Simulado de Filosofia: Ontologia, Ética e Epistemologia
Questões Objetivas
1. Pierre Hadot, ao analisar a figura de Sócrates, afirma que o discurso filosófico tem
sua origem em um "modo de vida". Considerando o conceito de "exercícios
espirituais", como se caracteriza a busca socrática pela verdade?
A) Como a construção de um sistema lógico fechado que substitui a experiência
religiosa.
B) Como uma prática de ascese intelectual que visa desvincular a razão de qualquer
compromisso existencial.
C) Como uma transformação do sujeito que, através da dúvida, busca alinhar seu
discurso (logos) ao seu modo de ser (bios).
D) Como uma técnica retórica superior voltada exclusivamente para o sucesso político
na Pólis.
E) Como a negação absoluta de qualquer conhecimento, tornando a filosofia um
niilismo prático.
2. No diálogo O Sofista, para definir o simulacro e a falsidade, o Estrangeiro de Eléia
precisa realizar o chamado "Parricídio de Parmênides". Em que consiste esse
procedimento filosófico?
A) Na negação da existência do Ser, provando que tudo é ilusão sensorial.
B) Na demonstração de que o "Não-Ser" possui, de certa forma, uma existência
enquanto "Diferença", permitindo o erro e a cópia.
C) No assassinato simbólico da lógica dialética em favor da retórica sofística.
D) Na prova de que o Um e o Múltiplo são realidades absolutamente separadas e sem
contato.
E) Na validação da percepção sensorial como a única fonte possível de verdade
absoluta.
3. Sobre o problema da Participação (Methexis) no diálogo Parmênides, Platão
apresenta o dilema da "parte e do todo". Se uma coisa sensível participa de uma Ideia,
qual aporia surge quando se considera a unidade da Forma?
A) A Forma torna-se dependente da mente humana para existir.
B) A Forma deixa de ser perfeita ao ser pensada por seres imperfeitos.
C) Se a Forma está inteira em cada objeto, ela se separa de si mesma; se está apenas em
parte, ela perde sua unidade e simplicidade.
D) A participação prova que o mundo sensível é mais real que o mundo inteligível.
E) Não há aporia, pois Platão demonstra que a unidade é um conceito puramente
matemático.
4. Na Ética a Nicômaco, Aristóteles distingue entre Práxis (ação) e Poíesis (produção).
Qual a importância dessa distinção para a definição de virtude moral?
A) A virtude pertence à Poíesis, pois o importante é o resultado externo da ação.
B) A virtude é uma Práxis, pois o fim da ação virtuosa está na própria excelência do agir
e na disposição do agente.
C) Aristóteles nega que a virtude tenha relação com a ação, focando apenas no intelecto
puro.
D) A produção de objetos materiais é o único caminho para se atingir a Eudaimonia
(felicidade).
E) A Práxis é inferior à Poíesis, pois ações sem produtos concretos são inúteis para a
Pólis.
5. Na estrutura da alma proposta em A República, Platão descreve o Thymós
(ímpeto/coragem). Qual a função específica desta parte da alma na manutenção da
justiça individual?
A) Satisfazer os desejos biológicos mais urgentes.
B) Calcular matematicamente as verdades eternas.
C) Atuar como aliado da razão para controlar os apetites e manter a harmonia interna.
D) Substituir a razão no comando da alma durante tempos de guerra.
E) Ignorar as leis da cidade em favor da glória pessoal absoluta.
6. Aristóteles define a alma no tratado De Anima como a Entelecheia (ato) primeira de
um corpo que tem vida em potência. O que essa definição implica sobre a relação entre
alma e corpo?
A) Que a alma pode existir independentemente do corpo, como uma substância
separada.
B) Que o corpo é uma prisão da alma, da qual ela deve escapar através da morte.
C) Que a alma é a organização funcional e a realização das capacidades vitais de um
organismo físico.
D) Que a alma é um vapor material que circula pelo sangue.
E) Que o corpo cria a alma através da percepção sensorial acumulada.
7. No diálogo Teeteto, Platão critica a tese de Protágoras de que "o homem é a medida
de todas as coisas". Qual o principal argumento platônico para provar que
conhecimento (episteme) não é sensação (aisthesis)?
A) A sensação é sempre verdadeira, mas o conhecimento pode ser falso.
B) Os sentidos captam o mutável, enquanto o conhecimento exige a apreensão de
universais estáveis que os sentidos não percebem.
