molhamente foliar mínimo para a ocorrência da ferrugem é inferior a
6 horas, e a freqüência de infecção aumenta com a duração do molhamente
foliar, até o máximo de 20 horas.
52

Fenugem

Antracnose

Mandla Angular

12 14 16 18 20 22 24 26
Tanperatlra ("e)

Figura 1. Faixas de temperatura ótima para infecção pelos patógenos que


ocasionam a ferrugem, antracnose e mancha angular em feijoeiro.

Ferrugem

Antracnose

Mancha Angular

O 2 4 6 8 10 12 14 16 18 20 22
Haas de mdhsmefto

Figura 2. Número mínimo de horas de molhamente necessário para infecção


por patógenos que ocasionam a ferrugem, antracnose e mancha
angular em feijoeiro.

6 Considerações finais
Tanto a falta como o excesso de medidas de controle acarreta prejuízos
econômicos, principalmente no caso de doenças que podem ser controladas
com a aplicação de fungicidas. Sendo assim, deve-se racionalizar o uso de
pulverizações, sem no entanto permitir que hajam epidemias. As aplicações
podem ser realizadas apenas quando necessário e no momento adequado, de
forma economicamente segura, levando-se em consideração a presença do
fungo, a cultivar e o clima.
Doenças fúngicas de parte aérea e com origem no solo dependem em
um primeiro momento da presença do fungo na área. Assim, para o manejo
racional, o primeiro item a ser levado em consideração é o monitoramento da
presença dos patógenos. Após contatados na área, a velocidade de progresso
das doenças será regulada pela cultivar utilizada e pelo clima.
Existem trabalhos demonstrando a eficiência do uso de informações
meteorológicas coletadas de hora em hora por estações automatizadas, para
manejo das principais doenças fúngicas da parte aérea do feijoeiro e também
para o manejo do mofo branco ( Sclerotinia sc/erotiorum).
Sabendo-se o nível de resistência às doenças da variedade cultivada
utilizada, monitorando-se a presença do inóculo do fungo na área e coletando-
53

se dados meteorológicos pode-se fazer um manejo racional, pulverizando-se


quando necessário, no momento adequado e poupando recursos econômicos e
ambientais.

7 Referências bibliográficas
BACCHI, L.M.A. Quantificação de parâmetros monocíclicos relacionada a
epidemias no sistema Uromyces appendiculatus - feijoeiro. Piracicaba, 1993.
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B. Efeito da antracnose na eficiência fotossintética do feijoeiro. Fitopatologia
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CANTERI, M.G.; DALLA PRIA, M.; SILVA, O.C. Principais doenças fúngicas do
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1998, p.471-473.
DALLA PRIA, M. Quantificação de parâmetros monocíclicos da antracnose
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Su_perior de Agricultura "Luiz de Queiroz" - Universidade de São Paulo.
FEIJAO: tecnologia de produção. Londrina, IAPAR, 115p.
GODOY, C.V.; CARNEIRO, S.M.T.P.G.; IAMAUTI, M.T.; DALLA PRIA, M.;
AMORIM, L.; BERGER, R.D.; BERGAMIN FILHO, A. Diagrammatic scales
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Pflanzenkrankheiten und Pflanzenschutz 104:336-345. 1997.
MENEZES, J.R. de. Manejo integrado de doenças e plantas daninhas na
cultura do feijão. ln: Fancelli, A.L.; Dourado Neto, D. Feijão irrigado:
estratégias básicas de manejo. Piracicaba, Publique, 1999. p.126-142.
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Embrapa responde. Brasília, EMBRAPA, 203. 203p.
REIS, E.M. Previsão de doenças de plantas. Passo Fundo, UPF, 2004. 316p.
ZAMBOLIM, L. Manejo integrado: Fitossanidade. Viçosa, Suprema, 2001. 722p.
54

BIORREGULADORES E BIOESTIMULANTES EM FEIJOEIRO

Paulo R. C. Castro 1
Stella e. Cato 2

E/vis L. Vieira3

1 Introdução
No que se refere às aplicações agrícolas dos biorreguladores e
bioestimulantes vegetais, deve-se considerar que algumas plantas cultivadas já
atingiram no Brasil estágios de evolução que exigem elevado nível técnico para
alcançar a melhor produtividade. Essas culturas não se apresentam
condicionadas por limitações de ordem nutricional e hídrica, além de serem
protegidas adequadamente com defensivos. Nessas condições, a
economicidade da utilização de tecnologia avançada tem levado ao emprego
dos fitorreguladores, que podem freqüentemente mostrar-se altamente
compensadores.
Os biorreguladores são compostos orgânicos, não nutrientes, que, em
pequenas quantidades, promovem, inibem ou modificam processos
morfológicos e fisiológicos das plantas. Os reguladores conhecidos pertencem
aos grupos das auxinas, giberelinas, citocininas, inibidores e retardadores,
além do etileno.
As auxinas atuam na síntese de RNA mensageiro, induzindo a formação
de enzimas, que causariam a ruptura das ligações entre microfibrilas de
celulose. As novas enzimas formadas agem sobre polissacarídeos ou
glicopeptídeos constituintes das ligações entre as microfibrilas de celulose da
parede celular. O rompimento das ligações entre as microfibrilas promoveria o
aumento da plasticidade e uma deformação irreversível da parede celular.
Ocorreria ainda uma diminuição no potencial osmótico no interior do vacúolo
que promoveria um influxo de água e o aumento das dimensões celulares.
As giberelinas agem no DNA nuclear promovendo a formação de RNA
mensageiro. Logo depois ocorre a síntese de proteínas e enzimas como a alfa­
amilase, proteases, hidrolases e lípases. Sob a ação da alfa-amilase,
poderíamos ter a formação de glucose na célula a partir do amido, o que
promoveria uma diminuição no potencial osmótico celular, causando um influxo
de água e o conseqüente aumento na dimensão celular. A ação das proteases
resultaria na sfntese de triptofano a partir do qual ocorreria a fo rmação do ácido
indolilacético (IAA). O IAA aumentaria a plasticidade da parede celular
causando um aumento na dimensão celular. Alguns pesquisadores consideram
que o ácido giberélico (GA) inibe a IAA-oxidase, impedindo a inativação da
auxina, o que promove maior plasticidade, influxo hídrico e o conseqüente
aumento nas dimensões celulares.

1
Engº Agr°, Ph.D., Professor Titular do Depto. de Ciências Biológicas da E.S.A. "Luiz de
Queiroz", USP, Piracicaba, São Paulo.
2 Engº Agr°, [Link]., doutoranda da ESALQ/USP, P.P.G. em Fitotecnia, Av. Pádua Dias 11,
caixa postal 09, 13418-900-Piracicaba-SP.
3
Engº Agr°, Dr., Professor Adjunto do Depto. de Fitotecnia da Escola de Agronomia da UFBA,
Cruz das Almas, Bahia.
55

A citocinina isopenteniladenosina (IPA), promove a ligação do RNA


transportador ao complexo ribossomo-mensageiro e influi na formação de
diversos RNA transportadores e na síntese de proteínas. Embora se considere
que o controle do tipo de proteína produzida esteja localizado no RNA
mensageiro, há evidências de que o RNA transportador exerce um controle
adicional sobre o sistema. As citocininas parecem manter em alto nível a
síntese de proteínas e enzimas, retardar a degradação de proteínas e de
clorofila, diminuir a taxa respiratória e preservar o vigor celular.
Os inibidores naturais, como o ácido abscísico, impedem o crescimento
de plantas, induzem a senescência e a abscisão. Aparentemente, o ácido
abscísico inibe as enzimas hidrolíticas, essenciais ao metabolismo. A hidrazida
maleica é um inibidor sintético. Os retardadores de crescimento retardam o
alongamento de ramos, diminuindo a divisão celular no meristema sub-apical.
O chlormequat (CCC) pode bloquear a síntese de giberelinas. A daminozide
(SADH) parece poder impedir a formação de IAA.
O etileno parece induzir a produção de proteínas específicas em
diversos tecidos. No processo de maturação sabe-se que a S-adenosil
metionina (derivado da metionina) é transformada em ácido 1-carboxílico-1-
amino ciclopropano, capaz de produzir etileno, um fitohormônio gasoso.
Embora freqüentemente discuta-se a ação dos hormônios como se
agissem de modo independente, as inter-relações do crescimento e do
desenvolvimento vegetal resultam da combinação de muitos sinais. Além disso,
um hormônio pode influenciar a biossíntese de outro, de modo que os efeitos
produzidos por um podem ser, de fato, mediado por outros. Por exemplo, há
muito tempo, sabe-se que a auxina induz a biossíntese de etileno. Atualmente,
está evidente que a giberelina pode induzir a síntese de auxina e vice-versa.
Se plantas de ervilha são decapitadas, ocasionando a interrupção no
alongamento do caule, não é somente o nível de auxina que é reduzido, pois
sua fonte foi removida, mas também o nível de GA1 na parte superior do caule
diminui drasticamente. Essa mudança pode ser devido à auxina, visto que a
reposição da gema com suprimento de auxina restaura o nível de GA 1 . A
presença de auxina foi relacionada à promoção de transcrição do gene GA3ox
e à repressão da transcrição do gene GA2ox. Na ausência de auxina, ocorre o
inverso. Desta forma, a gema apical promove o crescimento tanto através da
biossíntese direta da auxina quanto da biossíntese de GA1 por auxina. Além
disso, as giberelinas podem induzir a síntese de ácidos polihidroxicinâmicos,
capazes de inibir a ação da IAA-oxidase, evitando a degradação do IAA.
Também devemos considerar que os retardadores de crescimento
diminuem a síntese de promotores de crescimento e que a produção de ácido
abscísico inibe a biossíntese de auxinas, giberelinas e citocininas.

2 Biorreguladores
Moh & Alan (1967) verificaram que aplicações semanais de ácido
giberélico de 1 a 32mgL 1 são capazes de converter um mutante anão de
feijoeiro em um fenótipo normal. Sendo este mutante anão controlado por um
gene recessivo simples, acredita-se que a ação deste gene para nanismo é
obstruir completa ou parcialmente a biossíntese para a produção de uma
substância do tipo do ácido giberélico, necessária para o crescimento normal.
56

Têm-se verificado que plantas de feijoeiro tratadas com CCC 500 mg.L"1
podem apresentar resistência à seca (Halevy & Kessler, 1963) e precocidade
na florescência (Coyne, 1969).
Felipe & Dale (1968) verificaram que a aplicação de 10-2M de CCC em
feijoeiro, desenvolvendo-se no escuro, aumenta o número de células e a
massa da matéria seca e fresca das folhas primárias. Observaram que estes
efeitos podem ser revertidos pela aplicação de 10µg de GA por planta após a
emergência. Notaram que plantas desenvolvendo-se em 12 horas diárias de
luminosidade, tratadas com CCC, apresentaram redução da área e da taxa de
expansão das folhas primárias e trifolioladas.
Dale & Felipe (1968) consideram que plantas de feijoeiro tratadas com
CCC 10-2M não mostraram alongamento nas hastes devido à carência de GA
nesta região, sendo que, devido a isso, a matéria seca dos cotilédones é
desviada às folhas.
Verificou-se que aparentemente o nitrogênio moveu-se mais lentamente
nas folhas primárias de plantas de feijoeiro tratadas com CCC, pois o
desenvolvimento apical tornou-se mais lento reduzindo a demanda de N.
Similarmente, folhas de plantas decapitadas possuem mais N devido à
ausência de crescimento apical. Observou-se que o tratamento com CCC torna
as folhas mais verdes, aumentando a concentração de clorofila por unidade de
área foliar. Plantas tratadas com CCC mostram crescimento lento e diminuição
na demanda de N para as folhas primárias, retardando-se portanto a hidrólise
protéica. O CCC pode ainda retardar a degradação da clorofila nas folhas
tratadas (Humphries, 1968).
Observou-se que o CCC pode promover um estímulo no
desenvolvimento das raízes adventícias (Tognoni et ai., 1967), sendo que pode
também provocar um maior crescimento de todo o sistema radicular (Plaut et
ai., 1964).
Em raízes isoladas, Tung & Raghavan (1969) observaram que o CCC
promoveu diminuição no crescimento pela redução na freqüência da divisão
celular, sendo que aumentou o nível de solução nitrogenada no interior das
raízes.
Determinando efeito do CCC em alguns processos fisiológicos do
feijoeiro, Devay et ai. (1970) verificam um aumento da atividade fotossintética
nas folhas.
O ácido giberélico pertence ao grupo de biorreguladores que possuem o
esqueleto do enantiômero de giberelano e atividade biológica em estimular a
divisão e/ou o alongamento celular, ou atividade semelhante (Rowe, 1968).
Verificou-se que a aplicação de GA em feijoeiro, nas condições de
campo, não causou aumento na produtividade, havendo necessidade de
estaqueamento das plantas tratadas com o biorregulador (Wittwer & Bukovac,
1957).
Castro & Bergemann (1973) verificaram que o GA aplicado em feijoeiro
cultivar 'Carioca' promoveu aumentos significativos no comprimento da haste
principal e dos meritalos. Observaram um ligeiro incremento no número de
meritalos e no número de folhas nas plantas tratadas com GA; sendo que
apesar do produto causar maior florescência, não notaram diferenças
significativas na produtividade das plantas com relação ao controle.
Chin & Lockhart (1965) estudando a translocação de GA aplicado em plântulas
de feijoeiro cultivar Pinto, observaram evidente crescimento da haste quando o
57

produto era aplicado na primeira folha trifoliolada ou na extremidade apical;


mas esse alongamento era menor quando o GA era aplicado nas folhas
primárias. O movimento do GA aplicado nas plantas está relacionado com o
transporte de carboidratos no vegetal.
Alvim (1960) verificou que o GA incrementa a taxa assimilatória líquida,
a taxa de crescimento relativo, a massa de matéria seca das hastes, a área
foliar e a altura das plantas de feijoeiro. Observou ainda redução na massa
seca das raízes; sendo que a massa seca das folhas não foi alterada
significativamente.
Castro & Enok (1977) observaram que o tratamento do feijoeiro 'Carioca'
com CCC 500mg.L"1 + GA 50mgL·1 promoveu maior crescimento da haste
principal durante todo o ciclo da planta. CCC 400mg.L·1 + GA 50mg.L"1
causaram um efeito inibitório no crescimento da haste. Tratamento com CCC
500mgL·1 + GA 50mgL·1 ou CCC 2000mgL·1 + GA 50mg.L"1 aumentou o
número de folhas do feijoeiro 'Carioca'. CCC 500mg.L·1 + GA 50mg.L"1
promoveram aumento dos meritalos num período de 14 dias; sendo que CCC
400mg.L"1 + GA 50mg.L"1 causaram redução no comprimento dos meritalos
somente 30 dias após o tratamento. Aplicação de CCC 500mg.L" 1 + GA
50mg.L"1 ou CCC 2000mg.L·1 + GA 50mg.L"1 provocou aumento no
comprimento do limbo foliar 5 dias após o tratamento. CCC 500mg.L"1 + GA
50mg.L·1 promoveram aumento no número médio de flores do feijoeiro cultivar
Carioca.

3 Sinergismo
Estudos com plantas intactas ou com tecidos vegetais isolados têm
evidenciado a existência de interações sinergísticas, antagonísticas e aditivas
entre dois hormônios vegetais.
A variedade de modos como auxina e citocinina regulam respostas
fisiológicas das plantas, como na divisão celular (efeito sinérgico) e no controle
da brotação lateral (efeito antagônico) sugere que possuam mecanismos
múltiplos de interação.
Giberelína em combinação com citocinina, aplicadas na corrente
transpiratória, atrasaram a senescência foliar em expiantes de soja.
Stimulate® é um bioestimulante formulado com uma combinação de
cinetina (CN) 90mg.L·1, giberelina 50mg.L"1 e ácido indolbutírico (IBA) 50mg.L·1•
Utilizando-se como planta teste Lycopersicon esculentum cv. Micro-Tom
estudou-se o efeito de Stimulate® diluído 1 O vezes, GA + IBA + CN (5mgL·1 +
5mg.L" 1 + 9mg.L"1), IBA + CN, GA + CN, GA + IBA, CN, IBA, GA e controle,
mantendo-se as concentrações respectivas dos biorreguladores.
Os tratamentos foram pulverizados por três vezes nas plantas de
tomateiro, com intervalo de uma semana, uma durante a fase vegetativa e duas
durante o florescimento.
Conforme a Tabela 1 verificamos que sempre que o IBA se encontra
presente, isolado, em dupla ou com outros dois biorreguladores, existe um
incremento com relação ao controle, na massa seca das raízes e conseqüente
redução na massa seca de parte aérea (devido à relação fonte-dreno),
evidenciando que IBA incrementa a força de dreno por carboidratos do sistema
radicular.
Notamos ainda que a presença de GA e de CN, isolados ou em dupla,
não afetaram significativamente a força de dreno com relação ao controle.
58

Observamos ainda que as menores relações parte aérea/raízes foram


encontradas nos tratamentos com GA + ISA + CN ou Stimulate®.
Esses fatos são evidenciados na relação massa seca de raízes/massa
seca da parte aérea. Nesta coluna notamos que somente o efeito sinérgico dos
três biorreguladores (GA + ISA + CN ou Stimulate®) promove incrementes do
sistema radicular capazes de fazer a relação diferir do controle (Tabela 1).
A massa fresca dos frutos do tomateiro 'Micro-Tom'também foi
aumentada significativamente devido ao sinergismo entre os três
biorreguladores (GA + ISA + CN ou Stimulate®), sendo que somente a
aplicação de GA isoladamente também aumentou a massa fresca dos frutos
com relação ao controle (Tabela 1).

Tabela 1. Comparação das médias dos parâmetros determinados em tomateiro


'Micro-Tom', pelo teste de Tukey (5%): Rpar: Relação entre massa
de parte aérea e massa de raiz; Rrpa: Relação entre massa de raiz e
massa de parte aérea; MFF: massa fresca de frutos; MSF: massa
seca de frutos e TF: tamanho de frutos.
Tratamento Rpar (g) Rrpa (g) MFF (g) MSF (g) TF
Controle 9,65 a 0,11 c 39,27 cde 4,65 d 1,76 abc
GA 7,00 abc 0,17 bc 47,10 ab 13,55 ab 1,70 bc
ISA 5,67 bc O,18 abc 46,35 abc 8,14 cd 1,89 abc
CN 9,06 ab O,11 c 42,45 bcd 8,25 cd 1,85 abc
GA+ISA 4,90 c 0,22 abc 38,37 de 9,71 bc 1,83 abc
GA+CN 6,36 abc O,18 bc 34,62 e 13,65 ab 1,66 c
ISA+CN 6,27 c 0,16 bc 43,75 bcd 13,34 ab 2,13 ab
GA+ISA+CN 3,11 c 0,35 a 51,45 a 15,75 a 2,16 a
Stimulate 3,54 c 0,35 ab 51,70 a 15,00 a 2,17 a
F (Trat) 6,86** 5,50** 13,23 ** 17,17** 4,56**
c.v. (%) 30,64 40,55 8,98 19,70 11,89
Médias seguidas de uma mesma letra dentro de uma mesma coluna não diferem pelo teste de
Tukey ao nível de 5% de probabilidade.
** significativo ao nível de 1% de probabilidade pelo teste F.

A massa seca dos frutos (acúmulo de carboidratos) foi mais


incrementada no tratamento com os três biorreguladores (GA + ISA + CN ou
Stimulate®), sendo que para este parâmetro, GA, GA + CN, ISA+ CN e GA +
ISA também diferiram do controle, conforme a Tabela 1.
A utilização dos três biorreguladores (GA + ISA + CN ou Stimulate®) e de ISA
+ CN aumentou o tamanho dos frutos em relação ao tratamento GA + CN, de
acordo com a Tabela 1.

4 Stimulate®
Vieira & Castro (2003) objetivando verificar o efeito do Stimulate® sobre
a germinação de sementes, vigor de plântulas, crescimento radicular e
produtividade, aplicaram concentrações crescentes, O; 1,0; 2,0; 3,0; 4,0 e 5ml
do produto em 0,5kg de sementes. Os resultados obtidos foram submetidos a
análise de regressão.
A germinação de sementes foi aumentada em 18,1 % para a
concentração de 5,0ml em comparação ao controle. Também, notou-se que
aumentos de 1,0ml na concentração de Stimulate® proporcionam aumentos
significativos da ordem de 2,4% na germinação das sementes (Figura 1). O
59

Stimulate® proporcionou uma melhor uniformidade na germinação de


sementes de feijoeiro, favorecendo o surgimento de plântulas com qualidade
superior em comparação ao controle.
Em rizotrons, o Stimulate® promoveu nas plantas de feijoeiro sistemas
radiculares mais desenvolvidos, apresentando raízes mais vigorosas com
massa seca, crescimento e comprimento total superiores aos encontrados nas
plantas não tratadas (Figura 2). Essa condição possibilita uma melhor e maior
exploração dos recursos disponíveis no solo como água e nutrientes minerais.
85,0

75,0

� 65,0
,[
.E 55,0
à:i
(.')
y = 2,3571x + 65,19
R2 = 0,8191
45,0

0,0 1,0 2,0 3,0 4,0 5,0

Stimulate (mL/0,5kg sementes)


Figura 1. Modelo de regressão linear para a variável germinação de sementes
de feijoeiro (Phaseolus vulgaris L.) sob seis concentrações de
Stimulate®.

1.0

:§ 0.8

o
� 0.6
N
·m
n::
� 0.4 y = 0,0476:x+ 0,6229

m
� 0.2
R:=0,6920

O.O -t-----,-----.----r-----.------.
O.O 1.0 2.0 3.0 4.0 5.0
stimulate (ml/0,Skg sementes)

Figura 2. Modelo de regressão linear para a variável massa seca de raiz no 16º
DAS de plantas de feijoeiro (Phaseo/us vu/garís L.) sob seis
concentrações de Stimulate®.

Com relação ao número de vagens e grão por planta, o Stimulate® nas


concentrações de 2,4ml e 2,3ml por 0,5kg de sementes, respectivamente,
60

aumentou o número de drenes (vagens e grãos) nas plantas de feijoeiro,


afetando positivamente a produtividade das plantas (Figuras 3 e 4).
A massa seca de grãos por planta foi máxima na concentração de 2,5ml
do Stimulate® para 0,5kg de sementes, essa concentração proporcionou a
maior produção de massa de grãos por planta em comparação ao controle,
correspondendo a um aumento de 35,8% (Figura 5).
28, 0

25, 0

22, 0
1

., 19, 0

., y = 2 0 , 116 0 + 4, 0973x - 0 ,8438x 2
-�
2
R2 = 0,9145
16, 0

ll,0 1,0 2, 0 3,0 4,0 5,0

Stimulate (mL/0,5kg sementes)

Figura 3. Modelo de regressão linear para a variável número de vagens por


planta de feijoeiro (Phaseo/us vulgaris L.) sob seis concentrações de
Stimulate®.

145,0

130,0

o:,:_2 115,
,u
0

e,
.,
� 1 0 0, 0
y = -5, 0268x 2 + 23,427x + 1 08,55
-� R2 = 0 ,8218
z
85, 0

0,0 1, 0 2, 0 3,0 4, 0 5,0

Stimulate (mL/0,5kg sementes)

Figura 4. Modelo de regressão linear para a variável número de grãos por


planta de feijoeiro (Phaseolus vulgaris L.) sob seis concentrações de
Stimulate®.

A produtividade das plantas tratadas com Stimulate® nas concentrações


entre 2 e 3ml por 0,5kg de sementes, foi incrementada significativamente em
61

relação ao controle. Notando-se que concentrações mais elevadas tendem a


causar um decréscimo na mesma, igualando-se ao controle (Figura 5).
Além de uma série de trabalhos de campo terem comprovado o efeito
favorável do Stimulate® no desenvolvimento e produtividade das plantas de
feijoeiro, podemos considerar que em regiões de utilização de alta tecnologia
no sistema de produção do feijoeiro, como em Unaí-MG, Stimulate® encontra­
se incorporado ao sistema de produção da cultura, demonstrando a
importância e a eficácia desse bioestimulante na produtividade de feijão.

40 , 0

i
.!l!
5
3 ,
0

� 30, 0

25, 0
Q)

""
o
y = 26,4199 + 7,7552x - 1,5898x 2
Q)

R2 = 0,8449
"'
20,0
(/)


(/)

0,0 1,0 2, 0 3,0 4,0 5,0

Stimulate (ml/0,5kg sementes)

Figura 5. Modelo de regressão linear para a variável massa seca de grãos por
planta de feijoeiro (Phaseolus vu/garis L.) sob seis concentrações de
Stimulate®.

5 Referências bibliográficas
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gibberellic acid, urea and sugar sprays. Plant Physiology, v.35, p.285-288,
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63

PROBLEMAS NEMATOLÓGICOS NA CULTURA DO FEIJÃO


IRRIGADO

Luiz Carlos C. B. Ferraz1

1 Introdução
A cultura do feijão comum (Phaseo/us vulgaris L.), nos sistemas de
cultivo de sequeiro e irrigado, está sujeita a diferentes tipos de problemas de
ordem sanitária, causados por pragas (ácaros e insetos), agentes causais de
doenças (bactérias, fungos e vírus) e nematóides. Muitas vezes, de modo a
agravar a situação e provocar perdas ainda mais vultosas, tem-se ocorrência
simultânea de vários desses organismos daninhos nas lavouras.
Dentre as fabáceas (leguminosas), o feijão é uma das espécies mais
suscetíveis aos ataques por nematóides fitoparasitos em todo o mundo. No
Brasil, em levantamento realizado em municípios produtores da Zona da Mata
(MG) durante a década de 1970 (Freire & Ferraz, 1997), há mais de 30 anos, já
se encontraram lavouras infestadas, entre outros, por espécies pertencentes
aos gêneros Criconemella, He/icotylenchus, Hemicycliophora, Me/oidogyne,
Paratrichodorus, Pratylenchus, Rotylenchulus e Xiphinema. Mais tarde, no
início da década de 1990, uma outra espécie sabidamente parasita do feijoeiro
foi introduzida no País, qual seja, Heterodera g/ycines, o chamado nematóide
de cisto da soja. Nas Américas, os nematóides "de galhas", do gênero
Meloidogyne, e "das lesões radiculares", do gênero Pratylenchus, têm sido
considerados os de ocorrência mais comum na cultura, com registros de
perdas no rendimento variáveis de 1 O a 50% para Praty/enchus spp. e de 50 a
90% para Meloidogyne spp. (Agudelo, 1980).
No cultivo tradicional de sequeiro, em certas áreas nacionais de
produção, a incidência de altas temperaturas associada a longo período de
seca e uns poucos meses de chuvas durante o ano ajudou a mascarar, por
décadas, os efeitos adversos decorrentes dos ataques por nematóides,
principalmente por espécies de Meloidogyne. Nessas condições, esses
nematóides conseguiam aumentar rapidamente seus níveis populacionais
durante os meses chuvosos em que se tinha a cultura no campo, causando
danos pequenos a moderados na maioria das vezes. No entanto, depois, no
longo pousio que se seguia, imposto pela escassez ou ausência de chuvas, as
populações voltavam a decrescer naturalmente, reduzindo-se a níveis
baixíssimos no solo. Isso porque os nematóides são animais basicamente
aquáticos, necessitando teores mínimos de umidade no ambiente para
poderem sobreviver; nas lavouras, valem-se do filme de água existente entre
as partículas do solo para poderem se estabelecer e subsistir. Nessas regiões,
a prolongada e usual estiagem assegurava, portanto, um relativo, mas
eficiente, controle natural dos nematóides. Com o advento do sistema de
cultivo irrigado, em que se passou a dispor de suprimento de água regularizado
ao longo de todo o ano, na medida das necessidades das plantas, a dificuldade
experimentada pelos nematóides praticamente deixou de existir, as populações
no solo estabilizaram-se em patamares elevados e os efeitos danosos
resultantes de infestações severas tornaram-se bem mais evidentes.

1
Engº Agr', Ph.D., ESALQ/USP/Piracicaba - lccbferr@[Link].
64

Na seqüência, serão tratados objetivamente alguns dos aspectos mais


relevantes dos problemas devidos a nematóides no cultivo do feijão irrigado no
Brasil, destacando-se as nematoses causadas por Me/oidogyne spp.,
Pratylenchus spp. e Heterodera g/ycines.

2 Nematóides de galhas (gênero Meloidogyne)


Várias espécies do gênero Meloidogyne podem parasitar o feijoeiro
comum, sendo M. incognita e M. javanica as mais importantes do ponto de
vista econômico. Ataques por M. arenaria são menos freqüentes, embora
danos apreciáveis possam ocorrer; relativamente pouco se sabe sobre os
efeitos adversos decorrentes de associações eventuais entre outras espécies -
M. hapla, M. paranaensis, M. mayaguensis - e o feijoeiro até o momento.
Os nematóides de galhas predominam em solos arenosos, bem
drenados e com temperatura média entre 25 º C e 30º C (Ferraz & Santos, 1993).
O ciclo biológico compreende ovo, quatro estágios juvenis e adultos (macho e
fêmea), sendo a partenogênese a forma de reprodução prevalecente entre as
espécies mais importantes; uma geração completa-se, sob condições
favoráveis, em 18 a 25 dias e cada fêmea pode originar até 400-500 ovos,
depositados no interior de massa gelatinosa. Por esses dados, pode-se avaliar
o potencial de crescimento populacional desses nematóides, com 3 a 4
gerações durante um único ciclo de produção do feijoeiro. Apenas as fêmeas,
globosas e esbranquiçadas, podem ser vistas a olho nu, quando removidas do
interior das raízes parasitadas e colocadas sobre superfície de cor escura.
As espécies de Meloidogyne são endoparasitas sedentárias, ou seja, os
seus juvenis infectantes, de corpo esguio, penetram totalmente nas raízes e
fixam-se a um local apropriado para a alimentação, ali desenvolvendo-se até
tornarem-se fêmeas obesas; com isso, perdem a capacidade de se
movimentar. Como resultado da injeção de toxinas produzidas pelos
nematóides, as raízes atacadas passam a exibir engrossamentos típicos
referidos como galhas. O diâmetro das galhas pode variar muito, em função da
espécie de Meloidogyne e da planta hospedeira envolvidas; no caso do
feijoeiro comum, costumam ser grandes, bem visíveis. No interior das raízes, o
parasitismo leva a deformações graves (principalmente tumores) no cilindro
vascular, dificultando tanto a tomada inicial de água e nutrientes como a
posterior translocação dos fotoassimilados. Além da presença de galhas, as
plantas parasitadas no geral mostram sistema radicular pobre, com reduzido
número de radicelas. Na parte aérea, observa-se quadro de sintomas reflexos
caracterizado por: (i) infestação na forma de manchas ou "reboleiras",
constituídas de plantas de tamanho desigual, devido ao fato de os nematóides
distribuírem-se irregularmente no terreno; (ii) enfezamento ou nanismo de
plantas; (iii) murcha nas horas mais quentes do dia; (iv) clorose ou outros
indicativos de deficiências (desequilíbrios) nutricionais; e (v) queda progressiva
de produtividade.
Os agentes ou meios mais comuns e relevantes de disseminação dos
nematóides de galhas são a água (de chuvas, na forma de enxurradas, ou de
irrigação), as práticas culturais que envolvem movimentação do solo (aração,
gradeação), principalmente quando úmido, e o trânsito, excessivo e sem
qualquer tipo de controle, de maquinaria agrícola e/ou veículos em geral
através da propriedade.
65

As espec,es M. incognita e M. javanica são polífagas, com largos


círculos de plantas hospedeiras, inclusive daninhas, o que lhes dificulta
bastante o controle. Relativamente poucas são as culturas de interesse
econômico que não são atacadas por essas duas espécies (= plantas não
hospedeiras), ou que lhes são resistentes, possibilitando a penetração, o
desenvolvimento e a reprodução nas raízes, mas em níveis muito restritos. O
amendoim e as crotalárias incluem-se nesse grupo muito seleto; certas
cultivares de milho também. Já o algodoeiro é resistente apenas a M. javanica.

3 Nematóides das lesões radiculares (gênero Pratylenchus)


No caso desse grupo, a espécie que tem sido normalmente associada
ao feijoeiro causando danos e perdas, nos diferentes sistemas de cultivo, é
Pratylenchus brachyurus. Outras, como P. zeae, embora identificadas muitas
vezes em áreas de produção infestadas, no geral não parasitam o feijoeiro mas
sim plantas eventualmente rotacionadas no local, em especial gramíneas.
Os nematóides das lesões radiculares também são mais freqüentes em
solos arenosos, bem drenados e com temperatura média entre 25º C e 30º C.
Na espécie P. brachyurus, o ciclo biológico compreende ovo, quatro estágios
juvenis e adultos (fêmeas e raramente machos), sendo a partenogênese a
forma usual de reprodução; uma geração completa-se, sob condições
favoráveis, em 21 a 28 dias e cada fêmea origina de 70 a 100 ovos,
depositados isoladamente no solo ou no interior das raízes atacadas. Tendo o
corpo sempre esguio, vermiforme, e medindo apenas 0,6-0,8 mm de
comprimento, os espécimes não podem ser vistos a olho nu.
As espécies de Pratylenchus são endoparasitas migradoras, ou seja, os
seus exemplares Uuvenis ou fêmeas), de corpo esguio, penetram totalmente
nas raízes e movimentam-se constantemente ao longo do córtex alimentando­
se sobre diferentes células ali ocorrentes; como conservam a forma esbelta e
alongada por toda a vida (diferentemente de Meloidogyne), não perdem a
capacidade de se movimentar e são encontrados tanto no solo como nas
raízes. Como resultado da intensa movimentação e da injeção de toxinas pelos
nematóides, muitas células morrem e as raízes atacadas passam a exibir áreas
descoloridas, de tonalidade amarronzada ou enegrecida, conseqüentes à fusão
das numerosas lesões necróticas decorrentes de tal ação patogênica. Embora
normalmente o parasitismo fique limitado à camada cortical, a acentuada
desorganização observada nas raízes severamente atacadas, aliada a
infecções secundárias por fungos ou bactérias, acaba dificultando a absorção
de água e nutrientes. Assim, as plantas parasitadas no geral mostram sistema
radicular pobre, com reduzido número de raízes finas; as radicelas comumente
evidenciam áreas escurecidas em alternância com outras de aparência normal.
Não há galhas ! Na parte aérea, observa-se o mesmo quadro de sintomas
reflexos descrito para o gênero Meloidogyne.
Pratylenchus brachyurus é espécie polífaga, desenvolvendo-se e
multiplicando-se bem em grande número de plantas cultivadas, especialmente
gramíneas (milho, milheto, sorgo). Tem sido associada também a prejuízos em
cultivas de leguminosas, como soja e feijão, embora com menor freqüência. Na
verdade, perdas expressivas nessas duas culturas parecem estar mais ligadas
a situações de campo em que ocorrem níveis populacionais muito elevados do
nematóide no solo antes do plantio. Crotalárias são imunes (Crotalaria
breviflora, C. grantiana, C. lanceo/ata, C. mucronata, e. pai/ida, C. paulina, C.
66

retusa, C. striata) ou altamente resistentes (C. juncea, C. spectabilis) ao


nematóide (Silva et ai., 1989), estas últimas atraindo exemplares e permitindo­
lhes a penetração nas raízes, mas muito raramente propiciando o
desenvolvimento até fêmeas adultas e, conseqüentemente, a reprodução (Silva
et ai., 1989).

4 Nematóide de cisto da soja (Heterodera glycines)


Este nematóide vem causando grandes prejuízos à sojicultura em países
asiáticos (Japão, China e Coréia, entre outros) há quase um século e nos
Estados Unidos desde meados da década de 1950. No Brasil, foi primeiro
assinalado na safra 1991-1992, simultaneamente em três diferentes estados
(MG, MS, MT); hoje, encontra-se disseminado em praticamente todas as áreas
produtoras nacionais.
Trata-se de espécie também melhor adaptada a solos arenosos, com
desenvolvimento adequado principalmente na faixa de 23 a 28 º C. O ciclo
biológico completa-se em 21 a 24 dias nessa faixa térmica (Tihohod & Santos,
1993). A reprodução ocorre por anfimixia, podendo uma fêmea ser fertilizada
por vários machos durante o acasalamento. As fêmeas são sedentárias, como
as de Meloidogyne, e têm também o corpo obeso, mas em forma de limão,
ficando apenas com a parte anterior (afilada) presa à raiz e a posterior
(alargada) fora dela. Pelo fato de terem coloração clara, esbranquiçada, são
visíveis a olho nu até com alguma facilidade. Cada fêmea origina cerca de 400-
450 ovos normalmente, sendo que apenas 1O a 15% deles são lançados para
fora do corpo, no interior de pequena massa gelatinosa; os restantes, ao redor
de 80 a 85% do total, ficam retidos nos dois úteros, que se expandem muito e
acabam por causar a morte da fêmea. Tais fêmeas, já mortas e com os corpos
repletos de ovos, são chamadas de cistos, desprendendo-se das raízes
durante a colheita mecânica da soja e podendo permanecer no solo das áreas
infestadas, como fontes de inóculo, por vários anos.
É chamado também de "nematóide do nanismo amarelo", pelo fato de as
lavouras de soja atacadas apresentarem típicas reboleiras de plantas
fortemente enfezadas, muito pouco crescidas, e com folhas bem amareladas.
As perdas são dependentes dos níveis populacionais do parasito no solo e do
grau de suscetibilidade das cultivares plantadas, podendo chegar a 70-80% em
certos casos.
A razão de se incluir este nematóide entre as formas potencialmente
daninhas ao feijão irrigado deve-se ao fato de que H. glycines tem círculo de
hospedeiros considerado restrito, porém incluindo preferencialmente
leguminosas e, dentre estas, quase todos os tipos de feijão de interesse
comercial. Pesquisa inicial conduzida no Brasil (Becker, 1997) já possibilitou
verificar que a grande maioria das variedades cultivadas de feijão (sequeiro ou
irrigado) utilizadas mostrou-se suscetível ao nematóide, identificando-se umas
poucas como moderadamente suscetíveis e apenas a linhagem L-2300,
classificada como moderadamente resistente, como promissora do ponto de
vista de melhoramento genético. Um outro estudo (Becker et ai., 1998),
envolvendo a cultivar Ouro, evidenciou com detalhes as severas deformações
resultantes nas raízes das plantas parasitadas.
Portanto, em relação ao feijão irrigado, a maior preocupação está ligada
à possibilidade eventual de implantação de novas lavouras em áreas antes
destinadas à sojicultura e que tenham histórico recente de ocorrência de H.
67

glycines no local. Embora ainda não se disponha de dados no Brasil a respeito


da extensão dos danos causados por essa espécie ao feijão irrigado sob
condições de campo, a julgar pelo efeito devastador comumente apresentado
nas plantações de soja deve-se cogitar ao máximo de medidas que visem a
prevenir tais situações.

