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Questões Filosóficas para o texto crítico: a capacidade de enxergar esse filme e redigir um
texto crítico sobre depende de várias questões, como as de cunho temporal, da arte, se vamos
olhá-la como acabada dentro do limite de intencionalidade do diretor, ou se vamos encará-lo
como um objeto histórico de ricas possibilidades de reflexo, que aparece com intepretações
negativas mais que possíveis. A questão para manter um critica coerente passa também pelo
inevitável debate do papel da crítica. Aqui me proponho a uma crítica com ambições de práxis,
quero ter em vista o intencional da arte, mas ao mesmo tempo buscar absorver o conteúdo de
forma autêntica, com o objetivo de germinar uma produção intelectual própria que busca,
para além de discutir a qualidade estética, extrair o máximo de debate que os reflexos desse
objeto me trouxeram. O crítico com o papel de criar, não apenas fazer juízo de valor, a fim de
fugir da imposição de ponto de vista e buscar a alternativa da criação de outra propriedade
intelectual, que se apoia na arte como se fosse a bibliografia principal do ensaio.
Breve opinião: o filme evidencia um sintoma social, a forma adoecida de se relacionar da
adolescência, e nele mergulha em detalhes, fazendo surgir muitas interrogações naquele que
assiste. A obra é pairada por uma questão forte da descritividade, frente às polêmicas que o
debate do filme inevitavelmente geraria, é incontornável a questão moral, que foi muito bem
desviada através duma postura que enxergamos desde Maquiavel em diante, a posição de
descrever os fatos, não apenas dizer como eles deviriam ser. Na linha tênue entre a denúncia
(da situação dos adolescentes) e a apologia foi onde o filme ganhou espaço de mercado. Mas
até a posição de denunciar seria algo controverso, o que torna necessário um breve debate
sobre intencionalidade, foi uma denúncia simples? Ele tinha em vista que aquele padrão de
comportamento social era sintoma de uma estrutura ideológica adoecida? O ponto de reflexão
central do filme é a questão de gênero, que tem um espaço frutífero de reflexão (que fica mais
rico se olharmos com os olhos do presente). Pouco importa a intencionalidade de Larry Clark
em questões como a masculinidade hegemônica, feminilidade, afrodescendência, lgbt, não
precisamos saber o que achava o diretor dessas questões (sempre atento para não passar
pano para algum preconceito evidente), para trazer importância ao debate precisamos trazer o
elemento metodológico sociológico e histórico para a mesa, para isso a obra tem que ser
tratada como uma fonte histórica, ela é uma arte feita através do olhar de alguém, mas,
querendo o artista ou não, ela também atende ao papel de registro histórico, como uma
fotografia, não como fonte científica em si, mas que passa a ser de acordo com as perguntas
que fazemos à fonte.
A posição extremamente descritiva do dia a dia dos jovens fora do radar dos pais leva o filme a
flertar com o conformismo, trazendo uma perigosa relativização da sua mensagem, vide os
temas delicados em questão, além de ser incapaz de fornecer uma intervenção de qualquer
tipo, nem através da cadeia causal dos fatos, nem através de reflexões via diálogo, apesar de
que, voltando ao debate da intencionalidade, o autor demonstra alguns pontos favoráveis,
como algumas personagens que constroem juízo de valor negativo à atitude dos jovens, o
problema é que a intervenção não passa disso e da capacidade relativa das sensações
negativas que as cenas dos atos crus são capazes de passar, falo relativo pois de fato o é, uma
cena de assédio crua gera reflexões relevantes em pessoas capazes de enxergar aquilo como
algo errado.