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Noah e Liza se conectam através de mensagens e chamadas de vídeo, compartilhando suas paixões por literatura e suas vulnerabilidades emocionais. Após semanas de conversas íntimas, eles decidem se encontrar pessoalmente, criando expectativas e medos sobre como será o encontro. Quando finalmente se encontram na rodoviária, a conexão se torna palpável em um abraço que simboliza a realização de suas promessas e sentimentos.

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Noah e Liza se conectam através de mensagens e chamadas de vídeo, compartilhando suas paixões por literatura e suas vulnerabilidades emocionais. Após semanas de conversas íntimas, eles decidem se encontrar pessoalmente, criando expectativas e medos sobre como será o encontro. Quando finalmente se encontram na rodoviária, a conexão se torna palpável em um abraço que simboliza a realização de suas promessas e sentimentos.

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Capítulo 1

Solicitação
de Amizade
Era só mais uma noite qualquer para Noah. Fones no ouvido, uma
playlist melancólica rolando no fundo enquanto ele rolava o feed da
rede social sem realmente prestar atenção. Entre fotos de viagens,
frases prontas e stories com filtros, ele parou num comentário.

Uma garota tinha respondido a um post sobre livros com uma frase de
"O Morro dos Ventos Uivantes". Era o tipo de coisa que chamava a
atenção dele — não pelo clássico, mas pela sensibilidade por trás da
escolha.

@lizasnt: "Se tudo o resto perecesse e ele ficasse, eu continuaria a


existir."

Ele clicou no perfil.

Foto de perfil com o sol batendo no rosto. Bio simples: “Entre livros e
cafés frios”. Alguns posts de paisagens, um vídeo cantando baixinho
no quarto, legendas cheias de sentimento. Era de outro estado, um
lugar que ele conhecia só de ouvir falar — longe o suficiente pra não
ser vizinha, perto o bastante pra não ser impossível.

Sem pensar muito, ele mandou uma mensagem:


noahjr:

Ok… essa frase me acertou como um soco. Favor me dizer que você
também sofre com romances trágicos.

A resposta veio rápido.

lizasnt:

Só se você me prometer que não vai me recomendar “A Culpa é das


Estrelas” como um exemplo de sofrimento real.

Ele sorriu. E ali, entre duas frases e um toque na tela, alguma coisa
dentro dele mudou.

Ainda no chat, naquela mesma noite...

noahjr:

Prometo. “A Culpa é das Estrelas” me fez chorar, mas não o suficiente


pra me mudar. Agora, “Os sofrimentos do jovem Werther”? Aquilo
me destruiu.

lizasnt:

Ponto pra você. Pouca gente lê esse livro hoje em dia. Você tem cara de
quem escuta músicas tristes só pra combinar com o clima do quarto.
noahjr:

Talvez eu tenha uma playlist chamada “nublado por dentro”.

lizasnt:

rindo muito agora

Ok, você é oficialmente intrigante. O que você faz além de colecionar


tragédias literárias?

noahjr:

Estudo engenharia (irônico, né? Construo coisas no papel enquanto


minha vida emocional é um prédio em ruínas). E você?

lizasnt:

Estudo psicologia. Talvez eu esteja tentando entender por que me


atraio por pessoas que vivem como personagens de um livro russo.

noahjr:

Touché.

Houve uma pequena pausa. Noah viu o “digitando...” aparecer e


desaparecer algumas vezes. Como se ela estivesse pensando no que
dizer — ou se deveria dizer algo.
lizasnt:

É meio estranho, né? A gente mal se conhece, mas parece que... já se


entendeu em algum lugar entre as palavras.

Ele leu a mensagem três vezes antes de responder.

noahjr:

Talvez algumas pessoas não precisem de muito tempo. Só precisam se


encontrar na hora certa.

Alguns dias depois...

Já eram quase duas da manhã quando Noah escreveu:

noahjr:

Tô aqui pensando… será que a sua voz combina com o jeito que você
escreve?

lizasnt:

Você quer descobrir agora?


Ele não esperava aquilo. O coração acelerou. Olhou para o reflexo na
tela, ajeitou o cabelo, desligou a música. Digitou e apagou duas vezes.

noahjr:

Quero.

A notificação de chamada apareceu segundos depois. O coração batia


rápido, como se estivesse prestes a encontrar alguém que ele já
conhecia — mesmo sem nunca ter ouvido a voz dela.

Ele atendeu.

A imagem demorou um segundo para carregar. Então, lá estava ela.


Luz baixa no quarto, os olhos cansados mas atentos, um sorriso
pequeno e nervoso no canto da boca.

— Oi... — disse Liza, baixinho.

— Oi — respondeu Noah, sorrindo também. — Você soa exatamente


como eu imaginei.

Ela riu, tímida.


— Espero que isso seja bom.

— É. É tipo... ouvir uma música pela primeira vez e já saber que vai
entrar na sua playlist favorita.

Por alguns segundos, ficaram em silêncio. Mas não era um silêncio


estranho. Era um espaço confortável entre dois desconhecidos que
estavam, aos poucos, se reconhecendo.

— Você é diferente — ela disse, olhando pra câmera como se olhasse


direto pra ele.

— E você é exatamente o tipo de diferente que faz falta.

A madrugada seguiu, e com ela, sorrisos, histórias, revelações e aquele


sentimento sutil: a distância era real, mas a conexão também.

Algumas semanas depois...

As chamadas já eram parte da rotina. Pela manhã, uma mensagem de


bom dia. À noite, uma ligação com risadas, desabafos e até silêncios
compartilhados.
Certa noite, enquanto Noah observava a câmera, Liza apareceu com o
rosto coberto por um livro.

— Adivinha o título pela lombada — ela desafiou, a voz abafada.

— Fácil. “A Insustentável Leveza do Ser”. Aquele seu favorito, né?

— Ok, ponto pra você... Mas agora quero ver se acerta essa — disse
ela, trocando por outro.

— Hmm... Pela cor e o tamanho... “Cartas a um jovem poeta”.

Ela tirou o livro e sorriu.

— Impressionante, senhor engenheiro romântico.

Noah deitou de lado, com o rosto apoiado na mão.

— Eu presto atenção. Em tudo. Principalmente em você.

Liza desviou o olhar por um segundo, tentando disfarçar o sorriso.


— Você me assusta, sabia?

— Por quê?

— Porque é fácil demais me acostumar com você. Mesmo assim, você


mora a centenas de quilômetros de distância.

Noah ficou em silêncio por um momento.

— A gente vai encontrar um jeito. Sempre tem um jeito quando vale a


pena.

Ela assentiu, os olhos marejando levemente.

— Me promete uma coisa?

— O que quiser.

— Que mesmo longe... você não vai sumir.

Ele encarou a tela com firmeza, como se pudesse atravessá-la.


— Eu não sou do tipo que some, Liza. Eu sou do tipo que fica. Até
quando não dá.

Chamada de vídeo – 01h17 da madrugada

A câmera de Noah mostrava apenas o teto. Do outro lado, Liza


deitada, olhos fixos na tela, voz embargada pelo sono.

— Posso te perguntar uma coisa? — ela murmurou.

— Claro.

— Por que você fala tão bonito, mas parece tão triste às vezes?

Houve uma pausa. O tipo de pausa que vem antes da verdade.

Noah suspirou.

— Porque eu aprendi cedo que nem tudo que a gente ama fica. E
mesmo quando fica... às vezes muda. Sabe?

Liza não respondeu de imediato, só virou o rosto pro travesseiro,


ainda encarando a tela.
— Eu também já perdi gente demais... Mas nunca disse isso pra
ninguém com tanta facilidade quanto tô dizendo pra você agora.

— Às vezes a distância cria coragem — ele respondeu, num sussurro.


— A gente se sente seguro por trás da tela. Como se as palavras não
fossem tão pesadas.

— Mas elas são.

— São.

Ela hesitou antes de continuar.

— Eu sempre fui aquela pessoa que cuida dos outros. Que ouve, que
consola. Mas às vezes, tudo o que eu queria era que alguém cuidasse
de mim.