C) O conhecimento é apenas uma memória biológica, enquanto a sensação é espiritual.
D) A sensação é coletiva e o conhecimento é estritamente individual.
E) Platão concorda com Protágoras, mas apenas para o conhecimento das leis políticas.
8. Sobre a Teoria das Quatro Causas de Aristóteles, o que caracteriza a Causa Final?
A) O material de que a coisa é feita.
B) A forma ou a essência que define o que a coisa é.
C) O agente ou motor que inicia o processo de mudança.
D) O propósito, o objetivo ou o "para quê" em vista do qual algo existe ou é feito.
E) O momento em que a coisa deixa de existir e se decompõe.
9. Em A República, a Analogia da Linha Dividida apresenta quatro estados mentais.
Qual deles representa o nível mais alto de conhecimento, voltado para os princípios
supremos (as Ideias)?
A) Eikasia (imaginação/crença em sombras).
B) Pistis (crença em objetos sensíveis).
C) Dianoia (raciocínio matemático-discursivo).
D) Noésis (intuição intelectual ou dialética).
E) Doxa (opinião comum da maioria).
10. Aristóteles afirma que a virtude moral é um "meio-termo relativo a nós". Isso
significa que a conduta ética:
A) É o ponto médio matemático exato entre dois extremos para todas as pessoas.
B) É uma média aritmética definida pelas leis do Estado.
C) É o equilíbrio entre o excesso e a falta, determinado pela prudência (phronesis)
conforme a situação particular.
D) É a aceitação de que qualquer comportamento é válido desde que traga prazer.
E) É a anulação total de todas as emoções e desejos humanos.
11. No diálogo Parmênides, surge o conceito de Exaiphnes (o Instante). Qual a sua
função ontológica na explicação da mudança?
A) Provar que o tempo é uma ilusão e nada realmente muda.
B) Explicar a transição paradoxal entre o repouso e o movimento, ou entre o um e o
múltiplo, que não ocorre no tempo linear.
C) Demonstrar que a alma é mortal e desaparece em um instante.
D) Justificar a vitória dos sofistas nos debates políticos.
E) Definir o momento exato em que um governante deve ser deposto.
12. O que diferencia a Filosofia Primeira (Metafísica) da Filosofia Segunda (Física)
no sistema aristotélico?
A) A Física estuda o que é imóvel, e a Metafísica o que se move.
B) A Metafísica estuda o ser enquanto ser e seus primeiros princípios, enquanto a Física
estuda o ser enquanto sujeito ao movimento.
C) A Filosofia Primeira é baseada em opiniões, e a Segunda em certezas matemáticas.
D) Não há diferença, pois Aristóteles considera a natureza a única realidade existente.
E) A Metafísica foca na ética, e a Física na estrutura da Pólis.
13. Na "Alegoria da Caverna", o termo Periagoge refere-se a:
A) À punição dos prisioneiros que se recusam a sair.
B) Ao processo de decoração das paredes da caverna com sombras mais nítidas.
C) À conversão ou reorientação total do olhar (e da alma) da escuridão para a luz.
D) À construção de novas correntes mais resistentes para os prisioneiros.
E) Ao ato de convencer o Sol a descer até a caverna.
14. Sobre a Phronesis (Prudência) em Aristóteles, por que ela é considerada uma
virtude intelectual, mas essencial para a ética?
A) Porque ela permite decorar todas as leis da cidade.
B) Porque ela lida com o que é necessário e eterno, como a geometria.
C) Porque ela é a sabedoria prática que permite deliberar corretamente sobre os meios
para atingir fins bons na vida humana.
D) Porque ela é um dom divino que dispensa a necessidade de hábito.
E) Porque ela garante que o homem nunca precise agir, apenas pensar.
Questões Discursivas
15. Explique a relação entre a Ideia do Bem (conforme a Analogia do Sol) e a
possibilidade do conhecimento humano em Platão. Como a ausência do Bem afetaria a
realidade das outras Formas e a visão da alma? (Máximo 10 linhas)
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16. Discorra sobre a importância do Hábito (Ethos) na formação do caráter virtuoso
segundo Aristóteles. É possível ser virtuoso apenas através do conhecimento teórico do
que é o bem? Justifique sua resposta com base na distinção entre virtudes dianoéticas e
éticas. (Máximo 10 linhas)
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