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O documento analisa a aplicação do Direito Internacional Privado em casos de sequestro internacional de crianças, utilizando o caso de Sean Goldman como exemplo. Ele discute os direitos de guarda e visita, a definição de sequestro internacional e as convenções que regem a proteção dos direitos da criança. A análise inclui a comparação entre a legislação brasileira e as convenções internacionais, destacando a importância do melhor interesse da criança nas decisões judiciais.
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O documento analisa a aplicação do Direito Internacional Privado em casos de sequestro internacional de crianças, utilizando o caso de Sean Goldman como exemplo. Ele discute os direitos de guarda e visita, a definição de sequestro internacional e as convenções que regem a proteção dos direitos da criança. A análise inclui a comparação entre a legislação brasileira e as convenções internacionais, destacando a importância do melhor interesse da criança nas decisões judiciais.
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DIREITO INTERNACIONAL PRIVADO E O

SEQUESTRO INTERNACIONAL DE CRIANÇAS:


INTERPRETAÇÃO BRASILEIRA NO CASO SEAN
GOLDMAN (2004)*

Ariele Nunes Ávila**


Stéphani Rodrigues Castilhos***

Introdução

O presente trabalho objetiva fazer uma análise da aplicação do


Direito Internacional Privado (DIPr) em casos caracterizados como
Sequestro Internacional de Crianças. Primeiramente, serão
elucidadas definições sobre o direito de guarda e de visita dentro do
DIPr. Para exemplificar o tema deste trabalho será apresentado o
caso do menino Sean Goldman que foi mantido de forma ilícita no
território brasileiro pela sua mãe no ano de 2004 e que retornou para
seu pai biológico somente no ano de 2008. Posteriormente, surgirão
duas indagações relacionadas à interpretação do direito e
competência brasileira no caso comentado. Comparando as
Convenções sobre os direitos do infante, as quais o Brasil faz parte,
com a legislação brasileira se verificará as decisões tomadas pela
justiça brasileira no Caso Sean Goldman, buscando o esclarecimento

* Trabalho realizado sob orientação da docente Fabiane Simioni.


** Graduanda em Relações Internacionais pela Universidade Federal do Rio Grande
(FURG), ingressante no ano de 2016. Atualmente é membra do Grupo de Pesquisa
do CNPq "Interseccionalidades e Decolonialidade nas Relações Internacionais"
(INDERI) - FADIR/FURG.
*** Graduanda em Relações Internacionais pela Universidade Federal do Rio Grande

(FURG), ingressante no ano de 2016. Atualmente é membra do Grupo de Pesquisa


do CNPq "Interseccionalidades e Decolonialidade nas Relações Internacionais"
(INDERI) - FADIR/FURG.

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das dúvidas que surgirão no corpo do trabalho e correlacionando, por
fim, com o princípio do melhor interesse da criança.
Para o estudo desse caso foram escolhidas como referências
elementares a Declaração Universal dos Direitos da Criança, adotada
pela Organização das Nações Unidas em 1959, a Convenção de Haia
que versa sobre aspectos civis do Sequestro Internacional de
Crianças de 1980, a Convenção sobre Direitos da Criança, adotada
pela Assembleia Geral da ONU em 1989, a Lei de Introdução às
Normas do Direito Brasileiro, o Estatuto da Criança e do
Adolescente adotado pelo Brasil em 1990. A doutrina brasileira sobre
o tema foi estudada a partir de Mazzuoli (2017).

1 Direito de guarda e de visita

O direito de guarda é o direito de posse que consiste na


convivência, proteção e satisfação das necessidades de
desenvolvimento da criança e do adolescente (MRE, 2016). De
acordo com o artigo 5º da Convenção de Haia de 1980, no tocante ao
direito de guarda e direito de visita:

A) o “direito de guarda” compreenderá os direitos relativos aos


cuidados com a pessoa da criança, e, em particular, o direito de
decidir sobre o lugar da sua residência;
B) o “direito de visita” compreenderá o direito de levar uma criança,
por um período limitado de tempo, para um lugar diferente daquele
onde ela habitualmente reside.