A tela ficou em silêncio. Então Noah levantou o rosto, os olhos escuros


e firmes.

— Eu quero cuidar de você, Liza. Mesmo que seja daqui. Mesmo que
seja só com palavras.
Ela sorriu, com lágrimas nos olhos.

— Você já tá fazendo isso. Mesmo sem saber.

E naquela madrugada, sem toque, sem presença física, eles dividiram


um tipo raro de intimidade: aquela que nasce da verdade crua, dita
sem medo, entre duas almas que, mesmo longe, já se reconheciam
como abrigo.

Ainda na mesma chamada, minutos depois...

Liza esfrega os olhos, tentando disfarçar o cansaço.

— Eu nunca contei pra ninguém, mas... às vezes eu tenho medo de ser


só mais uma passagem na vida das pessoas. Um ponto de travessia,
sabe? Alguém que ajuda, mas que ninguém escolhe ficar.

Noah apertou os lábios, sentindo a frase como um soco.

— Você não é uma travessia, Liza. Você é destino.

Ela sorriu com tristeza.


— Palavras bonitas, Noah... mas será que alguém um dia vai
realmente acreditar nisso?

Ele se aproximou mais da câmera, como se o olhar pudesse atravessar


a distância.

— Eu acredito. Desde o dia que você me mandou aquele “rindo muito


agora”. Desde antes de te ver pela primeira vez. E quer saber de outra
coisa?

— O quê?

— Eu tenho medo também.

Ela se ajeitou na cama, atenta.

— Medo de quê?

— De ser insuficiente. De me entregar demais e, mesmo assim, não ser


o bastante. Já aconteceu antes.

— Isso doeu? — ela perguntou, baixinho.


— Ainda dói. Mas com você... é diferente. Eu não sinto que preciso
provar nada. Só ser. E isso assusta. Porque quando a gente encontra
alguém assim... a gente começa a sonhar. E sonhar é sempre perigoso.

Ela assentiu, os olhos marejados mais uma vez.

— Mas também é a coisa mais bonita que existe.

Noah sorriu.

— E eu tô disposto a correr o risco.

Silêncio.

Até que ela sussurrou:

— Então vamos sonhar juntos. Mesmo de longe.

E naquela madrugada, o amor ainda era só promessa. Mas uma


promessa tão real quanto qualquer toque. Porque às vezes, duas almas
se encontram primeiro no invisível — e constroem ali o que ninguém
mais vê.
Nos dias que seguiram…

As mensagens continuaram, mas algo nelas tinha mudado. Agora não


era mais só sobre o que estavam fazendo, mas sobre como estavam se
sentindo.

lizasnt:

Sonhei com você. A gente tava num café e você tentava desenhar meu
rosto num guardanapo. Ficou horrível, mas era bonito de ver você
tentando.

noahjr:

Prometo desenhar melhor quando for de verdade. Mas se quiser,


posso praticar nas chamadas. Topa ser minha musa hoje à noite?

As chamadas também mudaram. Agora, em vez de só conversar, eles


liam um para o outro. Ela lia trechos de Clarice, ele respondia com
letras de músicas que lembravam o jeito dela de sorrir.

Certa noite, ele mandou uma mensagem mais cedo:

noahjr:

Vou pegar um ônibus amanhã. Só pra ver o mar. Sozinho. Mas queria
que fosse com você.
lizasnt:

Me liga quando chegar. Quero ver o mar pelos seus olhos.

E ele ligou. Com o vento batendo no rosto, o mar ao fundo, e Liza do


outro lado da tela.

— Parece mais bonito porque você tá aqui — ele disse.

— Ou talvez eu esteja aqui porque você sabe enxergar o que é bonito


— ela respondeu.

A cada dia, o “e se” ganhava mais força.

E se eles pudessem se ver de verdade?

E se aquele sentimento fosse mesmo recíproco, concreto, possível?

Foi numa dessas madrugadas que ela disse, quase sem querer:

— Eu quero te encontrar, Noah. Quero ouvir sua risada sem fone.


Quero ver você tentando disfarçar quando fica nervoso. Quero... saber
se o que a gente sente resiste ao toque.
Ele não hesitou.

— Me diz o dia. Eu compro a passagem.

Duas semanas antes do encontro

Os dois tinham combinado: ela o visitaria primeiro. Um fim de


semana. Dois dias, um abraço, e todas as promessas colocadas à prova.

lizasnt:

Comprei a passagem. Sexta, 8h da manhã. Tô tremendo.

noahjr:

Eu li essa mensagem umas dez vezes e ainda tô sem saber se sorrio ou


choro. Acho que vou arrumar o quarto.

lizasnt:

Arruma, mas deixa um espaço vazio. Quero me jogar no seu chão e


dizer: “cheguei”.

A semana seguiu como uma contagem regressiva disfarçada de rotina.


Ele limpou a casa como nunca. Tirou pôsteres velhos da parede, trocou
os lençóis por algo que parecesse mais “adulto”. Treinou receitas
simples, mas simbólicas.

Ela comprou um vestido leve, “por se fizesse calor ou por se desse


vontade de dançar”. Levou um livro pra entregar em mãos — aquele
que ele sempre dizia querer ler, mas nunca comprava.

Ambos disfarçavam o nervosismo com brincadeiras:

noahjr:

E se você não gostar da minha voz ao vivo?

lizasnt:

E se eu me apaixonar mais ainda e tiver que voltar escondendo um


coração inteiro que não cabe na mala?

Mas nem tudo era leveza. Havia medos, sussurrados no escuro:

noahjr:

E se a gente não for tão bom no real quanto é no digital?

lizasnt:

E se for melhor?
Na noite anterior à viagem, eles não dormiram.

Ficaram horas na chamada, com a câmera ligada e o coração exposto.


Planejaram a roupa do primeiro dia, o abraço que duraria “pelo menos
uns trinta segundos”, o silêncio que viria depois.

E quando a madrugada virou manhã, Liza olhou pela janela do ônibus


e sussurrou:

— Tô chegando, Noah.

Ele, parado na rodoviária, respondeu com os olhos cheios d’água:

— E eu tô aqui. Esperando.

Capítulo 2
Primeiros passos, olhos
nos olhos
O relógio da rodoviária marcava 07:46. Noah já estava lá desde as 7:00.
Mãos no bolso, coração disparado, olhos fixos na porta de
desembarque como quem espera por um milagre.

As pessoas desciam aos poucos, com malas, olhares cansados, pressa


no corpo. Mas ele procurava outra coisa: um olhar que ele já conhecia
mesmo sem nunca ter tocado.

E então, ela apareceu.

Liza.

Vestido claro, mochila pequena nas costas, o cabelo preso de um jeito


despretensioso. Os olhos dela procuraram por um instante e o
encontraram. E tudo ficou em silêncio.

Ela sorriu. E ele sorriu de volta.

Caminharam um em direção ao outro sem dizer uma palavra. Quando


finalmente ficaram frente a frente, por um segundo, só se olharam.
Como se confirmassem que sim — era real.
Então ela abriu os braços e sussurrou:

— Pode me abraçar agora?

Ele não respondeu. Só a envolveu num abraço longo, firme, cheio de


tudo o que não coube nas chamadas.

O mundo ao redor continuou: gente apressada, ônibus chegando e


partindo, barulho de rodoviária. Mas ali, naquele abraço, só existiam
os dois.

Depois de alguns segundos, ele murmurou:

— Você tem cheiro de livro novo e café quente.

Ela riu contra o peito dele.

— E você tem cheiro de lar.

O caminho até a casa de Noah foi silencioso, mas não desconfortável.


As mãos quase se encostando, os olhares trocados em sorrisos
contidos.
Quando chegaram, ele abriu a porta com certa solenidade.

— Bem-vinda ao meu mundo — disse, meio rindo, meio nervoso.

Ela entrou devagar, como quem pisa num sonho. Olhou em volta,
observando os detalhes: os livros empilhados no canto, a caneca com
pincéis na escrivaninha, o violão encostado na parede.

