Celeste, que estava sempre sorrindo, sempre gargalhando, que sempre tinha uma resposta pronta em qualquer
situação, rendeu-se. – Eu não aguento mais! Tudo o que ele sentiu foi alívio, alívio por ela haver finalmente percebido,
porque ela não iria continuar com aquilo; e ele a tomou nos braços e deixou-a soluçar. – Então pare – ele disse
gentilmente. – Eu não tenho condições para isso – ela argumentou, mas apenas consigo mesma. – Mas eu não consigo
nem pensar em voltar lá de novo... – Eu sei. – Estou tão cansada. – Eu sei. – E estou com medo dos germes, também. –
Vamos. – Ele a levou de volta para o sofá, foi buscar um pouco de água gelada no refrigerador, e conversou gentilmente
com ela, como se fosse uma paciente, explorando as opções dela. Ela estava com tudo em ordem, inclusive algumas
economias, mas elas dariam apenas para cobrir o aluguel. Haveria um pouco mais de dinheiro depois que o bebê
nascesse, mas sem dúvida, as coisas estavam incrivelmente difíceis para ela, financeiramente. – O carro vai quebrar
logo. – Celeste soluçou. – E eu nem comprei uma cadeirinha ainda. Eu ia fazer isso quando o pagamento do próximo
mês saísse... – Minha irmã já teve várias dessas cadeirinhas; a garagem está cheia delas. Ela teve gêmeos... então, esse
problema está resolvido, certo? Era somente a ponta de um iceberg gigantesco, mais um item numa lista que parecia
interminável, mas foi um alívio resolver o problema, compartilhar, finalmente admitir o quanto ela estava cansada de
tudo: ela estava esgotada de verdade. – Eu preciso trabalhar, mas realmente acho que se continuar, vai afetar o bebê. –
Ela ficou feliz por ele não tê-la interrompido, e confirmado seus medos. – Eu estou retendo líquido demais... – Olhe. –
Ben estava sendo infinitamente gentil. – Você fez um ótimo trabalho, chegando até aqui. – Algumas mulheres
trabalham até o fim da gravidez. – E outras não – disse Ben. – Algumas não podem, e parece que você é uma delas. – Eu
vou conversar com o médico amanhã. – Ela assentiu. – E serei honesta. – Muito bom – disse Ben, e então fez uma
pausa, antes de ir exatamente aonde não queria, e se envolver ainda mais. – Você já pensou em pedir ajuda ao pai do
bebê? – Nunca. – Celeste sacudiu a cabeça. – E, por favor, não me passe um sermão, dizendo que a responsabilidade é
dele também, e que eu tenho todo o direito... – Sem sermão – Ben interrompeu. – E os seus pais? – Eu escrevi para eles.
– Ele percebeu como tudo aquilo deveria ter sido para ela: sabia, pelas conversas que eles tinham, que a reação dos pais
dela havia sido furiosa, e que eles haviam cortado relações com ela. O fato de que ela havia escrito para eles pedindo
ajuda, depois de tudo o que eles tinham feito a ela, mostrava que estava pensando no bebê. – Fez bem. Foi a melhor
coisa que ele poderia ter dito. – Eu enviei a carta ontem, então não tive resposta ainda. Perguntei se posso voltar a
morar com eles, só por algumas semanas... Ele sentiria falta dela, Ben percebeu, mas era a coisa certa para ela fazer
naquele momento. Ela precisava da família, precisava de alguém para cuidar dela durante aquelas últimas, e difíceis,
semanas; e, certamente, esse alguém não seria ele. – Eu vou falar com o médico amanhã. – A voz dela estava mais
firme, agora. – E depois vou falar com Meg. – Ótimo. – E agora... – Mais uma vez, ele a ajudou a se erguer do sofá,
quando ela fez menção de se levantar – eu realmente vou pra casa, dormir. Ele sorriu para ela quando eles chegaram à
porta. – Você vai conseguir passar por isso – Ben disse –, vai mesmo. – Eu sei. Ela estava tão cansada, tão esgotada e
perdida, tentando ser valente em meio à escuridão, que desta vez, quando ele a tomou nos braços, não foi porque ela
estava chorando, e não foi porque ela estava chateada. Ele não sabia realmente porque tinha feito aquilo, só sabia que
parecia certo abraçá-la. E, para Celeste, era maravilhoso ser abraçada por um instante. Um instante delicioso,
simplesmente parada e apoiada nele, sentindo as palavras dele contra seus cabelos, a confirmação dele de que ela havia
feito as escolhas certas, que ela ficaria bem, que estava indo bem. – Eu estou com medo. Ela nunca, nem uma vez
sequer, tinha admitido aquilo para alguém. Desafio tinha se tornado o sobrenome dela, porque se ela parasse por
apenas um segundo, se questionasse se ter o bebê, continuar trabalhando e manter o nome do pai em segredo eram
decisões inteligentes, se admitisse, ainda que para si mesma, que estava lutando, então, certamente, toda a coragem
que ela havia reunido desapareceria. Era mais fácil enfrentar, insistir que estava enfrentando, e continuar, do que parar
e pensar. Mesmo assim, nos braços dele ela parou por um momento; admitiu a verdade e esperou o baque. Esperou
que tudo explodisse ao seu redor, que tudo parasse, que a desesperança a invadisse, e mesmo assim ela continuou ali,
nos braços dele, e tudo o que fez foi parar, uma pausa mínima que a fez encarar a verdade e, sentindo-se segura por um
instante, recuperar-se. – Com medo de quê? – ele perguntou a ela, depois de um longo tempo. – O bebê merece coisa
melhor. Ben fechou os olhos, tomado pelo arrependimento. Um arrependimento envergonhado, porque ele havia, em
uma ocasião, pensado a mesma coisa. Um casal bem-sucedido, concebendo uma criança planejada, amada, desejada...
