Cognição Social
A cognição, enquanto recurso psicológico para apropriação do mundo é um
recurso evolutivo. Provê aos indivíduos a melhor adaptação possível à
natureza, através dos ditos processos psicológicos (Percepção, Pensamento,
Atenção, Memória, Pensamento, Linguagem, Consciência, Juízo).
No que tange à utilização deste recurso na vida cotidiana, os estudos sobre
cognição social dizem respeito à forma como as pessoas percebem,
processam, armazenam e usam informações do mundo social. A apropriação
das suas variações e variáveis é de notável importância para a compreensão
da forma como os indivíduos compreendem-se individualmente, interagem com
outros indivíduos e com fenômenos advindos da enorme natureza, que é a
sociedade. Ademais, fornece embasamento para o profissional que irá
trabalhar diretamente com outros indivíduos e grupos.
Os fundamentos sobre cognição social, e seus desdobramentos, lhe fornecerão
insumos para avançar no processo de autoconhecimento e na formação de
habilidades profissionais mais críticas e sensatas.
Objetivo
Ao final desta unidade, você deverá ser capaz de:
• Demonstrar domínio sobre os mecanismos imanentes à
cognição social.
Conteúdo Programático
Esta unidade está organizada de acordo com os seguintes
temas:
• Tema 1 - Categorização social: Schemas Sociais e Teoria
da Atribuição
• Tema 2 - Categorização Social: Atitudes e Representações
Sociais
• Tema 3 - Categorização social: Estereótipos, Preconceito e
Discriminação
Aconteceu em uma escola infantil em um bairro de classe média alta. Era
um dia normal, em uma cidade metropolitana.
Um pai esperava a liberação de seu filho, à porta da escola.
Avistou a distância a aproximação de um indivíduo vestindo roupas
folgadas e velhas. A sua aparência era pouco cuidada: usava um boné,
uma camisa preta, uma calça surrada, somada às visíveis tatuagens no
corpo.
Aquele indivíduo se aproximava e fixava o olhar nele, fato que ia deixando-
o apreensivo.
Automaticamente pensou que seria assaltado. A cada passo que aquele
cidadão dava, mais o seu batimento cardíaco aumentava e ele antecipava
o inevitável: seria assaltado, talvez agredido.
Ao aproximar-se o indivíduo exclamou:
- O senhor é o Venceslau?
Como em um susto, o cidadão reconheceu que aquele cidadão sabia o seu
nome.
- Pois não, disse ele.
- Como é bom te encontrar. Havia tempo que eu te procurava. Chamo-
me Douglas. Sou o pai do Mateus! Nossos filhos se consideram os
melhores amigos na escola. Na próxima semana é aniversário do meu
garoto e nesta ocasião vamos presenteá-lo com uma viagem para a
Disney, acompanhado de um coleguinha. Eu gostaria que você
autorizasse a ida do seu filho, sem qualquer ônus para o senhor.
- Ora, me perdoe. Eu não te conheço, não sei qual a sua família, não sei o
que você faz da vida. Na verdade, eu nunca te vi aqui! Nem sei se
realmente você tem um filho nesta escola. Como vou autorizar a viagem de
meu filho com você?
- Realmente, me desculpe a minha deselegância. Talvez o senhor
nunca tenha me visto por que eu trabalho viajando bastante. Não
venho constantemente pegar o Mateus. Mas provavelmente você
conhece a minha família e talvez a minha história. Você conhece a Drª
Maria Eduarda?
- Claro! A dona da escola! Cuida muito bem do meu filho! É Casada com
um mega-empresário varejista. Soube que este cidadão financia obras
assistenciais! Deve ser um grande homem! Pessoas respeitadíssimas!
Que família honrada e brilhante! – disse Venceslau.
- Pois então, ela é minha esposa. Respondeu Douglas.
E agora? Será que todo tatuado, mal arrumado é ladrão ou perigoso?
Cotidianamente utilizamos nossos recursos cognitivos para adaptarmo-nos ao
ambiente em que vivemos. É muito importante compreender as dinâmicas
destes recursos, para que possamos utilizá-los de forma coerente nas relações
inter e intrapessoais. É sobre isto que vamos discutir nesta unidade!
Tema 1
Cognição Social: Schemas Sociais e Teoria da
Atribuição
Qual a importância da cognição social para as relações
humanas?
Todos os seres vivos estão em constante interação com o ambiente. A sua
sobrevida depende da capacidade de interagir com este ambiente da melhor
forma possível, com o menor gasto de energia e maior saúde. A adaptação é
um processo contumaz para a sobrevivência das espécies, e faz com que, no
desenrolar da história, estas espécies desenvolvam recursos para viabilizar a
melhor qualidade relacional.
Os seres humanos, evolutivamente, precisaram desenvolver recursos para
viabilizar a melhor adaptação possível em relação às demandas deste
ambiente também. A aquisição de maior complexidade das funções cognitivas
é uma vitória evolutiva para os homens, uma vez que viabilizam uma maior
articulação e elaboração dos conteúdos que concernem a sua relação com o
mundo.
Curiosidade
As funções cognitivas elementares são:
• Consciência • Sensação • Memória
• Atenção • Percepção • Volição
• Orientação • Emoções
Tendo em vista a necessidade da previsão sobre as demandas advindas da
natureza, somado à natureza relacional e social dos indivíduos, a espécie
humana elaborou processos complexos para predizer os eventos que dizem
respeito à convivência social de forma eficiente. Ora, constantemente os
indivíduos estão pensando sobre os outros ou sobre si mesmos. Há indivíduos
que se consideram bons “psicólogos amadores” justamente por acreditarem
que compreendem o comportamento dos indivíduos. Esta é uma consequência
de nossa tendência a avaliar e antever as situações cotidianas.
Vamos a uma situação hipotética? João é seu colega de trabalho, e apresenta
um perfil bastante extrovertido e falastrão. Um belo dia, João entra nos
aposentos da empresa calado, taciturno. É bem comum que o seu recurso
cognitivo automaticamente registre “fulano está chateado com alguma coisa.”
