Hamlet
Hamlet
ADAPTAÇÃO: Matheus Haut Pereira, Melissa Liscová Grigatto e Ricardo Fausto Cardoso
de Lima
Terraço do Castelo. (Entra FANTASMA, pelo lado direito, ao som de música tensa, andando
com dificuldade apoiando em um cajado, até depois do meio do palco)
(Entram HORÁCIO e MARCELA, pelo lado direito, correndo, até perto do fantasma. Quando
o veem recuam, e ele os analisa)
Marcela
Aí está o fantasma do falecido Rei! Já é a segunda noite que aparece!
Horácio (surpreso)
Céus! Não acreditaria se não visse com meus próprios olhos!
Marcela
VAI HORÁCIO! Tu que é erudito, fala com ele!
Horácio
Com sua licença. (Se aproxima como quem não teme) Quem és tu que usurpas esta hora junto
com a forma nobre com que o sepulto rei da Dinamarca tantas vezes marchou?
Marcela
Sentemos agora meu bom amigo! Mas se quer saber, ele deve vir como aviso de problema…
(Ambos sentam na beira do palco)
Horácio
Uma nuvem nefasta se aproxima. E ela espalhará uma chuva calamitosa por toda a Dinamarca.
Marcela
Deve ser isso
Horácio
Arre, e ele queria falar! Mas mudo ficou para nós… Deve ser seu filho, o príncipe Hamlet que
deseja! Devemos comunicar o que aconteceu para ele.
Marcela
E sabes onde encontrá-lo?
Horácio
Desde que saiu do berço, nunca saiu do mesmo lugar. (Com um sorriso), Atividade bom amigo,
irei perturbá-lo um pouco!
(Ambos saem)
CANHÃO APAGA
CENA II
Sala de Cerimônias do Castelo. LUZES ACENDEM. (Entram o REI, ao centro, RAINHA ao
seu lado direito pouco atrás, de mãos dadas, HAMLET, POLÔNIO, LAERTES,
ROSENCRANTZ e GUILDENSTERN em meia lua atrás)
Cláudio
Embora a morte de meu irmão esteja remoendo nossos dias com o luto e o choro entalado na
garganta, devemos ser fortes o suficiente para seguirmos em frente. Portanto, desposei de vossa
antiga rainha, e, frustrado, recebo a Coroa e glória de ser o novo Rei deste povo resiliente que é o
danês. Com aleluia no enterro e réquiem no casamento, seguimos!
Gertrudes
E que continuem assim.
Cláudio
Não temos dúvidas, podem ir.
(Ambos se retiram)
Cláudio
E você, meu bom Laertes, que assunto te traz à coroa da Dinamarca, tão grata à teu pai. (Acena
para POLÔNIO, que retribui)
Laertes
Venerado senhor, desejo voltar para a França, terra onde novamente brilham meus interesses, e
de que vim com tanta alegria para prestigiar tua coroação. Peço humildemente perdão e
permissão.
Cláudio
E tens a permissão de teu pai?
Polônio
Sim, que me foi arrancada por incansáveis pedidos, os quais venceram minha relutância.
Cláudio
Então escolhe tua melhor hora e vai! Que a França saiba acolher teus talentos. Mas então, meu
caro sobrinho e filho Hamlet…
Hamlet
Me chamas como sobrinho, pois jamais atenderei como teu filho.
Cláudio
Fala para mim, por que essas nuvens sombrias em teu semblante?
Hamlet
Elas me protejem, senhor, para a luz que tu exibe não me cegar.
Gertrudes
Querido Hamlet, arranca de ti essa melancolia, e trata bem o novo Rei. Sabes que é comum,
mesmo que para ti pareça tão singular… Tudo que vive eventualmente morre, então chega de
olhar para o chão.
Hamlet
Não parece, senhora, é! Meus rios de lágrimas, minhas vestes de luto, meu isolamento, minha
expressão, ou qualquer outra forma de mostrar dor não são suficientes mãe, não são a verdade
completa. O que minha alma clama repudia todas essas formas de “parecer”, madame, toda essa
falsa regalia!