5 Medidas de controle
Resumindo o que foi até aqui tratado, tem-se os nematóides de galhas -
M. incognita e M. javanica - como os mais sérios responsáveis por problemas à
cultura do feijão em cultivas de sequeiro ou irrigado no País, seguindo-se o
nematóide de lesões radiculares, P. brachyurus, como causador eventual de
perdas expressivas e, por fim, o nematóide de cisto da soja, H. g/ycines, como
espécie de importância potencial para a cultura no momento. Isso posto, vamos
comentar resumidamente as possíveis medidas de controle desses
nematóides.
5. 1 Heterodera g/ycines
Com referência a H. glycines, o ideal será sempre evitar a formação de
novas lavouras de feijão em locais que serviram recentemente ao cultivo de
soja. Sendo de interesse muito grande o plantio em tais áreas, proceder então,
obrigatoriamente, à coleta de amostras de solo no local visando à possível
detecção e quantificação de cistos ou juvenis ativos do nematóide em
laboratórios especializados. Caso a espécie esteja presente, evitar o plantio ou,
em último caso, proceder ao cultivo preliminar na área, por dois a três anos,
com hospedeiros comprovadamente muito desfavoráveis, resistentes, como
milho, girassol, sorgo, amendoim, crotalárias, algodão, arroz, trigo ou fumo,
entre outros (7). Vale acrescentar que o controle químico não é eficiente para
essa espécie de nematóide porque os cistos representam barreira quase
intransponível aos produtos nematicidas aplicados, oferecendo ótima proteção
aos ovos.
5.2 Nematóides de galhas
Em relação aos nematóides de galhas, há várias técnicas de controle
que poderiam ser mencionadas. Entretanto, em termos práticos, apenas
algumas são empregadas no Brasil, podendo umas poucas serem cogitadas no
caso da cultura do feijão irrigado.
Mais uma vez deve-se destacar que o ideal será sempre a adoção de
medidas preventivas, ou seja, tentar implantar a cultura em áreas não
infestadas, haja vista a reconhecida suscetibilidade do feijoeiro frente às
espécies de Meloidogyne. Para tanto, a realização de análises nematológicas a
partir de amostras de solo e/ou raízes coletadas no campo é essencial. Caso
os nematóides não estejam presentes, o cultivo poderá ser iniciado, mas
restará atentar, ainda, a medidas que objetivem evitar a introdução posterior
deles na área. Por outro lado, a eventual identificação prévia de M. incognita
e/ou M. javanica no local deve servir de alerta relevante, indicando claramente
a ocorrência futura (muitas vezes apenas dois a três anos depois) de perdas
nas safras de feijão irrigado, caso ali se implante sistema de produção que
inclua a cultura. Se ainda assim for da conveniência do produtor estabelecer a
cultura na área, deverá ocupá-la, preliminarmente, por pelo menos dois a três
anos, com hospedeiros resistentes (amendoim, crotalárias, entre outros); se
puder aguardar mais tempo, pastagem com braquiária poderia ser utilizada.
68

Infelizmente, não se dispõe, até o momento, de cultivares de feijão com


alta resistência a nematóides de galhas, principalmente em relação a M.
incognita, que pudessem sustentar um programa básico de manejo na cultura
do ponto de vista de controle varietal. Há apenas indicação de que esparsas
cultivares, como Aporé e POT 51, podem constituir boas fontes de resistência a
M. javanica, embora a maioria das linhagens obtidas recentemente a partir
delas tenha se mostrado suscetível (Carneiro et ai., 2003). Em vista disso,
quando, por diferentes razões, o produtor verifica tardiamente que está
enfrentando sérias dificuldades com nematóides de galhas nas suas áreas de
produção de feijão, resta apenas aprender a conviver com tais parasitas, pois
erradicá-los é praticamente impossível. Na verdade, o que se busca nessas
situações são alternativas que permitam manter as populações de Meloidogyne
presentes no solo logo antes do plantio do feijoeiro tão baixas que não
cheguem a afetar significativamente o crescimento e a produtividade da cultura.
Considerando que o sistema de cultivo de feijão irrigado sob pivô central
costuma incluir rotação com uma gramínea (comumente o milho, mas podem
ser outras), a primeira ação deve estar dirigida à escolha de cultivares dessa
cultura que sejam resistentes a(s) espécie(s) de Meloidogyne ocorrente(s) no
local, o que será fundamental para se ter redução no nível populacional dos
parasitas durante o período em que esteja ali plantada. Há dois aspectos
importantes a serem aqui ressaltados em relação à associação milho­
Meloidogyne. O primeiro refere-se ao fato de que plantas de milho, mesmo
quando bem atacadas, no geral não evidenciam galhas visíveis nas raízes
(Asmus at ai., 2000), podendo tal infestação passar totalmente despercebida
ao agricultor. O segundo diz respeito ao fato de que há muitas cultivares de
milho que são tolerantes a M. incognita e/ou a M. javanica, isto é, mesmo
sendo parasitadas pelos nematóides e permitindo a reprodução deles em suas
raízes, conseguem produzir de modo bastante satisfatório, não mostrando
sinais claros de declínio vegetativo; esse é um grande problema, pois o milho,
nesses casos, tanto cumpre papel benéfico em termos de ciclagem de
nutrientes no solo e por ser fonte de renda ao produtor, como atua de forma
extremamente negativa do ponto de vista de hospedar e assegurar boa
multiplicação aos nematóides de galhas em suas raízes. Em resumo, se o
milho plantado (entre dois cultivas de feijão) for suscetível ou mesmo tolerante
a M. incognita ou M. javanica, a população do nematóide no solo terá
condições de se manter relativamente elevada e ser suficientemente alta, logo
após a colheita, para determinar graves danos ao crescimento das plantas de
feijão que ali vegetarem subseqüentemente.
Dada a relevância de se conhecer o tipo de reação das cultivares de
milho frente a M. incognita e M. javanica para fins de manejo, a partir da
década de 1980 iniciaram-se os estudos no Brasil visando a caracterizar tal
comportamento (Felli & Monteiro, 1987; Lordello et ai., 1989, Brito & Antonio,
1989). Nos últimos anos, tais pesquisas intensificaram-se muito (Werlang et ai.,
1998; Medeiros et ai., 2001; Manzotte et ai., 2002; Moritz et ai., 2003; Lordello
et ai., 2001). Na Tabela 1, estão incluídos alguns dados sobre o assunto,
ilustrativos apenas de pequena parte do total de linhagens e cultivares já
avaliadas experimentalmente. Para conhecimento das listas completas de
reações mostradas pelos genótipos, deve-se consultar os trabalhos originais,
que estão referidos na literatura citada. Os resultados já disponíveis revelam a
69

existência de várias cultivares resistentes a M. javanica, mas uma quase total


falta de opções quando se trata de M. incognita.
Uma técnica cultural, que vem sendo chamada de "alqueive úmido"
(Outra et ai., 2003, Outra & Campos, 2003), tem-se mostrado promissora em
avaliações iniciais de controle de Meloidogyne spp. em áreas de produção de
alface, quiabo e feijão irrigado. Baseia-se na observação de que a aplicação de
água (irrigação) no local de plantio na ausência do hospedeiro e sob
temperaturas relativamente altas, pode ser usada para aumentar a mortalidade
de juvenis dos nematóides de galhas no solo. Em resumo, numa área infestada
sob estresse hídrico (por ser época não chuvosa ou suspensão intencional da
irrigação), após certo tempo do término do último ciclo da cultura, existem
muitos ovos do nematóide no solo em cujo interior os juvenis J2 infectantes já
conseguiram completar o desenvolvimento, mas que não eclodem, devido à
falta de condições mínimas de umidade externamente. Se, nessa ocasião, for
realizado revolvimento do solo (aração) seguido de imediata irrigação, deverá
ocorrer maciça eclosão de juvenis, que ficarão migrando no solo em busca de
raízes de plantas suscetíveis, sem sucesso. Tal condição, se mantida por duas
semanas, no mínimo, tem se mostrado suficiente para causar elevada
mortalidade e/ou acentuada perda de infectividade dos juvenis, haja vista que
consomem, durante esse período, grande parte das reservas de lipídios
acumuladas no corpo movimentando-se ativamente no solo. O plantio de feijão
irrigado (bem como alface e quiabo) após essas duas semanas, nos estudos
de campo conduzidos, proporcionou produções bem superiores que em áreas
experimentais contíguas onde o solo não foi revolvido nem irrigado. Tal prática
ainda está sendo avaliada em condições mais variadas e, como qualquer
técnica em que "prepara uma armadilha" aos nematóides, requer constante
monitoramento e rigorosa aplicação dos procedimentos expostos pelo produtor
para poder ter êxito.
Outra possibilidade é o uso de controle químico, pela utilização de
nematicidas. Num raro estudo nacional a respeito, bem recente {Senô &
Lusvarghi Sobrinho, 2001 ), envolvendo combate a Meloidogyne spp. em lavoura
de feijão irrigado 'Pérola' em Guaíra (SP), obtiveram-se acréscimos de
produção variáveis entre 20 e 26% nas parcelas tratadas (aldicarbe, carbofuran
e terbufós) em relação às testemunhas não tratadas. Aplicados nas épocas
recomendadas e doses corretas, os produtos disponíveis no mercado brasileiro
já mostraram ser eficientes no controle de nematóides de galhas. Há de se
lembrar, no entanto, que protegem apenas temporariamente as plantas (no
início do ciclo vegetativo, quando o sistema radicular está sendo formado) da
ação patogênica dos nematóides, ocorrendo ressurgência rápida da população
destes após o término da ação residual dos produtos no solo; como não ocorre
erradicação ou eliminação dos vermes da área infestada, estabelece-se
dependência de uso dos nematicidas a cada safra de feijão, ano após ano, o
que demandará análises econômicas periódicas para avaliar a exeqüibilidade
econômica do método. Outro aspecto a destacar, caso se pretenda
implementar o controle químico, é a necessidade de verificar se o produto
cogitado está com o registro para uso na cultura do feijão regularizado, em
vigência e devidamente atualizado junto aos órgãos oficiais competentes.
Modernamente, tem sido enfatizado o uso do chamado "manejo
integrado" visando ao controle de nematóides de galhas, ou seja, elaboração
de estratégias de combate que priorizem o emprego de associações de
70

métodos em detrimento de medidas isoladas. É o que poderá ser feito no caso


do feijão irrigado, combinando-se, de forma equilibrada, a utilização de
métodos como a rotação, a resistência genética varietal (nos casos do milho e
do próprio feijão), a incompatibilidade hospedeira (no caso de culturas
antagonistas, como as crotalárias) e a aplicação de produtos com ação
nematicida.
Tabela 1. Reação de cultivares de milho frente a Me/oidogyne incognita e/ou M.
javanica baseada em valores do fator de reprodução (FR) obtidos em
estudos de casa de vegetação.

genótipo de milho
Meloidogyne incognita Meloidogyne javanica
FR 1 Reação2 Fonte3 FR Reação Fonte
Tork 7,1 [r1] S (Moritz et ai., 2003) 0,2 R (Manzotte et ai., 2002)
Tork 25,1 [r3f S (Moritz et ai., 2003)
AG 7575 21,8 [r1] S (Moritz et ai., 2003)
AG 7575 59,6 [r3] S (Moritz et ai., 2003)
AG 5011 17,5 [r3] S (Lordello et ai., 2001)
AG 5016 0,0 R (Manzotte et ai., 2002)
AG 6016 1,8 S (Manzotte et ai., 2002)
AG 9010 3,7 S (Manzotte et ai., 2002)
Cargill 909 3,5 S (Medeiros et ai., 2001)
BRS1001 8,2 [r1] S (Moritz et ai., 2003)
BRS1001 23,7 [r3] S (Moritz et ai., 2003)
CMS35 3,7 S (Medeiros et ai., 2001)
CMS43 2,8 S (Medeiros et ai., 2001)
DKB 350 15,7 [r3] S (Moritz et ai., 2003)
BR 3123 0,3 R (Manzotte et ai., 2002)
BR 3123 2,5 S (Medeiros et ai., 2001)
BR 5037 3,1 S (Medeiros et ai., 2001)
BR 206 4,9 [r3] S (Lordello et ai., 2001)
Pioneer 3051 16,0 [r3] S (Lordello et ai., 2001)
Premium 0,6 R (Manzotte et ai., 2002)
XL 220 18,1 [r3] S (Lordello et ai., 2001)
XL 221 0,6 R (Manzotte et ai., 2002)
XL 340 4,0 S (Manzotte et ai., 2002)
IAC Taiúba 5,9 [r3] S (Lordello et ai., 2001)
PC 9502 3,6 [r1] S (Moritz et ai., 2003)
Master 0,2 R (Manzotte et ai., 2002)
1. FR = População final (ovos)/Pop. inicial (ovos); FR 2 1,0 = suscetível e FR < 1,0 = resistente.
2. S = suscetível; R = resistente.
3. Consultar a literatura citada.
*. Onde: r1 = raça 1 e r3 = raça 3.

5.3 Pratylenchus brachyurus


Finalmente, com relação a P. brachyurus, é preciso lembrar que tal
espécie por vezes torna-se problema mais sério pelo fato de que tem tanto no
feijão como no milho dois hospedeiros usualmente bastante favoráveis, ou
muito suscetíveis, em especial o milho. Em função disso, seja sob condição de
monocultivo com feijão ou em regime de rotação sob pivô, o nível populacional
do parasito no solo pode crescer progressivamente e estabilizar-se em patamar
tão alto em certas áreas, após algum tempo, que venha a comprometer, de
71

modo mais ou menos acentuado, a produtividade das culturas, em particular a


do feijão. Como dito para os nematóides de galhas, uma opção possível seria o
controle químico, com aplicação de nematicidas; os pontos positivos e
negativos de tal técnica já foram mencionados. Outra alternativa, lembrada até
com maior freqüência, seria o plantio de crotalárias em lugar do feijão nas
áreas identificadas como "problemáticas", de tempos em tempos. Tais plantas,
embora no geral não possibilitem obtenção de renda, funcionam como adubos
verdes e promovem reduções marcantes nas populações não apenas de P.
brachyurus como também de M. incognita, M. javanica e até de certas raças de
H. g/ycines (Schwan et ai., 2003).

6 Referências bibliográficas
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72

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73

MICRONUTRIENTES E PRODUTIVIDADE DO FEIJOEIRO

José Laércio Favarin 1

1 Introdução
A composição química da planta é constituída, em média, por 96 % de
substâncias orgânicas e 4 % de substâncias minerais. Entre as substâncias
orgânicas o carbono responde por 45 %, oxigênio 45 % e hidrogênio 6 %,
sendo os nutrientes separados, quantitativamente, em duas categorias, os
macronutrientes: nitrogênio (N), fósforo (P), potássio (K), cálcio (Ca), magnésio
(Mg) e enxofre (S) expressos em [Link]-1; e os micronutrientes: cloro (CI), ferro
(Fe), manganês (Mn), zinco (Zn{' cobre (Cu), molibdênio (Mo), cobalto (Co) e
níquel (Ni) expressos em [Link]- .
A classificação dos nutrientes de acordo com o papel fisiológico e
bioquímico seria mais adequada, pois a denominação de macro e
micronutrientes indicam somente a concentração relativa no tecido vegetal,
sem qualquer significado biológico (Mengel & Kirkby, 1987).
O uso racional dos micronutrientes depende do conhecimento dos teores
disponíveis no solo, das condições físico-químicas que afetam a sua
solubilidade e o estado nutricional das plantas, avaliada por meio da análise
foliar.
Do ponto de vista agronômico o entendimento das condições que afetam
a disponibilidade e as funções exercidas no metabolismo vegetal, são
conhecimentos complementares que não implicam na desconsideração dos
resultados das pesquisas e das observações "in loco", como as experiências
acumuladas pelos técnicos e agricultores.
Ressalte-se que o uso dos micronutrientes pressupõe a correção e a
manutenção dos teores dos macronutrientes e o controle de outros fatores
abióticos e bióticos, que afetam a produção com intensidade superior aos
micronutrientes. Como esperar "uso racional" em sistemas de produção que
ainda não controlam, eficientemente, a competição pelo mato e os danos
provocados pelos desequilíbrios biológicos? Quando a irrigação não atende a
demanda da cultura, seria "racional" e haveria resposta aos micronutrientes? A
resposta a estas e outras perguntas é simples - não é possível obter vantagens
quantitativas ou qualitativas enquanto estas condições prevalecerem.
Feitas estas ponderações pode se afirmar que o fornecimento dos
micronutrientes é uma técnica promissora, conforme evidenciam inúmeros
trabalhos realizados sobre o assunto, e que serão apresentados neste trabalho.
Cabe mencionar que muitas vantagens advindas do fornecimento dos
micronutrientes não são observadas, às vezes, por aumentos de rendimentos,
mas na qualidade do produto colhido, na sanidade das plantas e na resistência
às doenças (Fancelli, 2003).

1
Engº Agr°, Ph.D., professor associado, ESALQ/USP, Departamento de Produção Vegetal, Av.
Pádua Dias 11, caixa postal 09, 13418-900-Piracicaba-SP, e-mail: pjchrist@[Link].
74

2 Diagnósticos dos micronutrientes no solo


Para uma interpretação adequada dos resultados da análise química de
solo é fundamental o uso de extratores eficientes.
Deve ser ressaltado que não existe uma padronização oficial sobre
extratores, havendo muitos entraves para a sua seleção, por falta de solos com
teores variáveis desses nutrientes, compreendendo as diferentes faixas que
possibilitem os estudos (Abreu et ai., 1997).

Tabela 1. Limites para a interpretação dos teores de micronutrientes no solo


para várias regiões do Brasil em razão dos extratores adotados.
Boro Cobre Ferro Manganês Zinco
teores
mg dm-3
H2 0 quente DTPA1
baixo < 0,20 <0,2 < 4 < 1,2 < 0,5
médio 0,20-0,60 0,3-0,8 5-12 1,3 -5,0 0,6-1,2
alto > 0,60 > 0,8 > 12 > 5,0 > 1,2
H2 0 quente MEHLICH 12
baixo <0,5 < 0,3 < 2,5 < 2,0
médio 0,5-1,0 0,3-0,6 2,5-5,0 2,0-4,0
alto > 1,0 > 0,6 > 5,0 > 4,0
H2 0 quente MEHLICH 13
baixo < 0,20 < 0,4 < 1,9 < 1,0
médio 0,3-0,5 0,5-0,8 2,0-5,0 1,1-1,6
alto > 0,5 > 0,8 > 5,0 > 1,6
H2 0 quente MEHLICH 14
muito < 0,15 < 0,3 <8 <2 < 0,4
baixo
baixo 0,16-0,35 0,4-0,7 9-18 3-5 0,5 -0,9
médio 0,36-0,60 0,8 -1,2 19-30 6 -8 1,0-1,5
bom 0,61-0,90 1,3-1,8 31-45 9-12 1,6-2,2
alto > 0,90 > 1,8 > 45 > 12 > 2,2
4
'Raij et ai. (1996); 2Thung e Oliveira (1998); 3Lopes (1999); Ribeiro et ai. (1999).

A falta de concordância sobre os critérios de separação dos resultados


em classes de teores para os macronutrientes dá uma idéia da dificuldade
quando se tratam dos micronutrientes, pela dificuldade de conduzir, em
condições de campo, ensaios para a calibração da análise de solo (Abreu et
ai., 1997). Por estas e outras razões devem ser consideradas os
conhecimentos acumulados com os extratores e as respectivas classes de
interpretação das diferentes regiões (Tabela 1).

3 Ação dos micronutrientes no metabolismo


Com base na preocupação do "uso racional de micronutrientes" será
apresentada a ação desses nutrientes no metabolismo vegetal.
Esta abordagem será utilizada com a finalidade de entender a influência
na produção e ou na qualidade do produto agrícola, bem como para avaliar a
sua inclusão em programas de manejo do solo e nutrição mineral de plantas.
De acordo com Vale & Alcarde (1999) o critério atual com base no teor
total permite que sejam usadas matérias-primas de baixa qualidade,
prejudicando o agricultor e a idoneidade do setor de fertilizantes. Os autores
75

sugerem a adoção do critério de solubilidade em solução de ácido cítrico


20g.L" 1 relação 1: 100, por fervura durante cinco minutos, para expressar a
garantia dos micronutrientes nos fertilizantes, devendo-se também informar a
garantia do teor solúvel em água - semelhante ao método oficial de extração
do fósforo.
3.1 Formação e germinação da semente
A hidratação das sementes em condições normais é rápida devido ao
gradiente de potencial entre o solo e a semente, proporcionada pela
concentração de carboidrato. Estes compostos aumentam com a
transformação do amido (insolúvel) em sacarose (solúvel), a partir da reação
catalizada pela amilase, assim que se dá a embebição das sementes.
A embebição sofre a competição da solução do solo abaixando o
potencial hídrico, quando é aplicado adubo salino no sulco de semeadura.
As espécies que possuem sementes com pequena reserva de
carboidrato são sensíveis à falta d'água e ao efeito salino. Portanto, quanto
maior o teor de açúcar, maior será a capacidade da estrutura reprodutiva de
reduzir o potencial hídrico, comparativamente às sementes com menor
concentração dessa substância (Tabela 2).

Tabela 2. Composição das sementes de algumas espécies de plantas


cultivadas.
Carboidratos Proteínas Lipídios
Cultura
.k -1
Soja 300 400 170
Feijão 560 200 120
Girassol 200 240 470
Trigo 700 130 20
Milho 730 100 50
Sorgo 730 110 30

A semente de feijão, por exemplo, é mais sensível à proximidade do


adubo no sulco de plantio do que a semente de milho e menos sensível que a
semente de soja.
O enriquecimento das sementes em carboidratos durante a fase de
frutificação, em particular na granação depende da espécie e do estado
nutricional em relação à nutrição com magnésio, potássio e boro - nutrientes
que participam da translocação de açúcar.
Na literatura é comumente citado que não se deve usar quantidade
superior a 50 kg ha-1 de K2 0 no sulco de semeadura, em razão dos riscos de
salinidade e desidratação das sementes. De acordo com os resultados de
Vieira e Gomes (1961) essa quantidade é inferior a 40 kg ha-1 (Tabela 3).

Tabela 3. Estanda relativo (%) da cultura do feijão devido ao efeito salino pela
dose de K2O próximo das sementes.
Superfosfato simples K2 0 (kg ha-1)
(kg ha-1) O 42 84
O 100 65 42
300 56 43 35
Fonte: Vieira e Gomes (1961)
76

Esses dados devem ser analisados com critério uma vez que o efeito
salino depende da umidade do solo e da própria semente (Tabela 2). Este
trabalho demonstrou também que a presença de superfosfato simples prejudica
o estande da cultura, embora o índice relativo de salinidade dessa fonte (7,8)
seja muito inferior ao índice salino do cloreto de potássio (116,3). Nesse caso,
é possível que o efeito prejudicial do adubo fosfatado sobre o estande se deve
ao abaixamento excessivo do pH, da ordem de 3, na área de dissolução do
fertilizante fosfatado (Kinjo, 1986).
Do exposto, os fertilizantes contendo K2 O (cloreto de potássio) devem
ser localizados em profundidade para que não afete o potencial osmótico
(Tabela 4). Este procedimento agronômico pode atenuar os efeitos da mistura
sobre a capacidade de embebição da semente, sem prejuízo à germinação e
ao estande da cultura em razão da salinidade e ou do abaixamento excessivo
do pH. A desconsideração dessa medida pode ser agravada quando, após o
plantio, sucede um período de estresse hídrico.

Tabela 4. Efeito da profundidade da adubação sobre o rendimento (kg ha-1) do


feijão de sequeiro e irrigado em razão do efeito salino.
Sequeiro Irrigado
Profundidade do adubo
k .ha-1
Próximo da semente 536 1.156
Sulco de 15 cm 933 1.304
Sulco de 20 cm 848 1.203
Fonte: Kluthcoski et ai. (1982)

As semeadoras com mecanismos distribuidores de adubos do tipo


sulcador ou "botinha" são mais eficientes na distribuição dos fertilizantes em
profundidade, principalmente se for considerado o incremento da área sob
plantio direto, que em razão da presença de resíduos na superfície do solo
dificulta a alocação do fertilizante nos solos argilosos. O uso de implementes
que possibilite a colocação do fertilizante em profundidade promove em,
conseqüência, um maior aprofundamento das raízes por atenuar a resistência
à penetração radicular. Este fato favorece o desempenho das culturas quando
ocorrem veranicos ou falhas na irrigação.
As sementes de soja com teor superior ou igual a [Link]-1 de boro
apresentaram 90 % de germinação e plântulas normais, enquanto teores
próximos a 10mg kg-1 resultaram entre 50 a 80 % de plântulas normais e
germinação inferior a 80% (Rekarsem et ai., 1997). Esse problema pode estar
relacionado com o aumento na concentração de fenóis, uma vez que sob
deficiência de boro há acúmulo de eritrose-4P, açúcar precursor do ácido
chiquímico, importante rota metabólica à produção de compostos fenólicos
(Meyer et ai., 1973; Amorim, 1985).
A peletização com boro provavelmente não inibe a produção de
substâncias endógenas que prejudicam a germinação e ao desenvolvimento
das plântulas, atribuída ao aumento da concentração de fenóis - por
deficiência desse nutriente (B). A baixa concentração de boro na semente e a
peletização em excesso (superior a [Link]-1) causa problema semelhante.
Portanto, o mais indicado, agronomicamente, é o enriquecimento das mesmas
durante a formação e granação, por meio da adubação via solo e ou
suplementada, quando necessário, por aplicações foliares. Para tanto, tem se
77

que considerar a eficiência na absorção foliar e a redistribuição do nutriente na


planta - aspectos pouco conhecidos.
As sementes devem apresentar teores adequados de molibdênio para
maior eficiência biológica na redução de nitrogênio gasoso (N2). Este objetivo,
no entanto, pode ser comprometido quando é fornecido enxofre a cultura em
razão da competição com o molibdênio, reduzindo a concentração do elemento
(Mo) nas folhas das plantas que receberam o nutriente (S). O decréscimo na
concentração de Mo no tecido foliar pelo S decorre da competição direta entre
os íons sulfato e molibdato pelos sítios de adsorção na raiz, devido ao tamanho
semelhante desses nutrientes (Singh & Kumar, 1974 ).

Tabela 5. Redução da concentração de Mo ([Link]-1) foliar em razão do


fornecimento de enxofre.
Aplicação de molibdênio Molibdênio foliar ([Link]-1)
[Link]- 1 Método de aplicação Sem enxofre Com enxofre (60 [Link]-1)
o 2,3 1,7
50 semente 3,6 2,4
50 foliar 11,3 8,7
Fonte: Mac Leod & Gupta (1994)

De acordo com Lantmann (1989) a maior parte do Mo, aproximadamente


70%, é redistribuída das folhas para as vagens na fase reprodutiva e, portanto,
as plantas adequadamente nutridas possibilitariam a formação de sementes
enriquecidas com Mo. Pode-se inferir também que a aplicação foliar contribuiria
com o enriquecimento desse nutriente nas sementes em formação.
3.2 Fixação biológica de nitrogênio • FBN
A fixação biológica pelo feijoeiro, estimada pela técnica da redução do
acetileno, inicia nos primeiros dias após a emergência (estádio V0), alcança
uma taxa elevada aos 1O dias depois da emergência no estádio (V2) e
mantém-se nesses patamares até 25 dias depois da emergência, caindo antes
de iniciar a fase reprodutiva. Este comportamento difere daquele observado na
cultura da soja, uma vez que a FBN nessa cultura aumenta significativamente
na fase reprodutiva.
No intervalo entre a germinação (V0) e a emissão das folhas primárias
(V2), praticamente não há produção de carboidratos pela fotossíntese, que se
dá a partir do desdobramento dessas folhas (V2). Portanto, a energia utilizada
na FBN é, em parte, proveniente da respiração das reservas da própria
semente de feijão durante a germinação.
Esta tese é, parcialmente, confirmada por Stralioto et ai. (2002), os quais
concluíram que o feijoeiro formado a partir de sementes graúdas, com maior
teor de carboidratos, beneficiou a FBN. Nesse trabalho, os autores
conseguiram com a inoculação rendimentos semelhantes a uma adubação com
65 [Link]-1 de N.
As plantas deficientes em boro apresentam menor crescimento das
raízes e comprometimento da nodulação. Nesta condição, aumenta a
sensibilidade da planta ao veranico, possivelmente, devido à morte das raízes
secundárias. Tais constatações explicam a senescência precoce de nódulos,
diminuindo, significativamente, a atividade da nitrogenase em razão da

2 Citado por Mac Leod et ai. ( 1997)


78

sensibilidade ao estresse hídrico (Peres et ai., 1992). A deficiência de boro


pode ter origem na semente e, posteriormente, aumentar pela falta no solo.
As pesquisas não estabeleceram uma relação causa e efeito entre a
diminuição da FBN e a deficiência de água, uma vez que sob deficiência
hídrica diminui também a disponibilidade de carboidratos (Durand et ai., 1987;
Penã-Cabriales & Castellanos, 1993). Esta constatação pode ser explicada
pela realocação da sacarose, forma translocável de carboidrato, das folhas
maduras, caule e ramos para as raízes, visando atender a demanda energética
dos rizóbios, bem como para fornecer energia à manutenção e à renovação
radicular. Uma explicação para a sensibilidade da FBN ao estresse hídrico foi
dada por Campo & Hungria (2002), para os quais a dependência varia com a
concentração de molibdênio nas sementes.
A fixação biológica de nitrogênio (N2) pela atividade da enzima
nitrogenase, que ocorre no interior dos nódulos pode ser descrita conforme a
expressão 1. Este processo demanda grande quantidade de energia química
(ATP), proveniente das rotas respiratórias, sendo o carboidrato (CH20) o
principal substrato.
N2 + rizóbio (N-ase) + 16 ATPs (CH2O} ⇒ 2NH3 + H2O (nódulo)⇒ NH/ (1)
O processo de FBN é aeróbio e realizado por bactérias do gênero
rizóbio, as quais são prejudicadas por alta concentração de oxigênio nos
nódulos. A quantidade de oxigênio deve ser baixa para evitar a inativação da
nitrogenase (Kusma et ai., 1993). A leghemoglobina devido à alta afinidade
com o 02, reage com esse gás e evita seu excesso, semelhante a um sistema
tampão.
A presença de NH4 + pode causar toxidez aos bacterióides e inibir a FBN,
por isso, esses íons são transportados para o citoplasma da célula vegetal até
serem assimilados. O excesso de NH 4 + prejudica as células vegetais,
dissociando a formação de ATP do transporte de elétrons durante a respiração
e a fotossíntese.
As leguminosas (fabáceas) de clima temperado como a ervilha,
transformam o nitrogênio nas raízes no aminoácido asparagina, a soja produz
ureída que é levada aos demais órgãos da planta, enquanto o feijoeiro produz
parte em amida e ureída e parte continua como nitrato (Taiz & Zeiger, 2004).
As ureídas são transportadas para as folhas onde são transformadas em
aminoácidos e, posteriormente, retornam, via vascular, para os rizóbios na
forma de água, açúcares e aminoácidos. Nas plantas deficientes em manganês
as ureídas que chegam às folhas não são assimiladas e retornam ao nódulo na
forma original, sinalizando as bactérias (feedback) a paralisação da FBN.
O cobalto faz parte da cobaiamina (vitamina B12), componente de várias
enzimas nas plantas fixadoras de N, necessária à síntese da leghemoglobina, o
que reforça a interdependência entre a FBN e os micronutrientes Mo e Co.
A utilização de concentrações crescentes de Mo afetou o crescimento,
em meio de cultura, de quatro estirpes de Bradyrhizobium (Albino & Campo,
2001). Parece oportuno, salientar que a peletização das sementes deve ser
realizada com fontes que não agridam as mesmas, como acontece com
produtos formulados à base de sais. Outra possibilidade é a substituição da
inoculação pela aplicação no sulco de plantio a ser confirmada pela pesquisa.
Este procedimento diminuiria os riscos de prejuízos as bactérias pelo uso de
defensivos e micronutrientes e, por extensão, a fixação biológica.
79

Na cultura do feijoeiro não é comum o fornecimento de cobalto (Co),


entretanto pela sua importância para a FBN e a interação desse nutriente com
os óxidos de ferro e manganês, reduzindo sua disponibilidade (Malavolta,
1980), bem como em razão das respostas obtidas na cultura da soja, seria
conveniente avaliar o fornecimento no feijoeiro.
A aplicação de Mo (20 [Link]-1) e Co (1 O [Link]-1) em sementes com baixa
concentração de Mo (0,73 [Link]-1) aumentou a eficiência da fixação biológica
nas plantas de soja formada a partir dessas sementes (Campo & Hungria,
2002). Segundo os autores, o uso desses nutrientes aumentou em 57,4 % o
rendimento de grãos, passando de 2.314 [Link]·1 sem cobalto e molibdênio,
para 3.643 [Link]·1 com a aplicação de ambos (Tabela 6).

Tabela 6. Efeito da aplicação de cobalto (Co) e molibdênio (Mo) em sementes


de soja sobre o teor de N (kg ha-1) nos grãos e rendimento
(R, kg ha-1) da cultura.
Tratamento N R
Sementes - Mo= O, 73 mg kg·1 125 2.314
Sementes - Mo= 0,73 mg kg·1 + 10 g ha·1 Co 133 2.419
Sementes - Mo= 0,73 mg kg·1 + 20 g ha·1 Mo 203 3.441
Sementes - Mo= 0,73 mg kg·1 + 10 g ha·1 Co + 20 g ha·1 Mo 216 3.643
Fonte: Campo & Hungria (2002)
3.3 Formação de raízes e absorção de água e nutrientes
A absorção dos nutrientes depende do tamanho da superfície radicular e
da capacidade das raízes de aproveitar os íons em baixas concentrações na
solução do solo. Para tanto, o acúmulo de açúcar favorece, dentro de limites, a
absorção de água e nutrientes, mediante a diminuição do potencial osmótico,
em particular, quando a transpiração é pouco significativa.
A concentração de açúcar influencia a disponibilidade de energia para o
crescimento radicular, influxo de nutrientes e a manutenção do turgor dos
vacúolos das células radiculares e foliares (Rufelt, 1956; Davis, 1961).
Entretanto, o crescimento das raízes e o desempenho de suas funções variam,
também, com o material genético, estímulo hormonal (auxinas), saldo de
carboidratos, textura e estrutura do solo, umidade, pH (5,5 a 6,0) e com a
concentração e localização dos nutrientes. A demanda por carboidratos pelas
raízes em crescimento é contínua com intensidade variável durante o ciclo da
cultura. Na fase vegetativa é elevada e diminui a medida que aproxima a fase
reprodutiva.
Os açúcares são transportados até as raízes na forma de complexo
açúcar - borato, por facilitar a passagem através das membranas (Gauch &
Duggar Jr., 1953). A hipótese da ação direta do boro no transporte de açúcar
foi contestada por Skok (1957), afirmando que o efeito é indireto, estando
relacionado com a necessidade do nutriente para atender a atividade nos
meristemas apicais. De qualquer maneira, existe uma interação entre a
nutrição boratada e a demanda por sacarose nas regiões em crescimento dos
vegetais.
80

Tabela 7. Dreno de carboidratos (MS, %) dos diferentes órgãos do feijoeiro de


acordo com a fenologia da planta.
Fases da cultura DAE Folhas Raízes Flores Vagens
V3 - emissão do 1° trifólio 20 50 50
V4 - emissão do 3° trifólio 30 50 50
R6 - 20 a 22 trifólios e antese 40/45 30 20 50
R7 - formação das 1as vagens 50 20 5 75
R8 - granação das vagens 70/80 100
Fonte: Willenbring (1966), Wien et ai. (1976) e CIAT (1990)

O crescimento das raízes, em geral, demanda, proporcionalmente, maior


quantidade de carboidrato após a germinação e continua, prioritariamente, até
que a parte aérea e, posteriormente, os órgãos reprodutivos sejam os drenas
preferenciais (Tabela 7).
A eficiência da absorção depende da renovação radicular a qual diminui
a partir da fase reprodutiva devido à pequena quantidade de carboidratos
alocado, da ordem de 5 % na fase de granação das primeiras vagens - estádio
R1 (Tabela 7). Este fato poderá dificultar a absorção de nutrientes, em
particular, daqueles que se movimentam por difusão como fósforo, manganês,
zinco e cobre. De acordo com Kramer & Boyer (1995) a absorção de água nos
primeiros 10 cm do ápice radicular é da ordem de 1,2x10-6 L.h-1, enquanto a
partir da região mais suberizada, além dos 12 cm do ápice, a taxa é bastante
reduzida, ao redor de 0,2 x 10-6 L.h-1.
Com base nesse conhecimento parece razoável admitir, por hipótese,
que as plantas responderiam às aplicações foliares suplementares de macro e
micronutrientes. Esse procedimento tem como finalidade ampliar a duração
foliar (fonte de CH2O), compensando a redução natural da absorção radicular
(Tabela 8) nas fases de maior demanda de água e nutrientes. Este
procedimento poderia ampliar a duração do sistema fotoassimilador,
diminuindo os riscos de queda prematura de folhas.