Caso você saiba, por exemplo, que fulano esperava por uma promoção, você
pode automaticamente ser levado a crer que este comportamento de fulano
esteja relacionado com esta espera por uma promoção.
Este comportamento de pensar sobre os indivíduos é a base do que
denominamos Cognição Social.
A cognição social diz respeito aos processos cognitivos com os quais os
indivíduos compreendem e explicam as outras pessoas e a si mesmas
(TRÓCCOLI, 2011). Estes processos geralmente acontecem sem que os
indivíduos tenham consciência, de forma automática, fornecendo suporte para
comportamentos de resposta às demandas do ambiente.
Apesar de ser realmente brilhante concluir que o nosso aparato cognitivo seja
eficiente, é importante salientar que o automatismo advindo da cognição social
pode levar-nos a erros de julgamento acerca dos outros e de nós mesmos.
Este é um excelente motivo para que o estudo sobre a cognição social seja
levado a cabo. A compreensão da forma como os indivíduos constroem as
suas significações sobre si e sobre os outros pode colaborar para localizar
estes erros, permitindo a ampliação do autoconhecimento e diminuição de
padrões de comportamentos transmitidos socialmente, que em diversas
situações fundamentam crenças equivocadas e preconceitos.
Lembra-se da história do João?
Na verdade, João teve uma noite de muita comemoração e estava de ressaca.
Você acabou de ser traído pelo automatismo da cognição social.
CARACTERÍSTICAS GERAIS DA COGNIÇÃO SOCIAL
Para compreender a cognição social é importante sinalizar alguns princípios
básicos para a sua formação, conforme sinaliza Tróccoli (2011).
Avareza Cognitiva - A utilização de recursos cognitivos exige gasto de
energia. Evolutivamente, desenvolvemos mecanismos para fornecer a
conclusão sobre determinado conteúdo social com o menor gasto de energia.
Por este motivo, é comum que nós utilizemos atalhos cognitivos para simplificar
a compreensão sobre o ambiente.
É comum que a utilização constante de pensamento colabore para o aumento
do cansaço. Você já participou de uma reunião que te exigiu horas de atenção?
Será que você conseguiu manter-se atento e disposto durante todo o tempo?
Digamos que o nosso cérebro seja “preguiçoso” ou econômico.
1. Orientação para processos – A relação dos indivíduos com o ambiente
funciona de forma sequencial, similar a um processo computacional. As
pessoas recebem uma informação do ambiente (Input), codificam, armazenam
e, por fim, fazem inferências (Output).
2. As Pessoas são agentes causais – Como a cognição social diz respeito à
forma como se lida com conteúdos acerca de outros indivíduos/grupos ou a
nós mesmos, é normal que seja atribuída às pessoas como causa para os seus
comportamentos. É muito comum que criemos explicações para o
comportamento de outros indivíduos.
3. Percepção mútua – A percepção social é um processo de mão dupla. Da
mesma forma que os indivíduos percebem outras pessoas, estas pessoas
também percebem os indivíduos, oferecendo feedbacks, que por sua vez
afetam os observadores. A nossa percepção sobre outras pessoas se mistura
com a percepção que estas pessoas têm sobre nós.
É muito comum que pessoas passem a interpretar positivamente
outras pessoas que dirijam comportamentos considerados positivos a
elas. Por outro lado, é muito comum que indivíduos acreditem ser
“odiados” ou “não queridos” por alguém– afetos negativos –
direcionem comportamentos/crenças negativas àquelas pessoas.
4. Centralidade do Eu – O fato de identificar um outro, determina a existência
de um “Eu”. Tendo em vista de que a centralidade do “observador” é sempre o
“eu”, a percepção de outra pessoa deflagra a percepção de si. As reações que
a pessoa percebe no outro definem elementos que a constituem.
Você já sentiu pena de alguém?
Para perceber se alguém está passando por uma situação, que você talvez
ache negativa, você automaticamente analisará a situação da pessoa sob o
seu referencial: do que seria caso fosse você.
Acredite, talvez para esta pessoa o motivo da sua “pena” pode ser bastante
banal. Em verdade, este conteúdo é interpretado com base nos seus valores e
crenças do que é bom ou ruim.
Portanto, no ato de interpretar/pensar sobre o outro, existe um sujeito, um “eu”
observador.
5. Qualidade da percepção – A percepção acerca do mundo é embasada em
aspetos subjetivos, normativos e valorativos. A qualidade da percepção pode
interferir sobremaneira na forma como as pessoas pensam e interpretam a si e
outras pessoas.
Um dos recursos utilizados para equilibrar a qualidade da percepção
social é a utilização de opinião alheia para a validação de nossas
percepções. O respaldo coletivo, mesmo estando contido também em
um contexto, diminui o espectro da possibilidade de equívocos
mediados pela cognição social.
6. Orientação pragmática tático-motivada – O pensamento social deliberado
acontece em função do planejamento, da preparação e do ensaio prévio para
as interações do indivíduo com o seu grupo social. O objetivo dos indivíduos
determina o seu pensamento.
7. Predominância dos processos automáticos - Nem sempre os
comportamentos sociais acontecem deliberadamente. Muito pelo contrário! Em
geral, predominam os aspectos inconscientes que colaboram para a ativação
de funções psíquicas – cognições, avaliações, afetos, motivações e
comportamentos.
ELEMENTOS DA COGNIÇÃO SOCIAL
A cognição social permite aos indivíduos, através das funções cognitivas, a
intepretação e apropriação a respeito dos outros indivíduos e de si. Você já
aprendeu as características que compõem a cognição social e neste momento
será apresentado aos dois principais elementos para a sua
formação: Schemas Sociais e Atribuições Interpessoais e Intrapessoais.
SCHEMAS
Schemas são estruturas cognitivas compostas de conhecimentos sobre
conceitos, objetos ou eventos, representados por seus atributos e pelas
relações entre esses atributos, os quais expressam pré-concepções ou teorias
sobre conceitos, objetos e eventos (TROCCOLI, 2011). De forma mais simples,
os schemas são conjuntos de informações, constituídos socialmente, sobre
fatos sociais que colaboram para que os indivíduos melhor categorizem e lidem
com o ambiente.