— Parece você — disse, girando no centro do quarto. — Meio


bagunçado, meio bonito. Totalmente verdadeiro.

Ele se sentou na beira da cama, observando-a com olhos cheios.

— Nunca achei que fosse te ver aqui. Em carne, osso… e vestido


florido.

Ela se aproximou devagar, sentando ao lado dele.

— E agora que eu tô aqui?

Ele virou o rosto devagar, o olhar firme.

— Agora eu preciso reaprender a respirar com você por perto.


O dia passou entre sorrisos tímidos, mãos que se procuravam,
pequenas descobertas — como o fato de ela colocar duas gotinhas de
limão no café e ele achar aquilo um crime contra a humanidade. Ou
como ela ria com a cabeça toda jogada pra trás, e ele achava aquilo a
coisa mais linda que já tinha visto.

Assistiram um filme sem prestar muita atenção. Fizeram pipoca e


esqueceram no micro-ondas. Caminharam até a praça da esquina,
onde ele sempre sentava pra pensar. Agora, pensava com ela do lado.

Ao cair da noite, estavam sentados no chão do quarto dele, com as


costas apoiadas na cama, as pernas esticadas, os dedos entrelaçados.

— Sabe quando você lê um livro tão bom que não quer que ele acabe?
— ela perguntou.

— Sei.

— É assim que eu me sinto hoje.

Ele apertou a mão dela.

— Então vamos ler devagar. Página por página. Sem pular nada.
Ela encostou a cabeça no ombro dele. E ali ficaram, num silêncio que
só quem ama entende — cheio de tudo.

Ainda no primeiro dia — Fim de tarde, quarto de Noah

A luz alaranjada do entardecer entrava pela janela, espalhando


sombras suaves pelo quarto. Eles estavam sentados no chão, com um
vinil antigo tocando baixinho ao fundo — Nina Simone cantando
como se soubesse exatamente o que estava prestes a acontecer.

Liza mexia distraidamente num chaveiro que tirou da mochila,


enquanto Noah a observava em silêncio. Ele sabia que o momento
estava perto. Sentia nos dedos, no estômago, no jeito como ela
respirava diferente.

— Você tá quieto — ela comentou, sem encará-lo.

— Tô tentando lembrar o que eu fazia com o tempo antes de te


conhecer.

Ela sorriu, olhando enfim nos olhos dele.

— E o que você fazia?


— Esperava por agora, eu acho.

O silêncio se instalou, denso e suave. Ela virou o corpo devagar,


ficando de frente pra ele. Os olhos dela passeavam pelos traços do
rosto dele como se desenhassem memórias futuras.

— Noah...

— Hm?

— Você vai me beijar?

Ele não respondeu com palavras. Apenas aproximou-se, devagar,


como quem aprende a ler um idioma novo com os olhos fechados. Os
narizes quase se tocaram. As respirações se misturaram. E então —
sem pressa, sem dúvidas — os lábios se encontraram.

O mundo ficou em pausa.

Era um beijo calmo, delicado, cheio de tudo o que foi dito sem
palavras nas últimas semanas. Um beijo com cheiro de fim de tarde,
gosto de promessa.
Quando se afastaram, ainda com os olhos fechados, ela sussurrou:

— Isso foi... exatamente como eu imaginei. Talvez até mais bonito.

Ele sorriu, encostando a testa na dela.

—Se eu soubesse que você beijava assim, tinha comprado sua


passagem antes.

Ela riu baixinho. E naquele riso, naquele toque, naquele início de


noite... eles souberam: o amor, agora, era real.

Ainda na noite — Quarto de Noah

Ficaram assim por alguns segundos, olhos fechados, testas encostadas,


respirando o mesmo ar como quem tenta guardar um instante dentro
do peito. Do lado de fora, o céu começava a escurecer devagar, como
se respeitasse o tempo dos dois.

Noah abriu os olhos primeiro, apenas para vê-la de perto. Os cílios


dela tremiam levemente, como se o mundo dentro dela também
estivesse tentando entender o que acabara de acontecer. Ele passou a
ponta dos dedos pela bochecha dela, depois pelo contorno da
mandíbula, como quem descobre uma forma sagrada.
Ela o olhou de novo — dessa vez com a alma inteira. Não havia mais
dúvida, nem receio. Só a entrega silenciosa de quem reconhece no
outro uma casa.

— Vem cá — ela disse baixinho, puxando-o pela camiseta.

O beijo recomeçou, agora com mais calor, mais urgência, mas ainda
assim com delicadeza. Os corpos foram se aproximando com a mesma
lentidão com que as estrelas apareciam no céu — uma por uma, sem
pressa.

As mãos se encontraram, exploraram. As respirações aceleraram.


Noah tirou o casaco dela com cuidado, como se desfizesse o laço de
um presente precioso. Liza levou as mãos à nuca dele, puxando-o mais
perto, querendo sentir tudo, sem filtro, sem medida.

Eles se deitaram no colchão espalhado no chão, entre vinis antigos e


cobertores desalinhados. A música ainda tocava ao fundo, agora quase
imperceptível. Nina Simone cantava sobre amor, e eles faziam do amor
uma linguagem muda.

Naquela noite, entre toques, risos contidos e olhares que diziam mais
que palavras, Noah e Liza se descobriram. Não como quem desvenda
um segredo, mas como quem reconhece algo que sempre esteve ali —
esperando o momento certo.
E quando, enfim, adormeceram entrelaçados, a madrugada os cobriu
com o silêncio cúmplice de quem sabe guardar memórias. E o amor,
esse sim, já era — inteiro.

Manhã seguinte — Quarto de Noah

O sol entrou tímido pela fresta da cortina, dourando o quarto com


uma luz suave, quase etérea. O mundo lá fora despertava aos poucos,
mas ali dentro, o tempo ainda parecia suspenso — como se o dia
hesitasse em começar para não interrompê-los.

Liza foi a primeira a abrir os olhos. Demorou um momento para


lembrar onde estava, mas quando sentiu o braço de Noah em volta da
cintura e o calor do corpo dele encostado ao seu, sorriu. O cheiro dele
estava por toda parte: nos lençóis, na camiseta amassada no canto do
quarto, no próprio ar.

Ela se virou devagar, tentando não acordá-lo. Observou seu rosto


sereno, os cílios longos, a boca entreaberta. E pensou, com um aperto
doce no peito, que poderia ficar anos ali, apenas olhando.

Mas ele sentiu o movimento, ou talvez o silêncio dela fosse barulhento


demais.
— Tá me olhando assim por quê? — ele murmurou, sem abrir os
olhos.

— Porque você fica bonito dormindo. Quase parece tranquilo.

Ele riu baixinho, os olhos ainda fechados.

— E você... — ele abriu os olhos devagar — você fica ainda mais real
de manhã.

Ela acariciou o rosto dele com a ponta dos dedos, como se quisesse
confirmar que era verdade.

— Dormiu bem?

— Dormi com você. Não tem como ser ruim.

Ficaram em silêncio por um tempo, apenas sentindo a presença um do


outro. Depois, Liza se esticou e pegou a camiseta dele do chão,
vestindo como se fosse uma armadura suave. Noah a observava com
aquele mesmo olhar da noite anterior — de quem entende que certas
coisas são únicas, sagradas.

— Café? — ela perguntou.


— Só se for com beijo antes.

Ela se aproximou e o beijou com a leveza de quem ainda está entre


sonho e vigília. E quando se afastou, sussurrou:

— Então vem. O dia começou, mas ainda dá tempo da gente fingir que
o mundo lá fora não existe.

E ele foi. Porque com ela, cada minuto era um lugar onde o tempo se
tornava morada.

Manhã seguinte — Cozinha de Noah

A cozinha tinha cheiro de pão na torradeira, café recém-passado e algo


indefinível — talvez fosse o cheiro de início, de coisa boa que ainda
nem tem nome.

Liza estava em pé diante da bancada, mexendo o café com uma colher


pequena, usando ainda a camiseta de Noah, que caía larga nos
ombros. As pernas nuas, os cabelos bagunçados, o olhar concentrado
— ela parecia pertencer àquela casa como se sempre tivesse vivido ali.
Noah apareceu na porta, encostado no batente, com os olhos
semicerrados de sono e um sorriso preguiçoso.