Cláudio
Hamlet, esse tributo ao teu falecido pai revela a doçura de sua alma. Mas lembre-se que ele
também perdeu o pai dele, e assim por diante, desde o início da Criação. Mostrar pena é
respeitoso, mas insistir nela é teimosia sacrilégia. É ostentação; uma desonra à natureza do
Senhor, que assim foi moldada. Então, querido, pedimos que afaste de ti esse pranto e que pense
em nós como um pai. Tu és o herdeiro de meu trono, e meu amor por ti será sempre nobre. E
justamente por nossa alegria, e sob proteção de nossos olhos, que pedimos para que fique, e
enterre aquele teu desejo de estudar em Wittenberg.
Rainha
Não deixe que as orações de tua mãe se percam, filho. Eu te imploro, fica conosco.
Hamlet
Farei o melhor que possa para obedecer-lhe, madame.
Cláudio
Que felicidade nos trazes Hamlet! Venham todos, é hora de comemorar!
Hamlet
Oh, que esta carne tão manchada derretesse e explodisse! Oh, se o Todo-Poderoso não tivesse
gravado um mandamento contra os que se suicidam… Ó Deus, este lugar é um jardim estragado,
todo o mundo, tanto que chegamos a isto... Morto há nem dois meses! Era um rei tão excelente,
que prezava tanto por minha mãe, não deixava nada rude tocá-la. Ah e ela tem coragem de
prestar luto! Até uma besta teria chorado mais. Antes de um mês! Antes que o sal daquelas
lágrimas hipócritas deixasse de abrasar seus olhos inflamados, Ela casou, com alguém tão
parecido com meu pai, mas que não chega aos seus pés. Que pressa infame de correr ao leito
incestuoso. Ah não, isso não vai acabar bem.
(Entra HORÁCIO)
Horácio
Querido príncipe e nobre amigo! Fico contente em te ver!
Hamlet
Contente por te ver tão bem, caro Horácio. Alegraste meu momento! O que fazes nestas terras?
Horácio
Minha inclinação à vadiagem, acredito.
Hamlet
Eu não permitiria que meu melhor amigo dissesse isso de ti, então poupe-me dessa sofrida
humildade.
Horácio
Também vim assistir ao enterro de teu pai… e os esponsais de tua mãe.
Hamlet
Num dia um, no próximo outro. Economia Horácio! Os frios de um foram servidos como
quentes no outro… preferia ter encontrado no céu o meu pior inimigo a ver esse dia.
Horácio
Mas amigo, eu temo lhe dizer que vi seu pai a noite, em espírito.
Hamlet
(indignado): O QUÊ!?
Horácio
Contém teu espanto por um segundo e me ouve. Por duas noites seguidas as patrulhas avistaram
um espírito, um fantasma, espectro com a aparência de teu pai. Por princípio, acreditei que fosse
galhofagem dos guardas bêbados de licores, depois de maneira prática realizei que era a mais
pura verdade.
Hamlet
Pelo amor de DEUS! E tens certeza disso? Como foi o encontro, como ele tava?
Horácio
Tenho uma estranha certeza, senhor. Estava pálido, mas armado dos pés a cabeça, e queria
contato, mas nosso encontro foi breve. Estou firme que é tu quem deseja.
Hamlet
Então me leva logo! Falarei com ele nem que o inferno abra sua goela de fogo, nem que seja a
última coisa que faça.
CORTINAS FECHAM
CENA III
A frente das cortinas.
[Link]
(Entram LAERTES e OFÉLIA, pela porta lateral)
Laertes
Minha bagagem está a bordo. Adeus, querida irmã. E não me esqueças, quero ter notícias tuas
sempre que possível.
Ofélia
Dúvidas que lhe escreverei?
Laertes
Não de ti… mas toma à tua relação com Hamlet como uma violeta da primavera. É bela, tem um
perfume sublime, cores como nunca vistas… mas efêmera. Um encanto fantástico, apenas isso.
Ofélia
Só isso? Nada mais? Assim que interpreta meus sentimentos irmão?
Laertes
Nada mais. Pois mesmo que Hamlet verdadeiramente te ame, deves temer e resguardar-te dele,
graças à sua grandeza. Ele não é como nós, não pode escolher quem deseja. É o herdeiro do país,
e deve garantir a estabilidade, e não sua felicidade. É um súdito do próprio nascimento. Então
não ceda à um devaneio de desejo, nem teu nem dele. A mais casta das donzelas não é bastante
casta se entrega sua beleza à luz da lua. Cuida, Ofélia, tua virtude é forte demais, mas as jovens
seduzem-se com sua própria beleza!