Os esquemas são como scripts que colaboram para a descrição e previsão
sobre outrem. Permitem que julgamentos e avaliações simplificadas sejam
realizados.
Lembre-se que uma das características da cognição social – podemos
estender esta afirmação para a utilização de nosso repertório cognitivo - é a
avareza cognitiva. Portanto, os esquemas servem para facilitar a construção de
realidade dos indivíduos na relação com a natureza, tendo em vista a maior
efetividade das suas ações.
Ora, se estes scripts colaboram para compreendermos o mundo que nos cerca,
seria correto afirmar que eles influenciam a forma como as informações são
codificadas, acessadas e julgadas. Podemos dizer, ainda, que o processo de
acesso aos esquemas mobilizam recursos cognitivos como memória, atenção e
julgamento.
Vamos a um exemplo: o que vem à sua cabeça quando se fala de uma pessoa
extrovertida?
Quando você se respondeu a esta pergunta você acessou os seus Esquemas
sobre traços de personalidade. Você acessou o conteúdo existente em sua
memória sobre as características de uma pessoa com o traço extrovertido.
Talvez, na sua concepção, esta pessoa seja alegre, expansiva. Na concepção
de outro colega, os Esquemas sobre traço de personalidade extrovertida
podem ser bastante distintos.
Para refletir
Já aconteceu com você a situação de conhecer alguém e
automaticamente nutrir-se de afetos positivos ou negativos por
aquela pessoa? É comum até dizer-se que “o santo bateu” Ou “não
bateu”.
No nosso caso, o nome do santo é Schema.
Quando encontramos uma pessoa que ativa um schema ligado à
outra pessoa, categoria grupal ou evento existe uma tendência não
consciente de transferirmos os afetos ligados àquela pessoa,
categoria grupal ou evento para esta nova pessoa.
Pode até acontecer que este novo conhecido não tenha qualquer
similaridade aparente a outra pessoa, categoria grupal ou evento,
mas faça parte de algum tipo de categoria (ocupacional, étnica,
nacional, gênero etc.) que o relacione com outro a quem você já
tenha uma clara representatividade afetiva ou de opinião.
Como podemos ver, os Esquemas são recursos cognitivos complexos que
colaboram para a apropriação e preparação dos indivíduos para uma melhor
relação com o mundo. Contudo, é interessante considerar os aspectos
negativos do seu uso acrítico. Tendo em vista que o processo esquemático é
inconsciente, ele pode dar espaço para a criação de estereótipos e
consequentemente comportamentos preconceituosos e discriminatórios.
Volte para a história do começo da unidade: aquela do Venceslau e do
Douglas. Venceslau lançou mão de seus esquemas sobre marginalidade para
prevenir-se de um eventual assalto. Observou em Douglas aspectos que
traduziam o perigo de um assalto. No fim das contas, descobriu que Douglas
era alguém que comportamentalmente afigurava-se com características
sustentadas pelo seu schema sobre “pessoas boas e dignas”.
Você pode me perguntar: e o que fazer para diminuir a possibilidade dos erros
cognitivos advindos dos equívocos esquemáticos?
Eu lhe respondo: o investimento de atenção e o questionamento sobre os a
prioris construídos socialmente podem colaborar para a diminuição dos efeitos
dos esquemas e estereótipos formados pela nossa consciência.
Atribuições
Normalmente, na vida cotidiana, tendemos a estabelecer relações de causa e
efeito aos eventos que acontecem. É também um mecanismo cognitivo
compreender e estabelecer as regras que regem os fenômenos. Na vida
prática, desejamos entender por que fulano está chateado, por que você tirou
nota baixa na prova, ou por que o colega de trabalho conseguiu uma
promoção. Não há saída: é um processo natural da nossa consciência
perguntar o “Por que?” dos eventos.
Saiba Mais
Os Schemas pessoais – ou self-schemas- dizem respeito aos scripts
direcionados ao autoconceito.
Apesar de vivermos 24 horas dentro de nossa existência, há a
possibilidade de não haver schemas construídos sobre atributos que
nos digam respeito.
Por exemplo: Marcelo é amigo de Carlos. Com base no seu
schema sobre fraternidade, Marcelo prevê os comportamentos que
acredita serem esperados por ele e concebe um conjunto de
comportamentos que espera de Carlos. Sabe, inclusive, que é um
excelente amigo, com base nos critérios que formam o seu schema.
Todavia, Marcelo nunca casou, não tem amigos casados e, portanto,
não tem construído um schema que possibilite o vislumbre de um
relacionamento matrimonial.
A Teoria da Atribuição irá discutir as formas como estes porquês são
estabelecidos: as formas como os indivíduos constituem explicações sobre
eventos que dizem respeito à si e aos outros. O seu fundamento parte do
pressuposto de que as pessoas são percebidas como causadoras de
fenômenos. A sua grande colaboração no campo da psicologia social destaca-
se por conta da influência das atribuições às reações afetivas e
comportamentais dos indivíduos.
Atribuição Intrapessoal
A atribuição intrapessoal se dá quando um indivíduo tenta atribuir causas para
os seus comportamentos. Esta atribuição é desencadeada à medida que estes
eventos sejam negativos importantes ou inesperados. Em outras palavras,
quando se pretende responder “por que eu fiz isto?” ou “por que eu não
consegui fazer isto?”.
Weiner (2000, apud TRÓCCOLI, 2011) sugere haver três (03) dimensões que
interagem para a formação destas atribuições:
Locus: o efeito foi causado por algum
elemento interno ou externo.
Estabilidade: o efeito foi causado por
uma variável mais ou menos constante
e estável.
Controlabilidade: o efeito foi causado
por um fator mais ou menos
controlável.
Abaixo, apresentamos a vocês um conjunto de possibilidades de atribuições e
suas relações com as dimensões da teoria da Atribuição Intrapessoal:
Caso 1:
João passou no vestibular de medicina mais concorrido do seu estado.
Diante da percepção de importância deste feito, João passou a
analisar quais os motivos de sua vitória.