Tabela 8. Eficiência das raízes na absorção de nutrientes em razão do ciclo


fenológico do milho.
DAE N p K
Fenologia da planta
µ[Link]-1
20 226,9 11,3 52,9
30 vegetação 32,4 0,90 12,4
40 18,5 0,86 8,0
50 11,2 0,66 4,75
florescimento
60 5,7 0,37 1,63
70 início da granação 1,2 0,17 o,15
Fonte: Mengel & Barber (1974)

As raízes consomem 02 do ar do solo, utilizando carboidrato como


substrato à síntese de energia e compostos intermediários. A energia liberada
é empregada para a elaboração de constituintes celulares, à manutenção,
crescimento e formação das raízes e, também, para a absorção ativa de
nutrientes. Portanto, muitas frustrações de rendimento, mesmo em solos
corrigidos em profundidade, podem ser atribuídas à dependência das raízes da
aeração do solo. Sob baixa aeração é afetada a absorção de nutrientes por
81

falta de energia metabólica, comprometendo o crescimento radicular. A


aeração do solo é uma condição dependente dos atributos físicos, os quais são
de difícil manejo - em particular nos solos argilosos, sob plantio direto.
O fluxo de sacarose até as raízes depende do estado nutricional (Gauch
& Dugger Jr., 1953), os quais verificaram aumento da concentração de
carboidratos nas regiões de produção (folhas) em plantas deficientes em boro
(B).
Em muitas espécies a deficiência de B afeta, particularmente, as
divisões e as expansões celulares dos meristemas primários e secundários
(Neales, 1960), evoluindo para a morte das células apicais (raízes e caule),
conforme o grau de deficiência. Essa constatação é atribuída à concentração
de compostos fenólicos, cuja síntese aumenta sob deficiência de boro (Meyer
et ai., 1973). Ressalte-se que esse micronutriente (B) é, também, necessário
para o transporte das substâncias reguladoras do crescimento (Mitchell et ai.,
1953).
O ácido indo! acético (AIA) promove a expansão celular, aumenta o
comprimento dos internódios e, por isso, tem grande influência no crescimento
da parte aérea (Varner & Ho, 1976). A concentração de AIA é maior nos locais
de síntese e de intenso crescimento como nas raízes (drenos) nos períodos de
grandes demandas por carboidratos, quando constitui o dreno principal.
Verificou-se, também, que a adição desse hormônio (AIA), em meio de cultura,
estimula o crescimento radicular (Mendes et ai., 1980).
O zinco é um micronutriente essencial para a síntese do triptofano,
aminoácido precursor à síntese de auxina. A comprovação que o ácido indol
acético (AIA) é sintetizado nas plantas, a partir de triptofano, foi demonstrada
por Tsui (1948). A concentração do hormônio diminui nas plantas deficientes
em zinco, além de estimular a atividade catalizadora da indolaceticooxidase,
responsável pela degradação de AIA existente, formado anteriormente
(Martinez, 1995).
A germinação de sementes de gramíneas foi favorecida pelo
fornecimento de boro, fato que foi atribuído à sua ação na síntese de ácido
giberélico (Sutcliffe & Baker, 1989). Essa constatação, possivelmente,
incentivou a prática da peletização das sementes com zinco nas plantas dessa
família, em razão da sua ação na síntese desse hormônio (GA). Nas sementes
o embrião produz GA após a embebição, o qual promove a formação de
enzimas hidrolíticas como exemplos, a amilase, protease e ribonucleases. O
amido, a proteína e o ácido ribonucléico são hidrolisados produzindo açúcares,
aminoácidos e nucleotídeos, nessa ordem, os quais serão, em parte,
consumidos na respiração e, em parte, usados na síntese de novo e no
desenvolvimento da plântula.
A dependência de boro e zinco para o crescimento de cada parte do
vegetal (folhas, caule, raiz e ramos) varia com a intensidade de crescimento
dos mesmos. De acordo com Cakmak et ai. (1989) a redução do crescimento
em expansão das folhas, pode ser explicada pelo envolvimento do zinco na
síntese de proteínas e de AIA, enquanto o amarelecimento foliar indica que
participa também da síntese de clorofila.
Uma grande proporção de boro nas plantas se encontra formando
complexos na parede celular (Martinez, 1995) por ser requerido à estabilização
da mesma e das biomembranas, em razão da complexação entre os
compostos orgânicos com o ácido bórico (Romsheld, 2001). Nos vegetais o
82

boro atua também como regulador do crescimento e do metabolismo,


fundamentalmente, na diferenciação do xilema e na lignificação celular por
meio da formação de complexos estáveis com açúcares e difenóis (Martinez,
1995).

Tabela 9. Potenciais hídricos responsáveis pela absorção, ascendência e


transpiração da água pelas plantas (Nobel, 1999).
Ambiente Potencial hídrico (MPa)
Atmosfera - 50 % UR do ar externo - 95,2
Espaço intercelular nas folhas - 0,8
Vacúolo da célula da raiz - 0,6
Solo adjacente às raízes - 0,5
Solo a 1O mm das raízes - 0,3

A superfície radicular responde pelos fenômenos de troca com a solução


e a matriz do solo, possibilitando a absorção de água e nutrientes. A entrada de
água na planta é regulada pela diferença entre o potencial hídrico no vacúolo
da célula radicular (-0,6 MPa) e o potencial hídrico do solo adjacente às raízes
(-0,5 MPa) (Tabela 9). A diminuição do potencial hídrico no vacúolo das células
das raízes se dá pela ação de solutos dissolvidos como a sacarose, a qual
reduz a energia livre da água (Nobel, 1999; Primavesi, 1999). Portanto, a água
absorvida pelas plantas entra nos vegetais em resposta, fundamentalmente, a
fatores físicos, não envolvendo gasto energético, exceto à manutenção das
estruturas envolvidas na absorção e transporte (Tabela 9).
Os micronutrientes catiônicos como o Zn, Mn, Fe e Cu, o P e parte do K
difundem até as raízes após a depleção na rizosfera (absorção), havendo
dificuldades para a reposição a partir das áreas mais distantes das raízes, pois
o movimento difusivo se dá a pequenas distâncias (2 mm). Portanto, para que
a absorção não seja comprometida é indispensável o aumento do volume de
solo explorado, alcançando locais onde o nutriente não foi deplecionado. Com
base nessa informação conclui-se que os micronutrientes catiônicos, devem
ser aplicados em sulcos pouco espaçados, semelhante à semeadura de trigo,
de maneira que com tempo os mesmos ocorram em toda a área, semelhante a
uma adubação a lanço - sem a perda de eficiência por fixação, que ocorreria
intensamente quando são incorporados. Quando o solo contém teores médios
desses nutrientes podem ser feitas aplicações foliares nas fases críticas de
absorção como acontece no inicio do ciclo e na fase reprodutiva.
O câmbio vascular é um meristema secundário responsável pelo
crescimento em espessura nas dicotiledôneas, cuja atividade é influenciada
pelo boro, formando células que se dividem, expandem e se diferenciam em
vasos xilemáticos e floemáticos. Portanto, como o floema é formado
simultaneamente ao crescimento das raízes é fundamental a disponibilidade do
nutriente (B) no plantio, podendo ser conveniente, também, aplicá-lo em
cobertura nos solos de textura média a arenosa.
3.4 Fotossíntese e incorporação de C02
A assimilação de carbono depende de energia metabólica (ATP) e de
agente redutor (NADPH2), os quais são formados na fase fotoquímica. Para
completar a reação há necessidade de cadeia carbônica para a incorporação
do C proveniente do CO2, que nas plantas C3 (feijão) é o açúcar 1,5 ribulose-2P
83

e piruvato nas plantas C4. O agente redutor (NADPH2) cederá os elétrons para
a redução do CO2 (oxidado), de baixo valor energético (número de oxidação do
C = +4) para a formação de carboidratos (CH2O), forma reduzida e altamente
energética (nº de oxidação do C = O).
Durante o fluxo de elétrons como na fotofosforilação acíclica, os elétrons
emitidos pelo pigmento P6ao (FSII, clorofila b) são recebidos pelo pigmento P100
(FSI, clorofila a), os quais são também energizados e deslocam os elétrons
para níveis energéticos superiores, liberando energia - capturada pelo aceptor
final NADP, reduzindo-o a NADPH2 (agente redudor).
O pigmento *P6ao não pode permanecer nessa forma (*oxidada), pois
seria inativado e perderia a coloração verde, típica da clorofila normal. Há
bilhões de anos as plantas desenvolveram a habilidade de usar a água como
fonte de elétrons, a qual repõe ao *P6ao evitando a oxidação definitiva desses
pigmentos do fotossistema li, conforme a expressão 4.
+ +
H 2 O + Mn 2 ⇒ 2 H + 2 e·+½ 02 ⇒ clorofila* (oxidada)+ e·⇒ clorofila (aceptor) (4)
A cisão oxidativa da molécula de água e a perda de elétrons na
presença de luz denomina fotólise, um processo que depende do complexo
enzimático responsável pela clivagem (fotólise) em cuja composição há
manganês (Mn).
O manganês atua como cofator nesse processo, liberando oxigênio e
elétrons para o pigmento P6ao (clorofila), evitando sua oxidação e o
amarelecimento entre as nervuras das folhas, comum em plantas deficientes
+
do nutriente (Mn2 ) que se dá pela fotoxidação das moléculas de clorofila (P6ao).
O fluxo de elétrons da fase fotoquímica se dá por meio de reações de óxido­
redução, utilizando várias substâncias transportadoras entre as quais a
ferredoxina (Fe), plastoquinona e a plastocianina (PC, Cu).
Do total de cobre das folhas, 70 % são encontrados nos cloroplastos e,
aproximadamente, 50% participam como constituinte da plastocianina,
responsável pela transferência de elétrons durante o processo fotoquímico
(reação de Hill).
Há relação entre a assimilação de CO2 (ciclo de Calvin-Benson) e a
disponibilidade de cobre, tese demonstrada pela redução da assimilação em
plantas deficientes em cobre. Esse resultado foi interpretado como
conseqüência da inibição do fluxo eletrônico entre os fotossistemas li e 1, por
insuficiência de plastocianina e plastoquinona (Martinez, 1995).
O cobre aplicado no solo sofre fortes interações com os minerais de
argila, principalmente a goetita (Forbes et ai., 1976), caulinita (Krauskopf, 1972)
e a matéria orgânica (Harmsen e Vlek, 1985), dificultando a sua absorção. O
fornecimento no solo é indicado quando os teores são insuficientes, abaixo do
nível crítico - variável com o extrator (Tabela 1). As aplicações foliares e ou
tratamento de sementes são alternativas indicadas o uso desse micronutriente
(Cu).
O carboidrato é o principal substrato usado na respiração para a
produção de energia no ciclo de Krebs e na via pentase fosfato, bem como
para a redução assimilatória de N. Serve também como cadeia carbônica
necessária à formação de aminoácidos, proteínas e lipídeos, além das
substâncias do metabolismo secundário. Isto é fundamental, pois a energia
proveniente, exclusivamente, da fase fotoquímica da fotossíntese (ATP),
sintetizada nas partes verdes dos vegetais, não é suficiente para atender a
demanda energética da planta toda.
84

Do exposto, são indispensáveis aos vegetais as reações que ocorrem


durante o ciclo de Krebs no processo de respiração, em que o manganês é o
íon metálico predominante, atuando como catalizador das reações que
envolvem as descarboxilases (liberação de CO2) e desidrogenases (liberação
de H) (Devlin, 1976). Os vegetais são dependentes das reações que ocorrem
nesse ciclo, durante a respiração, devida a liberação de energia metabólica
(ATP), formação de agentes redutores (NADH, FADH) e para a produção de
aminoácidos essenciais e compostos do metabolismo secundário.
O acúmulo de açúcar eritrose-4P em plantas ou órgãos deficientes em
boro desencadeia a formação e acúmulo de fenóis (Meyer et ai., 1973), cujo
excesso pode degradar AIA e, em conseqüência, inibir o crescimento dos
meristemas apicais (caule e raiz), levando, inclusive, à morte das gemas,
prejudicar a germinação e afetar o desenvolvimento das plântulas. Ressalte-se
que esse micronutriente (B) é, também, necessário para o transporte das
substâncias reguladoras do crescimento (Mitchell et ai., 1953).
O ácido fosfatídico é um fosfolipídio constituinte das membranas dos
cloroplastos, formado pela ação da fosfolipase ativada pelo manganês, a partir
das substâncias como o ácido fosfórico, proteína e glicerol. As plantas
deficientes em Mn apresentam má formação dessas organelas (cloroplastos) o
que reflete em menor quantidade de clorofila e, assim, causa o amarelecimento
das folhas e prejudica a fotossíntese.
3.5 Aspectos fisiológicos do estresse vegetal
As culturas, especialmente em sistemas de alta produtividade,
dependem muito da capacidade das plantas de minimizar os efeitos do
estresse ambiental. Para tanto, o estado nutricional é um dos fatores
significativos que podem auxiliar a resposta adaptativa das plantas aos agentes
estressores (Cakmak, 2003).
Há uma diferença da ordem de 70 % entre o potencial produtivo e a
produção efetiva devida às perdas por fatores abióticos entre os quais, a
elevada irradiância, temperaturas extremas, seca, salinidade e o estado
nutricional das plantas - deficiência e a toxicidade (Bray et ai., 2000). O ano de
2005, de acordo com previsões recentes, será o mais quente dos últimos anos
(Folha Ciência, 2005).
Nas plantas em frutificação os assimilados são translocados na sua
maioria (> 90 %) para os frutos, reduzindo a renovação radicular e, em
conseqüência, a eficiência na absorção de água e nutrientes,
comparativamente a fase vegetativa. A competição entre raízes e frutos explica
porque as plantas são, geralmente, mais sensíveis ao estresse hídrico na fase
reprodutiva. Em condições de estresse hídrico, para que o fluxo de sacarose
não seja prejudicado, além do próprio fator hídrico, é fundamental o estado
nutricional das plantas em relação ao fósforo e, principalmente, potássio,
magnésio e boro.
A diminuição na demanda por sacarose (produto da fase bioquímica)
inibe a fotossíntese sem que haja, concomitantemente, a paralização do
processo fotoquímico. Como resultado, acumula energia liberada dos elétrons
que saíram do estado padrão nos pigmentos, enquanto os receptores
encontram-se totalmente reduzidos, devido ao acúmulo de agente redutor
(NADPH2).
Essa energia livre eleva, sensivelmente, a temperatura foliar
ocasionando a oxidação da clorofila, descrita como escaldadura foliar, comum
85

nas folhas expostas a irradiância, como se dá nas faces norte, noroeste e oeste
(faces soalheiras).
Em condições de intensa irradiância, temperaturas extremas, salinidade
e seca, as plantas produzem formas reativas de oxigênio (0 2 -, H2O2 e OH-),
altamente tóxicas (Martinez, 1995) à clorofila, ONA, lipídeos e proteínas das
membranas. A formação de radicais reativos de oxigênio depende,
basicamente, da redução da carboxilação (assimilação de CO2) e ao acúmulo
de sacarose nas fontes (folhas fotossintetizantes).
A fotoinibição envolve danos nos centros de reação, em particular no FS
11, quando são excessivamente energizados, levando a perda de proteínas
relacionadas com a transferência de elétrons entre o P5ao e a PQ
(plastoquinona).
Em plantas deficientes em zinco os processos de oxidação são
intensificados devido a menor atividade da superóxido dismutase (SOO),
acumulando espécies reativas de oxigênio como 02 - (superóxido). Entre os
resultados da concentração de formas reativas tem-se a peroxidação de
lipídeos das membranas (lipoprotéica: 40 % de lipídeos), comprometendo sua
ação reguladora (semipermeabilidade) e a degradação de AIA - com prejuízos
para o crescimento vegetal. A compartimentalização dos componentes
celulares por meio das membranas é a razão da vida.
A enzima catalase também destoxifica a célula da ação das formas
reativas por meio da formação de água e oxigênio, em reação catalizada por
zinco e cobre, respectivamente. A superóxido dismutase (SOO) é uma enzima
que possui um sítio ativo contendo cobre (Cu) e outro zinco (Zn), cuja função é
a destoxificação celular e a eliminação das espécies reativas (Tabela 1 O).
As deficiências de zinco e boro potencializam o dano fotoxidativo,
tornando as plantas altamente sensíveis a irradiância, as quais desenvolvem
sintomas de clorose e necrose pelo aumento da intensidade luminosa
(Marschner e Cakmak, 1989; Cakmak e Romheld, 1997). Em plantas de citrus
a clorose devido à deficiência de Zn foi mais intensa nos ramos expostos à
radiação luminosa (Chapman, 1966; Cakmak, 2000).

Tabela 10. Atividade da superóxido dismutase (SOO) em função da quantidade


de radicais livres de oxigênio pelo fornecimento de zinco.
Dose de ZnSQ4 Taxa de 02 - Fosfolipídios
µmol µ[Link]-1 (proteína) µg g-1 MS
0,0 3,3 3.530
2,0 1,6 4.410
Fonte: Mohamed et ai. (2000)

A ação do zinco é atribuída a uma forte inibição da NADPH oxidase,


enzima geradora de radicais como 0 2- (Cakmak & Marschner, 1988a; Pinton et
ai., 1994). Na cultura de fumo Kawano et ai. (2002) observou em culturas de
células, forte inibição da NADPH oxidase e com isso diminui a geração de O2 -
em razão do fornecimento de Zn.
O papel do zinco e do cobre na destoxificação pela dismutase do
superóxido, a qual contém cobre e zinco, foi atribuído à manutenção da
integridade estrutural da membrana plasmática, regulando assim a absorção de
sódio e outros íons tóxicos (Welch et ai., 1982; Cakmak & Marschner, 1988b).
86

3.6 Metabolismo do nitrogênio


A incorporação dos nutrientes em substâncias orgânicas é denominada
assimilação como, por exemplos, em pigmentos (N e Mg, clorofila), co-fatores
enzimáticos (Mo, redutase do nitrato, oxidase do sulfato e nitrogenase; Mn,
redutase do nitrito; Cu, desidrogenase glutâmica), em aminoácidos (N, S) e na
parede celular (Ca, pectato e poligalacturonatos).
Na assimilação do nitrato (NO3) o nitrogênio é convertido numa forma
mais energética - o nitrito (NO2 -) por meio da atividade da redutase do nitrato e
depois noutra forma ainda mais energética - o amônia (NH4 +), terminando em
N-amida (glutamina). Na redutase do nitrato o molibdênio encontra-se ligado a
uma molécula orgânica - a pterina (Mendel & Stallmeyer, 1995; Campbell,
1999), por isso, o aproveitamento do nitrogênio depende do molibdênio, cuja
deficiência provoca sintomas semelhantes à carência de N.
Em plantas com deficiência de Mo o crescimento e o desenvolvimento
do vegetal é afetado, assim como a qualidade do produto, em especial,
daqueles que concentram proteínas nos grãos e frutos (Favarin & Camargo,
2002).
Em muitas plantas, quando a absorção de nitrato é pequena, o mesmo
pode ser reduzido nas raízes. Com o aumento do suprimento de nitrato a
demanda por energia é maior e por isso a redução ocorre, predominantemente,
nas folhas (Marschner, 1995). Portanto, a exigência por molibdênio é variável,
entre outros fatores, com a espécie, reação do solo (pH) e, principalmente, com
a natureza química do nitrogênio presente nos exsudatos do xilema.
A diminuição na síntese da enzima redutase do nitrato pode chegar a 20
% quando a planta é submetida a pequenas deficiências hídricas e atinge até
50 % se a planta passar por estresses maiores (Hsiao, 1973). De acordo com
Crocomo (1985) a menor atividade da R-NO3- em plantas sob estresse hídrico
se deve ao decréscimo do fluxo de nitrato por falta de umidade - fator
regulador da síntese da enzima. Outros fatores podem influenciar a atividade
dessa enzima como a luz e o teor de nitrato sendo comum em várias espécies
o aumento da atividade no período luminoso e decréscimo no escuro (Harper &
Hageman, 1972; Lewis et ai., 1982).
A redutase do nitrito (R-NO2-) é uma enzima ativada pelo manganês
(Devlin, 1976; Martinez, 1985) e o nível de nitrogênio solúvel (aminoácidos e
nitratos) se deve, em parte, a deficiência desses micronutrientes (Mo e Mn),
indispensáveis ao processo de redução assimilatória de N. Nessas condições,
as plantas apresentam baixa relação entre N - orgânico e N - mineral, com
reflexos na suscetibilidade às pragas e doenças, em particular sob deficiência
de Mn.
A síntese de proteína e a formação de cloroplastos são prejudicadas
pela deficiência de molibdênio, aparecendo folhas deformadas e clorose das
folhas maduras. A deformação das folhas novas, na forma de "ponta de
chicote", resulta, possivelmente, da inibição da síntese de proteína e ou por
distúrbios no metabolismo dos fenóis (Homheld, 2001 ).
O nitrogênio é o elemento absorvido em maior quantidade, portanto o
equilíbrio estequiométrico de cargas nas células depende, fundamentalmente,
da forma química que esse nutriente é absorvido. A absorção de parte do
nitrogênio na forma amoniacal (NH4 +) leva a planta a excretar W para manter a
neutralidade do sistema (equilíbrio interno de cargas), provocando a
acidificação da rizosfera e vice-versa, quando há absorção predominante de
87

N03 -. A FBN é um processo que também acidifica a rizosfera, com vantagens


para a absorção de micronutrientes catiônicos em razão do aumento de formas
solúveis em ambiente ácido (Tabela 11).

Tabela 11. Influência da forma do nitrogênio fornecido ao feijoeiro e a


concentração de micronutrientes nas folhas.
Fe Mn Zn Cu
Formas de N pH rizosfera
[Link]-1 MS
Sem N 317 90 42 10
N-N0 3- alcalino 250 85 40 10
N-NH4 + ácido 297 174 73 14
Fonte: Thomson et ai. (1993)

A via GOGAT utilizada para a incorporação de nitrogênio amoniacal em


aminoácidos nas plantas superiores, como no feijoeiro, depende da enzima
sintase do glutamato, catalizadora da transferência redutiva do grupo amídico
da glutamina para a-cetoglutarico, produzindo duas moléculas de glutamato.
De acordo com Gutierrez & Crocomo (1978) a amônia presente nas
raízes oriunda da absorção dessa forma química, pela redução do nitrato ou
fornecida pela fixação biológica (NH/) é incorporada em amida e ureída. Os
autores detectaram maior atividade das enzimas desidrogenase glutâmica
(GDH, Zn) e sintase do glutamato (GOGAT, Cu) nas raízes do feijoeiro,
comparativamente ao que ocorre nas folhas (Tabela 12).

Tabela 12. Atividade da desidrogenase glutâmica (GDH) e sintase do glutamato


(GOGAT) em folhas e raízes de feijão conforme a idade da planta.
GDH (Zn) - Cu* GOGAT - Cu*
Idade (dias) ,
folhas raIzes folhas raízes
µmoles NADH hora-1 mg proteína-1
13 0,98 3,75 0,30 1,17
20 t,31 4,23 0,34 1,07
33 1,33 4, 12 0,58 0,57
40 0,83 2,31 0,65 1,41
47 (flores) 1,03 2,45 0,50 1,48
Fonte: Gutierrez & Crocomo (1978) (parte da enzima) e *(ativador da enzima)

Os aminoácidos sintetizados a partir do carboidrato formado em plantas


conduzidas em meio contendo 14C são semelhantes aos aminoácidos supridos
exogenamente (Bidwell et ai., 1964). Parece viável, portanto, o fornecimento de
aminoácidos por meio de aplicações foliares, particularmente, quando as
plantas são submetidas a estresses. Essa prática agronômica carece de
pesquisas para a confirmação da sua eficiência.
Usando aminoácidos marcados com 14C Haque et ai. (1971)
demonstraram que os aminoácidos exógenos podem ser absorvidos, o que
implica em afirmar que os mesmos possuem dimensões que permite a
passagem através dos poros foliares.
O cobre desempenha papel importante nas atividades enzimáticas, em
processos de óxido-redução e, embora exigido em pequenas quantidades, a
sua falta dificulta o aproveitamento de diversos nutrientes pelas plantas,
88

provocando distúrbios no metabolismo vegetal, como na síntese de proteínas


(Epstein, 1975).
3.7 Reprodução e granação das sementes
O cálcio é um nutriente com papel fundamental na fertilidade das flores e
na formação das vagens de soja (Konno, 1967). De acordo com o autor existe
correlação entre o teor de Ca e os órgãos reprodutivos, ou seja, a diminuição
da quantidade de cálcio diminui o número de flores e aumenta a quantidade de
vagens abortadas.
Rosolem et ai (1990) estudaram a aplicação de doses e fontes de cálcio
foliar em várias épocas durante o florescimento do feijoeiro. Segundo os
autores, não foi encontrada resposta para a produção de grãos, verificando,
entretanto, aumento da qualidade fisiológica das sementes quando foi utilizado
o Ca quelatizado (3,2 [Link]·1).
A resposta à aplicação de cálcio e boro na fase anterior ou durante a
reprodução pode variar com a cultivar, conforme foi constatado por Bevilaqua
et ai. (2002). Os autores encontraram resposta ao fornecimento de cálcio e
boro para a aplicação na florada em relação ao número de vagens, grãos por
vagem e grãos por planta na cultivar BR 16. Nas plantas da cultivar FT Cometa
constatou diferença para o número de vagens (aplicação na florada) e grãos
por vagem (aplicação na pós-florada) sem contudo detectar diferença para a
quantidade de grãos por planta (Tabela 13).

Tabela 13. Aplicação foliar de Ca e B sobre o número de vagens, números de


grãos por vagem e grãos por planta nas variedades cultivadas de
soja SR 16 e FT Cometa.
Número de vagens Grãos por vagem Grãos por planta
Época aplicação
BR 16 Cometa BR 16 Cometa BR 16 Cometa
testemunha 6,6 6,2 1,1 0,8 11,9 11,2
Pré -florada 7,9"8 6,3"5 1,4"5 1,1"5 15,8"5 11,3"5
Florada 9,2* 6,9* 1,6* 1,2"5 18,0* 13,1"5
Pós -florada 9,0"5 7,0"5 1,4"5 1,7* 16,4"5 13,9" 5
Fonte: Bevilaqua et ai. (2002) significativo a 5 % de probabilidade

Para maior eficiência da fertilização é necessário cálcio e boro à


germinação do grão de pólen e ao crescimento do tubo polínico (Meyer et ai.,
1973). Como o crescimento depende das divisões e expansões celulares
(Biale, 1964) são fundamentais, também, a presença de auxinas, umidade e
outros nutrientes, em especial, aqueles relacionados com a produção de AIA e
citocininas (Das et ai., 1956).
A polinização, o crescimento do tubo polínico e a fertilização contribuem
para o aumento de auxina - responsável pelo desenvolvimento do fruto. A
quantidade de auxina encontrada nos grãos de pólen, entretanto, não é
suficiente para justificar a elevada concentração determinada no ovário após a
fertilização (Devlin, 1976). Provavelmente, o crescimento do tubo polínico
sintetiza a enzima que participa da formação da auxina, as expensas do seu
precursor - o triptofano. Como a produção de AIA a partir do triptofano
depende do estado nutricional, em particular de zinco, estima-se que as plantas
deficientes sejam menos produtivas, devido aos prejuízos à polinização e à
fertilidade dos órgãos reprodutivos.
89

Muitos grãos de pólen germinam em condições artificiais quando


colocados em meio aquoso contendo sacarose-água e sacarose-ágar (1,5 %
sacarose), variando com tipo de pólen de 5 a 25 %. A germinação em meio
artificial acontece após alguns minutos e, nestes casos, o crescimento do tubo
polínico pode ser muito rápido. A adição de cálcio e boro aumenta a
porcentagem de germinação e a taxa de crescimento de vários tipos de pólen
(Meyer et ai., 1973). Talvez seja essa a razão que tem levado a prática da
aplicação desses nutrientes (Ca e B) antes e durante a fase reprodutiva.
A concentração de boro nos meristemas, nas raízes, frutos e órgãos de
reserva é inferior àquela verificada nas folhas, principalmente quando
localizadas nas partes inferiores da planta. Assim, devido à importância do boro
nas sementes para a germinação e formação de plântulas normais (Rekarsem
et ai., 1997), seria vantajoso em algumas situações à adubação no solo
(semeadura e cobertura), bem como se necessária à suplementação foliar, na
fase reprodutiva.
O rendimento agrícola pode ser comprometido pela deficiência de cobre
uma vez que este micronutriente afeta a fertilidade do grão de pólen, como
constatado em trigo (Galrão, 1988). A retranslocação de cobre é limitada, por
isso os sintomas de deficiência ocorrem nas folhas novas na fase reprodutiva
(Romsheld, 2001) podendo, em parte, ser aplicado nas folhas.
A deficiência de boro aumenta a queda de folhas e de frutos em
desenvolvimento, afetando a formação dos mesmos pela inatividade da calose,
prejudicando o crescimento do tubo polínico e a qualidade dos frutos - forma
de cortiça (Romsheld & Marschner, 1991). A menor capacidade das plantas à
formação das sementes também se dá sob deficiência de zinco (Meyer et ai.,
1973).
Antes da transformação da sacarose em amido nas sementes, o mesmo
deve ser translocado das fontes (folhas fotossintetizantes, folhas maduras,
ramos e caule) para os frutos e sementes, daí a importância do boro, potássio
e magnésio, os quais influenciam significativamente o fluxo no floema
(Cakmak, 2003).
O enriquecimento das sementes com carboidratos ocorre durante a fase
de frutificação, em particular, na etapa de granação, por isso a qualidade das
sementes (massa de endosperma) depende do estado nutricional em relação à
disponibilidade de potássio, magnésio e boro, em razão da ação desses
nutrientes como transportadores de carboidrato.

4 Adubação com micronutrientes


O acompanhamento do estado nutricional do feijoeiro é fundamental
para orientar o manejo da adubação, em particular, no plantio subseqüente.
Para a análise foliar recomenda-se a coleta de trifólios do terço médio de trinta
plantas por hectare, no florescimento.
A interpretação dos resultados pode ser feita por meio de fertigramas de
resultados obtidos em talhões que apresentaram elevada produtividade em
anos anteriores (padrão), bem como por comparação com tabelas publicadas
por instituições de pequisas (Tabela 14).
A comparação exclusiva de números entre os resultados da análise de
solo e a classe de teores para fins de avaliação do estado nutricional deve ser
feita com ressalvas, uma vez que esse procedimento pode incorrer em erros.
Em plantas com baixa produção a concentração de nutrientes pode apresentar
90

teores semelhantes às plantas produtivas, exceto que no primeiro caso por


devido ao crescimento limitado os teores são equivalentes, por menor efeito de
diluição.

Tabela 14. Faixa de teores adequados de micronutrientes na folha de feijoeiro.


Boro Cobre Ferro Manganês Zinco
Fonte 1
m .k -
1 15 -25 4 -20 40-140 15 - 100 18 - 50
2 20 - 60 8 -20 100 - 450 30 - 300 30 - 100
3 30 - 60 1O -20 100 - 450 30 - 300 20 - 100
4 30 - 60 1O -20 100 -200 50 - 100 30- 60
'Ambrosano et ai. (1996), 201iveira & Costa (1998), 3EMBRAPA (1998) e 4Junqueira Netto et ai.
(2001)

No cultivo do feijoeiro não deve desconsiderar a aplicação de boro,


principalmente nas lavouras destinadas à produção de sementes, fornecendo-o
no plantio, cobertura e se necessário nas folhas. No caso da adubação foliar a
mesma precisa ser periódica, no mínimo duas vezes, para que as emissões
foliares após a primeira aplicação, bem como os órgãos reprodutivos recebam
o nutriente. Assim, o fornecimento antes do florescimento e durante a formação
e o enchimento das vagens pode ser uma alternativa.
4.1 Adubação via solo
Para as condições dos solos de Cerrado, a qual pode ser estendida para
outras regiões em razão do predomínio dos Latossolos a EMBRAPA-CNPAF
(1996) recomenda: (i) para a adubação com boro, aplicar 1,0 [Link]-1 de B nos
solos com teor muito baixo do nutriente (< 0,5 m�.dm-3) e 1,0 [Link]-1 nos solos
com teor baixo, na faixa de 0,5 a 1,0 [Link]- ; (ii) para o cobre pode ser
aplicado 3,0 [Link]-1 e 1,0 [Link]·1 quando os teores encontrados no solo
estiverem nas classes muito baixa (<0,3 [Link]"3) e baixa (0,3 a 0,6 [Link]-3)
nessa ordem; (iii) em relafão ao manganês aplicar 2,0 [Link]-1 (muito baixo: <
2,5 [Link]-3) e 1,0 [Link]- (baixo: 2,5 a 5,0 [Link]-3), enquanto o zinco pode
ser fornecido 4,0 [Link]-1 (inferior a 2,0 [Link]-3) e 2,0 [Link]·1 (2,0 a 4,0
[Link]-3) nas respectivas classes de teores no solo.
4.2 Adubação via foliar
A suplementação de micronutrientes pode ser feita via foliar fornecendo
1
os nutrientes na forma de sais na dose de 200 [Link]· de Cu e 300 [Link]·1 de Mn
por aplicação, repetindo-a, se necessário, duas a três vezes. O uso da
aplicação foliar pode ser eficiente quando os teores dos micronutrientes no solo
estiverem próximos do nível crítico.
O zinco deve ser fornecido, no máximo, em duas aplicações de 300 g
ha·1 e o molibdênio em uma ou duas aplicações de 90 [Link]·1• No caso de usar
fontes que possui o micronutriente catiônico na forma de quelato a dose pode
ser equivalente a2/3 da dose na forma de sal.
Trabalhos sobre o uso de micronutrientes na cultura de feijão
demonstraram a importância do Mo, particularmente, quando fornecido nas
folhas. Araujo et ai. (1994) verificaram resposta à aplicação de 20 kg ha·1 de N
no plantio, complementado com o fornecimento de 20 [Link]·1 de Mo foliar, 25
dias após a emergência da planta, comparada à aplicação exclusiva de N. O
fornecimento foliar de 40 [Link]·1 de Mo25 dias após a emergência, substituiu 20
91

a 40 [Link]·1 de N na semeadura, aumentando o rendimento, sem prejuízos


para a FBN (Berger et ai., 1995; Diniz et ai., 1995; Vieira et ai., 1995).
Para Andrade et ai. (1998) o fornecimento foliar de 40 [Link]·1 elevou o
número de vagens por planta, o peso de 100 sementes e, em conseqüência, o
rendimento do feijoeiro. Coelho et ai. (1998) constataram que a adição de 50
[Link]·1 nas folhas aumentou em 30 % o rendimento da cultura, correlacionando
com o aumento verificado na atividade da nitrogenase, 40 dias após a
emergência.
Para Fullin et ai. (1999) as maiores produtividades do feijoeiro foram
obtidas com a aplicação de 1O [Link]·1 de N no plantio e 40 [Link]·1 de N em
cobertura, combinada com 20 [Link]·1 de Mo nas folhas. Pessoa et ai. (2000)
testaram várias doses de Mo em adubações foliares, tendo constado aumento
na concentração do elemento que passou de 0,49 [Link]·1 (sem molibdênio)
para 0,95 [Link]·1 com o uso de 120 [Link]·1 de Mo, correlacionando com o
rendimento, que foi superior nessa dose, como indica o aumento da produção
de 500 [Link]·1 para 1.893 [Link]·1•
As respostas à aplicação foliar de molibdênio no feijoeiro podem ser
explicadas: (i) pela ausência de injúrias às sementes e bactérias, (ii) pela
mobilidade do Mo até as raízes, conforme trabalho de Campo & Hungria (2002)
e, principalmente, (iii) devida à elevada concentração de nitrato que chega nas
folhas da planta.
Nas aplicações foliares realizadas por Campo & Hungria (2002) foi
usado até 1.600 [Link]·1 dose superior àquelas, normalmente, aplicadas na
folhas (50 a 120 [Link]-1). Nesse caso, não deve ser descartada a hipótese de ter
acontecido à absorção de parte do produto do solo, devido à queda por deriva
durante a aplicação, mesmo em culturas com elevado índice de área foliar.
4.3 Adubação via sementes
As sementes com teores adequados de molibdênio formam plantas com
maior eficiência biológica na redução de nitrogênio gasoso (N2). Este objetivo
pode ser comprometido quando é fornecido enxofre (S) a cultura ou o teor
desse nutriente no solo é alto, pois reduz a concentração de Mo nas folhas das
plantas que receberam S em razão da competição entre ambos. A maior parte
do Mo (67 %) é redistribuída das folhas para as vagens na fase reprodutiva e,
portanto, as plantas adequadamente nutridas possibilitariam a formação de
sementes enriquecidas com Mo.
O nível crítico de Mo determinado no feijoeiro foi igual a 3,5
µ[Link]·1 (Jacob Neto & Franco, 1986). Assumindo que a massa de 100
sementes de feijão é, em média, igual a 30 g, conclui-se que as sementes com
teores superiores a 12 [Link]·1 de Mo (nível crítico) não responderiam ao
fornecimento desse nutriente. Os resultados das análises das amostras de
sementes de feijão, em diversas regiões brasileiras, apresentaram teores
baixos (Franco & Muns, 1982; Jacob Neto, 1985; Jacob Neto & Franco, 1995),
o que explica, em parte, as respostas obtidas com a aplicação foliar na cultura
do feijoeiro. É razoável admitir que a quantidade de Mo fornecido por meio da
peletização das sementes não seja suficiente quando a concentração desse
nutriente (Mo) é muito baixa nas sementes, o que explicaria a falta de
respostas ao seu fornecimento, bem como seria dispensável a sua aplicação
nas sementes quando o teor nas mesmas for elevado, acima do nível crítico
(12 [Link]·1 ).
92

O uso de sais de molibdênio, na forma de molibdato de sódio via


sementes, provocou a morte de 99 % das células bacterianas, quatro dias após
o tratamento, prejudicando a nodulação e a FBN na cultura da soja (Burton &
Curley, 1966). Portanto, é fundamental a escolha das fontes para a peletização,
devendo-se evitar àquelas a base de sais e ou com pH muito ácido, devido à
sensibilidade das bactérias a pH inferior a 6.
4.4 Época de aplicação
Considerando: (i) a menor eficiência radicular no InicI0 do
desenvolvimento da planta - menor volume de raízes absorventes e na fase
reprodutiva - devido a queda da renovação radicular, (ii) que o contato dos
micronutrientes com as raízes se dá por difusão - exceto o boro e (iii) que a
duração do ciclo do feijoeiro é pequeno, cerca de três meses, conclui-se que os
micronutrientes devem ser fornecidos na implantação da cultura, antes e
durante a fase reprodutiva.
A localização desses nutrientes deve ser nas sementes (Mo e Co) e no
sulco de semeadura (B, Zn, Cu e Mn) próximo às sementes, visando atender a
demanda nas fases iniciais de crescimento e parte da vegetação do feijoeiro.
Posteriormente, nas fases de intenso crescimento vegetativo, antes e durante a
fase reprodutiva, deve ser aplicado boro (B) em cobertura, em solo com alto
potencial para lixiviação (textura arenosa e média) e via foliar, molibdênio,
manganês, cobre, zinco e boro, desde que seja necessário, com base nas
ferramentas para a interpretação.