— Tem algo mais bonito do que você na minha cozinha?

Ela virou o rosto, sorrindo por cima do ombro.

— Tem. Eu fazendo café pra você.

— Acho que acabei de me apaixonar de novo.

Ele se aproximou e a abraçou por trás, descansando o queixo no


ombro dela. Ficaram assim por um instante, embalados pelo som leve
da chaleira chiando e do rádio tocando uma música antiga, meio
chiada, como se viesse de outro tempo.

Sentaram-se à mesa improvisada, entre canecas desiguais, geleia, fatias


de pão e risos fáceis. Ele passou manteiga no pão dela. Ela colocou
mais açúcar no café dele, mesmo ele dizendo que já estava bom assim.

— Você é do tipo que come em silêncio ou fala sobre sonhos e planos?


— ela perguntou, mordendo uma torrada.
— Depende. Com você, acho que sou do tipo que quer que o café
nunca acabe.

Ela olhou pra ele com aquele meio sorriso que ele já sabia de cor.
Depois baixou os olhos, brincando com a colher na borda da caneca.

— Tô tentando não pensar que faltam só dois dias.

Noah assentiu, devagar.

— A gente promete não pensar nisso até o último minuto?

— A gente promete tudo, né?

— Sempre.

E naquele café da manhã simples, entre palavras que escapavam e


outras que ficavam quietas, eles entenderam que o amor também mora
nas manhãs. E que às vezes, o mais bonito da saudade é o que ela
revela antes mesmo de chegar.

Último dia — Rodoviária


O céu estava nublado, como se o tempo também sentisse a despedida.
As nuvens se acumulavam devagar, sem pressa, do mesmo jeito que as
horas se arrastaram naquela manhã. E agora, ali na rodoviária, o
mundo parecia suspenso mais uma vez — só que agora, do lado de
dentro, era o peito que pesava.

Noah segurava a mala de Liza com uma das mãos e a outra


entrelaçada à dela, como se soltar fosse impossível. Ou imperdoável.

— Tá mesmo na hora? — ele perguntou, mesmo sabendo a resposta.

— O ônibus atrasa às vezes — ela disse, sem muita fé.

Ficaram em silêncio, observando a plataforma. Havia algo naquilo


tudo que doía e acalmava ao mesmo tempo. Como um adeus dito com
os olhos antes mesmo de ser falado.

— Eu não quero ir — ela confessou.

— Então fica.

— Não posso. Você sabe.


Ele assentiu, respirando fundo. O som de um ônibus se aproximando
cortou o ar como um lembrete. Ela o olhou, os olhos marejados.

— A gente vai dar um jeito, né?

— Claro que vai. A gente sempre dá.

— E se eu chorar?

— Eu seguro.

— E se eu não quiser soltar sua mão?

— A gente segura até o último segundo. Depois... depois você leva


meu cheiro na sua blusa, meu nome no seu bolso. E eu fico com tudo
que você deixou aqui — ele apontou pro peito — bagunçado e bonito.

O ônibus parou. A porta se abriu.

Eles se olharam como se o tempo fosse feito só daquele instante.


Depois, ele a puxou devagar, num abraço apertado, longo. O tipo de
abraço que tem memória. Que guarda cheiro, calor, silêncio.
Ela sussurrou no ouvido dele:

— Eu volto. Me espera?

— Sempre.

Quando ela se afastou e subiu no ônibus, virou-se uma última vez. Ele
ainda estava lá, parado, com as mãos nos bolsos e o coração à mostra.

O ônibus partiu. E com ele, uma parte de tudo que os dois tinham
vivido.

Mas nos olhos de Noah, apesar da saudade que já doía, havia algo que
resistia: esperança. Porque quando o amor é real, o tempo é só
intervalo.

Último dia — Depois da despedida

Noah e Liza trocam mensagens no celular

Liza:

Eu não sabia que era possível sentir saudade antes de realmente ir


embora.
Noah:

É porque, no fundo, eu já sabia que você ia embora, mesmo antes de


você saber.

Liza:

Não fala isso. Agora tá ficando mais difícil.

Noah:

Eu sei. Mas a gente vai dar um jeito, lembra? A distância não vai
mudar o que a gente tem.

Liza:

Eu sei. Mas, ainda assim... parece que faltam pedaços de mim.

Noah:

Eu sei o que você quer dizer. Mas cada pedaço de você que falta, eu
vou ter aqui guardado. Até você voltar.

Liza:

E se eu não voltar?

Noah:
Você vai. Eu sei que vai. Mas, se não voltar... eu vou esperar o tempo
que for. Porque você sempre foi minha, mesmo antes de a gente se
encontrar.

Liza:

Eu preciso ir. Eu sei que isso é o que tem que ser agora.

Noah:

Eu sei... só não me deixa aqui, tá? Eu vou estar com você em cada
passo que der, mesmo que eu não possa te alcançar.

Liza:

Você já me alcançou. Sempre vai alcançar, de alguma forma.

Noah:

Isso é tudo o que eu preciso ouvir. Agora vai. Não olha pra trás, só vai.
Eu estarei esperando.

Primeiro dia da distância

Mensagens trocadas pela manhã

Liza:

Eu acordei e senti que você ainda estava aqui. Mas... não está.
Noah:

Eu acordei também. E senti a falta do seu cheiro, do seu toque. Mas,


mesmo longe, eu ainda sinto você em tudo.

Liza:

Você é bom demais comigo. Não sei como vou lidar com isso.

Noah:

Você vai, Liza. A gente sempre se ajusta, mesmo quando parece


impossível. A distância vai ser só mais um obstáculo, como tudo que a
gente já passou.

Liza:

Eu fico pensando se o tempo vai passar mais devagar agora, com tudo
tão distante...

Noah:

Vai ser difícil no começo, eu sei. Mas sempre que você sentir que o
tempo está parando, lembre-se de mim, e eu prometo que ele vai
acelerar.
Liza:

Eu vou tentar. Mas não sei se vou aguentar...

Noah:

Você é mais forte do que pensa, Liza. E eu estarei aqui, a cada


segundo, esperando por você.

À noite

Noah:

Como foi o dia?

Liza:

Longo. Mas o mais estranho é que, em algum momento, parecia que a


gente ainda estava ali, juntos. Não sei como explicar.

Noah:
Eu também senti isso. Senti que você estava ali, em tudo o que eu
olhava, mesmo sem estar.

Liza:

Será que a saudade vai continuar assim? Cada vez mais forte?

Noah:

A saudade vai ser sempre nossa companheira agora, mas não é ela que
vai nos definir. Vamos aprender a viver com ela, até que um dia, seja
só uma lembrança doce.

Liza:

Espero que sim...

Segundo dia da distância

Mensagens à noite

Liza:

Hoje foi... tudo errado. Nada parecia funcionar. Tudo me lembrou


você de alguma forma. Até o barulho do vento na janela.
Noah:

Eu sei. Eu também senti isso. Como se o mundo tivesse perdido a cor


sem você aqui. Cada segundo é mais pesado. Cada silêncio, mais
distante.

Liza:

Eu não consigo mais dormir. Tudo o que eu quero é fechar os olhos e


voltar pro seu abraço. Você me fazia sentir que eu podia respirar mais
fundo.

Noah:

Eu te entendo. Eu também me sinto assim. Só que agora, o único jeito


de respirar fundo é lembrando de você, do que a gente viveu. Mas é
difícil, Liza. Eu te quero aqui.

Liza:

Eu te quero aqui também. Queria te ligar e ouvir sua voz. Sentir que,
mesmo longe, você ainda me pertence.

Noah:

Você me pertence, Liza. Em cada pensamento, em cada palavra não


dita. E sei que, de algum jeito, você me sente perto, mesmo que eu
esteja a quilômetros de distância.
Liza:

Mas isso não é suficiente. A saudade é cruel. Ela me faz duvidar se


posso suportar isso por tanto tempo.