É possível que este indivíduo atribua a sua aprovação à sua aptidão,
tendo em vista que o locus era interno (pela capacidade ser um
atributo dele), estável (por sua inteligência ser constante e estável) e
alta controlabilidade (tendo em vista que ele acredita já ter nascido
com uma capacidade superior aos outros para aprender).
Lembre-se que estamos em um caso hipotético e que esta percepção
é a do João. Mas é bastante comum indivíduos atribuírem suas
conquistas às suas aptidões, que por sua vez, apresentam esta
configuração (locus interno, estável e incontrolável).
Os efeitos das atribuições, como já foi informado anteriormente, podem
influenciar o comportamento das pessoas, tal como engatilhar diferentes
repercussões emocionais. Neste sentido, as atribuições positivas
de aptidão e esforço, por exemplo, fornecem expectativas de sucesso e
emoções positivas aos indivíduos. Já as atribuições de sorte, acaso e
ajuda fornecem baixas expectativas de sucesso, tal como emoções positivas
passageiras. Por outro lado, as atribuições negativas, em geral, eliciam
expectativas e afetos menos positivos.
Caso 2:
Mateus não passou no vestibular de medicina. Ficou bastante triste,
apesar de ter estudado bastante. Ao refletir sobre a sua derrota,
concluiu que esta havia se dado pela falta de aptidão.
Neste caso, Mateus apresenta um lócus interno (visto que foi ele quem
fez a prova e não era apto para obter êxito), instável (já que mesmo o
grande esforço não assegurou o a sua vitória) e incontrolável (já que
mesmo estudando, outras variáveis podem ter colaborado para que
ele perdesse. Ele não tinha o controle de todas as causas).
Vemos aqui um exemplo de atribuição intrapessoal negativa.
Atribuição Interpessoal
A atribuição interpessoal acontece quando os indivíduos tecem “teorias”,
explicações acerca do que ocorre com outras pessoas. E da mesma forma que
nós explicamos as causas de nossos comportamentos ou eventos através do
modelo tridimensional, podemos fazê-lo para o comportamento alheio.
A grande diferença entre a atribuição interpessoal para a atribuição
intrapessoal é que nesta última o indivíduo sempre fará julgamentos a respeito
de algo que correspondeu ou não seus objetivos, enquanto na atribuição
interpessoal as relações de causa e efeito podem ser deferidas para
quaisquer situações. Secundariamente, uma grande diferença na atribuição
interpessoal para a atribuição intrapessoal é que o observador define se o
observado é responsável ou não pelo evento em análise. Tanto quanto na
perspectiva intrapessoal, as atribuições interpessoais influenciam
comportamentos e afetos dos indivíduos.
Por exemplo, quando um indivíduo atribui ao outro a falta de esforço como
causa de um fracasso é natural que atribua a responsabilidade pelo fracasso
ao indivíduo observado (locus interno, instabilidade e pouco controle),
apresente expressões afetivas negativas, como raiva. Ademais, é provável que
reaja comportamentalmente repreendendo o indivíduo, retaliando ou
condenando-o.
Por outro lado, quando um indivíduo atribui exterioridade (locus externo) a
determinada situação que diga respeito a outrem, tende a não responsabilizar o
indivíduo e inclusive nutrir afetos relacionados à ajuda, simpatia.
Vemos, com a apresentação destes conceitos e construtos que estamos
constantemente agindo sobre o mundo com o objetivo de melhor apropriarmo-
nos dele. Tendo ciência destes processos é válido refletir sobre as heurísticas
utilizadas para esta apropriação, tomando consciência sobre o que de fato
acontece nas relações sociais.
Tema 2
Categorização Social: Atitudes e Representações
Sociais
De que forma as atitudes e representações sociais
colaboram para a adaptação dos indivíduos ao
ambiente social?
A Categorização Social é um sistema de orientação que através de
reconhecimento e diferenciação nos possibilita medir as interpretações e
julgamentos dos indivíduos em relação a outros indivíduos, grupos e eventos.
Falaremos nesta aula sobre dois construtos psicológicos que utilizam a
categorização social para exercerem seus efeitos: as Atitudes e as
Representações Sociais.
Atitudes
A todo o momento a nossa consciência está se direcionando ao ambiente
identificando-o, comparando-o, categorizando-o, sempre com a finalidade de
viabilizar a maior adaptação do indivíduo e ampliação da possibilidade de
antecipação em relação às demandas ambientais. De forma automática, nossa
consciência tenta estabelecer padrões sobre os elementos do mundo.
Neste processo, a avaliação dos elementos que tangenciam a interação dos
homens com a natureza se faz necessário. Este processo de avaliação permite
que os indivíduos organizem avaliativamente os elementos do mundo em
categorias: bom/ruim, bonito/feio, agradável/desagradável. E é por meio deste
processo de compreensão das coisas, através de categorizações, que os
indivíduos se posicionam em relação ao ambiente que o cerca. Este
posicionamento é denominado Atitude.
Atitude é uma tendência psicológica expressa pela avaliação de uma
entidade em particular com algum grau de favor o desfavor.
É possível afirmar que as atitudes podem influenciar a forma como as pessoas
pensam sobre o mundo e os elementos que o compõe, e, por conseguinte,
atuam diante do mundo que as cercam. Por exemplo, compreender que uma
pessoa têm um posicionamento positivo acerca de outra pessoa, ou a uma
posição política, pode permitir que outra pessoa compreenda como ela pensa,
sente-se e até como reagiria a certas situações. Ademais, é possível afirmar
que a compreensão das próprias atitudes pode colaborar para que os
indivíduos se posicionem de forma mais efetiva com as demandas da vida.
Vamos entrar em contato com as suas atitudes?
O que você pensa sobre a pena de morte?
O que você pensa sobre aborto?
O que você pensa sobre ateísmo?
Não confunda Atitude com Opinião.
A atitude é um posicionamento diante de um ente; a opinião é uma
elaboração sobre o posicionamento sobre este ente.
A atitude indica “bom ou mau”, “agradável ou desagradável”.
