ESTADO DE MATO GROSSO
PODER JUDICIÁRIO
1º JUIZADO ESPECIAL DE VÁRZEA GRANDE
Processo: 1002157-32.2026.8.11.0002
Parte reclamante: Damião Suerleno Leite Paiva.
Parte reclamada: Monte Castelo Materiais para Construção Ltda - EPP.
SENTENÇA
Relatório minucioso dispensado (art. 38 da Lei nº 9.099/95).
Resumo relevante
DAMIÃO SUERLENO LEITE PAIVA ajuizou ação reparatória de danos
materiais e morais em desfavor da MONTE CASTELO MATERIAIS PARA
CONSTRUÇÃO LTDA - EPP. Em síntese, alegou a aquisição em 11/03/2025,
junto a parte reclamada, de uma bomba d’água submersa da marca Lorenzetti,
no valor de R$469,90 (ID 220644878).
Relatou que, após dois meses de uso, o produto apresentou vício de qualidade
que o tornou impróprio para o uso pois “não ligava/não succionava água”.
Afirmou que encaminhou o produto à assistência técnica autorizada (ID
220644890), sendo informado sobre a irreparabilidade do vício por defeito de
fabricação, mas sem a entrega do laudo por escrito e a restituiu o produto.
Pelos fatos narrados pleiteou a restituição do valor pago e indenização pelos
danos morais.
Realizada audiência de conciliação, o acordo restou infrutífero.
A contestação foi apresentada no ID 225490083, na qual arguiu a
incompetência do Juizado Especial, a ilegitimidade passiva e a ausência de
interesse de agir. Sustentou a ausência de prova do vício de fabricação e de
dano moral a ser indenizado. Ao final, postulou pela improcedência dos
pedidos iniciais.
Em seguida, foi juntada nos autos a impugnação à contestação.
Incompetência em razão da matéria.
Nos termos do artigo 3º da Lei nº 9.099/95, o Juizado Especial Cível é
competente para processar e julgar causas cíveis de menor complexidade.
Em relação ao conceito de menor complexidade, o Enunciado 54 do Fórum
Nacional de Juizados Especiais estabelece que este leva em consideração o
objeto da prova e não o direito material discutido:
ENUNCIADO 54 - A menor complexidade da causa para a fixação da competência é
aferida pelo objeto da prova e não em face do direito material.
Mesma exegese é extraída da jurisprudência do Superior Tribunal de Justiça:
PROCESSUAL CIVIL. MANDADO DE SEGURANÇA. JUIZADO ESPECIAL CÍVEL.
COMPLEXIDADE DA CAUSA. NECESSIDADE DE PERÍCIA. [...] 3. O art. 3º da Lei
9.099/95 adota dois critérios distintos - quantitativo (valor econômico da pretensão) e
qualitativo (matéria envolvida) - para definir o que são causas cíveis de menor
complexidade. Exige-se a presença de apenas um desses requisitos e não a sua cumulação,
salvo na hipótese do art. 3º, IV, da Lei 9.099/95. Assim, em regra, o limite de 40
salários-mínimos não se aplica quando a competência dos Juizados Especiais Cíveis é
fixada com base na matéria. [...] (STJ, 3ª Turma, RMS nº 30170/SC, Rel. Min. Nancy
Andrighi, DJU 05/10/2010).
Assim sendo, os Juizados Especiais Cíveis não são competentes para processar
e julgar causas em que for necessária a produção de prova pericial, visto que se
trata de prova complexa.
Em análise dos autos, verifico não ser necessária a produção de pericial, pois
a parte reclamante declara não estar de posse do bem, ademais as provas
reunidas nos autos são suficientes para elucidar a controvérsia.
Consequentemente, este juízo é competente para processar e julgar a presente
demanda.
Ilegitimidade passiva.
A indicação na petição inicial das partes, trazendo como causa de pedir
fundamentos que evidenciam a existência de uma suposta relação jurídica de
direito material, é suficiente para sustentar a legitimidade, como preconizado
pela Teoria da Asserção, amplamente aceita no c. Superior Tribunal de Justiça:
AGRAVO REGIMENTAL NO AGRAVO EM RECURSO ESPECIAL. AQUISIÇÃO DE
VALORES MOBILIÁRIOS POR INTERMÉDIO DE INSTITUIÇÃO FINANCEIRA.