Caso os pais e a criança sejam domiciliados no território


brasileiro, mesmo as partes sendo estrangeiras, será a lei brasileira
competente para determinar a guarda (MAZUOLLI, 2017, p. 400).
Porém, se os pais forem domiciliados em países distintos será a lei da
residência habitual do infante a competente para estabelecer a
guarda, sempre que outra não seja mais favorável (MAZUOLLI,
2017). Ou seja, se o infante estiver domiciliado em território
brasileiro, a lei brasileira decidirá sobre o caso, e se estiver
domiciliado no estrangeiro, a lei deste país será aplicada.
Para ser efetuada uma mudança definitiva de residência da
criança ou adolescente para outro município, estado ou exterior é

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necessária autorização de ambos os genitores, salvo em situações de
emergência como, por exemplo, em situação de violência doméstica
sofrida pela genitora ou pelo infante (MRE, 2016, p. 16). Segundo
Ministério das Relações Exteriores (2016, p. 16), quando um dos
pais mora em outro município, o genitor que não detém a guarda
deverá ter direito a um cronograma de visitas, este com previsões de
viagens interestaduais para casos dentro do Brasil. Se um dos
genitores reside no exterior será utilizado o mesmo procedimento,
contudo, é necessária a autorização do judiciário do novo país de
residência da criança ou adolescente, além da emissão do passaporte
do infante necessitar da autorização de ambos os pais, sendo esta
substituída apenas por ordem judicial (MRE, 2016).
O cumprimento no exterior de decisão judicial brasileira sobre
guarda e visitação, ou seja, para que esta seja válida em outro país,
deve ser homologada naquele território para possuir garantias caso
algumas das partes desrespeite os termos estabelecidos, e da mesma
forma uma sentença estrangeira deve ser homologada no Brasil.
Conforme a Cartilha sobre disputa de guarda e subtração
internacional de menores (MRE, 2016) independentemente da posse
do genitor, após o infante ingressar como residente em país
estrangeiro os órgãos tutelares passam a ter jurisdição sobre o
infante. Em caso de disputas que ocorrem no exterior, o juiz será
estrangeiro e será usada a legislação do país residual do infante
como, por exemplo, se uma mãe brasileira se separar de um cônjuge
argentino e a Alemanha tiver sido seu domicílio anterior, as regras
pela guarda serão decididas conforme a legislação alemã.
Sobre o direito de visita, este será regulado pela lei brasileira
quando as partes (pais e filhos) forem domiciliadas no Brasil, assim
como no direito de guarda (MAZUOLLI 2017, p. 402). Caso alguma
parte pretenda sair do país com a criança ou adolescente durante o
período da visitação, basta somente a autorização do Poder
Judiciário, porém, esta pode ser dispensada se o infante estiver
acompanhado de ambos os pais ou se viajar na companhia de um
destes autorizado expressamente pelo outro através de documento
com firma reconhecida (MAZUOLLI, 2017, p. 403). Se houver
pluralidade de domicílios, somente a lei da residência habitual da
criança não seria suficiente para regular o direito de visita, visto que
o direito dos pais e de outros parentes deve ser levado em

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consideração. A dificuldade está em conciliar a lei domiciliar dos
familiares com a da residência do infante, sendo, na falta de critério
uniforme, a lei da residência da criança ou adolescente a escolhida
para operar sobre o caso, mesmo quando haja interesses de mais
pessoas envolvidas (MAZUOLLI, 2017, p. 403).
Em determinadas situações, como em casos em que o genitor
crê que a decisão da justiça local lhe será desfavorável na disputa da
guarda do infante, ocorre o que será qualificado como subtração
internacional de crianças (MRE, 2016, p. 26).

2 Sequestro internacional de crianças

O ato de um dos genitores ou parente transferir ilicitamente o


infante para um país que não seja o de sua residência habitual, sem o
consentimento do outro genitor, configura subtração internacional de
crianças (MRE, 2016). O termo sequestro é utilizado erroneamente,
pois se trata de uma transferência do menor de seu país habitual para
outro e sua retenção indevida no mesmo. A subtração é configurada
tanto quando a criança é transferida ilegalmente do país habitual para
outro, quanto quando há a autorização para retirar o menor do país,
porém este é retido no exterior (MAZZUOLI, 2017, p. 408).
Visando a proteção dos interesses das crianças ou adolescentes
envolvidos em situações transnacionais ilegais, a Conferência da Haia
de Direito Internacional Privado criou três importantes convenções
alusivas aos direitos da criança. Dentre elas a Convenção de Haia
sobre os aspectos civis do Sequestro Internacional de Crianças, de 25
de outubro de 1980, a qual determina no seu artigo 3° que:

A transferência ou a retenção de uma criança é considerada ilícita


quando:
a) tenha havido violação a direito de guarda atribuído a pessoa ou a
instituição ou a qualquer outro organismo, individual ou
conjuntamente, pela lei do Estado onde a criança tivesse sua
residência habitual imediatamente antes de sua transferência ou da
sua retenção; e
b) esse direito estivesse sendo exercido de maneira efetiva,
individual ou em conjuntamente, no momento da transferência ou da
retenção, ou devesse está-lo sendo se tais acontecimentos não
tivessem ocorrido.

