Eu entendi. Eu entendi perfeitamente.
E pela primeira vez desde que entrei naquela empresa, vi Tomás Trindade não
como um empresário frio e calculista, mas como um homem preso a algo que nunca quis. Apenas como alguém
tentando sobreviver. E talvez, só talvez, eu soubesse exatamente como era isso. CAPÍTULO 5 A parceria com a TechHaus
não estava fechada, mas o interesse demonstrado na última reunião tinha colocado a Trindade Engenharia em um novo
patamar de esperança. O ambiente ainda era tenso, a empresa ainda estava em risco, mas a atmosfera de desespero
deu lugar a uma tensão produtiva. Mas, como era de se esperar, não demorou para que novos problemas surgissem.
Naquela manhã, eu me mantinha focada na organização das próximas reuniões e na estruturação de um novo
planejamento estratégico para as equipes, quando Tomás apareceu ao lado da minha mesa. — Venha comigo. 37 Como
de costume, nenhuma explicação. Apenas a ordem. Guardei minhas anotações e o segui até a sala de reuniões, onde
dois novos rostos estavam sentados confortavelmente. O primeiro era um homem elegante, mas com uma postura mais
relaxada do que deveria ter. Seu terno era impecável, mas ele o usava como quem está habituado a ser notado e
aplaudido. Ele transmitia aquele tipo de confiança que não vem apenas da competência, mas da certeza de que
ninguém ousaria desafiá-lo. A segunda figura era uma mulher. Alta, magra, e vestida com um refinamento calculado. Os
cabelos estavam presos em um coque sofisticado, e o batom vermelho profundo contrastava perfeitamente com a
expressão fria e segura. Havia algo de perigosamente sutil nela, como se cada palavra que saísse de sua boca fosse
estrategicamente pensada. Tomás fechou a porta e foi direto ao ponto. — Ana, este é Miguel Norten, CEO da Norten
Engenharia. E essa é Cecília Norten, sua irmã. Meu cérebro precisou de alguns segundos para processar o que estava
acontecendo. 38 Norten Engenharia. O nome não era estranho para mim. Mas o que me pegou de surpresa foi o jeito
que Tomás e Miguel se olharam. Não havia tensão. Não havia desconfiança. Havia... história. E foi aí que eu percebi.
Miguel não era apenas um CEO concorrente. Ele era amigo de Tomás. E isso tornava tudo muito mais complicado.
Miguel foi o primeiro a falar. — Então essa é a nova secretária? A outra, já dispensou? Seu tom era divertido, quase
brincalhão. 39 Ele se levantou e estendeu a mão para mim. Seu aperto era firme, mas diferente do de Tomás. Enquanto
Tomás transmitia domínio e frieza, Miguel parecia descontraído e carismático. — Ouvi dizer que você salvou a última
reunião. Impressionante. Não respondi imediatamente. Ainda estava tentando entender a dinâmica entre os dois. —
Faço o que posso. — Disse, mantendo a neutralidade. Miguel sorriu. — Isso já é um bom sinal. Trabalhar com o Tom não
é fácil. Ele sempre foi... bem, você já deve saber. Definitivamente havia um histórico ali. Tomás não reagiu à provocação,
o que, por si só, já era uma resposta. Então, Cecília falou. — Sinceramente, Tom, estou surpresa que você tenha
contratado alguém que realmente faça alguma diferença. A voz dela era precisa, levemente carregada de ironia. 40
Tomás a olhou de forma breve, mas não respondeu. E aquilo dizia muito mais do que qualquer resposta poderia dizer. A
conversa não se arrastou por muito tempo. Miguel não estava ali apenas para jogar conversa fora. — Você sabe que
essa parceria faz sentido. — Ele disse, direto. — A TechHaus ainda não confirmou nada. Enquanto isso, podemos
fortalecer nossas bases juntos. Cecília cruzou as pernas lentamente, sua postura indicando que já esperava resistência.
— Se há alguém que pode salvar sua empresa, Tom, somos nós. Meu instinto me dizia que Miguel falava de negócios.
Mas Cecília... Cecília falava de algo mais. Tomás se inclinou para frente. 41 — Eu não estou desesperado. O sorriso de
Cecília se alargou. — Ainda não. O silêncio entre os três foi denso. Não houve um acordo. Mas também não houve uma
recusa. E quando Miguel e Cecília saíram, ficou claro que a proposta estava no ar. Mas o que realmente me incomodou
foi algo sutil. O jeito que Cecília olhava para Tomás. Aquilo não era apenas interesse comercial. A reunião mal havia
terminado e Tomás já estava de volta ao trabalho, como se o encontro com Miguel e Cecília fosse apenas mais uma
distração temporária. Mas, de repente, ele parou. 42 Pegou o celular, leu uma mensagem e franziu levemente a testa.
Então, sem levantar os olhos, simplesmente disse: — Você vai buscar Matheus na escola. Demorei um segundo inteiro
para processar. — O quê? Ele finalmente olhou para mim. — A pessoa que iria buscar não pode mais. Eu não posso sair.
Você está disponível. Então vá. — Mas eu nunca nem vi seu filho. — Ótimo. Agora vai ver. Simples assim. E foi assim
que, antes que eu pudesse discutir, eu estava a caminho da escola de Matheus Trindade. 43 Se havia uma certeza que
eu tinha antes de conhecê-lo, era a de que Matheus se pareceria com o pai. Mas eu não estava preparada para o
quanto. Ele tinha o mesmo olhar cinza intenso, o mesmo jeito de cruzar os braços ao me analisar como se eu fosse um
problema a ser resolvido. — Quem é você? A pergunta foi direta. — Ana. Trabalho com seu pai. Hoje eu vim te buscar.
Ele não se moveu. Apenas continuou me observando. — Você sabe onde fica minha casa? — Sim. — Tem certeza? —
Absoluta. Ele finalmente pegou sua mochila e veio comigo. Sem protestar. Sem hesitação. 44 Apenas aceitando a
situação como se estivesse calculando os riscos. Tão parecido com Tomás. O caminho foi silencioso. Matheus não
parecia o tipo de criança que falava à toa. Então eu esperei. E, eventualmente, ele quebrou o silêncio. — O que você faz
com o meu pai? — Organizo reuniões, resolvo problemas e tento garantir que ele não seja insuportável o tempo todo.
Ele soltou um riso curto. — Ele é sempre insuportável. Sorri. — Pelo menos concordamos nisso. Depois disso, ele
relaxou. 45 E, antes de sair do carro, olhou para mim. — Você vai estar lá amanhã? No escritório? — Sim. Ele apenas
assentiu. — Então tá bom. E entrou em casa sem olhar para trás. Mas algo naquela frase... me atingiu de um jeito que
eu não esperava. Porque, de alguma forma, eu sabia que minha presença ali começava a significar algo. Talvez mais do
que eu deveria permitir.