LEGITIMIDADE PASSIVA DA INSTITUIÇÃO FINANCEIRA. TEORIA DA
ASSERÇÃO. PRECEDENTES. PRESCRIÇÃO. PRAZO. TERMO INICIAL. CIÊNCIA
DA LESÃO. TEORIA DA ACTIO NATA. MOMENTO DA OCORRÊNCIA DA
CIÊNCIA INEQUÍVOCA. SÚMULA N. 7 DO STJ. AGRAVO REGIMENTAL
IMPROVIDO. 1. Não há ilegitimidade passiva nas hipóteses em que a pertinência
subjetiva do réu em relação à pretensão deduzida em juízo torna-se evidente à luz da teoria
da asserção, segundo a qual as condições da ação devem ser aferidas tomando como
pressuposto, provisoriamente, apenas em juízo de admissibilidade da demanda, as próprias
afirmações ou alegações contidas na petição inicial, dispensando-se qualquer atividade
probatória. [...] 3. Agravo regimental a que se nega provimento. (STJ, 3ª Turma, AgRg no
AREsp nº 740.588/SP, Rel. Min.: Marco Aurélio Bellizze, DJU 27/10/2015).
Diante do exposto, em exame apenas das alegações contidas na inicial, nota-se
que as partes da relação jurídica de direito material (relação consumerista),
coincidem com as partes desta demanda, tornando-as partes legítimas para
figurar no polo ativo e passivo.
Outrossim é entendimento do Superior Tribunal de Justiça no sentido de “que
em uma relação de consumo, são responsáveis solidários, perante o
consumidor, todos aqueles que tenham integrado a cadeia de prestação de
serviços” (STJ, 3ª Turma, AgInt no REsp nº 1822431/SP, Rel. Min.: Marco
Aurélio Bellizze, DJU 08/06/2020).
Por fim, relevante consignar que a discussão quanto à responsabilidade civil da
parte reclamada, depende da análise da tese de defesa e do conjunto fático
probatório, pontos que serão examinados de forma apropriada, no mérito da
demanda.
Portanto, afasto a preliminar de ilegitimidade passiva.
Interesse processual.
Segundo a Teoria da Asserção, o simples fato de a parte reclamante ter
imputado à parte reclamada a prática de ato ilícito, independentemente da
análise da tese de defesa e do conjunto fático probatório, é suficiente para a
demonstração de seu interesse processual.
Neste sentido:
RECURSO ESPECIAL. PROCESSUAL CIVIL. CONDIÇÕES DA AÇÃO.
POSSIBILIDADE JURÍDICA. INTERESSE DE AGIR. TUTELA INIBITÓRIA.
PRESENÇA. INDEPENDÊNCIA DAS ESFERAS CÍVEL E PENAL. [...] 5. As condições
da ação devem ser aferidas com base na teoria da asserção, ou seja, à luz das afirmações
deduzidas na petição inicial, dispensando-se qualquer atividade instrutória. Precedentes.
[...] (STJ, 3ª Turma, REsp nº 1731125/SP, Rel. Min.: Nancy Andrighi, DJU 27/11/2018).
Desta forma, para evidenciar o interesse processual, não é necessário o
esgotamento da via administrativa, mas a simples alegação contida na inicial de
violação a norma com danos na esfera moral.
Por essa razão, a preliminar deve ser rejeitada.
Julgamento antecipado da lide.
Inicialmente, destaco o cabimento do julgamento antecipado da lide, nos
termos do artigo 355, inciso I, do Código de Processo Civil, visto que os fatos
controvertidos só podem ser comprovados por meio documental.
Com fulcro nos artigos 370 e 371 do Código de Processo Civil, em que
disciplinam o Princípio da Livre Apreciação Motivada das Provas e para que
não haja procrastinação ao trâmite processual deste feito (CF, art. 5º, inciso
LXXVIII), julgo desnecessária a produção de outras provas em audiência de
instrução, justificando o julgamento antecipado da lide, com a aplicação dos
ônus específicos.
Registro, que, no sistema dos Juizados Especiais, o juiz não está obrigado a
rebater uma a uma as teses apresentadas pelas partes, bastando que consigne na
sentença os elementos formadores da sua convicção.
Inversão do ônus da prova
A relação de consumo restou caracterizada, nos termos dos artigos 2º e 3º,
ambos da Lei nº 8.078/90, sendo devida a inversão do ônus da prova.
Incumbe à parte reclamada provar a veracidade de seus alegados na qualidade
de fornecedora de serviços, seja em razão da inversão do ônus da prova, seja
porque as assertivas são fatos extintivos de direito, nos termos do artigo 373,
inciso II do Código de Processo Civil.
Vício do produto. Ato ilícito.