Ofélia
Guardarei tuas palavras na caixa de recordações do meu coração. Mas, meu bom irmão, não faz
como certos pastores impostores, que nos mostram um caminho pro céu, íngreme e escarpado, e
vão eles, imprudentes e insaciáveis libertinos, pelo caminho dos prazeres, distante dos sermões
que proferiram.
(Entra POLÔNIO)
Polônio
Ainda aqui, Laertes! Já devia estar no navio! Mas aproveitando, lembras destes preceitos: Seja
cuidadoso com o que pensa e diz, e não aja por impulso. Seja gentil sem ser vulgar. Valorize os
amigos verdadeiros e mantenha-os perto, mas não seja íntimo de qualquer andarilho. Evite
brigas, mas, se entrar numa, enterra medo no inimigo. Ouça muitos, mas fale pouco e decida por
si mesmo. Vista-se bem, dentro de suas condições, sem exageros. Não peça nem empreste
dinheiro, isto é desespero. Acima de tudo, seja fiel a ti mesmo. Que minha bênção faça estes
conselhos frutificarem em ti.
(Sai LAERTES)
Polônio
E então Ofélia… ouvi que falavam sobre Hamlet? Ah sim, soube que têm passado bastante
tempo com você. Pois bem, o que há entre vocês dois?
Ofélia
Senhor, ultimamente ele tem me dado muitas demonstrações de ternura.
Polônio
Ternura! Qual! Você fala como uma moça ingênua inconsciente do perigo em que se encontra.
Você acredita nessas ternuras de que fala?
Ofélia
Senhor, não sei o que pensar.
Polônio
Por Deus, você está agindo como uma menina que ganha uma moeda falsa e acha que é dinheiro
de verdade.
Ofélia
Senhor, se ele me importuna com palavras de amor, É da forma mais honrosa. E apoia as
intenções com que fala, senhora, com os juramentos mais sagrados do céu.
Polônio
Alçapão para apanhar ratos! Ofélia, não acredite nas promessas dele, são simples mensageiras de
ânsias pecaminosas, com ares de devotas, para seduzir melhor. Ouça bem, pois é uma ordem: de
agora em diante, não quero que gaste um minuto sequer em conversas com o príncipe! Dê mais
valor a si mesma. Vá, pode ir!
Ofélia
Eu obedeço, meu senhor.
CENA IV
Terraço do Castelo. (Entram HAMLET e HORÁCIO)
Uma música de festa toca ao fundo enquanto o príncipe da Dinamarca profere palavras ao vento
solitariamente.
Hamlet
A impotência do homem me alerta aos mais profundos temores. O que hei de fazer, caro destino?
Desde a morte de meu pai sinto o cheiro fétido do terror, o gosto amargo da injustiça, e o sabor
da vendeta aparece na minha boca constantemente. Pai, ó augusto pai, que a presença se revelou
para os de alma irascível, apareça Pai nunca serei igual a ti. Se apresente por um sonho vivido ou
pelas sombras deste agora funesto castelo.
(O FANTASMA aparece pelas sombras que formam no palco,atrás de seu filho que se ajoelha
no chão.)
Fantasma
Não me olhe filho, não quero que me vejas morto-vivo. Que a imagem que gruda em tuas retinas
e na memória seja apenas a de momentos de sabedoria e ternura. Tuas palavras não foram gastas,
escutei-as e posso lhe dar a certeza de que há algo de errado. Teu coração não mente. Uma cobra
me atacou enquanto descansava no jardim… Maneira covarde de matar um homem,
especialmente por mãos que deveriam me proteger...
Esta cobra hoje governa nosso estado! Veneno, Hamlet! Ela deseja abocanhar a mais bela flor
que este reino podou… E conseguiu. Após este amor bizarro, apresento-me a ti assim pois meu
espírito está agarrado a este plano imperfeito e só poderei descansar eternamente ao lado de
nossos ancestrais assim que for vingado por ti! Não temas nada, honre teu pai e a verdade que
em ti reside, amado filho. Mas não desonra tua mãe. Ela ainda é boa… e sua sina já será
grandiosa demais… Tudo ocorreu por conta dela.
(O FANTASMA sai de cena. HORÁCIO entra.)
Horácio
Querido amigo, minhas condolências…
Hamlet
Não Horácio! Não necessito que sinta pena de mim agora. Se ouviste tudo sabes muito bem o
que mereço… Tua lealdade!
Horácio
O senhor já a possui.