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98

NOVAS TECNOLOGIAS DE FORMULAÇÃO PARA


INOCULAÇÃO DE FEIJÃO VIA SULCO: EFICIÊNCIA E
FACILIDADE

E. G.M. Lemos 1
L. M. Carareto A/ves 1
E.H.N. Vieira1
M.J.L. de Medeiros 1
A. S. Parducci 1
S. Parducci 1

1 Introdução
Uma das maiores fontes de proteínas da alimentação da população
brasileira é o feijão, entretanto, sua produtividade no país é baixa. Este fato é
atribuído à diferentes razões, como a baixa fertilidade dos solos brasileiros,
onde tal cultura é desenvolvida; o baixo conteúdo de nitrogênio nos solos;
estirpes nativas de rizóbios ineficientes e inoculantes de baixa qualidade
apesar de formulados com estirpes de alta eficiência, selecionadas em
programas nacionais de seleção de estirpes mais eficientes. Para aumentar a
produtividade de feijão uma das possibilidades seria a utilização de adubos
nitrogenados nos cultivas, porem isso causa um aumento nos custos de
produção.
Por outro lado, o ideal seria o desenvolvimento de novas tecnologias que
pudessem agrupar o baixo custo e a eficiência da fixação biológica do
nitrogênio. Nesse sentido pode ser observado que os principais problemas no
uso da tecnologia de inoculação de leguminosas são vários: a baixa qualidade
dos inoculantes comercializados contendo poucos rizóbios viáveis e/ou muitos
organismos contaminantes; o processo de inoculação das sementes é
trabalhoso e pouco eficiente; além disso, o tratamento das sementes com
fungicidas que podem diminuir o número de bactérias viáveis inoculadas.
Com relação ao feijão existem poucos trabalhos conclusivos da
eficiência da inoculação de bactérias fixadoras de nitrogênio nessa planta.
Portanto, esse trabalho tem como objetivo utilizar nova formulação de
inoculante que asseguram a viabilidade das bactérias por um período maior e
uma adequada metodologia na dinâmica de aplicação do produto a qual
consiste na aplicação das bactérias diretamente sobre as sementes, no sulco
durante a operação de plantio. Para isso áreas de plantio foram selecionadas,
a inoculação das sementes foi realizada via sulco de plantio com o inoculante
Biorhizo feijão (Bioarts) e equipamento Mecmaq com manta protetora de
radiações e calor. Para a análise dos resultados foram coletados os nódulos
para avaliação das bactérias (em execução); as folhas para análise vegetal do
N e N da FBN; sendo avaliado também o número de sacas de feijão por
hectare.

1 FCAV/UNESP, Jaboticabal, SP; Embrapa CNPAF Goiânia - GO; Casa Agricultura ltaí SM­
CATI-EDR Avaré ltai, SP.; IBRA Agrisciences & Bioarts lnd. de Biotecnologia
99

2 Produtividade Os resultados mostraram que na dose recomendada (400 a


900 ml de Biorhizo feijão por ha para produtividades de 2 a 3,5 [Link]-1), a
produtividade de feijão ([Link]-1) nas áreas tratadas apenas com Biorhizo
feijão foi semelhante às áreas cultivadas somente com nitrogênio (70 a 120
[Link]-1) ou com nitrogênio (70 a 120 [Link]-1) + inoculante.

3 Avaliações foliares Avaliações foliares realizadas durante o ciclo da


cultura mostraram que os níveis foliares de N não diferiram entre si, seja em
áreas com Biorhizo feijão, com nitrogênio ou com nitrogênio + Biorhizo feijão.
Esses resultados mostram que a inoculação de feijão via sulco de plantio, com
uma formulação que mantém a viabilidade das bactérias fixadoras de
nitrogênio é uma tecnologia de fácil execução, eficiente e que proporciona
maior lucratividade no cultivo do feijão.
100

CULTURA DE FEIJÃO: ESTRESSE E PRODUTIVIDADE

Antonio Luiz Fancel/i 1


Durval Dourado Neto2

1 Introdução
O conhecimento da produtividade potencial da cultura de feijão é o
primeiro passo para definir a estratégia de manejo e o limite de investimento.
A produtividade potencial depende apenas do genótipo, da radiação
solar e da temperatura. A disponibilidade de radiação solar fotossinteticamente
ativa é dependente da latitude, da época do ano (declinação solar) e da
nebulosidade. A produtividade potencial é deplecionada por fatores abióticos e
bióticos.
Dentre os fatores abióticos, destaca-se a disponibilidade de água no
solo, a qual depende do regime de chuva, do manejo da irrigação e da
capacidade de água disponível, que por sua vez está relacionada ao teor de
argila e de matéria orgânica do solo. A disponibilidade de água determina
profundidade efetiva do sistema radicular e fertilidade do solo.
Dentre os fatores bióticos, destacam-se a incidência e a severidade de
doenças e a ocorrência de pragas e de plantas daninhas.
A relação entre estresse e produtividade é extremamente complexa.
Porém, acredita-se que, de maneira geral, o estresse (biótico e abiótico) reduz
área foliar e duração do ciclo e, conseqüentemente, a produtividade.
O presente trabalho tem por objetivo apresentar princípios gerais,
relacionados à fisiologia do estresse do feijoeiro, que nortearão ações de
planejamento e de manejo, no intuito de minimizar estresse e de otimizar os
recursos (naturais e insumos, principalmente) disponíveis para obtenção da
produtividade máxima econômica.

2 Época de semeadura e população e distribuição de plantas


A população de plantas é definida (planejamento) com base nos
seguintes critérios práticos: (i) o índice de cobertura do solo de ser 100%
quando a cultura de feijão estiver com 50% das plantas com flores abertas
(estádio fenológico R5); e (ii) a cultura de feijão deve possuir pelo menos
quatorze folhas (trifólios) completamente desenvolvidas quando 50% das
plantas estiverem com pelo menos uma flor (estádio fenológico Rs).
Para que isso ocorra, deve-se levar em consideração os seguintes
aspectos: (i) hábito de crescimento do genótipo utilizado (tipos 1, li, Ili ou IV); (ii)
temperatura média do ar; (iii) disponibilidade hídrica durante todo o ciclo da
cultura: (a) fase vegetativa: definição do sistema radicular e da área foliar, (b)
primeira metade da fase reprodutiva: definição do número médio de vagens por
planta, e ( c) segunda metade da fase reprodutiva: definição da massa média do

1
Engenheiro Agrônomo. MSc. Dr. e Docente do Departamento de Produção Vegetal,
ESALQ/USP. Caixa Postal: 09 - Piracicaba/SP - 13418-900 - fone: (19) 3429-4115 -
ramal:25.e-mail:fancelli@[Link]
2
Engenheiro Agrônomo. MSc. Dr. e Docente do Departamento de Produção Vegetal,
ESALQ/USP. Caixa Postal: 09 - Piracicaba/SP - 13418-900 - fone: (19) 3429-4284. e-mail:
dourado@[Link]. br.
101

grão; (iv) fertilidade do solo; (v) adubação nitrogenada; (vi) espaçamento e (vii)
população de plantas, principalmente.
3 Hábito de crescimento
No caso dos genótipos de crescimento determinado (tipo 1), recomenda­
se utilizar menores espaçamentos e maiores populações, quando se deseja
efetuar a colheita mecanizada. Nesse caso, o planejamento visa obter menor
número de vagens por planta, maior uniformidade de maturação das vagens e
maior altura de inserção das vagens na planta.
Nos genótipos de crescimento indeterminado, de maneira geral,
recomenda-se maiores espaçamentos. A população dependerá do risco de
falta de água no florescimento e da uniformidade de maturação na colheita,
principalmente.
Quanto maior o risco de estresse devido a pouca disponibilidade de
água no solo, recomenda-se utilizar população mais próxima do limite inferior,
no intuito de maximizar volume de solo por planta e, conseqüentemente,
minimizar transpiração e deficiência hídrica durante o florescimento (período de
máxima demanda hídrica e máxima sensibilidade da planta à deficiência de
água no solo).
4 Temperatura do ar
Quanto maior for a expectativa de temperatura média do ar mais
elevada, recomenda-se utilizar espaçamentos maiores (próximos ao limite
superior) e menores populações (próximas ao limite inferior).
Temperaturas elevadas resultam na redução da fotossíntese líquida,
conseqüentemente, a alocação de carboidratos aos diferentes órgãos da planta
é reduzida, devido ao aumento da respiração ser superior ao aumento da
fotossíntese bruta.
5 Disponibilidade de ar e de água no solo
A disponibilidade de água no solo é dependente basicamente do teor de
argila e de matéria orgânica do solo.
Quanto maior o teor de argila e de matéria orgânica, maior a retenção de
água no solo. O limite superior de retenção de água nos solos existentes na
natureza é da ordem de 2,0 mm por cm (2,[Link]·1) de solo explorado
efetivamente pelo sistema radicular. Por outro lado, solos arenosos com baixo
teor de matéria orgânica retêm menos água. O limite inferior está em torno de
0,[Link]·1.
A disponibilidade de água no solo, do ponto de vista estático, pode ser
quantificada através da seguinte expressão:
CAD (
-- = 10 0cc -0pmp ) (1)
Ze
em que 9cc e 9pmp se referem aos teores de água no solo (cm .cm·3) 3

correspondentes à 'capacidade de campo' e ao 'ponto de murcha permanente';


CAD à capacidade de água disponível (mm) e Ze à profundidade efetiva do
sistema radicular (cm), que corresponde à profundidade do solo no perfil que
contribui com 95% da evapotranspiração máxima da cultura de feijão.
A porosidade livre de água (P, [Link]·3) ocupada com ar pode assim ser
calculada:
102

/J = a-0ª (2)
em que a se refere à porosidade total de solo ([Link]·3) ocupada com ar e
com água e 8a à umidade do solo atual ([Link]·3).
Sendo assim, a quantidade de água (QAgD, mm) e de ar (QArD, mm)
disponível pode assim ser calculada:
QAdD = 10(0ª -0P'"P)ze (3)
QArD = l0/JZe (4)
A título de exemplo, vamos supor um solo médio (em termos de
retenção de água) que se encontra na 'capacidade de campo' com 25% de
água, que o 'ponto de murcha permanente' seja 12,5% de água e a porosidade
total seja 50%. Nesse caso, teríamos na camada superficial de O a 30 cm os
seguintes valores:
. 2
QAdD = 10(0,25-0,125)30 = 37,5mm = 37,5�_ IO OOOm = 375.000!:_
m ha ha
L 10.000m 2 L
QAdD = 10(0,50- 0,25)30 = 75,0mm = 75,0 --i- .--- = 750.000-
m ha ha
Verifica-se que o solo que possui 1,25 [Link]·1 (retenção média na
natureza), possui 700.000 [Link]·1 de água, dos quais 375.000 [Link]·1 estão
disponíveis à cultura de feijão, e que há 700.000 [Link]·1 de ar disponíveis no
perfil de O a 30 cm.
O perfil de umidade (Figura 1) ilustra bem a disponibilidade de água e de
ar no solo até a profundidade de 30 cm.
...� 0
epmo ec 0cc es

Água disponível:
1 1
12.500 [Link]· .cm·

Ze
sólídos

r
Z, cm
Figura 1. Perfil de umidade de um solo com 1,25 mm por cm de profundidade
efetiva do sistema radicular (Ze = 30 cm).

A disponibilidade de água e de ar no solo, do ponto de vista dinâmico,


deve contemplar a densidade de fluxo de água no solo (q, [Link]·\ principal
processo que define a magnitude da evapotranspiração real (ETr, [Link]·\ a
103

qual só será a máxima (ETm, [Link]-1) se a densidade de fluxo for da ordem


de grandeza ou superior à ETm.
A título de exemplo, supondo a cultura de feijão com índice de área foliar
máximo (IAF = 5 m2 .m"2) e, conseqüentemente, máxima evapotranspiração
máxima (ETm = 6,8 [Link]·1, p.e), a evapotranspiração real só será a máxima
(ETr = 6,8 [Link]·1, nesse caso) se o teor de água no solo for superior à
umidade crítica (9c = O, 17 cm3 .cm·3) (Figura 2).
1
ETr, [Link]·

AH CAD Ar ET= q
(12,5%) (12,5%) (25%) ETm

q > ET
Sólidos ambiente favorável...
(50%)

Solo médio na natureza ...


e, [Link].,

AH ar

CAD=1 O.(Occ- 0pmp).Ze


1
12.500 [Link]· .cm·'

Ze

sólidos

Z, cm

Figura 2. Relação funcional entre evapotranspiração real (ETr, [Link]·\


evapotranspiração máxima (ETm, [Link]- 1) e conteúdo de água no
solo (9, cm .cm·3).

Associado à disponibilidade de água, é importante entender a


disponibilidade de oxigênio, a qual é dependente da disponibilidade de ar, visto
que o teor de oxigênio no ar do solo é da ordem de 16%, porém sempre inferior
ao teor de oxigênio no ar da atmosfera. Como há consumo de oxigênio no solo
pelos microorganismos e sistema radicular das plantas, é importante entender
que o processo de renovação de oxigênio (difusão) ocorre apenas na parte
porosa do solo, quando comparada à difusão do ar na água do solo.
Sendo assim, teoricamente a melhor oxigenação do solo, sem prejuízo à
produtividade do feijoeiro, ocorre quando a umidade do solo é a umidade
crítica, porque a evapotranspiração real ainda é a máxima e a difusão
(renovação de oxigênio) de oxigênio no solo é maximizada.
O excesso de umidade causa estresse devido à redução da difusão de
oxigênio (falta de oxigênio ao sistema radicular). A falta de água (quando a
umidade atual é inferior à umidade crítica) causa estresse, porque uma célula
em crescimento consome muito mais água que uma célula madura. A falta de
água causa prejuízo ao crescimento celular. Dependendo do estádio, o prejuízo
pode ser maior na raiz (até o V4), na folha e hastes (entre V4 e R6) ou nos
órgãos reprodutivos (entre R6 e R9) (Figura 3).
104

Kg CH2 O alocado por 100 kg CH2O oriundos da fotossíntese líquida

f
1 % .------------------------===-,
00
Órg�odutivos

�olha

•ote botâ,;oa

0%

Figura 3. Alocação relativa (Ar, %) de carboidrato (oriundo da fotossíntese


líquida) aos diferentes órgãos da planta, em função dos diferentes
estádios fenológicos da cultura de feijão: (A) raiz, (B) folha e haste e
(C) órgãos reprodutivos (FV: fase vegetativa e FR: fase reprodutiva).

Em função do sistema radicular ser 'dreno forte' (do ponto de vista de


alocação de carboidrato) na primeira metade da fase vegetativa (Figura 3), a
disponibilidade de água (q > ETm) e de oxigênio é fundamental para que o
volume de solo por planta seja maximizado, otimizando assim a disponibilidade
dos nutrientes existentes no solo.
Sendo assim, torna-se imprescindível entender a disponibilidade de
oxigênio no perfil de solo até a profundidade efetiva do sistema radicular (aqui
adotada como 30 cm, a título de exemplo numérico) (Figura 4).
Em função da difusão (D) de oxigênio ocorrer na atmosfera para o ar do
solo (Figura 4) e do maior teor de matéria orgânica na superfície, a
disponibilidade de oxigênio no ar do solo decresce com o aumento da
profundidade do solo. Assumindo que, quanto maior for a massa do sistema
radicular, maior é a demanda por oxigênio, conclui-se que a massa de raiz
diminui com a profundidade (Figura 5).
Sendo assim, teoricamente, a distribuição dos nutrientes no solo
(fertilidade do solo) deveria levar em consideração a disponibilidade de
oxigênio, principal fator que determina a distribuição de raiz no perfil do solo.
A lâmina líquida de irrigação (1, mm) deve ser aplicada para que
umidade do solo esteja sempre entre a umidade crítica (valor mínimo) e a
capacidade de campo (valor máximo) para que não haja estresse por falta ou
por excesso de água, respectivamente. Sendo assim, tem-se que:
I = 10(0cc - 00 )Ze (5)
A complexa relação entre disponibilidade de água deve ser
compreendida no intuito de melhor nortear as ações práticas de planejamento e
de manejo.
105

Respiração radicular e de 02
microorganismos...
Difusão de 02 , µ[Link]-2 .h-1

Alta demanda ]
Oxigenação:
- Direção: vertical
- Sentido: para baixo
. Meio (ar ou água)
. Diferença de concentração de 02

Baixa demanda ]

Z,cm
Figura 4. Disponibilidade de oxigênio no perfil de solo efetivamente explorado
pelo sistema radicular da cultura de feijão.

Difusão de 02 , µ[Link]·2 h"1

Z,cm
Figura 5. Distribuição do sistema radicular no perfil do solo.

5.1 Nitrogênio
A disponibilidade de nitrogênio no solo está intimamente dependente da
atividade de microorganismos, que por sua vez depende da temperatura do
solo e da disponibilidade de carbono (a matéria orgânica do solo é o fator mais
limitante), de nitrogênio e de oxigênio (ar do solo), principalmente.
De maneira geral, o fator mais limitante é o teor de matéria orgânica
(disponibilidade de carbono). Solos com alto teor de matéria orgânica
proporcionam uma maior atividade (população) de microorganismos, tornando­
º menos responsivo à adubação nitrogenada. Por outro lado, solos com baixo
teor de matéria orgânica são altamente responsivos à adubação nitrogenada. A
106

responsividade é definida pelo teor de matéria orgarnca do solo e pela


produtividade almejada. Sendo assim, a oferta de nitrogênio pelo solo é
dependente essencialmente do teor de seu matéria orgânica (Figura 6).

AH CAD Ar
(12,5%) (12.5%) (25%)
NOie N2, Oz .. ,
NH4

-
Mn
Sólidos
(50%)
6
5 Solo médio na natureza•..

('a
4
,s
ci 3
� 2 � Oferta do solo (1,B0mM N)

� sem adubação

1 � ri
o
t, dae

1,25 L 1o•m2 1,80.10·3 moles N 14g N kg N 0,315 kg N

2 3
m .dla ha L solução moi N 10 g N [Link]

Figura 6. Disponibilidade de nitrogênio no solo em termos de taxa de oferta


([Link]·1).

Considerando o teor médio de nitrogênio de 0,123% no solo, tem-se que


o solo disponibiliza 4.428 [Link]· 1 de nitrogênio:
6 4 2
0, 123kg 1,2g 3
10 cm • 10 m • � = g
QND = . 3 .0,3m. 3
4 .428 k N
100kg cm m ha 10 3 g ha
em que QND se refere à quantidade de nitrogênio disponibilizada no solo (de
densidade de 1,2 [Link]-3), em função da atividade de microorganismos, até a
profundidade de 30 cm (Figura 7).
Supondo, para a cultura de feijão irrigado, uma produtividade de 3.200
[Link]·1 (13% de umidade), índice de colheita de 30%, teor de nitrogênio no
grão de 1,3% e nas outras partes de 0,9%, eficiência da adubação nitrogenada
(Ef, [Link]-1) via fertigação de 41% e quantidade relativa de nitrogênio fornecida
pelo solo de 65% (Ns, [Link]·\ tem-se que: (i) produtividade de grãos secos
(Pgs): 2.784 [Link]·1, (ii) produtividade de outras partes (Pop): 6.496 [Link]·1, (iii)
exportação: 36,2 [Link]·1 de nitrogênio, (iv) retorno com os restos culturais: 58,5
[Link]·1, (v) extração: 94,7 [Link]·1 e adubação teórica recomendada teórica de
80,7 [Link]·1 (Figura 8).
107

kg N/kg
o
5

30
Ze, cm
Figura 7. Quantidade de nitrogênio disponibilizado no solo até a profundidade
de 30 cm.

A recomendação de adubação nitrogenada na cultura de feijão (QN,


[Link]-1) pode ser efetuada através da seguinte equação:
Pgs
QN = [rN .IC + (1- IC)TNop X1 - Ns) (6)
[Link] g
1
em que a produtividade de grãos secos (Pgs, [Link]" ) e o índice de colheita (IC,
[Link]-1) são assim definidos, respectivamente:
Pgs = Pg(l - u) (7)
Pgs
IC = (8)
Pgs+Pop
em que Pg se refere à produtividade de grãos ([Link]"1) com teor de água
conhecido (u, [Link]·\
A título de exemplo, tem-se que, em função da variação temporal da
fitomassa seca total, a produção média diária é da ordem de 102,5
[Link]·1, considerando um ciclo de 90 dias e gasto de 60 [Link]·1 de sementes
(com 13% de umidade) (Figura 9).
108

FST=9280 kg. ha·1


IC= 30%
Pgs= 2784 [Link]·1 1 Pop=6498 [Link]·1 1
TNg= 1,3% TNop= 0,9%
Exp=36,2 [Link]·1 Ret= 58,5 [Link]·1

Ext=94,7 [Link]·1
1-Ns= 35% Ns=65%
33, 1 [Link]·1 61,6 [Link]·1
Ef= 41%

Figura 8. Fluxograma referente à recomendação de adubação nitrogenada na


cultura de feijão: FST: fitomassa seca total, IC: índice de colheita,
Pgs: produtividade de grãos secos, Pop: produtividade de outras
partes, TNg: teor de nitrogênio no grão, TNop: teor de nitrogênio nas
outras partes, Exp: exportação de nitrogênio, Ret: retorno de
nitrogênio, Ext: extra.

FST, [Link]·1

52,2 lp,,.ilií......::;::::::,,.____________________J
o 90 t (dia)
------------------------ fenologia
Vo Re

Figura 9. Variação temporal da fitomassa seca total da cultura de feijão.

Nesse caso específico, o teor médio de nitrogênio na planta é de 1,02%.


Considerando a fitomassa seca total produzida de 9.280 [Link]·1, tem-se uma
extração de 94,7 [Link]·1 (Figura 1O}, e uma taxa de absorção média de 1,05
[Link]·1 dia·1 de nitrogênio.
109

N, [Link]·1

0, 5 lp,,di......::::::=-----------------------1
O 90 t (dia)

------------------------- fenologla
Vo

Figura 1 O. Marcha de absorção de nitrogênio.

Sendo assim, a taxa de absorção de nitrogênio pelo feijoeiro pode ser


derivada, a qual define a demanda da planta, bem como quanto
(recomendação de adubação nitrogenada) e quando aplicar (Figura 11).

1, 05 �--... ----------------�..----+
Taxa média de absorção

O 90 t (dia)

Figura 11. Demanda da planta caracterizada pela taxa de absorção de


nitrogênio.

Em função da taxa de oferta de nitrogênio pelo solo e da taxa de


demanda pela planta, pode-se melhor entender o porquê da adubação em
semeadura e em cobertura, bem como definir quando e quanto aplicar em
função da produtividade de grãos, do genótipo (teor de nitrogênio no grão e nas
outras partes, bem como índice de colheita), da eficiência (fertilizante e forma
de aplicação, principalmente), e da quantidade relativa de nitrogênio fornecida
pelo solo (teor de matéria orgânica no solo) (Figura 12).
110

Oferta do solo com

t, dae

Figura 12. Recomendação de adubação nitrogenada na semeadura e em


cobertura em função da taxa de oferta do solo e da taxa de demanda
pela planta.

Apesar da grande quantidade de nitrogênio total existente no solo,


apenas cerca de 2% está disponível à cultura de feijão. O restante está
imobilizado pelos microorganismos.
A título de ilustração, considerando o teor médio no perfil de O,123% e
uma camada superficial de 5 cm (devido a semente ser colocada a 3 cm de
profundidade), tem-se no momento da semeadura 14,8 [Link]·1 de nitrogênio
disponível.
Sem .2.
4428 kg= 14,8 kg N
30cm I 00 ha ha
Sendo assim, 30 [Link]· 1 na semeadura é praticamente o dobro da
quantidade disponível. Recomenda-se aplicar nitrogênio na semeadura em
função do efeito sinergístico, o qual pode ser observado em função da planta
alocar mais carbono para fazer raiz no início do ciclo. Conseqüentemente, o
volume de solo por planta é maximizado. Sendo assim, o solo fornece mais
nitrogênio à cultura de feijão quando se aduba do que quando não se aduba.
O efeito sinergístico, bem como a quantidade relativa fornecida pelo solo
e a eficiência da adubação nitrogenada, só pode ser determinado através da
utilização de técnicas nucleares, como a utilização de nitrogênio marcado.
A título de ilustração, serão considerados os seguintes casos: (i)
tratamento 1: sem adubação nitrogenada, (ii) tratamento 2: adubação
nitrogenada com 94,7 [Link]· 1 utilizando uréia como fonte de nitrogênio, e (iii)
tratamento 3: adubação nitrogenada com 94,7 [Link]·1 utilizando uréia com
nitrogênio marcado (a uréia nos dois casos possui 45% de nitrogênio, sendo
que no tratamento 2 há apenas a abundância natural de 15 N, e no tratamento 3
a uréia foi enriquecida com 15 N, o que permite determinar a eficiência da
adubação nitrogenada e a quantidade relativa de nitrogênio fornecida pelo
solo).
111

No tratamento 1, sem adubação nitrogenada, a extração é a quantidade


de nitrogênio fornecida pelo solo (Figura 13) e o índice de colheita diminui (para
efeito de cálculo, serão considerados os mesmos teores de nitrogênio no grão
e nas outras partes).
FST= 4058 [Link]·1
IC = 21,4%
Pgs= 869 [Link]·1 1 Pop= 3189 [Link]"1 1
TNg= 1,3% TNop=0,9%
Exp= 11,3 [Link]·1 Ret= 28,7 [Link]·1

Ext= 40,0 [Link]·1


1-Ns= 0% Ns= 100%
0,0 [Link]·1 40,0 [Link]·1

QN = 0,0 [Link]·1 \
Figura 13. Fluxograma referente à produtividade de grãos de 999 [Link]·1
(u= 13%) sem adubação nitrogenada (tratamento 1).

Se não houvesse o tratamento 3, o pesquisador poderia assumir que o


solo havia fornecido 40 [Link]·1 de nitrogênio (em vez de 61,6 [Link]-1).
Conseqüentemente, a eficiência seria superestimada para 68% (em vez de
41%).
A utilização de nitrogênio marcado permite verificar a correta eficiência e
a correta quantidade de nitrogênio fornecida pelo solo. Isso permite verificar a
economicidade das diferentes formas de aplicação. Sendo assim, ao fato do
solo ter fornecido 61,6 [Link]·1 de nitrogênio quando se faz a adubação, quando
comparado com 40 [Link]·1 de nitrogênio quando não se faz a adubação, dá-se
o nome de efeito sinergístico da adubação nitrogenada, razão pela qual a
adubação na semeadura é recomendada. A adubação em cobertura é
recomendada no intuito de garantir que, durante todo o ciclo da cultura, a taxa
de oferta do solo seja sempre superior à taxa de demanda pela planta.

6 População de plantas
O feijoeiro compensa a redução de população com o aumento do
número médio de vagens por planta, dentro de uma certa faixa de população
dependente da interação do genótipo com o ambiente.
A título de exemplo, considerar-se-á, como ordem de grandeza, a faixa
de 180.000 [Link]·1 (limite inferior) a 240.000 [Link]·1 (limite superior) e
5 grãos por vagem com massa média de 0,26 g por grão (Figura 14).
112

120 3500

-+-glplanta
3000
100
-kg/ha
2500
80

2000
60
1500
40
1000

20
500

o� - -------- - -. - - -- -4 .- - _ _______
1 80 000 o-
O cP 2 0 000 P p�ulaç�o
P
min P
max ([Link]·1)

Figura 14. Produção de feijão por planta e por área em função da população.

Verifica-se que a produtividade de �rãos é a mesma com a população


variando de 180.000 a 240.000 [Link]- :
Pg = 180.000plantas _ 13, 6vagens. 5grãos. 0,26 g _}5f_ = 3_200 kg
ha planta vagem grão 10 3 g ha
= 40 .000plantas 10, 2vagens 5grãos 0, 26g � = kg
Pg 2
_ . . - 3200
ha planta vagem grão 10 3 g ha

7 Considerações finais
Em função do exposto, tem-se que: (i) quanto maior for a profundidade
efetiva do sistema radicular, menor será o risco de estresse hídrico; (ii) a
maximização do volume de solo por planta depende da disponibilidade de
água, de oxigênio e de nutrientes (fertilidade do solo), a qual visa otimizar os
recursos disponíveis, minimizando estresse abiótico; (iii) a disponibilidade de
oxigênio determina a máxima massa de raiz numa determinada camada do
solo; (iv) a maior profundidade efetiva do sistema radicular e a maior
disponibilidade de água no solo possibilita trabalhar com menores teores de
nutrientes no solo (menores teores críticos); (v) a disponibilidade de água e de
nutrientes deve ser entendida, no intuito de nortear as ações de planejamento e
de manejo, do ponto de vista dinâmico. Porém, a quantificação da lâmina de
irrigação é viabilizada pelo enfoque estático; e (vi) a responsividade do solo à
adubação nitrogenada é tanto maior quanto menor for o teor de matéria
orgânica no solo e maior for a produtividade almejada.

8 Referências bibliográficas
FANCELLI, A.L. Plantas Alimentícias: guia para aula, estudo e discussão.
Centro Acadêmico "Luiz de Queiroz". ESALQ/USP, 1986. 131p.
FANCELLI, A.L. Milho e feijão: Elementos para manejo em agricultura irrrigada
Departamento de Agricultura/ESALQ/USP. Piracicaba. 14p. 1994.
FANCELLI, A.L. A importância do enfoque sistêmico na produção agrícola
Summa Phytopatologica, v 20. p.61-63, 1994.
FANCELLI, A.L.; Ecofisiologia: implicações práticas de manejo. ln: FANCELLI,
A.L.; DOURADO NETO, D. Sistemas de Produção de Feijão Irrigado.
113

Piracicaba. Departamento de Produção Vegetal. ESAUUSP. p.196-211,


2001.
FANCELLI, A.L. Enfoque sistêmico na adubação: guia para estudo e
discussão. Departamento de Produção Vegetal. ESALQ/USP, 2003. 10p.
(apostila).
114

ADUBAÇÃO DE SISTEMAS DE PRODUÇÃO

Antonio Luiz Fance/li 1


Durval Dourado Neto2
Guy Mitsuyuki Tsumanuma3

1 Introdução
O solo sob vegetação natural encontra-se em equilíbrio dinâmico, em
relação às propriedades que o caracterizam, pois está em conformidade com o
clima, material de origem e posição ocupada no relevo. Assim, a retirada da
vegetação natural, independentemente do método empregado para a sua
remoção e da técnica utilizada para a implantação de projetos agropecuários,
invariavelmente, produzirá mudanças significativas, que poderão acelerar as
degradações químicas, físicas e biológicas do sistema.
Neste contexto, o estabelecimento de estratégias de manejo adequadas
às condições locais, respeitando a aptidão agrícola, a capacidade de uso da
terra e a capacidade suporte do meio, mostra-se imperiosa, objetivando a
manutenção do potencial produtivo da área.
A estabilidade do sistema depende não somente da adoção de um
conjunto de técnicas, mas, sobretudo, da compreensão das ações relativas à
interação dos diferentes fatores de produção, no complexo solo-planta­
atmosfera (Fancelli, 1994).
Assim, em condições tropicais e subtropicais, a adoção de sistemas de
produção que considerem as limitações locais, que promovam o revolvimento
mínimo do solo e a assegurem a permanência de resíduos vegetais sobre a
sua superfície, reduz sensivelmente os efeitos impactantes dos agentes de
degradação do ambiente e de estresse de plantas (e animais) assegurando
maior racionalidade na geração de recursos alimentares e de bens de
sobrevivência.

2 A importância do enfoque sistêmico na produção agrícola


O planeta Terra é composto por inúmeros sistemas, apresentando
complexidade diversa, dependendo do local estabelecido, através dos quais a
vida flui, evolui e se mantém. Assim, um sistema ecológico característico de um
determinado local é denominado de Ecossistema.
Os ecossistemas, através de seus componentes, apresentam-se,
naturalmente, em estado de equilíbrio dinâmico, sobretudo sob o ponto de vista
biológico, o que lhe confere acentuada complexidade e, conseqüentemente,
elevado grau de estabilidade (significativa capacidade homeostática).

1
Engenheiro Agrônomo. MSc. Dr. e Docente do Departamento de Produção Vegetal,
ESALQ/USP. Caixa Postal: 09 - Piracicaba/SP - 13418-900 - fone: (19) 3429-4115 -
ramal:25. e-mail:fancelli@[Link]
2
Engenheiro Agrônomo. MSc. Dr. e Docente do Departamento de Produção Vegetal,
ESALQ/USP. Caixa Postal: 09 - Píracicaba/SP - 13418-900 - fone: (19) 3429-4284. e-mail:
dourado@[Link].
3
Engenheiro Agrônomo. MSc. e Doutorando do Departamento de Produção Vegetal,
ESALQ/USP. Caixa Postal: 09 - Piracicaba/SP - 13418-900 - fone: (19) 3429-4115. e-mail:
quy@[Link]
115

Assim, os organismos que se desenvolvem nesse ambiente natural


possuem satisfatória estrutura de resistência às mudanças, pois somente
aqueles bem adaptados e competitivos, são capazes de encontrar um nicho
ecológico para se estabelecer. Ainda, para manter a posse de seu território,
esses organismos necessitam integrar suas populações, suas exigências
alimentares e suas atividades diversas aos demais componentes do
ecossistema, resultando em intrincadas relações de interação.
Todavia, a Agricultura (processo produtivo) provoca o rompimento desse
estado de equilíbrio, devido ao fato de beneficiar (ou privilegiar) apenas
determinados tipos de populações (espécies cultivadas), provocando
conseqüente simplificação, unilateralidade e perda significativa da estabilidade
biológica do sistema.
O sistema ecológico originado pela ação do Homem, mediante a
transformação ou adaptação do ecossistema natural, apresentando como
objetivos primordiais a geração de recursos alimentares e bens de
sobrevivência, de forma localizada e abundante, é denominado de
Agroecossistema (Fancelli, 1986).
O agroecossistema, face ao crescente contingente humano, segundo
Fancelli (1994), assume determinadas características, tais como: (i)
manutenção de extensas áreas em monocultura (especialização produtiva); (ii)
plantas em níveis próximos à homozigose (pequena variabilidade genética
dentro da população); (iii) alta densidade populacional; (iv) componentes
selecionados para elevada produtividade (perda de genes e táticas de
adaptabilidade); e (v) utilização de técnicas de manejo simplistas e
padronizadas. Tais características fatalmente contribuirão para a instabilidade
estrutural e funcional do sistema biológico considerado.
Contudo, a própria concepção da agricultura moderna, como atividade
econômica, implica na exigência de simplificação e da especialização do
sistema ecológico, pois o Homem necessita cultivar, manejar e colher de forma
rápida, prática e eficiente.
O agroecossistema não apresenta mecanismo eficiente relacionado à
resistência e equilíbrio, o que os torna um sistema inadequadamente moldado
e extremamente frágil. Por essa razão, os ecossistemas simplificados
(agroecossistemas) exigem para a sua regulação e funcionamento, contínuos
subsídios ou aportes de energia, representados pela utilização de fertilizantes,
inseticidas, fungicidas, herbicidas e combustíveis fósseis, principalmente.
Portanto, o reconhecimento da fragilidade, instabilidade e
vulnerabilidade dos agroecossistemas, o emprego de técnicas e tecnologias
apropriadas e energeticamente aceitáveis, bem como o desenvolvimento de
atividades agrícolas fundamentadas em princípios científicos e no enfoque
sistêmico, tornam-se imperiosos para a consolidação de uma agricultura
racional, lucrativa e sustentável (Fancelli, 1986).
Neste contexto, o conceito de adubação de sistemas e de produtividade
sustentável (e não de máxima produtividade), por se constituírem em
estratégias de manejo muito mais apropriadas às nossas condições ecológicas,
merecem especial destaque e consideração.

3 Definição e conceito de adubação de sistemas de produção


A adubação de sistemas de produção pode ser definida como sendo a
estratégia de manejo que assegura, concomitantemente, a satisfação básica
116

das exigências nutricionais das espécies contempladas em um programa de


rotação de culturas, o restabelecimento do equilíbrio biológico rompido pela
monocultura intensiva e o respeito ao ritmo da natureza, quanto aos processos
de mobilização, mineralização e ciclagem de nutrientes (Fancelli, 2003).
Portanto, esse novo conceito de fornecimento de nutrientes, não
somente às plantas cultivadas, porém a todos os componentes do
agroecossistema, implica na satisfação de suas necessidades com a redução
significativa de carências, excessos e perdas.
Esse balanço, de equacionamento não muito simples, é função do
sistema de rotação de culturas utilizado (seqüência e alternância de espécies
vegetais), do ambiente de produção, das práticas de manejo adotadas
(irrigação, plantio direto, adubação verde, além de outras) e das fontes de
nutrientes empregadas.
Dentre as principais justificativas para a adoção de adubação com
enfoque sistêmico, merecem especial menção: (i) assegurar o equilíbrio do
sistema; (ii) garantir a manifestação do potencial produtivo do genótipo
utilizado, minimizando as relações de estresse; (iii) melhorar a eficiência dos
nutrientes fornecidos; (iv) melhorar o desempenho das plantas; (v) reduzir
perdas de nutrientes; (vi) reduzir excesso de nutrientes, no tempo e no espaço;
(vii) preservar a vida do solo e (viii) conservar o ambiente.
A definição ou a engenharia de um programa de adubação de sistemas
deverá considerar sempre: (i) o programa de rotação de culturas apropriada
para a região considerada, incluindo espécies comerciais e mantenedoras; (ii) o
conhecimento satisfatório do clima e do tipo de solo da região ou da
propriedade agrícola em questão; (iii) a seleção das técnicas necessárias para
o cumprimento dos objetivos estipulados e (iv) a avaliação do impacto técnico,
econômica, social e ambiental das ações a serem realizadas.
O conceito da adubação de sistemas deverá considerar aspectos de
manejo envolvendo, de forma integrada (holística), principalmente, o solo, a
rizosfera, os microrganismos, os nutrientes em si, o programa de rotação de
culturas empregado e as espécies vegetais envolvidas no processo produtivo.