Havendo vício de qualidade no produto, tornando-o impróprio ou inadequado
ao consumo a que se destina ou lhe diminuindo o valor, o consumidor tem
direito de exigir que o vício seja sanado.
Isso não ocorrendo, com fulcro no disposto no artigo 18, §§ 1º e 2º do CDC, o
consumidor poderá exigir, alternativamente e à sua escolha:
I - a substituição do produto por outro da mesma espécie, em perfeitas condições de
u s o ;
II - a restituição imediata da quantia paga, monetariamente atualizada, sem prejuízo
de eventuais perdas e danos;
III - o abatimento proporcional do preço.
Não havendo prazo convencionado neste sentido (garantia), prevalece o prazo
legal de 30 dias (CDC, art. 18, § 1º).
PROCESSUAL CIVIL. RECURSO ESPECIAL. AÇÃO DE REPARAÇÃO DE DANOS
MATERIAIS E COMPENSAÇÃO DE DANOS MORAIS. VEÍCULO. VÍCIO DE
QUALIDADE. REPARO. PRAZO DO ART. 18, § 1º, DO CDC. RESTITUIÇÃO DA
QUANTIA PAGA. DANOS MATERIAIS E MORAIS. PREQUESTIONAMENTO.
AUSÊNCIA. SÚMULA 282/STF. PRODUÇÃO DA PROVA PERICIAL. REEXAME DE
FATOS E PROVAS. INADMISSIBILIDADE. DISSÍDIO JURISPRUDENCIAL.
COTEJO ANALÍTICO E SIMILITUDE FÁTICA. AUSÊNCIA. INDICAÇÃO DO
DISPOSITIVO LEGAL VIOLADO. AUSENTE. SÚMULA 284/STF. [...] 7. Havendo
vício de qualidade do produto e não sendo o defeito sanado no prazo de 30 (trinta) dias,
cabe ao consumidor optar pela substituição do bem, restituição do preço ou abatimento
proporcional, nos termos do art. 18, § 1º, I, II, e III, do CDC. 8. Esta Corte entende que, a
depender das circunstâncias do caso concreto, o atraso injustificado e anormal na
reparação de veículo pode caracterizar dano moral decorrente da má-prestação do serviço
ao consumidor. [...] (STJ, 3ª Turma, REsp nº 1673107/BA, Rel.: Min. Nancy Andrighi,
DJU 21/09/2017).
Impõe ainda consignar que o termo inicial para exigir que o vício seja sanado,
conta-se a partir do momento em que o vício se tornou aparente, nos termos do
artigo 26, incisos I e II do Código de Defesa do Consumidor, verbis:
Artigo 26 - O direito de reclamar pelos vícios aparentes ou de fácil constatação
c a d u c a e m :
I - trinta dias, tratando-se de fornecimento de serviço e de produtos não duráveis;
II - noventa dias, tratando-se de fornecimento de serviço e de produtos duráveis.
Em exame ao conjunto fático probatório, não há controvérsia quanto à
aquisição da bomba d’água submersa da marca Lorenzetti, mas a parte
reclamante deixou de produzir qualquer indício do defeito do produto, como
fotografia, vídeo ou relatório técnico.
Impõe mencionar, que o consumidor não apresenta nenhuma evidência acerca
da retenção do produto pela assistência técnica, nem inclui no polo passivo da
demanda.
De acordo com o artigo 6º, inciso VIII, do Código de Defesa do Consumidor, é
possível a inversão do ônus da prova em benefício do consumidor, diante da
hipossuficiência técnica e da verossimilhança das alegações. Todavia, essa
inversão não afasta a necessidade da parte reclamante de apresentar um mínimo
de elementos capazes de corroborar a existência do vício alegado, sob pena de
inviabilizar o exame do mérito.
Neste sentido é o entendimento da Turma Recursal, vejamos:
“RECURSO INOMINADO. PRELIMINAR DE ILEGITIMIDADE PASSIVA
REJEITADA. AQUISIÇÃO DE MICROONDAS. ALEGADO VÍCIO DO PRODUTO.