Hamlet
Que bom meu caro amigo. Lealdade… sentimento que meu nefasto tio não teve com meu
saudoso pai… Estamos cercado por monstros, meu bom amigo. Se o espírito mente… Se o
inferno fala por ele… Então não há mais salvação para ninguém. É necessário uma
confirmação… E sei como fazê-lo. Mas prepare-se Horácio. Para isso precisarei unir-me aos
loucos…
ATO II
CENA I
(OFÉLIA grita de trás das cortinas, com muito medo. Ela ultrapassa as cortinas fechadas,
ajoelhando em frente à ela. POLÔNIO entra pela porta lateral,
LUZES ACENDEM
Polônio
Minha filha,o que te aterrorizou para estares assim? Que pesadelo invadiu teus puros sonhos?
Ofélia
Meu pai, não houve pesadelo algum! Minha imaginação jamais conseguiria reproduzir tal ato
hediondo! O príncipe Hamlet surgiu ao quarto com o gibão todo aberto, sem chapéu na cabeça,
os cabelos desfeitos, branco como a camisa que vestia, os joelhos batendo um contra o outro. Me
sacudiu aos prantos com olhar apavorado de quem foi solto do inferno pra vir contar cá em cima
os horrores que viu.
Polônio
Você deve estar sofrendo de delírios de amor, um príncipe não há de arriscar sua honra com com
tal falta de decoro a uma jovem dama! Fosse rude com ele para te invadir o leito?
Ofélia
Não, meu bom senhor. Somente recusei suas cartas e evitei que se aproximasse como o senhor
ordenou.
Polônio
Então só pode ser isso! Assim como imaginei… um príncipe indecente que cede aos desejos da
carne em uma tentativa de corrompê-la. Basta! Assim que o sol raiar, falarei com o rei sobre teu
“amor“.
(Ambas saem)
CENA II
Castelo. (Entram REI, RAINHA, GUILDENSTERN e ROSENCRANTZ)
Cláudio
Meus queridos embaixadores! Pelo seu sorriso, imagino que tragam boas novas!
Rose
Vossa majestade, é um prazer aqui estar!
Cláudio
Como já se provaram bons diplomatas, precisarei novamente de sua ajuda: Hamlet, seu príncipe,
passou por uma metamorfose: mudou completamente, está distante de si mesmo. Vocês, como
amigos de infância dele, poderiam lhe dar um pouco de diversão, ao passo que tentam descobrir
a causa deste problema, sim?
Gui
Como ordem ou pedido, o realizaremos com prazer.
Cláudio
Polônio, modos! O que te faz pensar isso?
Polônio
Peço perdão senhor, sei que este defeito é lamentável. Mas observem: isto é o que minha filha
me mostrou, por obediência. Uma carta assinada: “ao ídolo celestial de minha alma, à margarida
de meu campo - sabes que não sou bom com versos, mas em atos, e serei eternamente teu, minha
musa, minha doce Ofélia. Hamlet”
Gertrudes
E como ela reagiu?
Polônio
Bem… Mas não posso permitir que algo assim ocorra. Por ordem minha, recusou diversas novas
tentativas. “Lord Hamlet está fora de tua estima - disse a ela - não pode ser teu”. Encurtando a
história, ele, repudiado, caiu em miséria, e da miséria partiu à insânia.
Gertrudes
É possível… achas que pode ser isso, Cláudio?
Polônio
Ah por favor Rainha, alguma vez já falei algo que não fosse certo? E se quiserem a prova, largo
minha filha em um encontro com ele, enquanto assistimos de longe. Se ele não a amar, e esse não
for o motivo, deixo meu cargo à seu mercê.
Cláudio
Não podemos negar a possibilidade, Gertrudes. É com Hamlet que mais me preocupo. Vocês
dois, procurem Hamlet.
(Ambos concordam e vão embora.).
CENA III
Castelo. (Entram HAMLET e os ATORES)
Hamlet
Boas vindas a Elsinor cavalheiros! Muito bom tê-los aqui, incrível, magnânimo, sublime. Ah,
perdoem minha pompa, mas a arte me apetece demais! Inclusive, minha mãe e meu tio-pai estão
enganados. Só sou louco a norte-noroeste. A sul sou mais do que são!
Ator UM
Pois não sabia que arte lhe dava tanto prazer!
Hamlet
Arte pra mim é tão deliciosa que escrevi alguns versos para a peça que vocês irão
apresentar…Vocês podem apresentar O Assassinato de Gonzaga amanhã?