Aquele tinha sido o seu projeto; e ele havia despejado sua ira no universo, porque se ele e Jen, com tudo o que tinham a
oferecer, com todos os planos e sonhos, não puderam realizá-lo, por que alguém mais poderia? Somente agora,
abraçando Celeste, ele percebera que, apesar das circunstâncias, a mulher em seus braços preenchia quase todos os
requisitos necessários para criar um filho, e que apesar dos obstáculos, ela compensaria pelo que faltasse. – O bebê tem
você. – Ele permaneceu ali, ainda abraçando-a, e pensou sobre aquilo; pensou em quanta sorte aquele bebê tinha por
tê-la, planejado ou não. O bebê tinha Celeste; e ele pensou em como ela o fazia rir tantas vezes, pensou no calor da
afeição dela, e quanta sorte as pessoas que recebiam aquela afeição tinham; e seu projeto perfeito desvaneceu-se da
mente dele. – E será que eu sou suficiente? – ela perguntou, ansiosa. – Claro que sim – ele respondeu, com certeza na
voz. Ela era absolutamente suficiente. Mais do que suficiente. Muito mais do que suficiente, embora ele não estivesse
pensando no bebê agora, porque ao abraçá-la, pela primeira vez com ela nos braços, ele esqueceu do que eles estavam
conversando, esqueceu que ela estava grávida. Ela era simplesmente Celeste, divertida, amável e terrivelmente,
terrivelmente atraente. O cheiro dela próxima a dele, o contato de sua cabeça contra seu peito tomaram conta de Ben,
e ele perdeu-se nela. Tão naturalmente como respirar, ele disse a ela como se sentia com um beijo em vez de palavras,
simplesmente levantando-lhe o queixo e beijando-a. Ele abaixou a cabeça para encontrar os lábios vermelhos dela, e
confirmou o quanto ela era suficiente com a própria boca; e quando os lábios deles se encontraram, Ben teve uma
sensação de tontura, como açúcar derretendo sobre sua língua, enquanto ele provava o gosto da tentação. Ela ficou
atônita, porque aquilo não era nada parecido com qualquer coisa que houvesse sentido antes, porque nos braços de
Ben ela se sentia segura, e podia ser simplesmente ela mesma. Se isso era bom ou ruim, não importava; podia ser ela
mesma com Ben. Ela havia admitido para ele que estava com medo, e o mundo continuara girando; mas agora, era um
mundo melhor do que antes. As mãos dele estavam mergulhadas nos cabelos dela, e suas bocas se moviam juntas, e ela
se sentiu sensual; pela primeira vez na vida, ela se sentiu sensual, querida e segura. E Ben sentia a mesma coisa, ternura
e desejo lhe correndo pelas veias, algo sem comparação, finalmente. Não havia um raciocínio lógico para o fato; era
apenas um beijo, mas um beijo que parecia o paraíso, com o cheiro dela a envolvê-lo e sua língua, fria por causa da
água, tocando a dele. Era instinto, o abrigo seguro do instinto. Ela retornou o beijo. E beijou-o de um jeito que nunca
havia experimentado antes. Não era um beijo tecnicamente perfeito, do tipo que se racionaliza; era um momento para
experimentar, compartilhar, e era assim que devia ser. A privacidade de Ben, o lugar isolado que ele havia se tornado,
de repente pertencia a ela, para explorar à vontade; e a sensação era divina. Celeste havia entrado no santuário
particular e protegido daquele homem reservado, e aquilo a enchia de alegria. – Celeste – ele sussurrou, com os lábios
ainda colados aos dela, para que ela soubesse que estava ali, e que era ela a mulher que ele estava beijando naquela
noite. Uma das mãos dele segurava-lhe a cabeça, puxando o rosto dela para mais perto, e a outra havia descido para
seu quadril, seu quadril grande e gordo, ela pensou vagamente; mas ele o acariciava e a sensação era fabulosa. Até
aquele momento, ela jamais soubera como era se sentir sensual, mas estava descobrindo agora, naquele instante,
quando isso deveria ser a última coisa a lhe passar pela cabeça. Afinal, ela era apenas uma mulher, e quando as mãos
dele a puxaram para mais perto, uma mulher era tudo o que ela queria ser. Quanto a Ben, ele jamais havia chegado tão
perto de uma fuga, para um lugar onde apenas ele existisse. Não era uma fuga egoísta