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O direito de guarda referido na alínea (a) pode resultar de uma
atribuição de pleno direito, de uma decisão judicial ou administrativa
ou de um acordo vigente segundo o direito desse Estado.

A Convenção sobre os aspectos civis do sequestro


internacional de crianças foi promulgada pelo Brasil em 14 de abril
de 2000, pelo decreto n° 3.413 e define-se como “um acordo formal
de vontades concluído entre os sujeitos de Direito Internacional
Público, regido pelo direito das gentes e destinado a produzir efeitos
jurídicos para as partes que a ela aderiram” (MAZZUOLI, 2007,
p. 139). Um tratado internacional como a Convenção citada, se trata
da fonte mais concreta do Direito Internacional nas relações
exteriores. Conforme Vendruscolo (2011, p.36), não importa se a
Convenção tem suas imperfeições, já que após a ratificação por parte
dos Estados, automaticamente os mesmos serão inseridos em um
regime internacional de localização e avaliação da situação da
criança que necessitará retornar ao Estado de residência habitual.
A residência habitual conforme definição contida na
Convenção é o país/Estado onde a criança reside com a intenção de
permanecer, ou seja, é aquele de onde a criança foi retirada e para
qual deverá ser restituída. No que diz respeito às crianças mais novas
(bebês), a residência habitual é considerada a mesma dos seus
genitores, não existindo prazos mínimos para se configurar. A
Convenção fundamenta que o local onde o infante tem um vínculo
mais influente e importante, não somente com seus genitores, mas
com ambiente escolar, linguístico, social e família estendida será
considerado como residência habitual (MRE, 2016).
De acordo com o MRE (2016), a subtração do infante por um
dos genitores ocorre geralmente quando há ruptura no
relacionamento conjugal que, frequentemente, acompanha abusos e
maus tratos sofridos por ele ou pela criança, ocorrendo com casais de
nacionalidades diferentes, o que nada impede que ocorra com casal
de brasileiros. O genitor que tenciona retirar a criança do país
habitual, normalmente, trata-se de não ser nacional do mesmo, não
possuindo raízes, vínculo financeiro para auto-sustento, sem domínio
da língua, das leis vigentes e de seus próprios direitos. Seu objetivo é
sair do país, mesmo que possua status migratório regular ou
naturalização, pois acredita que por ainda ser um estrangeiro a justiça

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local será insatisfatória e assim, correrá o risco de perder a guarda e
será impedido de retornar ao seu país de origem, restando apenas à
solução de subtrair o infante mesmo sem o consentimento do outro
genitor, ainda que seja a maneira ilegal de proceder (MRE, 2016,
p. 26). Segundo Dolinger (2005, p. 242), em alguns casos, o
fenômeno do sequestro do próprio filho pode não ser efetuado
somente por parte do pai ou pela mãe, mas também por um tutor, a
questão central é decidir a prioridade entre o cumprimento do que foi
judicialmente combinado e o interesse da criança ou adolescente.
Muitos países, como, a França, Alemanha, Estados Unidos,
adotam em sua legislação a exigência de autorização de ambos os
genitores para a emissão de passaporte e para a viagem de crianças e
adolescentes menores de 18 anos. O Brasil regula a matéria em seu
Decreto 5.978/96, no artigo 27, I, em que o pai e a mãe da criança ou
um juiz competente, precisam autorizar a emissão do passaporte,
sendo a fiscalização realizada nos postos de fronteira da Polícia
Federal. Todavia, reconhece-se que essa prática não impede a
subtração de crianças no Brasil para o exterior havendo registro de
saídas pela fronteira seca com países vizinhos. A situação mais
constante é a saída concedida, mas sem o retorno. Nem todos os
países adotam tal sistema com igual rigor e tampouco controlam a
saída em suas fronteiras. Crianças brasileiras com dupla
nacionalidade também podem ter passaporte emitido apenas com a
autorização de um dos genitores (MRE, 2016).
Até os anos de 1980, os casos de retenção ou subtração de
crianças ou adolescentes, permaneciam impunes, pois não existiam
mecanismos ágeis para que o genitor abandonado conseguisse
acessar o governo de outro país na busca de medidas legais. Até as
medidas serem tomadas passavam-se muitos anos e o infante
acabava atingindo à maioridade e o pedido de restituição perdia a
validade (MRE, 2016, p. 29). Por esse motivo, foi adotada a
Convenção já citada anteriormente, que se tornou o marco de regras
do direito internacional privado. São diferentes os procedimentos
adotados nos casos de subtração que ocorra em países signatários da
Convenção - no total, são 93 países membros, a cooperação jurídica
internacional estabelece obrigações recíprocas, destinado a proteger
o melhor interesse da criança (MRE, 2016).
Como exemplo de subtração internacional ilícita de crianças e