Ator DOIS
Sim meu senhor, como preferir
Hamlet
Sublimes velhos amigos! O que fazem por aqui?
Gui e Rose
Viemos saber como o senhor está, escutamos certos boatos…
Hamlet
Que boatos seriam? Sobre duvidarem de minha sanidade, por favor sejam honestos!
Gui e Rose
Apenas nos preocupamos com você amigo, aconteceu algo em especial que lhe incomoda,que
lhe tira o sono?
Hamlet
Não exatamente. Talvez de certa forma meu espírito está mais sensível à imortalidade do
homem, há algo de podre no reino da Dinamarca. Minha sensibilidade aflorou de tal modo que
convoquei uma companhia de teatro, amanhã irão apresentar uma famosa peça e minha
criatividade está poderosa como um rio… Até escrevi versos adicionais, com certeza será um
grande espetáculo. Se avistarem vosso Rei e vossa Rainha, digam que faço questão de suas
excelentíssimas presenças.
Hamlet
A peça mostrará a morte de um rei por seu irmão. Onde será que já vi isso…? Cláudio irá adorar
o espetáculo, e se ele estremecer… eu terei a verdade. Ficará raivoso como um cachorro.
ATO III
CENA I
Castelo. (Entram REI, RAINHA, GUI E ROSE)
Gui e Rose
Senhores, não conseguimos tirar nada dele. É visível que há algo de sombrio que paira na alma
de nosso príncipe. Porém algo nos surpreendeu…
Gertrudes
E o que seria?
Rose
Príncipe Hamlet convocou uma companhia de teatro para apresentar uma sublime peça. Ele faz
questão que os senhores prestigiem.
Cláudio
Iremos com certeza, sabem onde ele pode estar?
Gui
Encontramos ele perto da floresta conversando com uns atores, olhamos para trás e ele foi em
direção ao cemitério.
Cláudio
Cemitério? Curioso, mas tudo bem, uma mente perturbada se encontra em lugares funestos.
Avisarei Polônia para falar com Ofélia, para que encontre ele alí. Vamos acabar com isso.
LUZES APAGAM
CENA II
Cemitério. (HAMLET no centro do palco,com uma caveira na mão.)
Hamlet
Ser ou não ser – eis a questão. Será mais nobre sofrer na alma Pedradas e flechadas do destino
feroz ou pegar em armas contra o mar de angústias E, combatendo-o, dar-lhe fim? Morrer;
dormir; só isso. E com o sono – dizem – extinguir dores do coração e as mil mazelas naturais a
que a carne é sujeita; eis uma consumação ardentemente desejável. Morrer – dormir Dormir!
Talvez sonhar. Aí está o obstáculo! Os sonhos que hão de vir no sono da morte quando tivermos
escapado ao tumulto da vida nos obrigam a hesitar: e é essa reflexão que dá à desventura uma
vida tão longa. Pois quem suportaria o açoite e os insultos do mundo, a afronta do opressor, o
desdém do orgulhoso, as pontadas do amor humilhado, as delongas da lei, a prepotência do
mando, e o achincalhe que o mérito paciente recebe dos inúteis, podendo, ele próprio, encontrar
seu repouso com um simples punhal? Quem aguentaria fardos, gemendo e suando numa vida
servil, senão porque o terror de alguma coisa após a morte, o país não descoberto, de cujos
confins jamais voltou nenhum viajante – nos confunde a vontade, nos faz preferir e suportar os
males que já temos, a fugirmos pra outros que desconhecemos? E assim a reflexão faz todos nós
covardes. E assim o matiz natural da decisão se transforma no doentio pálido do pensamento. E
empreitadas de vigor e coragem, refletidas demais, saem de seu caminho, perdem o nome de
ação.
(Entra OFÉLIA.)
Ofélia
Meu senhor, finalmente o encontrei! Como meu lorde tem passado os dias?
Hamlet
Ofélia, minha ninfa, tenho passado muito bem. Agradeço a preocupação.
Ofélia
Bom Hamlet, queria perguntar-lhe sobre as palavras tão doces que me disseste, de tão belo
presente. Ah meu príncipe, elas foram verdadeiras e honestas tal qual sua alma?
Hamlet
De fato acreditas que minha alma é pura e honesta, talvez um espelho para tua beleza… Eu te
amei, um dia.