A atitude, como um processo psicológico, não pode ser vista, tocada. Todavia,
é possível fazer inferências acerca das atitudes dos indivíduos através da
observância dos objetos das atitudes - ou objeto atitudinal - o alvo para
onde certo indivíduo direciona a sua atenção/julgamento. Respostas positivas a
um objeto indicam atitudes positivas, enquanto respostas negativas indicam
atitudes negativas.
Não confunda Atitude com Comportamento!
Atitude é um posicionamento diante de um ente.
Por mais que você tenha atitudes negativas em relação a uma pessoa
não significa que você se comportará de forma negativa em relação a
ela. De outro modo, o fato de você ter uma atitude positiva em relação
a uma pessoa não implicará no comportamento positivo.
Você pode estar se perguntando: Mas como a atitude é formada? Ora, ela é
formada a partir da interação dos indivíduos com entes particulares. Não faz
sentido haver uma atitude frente a algo que não se conhece, você concorda?
João não pode ter uma atitude frente à arte japonesa, sem nunca ter entrado
em contato com tal cultura. Poderá, sim, após o primeiro contato, com base em
seu repertório, posicionar-se, formando a sua atitude.
Você pode perguntar mais: as atitudes são mutáveis? Sim. As atitudes antigas
podem ser suplantadas por novas atitudes. Estas últimas dependerão de
variáveis culturais, temporais e vivenciais.
Vencendo a atitude – (baseado em fatos reais)
Bartolomeu tinha uma atitude negativa sobre a homossexualidade
alheia. Inclusive, esta atitude de Bartolomeu quase mediou
comportamentos agressivos contra esta categoria de pessoas.
Acontece que a pessoa que Bartolomeu mais amava, sua irmã
Lucinda, percebeu-se apaixonada por outra garota.
Moral da história:
Lucinda viveu o grande amor da sua vida.
Bartolomeu teve a chance de rever a sua atitude frente à
homossexualidade.
E ficaram todos felizes para sempre.
É importante salientar que uma mesma pessoa pode ter atitudes diferentes
sobre um mesmo objeto em contextos diferentes. Por exemplo: você, por
algum motivo da sua vida, pode ter uma atitude negativa em relação a algum
estilo musical, de forma a evitar ouvi-lo. Todavia, em uma festa, com amigos,
você pode acabar se posicionando de outra forma frente àquele estilo. O que
aconteceu? A atitude frente ao objeto foi diferenciada por conta do contexto
onde este objeto estava interagindo.
Composição das atitudes
A discussão sobre a composição das atitudes ocupa terreno fértil no campo de
estudos da psicologia social. Observa-se, ao analisar as diferentes escolas de
pensamentos sobre as atitudes, um razoável consenso sobre a composição da
estrutura interna das atitudes, tangenciada por componentes cognitivos,
emocionais e comportamentais.
Componente Cognitivo: Pensamentos, percepções, crenças
sobre o objeto atitudinal.
Para que uma pessoa tenha uma atitude sobre algum objeto é
necessário conhecê-la.
Portanto, os processos cognitivos de sensação, percepção e
memórias estão agregados às formações de atitudes.
Componente Afetivo: Sentimentos, emoções relacionadas ao
objeto atitudinal.
Este componente é resultado da avaliação do objeto atitudinal.
Retratará a forma como o indivíduo se sentirá em relação ao objeto
atitudinal, interpretando-o qualitativamente (agrado/desagrado-
bom/ruim). Indicará sentimentos pró ou contra o objeto atitudinal em
questão.
Componente Comportamental: Ações e intenções diante do
objeto atitudinal
As atitudes fomentam um estado de predisposição ao comportamento.
Todavia, salienta-se que uma atitude não prediz, necessariamente, um
comportamento.
Apesar da abordagem que agrega estes três (03) elementos ser preponderante
no campo de estudo sobre atitudes, ressalta-se a existência de outros teóricos
que as concebem de formas diferenciadas. Por exemplo, alguns teóricos
afirmam que os sentimentos e emoções colaboram para a construção de
crenças sobre objetos atitudinais, sugerindo, desta forma, que as respostas
atitudinais são de exclusividade emocional (unidimensional). Há também outro
grupo de teóricos que sugere que as atitudes são de ordem afetiva e cognitiva,
por acreditar que a simples atitude não induz a um comportamento.
Comportamentos e atitudes
Apesar da crença geral de que o posicionamento em relação a algum ente (a
atitude) prediz a reação dos indivíduos em relação àquele objeto, as pesquisas
realizadas no campo da psicologia social não têm confirmado esta relação.
Portanto, é perigoso afirmar que uma atitude é a responsável por um
comportamento.
O motivo se dá pelo fato, entre outros, de haverem distintas variáveis
contribuindo/interferindo no comportamento alheio. Por exemplo: Maicon é
muito satisfeito com o seu trabalho (atitude positiva), mas não consegue
realizá-lo plenamente em virtude da falta de disposição de equipamentos para
produzi-lo ou por que os meios de produção não são adequados para ele, ou
simplesmente por que está de férias.
Podemos dizer, sim, que os comportamentos tenderão a ser mais
correspondentes às atitudes quanto maior for o interesse investido pela pessoa
no objeto atitudinal. Por exemplo: Marcelo é torcedor do Bahia. Foi
presenteado com um vale-presente para trocar por qualquer camisa de futebol.
É bem provável que Marcelo troque o seu vaucher pela camisa do Bahia, time
que investe afetos.
Representações sociais
Sabe-se que nós, humanos, somos seres relacionais, que desenvolvem suas
identidades e suas formas de pensar através da interação com as alteridades e
coletividades. É nesta interação que os conteúdos compartilhados
culturalmente formam o senso comum.
SENSO COMUM: Tipo de conhecimento produzido
coletivamente/socialmente com objetivo de explicar, sem
fundamento científico, os eventos da natureza.
O senso comum, conforme Jodelete (1998, apud ALMEIDA; SANTOS, 2011)
apresenta três (03) propriedades:
1. É socialmente elaborado e partilhado.
2. Tem orientação prática de organização do meio (material, social e ideal)
e de orientação das condutas e da comunicação.