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de disputa sobre o direito de guarda será analisado o caso do menino
Sean Goldman, nascido no ano de 2000, filho do norte-americano
David George Goldman e da brasileira Bruna Bianchi Carneiro
Ribeiro. A criança morava com seus pais nos Estados Unidos, mas
em 2004 viajou com sua mãe para o Brasil com autorização do pai e
data de regresso previsto para 11 de julho de 2004, porém, a mãe
decidiu separar-se do marido e desistiu de retornar ao seu país de
residência, permanecendo no Brasil com o filho. Primeiramente,
David buscou a Corte Estadual de New Jersey solicitando o retorno
do filho e a sentença requerida pela Corte definiu um prazo para
Bruna e os avós maternos se apresentarem, a fim de que fossem
apontados os motivos para não ser concedida a guarda do menino ao
pai biológico. Contudo, Bruna permaneceu no Brasil e descumpriu a
ordem da Corte Estadual de New Jersey, caracterizando o sequestro
internacional de crianças nos termos da Convenção de Haia
(ARRUDA, 2011, p. 7).
Em busca de reaver a guarda do infante o pai ajuizou ação
junto à 16ª Vara Federal da Seção Judiciária do Rio de Janeiro,
concomitantemente, a mãe abriu uma ação pedindo a guarda
exclusiva da criança (VENDRUSCOLO, 2011, p. 79). A ação
ajuizada pelo pai em desfavor da mãe (busca e apreensão de menor)
foi julgada improcedente pela justiça brasileira em primeiro e
segundo graus de jurisdição, sob o argumento de que o menino se
encontrava adaptado ao novo país e que o retorno do mesmo aos
EUA, sem a companhia da mãe, poderia acarretar em grave dano
psíquico. Esses dois fundamentos apresentados pela justiça brasileira
estão presentes nos dispositivos da Convenção de Haia como
hipótese de não retorno da criança (ARRUDA, 2011, p. 8). David
recorreu ao STJ e posteriormente ao STF contra a decisão, mas não
obteve sucesso. Contudo, a ação ajuizada pela mãe para obter a
guarda do menino perante a 2° Vara de Família da comarca do Rio de
Janeiro foi deferida pelo juiz, o qual utilizou como fundamento o
princípio do melhor interesse da criança e o artigo 12 da Convenção
de Haia que aborda a exceção a regra do retorno imediato ao país nos
casos de adaptação do infante no país em que estava sendo mantida
de forma ilícita (ARRUDA, 2011).
Bruna Bianchi casou-se novamente em 2007, mas faleceu
prematuramente em agosto de 2008. David Goldman que ainda