Tabela 1. Valoração dos principais elementos, de ordem prática, de um


programa de adubação de sistemas de produção, com relação ao
componente solo.
Matéria Orgânica 3a8 %
5,0 a 5,7 (em água)
Capacidade de campo ou
disponibilidade mínima de 2 [Link]-1
Temperatura de solo n 20 a 30 º C (mínima de 1 ?ºC)
Raiz Abundante, profunda e ativa
Aeração l 1 Adequada (2 a 3 % de 02)
Organismos do solo Diversidade apropriada para o local
(*) No ambiente radicular
117

Tabela 2. Principais implicações, de ordem prática, de um programa de


adubação de sistemas de produção, com relação ao componente
solo.
Matéria i) Fonte básica de nutrientes (principalmente micronutrientes);
Orgânica ii) Fonte de energia e de atividade para microrganismos; iii)
Aumenta a disponibilidade e o desbloqueio de Fósforo; iv)
Modula a disponibilidade e a imobilização de nutrientes em
geral (principalmente o N) e v) Influencia o crescimento e a
distribuição de raízes.
pH i) Modula a taxa de fixação de fósforo; ii) Afeta a
disponibilidade de nutrientes (principalmente micronutrientes);
iii) Regula a taxa de decomposição da M.O.; iv) seleciona e
afeta a vida de microrganismos; vi) Interfere na taxa de
nitrificação e vi) interfere na permeabilidade de membrana e
na taxa de infecção de patógenos, em geral.
Agua i) Extrema relevância para a vida (em geral); ii)lnterfere no
crescimento e desenvolvimento vegetal (inclusive raiz); iii)
Interfere na vida do solo e na qualidade de exudatos e iv)
Favorece e modula a absorção de nutrientes
Calor i) Interfere no metabolismo de planta e na vida do solo e ii)
Interfere no desempenho de raiz e absorção de nutrientes
Raiz i) Determina a taxa de absorção e captura de nutrientes e
água; ii) Responsável pelo rastreamento de água; iii)
Responsável pela sustentação da Planta e iv) Interfere na
vida do solo (exudatos radiculares)
Aeração i) Interfere no crescimento e atividade de raiz ; ii) Influencia a
vida do solo e iii) Interfere na disponibilidade e perdas de
nutrientes
Organismos i) Favorecem a obtenção e disponibilidade de nutrientes; ii)
do Solo Podem estimular ou restringir o desenvolvimento vegetal
(principalmente raízes) e iii) Diversidade garante processos
de auto-regulação e equilíbrio

3.1 Solo
O solo, sob o ponto de vista agronômico, é o substrato natural de plantas
ou o produto da natureza resultante do intemperismo de rochas e da
decomposição de resíduos orgânicos, aliado à ação de síntese e reorganização
de partículas de natureza diversa. Para Buckman & Brady (1974), o solo pode
ser definido como sendo um corpo natural, sintetizado em forma de perfil,
composto de uma mistura variável de minerais, divididos em partículas, e de
matéria orgânica em decomposição, que cobre a terra com uma camada
delgada e que fornece, quando portadores de quantidades necessárias de ar e
de água, amparo mecânico e nutricional para os vegetais.
Os solos, normalmente, são constituídos de quatro componentes
principais como: minerais, matéria orgânica, ar e água; os quais, encontram-se
tão intimamente interligados que torna extremamente difícil a sua plena
separação. Esse fato favorece tanto as reações simples quanto as mais
complexas; quer dentro dos grupos, quer entre si, possibilitando a criação de
um ambiente ideal para o crescimento vegetal.
I 18

Inúmeros autores apresentam a sua composIçao volumétrica


aproximada, baseando-se num solo barro-síltico, de superfície, com condições
adequadas para o crescimento vegetal. Nesse tipo de solo, os minerais
representam 45% de sua composição, enquanto que a matéria orgânica, ar e
água, representam, respectivamente, cerca de 5%, 25% e 25% (Buckman &
Brady, 1974).
Ainda, cumpre ressaltar que a composição volumétrica dos subsolos é,
de certo modo, diferente das camadas superficiais (camada arável), pois
apresentam teor mais reduzido de matéria orgânica e de cálcio, bem como
quantidade reduzida de macroporos, resultando no maior adensamento e
menor disponibilidade de ar. Por essa razão, o desempenho satisfatório das
plantas cultivadas implica na construção de fertilidade em subsuperfície, bem
como na facilitação do crescimento radicular em profundidade.
Neste contexto, Fancelli (2000) relata que o desenvolvimento,
crescimento, arquitetura (distribuição de raízes individuais no espaço
tridímensíonaD e funcionamento do sistema radicular poderão ser
significativamente favorecidos por: (i) concentração de nutrientes (V%) nas
camadas superficiais do solo não superiores a 65%, sobretudo se estiverem
acompanhadas de baixa concentração de nutrientes em camadas mais
profundas; (ii) redução do revolvimento excessivo do solo (desetruturação do
solo); (ii1) aeração satisfatória (ou ausência de encrostamento e/ou
compactação e/ou encharcamento do solo, resultando na baixa disponibilidade
de oxigênio para as raízes); (iv) baixa concentração de alumínio tóxico
(impedimento químico);(v) temperaturas no ambiente radicular inferior a 39° C,
aliadas a amplitudes térmicas não muito acentuadas (<15° C); (vi)
disponibilidade satisfatória de fósforo ao longo do ciclo (ênfase ao uso de
fontes de fósforo com solubilidade gradual, em condições tropicais e em solos
com alto teor de argila);(vh) disponibilidade adequada de nitrogênio nos
estádios iniciais de desenvolvimento das plantas (principalmente na forma
amoniacal}, inclusive para leguminosas (ou fabáceas);(viii) teores adequados
de boro (fornecidos via solo, mediante fontes de solubilidade média a baixa);�x)
disponibilidade efetiva de cálcio ao longo do perfil do solo (sobretudo na forma
de sulfato de cálcio ou em meio a teores satisfatórios de enxofre) e (x) baixos
índices de salinidade de sulco (proporcionado pelo uso de baixas quantidades
de cloreto de potássio na semeadura, aliado ao seu correto posicionamento em
relação às sementes).
Ainda, o desenvolvimento e o crescimento vegetal exigem a
disponibilidade satisfatória de todos os nutrientes, não apenas em quantidade,
porém em relações específicas de equilíbrio, de forma a favorecer o seu pleno
aproveitamento.
Quando os requerimentos nutricionais de natureza quantitativa e
qualitativa não são atendidos, verifica-se nítida redução da área foliar e da
eficiência de conversão da radiação interceptada, além de outros distúrbios,
com conseqüente redução do potencial produtivo da cultura.

3.2 Rizosfera
No solo, uma camada exígua de acentuada interação com as raízes das
plantas, denominada de rizosfera, pode ser considerada o palco de inúmeros
processos bioquímicos, representados pela absorção e imobilização de
nutrientes, síntese e decomposição de produtos orgânicos, bem como pela
119

troca ativa de materiais de natureza diversa entre os microrganismos e as


raízes de plantas vasculares.
Em ecossistemas intactos, a mineralização e a decomposição da
matéria orgânica encontram-se em equilíbrio dinâmico; ou seja, os minerais
liberados são prontamente utilizados na construção de nova vida. Porém, a
interferência indiscriminada no solo poderá afetar significativamente o
funcionamento da rizosfera.
A taxa de mineralização da matéria orgânica pode variar mesmo em
locais muito próximos, em função da composição da microflora, aeração,
umidade e pH do solo, bem como da quantidade e do tipo de resíduo (relação
C/N) presente no sistema.
A taxa de mineralização é mais elevada em solos úmidos, próximos à
neutralidade (ou levemente básicos) e com adequado nível de material
decomponível, aliado a épocas quentes. Ainda, a ausência de rotação de
culturas também poderá contribuir significativamente para o incremento da taxa
de decomposição, pois favorece a seleção de microrganismos específicos para
o resíduo predominante.
Solos tropicais, permanentemente aquecidos, podem apresentar baixa
disponibilidade de oxigênio, devido à intensa atividade microbiana. Esse fato
poderá ser minimizado pela presença de cobertura morta recobrindo toda a
superfície do solo. Por outro lado, a concentração de C02 da fase gasosa do
solo, pode se apresentar, muitas vezes, superior em relação à atmosfera,
sendo dependente da atividade biológica e de sua difusividade.
Assim, o balanço entre a disponibilidade de oxigênio e dióxido de
carbono determina o ritmo de vida dos organismos presentes no solo, bem
como afeta consideravelmente as reações e trocas entre o solo e as raízes.
As raízes mais finas absorvem água e nutrientes e, concomitantemente,
cedem compostos orgânicos (produtos de excreção /secreção ou células
mortas da rizoderme) ao solo, ao passo que as raízes mais grossas (1 ª e 2ª
ordem) apresentam a função rastreadora (bombeamento de água) e de
sustentação.
As plantas são favorecidas por meio de troca recíproca com o rizoplano
de material nutritivo (nutrientes, fontes de energia e bioestimulantes) e de
secreções de antibióticos (substâncias de defesa) oriundos da atividade
microbiana.
Na rizosfera encontra-se uma comunidade ativa de microrganismos,
principalmente representada por bactérias e actinomicetos. Esta comunidade
constitui o rizoplano, que atua intensivamente na atividade de raízes, a qual é
favorecida pela presença de carboidratos solúveis, oligossacarídeos, ácidos
orgânicos, enzimas, vitaminas, bioestimulantes e hormônios. Ainda, o muco
que envolve a coifa das raízes, contém substância coloidal (muscige�.
resultante da mistura de sua secreção com a massa de microrganismos
mortos, que pode servir de substrato para a proliferação da microflora próxima
às raízes, bem como para o aumento da estabilidade de agregados do solo.
O rizoplano é favorecido pela disponibilidade de oxigênio, água e pH
(CaCb) em torno de 4,8 a 5,4; bem como pela ausência significativa de
alternância de condições físico-químicas relacionadas à utilização
indiscriminada de corretivos, fertilizantes e insumos, além de equívocos de
manejo.
120

O pH ácido da rizosfera inibe diretamente o crescimento das hifas e a


taxa de acidificação por fungos, em geral. Além disso, estimula o efeito das
bactérias promotoras de crescimento das plantas, que têm o crescimento
favorecido pelo N na forma amoniacal, além de promover o aumento da
disponibilidade de manganês, zinco e de silício.
Portanto, reduzir a ação de bactérias nitrificantes mantendo o pH do solo
(em água), abaixo de 5,5 (com saturação de bases entre 45 e 55), bem como
evitar a lixiviação do nitrato, mediante a manutenção de palhada abundante
(garantida, inclusive, pelo uso de adubação), constituem-se em inteligentes
estratégias de manutenção do potencial produtivo do sistema.

3.3 Vida do solo e disponibilidade de nutrientes


A biologia do solo apresenta suma importância na oferta e na ciclagem
de nutrientes, pois pode interferir diretamente no ciclo natural dos elementos
minerais, nas características do solo, na incidência de pragas e doenças, bem
como no desempenho vegetal. Portanto, o fornecimento de nutrientes em um
programa de fertilização de solo, também deverá contemplar as exigências da
mesa e microvida presente no sistema solo.
Neste contexto, segundo Siqueira & Franco (1988), a maior relevância
pode ser conferida ao carbono, ao nitrogênio e ao fósforo. Os dois primeiros,
por terem acesso às plantas, via atmosfera e, o último, pelo baixo conteúdo
total e pela disponibilidade restrita às plantas, característica da maioria dos
solos tropicais.
Grande atenção tem sido destacada ao Nitrogênio, em razão desse
nutriente ser requerido em maiores quantidades pelos vegetais, por ser o mais
oneroso ao sistema, por necessitar da maior quantidade de energia para sua
síntese e aplicação, por ser o mais poluente, por não possuir outras reservas
no solo (a não ser a da matéria orgânica) e, principalmente, por apresentar um
reservatório, praticamente, infinito, representado pela atmosfera.
Em relação ao carbono, o que mais preocupa é o excesso e sua franca
disponibilidade, cuja acumulação na atmosfera, como resultado da queima de
combustíveis fósseis, tem contribuído para a elevação da temperatura do
nosso planeta em torno de 1,0 grau Celsius, nos últimos 80 anos.
O nitrogênio é o nutriente mineral mais abundante na matéria viva e,
portanto, requerido em maior quantidade. A fixação biológica de nitrogênio (N2 )
atmosférico é o processo pelo qual a maior parte desse elemento foi
incorporada na matéria viva ao longo da história recente do planeta Terra. E,
ainda hoje, o referido processo constitui o principal aporte desse nutriente ao
solo.
Segundo Franco & Dübereiner (1994), o nitrogênio atmosférico é fixado
por alguns microrganismos procarióticos, denominados microrganismos
diazotróficos, incluindo diversos gêneros de bactérias, cianobactérias e
actinomicetos do gênero Frankia, livre no solo ou associados às plantas e até
aos animais. A simbiose de algumas leguminosas com bactérias do gênero
Rhizobium e Bradyrhizobium; de cana-de-açúcar com alguns diazotróficos
endófitos e a resposta de vários cereais, como o trigo, arroz e o milho, à
inoculação com Azospiríllum spp., pode contribuir de forma efetiva para a
sustentabilidade da agricultura tropical.
Estudos realizados em cilindros, sob condições de campo, usando o
método de diluição isotópica 15N, evidenciaram que a Brachiaria decumbens e
121

B. humidfco/a obtiveram, em média, 30 a 40% do nitrogênio, proveniente da


fixação biológica, correspondendo a 45 e 29 kg/ha de N, respectivamente
(Boddey & Victoria, 1986). Resultados semelhantes, têm sido obtidos com trigo
e milho, mediante a associação das espécies mencionadas com bactérias do
gênero Azospirillum e Pseudomonas, muito comuns em condições de solos
brasileiros.
Os Azospirillum são microrganismos que apresentam a capacidade de
fixação de nitrogênio, de forma livre, ao passo que as Pseudomonas são
excelentes promotoras de crescimento de raízes. A sobrevivência e atividade
desses microrganismos, na rizosfera, dependem do tipo de manejo imposto ao
sistema de produção.
Da mesma forma, pesquisas com bactérias responsáveis pela nodulação
do feijoeiro, têm demonstrado que a espécie Rhizobium tropici, apresenta
acentuada eficiência na fixação biológica de nitrogênio, bem como possui maior
tolerância a temperaturas elevadas. Ainda, a referida espécie de
microrganismo, segundo Martinez-Romero et ai. (1991) é mais adaptada a
solos ácidos, além de se mostrar mais estável, sob o ponto de vista genético.
Para Straliotto et ai. (2002), variedades com sementes grandes
apresentam maior potencial de fixação de N2 do que linhagens com sementes
pequenas. Da mesma forma, materiais precoces, como os do grupo Irai
(maturação aos 75 dias), apresentaram maior potencial para a obtenção de
nitrogênio simbiótico do que materiais de ciclo normal, como o Carioca
(maturação aos 88 dias). Explicam os autores que, nos materiais com
sementes graúdas e hábito de crescimento determinado e que paralisam o
crescimento vegetativo após a floração, haveria a manutenção de um maior
estoque de carboidratos na planta e, conseqüentemente, maior reserva
energética para o processo simbiótico.
A abundante nodulação e a efetiva fixação biológica de nitrogênio
deverão ser almejadas visando a maior eficiência, sustentabilidade e
economicidade do processo. Para tanto, além da inoculação de sementes com
bactérias altamente eficientes e do fornecimento de cobalto e molibdênio,
também se recomenda o emprego de 15 a 25 kg/ha de nitrogênio, na
semeadura (doses de arranque), apesar de essa medida parecer paradoxal.
Contudo, tem sido observado que as larvas de inseto do gênero
Cerotoma spp., principalmente C. arcuata, uma espécie de inseto vulgarmente
denominado de "vaquinha", se alimenta dos nódulos de feijoeiro e que o
prejuízo causado pela predação dos nódulos é muito maior que o dano
provocado pelos adultos, em folhas (Teixeira, 1993). Assim, além do controle
químico, mediante tratamento de sementes e pulverização no sulco de
semeadura, o uso de Beauveria bassiana, nas duas modalidades de controle
acima mencionadas, tem se mostrado promissor.
O papel das micorrizas (ecto e arbúsculo-vesiculares), na aquisição de
nutrientes e água pelas plantas, tem sido amplamente estudado, por inúmeros
pesquisadores. Micorriza é o resultado da associação da planta com um fungo
micorrízico e tem papel fundamental na prospecção de fósforo e de outros
nutrientes de baixa mobilidade em solos tropicais. Ainda, apresenta papel
fundamental na otimização do crescimento das plantas, em condições de
baixos insumos (Siqueira & Franco, 1988).
As micorrizas arbúsculo-vesiculares, também conhecidas como
endomicorrizas, ocorrem, com raras exceções, de forma generalizada, em
122

solos tropicais, sendo influenciadas por fatores inerentes à planta, ao fungo, ao


solo e ao clima. Não apresentam especificidade como na simbiose rizóbio­
leguminosa, porém evidenciam respostas diferenciadas, em função solo e do
fungo considerado.
As plantas vascularizadas que estabelecem uma relação associativa
com fungos micorrízicos, podem ampliar significativamente a sua superfície de
absorção em centenas a milhares de vezes. As micorrizas são capazes de
complexar metais pesados, ligando-os as suas paredes celulares e mitigando o
efeito desses elementos danosos na planta. O tipo mais importante de
associação planta-fungos micorrízicos é representada pela micorriza vesicular­
arbuscular (VA), produzidas por zigomicetos.
A micorriza é influenciada pelas condições de solo e de rizosfera, sendo
significativamente reduzida pela presença de elevada concentração de fósforo
solúvel (Cardoso, 1996) e por excesso de nitrogênio mineral (Larcher, 2000).
Devido à significativa exigência das leguminosas noduladas, em fósforo,
a associação tríplice: planta-bactéria-fungo micorrízico mostra-se fundamental
para liberação de nitrogênio e fósforo no processo produtivo, assegurando
melhor desempenho vegetal.
Outro elemento que, normalmente é negligenciado no sistema de
produção é o enxofre (S), que se mostra fundamental para o pleno
funcionamento do complexo nódulo-planta. Resultados experimentais recentes
apontam que as exigências mínimas relacionadas às culturas �raníferas e aos
microrganismo do solo, oscilam entre o teor de 12 a 15 mg/dm de enxofre, no
solo.
A falta ou a escassez de matéria orgânica no solo reduz a diversidade
biológica, contribuindo para o incremento de microrganismos e nematóides
parasitas de plantas.
Concomitantemente à decomposição da matéria organica, os
microrganismos operam eficientemente a degradação dos compostos
xenobióticos, promovendo a destoxificação e degradação de defensivos e de
outros metabólitos, diminuindo a acumulação destes produtos no solo e na
cadeia alimentar.
Finalmente, Mirkin et ai. (2002), afirmam que a agricultura fundamentada
apenas no uso indiscriminado de defensivos e fertilizantes objetivando
produtividades máximas das plantas cultivadas, pode contribuir para a
manifestação de efeitos colaterais significativos nem sempre avaliados em toda
a sua extensão. Esses efeitos mencionados, normalmente, provocam a
supressão de atividades saprofíticas e a redução da diversidade microbiana do
solo, afetando a regulação da taxa de humificação e mineralização da matéria
orgânica, acarretando distúrbios consideráveis ao ecossistema.

3.4 Manejo químico de nutrientes com enfoque sistêmico


O manejo racional da fertilidade do solo exige constantes investigações
de comportamento dos fertilizantes e permanente observação da resposta da
cultura às medidas corretivas impostas ao sistema. Portanto, é importante o
desenvolvimento de pesquisas que simulem a condição de manejo do solo e da
alternância de culturas passíveis de ser utilizada pelo produtor, bem como
adequar o programa de adubação ao sistema de produção adotado.
No mundo globalizado, envolto à alta competitividade, deve-se sempre
buscar a máxima eficiência econômica, pois "a máxima eficiência técnica,
123

representada pela obtenção da máxima produtividade, apenas alimenta o ego,


enquanto a única que alimenta o bolso é a máxima eficiência econômica"
(Altmann & Pavinato, 2001).
Dentre os nutrientes exigidos pelas plantas cultivadas, incluindo o feijão,
o nitrogênio (N) merece especial destaque, em função de sua influência
positiva ou negativa no metabolismo, desenvolvimento e produtividade vegetal.
Assim, o fornecimento tardio desse elemento, na lavoura de feijão, pode
acarretar maior incidência de doenças e pragas, sobretudo ferrugem, mancha
angular e mofo branco, além de mosca branca, tripes e ácaros. Ainda, salienta­
se que o fornecimento do nitrogênio em estádios avançados da cultura do
feijão (próximo ao florescimento), sobretudo em variedades de crescimento
indeterminado, poderá contribuir para redução da produtividade por favorecer a
formação de um número excessivo de folhas.
O nitrogênio, devido ao seu efeito estimulador no desenvolvimento
radicular, Garwood & Williams (1967) advertem sobre o risco potencial da
ocorrência de elevada disponibilidade de nitrogênio apenas na superfície do
solo, o que resultaria na concentração de raízes pouco profundas. Conclui-se,
portanto, que a aplicação profunda de fertilizantes (1O a 15 cm),
particularmente o nitrogênio, favorece o desenvolvimento das plantas, mesmo
em condições de estresse hídrico, em função do aproveitamento da reserva de
água presente nas camadas mais profundas do solo.
A forma química do nitrogênio, além de interferir nas perdas desse
elemento, também afeta o desenvolvimento vegetal. O aumento da superfície
específica do sistema radicular é, em geral, mais efetivo com o emprego de
nitrogênio amoniacal quando comparado ao nitrogênio nítrico. (Marschner,
1995).
O nitrogênio promove o aumento da taxa de absorção de fósforo (P) por
parte da planta, quando aplicados simultaneamente no sulco de adubação,
sendo esse efeito mais evidente com o uso de nitrogênio amoniacal que com a
sua forma nítrica. Esse fato pode ser explicado pelo abaixamento do pH na
superfície da raiz devido a absorção de NH4+, aumentando, assim a
disponibilidade de fósforo para as plantas, conforme constatado por Blair et ai.
(1971).
O nitrogênio pode ser absorvido como cátion NH4 + ou ânion N03-. A
absorção de amônio provoca o abaixamento do pH, enquanto que a de nitrato
resulta no efeito oposto. O nitrato é a principal forma disponível na maioria dos
solos apresentando arejamento satisfatório. O fornecimento exclusivo de NH4+
às plantas pode causar inúmeros distúrbios devido a alterações na estrutura
dos cloroplastos causadas pela toxicidade da amônia (NH3). Todavia, em geral,
o maior desenvolvimento das plantas é obtido com o suprimento conjunto e
equilibrado de nitrogênio na forma de amônio e nitrato.
A diminuição da taxa de nitrificação, objetivando a manutenção do
nitrogênio no solo, na forma amoniacal, é proporcionada pelo íon cloreto.
Assim, o cloreto de potássio aplicado simultaneamente com a uréia ou com o
sulfato de amônio, possibilita a manutenção, por maior intervalo de tempo, do
nitrogênio na forma amoniacal, contribuindo para o crescimento do sistema
radicular, para o aumento da absorção de fósforo do solo ou do adubo
empregado, além de reduzir a taxa de lixiviação desse elemento.
O fósforo é caracterizado por apresentar elevada capacidade de
formação de compostos de baixa solubilidade com o alumínio, ferro e cálcio,
124

além de se prender à argila. Esse fenômeno é denominado de fixação, o qual é


influenciado pela superfície de contato entre o elemento considerado e os sítios
de aprisionamento. Portanto, a redução do revolvimento do solo implica em
menor superfície de contato entre o íon-fosfato, os elementos reativos e os
colóides do solo, resultando em menor taxa de imobilização.
Assim, a maior disponibilidade de água em solo sob plantio direto, aliado
ao acúmulo de fósforo nas camadas superficiais, e a sua menor taxa de
fixação, promovem o aumento da disponibilidade desse nutriente para as
plantas, podendo, em algumas situações, suscitar a possibilidade da redução
da adubação fosfatada.
Todavia, recentes resultados experimentais evidenciaram a possibilidade
de obtenção de incrementos de produtividade, inclusive para o feijão, quando o
fósforo foi distribuído ao longo do perfil do solo, por 30 a 40 cm.
O Potássio também se encontra envolvido no transporte ascendente do
nitrogênio das raízes para a parte aérea e descendente do maiato para as
raízes, assim como na síntese protéica, comprovando suas relações de
interatividade.
A relação Nitrogênio:Potássio, objetivando a redução de estresse e
distúrbios vegetais não deverá, de forma geral, exceder o valor correspondente
a 1,5:1.
Com relação ao Cálcio, devido à sua imobilidade no floema, faz-se
necessário o estabelecimento de estratégias que garantam a sua distribuição
ao longo do perfil do solo, visto que não ocorre o crescimento de raízes na
ausência desse nutriente. Desta feita, torna-se necessário o posicionamento do
cálcio em maiores profundidades, que poderá ser obtido, diretamente, pelo uso
criterioso do gesso agrícola, pela realização da calagem em duas etapas (antes
da aração e gradeação), pela presença de matéria orgânica em decomposição
e, indiretamente, pelos organismos do solo, que promovem a ciclagem desse
elemento, notadamente, os anelídeos (minhocas).
Quanto aos micronutrientes, o manganês (Mn) e o cobre (Cu), exigem
maior atenção em função da acentuada interatividade desses elementos com
as mais diversas condições edafo-climáticas reinantes em ambiente tropical e
subtropical.
Essa preocupação é corroborada por Altmann & Pavinato (2001), que
mediante avaliações realizadas nas Fazendas Parnaíba e Planorte,
constataram que os teores de manganês (Mn) e cobre (Cu) quase sempre se
apresentavam baixos, exigindo a adubação foliar adequada para suprir
deficiências freqüentes. Para os mesmos autores, o suprimento de Cu
constitui-se em uma das maiores preocupações dos técnicos que atuam em
toda a região do Cerrado, pois mesmo com aplicações anuais de mais de 1,5
kg/ha, o teor, no solo, desse elemento, continua baixo e, principalmente, o teor
foliar dificilmente atinge o nível considerado suficiente (10 mg/kg).
Da mesma forma, os dados obtidos em avaliações realizadas por
Leandro et ai (2000), na cultura de soja, em sistema de plantio direto, indicaram
que a limitação (deficiência para excesso) dos nutrientes foi:
Mn>Cu>Mg>N>K>P=S>Zn>Ca>Fe. Concluíram, os autores, que os teores
deficientes e baixos de Mn são conseqüência do uso de doses elevadas de
corretivos agrícolas empregados na região e que a deficiência de cobre pode
ser resultado das freqüentes aplicações de Zn nas formulações NPK e nas
constantes aplicações foliares, mediante inibição competitiva.
125

Quanto ao Boro (B), em função de sua dinâmica no solo e na planta,


esse micronutriente deverá ser fornecido, via solo, em pré-semeadura ou na
semeadura, mediante o uso de fontes de solubilidade média a baixa.
Infelizmente, em função da limitação do atual tipo de extrator utilizado
em análise de solo (água quente), o teor de boro resultante, normalmente, não
tem permitido manejá-lo de forma correta e segura.
A elevação dos teores de ferro livre, de argila, de matéria orgânica e dos
valores de equivalente de umidade, segundo Ferreira et ai. (2001 ), reduzem
significativamente a taxa de recuperação do B aplicado, pelos extratores
estudados (água quente e CaCl2 5mmolL1 ), apesar do Ca Cb ter se mostrado
mais adequado para tal fim.

3.5 Rotação de culturas


Rotação de culturas ou Afolhamento consiste na alternância de espécies
ou culturas, em um mesmo local, mediante o uso de seqüência racional e não
arbitrária, de forma a assegurar ou restabelecer o equilíbrio biológico e a
produtividade do sistema, debilitados pelo monocultivo intensivo (Fancelli,
1986).
A rotação de culturas não implica no emprego de um número
determinado de espécies componentes do programa estabelecido e nem
mesmo no número de anos relacionado à repetição de uma dada espécie. Um
programa adequado de rotação de culturas está relacionado à ausência dos
restos culturais da espécie a ser novamente implantada no local considerado.
A Rotação de Culturas apresenta como princípios básicos: (i) alternância
de espécies apresentando exigências nutricionais distintas; (ii) alternância de
espécies apresentando diferentes sistemas radiculares, quanto à arquitetura e
profundidade de exploração; (iii) alternância de espécies não apresentando
suscetibilidade aos mesmos patógenos e pragas e (iv) uso de uma ou mais
espécies com elevada produção de restava (ou restos culturais).

4 Estratégias básicas de manejo com enfoque sistêmico objetivando a


obtenção de produtividade sustentável, redução de pragas e doenças e
equilíbrio nutricional de plantas, com ênfase à cultura de feijão
Em função dos princípios ecológicos, da interação genótipo-ambiente e
da nutrição no desempenho de plantas em sistemas agrícolas de produção,
recomenda-se que o manejo seja sempre fundamentado na garantia do
equilíbrio nutricional, na manutenção da matéria orgânica, na preservação da
vida do solo e na visão sistêmica do processo. Para tanto, sugere-se a
elaboração de um diagnóstico detalhado da disponibilidade de nutrientes no
sistema (incluindo suas interações), das condições climáticas reinantes no
período e do potencial genético de adaptabilidade e resistência inerente ao
genótipo utilizado. Ainda, o manejo também deverá considerar as estratégias
de minimização de estresses de natureza diversa, principalmente àquele
relacionado à deficiência hídrica.
O estresse hídrico prolongado provoca a hidrólise das proteínas
insolúveis e das substâncias de reserva (ex: amido) nas células das folhas,
objetivando o aumento da taxa de retenção de água por parte da planta
(redução do potencial água). Contudo, essa estratégia derradeira da planta no
sentido de prolongar a sua sobrevivência, em condições de falta de água,
propicia o enriquecimento da folha em aminoácidos livres, nitratos e açúcares,
126

tornando a planta um meio altamente favorável ao ataque e proliferação de


insetos sugadores (afídios, homópteros e hemípteros, principalmente) e fungos,
em geral.
Além do fato acima mencionado, estresse hídrico acentuado também
reduz a capacidade de síntese de fitoalexinas, por parte da planta, tornando-a
ainda mais vulnerável à incidência de organismos oportunistas.
Assim, quando for possível a previsão da ocorrência de períodos de falta
d'água, recomenda-se o fornecimento de cobre, manganês e silício, via foliar,
objetivando a melhoria da defesa da planta, mediante o estabelecimento de
barreiras físicas e bioquímicas, melhor aproveitamento da água e
favorecimento da síntese de fenóis e fitoalexinas. Ainda, imediatamente após o
período de estiagem sugere-se a utilização de fósforo (ácido fosforoso ou
fosfito), inseticidas e/ou fungicidas protetores de plantas.
Quanto ao Nitrogênio, como regra geral, recomenda-se evitar a ausência
desse elemento nos estádios iniciais de desenvolvimento vegetal. No caso do
feijoeiro, além da inoculação efetiva com Rhyzobium tropici, em função da
expectativa de produção, recomenda-se o fornecimento, na adubação de
semeadura, de 15 a 25 kg/ha de N, bem como realizar a adubação de
cobertura no estádio V4 (emissão do terceiro trifólio), quando necessário. O
fornecimento do nitrogênio em cobertura, dentro do possível, deverá ser
acompanhado de potássio e enxofre.
Além disso, como o nitrogênio aumenta a concentração de aminoácidos
e amidas no apoplasto e na superfície foliar que, aparentemente, têm maior
influência que os açúcares na germinação e no desenvolvimento dos esporos
fúngicos e de insetos sugadores, deve-se evitar a aplicação tardia de
fertilizantes nitrogenados, sobretudo em doses excessivas, distribuída em
aplicação única. Da mesma forma, não se recomenda a aplicação foliar de
nitrogênio, na forma de uréia, pois esse procedimento poderá afetar a
integridade da cutina.
Com relação ao fósforo, em decorrência de suas funções na planta,
aliado a sua influência na rizosfera, mediante a liberação de exudatos,
recomenda-se o emprego de doses não muito elevadas, porém bem
distribuídas no tempo e no espaço. Assim, objetivando a preservação da planta
contra organismos de final de ciclo e a garantia de frutificação, sugere-se a
utilização de, pelo menos, parte do suprimento de fósforo apresentando
solubilidade gradual (solo) ou a complementação foliar imediatamente após o
final do florescimento.
Da mesma forma, visando evitar o enraizamento superficial e o
"enovelamento" de raízes, o que poderia facilitar a interceptação do sistema
radicular por patógenos, insetos e nematóides, bem como amplificar o efeito de
veranico, recomenda-se a não utilização de doses elevadas de fósforo, com
acentuada solubilidade e aplicadas de forma pontual (geração de pontos de
concentração desse nutriente).
O funcionamento adequado das raízes e da membrana citoplasmática,
de forma a não favorecer a proliferação de organismos nocivos na rizosfera,
depende da presença constante de fósforo, cálcio, boro e manganês (com o
auxílio do silício) e de baixas concentrações de alumínio, porém sem a
exigência de sua ausência completa.
O potássio, visando contribuir com o uso eficiente da água por parte das
plantas (minimização de estresse), favorecer a frutificação, bem como reduzir a
127

incidência de doenças e pragas, deverá sempre estar presente nos programas


de adubação e, preferencialmente, ser aplicado a lanço e em pré-semeadura.
Todavia, se o teor desse elemento for correspondente a participação na CTC
inferior a 1,5%, não deverá ser dispensado o fornecimento de 20 a 30 kg/ha de
K, na semeadura. No entanto, a definição da dose e época de fornecimento
desse elemento exigirá criteriosa análise, fundamentada na sua disponibilidade
e no balanço entre Nitrogênio, Cálcio e Magnésio, presentes no sistema.
Concentração inadequada de Potássio, na planta, promove o acúmulo
de compostos orgânicos de baixo peso molecular (açúcares e aminoácidos),
resultando em plantas com crescimento anormal, com baixo potencial produtivo
e alta suscetibilidade a doenças e pragas, de forma geral.
O Cálcio, Magnésio e Enxofre, em decorrência de seus benefícios no
metabolismo vegetal e na prevenção de pragas e doenças, deverão ser
aplicados diretamente no solo. O Cálcio, na forma de carbonatos (cálcio
trocável) é pouco móvel e, portanto, o efeito mais evidente desse elemento no
aprofundamento de raízes e na produtividade refere-se ao uso de cálcio
ministrado na forma de sulfatos. Ainda, ressalta-se que, a utilização
indiscriminada de fontes de cálcio (predominantemente carbonatos e óxidos),
pode promover o aumento exagerado do pH do solo (superior a 6,2 - em
água), favorecendo a proliferação de estrategistas "r" (organismos
oportunistas), que estão afeitos às mudanças bruscas de condições físico­
químicas (ambientes instáveis) e contribuir para a diminuição considerável da
população de organismos antagonistas.
Para o Magnésio (Mg), quantidades ou concentrações excessivas
podem afetar a disponibilidade de cálcio e potássio, bem como contribuir para a
restrição do crescimento radicular e alteração da composição dos exudatos,
reduzindo o potencial produtivo das plantas e predispondo-as ao ataque e
proliferação de muitas espécies de fungos patogênicos. Ainda, como o
magnésio possui participação direta na fotossíntese e pode interferir
decisivamente na absorção de fósforo e manganês (elemento fundamental
para a defesa vegetal), a sua participação no equilíbrio de bases e a sua
disponibilidade mínima (5 [Link]-3), no solo, deverão ser continuamente
monitoradas.
Quanto aos micronutrientes, recomenda-se, dentro do possível, sua
aplicação conjunta, pois o fornecimento isolado de um determinado
microelemento implica na avaliação rigorosa de sua demanda e necessidade.
Dentre os micronutrientes mais importantes para a produtividade do feijoeiro e
prevenção de pragas e doenças e que, normalmente, são negligenciados em
sistema de produção, destacam-se o Cobre, o Boro e o Manganês. Todavia,
sua utilização indiscriminada poderá acarretar situações de estresse.
Assim, em função de sua dinâmica no solo e na planta, o boro deverá
ser fornecido, via solo, em pré-semeadura ou na semeadura, mediante o uso
de fontes de solubilidade média a baixa; ao passo que o Cobre e o Manganês,
deverão ser aplicados, via foliar, no início da fase vegetativa e em pré­
florescimenta.
A predominância de tempo nublado e excesso de chuva próximo ou
durante o período florescimento de leguminosas, principalmente de soja e de
feijão, exigirá o fornecimento de B e Ca, via foliar (pulverização visando flores e
vagens jovens), pois a condição edafoclimática resultante dificultará o
128

bombeamento desses elementos do solo para a planta, mesmo que estes se


apresentem no solo em teores adequados.
Finalmente, cumpre ressaltar que, o zinco, apesar de ser o
micronutriente mais comumente considerado em programas de adubação, seu
fornecimento em doses elevadas e sem critério técnico definido, poderá
interferir no aproveitamento e metabolização de outros nutrientes,
principalmente do cobre, bem como favorecer o crescimento e a produção de
metabólitos (micotoxinas) de fungos, além de poder contribuir para o aumento
da população de afídios, principalmente.