Ofélia
Acredito que sim, senhor.
Hamlet
Pois não devia. Não te amei nem uma única vez.
Ofélia
Enganaste-me.
Hamlet
Vá para um convento. Ou queres ser mãe de pecadores? Eu também não sou lá muito virtuoso.
Ah Ofélia, se minha mãe soubesse o que tramo, não teria me dado à luz. Não sou merecedor. Sou
vingativo,ambicioso e raivoso. Minha maldade nem cabe no meu ser e nem no meu tempo
restante na terra. Somos todos rematados canalhas, todos! Não acredite em nenhum de nós. Vai,
segue pro convento. Cadê sua mãe?
Ofélia
Provavelmente em casa meu lorde.
Hamlet
Não cometa a vergonha de aparecer para ela. Saia pelo mesmo portão que entrou.
CORTINAS FECHAM
CENA III
Em frente às cortinas. (Entram HAMLET e ATORES)
Hamlet
Sem nem uma palavra a menos, senhores! E sem berros, por favor, isso qualquer um faz.
Atores
Como desejar!
Hamlet
Meu bom amigo, este é o momento! Observe bem a sua majestade. Em qualquer sinal de
desconforto durante a peça, levante sua mão discretamente. Finja que é só um olheiro. É hora de
cumprir teu juramento!
Horácio
Olhos de águia, senhor!
CORTINAS ABREM
Hamlet
Senhores, senhoras, boas vindas. Acomodem-se! O show hoje será de arrepiar. Meu bom
Horácio, gostaria de pedir-lhe um palpite à sós.
Hamlet
Oi, oi! Um mistério maligno, ou melhor, maldito.
Horácio
Parece que essa pantomima representa o enredo do drama.
Hamlet
Mas esse aí fala demais, não é?
Horácio
Sem grosserias!
(Entram ATOR 2 e ATOR 1, por lados opostos)
Hamlet
Horácio
Cláudio
MALDIÇÃO, PAREM A PEÇA!
LUZES ACENDEM
Gertrudes
AMOR! ESTÁ TUDO BEM! CÉUS, ENCERREM ENCERREM!
CENA IV
Em frente as cortinas.
(Entra HAMLET)
Gertrudes
Você deve estar ficando louco! Porque tratas teu pai assim?
Hamlet
Meu pai? Quem cospe no legado do meu pai ÉS tu. Quem confabulou contra ele foi você, por
uma paixão incestuosa, errática, vomitava…vil! Hoje teu reinado não vale um centavo.
Gertrudes
Meu filho, as tuas palavras são afiadas… acertam em cheio meu coração…
Hamlet
Sua cinicidade me machuca mais,como pode ter feito aquilo? Olha esse homem na sua frente.
Lembra de meu pai. Um é o retrato do amor, da dignidade, da bondade, da honra. O outro é um
porco que enlameia a seda de nossas bandeiras, de nossos carpetes, de seu LEITO! Já fingi
loucura e fui impaciente por tempo demais! (Saca o florete)
(Entra POLÔNIO)
Polônio
Príncipe, você está completamente fora de si, como tratar sua mãe, a rainha, desta maneira e
ainda envergonha o rei. Seu pai morreria de vergonha.
(HAMLET o atravessa com a espada e se retira apressado, CLÁUDIO assiste a cena toda em
choque.)
Cláudio
Gertrudes, por tudo que mais abençoa esta terra, chame Laertes! O que eu fiz não pode ser
desfeito, mas Hamlet é uma ameaça terrível. Ele arde em mim como a febre! Isso não pode
chegar nas mãos do povo, mesmo que me custe queimar nas chamas do purgatório. Laertes,
Laertes resolverá eu tenho certeza…
ATO IV
CENA I
Cemitério. (OFÉLIA sozinha.)
Ofélia
Como pude ter sido tão estúpida, fui enganada, mas da mesma maneira, ignorante na razão de
minha paixão. Me apaixonei por tão pouco e tudo me doei e nada recebi. Carícia nenhuma,
gentileza alguma nem um mísero olhar de compaixão e amorosidade, pois agora, me vejo
sozinha pela primeira vez… Mas sempre estive, nunca que tuas palavras seriam verdadeiras pela
eternidade. Nosso amor pra mim significava, para ti…Nem em minhas palavras consigo ser
honesta, eu queria que tu me amasse, seja rude, trate me mal mas ame me.