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residia nos Estados Unidos entra numa disputa jurídica e política pela
guarda do filho com a família do “padrasto” de Sean. A Autoridade
Central dos EUA demonstrou apoio a David e enviou um pedido de
cooperação internacional ao Brasil, alegando que a manutenção da
criança no território brasileiro afronta a Convenção de Haia de 1980,
uma vez que a família do padrasto de Sean não era detentora do
direito de guarda. Sendo assim, em junho de 2009, o juiz da 16ª Vara
Federal do Rio de Janeiro determinou o retorno do infante ao seu pai
estadunidense em 48 horas (VENDRUSCOLO, 2011, p. 79).
Entretanto, no dia seguinte, um partido político alega que o
retorno da criança ao pai estrangeiro desconsidera um direito
fundamental da Constituição Federal e entra com ação de Arguição
de Descumprimento de Preceito Fundamental. A vista disso, o
ministro do Supremo Tributal Federal Marco Aurélio entregou a
limiar suspendendo o retorno do menor ao pai biológico. Como
desfecho para o caso, em dezembro de 2009, o Ministro Gilmar
Mendes deliberou a existência de pelo menos seis motivos para
cassar a liminar anteriormente concedida, determinando que a
criança fosse devolvida ao pai biológico (VENDRUSCOLO, 2011).
Apesar da relutância do padrasto e da avó materna em entregar o
menino ao pai biológico, o mesmo foi entregue ao consulado
americano no Rio de Janeiro e embarcou na companhia de David
para os Estados Unidos em 24 de dezembro de 2009, onde vive até
hoje (ARRUDA, 2011, p. 28).
Feita apresentação do caso concreto surge a primeira
indagação: o retorno de Sean para seu pai biológico foi a melhor
interpretação do direito brasileiro? O princípio do melhor interesse
da criança nesse contexto cabe ser analisado, visto que apesar da
Convenção de Haia prever o retorno imediato da criança a sua
residência habitual no seu artigo 1º, ela também prevê exceções em
que a devolução do infante não deve ser ordenada, dado as
peculiaridades do caso concreto (VENDRUSCOLO, 2011, p. 37),
hipóteses estão previstas no artigo 13° da Convenção que diz:

Sem prejuízo das disposições contidas no Artigo anterior, a


autoridade judicial ou administrativa do Estado requerido não é
obrigada a ordenar o retorno da criança se a pessoa, instituição ou
organismo que se oponha a seu retorno provar: a) que a pessoa,

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instituição ou organismo que tinha a seu cuidado a pessoa da criança
não exercia efetivamente o direito de guarda na época da
transferência ou da retenção, ou que havia consentido ou concordado
posteriormente com esta transferência ou retenção; ou b) que existe
um risco grave de a criança, no seu retorno, ficar sujeita a perigos de
ordem física ou psíquica, ou, de qualquer outro modo, ficar numa
situação intolerável.
A autoridade judicial ou administrativa pode também recusar-se a
ordenar o retorno da criança se verificar que esta se opõe a ele e que
a criança atingiu já idade e grau de maturidade tais que seja
apropriado levar em consideração as suas opiniões sobre o assunto.

De outra parte, o princípio do melhor interesse da criança é


compreendido pela Convenção Internacional dos Direitos da Criança
em seu artigo 3°:

1 - Todas as ações relativas à criança, sejam elas levadas a efeito por


instituições públicas ou privadas de assistência social, tribunais,
autoridades administrativas ou órgãos legislativos, devem considerar
primordialmente o melhor interesse da criança.
2 - Os Estados Partes comprometem-se a assegurar à criança a
proteção e o cuidado que sejam necessários ao seu bem-estar,
levando em consideração os direitos e deveres de seus pais, tutores
legais ou outras pessoas legalmente responsáveis por ela e, com essa
finalidade, tomarão todas as medidas legislativas e administrativas
adequadas.
3 - Os Estados Partes devem garantir que as instituições, as
instalações e os serviços destinados aos cuidados ou à proteção da
criança estejam em conformidade com os padrões estabelecidos
pelas autoridades competentes, especialmente no que diz respeito à
segurança e à saúde da criança, ao número e à adequação das equipes
e à existência de supervisão adequada.

A proteção relacionada ao melhor interesse da criança também


está presente em outros dispositivos, como no Estatuto da Criança e
do Adolescente adotado pelo Brasil, no qual em seu artigo 16 garante
o direito de opinião e expressão como um dos direitos de liberdade
da criança e do adolescente. A Convenção da ONU sobre os Direitos
da Criança também remete a ideia do princípio do melhor interesse
da criança ou adolescente, uma vez que no dispositivo do Artigo 12

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fica prevista a importância de ouvir a criança em assuntos que a
afetam (VENDRUSCOLO, 2011, p. 77). No caso de Sean Goldman,
psicólogos alegaram que o infante não tinha condições de expressar
sua real vontade, por esse motivo o mesmo não foi ouvido pelo
judiciário (VENDRUSCOLO, 2011, p.81).
Segunda indagação levantada por Vendruscolo (2011, p. 82)
diz respeito à competência do Brasil para decidir sobre a guarda da
criança no caso de Sean. Nesse contexto cabe analisar o artigo 16 da
Convenção de Haia que estabelece que as autoridades judiciais ou
administrativas do Estado, onde a criança foi levada ou onde esteja
retida, após terem sido informadas da transferência ou retenção ilícita
não poderão tomar decisões sobre o fundo do direito de guarda:

[...] sem que fique determinado não estarem reunidas as condições


previstas na presente Convenção para o retorno da criança ou sem
que haja transcorrido um período razoável de tempo sem que seja
apresentado pedido de aplicação da presente Convenção.
(CONVENÇÃO DE HAIA, 1980)

Observando o dispositivo acima, o Brasil, aparentemente, não


teria competência para decidir no caso de Sean desde os primórdios,
visto que a partir do momento que foi informado da retenção ilícita
do menino no seu território não poderia tomar decisões sobre a
guarda do mesmo, e pouco importaria o período de tempo que ele
estivesse sendo mantido no território brasileiro, somente o juiz do
país de residência habitual do infante, entendido como os Estados
Unidos, seria competente para tratar da disputa pela guarda de Sean
(VENDRUSCOLO, 2011, p. 82).

Considerações Finais

Portanto, após a análise do Caso Sean Goldman percebe-se


que a justiça brasileira desde o início atuou de forma equivocada,
realizando uma interpretação deturpada dos fundamentos da
Convenção de Haia. Deste modo, o Brasil afrontou o artigo 1º da
Convenção de Haia de 1980, o qual determina que as crianças
ilicitamente transferidas para qualquer Estado Contratante ou nele
retidas indevidamente devem retornar imediatamente para o Estado

86
de residência habitual, para que no mesmo possa se desenvolver o
processo de disputa de guarda da criança ou adolescente, conforme
previsto no artigo 16 da mesma Convenção. Além disso, o princípio
do melhor interesse da criança afirma a necessidade de ouvir a
criança ou adolescente em questões que as afetarão diretamente e
este não foi levado em consideração neste caso, abrindo brechas na
decisão da justiça brasileira que não possibilitou a oitiva técnica e
cuidadosa do menino. Sean passou por cinco anos de disputas (2004-
2009) judiciais sobre sua guarda, o que poderia ter acarretado danos
psíquicos para o mesmo. Situação esta que também iria contra o
princípio do melhor interesse da criança.
Conclui-se que a justiça brasileira desde o início possuía
interesse em manter a criança no seu território e mesmo com
existência de um tratado internacional que versa especificamente
sobre como atuar em casos de subtração internacional de crianças,
levou em consideração apenas o seu interesse e usou de forma
equivocada alguns fundamentos da Convenção de Haia em desfavor
a parte principal de todo o processo: a criança, que nem sequer foi
ouvida, apesar da mesma possuir este direito tanto em tratados
internacionais que abordam sobre os direitos do infante, como na
própria legislação brasileira no Estatuto da Criança e do Adolescente.

Referências

ARAUJO, Nadia de. Direito Internacional Privado: Teoria e Prática


Brasileira. 1a ed. Porto Alegre: Revolução eBook, 2016.
ARRUDA, Micaela. A Convenção de Haia sobre o Sequestro Internacional
de Crianças: Estudo de Caso do Menino Sean Goldman. Brasília: Centro
Universitário de Brasília - Faculdade de Ciências Jurídicas e Sociais, 2011.
DEL’OLMO, Florisbal de Souza, 1941 - Curso de direito internacional
privado / Florisbal de Souza Del’Olmo, Augusto Jaeger Junior. 12a ed. rev.,
atual. e ampl. Rio de Janeiro: Forense, 2017.
DOLINGER, Jacob. Direito Internacional Privado. 8a ed. Rio de Janeiro:
Renovar, 2005.
MAZZUOLI, Valerio de Oliveira. Curso de direito internacional privado. 2a
ed. São Paulo: Forense, 2017.

87
MRE. Cartilha sobre disputa de guarda e subtração internacional de
menores: Orientação para agentes multiplicadores. Ministério das Relações
Exteriores. Disponível em: <[Link] Acesso
em: 31 ago. 2019.
VENDRUSCOLO, Aline. Sequestro Internacional de Crianças e o Princípio
do Melhor Interesse da Criança. Brasília: Centro Universitário de Brasília,
2011.

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