5 Exemplo de cálculo de adubação de sistemas de produção com ênfase


a fósforo (p)
Como exemplo de cálculo básico para o manejo de fósforo (P), mediante
o conceito de adubação de sistema de produção, em um terreno, sob plantio
direto, apresentando originalmente, 6 [Link]-3 de P, visando a semeadura de
feijão, após a cultura de milho, sem o fornecimento desse elemento, propõe-se:
(i) adubação (exportação) de milho (1° Ano):
(a) produtividade almejada= 8000 kg/ha;
(b) necessidade de Fósforo= 8 x 2,5= 20 [Link]-1 de P= 45 [Link]-1 de P20s;
(c) considerando 50% de eficiência = necessidade real = 90 kg/ha de P20s
(valor calculado sem considerar o conteúdo desse elemento no solo).
Imediatamente após a lavoura de milho será utilizada a aveia preta (sem
adubo), durante 60 dias, visando a reciclagem, a imobilização orgânica e
distribuição de nutrientes ao longo do perfil do solo (principalmente P);
(ii) adubação (exportação) de feijão (1° Ano):
(a) produtividade almejada= 3000 [Link]-1;
(b) necessidade de Fósforo= 3 x 5= 15 [Link]-1 de P= 34 [Link]-1 de P20s;
(c) considerando 50% de eficiência = necessidade real = 68 kg/ha de P20s
(valor calculado sem considerar o conteúdo desse elemento no solo). Como
não será realizada a adubação na implantação da cultura de feijão após a
lavoura de milho, a quantidade de fósforo (P20s) calculada para a produtividade
almejada, deverá ser adicionada à adubação de semeadura do referido cereal.
Em função da quantidade de fósforo necessária, para se atingir o
objetivo proposto, com redução de custos e aumento de eficiência, pode ser
usada parte do P (40 a 30%), na forma de fosfatos reativos, principalmente em
solos argilosos.
(iii) quantidade de fósforo {P20si empregada na semeadura do milho:
(a) quantidade Total= 90 + 68= 158 [Link]-1 de P205;
(b) estratégia utilizada: 90 [Link]-1 de P solúvel (semeadura) + 70 [Link]-1 de P
reativo (em pré-semeadura);
(iv) balanço parcial:
(a) fósforo total aplicado= 160 [Link]-1;
(b) fósforo total exportado = 45 [Link]-1 (Milho) + 34 [Link]-1 (Feijão)
79 [Link]-1;
(c) saldo= 81 [Link]-1 P20s.
Como o fósforo aplicado, em média, apresentará efeito residual de 30%,
com base na discussão apresentada nos itens anteriores, tem-se: (81 x 0,3) =
24,3 kg/ha de P20s (Quantidade disponível para a próxima cultura,
principalmente se o sistema de produção valorizar o plantio direto e a matéria
orgânica); e
129

(v) balanço Final:


24,3 [Link]·1 P2O5 (Fósforo remanescente mínimo), 27,0 [Link]·1 P2Os (conteúdo
original de fósforo no solo) e 51,3 [Link]·1 P2Os (disponível para a próxima
cultura).
Sendo assim, em função dos cálculos efetuados e da implementação
das medidas discutidas ao longo do presente texto, conclui-se que é possível,
no próximo ano, continuar cultivando feijão somente com o emprego da
adubação de milho.

6 Considerações finais
A agricultura tem experimentado, na última década, profundas
transformações relacionadas aos aspectos técnicos, econômicos, políticos e
sociais. Assim, o advento da agricultura de precisão, a modernização dos
métodos de aplicação de insumos, a reorganização do setor produtivo e da
agroindústria, a valorização da qualidade dos alimentos, a utilização de plantas
transgênicas, o emprego cada vez maior da informática no processo produtivo,
bem como a participação da sociedade no contexto conservacionista, têm
contribuído para o desencadeamento da necessidade de revisão de conceitos
e paradigmas no campo do conhecimento agronômico. Da mesma forma, as
estratégias de manejo também deverão ser submetidas à significativa
remodelação, face às novas informações, tendências e conhecimentos
recentemente gerados dentro do enfoque sistêmico de produção. E, nesse
contexto, a adubação de sistemas aliada ao plantio direto, contribuirá
significativamente para tal feito, pois envolvem a consideração das limitações
locais e as relações de interação entre os nutrientes, o solo, o clima, a planta, a
atmosfera e todos os demais elementos presentes no sistema.

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131

A GESTÃO DE RECURSOS HÍDRICOS E O USO DA ÁGUA NA


AGRICULTURA IRRIGADA

José Machado 1

Devanir Garcia dos Santos2

Antônio Félix Domingues3

1 A questão da disponibilidade hídrica


Essencial à vida, a água é elemento necessário às diversas atividades
humanas, constituindo componente fundamental da paisagem e do meio
ambiente. Recurso de alto valor que apresenta múltiplos usos, como geração
de energia elétrica, abastecimento doméstico e industrial, irrigação, navegação,
recreação, aqüicultura, piscicultura, pesca e assimilação e condução de
efluentes. Entretanto, a quantidade de água é finita, e sua disponibilidade
diminui gradativamente devido à degradação do meio ambiente, crescimento
populacional e expansão da fronteira agrícola.
Apesar de estar sempre se renovando, a água é um recurso escasso,
principalmente para aqueles mananciais com altas demandas, que acabam por
não dispor de capacidade para atender às crescentes derivações. A conciliação
de demandas cada vez maiores com limitada oferta é um problema atual que
tende a agravar-se. Assim, não é a capacidade de satisfazer necessidades
básicas de seres humanos e animais que confere à água o atributo de bem
econômico, mas sim a sua disponibilidade menor que a quantidade total
demandada, considerados qualidade, local e períodos específicos.
No passado, necessidades de recursos hídricos podiam ser atendidas
pelas disponibilidades naturais sem maiores investimentos que aqueles
necessários à captação, ao transporte, tratamento e distribuição d'água. O
aumento populacional e o desenvolvimento econômico, mais intenso nas
regiões de relativa abundância de água, acabaram, de um lado, por reduzir
suas disponibilidades em alguns locais e, de outro, por tornar atraentes regiões
com menor disponibilidade desse recurso, exigindo, entretanto, maiores
investimentos para obtê-la.
A sociedade moderna ampliou consideravelmente a diversidade de usos
das águas, tornando o quadro complexo com o aparecimento de demandas
conflitantes. Nas regiões industrializadas, de exploração mineral e de
concentração populacional, ocorre a degradação das águas, estabelecendo
conflitos com usuários que necessitam de água de boa qualidade.
1
Graduado em Ciências Econômicas pela Faculdade de Economia e administração da
Universidade de São Paulo - USP, Pós Graduado em Ciências Econômicas pela Universidade
Estadual de Campinas - UNICAMP, Professor de Economia na UNIMEP, Deputado Estadual,
Deputado Federal, Prefeito de Piracicaba-SP e atualmente exerce o cargo de Diretor
Presidente da ANA.
2
Engenheiro Agrônomo formado pela Universidade Federal de Lavras, mestre em Gestão
Econômica do Meio Ambiente pela Universidade de Brasília, atualmente Gerente de
Conservação de Água e Solo da ANA
3 Engenheiro Agrônomo formado pela ESALQ-USP, Secretario de Agricultura e Abastecimento
do Estado de São Paulo (90/91 ), Secretario de Recursos Hídricos do Estado de São Paulo
(94), atualmente Superintendente de Conservação de Água e Solo da ANA
132

2 Características da água no mundo4


1,4 bilhão de pessoas no mundo não têm acesso regular à água potável.
6 mil crianças morrem por dia porque não têm acesso à água potável. 4
milhões de pessoas morrem por ano de doenças de veiculação hídrica. 50% da
população mundial terá problemas de acesso a água potável em 2005. A
Conferência Internacional sobre Água e Meio Ambiente, realizada em 1992, em
Dublin, definiu um conjunto de princípios estratégicos para a questão da oferta
de água, sendo que dois deles destacam a importância desse recurso: (i) a
água doce é um recurso finito e vulnerável, essencial para a sustentação da
vida, desenvolvimento e meio ambiente; e (ii) a água possui valor em todos os
seus usos competitivos e deve ser reconhecida como um bem econômico.
A crescente escassez de recursos hídricos e a degradação dos corpos
d'água conduziram inúmeros países à introdução dos mais variados sistemas
de cobrança pelo uso da água e pela poluição hídrica. A utilização de
instrumentos econômicos tem-se revelado mais eficiente no controle da
poluição hídrica do que os tradicionais instrumentos de comando e controle.
Além disso, os instrumentos econômicos possibilitam a obtenção de melhores
resultados com menores custos. O princípio do usuário-pagador tem sido o
principal mecanismo econômico de gestão dos recursos hídricos e de controle
da poluição ambiental.
De acordo com este princípio, os usuários dos recursos hídricos são os
responsáveis pelas despesas necessárias à manutenção dos corpos d'água
dentro de certos padrões de qualidade e quantidade. Assim, todos os usuários
de água devem ser chamados a efetuar o pagamento. Os recursos financeiros
decorrentes da cobrança têm por finalidade financiar investimentos que visam
ao aumento da disponibilidade dos recursos hídricos e à manutenção dos
corpos d'água dentro de certos padrões de qualidade.
O Brasil é um país com uma considerável disponibilidade de recursos
hídricos, 12% da água doce do mundo, sendo seu volume de águas
superficiais estimado em 5.330 km3/ano, representando uma média "per capita"
de aproximadamente 32.000 m3/hab/ano. Entretanto, a distribuição regional é
bastante heterogênea e essa média cai para 4.800 m3 por habitante/ano no
Sudeste, 4.000 m3 por habitante/ano no Nordeste chegando alguns estados
brasileiros a disporem de menos de 2.000 m3 por habitante/ano.
O crescimento demográfico e o desenvolvimento sócio-econômico são
freqüentemente acompanhados de um rápido aumento na demanda mundial de
água, especialmente nos setores industrial e doméstico. O uso industrial, por
exemplo, é previsto dobrar até 2025 se a atual tendência de crescimento se
mantiver.
Da mesma forma, observa-se forte tendência de crescimento da
demanda para abastecimento humano, tendo em vista não apenas o
crescimento populacional, mas principalmente a melhoria da qualidade de vida
das populações, que guarda relação direta com o consumo de água nos centro
urbanos.
A alimentação humana e animal têm sua origem na agropecuária e as
expectativas mundiais apontam para uma necessidade crescente de produção

4
FONTE : Conselho Mundial da Água, Federação Internacional de Sociedade da Cruz
Vermelha
133

de alimentos, com uma projeção de duplicação dessa demanda até o ano de


2025. Isso implica na possível ampliação da área agrícola e/ou no aumento da
sua eficiência de produção, demandando um maior consumo e uso eficiente da
água.

Figura 1. Evolução da demanda hídrica.

Para preservar e garantir acesso à suas reservas e corpos hídricos, nos


diversos pontos do território brasileiro, às gerações atuais e futuras, o Brasil
deverá promover uma gestão eficiente, que busque uma equalização inter­
temporal e qualitativa da água.
O cenário existente aponta para uma necessidade de focar a água como
insumo estratégico e recurso natural limitado. Do ponto de vista de insumo
estratégico, a ênfase maior deve ser colocada no seu uso e, portanto, requer­
se uma racionalização desse uso para evitar perdas em quantidade
(desperdício) e qualidade (contaminação). Do ponto de vista do recurso natural
limitado, o foco deverá ser centrado na conservação e revitalização das bacias
hidrográficas e na preservação de água de boa qualidade.
Essa indispensável visão holística em relação à água faz da agricultura
irrigada brasileira, setor que demanda ações coordenadas e integradas,
principalmente no âmbito interministerial e das instituições vinculadas, o
principal foco de intensificação de trabalhos em favor de um programa nacional
para o uso racional da água, com articulações entre os setores público e
privado, para que o crescimento seja compatível com as expectativas
demográficas, com manejo sustentável dos recursos hídricos e com os
programas voltados para o abastecimento interno e exportações.
Nas últimas décadas tem crescido a área irrigada no Brasil, cabendo
destacar o seguinte: (i) os agricultores sempre têm respondido positivamente
aos programas governamentais de incentivos à expansão da agricultura
134

irrigada; (ii) no fim da década de 1960, o país dispunha de 400.000 ha


irrigados, a maioria concentrada no sul do país.
Na década de 1970 instituiu-se o sistema de planejamento do setor,
capacitaram-se recursos humanos e atingiu-se os primeiros 500.000 ha
irrigados; (iii) na década seguinte, através do PROVÁRZEAS e PROFIR, foram
implantados 1,58 milhões de hectares; (iv) o PRONI e o PROINE, em 1986,
permitiram que se entrasse na década de 1990 com cerca de 3,0 milhões de ha
irrigados, cifra que prevalece até o presente; e (v) a partir dos anos 90, tem-se
observado uma tendência à desativação dos programas de incentivo a
irrigação privada instituídos pelo Estado.

..
� 2.000---------------------i

i [Link]----------------------1
·<

Figura 2 Evolução da área irrigada no Brasil (adaptado de Christofidis, 2002).

Estudo recente em apoio à formulação do Plano Nacional de Recursos


Hídricos informa que a irrigação é responsável pela retirada de 56% da água
total retirada dos corpos de água.

6%
---
6%
12%
a URBANA
sRURAL
&ANIWL

_.....
111NDUS1RIA
;IRRIGAÇÃO

W/4

Figura 3. Totais percentuais de retirada de água por setor usuário de recursos


hídricos no Brasil em 2002.
135

A dotação média unitária de água para irrigação, no Brasil, é 0,39


[Link]-1, considerando operação 24 horas por dia, 365 dias por ano, que
equivale à dotação de 12.300 m3 .[Link]-1, fazendo com que a demanda
média de água para irrigação atinja algo em torno de 1.290 m3.s-1•
Estimativas feitas pela ANA apontam para um crescimento relativo da
agricultura irrigada mais significativo em áreas de cerrado da região Centro­
Oeste e nos estados de Minas Gerais, Bahia, Tocantins, Roraima, e até mesmo
no sul do Maranhão e do Piauí, dependendo de melhoria na infra-estrutura
viária, energética e de armazenamento.
Com relação ao restante da região Nordeste, a expansão somente será
possível, com a ampliação na infra-estrutura (construção de grandes obras
hidráulicas) de iniciativa governamental e de outros arranjos institucionais de
apoio à atividade.
Quanto às regiões Sul e no restante da região Sudeste o crescimento
será com a implantação de sistemas de irrigação localizada em café e na
fruticultura e menor expansão relativa das áreas de grãos irrigadas por
aspersão. Ou seja, os agricultores buscarão explorar culturas com maior valor
econômico. As áreas de arroz irrigado não devem crescer no mesmo ritmo no
Rio Grande do Sul, pois a preferência será dada à manutenção das áreas com
utilização de variedades mais produtivas.

Tabela 1. Projeções de áreas (ha) irrigadas para as diferentes regiões do


Brasil.
Região 2010 2020
Norte 152.500 377.500
Nordeste 805.000 955.000
Sudeste 1.065.000 1.215.000
Sul 1.445.000 1.695.000
Centro-Oeste 402.500 577.500
Brasil 3.870.000 4.820.000
Fonte: Estudos Técnicos de apoio ao Plano Nacional de Recursos Hídricos, MMA/ANA

Verifica-se que é projetada para 201O uma área média irrigada no Brasil
de 3,8 milhões de hectares. Para 2020, por sua vez, estima-se a área irrigada
brasileira de 4,8 milhões de hectares.
Considerando os resultados esperados nos programas de racionalização
do uso da água na irrigação, obtêm-se valores de demanda unitária conforme
apresentados a seguir.

Tabela 2. Projeções de demandas unitárias de água para irrigação, para as


diferentes regiões do Brasil.
Demandas Unitárias ([Link]-1)
Região
2002 2010 2020
Norte 0,35 0,333 0,298
Nordeste 0,45 0,428 0,383
Sudeste 0,30 0,285 0,255
Sul 0,40 0,380 0,340
Centro-Oeste 0,35 0,333 0,298
Fonte: Estudos Técnicos de apoio ao Plano Nacional de Recursos Hídricos, MMA/ANA
136

Tabela 3. Projeções de demandas de água para irrigação nas diferentes


regiões do Brasil.
Região 2010 (m3/s) 2020 (m3/s)
Norte 50,7 112,3
Nordeste 344,1 365,3
Sudeste 303,5 309,8
Sul 549,1 576,3
Centro-Oeste 133,8 171,8
Total 1.381,2 1.535,5
Fonte: Estudos Técnicos de apoio ao Plano Nacional de Recursos Hídricos, MMA/ANA

3 A necessidade da gestão e do planejamento (uso racional)


Estima-se que, em âmbito mundial, apenas 45% da água captada nos
mananciais para irrigação é efetivamente utilizada pelas plantas, 15% é perdida
nos sistemas de distribuição, 25% na aplicação e 15% nos sistemas de
condução (Serageldin, 1995). No Brasil, a situação é um pouco melhor, estima­
se que o aproveitamento ou a água efetivamente utilizada pelas plantas é de
50%. A racionalização da água na agricultura irrigada tem como principal
objetivo reduzir o desperdício da água utilizada e abrange desde a captação
até a aplicação na cultura.
Para fazer o uso racional da água, nessa atividade, diferentes ações
podem ser desenvolvidas como, evitar perdas na captação, no
armazenamento, na distribuição, fazer impermeabilização de canais, fazer
manutenção preventiva e corretiva de equipamentos e tubulações, substituir
métodos e sistemas de irrigação por outros mais eficientes, dimensionar o
sistema de irrigação adequado à cultura e às condições de solo e clima,
conduzir a irrigação em condições climatológicas adequadas, fazer manejo de
irrigação entre outras.
A escolha adequada do método e sistema de irrigação leva em
consideração fatores de solo, clima, disponibilidade hídrica, tipo de cultura,
disponibilidade financeira e nível de instrução do irrigante. Existem vários
métodos e sistemas de irrigação e para cada um desses, uma vasta gama de
acessórios que atendem as mais diversas necessidades.
O manejo da irrigação é o processo que estabelece a necessidade de
água com volume apropriado para garantir o balanço hídrico do solo, de modo
a viabilizar os níveis de produtividade exigidos. Permite identificar, com base
em critérios técnicos, o melhor momento de irrigar e define a quantidade de
água adequada para atender as necessidades hídricas da cultura. Para
conhecer a quantidade de água disponível no solo e para fazer o manejo de
irrigação também existem diferentes equipamentos, softwares e metodologias
disponíveis.
O uso da água na agricultura irrigada também pode ser otimizado
fazendo-se opções por culturas que dão maior retorno econômico por unidade
de área ou unidade de água consumida. Também é aconselhável que os
produtores adotem cultivares adequados à irrigação.
Existem, portanto, inúmeras possibilidades de racionalização do uso da
água na agricultura, para diferentes níveis de investimentos, restando ao
técnico, juntamente com o agricultor escolher a melhor metodologia para cada
situação.
137

Em todos os casos, as grandes motivações para a mudança de


paradigma serão sempre de cunho econômico e ambiental. Do ponto de vista
econômico, a racionalização possibilita significativas reduções no volume de
água utilizado na irrigação ao maximizar a eficiência de uso da água, reduzindo
os gastos com energia e os custos para o usuário. Do ponto de vista ambiental,
além de manter favoráveis as condições de umidade do solo e de fitossanidade
da planta, com acréscimos na receita do usuário em função do aumento da
produtividade, amplia em muito a sustentabilidade dos empreendimentos ao
reduzir, significativamente, a pressão sobre o maior insumo da agricultura
irrigada que é a água.
A aplicação dos instrumentos de gestão de recursos hídricos
introduzidos pela Lei 9.433/97 é de grande importância para a racionalização
do uso da água na agricultura irrigada. Por essa razão, é fundamental que esta
atividade, como maior usuária de água, ajuste-se aos instrumentos de gestão
de recursos hídricos e às novas diretrizes do setor para garantir a sua
sustentabilidade, atender a demanda de produtos agrícolas e compatibilizar
sua demanda de água com os múltiplos usos dos recursos hídricos.

4 A legislação
As iniciativas do Governo para o ordenamento da gestão de recursos
hídricos, decorrente da criação da Secretaria de Recursos Hídricos - SRH
(1995) no âmbito do Ministério do Meio Ambiente e da Agência Nacional de
Águas - ANA (2000), representam os grandes marcos para o início da reversão
desse processo. Estes novos marcos institucionais chegam em um momento
crítico. Os problemas vêm-se acumulando e requerem atenção especial para
se alcançar o desenvolvimento econômico e social de uma maneira sustentável
e proporcionar a gestão dos recursos hídricos observando: (i) conservação, (ii)
preservação, (iii) uso eficiente, (iv) eqüidade econômica e social na alocação
dos recursos hídricos entre usuários, (v) melhoria na operação dos
reservatórios de águas superficiais, e (vi) melhoria na monitoria da quantidade
e qualidade e na prospecção de águas subterrâneas. É essencial a
implementação de ações direcionadas a resolver, ou pelo menos mitigar estas
questões, para poder-se promover o desenvolvimento sustentável do uso
desses recursos.
Os objetivos do gerenciamento dos recursos hídricos no Brasil devem
ser consistentes com as políticas econômicas e institucionais do país e com a
estratégia setorial dos recursos hídricos. Os principais objetivos são: promover
condições para o uso sustentável e alocação intersetorial dos recursos hídricos
progressivamente escassos, oferecer processos, informações confiáveis e
ferramentas eficazes para tomada de decisão dentro de um marco legal
(regulamentar - institucional) justo e moderno que considere a participação de
todos os agentes envolvidos na tomada de decisão.
O Código das Águas, estabelecido pelo Decreto Federal nº 24.643, de
1 O de julho de 1934, consubstancia a legislação básica brasileira de águas. Ele
assegura uso gratuito de qualquer corrente ou nascente de água para as
primeiras necessidades da vida e permite a todos usar águas públicas,
conformando-se com os regulamentos administrativos. Impede a derivação das
águas públicas para aplicação na agricultura, indústria e higiene, sem a
existência de concessão no caso de utilidade pública e de autorização nos
outros casos.
138

Estabelece, também, que a ninguém é lícito conspurcar ou contaminar


as águas que não consome, com prejuízos a terceiros e ressalta que os
trabalhos para salubridade das águas serão realizados à custa dos infratores
que, além da responsabilidade criminal, se houver, responderão pelas perdas e
danos que causarem.
O Código de Aguas apesar de representar um grande avanço na gestão
dos recursos hídricos no Brasil, tinha ainda uma visão de gestão setorial e de
domínio sobre o bem água que dificultava a maximização de sua alocação,
criando privilégios para alguns setores usuários.
A Constituição da República Federativa do Brasil, promulgada em 5 de
outubro de 1988, iniciou um novo processo de gestão de recursos hídricos no
Brasil, apesar de ter tratado de águas apenas no que diz respeito à
competência para legislar sobre elas e também no que tange a seu domínio,
nada dispondo sobre a disciplina de seu uso.
Para disciplinar o adequado uso da água, iniciou-se uma ampla
discussão no âmbito do legislativo que culminou com a promulgação da Lei
9.433/97, chamada "Lei das Águas", a qual baseia-se nos seguintes
fundamentos: (i) a água é um bem de domínio público; (ii) a água é um recurso
natural limitado, dotado de valor econômico; (iii) em situações de escassez, o
uso prioritário dos recursos hídricos é o consumo humano e a dessendentação
de animais; (iv) a gestão dos recursos hídricos deve sempre proporcionar o uso
múltiplo das águas; (v) a bacia hidrográfica é a unidade territorial para
implementação da Política Nacional de Recursos Hídricos e atuação do
Sistema Nacional de Gerenciamento de Recursos Hídricos; (vi) a gestão dos
recursos hídricos deve ser descentralizada e contar com a participação do
poder público, dos usuários e das comunidades.
Ao instituir a Política Nacional de Recursos Hídricos, essa Lei definiu
claramente seus objetivos, as diretrizes gerais de ação e os instrumentos
necessários à sua execução.

5 Plano de Recursos Hídricos (PRH)


São planos de longo prazo que visam fundamentar e orientar a
implementação da Política Nacional de Recursos Hídricos e o gerenciamento
dos Recursos Hídricos. São elaborados por bacia hidrográfica, contém o
diagnóstico da situação atual, o balanço hídrico da bacia, a prioridade de
outorgas, os critérios de cobrança e as restrições de uso dos recursos hídricos
com vistas a sua preservação.
O PRH contribui para a racionalização do uso da água na medida que,
de comum acordo com os estudos técnicos e as aspirações dos habitantes da
bacia hidrográfica, define quanta água poderá ser utilizada em cada setor
usuário. Uma vez feita essa definição, o órgão gestor responsável por aquela
bacia só outorgará até aquele limite, para aquele setor.
No caso da agricultura irrigada, quando o limite estabelecido para esse
setor for inferior à disponibilidade de solos irrigáveis, haverá uma limitação da
quantidade de água outorgada por irrigante. Nesses casos, se o agricultor
quiser produzir mais com a quantidade de água outorgada, necessariamente,
terá que otimizar sua irrigação, evitar desperdícios e adotar métodos e
sistemas mais eficientes, ou seja, ele terá que racionalizar o uso da água.
O PRH também define as áreas aptas à irrigação, considerando
disponibilidade hídrica e classes de uso do solo.
139

6 Enquadramento
Refere-se ao enquadramento dos corpos de água em classes, segundo
os usos preponderantes da água. Esse procedimento visa assegurar às águas
a qualidade compatível com os usos mais exigentes a que forem destinadas e
diminuir os custos de combate à poluição das águas, mediante ações
preventivas permanentes.
Alguns métodos e sistemas de irrigação permitem o retorno da água
utilizada na irrigação para os corpos de água. Essa água de retorno carreia
adubos e agrotóxicos utilizados nas culturas contaminando os mananciais onde
é recebida. O enquadramento zela pela qualidade das águas, apontando em
que classe as águas de um manancial deverão se enquadrar, para que no
futuro possa atender ao uso mais limitante. Se um sistema de irrigação tiver
água de retorno em quantidade e qualidade que vá alterar significativamente a
qualidade da água de um rio, a ponto de causar problemas ambientais, o
irrigante estará infringindo a lei e poderá ser autuado pelos órgãos ambientais.
Diante dessa exigência, o agricultor terá que utilizar métodos e sistemas de
irrigação mais eficientes, evitar perdas por vazamentos e infiltrações em canais
e ficar atento à qualidade da água de retorno.

7 Outorga
A outorga é um ato administrativo discricionário que faculta a
particulares e a prestadores de serviços o uso do recurso hídrico em condições
pré-estabelecidas. Tem como objetivos assegurar o controle quantitativo e
qualitativo dos usos da água e o efetivo exercício dos direitos de acesso à
água.
Os usos sujeitos a outorga são: derivação ou captação de parcela da
água existente em um corpo de água; extração de água de aqüífero
subterrâneo, lançamento em corpo de água de esgotos e demais resíduos
líquidos ou gasosos, tratados ou não, aproveitamento dos potenciais
hidrelétricos, outros usos que alterem o regime, a quantidade ou a qualidade da
água em um corpo de água.
A outorga está condicionada às prioridades de uso estabelecidas nos
PRH, respeita a classe em que o corpo de água estiver enquadrado e preserva
a multiplicidade dos usos dos recursos hídricos. É efetivada por ato da
autoridade competente, seja do Poder Executivo Federal, dos estados ou do
Distrito Federal. A ANA é o órgão responsável pelas outorgas nos corpos de
águas de domínio federal, enquanto que os órgãos gestores de recursos
hídricos estaduais são os órgãos responsáveis pelas outorgas em rios de
domínio dos estados.

8 Cobrança pelo uso da água


A cobrança pelo uso de recursos hídricos tem como objetivo reconhecer
a água como bem econômico dando ao usuário uma indicação de seu real
valor, incentivar a racionalização do uso e obter recursos financeiros para o
financiamento dos programas e intervenções contemplados nos planos de
recursos hídricos. Os valores arrecadados com a cobrança serão aplicados na
bacia hidrográfica em que foram gerados, e serão cobrados aqueles usos
sujeitos a outorga.
140

A água é um bem público e como tal, todos têm direito ao uso, mas
também é um bem limitado, e quando alguém se apropria desse bem para
utilizar em sua atividade, ele deixa de estar disponível para outras pessoas ao
longo da bacia. Sendo assim, é razoável que aqueles que dele se utilizar façam
uma compensação à sociedade para amenizar os prejuízos. Esse é o princípio
da cobrança pelo uso da água na bacia hidrográfica, que aqueles que usam
paguem para gerar recursos que serão aplicados em melhorias da bacia que
beneficiará toda sociedade, reduzindo assim os prejuízos sociais causados
pelo uso individual.
Cabe aos comitês de bacia definir o preço da água a ser cobrado dos
usuários, a forma de aplicação dos recursos e as ações prioritárias a serem
implementadas na bacia, ou seja, é o comitê quem decide o quanto cada
usuário deve investir para ter os benefícios inerentes a seus recursos hídricos
bem cuidados. A cobrança não é mais um imposto aplicado pelo governo, é
sim, um valor pago pelos usuários de água de uma bacia hidrográfica (como
fazem os condôminos) para terem certos benefícios.
A cobrança pelo uso da água contribui para a racionalização do uso da
água na agricultura de duas formas basicamente: (i) como a cobrança implica
em uma saída de recursos financeiros da conta do irrigante, é de interesse dele
que a quantia paga seja a menor possível. Mas não interessa a ele fazer essa
economia reduzindo a área irrigada, senão a receita dele também será menor,
então naturalmente, o agricultor vai procurar evitar desperdícios e melhorar a
eficiência da sua irrigação. Cada vez mais, ele vai procurar produzir mais
gastando menor quantidade de água; e (ii) o comitê de bacia pode decidir que
as ações prioritárias em que serão aplicados os recursos arrecadados são
ações que resultem em maior disponibilidade de água para a bacia, como
programas de conservação de água e solo, proteção de mananciais, proteção
de áreas de recarga, campanhas educativas para a população, programas de
educação ambiental em escolas, promoção de cursos de treinamento para
irrigantes, e tantas outras ações que resultem em otimização do uso dos
recursos hídricos, melhorando a qualidade e aumentando a disponibilidade
para todos os usuários.

9 Sistema de Informações sobre Recursos Hídricos (SIRH)


SIRH é um sistema de coleta, tratamento, armazenamento e
recuperação de informações sobre recursos hídricos e fatores intervenientes
em sua gestão. Tem como objetivos reunir, consolidar e divulgar os dados,
manter atualizadas as informações sobre Recursos Hídricos e fornecer
subsídios à elaboração dos planos de recursos hídricos. Fornece a
disponibilidade hídrica nacional e regional, dando subsídios para outorga do
direito de uso das águas superficiais e subterrâneas.
O SIRH contribui para a racionalização de água na agricultura ao
fornecer informações sobre a disponibilidade hídrica da bacia o que subsidia os
processos de outorga.
O Sistema Nacional de Gerenciamento de Recursos Hídricos foi criado
com as finalidades de coordenar a gestão integrada das águas, arbitrar
administrativamente os conflitos relacionados com os recursos hídricos,
implementar a Política Nacional de Recursos Hídricos, planejar, regular e
controlar o uso, a preservação e a recuperação dos recursos hídricos e
promover a cobrança pelo uso de recursos hídricos.
141

Sua denominação foi dada ao conjunto de órgãos e entidades que


atuam na gestão dos recursos hídricos no Brasil.
A Lei 9.433/97 estabeleceu um arranjo institucional claro para a gestão
compartilhada do uso da água. Descreve-se a seguir os organismos criados a
partir da instituição do novo sistema.
9.1 Conselho Nacional de Recursos Hídricos (CNRH)
CNRH é o órgão mais elevado da hierarquia do sistema em termos
administrativos, a quem cabe decidir sobre as grandes questões do setor, além
de dirimir as contendas de maior vulto.
O CNRH criado pelo Decreto N.º 2.612, de 03 de junho de 1998, é o
órgão máximo normativo e deliberativo.
9.2 Agência Nacional de Águas (ANA)
A ANA é uma autarquia federal com autonomia administrativa e
financeira vinculada ao Ministério de Meio Ambiente - MMA.
A ANA tem como missão regular o uso da água dos rios e lagos de domínio da
União, assegurando quantidade e qualidade para usos múltiplos, e implementar
o Sistema Nacional de Gerenciamento de Recursos Hídricos - um conjunto de
mecanismos, jurídicos e administrativos, que visam o planejamento racional da
água com a participação de governos municipais, estaduais e sociedade civil.
Tais mecanismos são parte da Lei 9.433/97, que instituiu o princípio dos usos
múltiplos. Além de criar condições técnicas para implantar a Lei das Águas, a
ANA contribui na busca de solução para dois graves problemas do país: as
secas prolongadas, especialmente no Nordeste, e a poluição dos rios.
É sua atribuição também a responsabilidade pela execução da Política
Nacional de Recursos Hídricos, e a implementação, em sintonia com os órgãos
e entidades que integram o Sistema Nacional de Gerenciamento de Recursos
Hídricos, os instrumentos de gerenciamento. Dentre eles, a outorga preventiva
e de direito de uso de recursos hídricos, a cobrança pelo uso da água, a
fiscalização destes usos, a promoção do uso racional dos recursos hídricos e a
conservação de água e solo.
9.3 Conselhos estaduais de recursos hídricos
Conselhos Estaduais de Recursos Hídricos são instâncias recursais com
referência às decisões tomadas pelos Comitês de Bacias Hidrográficas de rios
de domínio estadual.
9.4 Comitês de bacias hidrográficas
Tipo de organização inteiramente novo na administração dos bens
públicos, contando com a participação dos usuários, das prefeituras municipais,
da sociedade civil organizada, das administrações estaduais e federal, e
destinados a agir como o "parlamento das águas da bacia", pois são os comitês
os fóruns de decisão no âmbito de cada bacia hidrográfica.
9.5 Agência de água
Agência de Agua - (mais conhecida como Agência de Bacia) também
um tipo de organização inteiramente novo, que serve como o braço executivo
técnico de seu(s) correspondente(s) comitês, destinada a gerir os recursos
oriundos da cobrança pelo uso da água, desenvolvendo a chamada engenharia
do sistema.
Exercerão a função de Secretaria Executiva do respectivo Comitê.e a
sua criação está condicionada, em cada bacia, à prévia existência do
142

respectivo Comitê de Bacia Hidrográfica e à viabilidade financeira, a qual


poderá ser assegurada pela cobrança pelo uso dos recursos hídricos.

10A experiência do Paraíba do Sul


Embora a cobrança pela utilização dos recursos hídricos já estivesse
prevista na legislação brasileira desde os anos trinta, a efetiva implementação
da cobrança só se inicia em 2001 no Vale do Jaguaribe, no Ceará, e, em 2002
no Paraíba do Sul. O uso perdulário da água, principalmente no abastecimento,
na indústria e na irrigação, e a ocorrência de níveis elevados de poluição, são
decorrências diretas da falta de preços sinalizadores.
O grande desafio à implantação do novo sistema de Gestão dos
Recursos Hídricos no Brasil é o de viabilizar a cobrança pelo uso da água e
superar a dicotomia hoje existente, em que o controle da quantidade e a
qualidade do recurso são feitos por instrumentos e órgãos distintos.
A aplicação dos recursos oriundos da cobrança pelo uso da água no
aumento da sua disponibilidade e na melhoria da sua qualidade possibilitará a
integração da gestão dos recursos hídricos com a gestão ambiental, pois os
parâmetros que definem o valor dessa cobrança decorrem sempre do volume
utilizado, seja na forma de captação ou de lançamento de efluentes. Sendo
assim, a implementação da cobrança poderá servir como instrumento de apoio
à superação da dicotomia referida anteriormente, se for baseada em critérios
adequados e instalada de forma integrada.
A cobrança na Bacia do Rio Paraíba do Sul possibilitou o início efetivo
da gestão de uma bacia nacional. Foi uma proposta conjunta da ANA e do
Comitê para a Integração da Bacia Hidrográfica do Paraíba do Sul - CEIVAP e
que suscitou importante processo de discussão e negociação em torno da
metodologia e dos critérios de cobrança. Esse processo, que foi amplamente
divulgado, foi iniciado em fevereiro de 2001 e teve suas propostas concluídas
em novembro de 2002, com a aprovação do CNRH. A cobrança iniciou
efetivamente em março de 2003.
A proposta tinha como pressuposto principal a simplicidade conceituai e
operacional para que possibilitasse sua aplicação a curto-prazo na Bacia do
Paraíba do Sul. A cobrança instituída tem caráter educativo e transitório, dada
a sua necessidade de aperfeiçoamento e por se tratar de assunto ainda não
regulamentado em nível nacional. A metodologia e os critérios de cobrança
adotados irão vigorar por três anos a partir do início efetivo da cobrança.
Na construção do pacto em torno da cobrança o Laboratório de
Hidrologia da COPPE/UERJ desenvolveu as propostas técnicas colocadas na
mesa de negociação. As negociações compreenderam seminários, eventos
técnicos e reuniões formais do CEIVAP e contando sempre com a participação
intensa dos diferentes atores envolvidos, em particular do setor usuário da
iniciativa privada.
O pacto condensado ao longo do processo de discussão é que a
cobrança na fase inicial deveria ser universal e aplicável a todos os usuários da
bacia ficando isento somente os usos considerados insignificantes para efeito
de outorga de direito de uso, definidos nessa fase inicial pelo CEIVAP como
aqueles cuja captação ou derivação não exceda um litro por segundo, com
seus efluentes correspondentes, e PCHs com potencia instalada de até 1 Mw.
A metodologia de cobrança adotada pelo CEIVAP é simples e envolve a
quantificação dos volumes captados, consumidos e efluentes lançados,
143

sinalizando a importância do uso racional de recursos hídricos nos aspectos de


quantidade e qualidade, pois, quanto melhor a qualidade dos efluentes
lançados, maior é o desconto. Uma outra simplificação foi a adoção de um
único parâmetro de poluição, indicativo de tratamento ou não dos efluentes
baseado na demanda bioquímica de oxigênio em 5 dias (0805).
Os critérios de cobrança definidos pelo CEIVAP variam de um setor para
outro, e essa diferença tem como objetivo minimizar o impacto econômico nos
custos de produção das diferentes atividades econômicas. Para o caso de
indústrias e saneamento básico onde o preço público unitário (PPU) foi fixado
em R$ 0,02 por m3 , o preço final de cobrança para cada elemento gerador de
cobrança é de: (i) R$ 0,008 por m3 de água captada; (ii) R$ 0,02 por m3 de
volume consumido; (iii) R$ 0,0002 por m3 de água captado para a irrigação e
(iv) variando entre R$ 0,00 (100% de remoção de 080) a R$ 0,02 (sem
nenhuma remoção) por m3 de efluentes lançados.
Para se ter uma idéia do valor pago pela agricultura irrigada, um pivô
central de 100 há, com lâmina anual de irrigação igual a 500 mm, gasta um
volume de 500.000 m3 por ano de água e paga por essa água, na Bacia do
Paraíba do Sul,R$ 100,00.
Como se observa no quadro a seguir, a ANA tem repassado ao Comitê
da bacia do rio Paraíba do Sul a totalidade dos recursos arrecadados.