AUSÊNCIA DE PROVA TÉCNICA MÍNIMA DO DEFEITO. ÔNUS DA PROVA
DO FATO CONSTITUTIVO NÃO SATISFEITO (ART. 373, I, CPC). INVERSÃO
DO ÔNUS PROBATÓRIO NÃO AUTOMÁTICA. DANO MORAL NÃO
CONFIGURADO. SENTENÇA DE IMPROCEDÊNCIA MANTIDA. RECURSO
IMPROVIDO. 1. Rejeito a preliminar de ilegitimidade passiva do comerciante, visto que
nas relações de consumo, a responsabilidade pelo vício do produto é solidária entre os
integrantes da cadeia de fornecimento. 2. Na petição inicial é alegada a aquisição de
micro-ondas PHILCO PMO23BB pelo valor de R$ 600,16, em 11/10/2024, sustentando
que o produto jamais funcionou e, apesar de tentativas administrativas, não houve solução,
razão pela qual postulou a rescisão do contrato, restituição do valor pago e indenização por
danos morais. 3. A alegação de que o micro-ondas jamais funcionou não foi acompanhada
de prova técnica mínima apta a demonstrar vício de fabricação ou defeito de
funcionamento. Os documentos juntados consistem essencialmente em registros de
reclamações administrativas e comunicação por e-mail realizadas meses após a entrega do
produto, em 08/02/2025, 18/02/2025 e 05/03/2025, os quais evidenciam a insurgência da
consumidora, mas não comprovam, por si sós, a existência do defeito alegado. 4. Ausentes
ordem de serviço, laudo técnico, comprovação de envio à assistência autorizada ou
qualquer outro elemento objetivo que demonstre o não funcionamento do bem, não se
revela possível imputar responsabilidade civil às fornecedoras apenas com base em
alegação unilateral. 5. Ainda que seja possível a inversão do ônus da prova, nas relações
de consumo, é ônus da parte autora a comprovação do direito autoral, isto é, deve haver
provas mínimas dos fatos alegados na petição inicial. 6. A sentença que julgou
improcedente a pretensão inicial, não merece reparos e deve se mantida por seus próprios
fundamentos. A súmula do julgamento serve de acórdão, nos termos do art. 46 da Lei nº
9.099/95. [...]”. (TJMS, 3ª Tur. Rec., N.U 1010225-63.2025.8.11.0015, Rel.: Valmir
Alaercio dos Santos, DJU 24/02/2026). (Destacamos).
“DIREITO DO CONSUMIDOR. RECURSO INOMINADO. NOTEBOOK.
APARECIMENTO DE DEFEITO APÓS O PRAZO DE GARANTIA CONTRATUAL.
ALEGADO VÍCIO OCULTO NÃO COMPROVADO. RESPONSABILIDADE CIVIL
OBJETIVA DO FORNECEDOR. AUSÊNCIA DE PROVA DO FATO
CONSTITUTIVO DO DIREITO . SENTENÇA MANTIDA. RECURSO
DESPROVIDO. [...] Tese de julgamento: A caracterização do vício oculto em produto
durável exige prova técnica mínima de que o defeito decorre de falha de fabricação
preexistente à entrega do bem à parte autora. A inversão do ônus da prova nas relações
de consumo não exime o consumidor de apresentar elementos mínimos que
corroborem a existência do defeito, sobretudo quando já expirado o prazo de
garantia contratual.” [...] (TJMT, 1ª Tur. Rec., N.U 1072995-71.2024.8.11.0001, Rel.:
Gonçalo Antunes de Barros Neto, DJU 28/07/2025). (Destacamos).
Diante do contexto comprobatório dos autos, encontra-se prejudicado o exame
dos demais pressupostos caracterizadores da responsabilidade civil, bem como
a discussão em relação ao dano e o seu quantum indenizatório.
Dispositivo.
Posto isso, proponho rejeitar as preliminares arguidas e julgar improcedentes
os pedidos iniciais, extinguindo o processo com resolução de mérito, nos
termos do artigo 487, inciso I, do Código de Processo Civil.
Sem custas e honorários advocatícios, nos termos dos artigos 54 e 55, ambos
da Lei nº 9.099/95.
Submeto o presente projeto de decisão à homologação do Magistrado Togado,
para que surta os efeitos legais previstos no artigo 40 da Lei nº 9.099/95.
Francys Loide Lacerda da Silva
Juíza Leiga
Visto, etc.
Homologo, para que surtam seus jurídicos e legais efeitos, o Projeto de
Sentença da lavra da Juíza Leiga deste Juizado Especial.
Tudo cumprido, arquive-se com as cautelas de estilo, dando-se baixa na
distribuição.
Advirto que a apresentação de Embargos de Declaração manifestamente
protelatórios acarretará a aplicação da multa prevista no artigo 1.026, §2°, do
Código de Processo Civil.
Data do registro no sistema.
P. R. I.
Juiz OTÁVIO PEIXOTO
Assinado eletronicamente por: OTAVIO VINICIUS AFFI PEIXOTO
[Link]
PJEDABGXDFMVN