3. Participa do estabelecimento de uma visão de realidade comum a um
dado conjunto social (grupo, classe, etc.) ou cultural.
Os estudos das representações sociais abordam a construção das crenças dos
indivíduos nesta interação com a coletividade. De uma forma simplificada, as
pesquisas sobre as representações sociais buscam a compreensão do senso
comum através dos métodos científicos.
A representaçãos social como compreensão social do mundo tem três (03)
características fundamentais: comunicar, reconstruir a realidade e viabilizar o
melhor manejo da natureza.
No que diz respeito à comunicação, as
representações sociais permitem que as
pessoas categorizem os elementos, eventos
e fenômenos de forma compartilhável e
compreensível coletivamente. Tendo em vista
a possibilidade desta conexão intersubjetiva
(capacidade de interação a partir de signos
significativos para a coletividade), podemos
dizer que as representações sociais modulam
e regulam as dinâmicas sociais.
Tendo em vista a dinamicidade das relações sociais, através da constante
comunicação e representação dos indivíduos nas coletividades, as
representações sociais colaboram para a reconstrução da realidade. Ora, já
que a realidade é apropriada e significada coletivamente e cotidianamente, a
construção e a revisão da forma de compreender o mundo (representações
sociais) se utilizam dos conteúdos significativos existentes nas relações entre
os indivíduos. Em consequência, as representações sociais fornecem o
direcionamento para a interpretação dos fenômenos e a apropriação da
realidade, favorecendo o posicionamento dos indivíduos em relação a ela.
Por último, entendendo-se que as representações sociais comportam os
conhecimentos sociais, fornecendo regras de pensamento e de ação para os
participantes das coletividades, é possível afirmar que elas permitem que os
indivíduos melhor situem-se no mundo e se utilizem dela de forma coerente.
Será que todos os grupos sociais compreenderão uma mesma piada?
A resposta é não. Grupos sociais que compartilham diferentes
conteúdos e códigos culturais (bases para as representações sociais)
provavelmente compreenderão uma mesma piada de uma forma
diferente ou equivocada.
As representações sociais permitem que uma piada faça sentido para
um grupo de pessoas de um mesmo grupo social.
Mas por que é importante estudar representações sociais?
Através dos estudos das representações sociais é possível investigar a forma
como grupos sociais pensam sobre determinado objeto ou assunto e por que
pensam sobre determinado objeto ou assunto. Compreender as
representações sociais permite que consigamos compreender a forma de
organização de determinados grupos, tal como compreender os processos de
pensamento subjacentes ao grupo, tal como explicar e antever
comportamentos.
É bastante importante para você, que vai trabalhar com comunidades, ou
gerenciando grupos, que entre em contato com os conteúdos subjetivos e
culturais que respaldam as crenças daquela coletividade. Desta forma, o
diálogo, a mediação de conflitos, entre outros, terá insumos mais coerentes
para acontecerem efetivamente.
Como realizar esta aproximação?
Os estudos das representações sociais podem ser executados através da
captura dos conteúdos contidos nos discursos, tanto das coletividades, quanto
dos indivíduos que a compõem. É possível acessar as representações sociais
também através das opiniões, atitudes, ações dos grupos sociais, e até mesmo
através dos conteúdos correntes nos meios de comunicação com os quais a
coletividade interage.
Vídeo
Para saber mais sobre as atitudes, assista agora ao vídeo: Categorização
Social e Atitudes, publicado na unidade da disciplina no Ambiente Virtual
de Aprendizagem.
Tema 3
Categorização Social: Estereótipos, Preconceito
e Discriminação
Qual a influência dos estereótipos na discriminação?
As relações humanas são marcadas por
padrões identitários. A formação de um grupo
presume identificação. A consciência de si
presume identificação. Dar-se conta do outro
presume identificação. A diferenciação
presume identificação.
No processo de identificação no mundo - e
do mundo - é fundemamental a
categorização social. Necessita da
demarcação do que é e do que não é, para
que haja maior controle sobre as ações dos
indivíduos sobre a sociedade e natureza.
É comum que os indivíduos realizem generalizações tomando como base
similaridades, em detrimento das diferenças. Isto se dá, pela necessidade de
agilidade nas respostas para o ambiente. Se por um lado, viabiliza maior
eficiência na interação e promoção da vida, por outro, expõe os indivíduos a
possibilidade de graves equívocos.
Os estereótipos, o preconceito e a discriminação fazem parte de uma cadeia de
natureza cognitiva, evolutiva e social: Em primeiro lugar, categorizamos grupos,
pessoas. Posteriormente, traçamos julgamentos a respeito destas categorias.
Por fim, nos comportamos com base nestes julgamentos.
Aparentemente sinônimos, no senso comum, destacam-se em diferenças no
campo de estudos da psicologia social, ao demarcarem particularidades em
seus efeitos e consequências.
Estudaremos nesta unidade a interconexão destes construtos e as suas
particularidades. Em adição, exemplificaremos os efeitos destes fenômenos
para a segregação social.
Estereótipo
A compreensão da formação dos estereótipos é de grande importância para a
gestão das relações humanas, principalmente no que tange as relações de
dominação, segregação e exploração. Isto se dá pelo fato do estereótipo ser a
base fundamental para a demarcação das diferenças entre os grupos e por
serem preditores de comportamentos. Ora, um comportamento de segregação
acontece com base em uma crença de que determinado grupo é diferente,
você concorda?
Estereótipos, conceitualmente, são crenças ou atributos compartilhados a
grupos ou pessoas, de forma consciente, ou mesmo inconsciente. Podem ser
positivos, negativos ou neutros. São formados a partir de generalizações
superficiais do mundo.
Sendo a crença um fenômeno cognitivo relacionado a um objeto,
podemos afirmar que o estereótipo é o componente cognitivo que
fundamenta o preconceito.
Mas para que servem os estereótipos? Eles são de todo ruins?