CORTINAS FECHAM
(Ao lado da plateia: REI, RAINHA, LAERTES, PADRE. HAMLET observa ao longe.)
Marcha Fúnebre.
Hamlet
Um enterro… mas de quem? Espera… Laertes??
Laertes
ESSE CAIXÃO É PEQUENO DEMAIS! ME CHAMARAM AQUI PARA ISSO? PARA ESSA
INFÂMIA? MALDIÇÃO!
Padre
Senhor… a morte foi dúbia… caso fosse confirmado que não foi suicidio, teríamos na enterrado
com mais graça…
Laertes
Cale a boca! Ela era um anjo! Poderia ter feito os piores crimes, Ainda seria bem aceita no céu.
Rei
Laertes… entendo a sua dor,perdeste teu pai também,mas respeite vossa santidade.
Hamlet(espantado)
O que? OFÉLIA? A DOCE OFÉLIA?
Laertes
Que de sua carne bela e imaculada brotem as violetas! Maldito causador disto tudo, tu uivaras
nas profundezas do inferno. Eu juro! Tua morte será vingada irmã.
Hamlet
Tríplice desgraça! Ai de mim! Ofélia (a abraça) me desculpa!
Laertes
VOCÊ! Como pode? (Aponta a arma na garganta de Hamlet)
Rei
VOCÊS DOIS! Chega!
Rainha
Hamlet… porque faz isso tudo? (O abraça)
Hamlet
Ele abandonou a própria irmã!
Laertes
ABANDONEI? Você jogou seus sentimentos no chão e pisou em cima. SEU MONSTRO! Não
bastou a ti matar uma mulher, só se saciou com duas!
Hamlet
Mas quem abriu esta cova foi você! Ela era o meu amor!
Horácio
Senhor, controle-se! Consequências dos seus atos senhor, consequências!
Laertes
Fazemos assim então: amanhã, no castelo, nós dois, armas e honra a punho, um duelo. Quando o
sol começar a se esconder entre os montes. Dê adeus a todos que ama! Deixe toda a esperança,
eu irei mata-lo!
Rainha
Não! Meninos, por favor, não!
Rei
Boa Gertrudes… eles já são homens. Podem decidir o próprio destino.
Hamlet
Então está decidido. Amanhã. Eu sempre te estimei, Laertes, mas se deseja ignorar tudo o que
tua irmã desejaria, serei tua plateia, teu inimigo, e teu ALGOZ.
Rainha
Isso é loucura! Completa, Cláudio, Horácio, por favor, já chega de sofrimento, já chega de dor!
Rei
Tomem conta deles… já está tudo decidido.
Horácio
Podem deixar o jovem Hamlet comigo…
CENA II
Em frente às cortinas.
Rei
Laertes me escuta!
Laertes
Não tenho muito tempo Majestade
Rei
Mas esta é uma oportunidade especial. (Mostra um veneno) Veja bem, garoto, você deseja que
Hamlet morra não é? Eu também desejei que alguém morresse, por honra, pelo coração, e era
minha missão vingá-lo. E sua missão agora é matar Hamlet. E eu te entendo. A perda de um
parente é a quebra de uma peça da alma. Uma que também me foi quebrada, despedaçada. E eu
nada fiz… perdi meu irmão.
Laertes
Entendo… mas não preciso disso. Meu florete já é o suficiente.
Rei
Sinto lhe informar, mas não é. Ele é astuto demais. Essa é a única forma de garantia. Envenene a
ponta de seu florete. Somente isso se desejar. Colocarei parte da cicuta no vinho do banquete,
que ele beberá… de hoje ele não passará!
Laertes
(Envenenando o florete) Faça o que quiser. Mas não me atrapalhe.
CORTINAS ABREM
Hamlet
Sabe Horácio, algo tira meu sono a noites. Eu não sei mais o que fazer… Eu finjo loucura, mas
para que? O rei não morrerá de pena por me assistir. E eu sinto sua falta… Ofélia… Laertes, eles
eram bons. Segurar o corpo de Ofélia, agora ter de segurar o de Laertes…
Horácio
Amigo, o que tu fizeste não foi o correto. Mas agora já ocorreu. Faz teu futuro, garoto. Pede
desculpas a Laertes. E termina logo o que teu pai pediu.
Hamlet
Horácio, você acha que o que fiz tem perdão?
Horácio
Com Ofélia? Não.