Noah:

Eu entendo. Não quero que você sofra, nem que sinta falta de mim
dessa maneira. Só que... a gente não pode se perder agora. Se a
saudade está aqui, então que ela seja nossa força.

Liza:

Eu não sei, Noah. Parece que ela está me consumindo aos poucos.
Cada lembrança, cada sorriso... tudo se transforma em uma dor
insuportável.

Noah:

Eu sinto isso também. E eu sei que não é fácil, mas a dor só prova o
quanto a gente ama. Eu prefiro sentir essa dor do que viver uma vida
sem você. Porque, no fim, essa dor vai valer a pena.

Liza:

Eu sei. Eu também prefiro. Só não sei até quando vou aguentar.


Noah:

Até quando for preciso, Liza. Até quando for necessário. Eu estarei
esperando, te amando, mesmo nos dias mais difíceis. Você não está
sozinha nisso.

Liza:

E você nunca vai estar. Nunca.

Terceiro dia da distância

Mensagens pela tarde

Liza:

Hoje a Emma me disse que eu devia parar. Que isso não é amor, que é
ilusão. Ela acha que eu tô me machucando à toa.

Disse que você podia ser qualquer um.

Noah:

Eu não sou “qualquer um”, Liza. E você sabe disso. A gente se conhece
mais do que muita gente que se vê todos os dias.

Mas... eu entendo o medo deles. Só não entendo o porquê de quererem


que você desista.
Liza:

Eles acham que me perderam. Dizem que eu só vivo por uma


mensagem, uma chamada, um "boa noite" seu.

E talvez... talvez eles estejam certos em partes. Mas é porque você


virou meu lugar seguro.

Noah:

E você é o meu. Sempre foi.

Não é culpa nossa se o amor que a gente sente não cabe no que eles
entendem.

A gente só tá tentando fazer dar certo — mesmo com o mundo


dizendo que não.

Liza:

Mas será que é o suficiente?

Será que amar tanto assim basta, quando o resto do mundo tá pronto
pra julgar, pra duvidar?
Noah:

Eu não sei. Mas se a gente tiver que provar, então que seja com cada
dia que resistimos.

Com cada noite que você escolhe ficar.

Com cada palavra que a gente troca — mesmo com o silêncio entre
elas.

Liza:

Eu só queria que eles vissem você como eu vejo.

Noah:

E um dia talvez vejam.

Mas até lá... eu só preciso que você continue vendo.

Capítulo 3
Até que a distância acabe
– Café do centro, fim de tarde
O cheiro de café fresco preenche o ar quando Liza entra. O sino da
porta toca com um som suave, e ela vê Emma e Otto já sentados à
mesa do canto, dois copos meio vazios e olhares que dizem mais do
que gostariam.

Emma (sem sorrir):

Achei que não vinha.

Liza (sentando devagar):

Eu quase não vim.

Otto:

A gente só queria conversar. Sem drama, tá?

Liza:

Então por que tudo que vocês dizem ultimamente parece julgamento?

Emma solta um suspiro, gira a colher dentro da xícara antes de


responder.

Emma:

Porque a gente se importa, Liza. Você sumiu. Vive no celular, chora


quando acha que ninguém tá vendo. Isso não é amor, é prisão.
Liza:

Não. Isso é amor com saudade. Com falta. Vocês não entendem
porque nunca precisaram amar à distância.

Otto:

Mas a gente entende o que é perder você.

A Liza que ria alto, que topava qualquer plano no sábado à noite.
Agora parece que... tudo o que te resta são mensagens.

Liza (olhos marejados):

E se forem só mensagens, tudo bem. Porque elas vêm dele.

Porque quando o mundo inteiro parece duvidar, ele ainda me escolhe.


Mesmo longe. Todos os dias.

Emma:

Mas por quanto tempo, Liza?

Você sabe tudo sobre ele? Ele sabe tudo sobre você?

E se... e se ele não for o que parece?

Liza (em silêncio, apertando a xícara nas mãos):

Talvez eu não saiba tudo.


Mas sei que ele me escuta. Sei que ele fica quando até vocês pensam
em ir embora.

Emma baixa os olhos. Otto aperta o ombro da amiga.

Otto (mais calmo):

A gente só tem medo de te ver quebrar.

Liza (sussurrando):

Eu já quebrei. Mas ele me ajuda a juntar os pedaços. Mesmo que só


com palavras.

Silêncio. Lá fora, começa a garoar.

Liza, na mensagem de texto para Noah, depois de sair do café com os


amigos:

Liza:

Eu acabei de sair do café com a Emma e o Otto. E, bem... foi estranho.


Eu ainda tô tentando processar tudo.

Noah:

Me conta, o que aconteceu?


Liza:

Eu quase não fui, sabia? No começo, achei que ia ser mais fácil. Tipo,
uma conversa normal, mas não foi. Quando cheguei lá, o ambiente já
tava tenso, como se eu estivesse invadindo um território onde
ninguém mais entendia o que estava acontecendo comigo.

Noah:

Isso parece difícil... mas você foi forte, né?

Liza:

Eu acho que tentei. Mas a Emma... ela não sabe o que dizer sem julgar.
Sabe aquele olhar que a pessoa te dá quando acha que você está
fazendo algo errado, mas não sabe como te convencer do contrário?
Foi isso o tempo todo. Ela até tentou disfarçar, mas tava claro. Otto,
por outro lado, ficou mais calado. Eu podia ver que ele estava
preocupado, mas não sabia como me dizer.

Noah:

E o que eles disseram?

Liza:

Emma foi direta. Ela disse que eu estava me "perdendo" nisso tudo,
que estava deixando a saudade me consumir. Ela acha que eu estou
me iludindo, sabe? Disse que o que a gente tem não é amor, é uma
prisão. Que eu deveria “voltar à vida real.” E foi aí que eu percebi que
ela não entende o que eu sinto. Não entende como é amar alguém à
distância. E, eu... eu não consegui explicar, porque parece que nada do
que eu falasse faria diferença.

Noah:

Eu entendo o que você quis dizer, Liza. A distância é difícil, mas não é
prisão. É só a forma como a gente tem que lidar com o que sentimos,
enquanto espera por algo que vale a pena.

Liza:

Eu queria que ela visse isso. Mas ela só viu a saudade. O vazio que
você deixa quando não está aqui. Otto tentou ser mais compreensivo,
mas também ficou no seu canto, olhando pra mim com aquele olhar de
quem perdeu alguém... Não sei se foi culpa minha, mas acho que ficou
claro que eles sentem minha falta. E a verdade é que... acho que sinto
falta de mim mesma, também.

Noah:

Eu sei que é difícil, mas o que a gente tem, Liza, é real. E não importa o
que as pessoas ao nosso redor pensem. Eu tô aqui, e você está aí, mas
sempre vai ser real.

Liza:
Eu sei. Eu sei disso. Só que, entre os conselhos da Emma e Otto, eu me
peguei pensando se eu estou realmente fazendo o certo. E se algum dia
alguém, além de você, vai entender isso.

Noah:

Eu vou sempre te entender, Liza. Isso é o que importa. Não deixa que
ninguém te faça duvidar do que você sente. Eu estarei com você,
mesmo que seja só em palavras, em pensamento. Você não está
sozinha nisso. E nunca vai estar.

Liza:

Eu te amo.

Noah:

Eu também te amo. Sempre.

Minutos depois, no quarto de Liza. O celular vibra de novo.

Noah:

Queria poder estar aí agora. Te puxar pra perto, te envolver num


abraço até você esquecer do resto do mundo.

Liza:
Eu consigo quase sentir isso só de ler suas palavras. Mas ao mesmo
tempo... me faz querer chorar ainda mais.

Noah:

Chora, então. Não precisa ser forte o tempo todo. Não precisa carregar
tudo sozinha. Eu tô aqui, Liza. Mesmo que seja só numa tela, numa
mensagem. Ainda sou eu.

Liza:

É que às vezes parece que a tela é tão fina... tão frágil. Como se
qualquer vento pudesse arrancar você de mim.