Não. Os estereótipos são muito importantes para a sobrevivência humana. Eles
colaboram para o curso da vida em sociedade e na viabilização das relações
entre os grupos. Colabora para que possamos antever situações sobre outras
pessoas, viabilizando a melhor adaptação dos indivíduos na interação com
elas. Os estereótipos categorizam o mundo social complexo, com a finalidade
de simplificá-lo.
Os estereótipos viabilizam economia de energia cognitiva, uma vez
que a sua utilização reduz a necessidade de investimento de atenção
e de processamento informacional.
Uma vez que o indivíduo não precisa lançar mão destes recursos,
pode investi-los em outras necessidades.
Os estereótipos se transformam em problemas quando apresentam-se de
forma rígida e impedem os indivíduos de adaptarem-se a novas necessidades.
Por exemplo: João utiliza-se de estereótipos negativos em relação a negros
(preconceito). O carro de João quebrou em uma estrada. Parou um carro com
um cidadão negro para oferecer ajuda. Com base em seu estereótipo, João
acabou negando a ajuda do cidadão negro e permaneceu na estrada por
longas horas.
Como visto na situação acima, a irreflexão acerca dos estereótipos podem
viabilizar prejuízos para os indivíduos. É por este motivo que é interessante que
tomemos consciência dos padrões sociais que sustentam nossos
comportamentos.
Os estereótipos podem ter quaisquer grupos de pessoas ou mesmo para um
indivíduo em particular como alvo. Pois, os estereótipos são a base para
diversas iniciativas, como as reações a diferentes tipos de pessoas.
A desconstrução de estereótipos é uma tarefa bastante complicada.
Curiosamente, os estereótipos não precisam de complexidades de
informações para serem formados. Portanto, são baseados em fatos
superficiais.
Mesmo oferecendo-se informações novas e contrárias ao que
sugerem os estereótipos em curso, é comum que as primeiras
informações obtidas sustentem os estereótipos de um grupo.
Isto sugere que a mera informação não tem eficácia para a formação
dos estereótipos.
Preconceito
Você se considera preconceituoso?
Quantos amigos de etnias diferentes da sua você têm? Você tem amigos
homossexuais? O que você pensa sobre união homoafetiva? Um beijo gay na
televisão é bacana ou te incomoda? Como você lida com as crenças religiosas
diferentes da sua? Você namoraria uma pessoa mais nova ou mais velha?
Você acha normal que mulheres paquerem pretendentes? A pessoa que
trabalha em sua casa come na mesma mesa e no mesmo momento que você?
Qual o nome do servente da sua empresa? Você namoraria com uma pessoa
portadora de HIV? Caso seu filho começasse a namorar com uma transexual
você aceitaria tranquilamente?
Sim, são várias perguntas. Muitas respostas serão positivas, outras negativas.
Provavelmente algumas delas demonstrem que você é preconceituoso. Sim,
você é. Em geral, todos somos.
Em realidade, é ingênuo imaginar que nós não temos nenhum tipo de
preconceito, afinal, o preconceito se desenvolve em diversos níveis sociais, é
ensinado institucionalmente nas escolas, na família, no trabalho, na mídia e
nos grupos. Acredite, o preconceito é uma arma cruel e sutil.
No Brasil, o país do carnaval e da diversidade cultural, vivemos uma ilusória
democracia das diversidades. Ilusória, por que ao mesmo tempo em que existe
um senso de cordialidade impressa na cultura deste povo, as práticas de
preconceito são sustentadas e reforçadas cotidianamente. Um exemplo claro é
acessível ao pensarmos que no Brasil as populações historicamente excluídas
são discriminadas, segregadas e desinseridas.
Imagine como deve se sentir uma criança
negra e gordinha que cresce tendo como
referências; bonecas da moda “brancas e
magras” e a apresentadora de televisão -
referência para uma juventude- que tem
assistentes de palco brancas, loiras e
magras.
Você já imaginou quais são as consequências destes detalhes para a formação
da identidade desta criança? Reflita sobre isto, com o agravante de morar em
um país com mais da maioria da população afrodescendente.
Caso a reflexão sugerida acima seja difícil para você, assista a este
vídeo para ajudá-lo a chegar a uma conclusão.
Mas o que é o preconceito?
Conceitualmente, o preconceito é uma atitude negativa. Atitude esta vinculadas
à crença em relação a algum objeto.
Enquanto Atitude, o preconceito carrega um conteúdo afetivo, geralmente
negativo, direcionados a um grupo específico. Observe que o preconceito tem
um alvo. E muitas vezes este alvo não tem qualquer influência na vida de quem
usa de preconceito. Ademais, é desnecessário lembrar que os preconceitos
historicamente respaldam guerras e genocídios.
Não há clareza teórica para responder o papel do preconceito na evolução da
espécie. Há autores que argumentam fazer parte da natureza humana, outros
afirmam fazer parte de um processo adaptativo social, outros acreditam que é
um processo educacional vinculado a um contexto cultural. Todavia, o mais
importante é compreender o seu processo e seus efeitos.
O preconceito é muitas vezes ensinado sutilmente através de músicas, piadas,
histórias. O problema é que estas músicas, piadas, histórias carregam consigo
conteúdos que encontram resistência na vida cotidiana das pessoas, e se
expressam, por conseguinte, de forma muito sutil, ou não.
“O pano branco é da paz. Com que embasamento?”
A frase acima é da música “Denegrida”, da banda “Simples
Rap’ortagem”. Reforça como cotidianamente, de forma sutil,
sustentamos a manutenção de preconceitos.
Observe trecho da canção:
O pano branco é da paz.
O boi que pega o menino que tem medo de careta tem a cara preta.
Denegrir a imagem é um sinônimo de prejuízo.
O uso cotidiano de signos com conotação pejorativa e preconceituosa
não é exclusivo para as questões étnicas, mas também para questões
de gênero e sexualidade.
Observe:
Uma mulher que tem preferências sexuais por outra mulher é
chamada de sapatona.
Um homem que tem preferências sexuais por outro homem é frutinha.
Observe que nenhuma destas alcunhas versa sobre os aspectos
positivos dos indivíduos.
