Eu tinha certeza absoluta de que seria demitida.
Aliás, se alguém me perguntasse, eu diria que Tomás Trindade não só ia
me demitir, como ainda ia fazer questão de me escoltar até a porta pessoalmente. Mas ele não fez isso. Em vez disso,
ele pegou um papel de dentro da pasta, deslizou sobre a mesa e cruzou os braços, me encarando com aquele olhar
cinza afiado e irritante. Eu sabia o que era antes mesmo de pegar. O valor da lavanderia. 12 — Três mil, duzentos e
cinquenta reais. — Ele anunciou, casualmente, como se estivesse comentando sobre o tempo. — O equivalente a um
salário seu. — Você está brincando comigo. Ele ergueu uma sobrancelha. — Você me vê rindo? A resposta era não. Ele
não ria. Nem um canto de lábio levantado. Só aquele olhar de pura análise, como se estivesse calculando minha reação.
— Então é isso? — Cruzei os braços, desafiando ele no mesmo tom seco. — Você vai me fazer pagar um salário inteiro
por um erro honesto? Ele pegou o cartão de visita que eu tinha dado a ele no dia do café e, sem pressa alguma,
amassou e jogou no lixo. — Não preciso do seu dinheiro. Eu travei. — Então por que me fez olhar para esse papel? 13
Ele sorriu de lado. O primeiro sorriso que eu via nele, e, claro, era um sorriso debochado. — Para que você entendesse
que eu poderia demitir você agora mesmo. Minha respiração falhou por um segundo. Ele se inclinou na cadeira, girando
a caneta entre os dedos. — Mas não vou fazer isso. Ainda. — "Ainda"? — Eu separo muito bem o profissional do
pessoal, senhorita Motta. — Ele disse, num tom casual, mas carregado de intenção. — Pessoalmente, eu gostaria muito
de nunca mais olhar para sua cara. Profissionalmente… eu preciso de uma secretária. Houve um instante de silêncio
entre nós. E então ele pegou o papel com o valor da lavanderia, amassou e jogou no lixo, bem ao lado do meu cartão de
visita. — Então, pode ir. E, por favor, tente não destruir nada no caminho. 14 Ele voltou a olhar para a tela do
computador, me dispensando como se eu não existisse mais. Eu só pisquei, ainda absorvendo a humilhação, e saí da
sala sem dignidade nenhuma. Senhora Bete estava esperando por mim do lado de fora, parecendo se divertir horrores
com a cena. — Ah, então ele decidiu não te jogar para fora da janela. Já é um avanço. Eu soltei um suspiro longo,
passando as mãos no rosto. — Pior. Ele me manteve. Ela rindo não ajudava em nada. — Então, parabéns. Você
sobreviveu ao primeiro round. Joguei meu corpo contra a cadeira vazia ao lado dela. — Eu não entendo. Eu sou
estagiária de Administração. Por que estou aqui? — Porque você é a nova secretária dele. Eu congelei. 15 — O quê?
Não, não. Isso deve ser algum erro. Eu deveria estar na parte estratégica, aprendendo sobre planejamento de negócios,
gerência… — E você vai aprender tudo isso. — Ela disse, com um sorriso que eu não gostei nem um pouco. — De um
jeito bem mais prático do que imaginava. — Bete. — Usei meu tom mais sério. — Eu deveria estar em outro setor. Ela
me olhou nos olhos, e foi nesse momento que percebi que toda a brincadeira sumiu do rosto dela. — Ana, escuta uma
coisa. — Sua voz ficou mais baixa. Mais real. — Você tem duas opções: aceita esse emprego e usa isso para o seu
currículo, ou sai agora e tenta a sorte em outra empresa. Mas vou ser honesta com você: está difícil para todo mundo.
Esse salário pode te ajudar. Apertei os lábios. Porque ela tinha razão. Esse dinheiro faria diferença em casa. Eu não tinha
outra oferta na manga. Minha visão idealista de como esse estágio seria desmoronou em tempo recorde. 16 A vida não
funcionava do jeito que eu tinha planejado. Suspirei, derrotada. — Onde fica minha mesa? Ela sorriu, vitoriosa, e
apontou para uma estação de trabalho bem em frente à sala de Tom. Ótimo. Maravilhoso. Enquanto organizava alguns
arquivos, eu percebi que Bete me olhava de um jeito que indicava que ainda não tinha acabado de me torturar com
informações. — Você quer saber o que aconteceu com as outras secretárias? Parei o que estava fazendo e cruzei os
braços. — Quantas foram antes de mim? — Cinco. 17 — Cinco?! Ela assentiu, como se isso fosse completamente
normal. — Nenhuma delas durou mais do que três meses. Meu estômago afundou. — Por quê? — Porque nenhuma
delas conseguia acompanhar o ritmo dele. Franzi a testa. — Ele não é só exigente? Ela soltou uma risada curta. — Ele é
insuportável. — Ótimo. Agora estou empolgadíssima para continuar aqui. Ela riu de novo e pegou alguns papéis, me
entregando. 18 — Se quiser sobreviver, comece por isso. Analise e organize todos os eventos, reuniões e compromissos
dele. Tom não repete ordens, e ele detesta bagunça. — E se eu errar? — Melhor não errar. Ótimo. Agora, além de estar
presa nesse emprego, eu tinha que ser perfeita nele. Eu nunca pensei que trabalhar sentada pudesse ser tão exaustivo.
Mas quando o relógio marcou seis da tarde, eu estava mentalmente esgotada. Revisar contratos, marcar reuniões,
entender o ritmo insano de um chefe que não parava um segundo… aquilo me sugou toda a energia. Ao sair do prédio,
sentindo meus olhos arderem de cansaço, eu percebi que aquele não era o estágio que eu tinha sonhado. Mas era o que
eu tinha. Era o que eu precisava. 19 A vida não funciona da maneira como a gente quer. Às vezes, a gente entra para
aprender gerência e acaba servindo café para um chefe insuportável. Suspirei, olhando para o céu já escurecendo.
Amanhã seria outro dia. E eu precisava estar pronta para sobreviver a ele