Noah:

Não vai. Eu prometo. Pode ventar, chover, pode o mundo inteiro


tentar nos dobrar... mas eu continuo aqui. Segurando você.

Liza:

Será que é suficiente? Só palavras?

Noah:

Se elas forem verdadeiras... são. E as minhas são. Cada uma.

Liza:
Então me diz algo que eu possa guardar pra quando ficar difícil de
novo.

Noah:

Fecha os olhos.

Imagina minha mão na sua nuca, meus lábios no seu cabelo, meu
coração batendo só pra te chamar.

Eu te amo, Liza. Em cada palavra, em cada silêncio.

Nada nesse mundo vai mudar isso.

Liza:

(sem responder imediatamente — lágrimas descendo silenciosas)

Depois de alguns minutos:

Liza:

Obrigada por não desistir de mim. Nem quando eu quase desisto de


mim mesma.

Noah:
A gente é feito de recomeços. E eu recomeço por você, quantas vezes
for preciso.

Quarto de Noah — madrugada

O som do ventilador gira baixo. A luz do abajur deixa sombras no teto.


Ele está deitado, mas os olhos não fecham.

Noah rolava de um lado para o outro na cama, o celular ainda aceso na


última mensagem de Liza. Já lera aquelas palavras pelo menos dez
vezes. Mas o que mais o prendia não era o que ela dizia — era o que
ela escondia. A saudade dela tinha um tom novo, mais fundo. Um
peso que ele reconhecia bem: o peso de alguém à beira de quebrar.

Ele fechou os olhos por alguns segundos, mas em vez de dormir, viu o
rosto dela. Não como nas fotos, mas como na última manhã juntos:
descabelada, enrolada no lençol, rindo sem som enquanto roubava o
café da caneca dele. Era essa imagem que batia mais forte. Porque era
real. Porque doía.

Ele se sentou, passou as mãos no rosto e olhou o calendário na parede.


Contou os dias até o próximo feriado. Eram muitos. Contou os que
podia faltar do trabalho. Eram poucos. Mas alguma coisa começou a
ferver dentro dele — não raiva, não impulso cego. Era amor em forma
de urgência.
Levantou. Pegou o laptop. Abriu o site de passagens. Os dedos
hesitavam. O coração, não.

“É loucura”, pensou. “É cedo demais, é complicado demais.”

Mas nada parecia mais insuportável do que não estar com ela.

Ele olhou o preço da passagem. Apertado. Impraticável.

Olhou de novo.

“O que custa mais: um bilhete ou perder ela aos poucos?”

Fechou o computador. Deixaria pra comprar pela manhã, mas já sabia:


iria.

Noah não era do tipo impulsivo. Mas Liza fazia o mundo girar de
outro jeito.

Ele pegou o celular. Quase mandou uma mensagem. Quase contou.


Mas não.

Dessa vez, ela não precisava de palavras.

Precisava dele.

E ele iria.

Manhã seguinte — quarto de Noah


O sol entra tímido pela janela, mas Noah já está acordado há horas. O
computador aberto, a passagem comprada — embarque em dois dias.
O estômago embrulhado. A mente, em mil lugares.

Ele revisa a mochila pela terceira vez. Poucas roupas, o caderno onde
anota versos soltos que nunca teve coragem de mostrar à Liza, e um
presente que comprou semanas atrás, sem saber quando entregaria:
um marcador de página com a frase “Você é minha página favorita”.
Ironicamente, ela nunca usava marcador. Virava as pontas das
páginas.

Ele sorri com o pensamento.

Pega o celular, hesita, então liga para uma pessoa com quem falou
poucas vezes: Célia, a mãe de Liza.

Célia (confusa, mas cordial):

— Noah? Que surpresa... aconteceu alguma coisa?

Noah:

— Desculpa ligar assim. Eu só... tô planejando aparecer aí de surpresa.


Não pra causar problema, eu prometo. Só queria saber se a senhora
poderia me ajudar com uma coisa.
Célia (em silêncio por um momento):

— Ela vai adorar te ver.

(Pausa)

— Mas ela tá frágil, Noah. Eu vejo. Finge bem, mas a casa anda meio
vazia, mesmo quando ela tá dentro.

Noah (voz firme):

— Eu sei. Por isso mesmo preciso ir. Não quero prometer que vou
consertar tudo... mas queria estar lá, nem que seja por um final de
semana, pra lembrar a ela que ainda somos de verdade.

Célia:

— E o que você precisa de mim?

Noah:

— Só que não conte a ela. E... talvez me ajude a escolher o lugar certo.
Eu quero que seja bonito. Simples, mas cheio de nós.

Célia (quase sorrindo):

— Tem um café novo perto da livraria que ela ama. Cheio de plantas.
Ela comentou que queria ir, mas não tinha com quem.

Noah:
— Perfeito. Me manda a localização? Eu cuido do resto.

Célia:

— Cuidar dela é o bastante, Noah.

Ele desliga, sentindo o coração bater mais alto. Pela primeira vez em
semanas, é uma ansiedade boa. Uma expectativa que não dói.

Dois dias. E então: ela.

Quarto de Liza — dois dias depois do café com Emma e Otto

A xícara de chá esfriava na mesa. O celular estava ao lado, bloqueado,


pela primeira vez em horas. Liza encarava o teto como quem procura
constelações onde não há estrelas.

Desde a conversa com os amigos, algo nela parecia suspenso. Como se


estivesse esperando alguma coisa. Não uma mensagem, não uma
ligação — algo que nem ela sabia nomear.

Liza (pensando):

Tem dias em que a saudade não dói... ela vibra.

Como se fosse anúncio de algo.


Como se alguém estivesse a caminho.

Ela se levantou, tentou arrumar o quarto, leu uma página do livro,


depois leu a mesma página mais três vezes. Nada fixava. No fundo,
sabia: não era o mundo que estava inquieto. Era ela.

Mais tarde, na cozinha, enquanto mexia distraída no celular, recebeu


uma mensagem da mãe:

Célia:

“Hoje tá bonito lá fora. Que tal dar uma volta amanhã? Tem um café
novo perto da livraria. Acho que você ia gostar.”

Liza:

“Talvez. Vou pensar. Obrigada, mãe.”

Ela sorriu de leve. Célia raramente sugeria programas assim. Talvez


estivesse tentando tirá-la de casa. Talvez soubesse que ela estava se
perdendo um pouco mais a cada dia.

Ainda assim... algo no convite parecia mais do que simples gentileza.

Naquela noite, Liza dormiu de lado, como sempre fazia quando sentia
falta de Noah ao alcance da mão. A camisa que trouxe com ela ainda
tinha o perfume dele — ou talvez fosse só lembrança. Mesmo assim,
ela a manteve perto, como se tecido pudesse substituir toque.

No dia seguinte — fim da manhã

Liza, depois de uma caminhada sem rumo, decide ir até o café que a
mãe mencionou. Algo dentro dela dizia: vai.

Não era expectativa. Era outra coisa.

Algo parecido com esperança.

Ela não sabia, mas faltavam menos de vinte minutos para o momento
em que o mundo mudaria de novo.

Café da esquina da livraria — início da tarde

O sino da porta toca.

Liza, sentada perto da janela, vira o rosto por reflexo. Esperava talvez
uma cliente, talvez um entregador... mas não esperava Noah.

Ele estava ali. De verdade. De mochila nos ombros e olhos cansados,


mas vivos — tão vivos quanto ela lembrava.
Por um segundo, tudo parou. O som ao redor virou ruído distante. O
tempo perdeu o ritmo.

Liza se levantou devagar, como se tivesse medo de acordar de um


sonho. A mão dela tremia quando levou os dedos aos lábios. Ele
sorriu, inseguro, emocionado, e deu um passo à frente.

Liza (sussurrando):

— Você...

Noah:

— Eu vim. Não consegui mais só... escrever.

Ela correu.

Sem hesitar, sem pensar, sem medo. Apenas correu até ele, como se o
corpo soubesse o caminho antes do coração. E então o abraço. O
primeiro desde aquele dia na rodoviária. Apertado. Longo. Infinito e
urgente.