O fato de uma pessoa ser negra, branca, heterossexual ou
homossexual não está correlacionado a qualquer padrão de
personalidade, ou de caráter, ou de produtividade ou de inteligência.
Como diminuir o preconceito?
Não é simples. O preconceito é arraigado por gerações e se apresenta muitas
vezes de forma automática. Uma sugestão é o fortalecimento da
autoconsciência acerca dos estereótipos que sustentamos, tendo em vista que
estes são os fundamentos do preconceito. Ao final da aula serão sugeridas
outras soluções para a diminuição da tríade estereótipo-preconceito-
discriminação.
Discriminação
A discriminação é o ato consequente do preconceito.
Na sociedade hodierna é apresentado de formas sutis e violentas (a forma
mais pungente). Realmente, diariamente podemos até pensar que não
discriminamos grupos, mas o fazemos.
O Brasil é um dos poucos países no mundo que tem elevador social e elevador
de serviço. Estes últimos para o transporte de empregados domésticos,
animais, coleta de lixo. Repito: empregados domésticos, animais e lixo.
Estariam eles na mesma categoria?
É comum que os empregados domésticos brasileiros tenham ambientes
reservados para as suas refeições, e em muitos casos, estes só podem realiza-
las após os patrões alimentarem-se. Isto é discriminação.
As ações discriminatórias estão bastante articuladas com a noção de poder
social, que por sua vez são sustentados por questões sociais e históricas dos
povos.
Como reduzir o preconceito e a discriminação?
É uma pergunta muito difícil. Já foi falado que a mera informação não tem um
poder eficiente para modificar os estereótipos. Sabemos também que a inércia
é um método não colaborativo para a redução destes fenômenos. O que fazer?
A reflexão crítica é um excelente meio para lutar contra o preconceito. O que
dificulta é que esta reflexão precisa partir do sujeito preconceituoso, que muitas
vezes não utiliza a autorreflexão para rever as suas posturas e valores.
Ouça a música “Lavagem cerebral”, de Gabriel O Pensador:
“Racismo preconceito e discriminação em geral
É uma burrice coletiva sem explicação
Afinal que justificativa você me dá para um povo que precisa de união
Mas demonstra claramente
Infelizmente
Preconceitos mil
De naturezas diferentes
Mostrando que essa gente
Essa gente do Brasil é muito burra
E não enxerga um palmo à sua frente
Porque se fosse inteligente esse povo já teria agido de forma mais
consciente
Eliminando da mente todo’ o preconceito
E não agindo com a burrice estampada no peito.”
Fonte: [Link]/hg27Md
Perez-Nebra e Jesus (2011) prepararam um conjunto de sugestões para que
você reveja seus estereótipos, preconceitos e discriminações no dia a dia,
colaborando, desta forma, para a diminuição do preconceito. Abaixo, o resumo
das ideias dos autores para você:
1. Tente evitar categorizações de grupos e pessoas no dia a dia.
2. Reflita sobre as ameaças que os distintos grupos eliciam em você
ou ao seu grupo.
3. Você se sente ameaçado? Esta ameaça é realmente real? Pode
ser, mas caso você não tenha clareza desta ameaça, escolha
interpretá-la como não ameaçadoras. (Aquilo que você pensava
ser uma indireta, pode não ser).
4. Os grupos ditos “majoritários” são construções sociais. Portanto,
não há sustentação biológica e científica para grupos mais
inteligentes, mais fortes, viris, entre outros.
5. Você tem ciência de seus preconceitos? Ninguém é obrigado a
ter de lidar com eles.
6. Tente conhecer grupos diferentes. Aprenda com a diversidade.
Isso vai ser bom, inclusive para aumentar o seu repertório cultural.
7. Reflita sobre os seus preconceitos e pense em outras
possibilidades.
Pérez-Nebra, A. R., & Jesus, J. G. (2011). Preconceito, estereótipo
e discriminação. In C. V. Torres & E. R. Neiva (Orgs.). Psicologia
social: principais temas e vertentes (pp. 217-237). Porto Alegre:
ArtMed.
Encerramento
Qual a importância da Cognição Social para as
relações humanas?
Nesta unidade, você aprendeu sobre a cognição social e a categorização
social. No que tange a cognição social, você aprendeu que existem processos
cognitivos que medeiam a nossa interação com o ambiente e com nós
mesmos, o que faz da cognição social um processo de suma importância para
a adaptação humana e interação social.
De que forma as atitudes e representações sociais
colaboram para a adaptação dos indivíduos ao
ambiente social?
Na segunda aula você aprendeu que as atitudes dizem respeito à forma como
os indivíduos se posicionam diante de um ente. A partir da nossa aula você
pôde compreender também que as representações sociais sustentadas pelo
senso comum, são construídas e mantidas socialmente. Tendo em vista a
compreensão destes conteúdos você pôde responder a esta questão,
afirmando que as atitudes e as representações sociais funcionam como
recursos mediadores para a interação com o ambiente.
Qual a influência dos estereótipos na discriminação?
Você entrou em contato com o conceito de estereótipo e já sabe que este é um
processo natural, importante, que precisa de cuidados no manejo, tendo em
vista o seu potencial em criar preconceitos e discriminações. Assim, você pode
responder à esta questão, afirmando que o estereótipo é a base para os
preconceitos e discriminações, tendo em vista que estes acontecem de forma
direcionada a grupos “alvo”.
Resumo da Unidade
Você aprendeu também sobre os Esquemas sociais e a teoria da atribuição.
Você compreendeu que somos avaros cognitivos, ou seja, temos a
tendência cognitiva para uma melhor adaptação com a natureza e aprendeu
também que estamos constantemente em busca de causalidades para os
fenômenos que dizem respeito a nós ou a outrem. As teorias das
atribuições intrapessoais e interpessoais apresentaram para você como se
dão estes processos.
Findamos a unidade falando sobre um tema polêmico e necessário: a
categorização social no processo de formação de preconceitos e
discriminação.
Com certeza esta unidade colaborou para que você tenha se tornado um
profissional cada vez mais crítico e consciente sobre si e sobre os
indivíduos que terão o prazer de trabalharem com você, ou serem servidos
por você.