Hamlet(surpreso)
Sério? Esperava que me defenderia…
Horácio
Ah meu bom Príncipe, defendo-te de todas as calúnias e maus-sentimentos… mas teu erro
ultrapassou o limite da moral. Não posso mentir para você. O problema das cicatrizes, Hamlet, é
que elas ardem para sempre. O único jeito de mitigar tal efeito é obscurecendo-nas com boas
memórias, algo que - sendo tão marcante - consegue criar.
Hamlet
Estou farto de errar Horácio… De hoje não passa.
Horácio:
Espero que sim, nem eu estou aguentando todo esse purgatório.
(Ambos se abraçam)
Laertes
É a hora! Preparado, príncipe?
Hamlet
Eu sou preparado, monsieur. E justamente por isso gostaria de solicitar o cancelamento deste
duelo. Como um cavalheiro, peço perdão. Eu errei, Laertes , terrivelmente. Deves saber que fui
considerado louco por muitos, até por mim. Não foi Hamlet quem ofendeu Laertes, jamais, e sim
essa consciência maldita, sórdida, que também é minha inimiga.
Rei
Como mediador, indago. Laertes, aceita esta oferta?
Laertes
Por honra e pelo juramento, escolho a espada.
Hamlet
Serei o floreado do teu hábil florete, Laertes. Como uma estrela numa noite negra, a tua perícia
brilhará mais visível que nunca, refletida na minha incompetência.
Laertes
Tu zombas de mim.
Hamlet
Jamais, amigo, jamais! (Saca o florete.)
Rei
Em nome dos céus, rogo-lhe Deus que aceite ambos estes jovens em caso de morte. A lâmina
será-lhes um bom final, exprimindo a honra. Hamlet, Laertes, vocês preferem a morte à vida
desonrada?
H e L:
SIM!
Rei:
Então, LUTEM
(LAERTES avança, HAMLET deflete e tenta estocar mas não consegue. LAERTES avança de
novo, ferindo HAMLET no pescoço, mas é tarde: HAMLET segura o braço de LAERTES e
lhe estoca no coração.) (LAERTES cai no chão, a mão no peito. CONTRA REGRAS saem
todos, HORÁCIO levanta e comemora)
Rainha
Hamlet VENCEU!
Rei
Uma bela batalha, beba isso Hamlet.
Rainha
Ah meu amado Cláudio, eu também mereço um gole. (Bebe)
Rei
NÃO! GERTRUDES NÃO! ESTÁ ENVENENADO!
Laertes
O florete também (cof cof) Hamlet… estás morto… (morre)
Hamlet
O QUE? (Toca o ferimento.) NÃO! VOCÊ! (HAMLET ataca o REI no pescoço) MORRA,
TRAIDOR!
Hamlet
Mãe, Mãe! Desculpa, por favor!
Rainha
Eu te perdoo meu querido filho, sempre te perdoarei! (Com a mão no rosto do filho, morre.)
Hamlet
E o próximo serei eu… (ao público) À todos vocês, que pálidos e trêmulos assistem esse drama,
que são mudos espectadores, que nada podem fazer, digo que não tenho mais nada. Mesmo vivo,
estaria morto, fruto de minhas ações. Como ele disse, eu demorei demais, pensei demais, e ao
mesmo tempo, e justamente por isso, pensei insuficientemente… Céus… que existência
miserável…
(HORÁCIO se aproxima)
Horácio
Hamlet, permita que eu vá junto!
Hamlet
Jamais! Viva Horácio viva, tu é a única pessoa boa desta terra. Vai e me solte, não toque neste
corpo pecador amigo, mas não deixe-me morrer em vão. Conta minha história, nem que seja
como tragédia... Agora vou-me, o veneno me toma por completo, seja feliz! Case com uma linda
mulher e viva muito, amigo (morre).
CORTINAS FECHAM
Horácio (senta na beira do palco)
Agora se rompe um nobre coração. Boa noite, doce príncipe, revoadas de anjos cantarão para o
teu descanso… Tantas mortes, tantos corpos… e o que adiantou? Rei Hamlet foi vingado, a custo
da morte de todo o seu arredor. Agora fico aqui sozinho, sem amigos, sem companhia. Talvez a
glória realmente não viva na conquista, e sim no amor, no amigo querido, na família feliz, no
trabalho bem feito… Todos morreram solitários… sem confiar em ninguém… espero que esta
seja a última destas mortes.
ENDE