Liza (com a voz embargada):

— Você é real...
Noah:

— Sempre fui. Só tava longe.

Ela o olhou nos olhos, como da primeira vez. Mas agora, não havia
mais dúvida. Nem silêncio. Só presença.

Ele tirou da mochila um envelope pequeno.

Noah:

— Eu trouxe um presente. Não é nada demais. Mas tem você em cada


palavra.

Ela pegou, com cuidado. E antes mesmo de abrir, sussurrou:

— Você já é o presente.

Os dois se olharam por um instante que pareceu eterno.

Noah sorriu de lado, ajeitando a alça da mochila no ombro.


Noah:

— Que tal a gente sair pra caminhar?

Ver essa cidade do jeito que ela é... juntos?

Liza assentiu, ainda sem confiar totalmente nas palavras. Só sabia que
queria ir.

Com ele.

De mãos dadas, deixaram o café para trás, levando com eles tudo o
que era saudade, e tudo o que ainda podia ser começo.

Capítulo 4
Como se o tempo tivesse
desaprendido a correr
A rua cheirava a pão assando e a flores amassadas pela chuva da
manhã.

O céu, entre nublado e dourado, parecia suspenso no mesmo estado de


espera que Noah e Liza carregavam no peito.

Eles caminharam sem pressa, como quem saboreia uma segunda


chance.

Cada esquina era uma descoberta: a banca de jornal que vendia


cartões-postais antigos, a praça com o coreto enferrujado, a vitrine
embaçada da loja de vinis.

Tudo ganhava um brilho diferente visto pelos olhos de quem se


reencontra.

Às vezes eles falavam — coisas simples, banais, do tipo "olha aquela


casa antiga" ou "o cheiro desse café é maravilhoso".

Mas, na maior parte do tempo, era o silêncio que conversava por eles,
preenchido pelo som de passos sincronizados e corações acelerados.

Noah puxou Liza para mais perto, quando um grupo de ciclistas


passou rápido demais pela calçada.

O toque distraído dele na cintura dela foi pequeno, mas incendiou


tudo dentro dela.

Ela sorriu, e Noah sorriu de volta, como se partilhassem um segredo.


Perto da praça central, ele parou de repente.

— Vem cá — disse, puxando-a para baixo de uma árvore enorme,


onde o chão ainda estava molhado e o cheiro de terra era forte.

Liza riu, tropeçando nos próprios passos.

— O que foi?

Ele tirou um pacotinho amassado do bolso da jaqueta: dois brigadeiros


enrolados em papel celofane.

— Comprei no caminho. Achei que a gente ia precisar de energia.

Ela riu de novo, aquela risada que ele lembrava das chamadas de
vídeo tarde da noite, quando ela ria até cair da cadeira.

Sentaram-se no banco de madeira, dividindo os doces como quem


divide o tempo que lhes foi devolvido.

— Você não faz ideia do quanto eu te esperei — ela disse, com a voz
ainda embargada de emoção.
— Eu também — ele respondeu, lambendo o chocolate dos dedos. —
Mas esperar você... foi a espera mais certa da minha vida.

O vento balançava as folhas acima deles, como se o mundo, inteiro,


conspirasse para que aquele momento durasse mais.

E naquele banco úmido, com brigadeiro derretendo nos dedos e


corações transbordando nos olhos, Noah e Liza souberam:

A vida podia ser imperfeita, complicada, cheia de esperas — mas,


juntos, ela era tudo o que sempre sonharam.

O sol começava a cair atrás dos prédios antigos quando Noah e Liza
decidiram voltar.

De mãos dadas, caminhavam pela rua de pedras, rindo de alguma


lembrança boba. Tudo parecia mais leve. Como se, finalmente, a
distância tivesse cedido um pouco.

Foi então que, dobrando a esquina da sorveteria, Liza avistou duas


figuras conhecidas.

Emma e Otto.
Eles estavam sentados num banco, tomando sorvete e conversando —
ou pelo menos tentando. Porque assim que viram Liza, o clima
mudou.

Emma ajeitou o cabelo atrás da orelha e forçou um sorriso. Otto


apenas encarou, sério, o olhar escuro demais para ser apenas surpresa.

Liza diminuiu o passo, sentindo um desconforto subir pelas costas.

— Ei... — Emma disse, levantando-se. — Você voltou rápido.

— Eu... — Liza engoliu em seco, apertando mais forte a mão de Noah.


— Eu não fui embora, na verdade. Só... saí um pouco.

Otto levantou também. Os olhos dele, duros, passaram de Liza para


Noah, demorando-se mais do que o necessário.

Sentindo o clima pesar, Noah puxou Liza para mais perto, como um
gesto silencioso de proteção, envolvendo o corpo dela contra o dele
sem pressa, mas com decisão.

Liza percebeu o gesto e sentiu o coração acelerar — não de medo, mas


de gratidão.
— Então é ele — Otto disse, sem disfarçar o tom carregado.

— Otto, por favor... — Emma tentou intervir.

Mas Otto já tinha dado um passo à frente.

— Engraçado. A gente vê você desaparecer do mundo real... e agora


aparece com o motivo na mão.

Liza sentiu o peito apertar.

— Não é assim... — ela começou, mas Otto ergueu a mão, como quem
diz que já ouviu o suficiente.

Noah manteve a postura calma, apertando levemente a cintura de


Liza, como se dissesse: tô aqui.

— Eu só quero que ela seja feliz — Noah disse, a voz baixa, firme.

Emma mordeu o lábio, olhando entre eles.

— Talvez seja difícil pra gente entender — ela falou, tentando aliviar
—, mas... vocês dois parecem estar bem.
Otto cruzou os braços, ainda tenso.

— Espero que esteja mesmo. Porque a gente sabe como distância


machuca. E às vezes... quem mais promete ficar é quem primeiro vai
embora.

O silêncio caiu pesado.

Liza respirou fundo.

— Eu sei dos riscos, Otto. Mas também sei o que eu sinto.

E se eu errar, vai ser pelo que eu acredito — ela disse, olhando para
Noah.

Otto desviou o olhar. Emma puxou o braço dele de leve.

— Vamos — disse a amiga. — Vamos deixar eles aproveitarem.

Antes de ir, Otto encarou Noah uma última vez.

— Cuida bem dela — disse, a voz baixa, quase ameaçadora.


E então, sem esperar resposta, se virou e foi embora com Emma.

Noah soltou o ar devagar, o braço ainda firme em torno dela.

Liza virou para ele, com um sorriso triste.

— Desculpa por isso.

Ele passou o polegar de leve pela mão dela.

— Não tem do que pedir desculpa.

Você vale cada olhar atravessado desse mundo.

Ela sorriu, ainda emocionada.

E juntos, seguiram para casa, levando nos passos a certeza de que, às


vezes, o amor precisa ser defendido — mesmo no meio da rua.

Chegada na casa de Liza — fim da tarde

A porta se fechou atrás deles com um clique suave. O silêncio da casa


parecia abraçá-los, como se soubesse que aquele momento era deles.
Liza largou a bolsa na primeira cadeira que viu. Noah deixou a
mochila no chão, sem pressa, os olhos fixos nela — como se ainda não
acreditasse que podia realmente tocá-la a qualquer momento.

Ela se aproximou primeiro, com passos pequenos, quase tímidos, até


ficar tão perto que sentiu a respiração dele misturar na sua.

Noah ergueu a mão, deslizando os dedos pela bochecha dela com uma
delicadeza quase reverente.

Então, o primeiro beijo.

Calmo. Sincero. Um beijo que começava na saudade e terminava no


reencontro.

Liza entrelaçou os braços no pescoço dele, puxando-o para mais perto,


enquanto Noah a abraçava pela cintura, como quem nunca mais
queria soltar.

As roupas, ainda molhadas de leve pela garoa, colavam na pele. Noah


passou o nariz pela linha do maxilar dela e sussurrou, rouco:

— Vem comigo?

Ela sorriu contra a boca dele e assentiu.