Tabela 4. Repasse do dinheiro arrecado.


Balanço financeiro
Fluxo de caixa
Histórico Crédito Débito
Arrecado em dez/2003 704.423,91
Arrec. 2004 5.943.892,77
Repasse-Mar 2.004.123,73
Repasse-Abr 527.168,11
Repasse-Mai 679.299,87
Repasse-Jun 634.017,71
Repasse-Jul 491.084,24
Repasse-Age 447.090,75
Repasse-Set 390.260,51
Repasse-Out 501.416,98
Repasse-Dez 446.156,27
Soma 6.648.316,68 6.622.356,50
Recursos disponíveis 25.960,18
Fonte: ANA

Os valores arrecadados serão empregados nos investimentos previstos


no plano de bacia, que abrange e trata a Bacia do Paraíba do Sul como um
todo. Os interesses locais, regionais e estaduais na aplicação dos recursos
arrecadados deverão ser negociados e pactuados no âmbito do CEIVAP e do
planejamento global da bacia, condição essencial para construção da
identidade da bacia do Paraíba do Sul.

11 Desafios para a irrigação


A área irrigada no mundo é de aproximadamente 260 milhões de
hectares, o que representa em torno de 17% da área cultivada. Esse pequeno
144

percentual é responsável por 40% da produção de alimentos, ou seja, a


produtividade da agricultura irrigada mundial é de 2,4 vezes a da agricultura de
sequeiro.
No Brasil, a área irrigada está estimada em torno de 3,3 milhões de
hectares, que corresponde a cerca de 5% da área total cultivada no país. Essa
área irrigada gera 16% da produção agrícola e representa 35% do valor total da
produção. Portanto, no Brasil, cada hectare irrigado equivale a três hectares de
sequeiro, em produtividade agrícola, e a sete hectares de sequeiro em
produtividade econômica. Esses dados mostram que agricultura irrigada
brasileira tem uma produtividade superior à média da agricultura irrigada
mundial.
O Brasil tem uma área potencialmente irrigável de 30 milhões de
hectares, o que representa um enorme potencial de terras agrícolas aptas à
irrigação.
Por outro lado, a expansão da área irrigada no mundo é cada vez mais
problemática não só devido à indisponibilidade crescente dos recursos hídricos
(qualitativa e quantitativa) como a rigidez cada vez maior da legislação
ambiental, restrições econômicas, salinização e outras formas de depredação,
inclusive a desertificação.
De qualquer forma, mesmo países com abundância de água doce,
devem encarar a água como um recurso escasso, de vez que é finito e
facilmente poluível, dependendo de um controle diversificado, com destaque
para a proteção do solo.
A irrigação permite ampliar a oferta de alimentos com menor expansão
da fronteira agrícola, possibilitando a preservação ambiental das áreas não
ocupadas. Além desse ponto positivo, a agricultura irrigada gera grande
quantidade de empregos diretos e indiretos na cadeia produtiva do agronegócio
e, principalmente, cria empregos para a mão-de-obra sem qualificação do meio
rural, permite a fixação do homem no campo, leva o desenvolvimento para
diferentes regiões, contribui para melhoria da distribuição de rendas e gera
divisas para o país, ajudando a equilibrar a balança comercial brasileira.
De acordo com as previsões de crescimento populacional, a produção
agrícola de hoje precisa ser dobrada até o ano 2020 para atender a demanda
de alimentos. Com essa perspectiva, a agricultura irrigada é essencial para
atender a demanda alimentícia atual e futura. No entanto, essa atividade tem
que ser conduzida de forma responsável e sustentável do ponto de vista
econômico, social e ambiental.
Toda atividade econômica causa impactos negativos ao meio ambiente,
não sendo a agricultura irrigada uma exceção à regra. O crescimento da área
irrigada apresenta inúmeros riscos para o meio ambiente, os quais poderão ser
agravados, reduzidos ou até mesmo eliminados, dependendo dos cuidados
observados na condução da atividade.
Um dos principais problemas do setor refere-se à magnitude dos
volumes de água necessários ao desenvolvimento da atividade e a sua
característica de ser um uso eminentemente consuntivo. Conforme já
observado anteriormente, existe hoje tecnologia, que nem sempre eleva os
custos para os usuários, mas que são extremamente eficientes para restringir
esse uso ao estritamente necessário ao desenvolvimento das culturas.
Com relação a outras formas de degradação como a poluição difusa
(qualidade da água) e a erosão (quantidade) o grande problema é que a
145

população local tem uma cultura acomodatícia sobre estes problemas, sendo
necessário estimular e orientar a discussão, inclusive para demonstrar que são
as atividades locais que geram os problemas, requerendo, portanto, iniciativas
também locais para a sua solução.
No caso da erosão e poluição difusa causadas por manejo inadequado
do solo na agricultura irrigada, todo esforço de preservação ou recuperação
será insuficiente se no processo já instalado de produção (que tende a se
ampliar e intensificar) não forem incorporadas tecnologias, processos ou
práticas de conservação de solo e água que tenham aplicação ampla no
processo produtivo, de pequenos, médios e de grandes produtores em todo o
território da bacia.
Um bom exemplo é o do plantio direto que substitui práticas mecânicas
(aração e gradagem para o revolvimento), que desprotegem o solo, por método
que utiliza e valoriza princípios físicos, orgânicos e biológicos (cobertura com
restos de cultura) que protege o solo, acolhendo e conservando a água das
chuvas e de irrigação e evitando a erosão. Nas condições brasileiras, para
cada 1kg de grão produzido, em média, perdemos 10kg de solo, sendo que
essa perda se reduz para 1kg com a técnica do plantio direto, que hoje já
ocupa uma área de 17 milhões de ha e que precisa ser ampliada para uma
diminuição dos sedimentos depositados nos corpos hídricos. E isso pode ser
feito sem investimento direto do governo, mas apenas com mobilização, apoio
à organização, treinamento, e adequação de linhas de crédito.
Trata-se, pois, de uma ampla oportunidade para os profissionais da área
de contribuir para vencer o complexo desafio, presente e futuro, de garantir os
recursos hídricos e ambientais para a humanidade.

12Notas finais para a cultura do feijão


É inquestionável a importância do feijão na alimentação do brasileiro. No
entanto, por razões diversas e não claramente investigadas, seu consumo no
Brasil tem-se reduzido significativamente, o que tem provocado algumas
incertezas quanto ao futuro da produção e do consumo desse alimento.
Esse cenário leva à reflexão: pairam-se contradições sobre a cultura,
havendo até mesmo receio de segurança alimentar caso falte feijão no prato do
brasileiro, não há explicita preocupação, por parte dos planejadores da política,
em se entender a organização e tentar resolver as dificuldades dos segmentos
da cadeia produtiva desse produto.
Vale lembrar que apesar da forte concorrência de produtos mais
voltados para o mercado externo, o feijão continua numa posição de destaque
no agronegócio brasileiro, pois, no período de 1990 a 2002, respondeu por
5,2% da renda agrícola total, sendo o oitavo produto em renda, ficando atrás da
soja (17,1%), milho (13,9%), cana de açúcar (13,5%), café (8,1%), laranja
(7,4%), banana (7,08%) e arroz (7,05%).
A oferta de feijão no Brasil pode ser considerada presente em todas as
épocas do ano. Em função desta característica, é comum os agentes de
mercado referirem-se à cultura como uma hortaliça. Distinguem-se três tipos de
sistemas produtivos: feijão das águas, o feijão da seca e o feijão de inverno.
O feijão da primeira safra ou das águas é o mais afetado pelo clima e
por isto apresenta maiores oscilações na produtividade, representando cerca
de 33% da produção nacional. O feijão da segunda safra ou da seca
representa a maior parcela de produção nacional (55% do total) e apresenta a
146

menor produtividade. O último, menos cultivado (10% do total} é o feijão da


terceira safra ou de inverno. Sua parcela na produção nacional, apesar de
pequena, vem ganhando espaço a cada ano. Por utilizar alto nível tecnológico
apresenta elevada produtividade (2.000 kg/ha), graças principalmente ao uso
da irrigação.

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Ano
Figura 4. Produtividade de feijão no Brasil (Fonte: IBGE - Levantamento
Sistemático da Produção Agrícola).

Até 1994 a produção brasileira manteve-se estável mesmo com a


redução da área cultivada em decorrência do aumento da proporção do plantio:
de feijão irrigado (terceira safra) bem mais produtivo e de menor risco, ·
principalmente na região Centro-Oeste. Nos últimos anos, entretanto, a 2ª safra
dá sinais de queda em área e produtividade, diminuindo a produção brasileira
nesse período, devido principalmente a problemas climáticos no nordeste,
região de maior produção.
Como se observa, são inúmeros os estados brasileiros com
possibilidades de cultivo da chamada 3° safra, estados esses que apresentam
alta produtividade.
O valor da água foi obtido aplicando se a fórmula: (receita bruta - custo
de produção) / consumo de água e representa o lucro obtido por unidade de m3
de água utilizado na irrigação de cada cultura. Quando a cultura é produzida
numa região ou numa época em que não é possível qualquer colheita sem
irrigação, esse valor representa, economicamente, o valor máximo que um
usuário estaria disposto a pagar pela água para utilizá-la naquela cultura.
147

Figura 5. Produtividade ([Link]-1) de feijão na terceira safra.

Tabela 5. Produtividade física, valor unitário, consumo médio de água, receita


bruta, custo de produção e receita por volume unitário de água
a�licado em irriga2ão, �ara diferentes culturas.
Valor Consumo
Produtividad Receita Custo de Valor da
Unitário do Médio de
Produto e Física Bruta Produção Agua
Produto A�ua 3
(Vha) (R$/[Link]) (R$/[Link]) (R$/m )
{R$/t) {m /ha)
Arroz-Sul 5,5 600 12.000 3.300 1.700 0,13
Arroz- 4 600 18.000 2.400
1.200 0,07
Nordeste
Banana 24 450 20.680 10.800 2.930 0,38
Batata 30 800 7.850 24.000 11.297 1,62
27 mil 0,15por 12.750 4.050
Coco Verde 3.560 0,04
unidades fruto
Feijão 1,8 1.440 4.580 2.592 1.108 0,32
Goiaba 19,3 1.820 12.000 35.126 2.900 2,69
Manga 11,5 730 11.500 8.395 3.800 0,40
Melão 15 520 6.500 7.800 2.487 0,82
Maracujá 11,7 1.100 7.000 12.826 3.900 1,28
Tomate de 88 500 5.250 44.000
25.951 3,44
Mesa
Uva 26,25 1.260 12.750 33.075 14.800 1,43
Fonte: - Custo de produção e produtividade das culturas: arroz NE, banana, batata, coco verde, feijão, goiaba, manga,
melão, maracujá e uva - CODEVASF; arroz Sul - EMATER-RS; tomate - EMATER-DF. Preços: . batata, goiaba e
maracujá: CEASA DF - 70% do preço médio no atacado, de 1995 a 2002, corrigido pelo IGP-D1; tomate de mesa:
CEASA DF - 45% do preço médio no atacado, de 1995 a 2002, corrigido pelo IGP-D1; melão, manga e uva Itália:
CEAGESP - 70% do preço médio no atacado; arroz e feijão: EMBRAPA - preço médio dos últimos 10 anos, corrigido
pelo IGPM; banana: EMBRAPA Janaúba - preço médio anual.

Com relação ao uso da água, a cultura do feijão utiliza em torno de


4.600 m3 de água e apresenta um ganho médio de R$ 0,32 por m3 de água
utilizada. Apesar de comparativamente ser melhor apenas do que o coco e o
arroz há de se considerar tratar-se de uma cultura de ciclo muito curto, com
amplas possibilidades de plantio na entressafra de outras culturas, além de ser
estratégico do ponto de vista da segurança alimentar, razões que certamente
determinarão o crescimento contínuo de sua área plantada sob irrigação.
148

13 Referências bibliográficas
DOMINGUES, A. F.; SANTOS, D. Garcia dos. Considerações sobre a
formação de preços, A cobrança pelo uso da água na agricultura. São Paulo,
IQUAL Editora, 2004. 270p.
FERREIRA, C. M., DEL PELOSO, M. J.; FARIA, L. C. de. Feijão na economia
nacional. Santo Antônio de Goiás: EMBRAPA Arroz e Feijão, 2002. 47p.
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MANEJO DA MATÉRIA ORGÂNICA E SILICATAGEM NA


CULTURA DE FEIJÃO IRRIGADO

Godofredo César Vitti1


Alexandre de Melo Lemos Neto2
Thiago Aristides Quintino2
Giovana Segattf

1 Introdução
O cultivo do feijão ocorre em praticamente todo o território nacional,
confirmando a importância econômica e social desta cultura no Brasil, que se
constitui juntamente com o arroz como base da alimentação da população
brasileira.
A cultura do feijão está presente hoje, segundo CONAB 2004, em
aproximadamente 4 milhões de hectares. O avanço da área cultivada está
praticamente estagnado nestes últimos anos, possivelmente devido a
diminuição das vendas do grão associada a significativas alterações dos
hábitos alimentares e reduções no poder aquisitivo da população brasileira,
além de aumento no custo de produção, preços de mercado desestimuladores
e conseqüentes diminuições da renda líquida do produtor.
A produção que atinge anualmente cerca de 3,0 milhões de toneladas,
está distribuída em três safras distintas, águas, seca e inverno (CONAB, 2004).
A mesma se concentra em 1 O estados, PR, MG, BA, SP, GO, SC, RS, CE, PE
e PA, responsáveis, por praticamente 85% da produção nacional, sendo que
esta tem registrado crescimento nos últimos anos. Esse fato se deve a
introdução de variedades mais produtivas e mais resistentes, e também pela
inserção do maior número de produtores usando tecnologia de ponta,
principalmente na safra de inverno, como irrigação, aliada a melhores
estratégias de nutrição mineral, manejo adequado dos solos e controle de
pragas e doenças.
Quanto a produtividade média no Brasil, o feijoeiro continua
apresentando baixos níveis, em torno de 722 [Link]-1 (CONAB, 2004), devido
principalmente a fatores que limitam a produção da cultura como
indisponibilidade de cultivares melhorados, uso reduzido de insumos e falta de
controle de pragas e doenças, todos relacionados principalmente ao fato da
atividade estar concentrada nas mãos de pequenos produtores pouco
tecnificados.
No contexto deste cenário, surge a necessidade da adoção de práticas
culturais "simples", que possibilitem melhorias no sistema de produção e que
resultem em maiores produções sem necessariamente aumentar os custos,
como, entre outras, o manejo correto da matéria orgânica e o uso da
silicatagem no processo produtivo da cultura do feijão.

1 Engº Agr'l, Ph.D., Prof. Titular do Depto de Entomologia, Fitopatologia e Zoologia Agrícola da
ESALQ-USP.
150

2 Silicatagem
2.1 Histórico
Os principais silicatos utilizados via prática da silicatagem são os
silicatos de cálcio e magnésio, provinientes das escórias da produção de aço.
A silicatagem é utilizada para fins agrícolas na correção de solos, como
fonte de Si, Ca e Mg e visando aumento de resistência das plantas às pragas e
doenças. Esta prática está associada a diversos benefícios proporcionados às
plantas e aos solos, tais como: a) nas plantas, melhoria na estado nutricional,
resultado do maior fornecimento e absorção de silício, cálcio e magnésio e
maior resistência ao ataque de pragas e doenças; b) nos solos, correção de
acidez (aumento de pH), aumento nos teores de silício, cálcio e magnésio,
maior disponibilidade de P e redução na toxidez de manganês.(Korndorfer et
ai., 2004).
De modo geral, a sua utilização resulta em aumentos significativos no
crescimento e na produtividade de muitas gramíneas (arroz, cana-de-açúcar,
sorgo, milheto, aveia, trigo, milho, grama kikuyu, grama bermuda, etc.) e em
algumas espécies não gramíneas (feijão, alfafa, tomate, alface, pepino e
repolho) tendo sido observados aumentos de produtividade com o aumento da
disponibilidade de Si no solo (Elawad et ai., 1979).
2.2 Dinâmica do Silício no Solo
O Si nunca é encontrado naturalmente em seu estado puro, ocorrendo
na natureza nas formas de sílica e silicatos. Os chamados minerais do grupo
da sílica, dos quais o quartzo é o mais conhecido, são o segundo em
abundância na crosta terrestre, sendo excedidos somente pelos minerais do
grupo dos silicatos, representado principalmente pelos feldspatos (Lepsch,
2004).
Tanto os minerais do grupo da sílica, como do grupo dos silicatos, são
importantes componentes da fração sólida dos solos. Eles se tornam
constituintes do solo através de vários processos pedogenéticos que envolvem
desintegração in situ das rochas, sedimentação de partículas (carregadas pelos
ventos e pela água) e por precipitados de solução saturadas em sílica solúvel,
que são os ácidos silícicos (Lepsch, 2004).
A sílica solúvel na forma de ácido monossilícico (H4SiO4) representa,
juntamente com o Si adsorvido ou precipitado com óxidos de ferro e alumínio e
o Si presente nos minerais silicatados (cristalinos ou amorfos), do ponto de
vista agronômico, uma das mais importantes formas de Si presentes na
solução do solo (Raij & Camargo, 1973 citados por Korndorfer et ai., 2004).
Entretanto, segundo Marschner ( 1995), na solução do solo o ácido
monossilícico apresenta solubilidade em água (a 25 º C) equivalente a 56 mg
Si.1"1 e está normalmente contida na mesma em concentrações entre 14-20 mg
Si.r 1 , com tendência a diminuir sua concentração em pH >7 (pH alto), quando
quantias maiores de sesquióxidos estão presentes nos solos ou quando a
adsorção de ânions é dominante (Jones e Handreck., 1967). Tais condições
são típicas de solos sob vegetação de cerrado que apresentam alto grau de
intemperismo, alto potencial de lixiviação, baixa saturação por bases, baixos
teores de Si-trocável e baixas relações Ki (SiO2/A'2O3) e Kr
(Sílica/Sesquióxidos de Fe e AI), apresentando, portanto, baixa capacidade de
fornecimento de Si disponível para as plantas (Silva, 1973; Brandy, 1992).
151

Em relação á disponibilidade do Si no solo, a textura (teor de argila) tem


sido considerada um dos principais parâmetros para prever a necessidade de
fornecimento de Si para as plantas (Korndorfer et ai., 2004), isto é, segundo
Pereira (2004), solos arenosos ricos em quartzo não significam solos com altas
concentrações em Si. O mesmo autor cita que o teor de matéria orgânica, a
umidade e o potencial de oxi-redução do solo são outros fatores alteradores da
disponibilidade de Si-solúvel.
Pode-se então, concluir que em condições de solos sob cerrado e de
lavouras irrigadas, como é o caso de Unaí-MG e Guairá-SP, o uso da
silicatagem visando fornecimento de silício através dos silicatos pode vir a ser
alternativa para compensar a indisponibilidade e as perdas lixiviativas de silício
solúvel no sistema.
2.3 Dinâmica do silício na planta
Quando ressalta-se a importância de Si na forma solúvel no solo é
porque é nesta forma que este nutriente penetra na planta (Yoshida, 1975;
Takahashi, 1996).
No interior das plantas a maior parte do silício é acumulada na forma de
ácido silícico polimerizado, podendo também se acumular na forma iônica e na
forma de sílica amorfa (opala) (Yoshida, 1975; Marschner 1995).
Segundo Jones & Handreck (1967), quanto ao mecanismo pelo qual o
silício é absorvido pela plantas, em especial gramíneas acumuladoras, teorias
consideram como sendo por absorção passiva, ou seja, através do fluxo de
massa, diretamente relacionada a absorção de água pela planta. Ao ser
absorvido, o silício, é facilmente transportado (raiz-parte aérea) através do
xilema (Barber & Shone, 1966), e segundo Balasta et ai., (1989), durante o
transporte, grandes quantidades de silício são depositadas nas paredes das
células desses vasos, onde deve ser importante na prevenção da compressão
excessiva dos mesmos em condições de altas taxas de transpiração (Raven,
1983). Korndorfer & Datnoff (2000) citam que o silício é pouco móvel no interior
das plantas, concordando com Barber & Shone (1966) que compararam a
baixa translocação do silício com a também apresentada com o cálcio.
De forma geral o Si concentra-se nos tecidos de suporte/sustentação do
caule, nas folhas e em menores quantidades nas raízes. Nas folhas está
envolvido em funções relacionadas a transpiração já que é capaz de se
concentrar na epiderme destas formando uma barreira mecânica à invasão de
fungos no interior das células, e dificultando o ataque de insetos sugadores e
mastigadores (Epstein, 1999).
A influência do silício no mecanismo da transpiração dá-se pelo acumulo
de silício nos órgãos relacionados a mesma e pela formação de uma dupla
camada de sílica cuticular, a qual, pela redução da transpiração, pode fazer
com que a exigência de água pelas plantas seja menor (Korndorfer et ai.,
2004). Entretanto, esses mecanismos de absorção, distribuição e acumulação
estão mais intimamente ligados a gramíneas, que apresentam maiores
tendências ao acúmulo de sílica em seus tecidos.
Nas leguminosas, por sua vez, a absorção de Si ocorre de forma
"rejeitiva", onde as plantas absorvem o elemento sem translocá-lo (Ma et ai.,
2001). Este fato é reforçado pelo trabalho realizado por Marschner (1995) com
as culturas do arroz, trigo e soja, no qual o autor conclui que a absorção e
distribuição radial de silício através das raízes da soja para os vasos do xilema
são mais restritas a altas concentrações de silício, indicando um mecanismo
152

efetivo de exclusão. Fato este que foi elucidado pelo trabalho de Pereira et
al.(2004), no qual a soja depositou mais silício nas raízes do que na parte
aérea, ao contrário do arroz que depositou mais na parte aérea, novamente
confirmando que o transporte de Si ocorre até certo ponto, a partir do qual
ocorre apenas acúmulo nas raízes, não sendo observado o mesmo para a
parte aérea, o que concorda com Grothge-Lima (1998).
Segundo Marschner (1995), outra diferença entre culturas acumuladoras
(gramíneas) e leguminosas como feijão, soja e outras dicotiledôneas, que
acumulam quantidades pequenas de silício em seus tecidos (< de 5 g kg·1 de
SiO2) é quanto a não formação de uma camada de silício abaixo da cutícula
que dificulte fisicamente a penetração de hifas de fungos no tecido vegetal.
Entretanto, existem divergências de opiniões devido a grande variação deste
elemento entre espécies vegetais, o que gera controvérsias e incertezas
(Richmond & Sussman, 2003) sob sistemas de classificação das planta em: (i)
altamente, (ii) medianamente, e (iii) não acumuladoras de Si e sobre relações
solo-sílica-planta.
Outro aspecto benéfico para plantas é o aumento da tolerância destas
+
ao Mn 2 relacionado à maior absorção e distribuição do Si no interior das
mesmas (Foy et ai., 1978). Fato mais tarde reafirmado por Epstein (1994) que
considera a influência do elemento na absorção e translocação de vários
macros e micronutrientes e freqüentemente diminui ou elimina os efeitos
+
adversos do excesso de metais sobre as plantas, especialmente o Mn 2 . O
mesmo autor ressalta também a importância do seu papel indireto na nutrição e
desenvolvimento das plantas cultivadas em solução de nutritiva.
Horst & Marschner (1978) em trabalho realizado com plantas de feijão
cultivadas em solução nutritiva contendo Si utilizando o Mn marcado
observaram que na presença de Si, o Mn apresentou distribuição mais
uniforme na lâmina foliar, não formando pontos localizados com altas
concentrações, que resultariam nas lesões típicas da toxidez. Neste caso o
nível crítico superior de Mn nas folhas foi de 100mg kg·1 sem adição de Si,
enquanto que na presença de 40 mg kg·1 de silício o limite foi aumentado para
mais de 1000 [Link]·1• Kluthcousky & Nelson (1973) também observaram que a
presença de Si diminuiu a concentração de Mn em folhas novas de soja.
É importante ressaltar que o fato de estarmos levando em consideração
trabalhos realizados com a cultura da soja se deve as "similaridades" com a
cultura do feijão e porque não há muitos trabalhos na prática ou na literatura
que trate do uso da silicatagem e adubação silicatada nessa cultura.
2.4 O uso do silício na proteção das plantas
Fatores de resistência e tolerância das plantas às doenças e pragas são
bastante influenciados por fatores ambientais (Tsai et ai., 2004). O fator
ambiental, nutrição mineral, pode ser manipulado de modo relativamente fácil,
tornando-se componente importante no controle de doenças (Marschner 1995).
A proteção natural das plantas, atribuída ao silício, está baseada em
dois tipos de resistência. A primeira, denominada resistência constitutiva, é
aquela relacionada às barreiras de defesa químicas e físicas presentes antes
do ataque de microorganismos patogênicos ou pragas (Tsai et ai., 2004).
Quando se fala de barreiras mecânicas voltamos a nos referir a
deposição de silício nas células epidérmicas, que ocasionam mudanças
anatômicas como engrossamento, maior grau de lignificação e/ou silificação.
Este acúmulo ou deposição do silício nas camadas epidérmicas pode ser visto
153

como barreira física efetiva na penetração das hifas (Epstein, 1994). Sendo
assim o papel do silício incorporado a parede celular é análogo ao da lignina,
que é um componente estrutural resistente à compressão. Esta incorporação
ainda apresenta vantagens do ponto de vista energético, sendo elas: custo de
3,7% daquele relativo a incorporação de lignina; e a melhoria na arquitetura
foliar que favorece a interceptação da luz solar favorecendo,
conseqüentemente, a fotossíntese (Raven, 1983). Entretanto este mecanismo
físico de proteção é realmente efetivo apenas em plantas que conseguem
acumular quantidades maiores de silício nos seus tecidos como é o caso de
gramíneas. Já as leguminosas, no presente caso o feijão e a soja,
provavelmente não possuem este mecanismo, uma vez que não acumulam
quantidades suficientes de silício em seus tecidos para tal função.
O segundo mecanismo se dá quando a planta ativa o mecanismo de
defesa após o contato com o patógeno (praga) potencial, e é denominada
Resistência Sistêmica Adquirida (RSA) (Sticher et ai., 1997). Esta implica na
produção de um sinal a partir do local de aplicação do indutor, e sua posterior
translocação para outras partes da planta, impedindo uma infecção posterior do
patógeno (Madamanchi e Kuc, 1991).
O silício age no tecido da planta hospedeira afetando sinais entre este e
o pátogeno. Estes sinais resultam em ativação mais rápida e extensiva do
mecanismo de defesa da planta (Samuels et ai., 1991b; Chirif et ai., 1992ª, b;
Cherif et ai.) ativando também genes que induzem a produção de fitoalexinas
(Cherif et al.,1994 a; Belanger et al.,1995). A partir desta ocorre então acúmulo
de compostos fenólicos e Si nos sítios de infecção, cuja causa ainda não está
esclarecida.
O silício pode também formar complexos com os compostos fenólicos e
elevar a síntese e mobilidade destes no apoplasma. Segundo Koga et ai.
(1988), estes compostos são liberados pela descompartimentação que se
segue após a morte da célula, acumulando-se nas paredes das células mortas.
Após estes relatos, pode-se concluir que, na cultura do feijão, resultados de
trabalhos de pesquisas sobre a ação de supressão de doenças e pragas na
cultura devido ao efeito do silício estariam mais intimamente ligados ao
segundo mecanismos de resistência.
Outra et ai. (2004) em trabalho sobre o efeito de doses de silicato de
cálcio aplicados via solo no controle de nematóide Me/oydogyne javanica,
mostra redução em função das doses de silício, no numero de galhas, massa e
numero de ovos no sistema radicular do feijoeiro inoculado com o nematóide.
Os mesmos autores concluíram outro trabalho semelhante, embora em
sementes inoculadas com Meloydogyne incognita ou Meloidogyne javanica,
que também resultou em redução significativa de galhas para ambas espécies
de nematóides devido adição de Si no substrato, com redução de 46,7 e 54,7%
para as espécies Meloidogyne incógnita e Meloidogyne javanica
respectivamente. Os autores também realizaram trabalho no qual avaliaram o
efeito de fontes e doses de produtos silicatados na mobilidade de nematóide
Meloidogyne javanica, que mostrou maior imobilização nos tratamentos
utilizando silicato de potássio. Estes resultados nos remetem a questão do
acúmulo de silício nas raízes das leguminosas levantado anteriormente.
Quanto a doenças Outra et ai., (2004) apresentou trabalho sobre o silício
no controle de Rhizoctonia solani do feijoeiro (Phaseo/uz vu/garis) sob
154

diferentes temperaturas, _no qual a adição de silicato de cálcio no substrato


controlou significativamente a doença.
2.5 Silicatagem: correção da acidez do solo
A correção da acidez do solo é efetuada com a aplicação de produtos
que liberam ânions, capazes de neutralizar os prótons que promovem a
+ +
acidificação (H e Al 3) da solução do solo. Assim, é necessário que sejam
utilizados corretivos que possuam componentes básicos para gerar ânions e
promover a neutralização da acidez(Alcarde & Rodella, 2003).
Os materiais empregados como corretivos de acidez são basicamente
os óxidos, hidróxidos, escórias e carbonatos de Ca e Mg (Malavolta, 1980),
sendo calcário o material mais usado para tal fim.
Da mesma forma que o calcário, alguns resíduos siderúrgicos, têm sido
usado com sucesso na correção da acidez do solo. Seus constituintes são o
silicato de cálcio - CaSiO3 e o silicato de magnésio-MgSiO3. O mecanismo de
correção da acidez pela escória resulta na formação de ácido monossilícico
+
(H4SiO4), que se dissocia menos que os H adsorvidos ao complexo de troca,
e por isso, o pH do solo se eleva, conforme a equação descrita por Alcarde &
Rodella(2003):
CaSiO3 Ca2 + + SiO/­
Si03 2- + H2 Ü (Solo) HSiO3- + OH­
HSiO3- + H2Ü (Solo) H2SiO3- + OH­
H2SiÜ3- + H2 Ü(Solo) H4SiO3-

As escórias utilizadas na agricultura liberam cálcio e/ou magnesI0 em


solução, além de ânions (SiO3-2 ) que apresentam a mesma valência que o
2
carbonato (CO3- ) proveniente do calcário. Assim, percebe-se que a utilização
de escórias apresenta o mesmo potencial corretivo da acidez do solo que o
calcário. No entanto, conforme observado na Tabela 1, o silicato de cálcio
apresenta capacidade de neutralização de acidez da ordem de 86% em relação
ao carbonato de cálcio puro(Alcarde &Rodella, 2003).

Tabela 1. Capacidade de neutralização das diferentes espécies neutralizantes,


em relação ao CaCO3 (Alcarde & Rodella, 2003).
Espécie neutralizante Capacidade de neutralização relativa ao
CaCO3 (Egcaco3)
CaCO3 1,00
MgCO3 1, 19
CaO 1,79
MgO 2,48
Ca(OH)2 1,35
Mg(OH)2 1,72
CaSiO3 0,86
MgSiO3 1,00

Da mesma forma que o calcário, os silicatos apresentam efeito residual


dependente do clima, da granulometria, do tipo de manejo adotado e do tempo
de contato do produto com o solo (Piau, 1991; Alcarde, 1992; Bohnen, 2000;
Alcarde & Rodella, 2003).
De modo geral, a capacidade corretiva da acidez do solo das escórias é
semelhante ao potencial do calcário. Entretanto, é importante observar que
155

esses dois tipos de corretivos diferem quanto à superfície específica (área de


contato) e quanto ao poder de neutralização (PN). O poder corretivo das
escórias pode ser superior em função da característica de suas partículas, que
apresenta maior superfície específica, e, teoricamente, maior reatividade.
Porém, segundo Louzada (1987) quando se aplica calcário e escória com
granulometrias semelhantes (mesma reatividade - Re), as escórias são pouco
menos eficientes na elevação do pH do solo, sendo essas pequenas diferenças
de eficiência atribuídas ao valor neutralizante mais baixo da escória (Tabela 1).
Pereira (1978) estudando o poder corretivo de uma escória, comparada
com 7 calcários de origens distintas, observou que não ocorreu diferença
estatística entre os corretivos, quanto à correção do pH de dois latossolos.
Deve-se destacar que a aplicação de silicatos de Ca e Mg como
corretivo de acidez não difere do uso de calcário, porque a quantidade de
silicato necessária para corrigir a acidez do solo de um determinado tipo de
solo é a mesma do calcário. Por isso, a recomendação da dosagem de calcário
a ser aplicada no solo são iguais à dosagem de silicato, e devem seguir os
critérios de correção de acidez estabelecidos para a área considerada. Para
Minas Gerais e São Paulo, a necessidade de silicatagem (NS) devem seguir as
fórmulas apresentadas abaixo (Tabela 2): a época, a forma de aplicação (lanço
e incorporado) e os critérios de reaplicação seguem a mesma orientação do
calcário. Assim como o calcário, os silicatos também apresentam efeito residual
longo (3 - 5 anos).

Tabela 2. Fórmulas utilizadas para a determinação da necessidade de correção


da acidez do solo em São Paulo e Minas Gerais.
Estado Fórmula para a necessidade de Silicatagem
NS=NC={[Y.(Al 3 - (m1 • t/1000)] + [ x - (Ca 2 + Mg 2)]}
+ + +
Minas Gerais
São Paulo NS=NC= T(VrV1)/[Link]
O8S: NS= Necessidade de silicatagem; NC= Necessidade de calagem; Y= valor variável em
função da capacidade tampão do solo; mt= saturação por alumínio máxima tolerada por
determinada cultura; t=CTC efetiva em cmol0 dm·3; x = valor variável - requerimento Ca e Mg
pela planta; T= capacidade de troca de cátions a pH 7, O, obtida pelo somatório entre Ca + Mg
3
+ K + (H+ AI) em mmol0 dm· , V 1= saturação por bases atual no solo e V2= saturação por bases
que se pretende alcançar.

Além de possuir o mesmo poder corretivo do calcário, é importante


observar que o silicato de cálcio é 6, 78 vezes mais solúvel que o carbonato de
cálcio (CaCO3 = 0,014 g dm-3 e CaSiO3 =0,095 g dm-3), de modo que a a�ão
neutralizante do calcário é menor que dos silicatos porque a sua base (CO3. ) é
mais fraca (kb1 = 2,2 x 10-4) que a base dos silicatos (SiO 3"2 - (kb1 = 1,6 x 10-
3)), ou seja, apresenta liberação mais lenta dos oH· no meio (Alcarde &
Rodella, 2003). Além da correção da acidez do solo, a silicatagem promove
redução da adsorção e aumento na disponibilidade de fosfatos em solução,
devido a competição de anion silicato com o ânion fosfato pelos sítios de
adsorção (Lopes, 1977; Smyth & Sanchez, 1980), conforme observado na
reação a seguir.