De mãos dadas, subiram as escadas devagar, rindo baixinho de coisas
que nem tinham graça, mas que agora pareciam preciosas.

No banheiro, a luz era morna. O espelho já começava a embaçar por


causa do vapor.

Noah ligou o chuveiro, testando a água, e então estendeu a mão para


ela.

Liza aceitou sem hesitar.

As roupas foram largadas no chão, peça por peça, entre olhares


cúmplices e toques lentos.

Quando ficaram nus, Noah puxou Liza para dentro do boxe,


envolvendo-a num abraço sob a água quente.

Os corpos se encaixaram com uma intimidade que só o amor sabe


desenhar.

Beijos lentos, mãos percorrendo pele com calma, como quem decora
um mapa secreto.

O banho virou um ritual silencioso — um cuidado mútuo, um pedido


mudo de "fica", "não vai embora", "sou seu, sou sua".
Quando saíram, ainda molhados, Noah a pegou no colo, arrancando
dela uma risada surpresa.

— Só pra garantir que você não vai escapar — ele murmurou,


sorrindo.

Foram para o quarto sem se desgrudar.

Ali, entre lençóis macios e toques que sabiam o caminho de cor, eles se
amaram como quem tem todo o tempo do mundo.

Sem pressa, sem medo.

Só eles dois, inteiros.

Cada beijo parecia selar a promessa que já existia nas entrelinhas:


agora, não importa onde o mundo estivesse, eles tinham encontrado
um lar um no outro.

Manhã seguinte — quarto de Liza

A luz da manhã entrava suavemente pelas cortinas, tingindo o quarto


de um dourado suave. O ar estava tranquilo, quase como se o tempo
tivesse desacelerado para deixar aquele momento durar mais.
Liza acordou lentamente, com os olhos ainda pesados de sono, mas
sentindo a suavidade de uma paz que não conhecia. Ela estava ali,
deitada ao lado de Noah, o peito dele ainda subindo e descendo com a
respiração suave.

Noah estava deitado de bruços, com a cabeça apoiada no travesseiro,


os cabelos bagunçados. Liza o observava por um momento, sem pressa
de falar. Ele parecia tão sereno, tão ao seu alcance.

Quando ele sentiu o olhar dela, seus olhos se abriram devagar,


encontrando os dela com um sorriso silencioso, como se soubesse que
ela estava ali, mas preferia apenas curtir o momento antes de qualquer
palavra.

Liza sorriu de volta, seu corpo se virando para ele com um movimento
preguiçoso. Sem falar nada, ela aproximou o rosto e o beijou
suavemente, um beijo tranquilo, como se o mundo todo fosse feito
daquele momento.

Noah, ainda meio sonolento, correspondeu ao beijo, o toque das mãos


se encontrando, se acariciando devagar. Ele puxou-a para mais perto,
abraçando-a como se quisesse manter aquele instante preso, sem
pressa de que o dia começasse.

— Eu não quero sair da cama — ele disse, a voz rouca de sono.


Liza riu baixinho, aconchegando-se contra o peito dele.

— Eu também não.

Eles ficaram ali, sem pressa de fazer nada, apenas se tocando e


trocando carícias suaves. Liza passou os dedos pela linha do peito
dele, desenhando círculos lentos, e Noah, por sua vez, acariciava os
cabelos dela, com um cuidado que parecia envolver todo o corpo.

O tempo parecia escorrer lentamente enquanto eles permaneciam


nesse abraço silencioso, onde não havia palavras, apenas a troca
silenciosa de afeto e proximidade.

Finalmente, Liza se afastou um pouco, olhando para ele com um


sorriso travesso.

— Não está com fome?

Noah a observou por um momento, o sorriso se alargando no rosto


dele.

— Acho que você me conhece bem demais. Mas... antes do café, que tal
só mais alguns minutos assim?
Liza se deixou cair novamente nos braços dele, sem querer sair dali,
sem querer romper a conexão que existia entre eles.

E assim, na tranquilidade do começo de um novo dia, os dois se


entregaram ao silêncio, ao calor e à certeza de que, não importa onde
estivessem, o amor entre eles continuaria a crescer.

Pela manhã — casa de Liza

A manhã estava serena, quase quieta demais. A luz esmaecida


atravessava as cortinas, dançando nas paredes com preguiça. Na
cozinha, o som do café sendo passado preenchia o silêncio com
suavidade.

Liza, descalça, vestindo a camiseta de Noah, apareceu no batente da


porta. Observou-o por um instante: ele mexia distraidamente nas duas
xícaras, como se cada gesto carregasse mais do que parecia. Ela sorriu,
e ele, ao vê-la, abriu um sorriso que parecia acordar de um sonho.

— Bom dia, minha bonequinha — disse, puxando-a pela cintura com


delicadeza.

Ela o beijou de leve, e aquele toque morno, terno, parecia selar a calma
daquele instante. Sentaram-se à mesa pequena, partilhando torradas,
risos e olhos que diziam mais do que qualquer palavra.
No meio da conversa, Noah tirou um chaveiro do bolso. O velho
chaveiro de Liza.

Ela parou por um segundo, tocando o objeto com cuidado.

— Você guardou isso todo esse tempo?

— Guardei você em tudo — ele respondeu. — Mas isso... achei que


deveria voltar pra você.

Ela não disse nada. Apenas sorriu, com o olhar marejado.

O celular dele vibrou. Uma notificação silenciosa, mas que não passou
despercebida. Liza olhou. Ele hesitou. E então, num gesto raro e
honesto, colocou o aparelho virado para cima sobre a mesa.

— É melhor eu te contar — começou, sem rodeios. — Era minha ex.


Ela quer pegar umas coisas que ficaram lá em casa.

Liza apenas assentiu com a cabeça, devagar. Havia um nó na garganta,


mas ela não queria alimentar fantasmas.

— Obrigada por dizer — respondeu, por fim.


Ele estendeu a mão, com os dedos entreabertos. Ela aceitou o toque.
Entrelaçaram-se. Ficaram assim por um tempo, apenas olhando um ao
outro como quem ainda escolhe — e é escolhido.

— Eu tô aqui por você — ele disse. — E por tudo o que a gente ainda
pode ser.

Ela não respondeu. Mas no modo como apertou os dedos dele, havia
mais resposta do que qualquer frase bem dita.

Lá fora, o dia começava devagar. E ali, naquela cozinha pequena, duas


certezas se encaravam: a de um amor que resistiu à distância… e a de
que o passado nunca deixa de respirar, mesmo que em sussurros.

Liza lavava as mãos na pia, perdida nos próprios pensamentos,


quando sentiu os braços de Noah ao redor da cintura. Ele a beijou na
nuca, suave, como se aquele gesto pudesse apagar qualquer vestígio
de dúvida. E por um instante, quase conseguiu.

— Tá tudo bem? — ele perguntou, a voz baixa.

— Tá. Eu só… pensei demais — respondeu, sem se virar.


Ele não insistiu. Apenas ficou ali, com o rosto encostado em seus
cabelos, tentando segurar o momento por mais tempo do que o tempo
permite.

Mais tarde, sentados no sofá, ela deitou a cabeça no colo dele enquanto
uma música qualquer preenchia o ambiente. Noah mexia
distraidamente nos fios do cabelo dela, mas seus olhos se perdiam no
celular ao lado, que vibrava em silêncio.

Liza não perguntou.

E ele não comentou.

O chaveiro girava devagar entre os dedos dela, como uma promessa


antiga prestes a ser refeita… ou esquecida.

Lá fora, o céu começava a fechar, anunciando uma chuva suave.

E enquanto as primeiras gotas caíam no vidro da janela, Liza fechou os


olhos, tentando acreditar que todo amor é suficiente quando há
verdade. Mas no fundo, uma parte dela sabia: o amor que resiste à
distância às vezes precisa resistir também ao que está perto demais.

Noah olhou para ela, e por um segundo pareceu querer dizer algo.
Mas não disse.
O celular vibrou mais uma vez. E ficou ali, entre os dois, mudo e aceso.

[FIM]

Ou talvez não.

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