Segundo Baldeon (1995) e Carvalho et ai. (2000), o aporte de fósforo em


função da aplicação de silicatos ocorre devido ao somatório de dois fatores: o
156

poder corretivo (alcalinizante) dos silicatos e a competição Si x P pelos


mesmos sítios de adsorção nos solo, interação que não ocorre quando se
utiliza o calcário, e que poderia ser um dos fatores responsáveis pelos maiores
rendimentos das culturas obtidos quando se aplica silicato (Dalto, 2003;
Uitdewilligen et ai., 2004). Segundo Carvalho (1999) a interação entre Si e P
em Cambissolo indica a possibilidade de aumentar a absorção de fósforo pelos
vegetais, quando se aplica silicato no solo após a adubação fosfatada. Isso
ocorre porque o H 3SiO4- pode deslocar o H 2PO4- adsorvido aos sítios de troca,
aumentando sua disponibilidade na solução do solo (Baldeon, 1995).
Comparando a redução na adsorção de fósforo pelo calcário e silicato de
cálcio, Smyth & Sanchez (1980) observaram que após seis meses de
incubação, ocorreu redução na adsorção de fósforo de 18 e 24%,
respectivamente. Entretanto o tema da correção da acidez do solo utilizando
silicatos é tratado com maior grau de detalhamento em Nolla (2004).
2.6 Silicatagem: Fontes e características
As características consideradas ideais para uma fonte de Si ser eficiente
no uso agrícola são: alto conteúdo de Si-solúvel disponível para as plantas,
boas propriedades físicas, facilidade para a aplicação mecanizada,
disponibilidade no mercado, relações e quantidades adequadas de cálcio (Ca)
e magnésio (Mg), ausência de potencial de contaminação do solo com metais
pesados e baixo custo.(Korndõrfer et ai., 2004)
Muitas fontes de Si têm sido avaliadas para uso na agricultura,
certamente, várias características podem ser listadas para que fontes
específicas sejam eficientes para a agricultura. Em todas as fontes,
provavelmente, irá faltar algumas das características ideais. O objetivo na
obtenção da melhor fonte dependerá de uma determinada situação e
localização (Pereira 2004).
2.6.1 Solubilidade
O propósito da aplicação de Si é fornecê-lo para a planta na forma
solúvel, na qual ela possa absorvê-lo. Dessa forma, uma boa fonte deve
fornecer, em quantidade suficiente, Si realmente disponível para a solução do
solo. Esta característica se destaca como a mais importante e uma das mais
difíceis de ser obtida. Tanto é verdade que o numero de fontes contendo Si é
enorme, mas as com boa solubilidade é muito pequena (Pereira 2004).
Outro comportamento também observado é a velocidade de liberação do
Si, assim pode-se ter também, fontes com o Si prontamente disponível, sendo
liberado rapidamente para a solução do solo, enquanto que outras fontes
podem apresentar liberação mais lenta, que vai aumentando ao longo do
tempo. O comportamento das fontes pode corresponder a uma variação destas
formas de liberação (rápida, lenta e gradativa) de Si, de modo que fontes com
liberação mais lenta apresentem efeito residual mais longo (Pereira 2004)
Existem muitas variações nos teores e solubilidade do Si das escórias
de aciaria. Entretanto as escórias advindas da produção de aço inox são as
que vem apresentando as maiores concentrações de Si na forma solúvel
(Pereira 2004).
2.6.2 Propriedades físicas
Muitos materiais apresentam condições satisfatórias para aplicações
uniformes como calcários e/ou fertilizantes com esparramador pendular ou
centrífugo. Em muitos casos o material deve ser granulado ou peneirado para
157

uniformizar o tamanho de suas partículas. A redução no tamanho das


partículas aumentam a extração de Si, mas aumentam a dificuldade de
uniformidade na aplicação com precisão, pois o mesmo fica mais sujeito as
condições de empedramento no armazenamento e deriva na aplicação. Porém,
para obter rápida dissolução da fonte, muitas são finamente moídas. Ainda não
há trabalhos que indicam, entre as fontes, qual tamanho de partícula é ideal e
como ela deve ser aplicada para fornecer o Si prontamente disponível as
plantas e promover efeito residual prolongado. Pesquisas e desenvolvimento
de melhores propriedades físicas, como foi feita para os calcários, poderão
alavancar a tecnologia de aplicação dos silicatos (Pereira, 2004).
Atualmente, a maioria das fontes contendo Si são comercializados na
forma sólida em pó. Isso acontece principalmente por dois motivos: baixo custo
dos produtos em pó (escórias) e a necessidade de aumentar o contato do
produto com o solo, principalmente quando utilizado como corretivo de acidez
(Pereira 2004).
Sob o ponto de vista agronômico as características físicas
(granulometria) são determinantes para o desempenho dos fertilizantes,
corretivos e condicionadores de solo em geral. No entanto, a umidade do
produto (corretivo) é a característica que mais traz problemas para a aplicação
no campo. O excesso de umidade pode ocasionar aos produtos tendência de
aderir aos mecanismos de distribuição, alterando a vazão e prejudicando a sua
fluidez.
O material contendo Si (fonte de Si) deve ser aplicado na forma de pó
(bem moído), porque o produto pouco moído coarse possui menor eficiência.
Quanto mais fino o produto, maior a superfície de contato das partículas com o
solo e mais reativo é o silicato.
Portanto, quanto mais fino for o silicato, maior é a disponibilidade do Si
no solo e maior a absorção pelas plantas.
Um produto que apresenta grande variação granulométrica, quando
submetido à aplicação, ficará sujeito à segregação. Assim, quanto mais
uniforme for a granulometria menos sujeito o produto fica a esse tipo de efeito.
É preciso salientar que a superfície específica de uma partícula de calcário é
menor do que a de uma escória para uma mesma fração granulométrica. Isto
se deve ao fato de que o calcário é moído mecanicamente até a granulometria
desejada enquanto que a granulometria da escória é obtida por resfriamento a
partir do processo de fusão. As partículas de calcário são mais uniformes e
regulares enquanto que as partículas de escórias são mais irregulares e
porosas.
2.6.3 Contaminantes
Algumas fontes de silício apresentam nive1s elevados de metais
pesados, associados a sua origem ou processamento. A elevada taxa
necessária para suprir adequadamente as plantas com Si pode resultar em
elevação na concentração de metais pesados a níveis tóxicos e inaceitáveis no
solo. Em alguns casos, os solos podem se tornar inúteis para uso na
agricultura, devido à concentração de metais pode ocorrer impossibilidade de
remoção por algum método economicamente viável (Pereira 2004).
Entretanto, existem materiais derivados da indústria siderúrgica que
apresentam baixos teores de metais podendo, em alguns casos, apresentar
níveis inferiores ao de calcários comercializados (Tabela 3). Isto é possível
devido principalmente à recuperação da parte metálica que contamina as
158

escórias. Muitas siderúrgicas já vêm tendo a preocupação de instalar em suas


unidades industriais empresas para a recuperação do aço, que no processo de
separação acaba acompanhado a escória. No aço é que se encontra a maior
parte dos metais pesados contaminantes das escórias.

Tabela 3. Teores de alguns metais presentes em calcário e agregados


siderúrgicos processados (escorias) (Korndõrfer et ai., 2004).
Materiais Ni Cd Pb Cr Mn Cu
m .k -
Calcário Unai 16 3,2 23 0,4 91 4,8
Calcário Pote 19 2,6 23 0,3 149 11,0
Calcário Coromandel 17 3,1 28 0,6 188 4,8
Calcário Formiga 11 2,3 25 0,3 221 2,5
Calcário Arcos 8 2,4 27 0,3 53 2,6
Silicato de Ca e Mg 1 0,05 0,09 0,5 5 0,6
' Recmix Agrosilicío

2.6.4 Disponibilidade
Uma fonte, para ser candidata ao uso na agricultura, deve ser obtida
dentro de uma razoável distância do ponto de aplicação em condições de baixo
custo e alto potencial de benefícios. Nesta condição, a agricultura tem
condições limitadas na escolha de fontes solúveis.
Um número grande de materiais tem sido proposto para a utilização
como fonte de Si para as plantas: escórias de siderurgia (escórias de alto forno
(AF) e escórias de aciaria), silicato de cálcio (wollastonita), sub-produtos da
produção de fósforo elementar em fornos elétricos, metassilicato de cálcio,
metassilicato de sódio, cimento, termofosfato, silicato de magnésio
(serpentinito) e argilas moídas.
De norte a sul, pode-se encontrar siderúrgicas no Brasil, mas a grande
concentração encontra-se no triângulo entre Belo Horizonte, São Paulo e Rio
de Janeiro, sendo que em raio de 250 km ao redor de Belo Horizonte, é onde
se encontra a maior parte da produção siderúrgica do Brasil. Desta forma pode­
se concluir que a disponibilidade de silicatos (escórias) está concentrada no
pólo siderúrgico mineiro. Este fato pode vir a limitar o uso dos mesmos em
localidades distantes deste pólo (Pereira 2004).
2.6.5 Baixo custo
Quando se pensa em custo de um produto, não se deve analisar o seu
preço real, mas o seu custo:benefício. Deve-se levar em consideração a soma
de seus efeitos para as culturas no que diz respeito a efeito fertilizante do Si
para a cultura, efeito corretivo do solo; fornecimento de outros nutrientes;
redução no uso de fungicidas e inseticidas; e redução de gastos, até com
irrigação.
Outro aspecto importante neste contexto é à distância entre o local de
produção e o local de consumo, pois como já citado o transporte (frete) é um
dos fatores mais limitante para o consumo em larga escala dos silicatos. A
análise final da taxa custo: benefício de uma fonte, será determinado pelo seu
uso.
159

Uma vez que o lucro local potencial para aplicação de Si é determinado,


muitas propriedades irão avaliar qual fonte com Si solúvel e de baixo custo é a
mais adequada (Pereira 2004).

3 Matéria Orgânica
3.1 Importância em solos tropicais
Em solos tropicais altamente intemperizados, a matéria orgânica possui
grande importância aos mesmos. Os efeitos da matéria orgânica nos solos são
de ordem química, física e biológica, sendo seu conteúdo, em quantidade
significativa, indispensável para as correlações entre estas propriedades.
Entretanto, o uso agrícola altera esse conteúdo, sendo observada redução
acentuada quando são utilizados métodos de preparo com intenso
revolvimento do solo e sistemas com baixa adição de resíduos vegetais,
propiciando nessa situação, processos de degradação destas mesmas
propriedades químicas, físicas e biológicas e conseqüentemente queda de
produtividade das culturas e manejo não sustentável.
Neste sentido a manutenção ou recuperação dos teores de matéria
orgânica nos sistemas de cultivo irrigado de feijão é medida de extrema
importância para a manutenção da capacidade produtiva dos mesmos e
manutenção de sistema sustentável.
3.2 Efeitos químicos
Entre as características químicas afetadas pela matéria organIca,
destacam-se disponibilidade de nutrientes para as culturas, a capacidade de
troca de cátions e a complexação de elementos tóxicos e micronutrientes,
fundamentais em solos tropicais (Bayer & Mielniczuk, 1999).
A matéria orgânica é uma fonte fundamental de nutrientes para as
plantas, disponibilizando principalmente elementos como nitrogênio, fósforo e
enxofre.
Em solos tropicais, a CTC da matéria orgânica pode representar um
grande percentual da CTC total do solo. Desta forma é fundamental para a
retenção de nutrientes e na diminuição da lixiviação dos mesmos.
Quanto à complexação de micronutrientes metálicos por substancias
húmicas (Canellas et ai., 1999), a diminuição da toxidez de elementos tóxicos
(Miyasava et ai., 1992) e o aumento da disponibilidade de micronutrientes são
muito influenciados pela presença de ácidos orgânicos de baixo peso molecular
na solução do solo.
Em relação aos micronutrientes, a formação de complexos com
compostos orgânicos reduz a possibilidade da precipitação como óxidos nos
solos. Dessa forma, a complexação (quelação) de zinco e cobre, entre outros,
por ácidos orgânicos de baixo peso molecular aumenta a sua disponibilidade,
pois o quelato torna-se uma forma de deposito desses elementos. A meia-vida
muito curta do quelato, decorrente da rápida decomposição do composto
orgânico pelos microorganismos, resulta na liberação de forma contínua e
gradativa dos micronutrientes para as plantas. (Bayer & Mielniczuk, 1999)
3.3 Efeitos físicos
A principal característica física do solo influenciada pela matéria
orgânica é a agregação. A partir do seu efeito sobre a agregação do solo,
indiretamente são afetadas as demais características físicas do solo, como a
densidade, a porosidade, a aeração, a capacidade de retenção e a infiltração
160

de água, entre outras, que são fundamentais para a capacidade produtiva do


solo. (Bayer & Mielniczuk, 1999)
Uma vez sendo os agregados, unidades básicas da estrutura do solo, a
matéria orgânica por sua vez tem papel fundamental nos fatores que regem a
estabilização destes agregados.
3.4 Efeitos biológicos
A matéria orgânica atua diretamente nas características biológicas do
solo, pois atua como fonte de carbono, energia e nutrientes para os
microrganismos quimioheterotróficos e, através da mineralização do nitrogênio
e enxofre orgânico atua como fonte de energia aos microrganismos
quimiautróficos. Esses dois tipos de microrganismos sobressaem em
quantidade e importância no solo. O efeito da matéria orgânica sobre os
microrganismos pode ser avaliado a partir da biomassa e atividade microbiana,
parâmetros que representam uma integração de efeitos desta sobre as
condições biológicas do solo. (Bayer & Mielniczuk, 1999)

4 Manejo da matéria orgânica


Como dito anteriormente, em regiões tropicais, a degradação da fração
orgânica do solo em condições inadequadas de manejo é rápida e vem
acompanhada de processo global de degradação de características químicas,
física e biológica dos solos. Sendo assim nessas regiões, o manejo adequado
para conservação do solo e produtividade das culturas deve ter como premissa
a utilização de métodos de preparo com mínimo ou nenhum revolvimento
(plantio direto) e sistemas de rotação/sucessão de culturas que incluam plantas
leguminosas e culturas com alta produção de resíduos vegetais. (Bayer &
Mielniczuk, 1999).
4.1 Sistema de plantio direto
O Sistema Plantio Direto pressupõe três requisitos básicos: semeadura
sobre os restos de culturas anteriores (cobertura morta), ou seja, sem a prévia
destruição e incorporação ao solo; a não movimentação do solo, exceto nos
sulcos de semeadura; o emprego de herbicidas para controle das plantas.
(Muzilli, 1985).
No contexto do sistema plantio direto, segundo Sanchez & Logan (1992),
a cobertura morta na superfície do solo é o principal componente de sucesso
do mesmo, atuando como: reguladora de temperatura, retenção de água no
solo, enriquecimento de matéria orgânica, barreira física a algumas plantas
daninhas, prevenção das diversas modalidades de erosão e na redução do
ataque de doenças fúngicas. Entretanto, os mesmos autores apontam que a
formação e manutenção de cobertura morta nos trópicos foram e são alguns
dos principais obstáculos encontrados para o estabelecimento deste sistema,
devido as altas temperaturas e alta umidade que propiciam rápida
decomposição de resíduos vegetais e rápida mineralização da matéria
orgânica.
Não diferente é a questão da adoção do plantio direto em sistemas
irrigados, onde se tem favorecimento no que se diz respeito a formação de
cobertura morta, mas em compensação se tem um ambiente muito mais
favorável a decomposição desta cobertura dificultando sua manutenção.
Neste sentido, no caso da cultura do feijão a alternativa é utilizar culturas
como fonte de cobertura morta que ofereçam adequada proteção da superfície
161

do solo. Seguindo esta linha de raciocínio Aidar et ai., (2000) observaram em


trabalho de avaliação de fontes de palhadas em área cultivada com feijão que a
palhada de braquiária, associada aos restos culturais do milho obtiveram maior
produção de matéria seca, mantendo-se suficiente para a proteção plena da
superfície do solo por mais de 107 dias (Tabela 3).

Tabela 4. Matéria seca de diferentes fontes de palhada, remanescentes na


superfície do solo, em área cultivada com feijão, no período de 107
dias.
Fonte de resíduo Matéria seca (t/ha)
Antes do plantio1 Após a colheita2 % redução
Soja 4,06 c3 1,62 c3 60
Milho 14,49 bc 6,30 bc 57
Arroz 6,02 c 4,22 c 30
Millho + 8. brizantha 16,02 ab 8,81 ab 46
Milho+ B. ruziziensis 17,58 a 9,27 a 47
CV(%) 28 25
Médias seguidas da mesma letra, não são significativamente diferentes pelo teste de Tukey, no
nível de 5%.
1
Semeadura do feijão em 23/05/1999
2 Colheita em 05/09/1999
Fonte: Aidar et ai. (2000)

Estes bons resultados da utilização de brachiárias como fonte de


palhada nos remetem ao Sistema Santa Fé, que consiste na utilização dessas
gramíneas em consórcio com outras culturas a fim de fornecer grandes
quantidades de resíduos vegetais para o Sistema Plantio Direto.
No caso especifico do feijoeiro o Sistema Santa Fé também tem
mostrado resultados satisfatórios no controle de plantas daninhas, como:
leiteiro (Euphorbia heterophylla), caruru (Amaranthus hybridus) e capim­
colchão (Digitaria horizontalis) (Cobucci et ai., 2001) e no controle de fungos
patogênicos do solo, como: Fusarium solani, Rizoctonia solani e Sclerotinia
Sclerotiorum (Aidar et ai., 2000, Costa, 2002).
4.2 Rotação de culturas
A rotação de culturas consiste em alternar especIes vegetais, no
decorrer do tempo, numa mesma área agrícola. As espécies escolhidas devem
ter propósito comercial e de recuperação do meio ambiente (Embrapa,2001).
As vantagens da rotação de culturas são inúmeras, constituindo em um
processo de cultivo capaz de proporcionar a produção de alimentos e outros
produtos agrícolas, com mínima alteração ambiental. Se adotada e conduzida
de modo adequado e por um período longo, essa prática preserva ou melhora
as características físicas, químicas e biológicas do solo; auxilia no controle de
plantas daninhas, doenças e pragas; repões matéria orgânica e protege o solo
da ação dos agentes climáticos; e ajuda a viabilização da semeadura direta e a
diversificação da produção agropecuária (Embrapa, 2001).
Pode-se concluir que as técnicas de rotação de culturas andam juntas
com as técnicas do Sistema Plantio Direto, ou seja, uma depende da outra e
juntas são responsáveis pela manutenção da matéria orgânica do solo e da
produtividade sustentável da cultura do feijão.
162

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166

ECOFISIOLOGIA E FENOLOGIA DO FEIJOEIRO COMUM

Antonio Luiz Fancel/i1

1 Introdução
Infelizmente, apesar do conhecimento acumulado e das informações
disponíveis concernentes ao crescimento e desenvolvimento da espécie
Phaseolus vulqaris, ainda o produtor e, mesmo alguns técnicos, tem insistido
em utilizar recomendações de manejo baseadas em simples escala de tempo,
representada pelo número de dias transcorridos após a semeadura,
emergência, florescimento e outros eventos relacionados à lavoura de feijão.
Tal procedimento, com certeza tem contribuído para a redução da eficiência no
uso de fertilizantes, defensivos e água, bem como tem ocasionado equívocos
na preservação de etapas importantes de definição de produção e rendimento
por parte da planta.
Nesse contexto, objetivando o desenvolvimento de uma agricultura mais
racional e científica torna-se imprescindível o emprego de conhecimentos de
Fenologia.
Fenologia é o estudo da duração e sincronismos das etapas de
desenvolvimento da planta em função da sua reação às condições de
ambiente.
Pela definição acima, pode-se inferir que Fenologia engloba o
conhecimento de todas as etapas da vida vegetal desde a germinação até a
sua plena maturidade. A reunião ordenada dessas informações permite avaliar
o grau de influência dos fatores envolvidos no processo produtivo, bem como
estabelecer estratégias de manejo condizentes com os estádios de
desenvolvimento vegetal.
A utilização prática da Fenologia é assegurada por inúmeros estudos
que permitiram o estabelecimento de correlações entre a ocorrência de eventos
fisiológicos e bioquímicos na planta com seus aspectos morfológicos, tais como
número e tipo de folhas, presença de botões florais e aparecimento de flores e
vagens. Esses estudos e correlações resultaram em uma escala de
reconhecimento de estádios fenológicos denominada de Escala Fenológica.
Assim, o uso de uma escala baseada nas mudanças morfológicas da
planta e nos eventos fisiológicos que se sucedem no ciclo de vida do feijoeiro
oferece maior segurança e precisão nas ações de manejo. Para a cultura do
feijão, a escala fenológica mais utilizada é aquela proposta por GEPTS &
FERNÁNDEZ (1982), conforme apresentado na Tabela 1.
Nesta escala, o ciclo biológico do feijoeiro é constituído de 10 etapas de
desenvolvimento, sendo que a designação de cada etapa é baseada em um
código que consta de uma letra e um número. A letra significa a fase dentro do
ciclo, ou seja, a letra V refere-se à fase vegetativa e a letra R, à fase
reprodutiva. Os números indicam a posição da etapa de desenvolvimento da
planta dentro da escala.

1
Engenheiro Agrônomo, [Link]., Dr. e Docente do Departamento de Produção Vegetal,
ESALQ/USP. Caixa Postal 9, Piracicaba-SP, 13.418-900. Fone: (19)3429-4115, ramal 25. e­
mail: fancelli@[Link].
167

Tabela 1. Escala fenológica do feijoeiro comum (Gepts & Fernández, 1982).


Estádio Descrição
Fase vegetativa
VO Germinação/emergência
V1 Cotilédones ao nível do solo
V2 Folhas primárias expandidas
V3 Primeira folha trifoliada
V4 Terceira folha trifoliada
Fase reprodutiva
RS Botões florais
R6 Abertura da primeira flor
R7 Aparecimento das primeiras vagens
R8 Primeiras vagens cheias
R9 Mudança significativa da coloração das vagens (maturidade fisiológica)
* Em uma comunidade vegetal o estádio fenológico é determinado quando mais de 50% das
plantas presentes na área apresentam a sua respectiva caracterização

1.1 Duração das etapas de desenvolvimento


A duração das etapas de desenvolvimento do feijoeiro (estádios
fenológicos) pode ser afetada por alguns fatores, dentre os quais merecem
especial destaque o genótipo, o qual determina o hábito de crescimento e a
precocidade das plantas, o clima e as condições de fertilidade do solo.
Com relação ao hábito de crescimento as principais diferenças
relacionadas à duração das etapas de desenvolvimento do feijoeiro estão
concentradas no período para florescimento e no período de florescimento.
Plantas de crescimento determinado (Tipo 1) apresentam fases iniciais e
período de florescimento mais curtos que plantas de crescimento
indeterminado. Porém, dentre as plantas de hábito de crescimento tipo li, Ili e
IV (indeterminado), as diferenças relacionadas à duração das fases iniciais de
desenvolvimento são pouco significativas, as quais se pronunciam no período
de floração (abertura da primeira e da última flor). Assim, planta do tipo IV
apresenta maior período de florescimento quando comparada à do Tipo Ili, que
por sua vez é maior que a do Tipo li.
A precocidade, determinada pelo genótipo, pode afetar
significativamente a duração das etapas de desenvolvimento do feijoeiro,
principalmente aquelas antecedentes ao florescimento. Alguns trabalhos de
pesquisa corroboram essa afirmativa, visto que diferentes variedades
pertencentes ao mesmo tipo de hábito de crescimento podem apresentar
distintos intervalos de tempo entre a emergência e o início da abertura das
flores.
Dos elementos de clima que interferem significativamente na duração
dos estádios fenológicos do feijoeiro destacam-se a temperatura e a água.
Estresses hídricos na fase inicial de desenvolvimento da planta podem
provocar o encurtamento acentuado do período para florescimento, o mesmo
ocorrendo, em menor grau, em estágios fenológicos mais avançados. Quanto à
temperatura, valores abaixo de 1S º C podem prolongar o ciclo da planta,
principalmente a duração das etapas iniciais de desenvolvimento; ao passo
que, temperaturas elevadas (>30 º C) afetam, principalmente, os estádios
reprodutivos.
168

O feijoeiro quando cultivado em condições de alta fertilidade de solo,


manifesta a tendência de alongamento de seu ciclo de vida. Em meio a elevado
teor de matéria orgânica ou acentuada disponibilidade de nitrogênio, a
mencionada espécie alonga sua fase vegetativa e, conseqüentemente, a
duração dos estádios de desenvolvimento relativos à essa fase, bem como
promove maior taxa de retenção foliar, notadamente quando submetida a
regime hídrico favorável.

2 Descrição dos estádios fenológicos


As fases de desenvolvimento, na cultura do feijão não apresentam nítida
separação, principalmente quando consideradas plantas de hábito de
crescimento indeterminado, constatando-se sobreposições representadas pela
possibilidade de emissões simultâneas de folhas, flores e vagens. Esse fato
deve ser considerado por ocasião da elaboração de recomendações técnicas e
de manejo.
Da mesma forma, cumpre salientar que o pleno conhecimento e a
facilidade na identificação dos estádios fenológicos mencionados, favorecem o
estabelecimento de estratégias efetivas de manejo, objetivando a obtenção de
rendimentos satisfatórios e lucrativos. Para tanto, a descrição e as implicações
práticas dos estádios fenológicos do feijoeiro comum serão apresentadas a
seguir.

2.1 Estádio Vo (Germinação)


Após a absorção de água pela semente, inicia-se o processo de
germinação, caracterizado pelo aparecimento da radícula (pelo orifício
chamado micrópila, situado na extremidade do hilo).
O feijão possui grande sensibilidade à falta e/ou excesso de água após a
semeadura, bem como não apresenta satisfatória tolerância à semeadura
profunda (> 8 cm). Tal procedimento poderá favorecer o ataque de pragas de
solo e a infecção das raízes por patógenos, bem como dificultar a emergência
das plântulas .. Depois da emissão da radícula, o hipocótilo também se alonga e
os cotilédones aparecem na superfície do solo. Temperaturas inferiores a 12 ºC
reduzem significativamente a taxa e a velocidade de germinação das
sementes. Por outro lado, valores de temperatura próximos a 25 º C, favorecem,
consideravelmente, o referido processo.

2.2 Estádio V1 (Emergência)


A emergência é caracteriza pela presença dos cotilédones acima da
superfície do solo em processo de desdobramento da "alça" do hipocótilo. A
seguir, o epicótilo se alonga e as folhas primárias, que já se encontravam
diferenciadas no embrião da semente, se expandem.

2.3 Estádio V2 (Desdobramento das folhas primárias)


As primeiras folhas do feijoeiro são denominadas de folhas primárias e
são simples (unifoliadas), cordiformes (forma de coração), opostas e se
encontram inseridas no 2º nó da haste principal.
A rapidez do desdobramento (abertura), a conformação e o tamanho das
folhas primárias são extremamente importantes para o estabelecimento da
cultura no campo por representar a sede inicial de conversão de energia.
169

Normalmente, o tamanho potencial das folhas primárias está relacionado ao


tamanho das sementes. Salienta-se também que o tamanho e a conformação
das folhas primárias podem ser reduzidos e afetados pela maior profundidade
de semeadura, pela incidência de pragas e fungos de solo, pela escassez de
água, além de ser influenciada pela integridade e vigor das sementes.

2.4 Estádio V3 (Emissão da primeira folha trifoliolada)


O presente estádio se caracteriza quando a primeira folha trifoliolada ou
verdadeira encontra-se plenamente desdobrada, o que pode ser confirmado
pela constatação dos folíolos em posição horizontal. A partir deste momento
evidencia-se o aumento da taxa de desenvolvimento vegetativo da planta, o
qual assume ritmo máximo somente a partir do estádio V4 (após a emissão do
5 º trifólio). No presente estádio, os cotilédones já se apresentam exauridos e,
freqüentemente, já sofreram o processo de abscisão (queda), tornando a planta
diretamente dependente dos nutrientes presentes no solo. O período
compreendido entre os estádios V1 e Va, conferem à planta de feijão maior
tolerância a estresses hídricos e baixas temperaturas, em níveis moderados.
2.5 Estádio V4 (Emissão da terceira folha trifoliolada}
Nesse período a terceira folha trifoliolada está plenamente desdobrada e
tem início o processo de emissão acelerada de folhas e de crescimento da
planta. Portanto, nesse momento é recomendado o início da adubação
nitrogenada de cobertura da cultura.
Deficiências hídricas após esse momento poderão reduzir
significativamente o porte da planta e o número de folhas emitidas pelo
feijoeiro. Ressalta-se que os efeitos relacionados à disponibilidade de água e
de nutrientes estão diretamente ligados à população de plantas utilizada.
Apesar dos esforços despendidos em inúmeros trabalhos de pesquisa
relacionados à economia de água pelas plantas, ainda o desenvolvimento
efetivo do sistema radicular em densidade e profundidade pode ser
considerado como o principal elemento determinante da maior tolerância a
condições de baixa disponibilidade hídrica.
A incidência de vento constante em lavouras de feijão pode também
aumentar a demanda por água por parte da planta, tornando-a mais suscetível
a períodos curtos de estiagem, afetando o desempenho da cultura. Assim,
experimentos conduzidos no CIAT, Colômbia, mostraram que o emprego de
quebra-ventos, devidamente localizados na gleba assolada por brisa contínua,
pode contribuir para o incremento de produção, próximo a valores
correspondentes a 15%, além de reduzir a incidência de doenças provocadas,
principalmente, por bactérias.
Da mesma forma, o feijoeiro, também apresenta elevada sensibilidade
ao excesso de água, representado por chuvas intensas e freqüentes ou
irrigações excessivas que prejudicam seu metabolismo e restringe seu
potencial de produção. O excesso de umidade ocasiona a deficiência de
oxigênio ao nível radicular e a redução acentuada da atividade microbiana do
solo. Tais condições devem ser evitadas, pois a cultura do feijão não suporta
acúmulo de água no solo, mesmo por curto espaço de tempo. A amplitude dos
prejuízos inerentes ao encharcamento está relacionada ao tempo e ao estádio
de desenvolvimento da planta.
170

Para o feijoeiro, no período compreendido entre a emissão do 42 trifolio e


o início do aparecimento dos botões florais, temperaturas baixas e/ou baixa
luminosidade, ou altas temperaturas à noite, provocam a diminuição da
formação de ramos laterais ou axilares, contribuindo para a redução da área
foliar e do tamanho da planta, bem como acentuam falhas na formação e
fisiologia das flores.
A obtenção de elevado índice de área foliar para o feijoeiro pode não se
traduzir em maior potencial de produção. Assim, a produção excessiva de
folhas, estimulada pelo clima e condições edáficas, bem como via irrigação ou
insumos, poderá comprometer o desempenho da planta em função do aumento
da taxa respiratória e transpiratória, bem como da redução da eficiência
fotossintética. O índice de área foliar (IAF) deverá ser condizente com o
sistema de produção adotado e com o estoque de recursos disponíveis, cujos
valores recomendados devem oscilar entre 3,5 a 4,5.
Com relação à resposta à luz, a espécie Phaseolus vu/garís apresenta
plantas neutras ao fotoperíodo e outras exigentes em dias curtos para a
floração. Para essas últimas, cada hora a mais de luz/dia pode ocasionar o
retardamento da maturação de 2 a 6 dias.
Em regiões de latitudes baixas e/ou em épocas de acentuada
intensidade luminosa, as folhas, haste ramos e vagens podem apresentar
escaldaduras (descoloração ou queimaduras) e deformações, especialmente
após período de elevada umidade e nebulosidade. Ainda, por se tratar de
planta de metabolismo C3, quando submetido a intensidades crescentes de luz,
o feijoeiro comum apresenta saturação lumínica elevada e a luz poderá resultar
em aquecimento de folhas, com conseqüente aumento de respiração e queda
de rendimento.
Assim, nos tipos de regiões mencionadas, a escolha da época de
semeadura constitui-se em preponderante fator de sucesso da cultura.

2.6 Estádio Rs (Botão Floral - Início da fase reprodutiva)


Nesse estádio ocorre o aparecimento dos primeiros botões florais e se
inicia-se o período crítico à falta de água.
Inúmeros trabalhos de pesquisa relatam que o estresse hídrico nesse
estádio, além de retrair bruscamente a emissão de novas folhas, provocam
perda de produção entre 15 e 37 %.
Da mesma forma, temperaturas acima de 35° C ou inferiores a 12° C provocam
a redução do número de flores, bem como podem contribuir para maior
dificuldade de fertilização.

2.7 Estádio Ra (Florescimento)


A abertura das primeiras flores define o presente estádio. Referências
práticas evidenciam que o feijoeiro de hábito de crescimento indeterminado
deverá atingir esse estádio com, aproximadamente, 16 a 20 trifólios
devidamente expandidos e fotossinteticamente ativos, de modo a não
comprometer o seu potencial de produção.
As flores do feijoeiro são extremamente sensíveis a d.:.mificações
mecânicas e a produtos químicos de natureza diversa (fertilizantes e
defensivos, de maneira geral).
O feijoeiro comum é uma planta de auto-fecundação, cujo processo é
favorecido pela sua morfologia floral, visto que seus 1O estames estão
171

localizados na altura do estigma. Quando se processa a deiscência das


anteras, o pólen atinge diretamente o estigma, principiando a etapa de
fecundação, que pode durar de 8 a 10 horas. Todavia, taxas de cruzamentos
naturais, oscilando entre 0,2 a 1 O %, culminando em sérios transtornos à
produção de sementes. Taxas elevadas de cruzamentos têm sido,
freqüentemente, atribuída à presença de tripes e outros pequenos insetos
associados à cultura do feijão.
O feijoeiro produz grande número de flores, muito acima daquele
possível de ser sustentado, em função da acentuada queda natural,
característica dessa espécie, a qual oscila entre 40 e 75 %, de acordo com as
condições climáticas reinantes no período.
As primeiras flores apresentam, normalmente, maior probabilidade e
capacidade de originarem vagens, em função da ordem de prioridade de
formação das vagens. Aquelas correspondentes ao meio e final da etapa de
florescimento estão sujeitas ao maior índice de abortamento ou maior taxa de
"chochamento".
Nesse estádio a predominância de temperaturas baixas pode afetar o
processo de fecundação das flores. Por conseguinte, a germinação do pólen do
feijoeiro é reduzida por temperaturas inferiores a 1 O ºC, ao passo que
temperaturas abaixo de 16,B º C concorrem para a redução do crescimento do
tubo polínico interferindo no processo de fertilização. Temperaturas baixas
também acarretam a redução do número de vagens por planta e de sementes
por vagens. Todavia, alguns estudos mostram que temperaturas crescentes
acima de 12,8 ºC até 21 º C, não interferiram no número de vagens, porém
propiciaram o aumento linear no número de sementes por vagem. Ainda,
evidencia-se que nenhuma vagem, e mesmo semente, consegue se
desenvolver, de forma normal, quando a planta é submetida à temperatura
abaixo de 1 0 º C.
O consumo de água por parte do feijoeiro, raramente excede 4,0 mm/dia,
enquanto a planta estiver nos estádios iniciais de desenvolvimento (VI, V2 e
V3). Contudo, durante o pleno crescimento (V4), florescimento (R5/R6) e
enchimento de vagens (R? e R8), seu consumo pode se elevar para 4,0 a 5,0
mm diários. Outros dados experimentais referentes a essa cultura evidenciam
índices diários de consumo de água ligeiramente superiores a 5 mm, quando
as plantas encontram-se submetidas a condições de intenso calor e baixa
umidade relativa do ar.
Com relação ao excesso de água, alguns trabalhos mostraram que
todos os componentes da produção são afetados pela inundação do sistema
radicular. No período de florescimento, o encharcamento por 2, 4 e 6 dias,
ocasionaram, respectivamente, reduções de produção correspondentes a 48%,
57% e 68%. Ainda, constatou-se que as fases de início de florescimento e
início de formação de vagens possuem maior sensibilidade às condições de
excesso de umidade no solo.

2.8 Estádio R1 (Início da formação das vagens)


O presente estádio é caracterizado pelo aparecimento das primeiras
vagens, após a murcha das estruturas remanescentes da flor. Essa etapa é
também extremamente influenciada pelas condições climáticas reinantes, além
de ser também considerada como uma das etapas críticas quanto à falta de
água. Deficiências hídricas nesse estádio proporcionam a diminuição da
172

produção pela redução da fotossíntese e do metabolismo da planta, pela queda


de vagens jovens (abortamento) e pela retração do tamanho das vagens em
fase de crescimento.
Quanto à influência da temperatura nesse estádio, sabe-se que
temperatura noturna elevada (>24 ºC} é extremamente danosa para a
formação e retenção de vagens. Durante o dia, temperaturas superiores a 35
ºC, durante esse estádio, contribuirá para a máxima taxa de abortamento de
vagens jovens.
Referências da literatura evidenciam a resposta do feijoeiro à aplicação
de nitrogênio, fósforo e Potássio, nesse estádio, porém via foliar, visto que a
atividade radicular (absorção ativa) encontra-se reduzida em função da relação
fonte-dreno, que nessa fase favorece a formação das vagens. Assim, o
nitrogênio poderá contribuir para o incremento do tamanho das vagens, ao
passo que o fósforo, bem como o potássio, poderá propiciar o aumento da
densidade (peso) das sementes. Cumpre ressaltar que o emprego desses
nutrientes, após o florescimento, somente é recomendado quando a fase
vegetativa encontra-se em equilíbrio com a fase reprodutiva, ou seja, quando
não se dispõe de número excessivo de folhas, configurando-se sobreposição
abusiva de plantas.
Salienta-se que, nesse estádio, a planta pode estar produzindo flores,
vagens e mesmo folhas, o que implica no eficiente mecanismo de translocação
de carboidratos, regido pela relação fonte-dreno. Assim, a escala hierárquica
de utilização de fotossintetatos é definida pela seqüência decrescente
constituída de semente, vagem, flores e folhas. Porém, a folha, que é
considerada como fonte, pode se transformar em dreno, quando jovem, visto
que sua capacidade de translocação de carboidratos é baixa. Apenas quando a
folha atingir 60-70 % do seu tamanho normal e estiver plenamente desdobrada
(folha adulta) é que a mesma poderá funcionar como fonte. A capacidade de
translocação das folhas do feijoeiro aumenta com a idade e com a atividade
metabólica.
Nesse contexto, o manejo da lavoura de feijão deverá preservar o
equilíbrio entre as principais fases de desenvolvimento da planta, objetivando o
não favorecimento da produção exagerada de folhas em relação às flores e
vagens.

2.9 Estádios Ra (Enchimento das vagens}


A etapa Rs se inicia com o enchimento da primeira vagem. Nesse
estádio o tamanho da vagem já se encontra definido e a ocorrência de
condições climáticas desfavoráveis, principalmente falta de água e nutrientes,
poderão concorrer para a redução da produção, em número e peso de grãos.
Nesse estádio, a ocorrência de temperaturas elevadas (> 30 ºC), além
de resultar no aumento da taxa respiratória, provoca sensível redução no
número de grãos por vagem.
No final da presente etapa, evidencia-se o início do processo de
pigmentação das sementes e, em seguida, das vagens. No estádio Rs finaliza,
a emissão de novas folhas, por parte das variedades com hábito de
crescimento indeterminado, além de se observar o início do amarelecimento e
queda das folhas inferiores da planta, em ritmo acelerado.
A aplicação tardia de nitrogênio, (entre Rs e R7), via foliar, poderá
contribuir para a redução da taxa de produção de vagens chochas, para o
173

aumento da retenção e da duração da área foliar, com conseqüente


favorecimento do enchimento de vagens, bem como para o prolongamento do
ciclo da planta. Contudo, a utilização indiscriminada dessa estratégia poderá
resultar no incremento de doenças e pragas.

2.10 Estádio R9 (Maturidade das vagens)


O referido estádio é caracterizado pela mudança da cor das vagens
(amarela ou pigmentada de acordo com a variedade) e das sementes, as quais
adquirem sua cor e brilho final. O processo de senescência da planta
(amarelecimento e queda das folhas) se acelera e a evolução normal dessa
etapa exige a ausência ou baixa disponibilidade de água no sistema.
Nessa etapa também se inicia o processo de foto-oxidação do
tegumento das sementes, tornando-as mais escuras e com menor valor
comercial. A foto-oxidação é acelerada pelo aumento de temperatura, a partir
de 25 ºC, e pela redução do valor de umidade relativa do ar (<50%).

3 Considerações finais
Atualmente, a agricultura atravessa nova onda de mudanças, ficando
patente a necessidade do trabalho integrado do agricultor e do engenheiro
agrônomo, de forma madura e consciente, objetivando maior compreensão do
processo produtivo, de forma a assegurar a obtenção de rendimentos
compensadores e sustentáveis.
Nessa ótica, a constante atualização, a busca de conhecimento e a
informação precisa, assumem acentuada importância na diferenciação de
profissionais e de serviços que, com certeza, se constituirão no fator
preponderante de sucesso e consolidação do setor agrícola e empresarial.

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Impressão e Acabamento

CoP,AVORA
------------------1
LUIZ DE QUEIROZ

Edição Digital de Livros


(19) 3434-4838

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