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O céu pesava sobre o mundo como um presságio. As nuvens,
negras e densas, se amontoavam sobre a torre mais alta do
velho castelo, como se ali estivesse para acontecer algo que
nem os próprios deuses ousassem impedir.
Mérida caminhava pelos corredores frios de pedra, envolta em
sombras que pareciam sussurrar seu nome. O vestido de linho
escarlate grudava-se ao corpo suado, abraçando o ventre
volumoso onde a vida insistia em crescer, mesmo em meio à
morte que a rodeava.
Era uma mulher que carregava lendas nos olhos. De beleza
indomável, com longas madeixas de um ruivo ardente que
parecia roubado do próprio fogo, olhos verdes como os campos
esquecidos da infância e uma postura que faria reis se
ajoelharem — Mérida não era feita para se curvar.
Mas ali estava ela. Acusada de adultério. Traída por seu próprio
marido, o lorde Herwin, um homem amargo e vazio, que nunca
suportou o fato de ter se casado com alguém que não o temia.
— Ela se deitou com Alastor! — rugiu Herwin diante dos
conselheiros do rei. — Vi com meus próprios olhos!
Mentira. Uma encenação desprezível. A verdade, porém, era
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ainda mais cruel.
Alastor, o capitão da guarda, a havia perseguido com olhos
famintos e palavras doces, que logo se tornaram ameaças. Ela
o rejeitara. Rejeitara mais de uma vez. E ele, ferido no orgulho,
decidiu se vingar. Disse ao lorde Herwin o que queria ouvir.
Bastou isso. A palavra de um soldado contra a de uma mulher.
Foi arrastada à força para as masmorras sob o castelo — um
útero de pedra, frio e silencioso. Ali, entre o cheiro de umidade
e o medo, as dores começaram.
— Vai parir como os ratos — cuspiu um dos guardas.
A parteira chegou tarde e com as mãos trêmulas. Mas Mérida
não gritou. Mesmo quando a dor parecia rasgar seu corpo ao
meio, permaneceu em silêncio, como se até o sofrimento
tivesse que ser contido.
Horas depois, um choro frágil rasgou o breu.
— É uma menina... uma linda menina — murmurou a parteira,
com lágrimas nos olhos.
Mérida a tomou nos braços com a ternura de uma deusa
vencida. Olhou para o rosto da criança — tão pequeno, tão
inocente, e ainda assim já marcado pela tragédia.
— Noelly... — sussurrou, a voz quebrada. — Você é minha
redenção.
Mas o destino não lhe daria tempo.
Os guardas voltaram. Um deles arrancou a menina de seus
braços com brutalidade. Mérida gritou, não de dor, mas de
desespero. Aquilo que amava, aquilo que a fazia respirar, lhe
foi arrancado como uma última punição.
— Não! Deixem-me vê-la! Só mais uma vez! Por piedade! —
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suplicou, de joelhos.
Suas súplicas se perderam entre os ecos de passos
apressados. A filha foi levada. Ela, arrastada.
No centro da vila, a multidão se aglomerava para assistir ao
espetáculo da injustiça. Gritavam “bruxa”, “adúltera”, “impura”.
Nenhum deles sabia. Nenhum deles viu. Mas todos estavam
prontos a julgar.
Mérida subiu ao cadafalso como quem sobe ao altar. Os
cabelos desalinhados caíam como sangue sobre os ombros,
mas o olhar... o olhar ainda queimava.
Lágrimas? Nenhuma. Medo? Já não havia espaço.
Ela olhou para o céu. Uma abertura tímida entre as nuvens
deixou escapar um raio de luz, como se o universo hesitasse. E
nesse instante, ela sorriu.
Um sorriso pequeno. Um adeus silencioso.
Quando a madeira cedeu sob seus pés, não foi apenas uma
mulher que morreu. Foi uma história que se partiu ao meio.
E nas sombras do castelo, envolta em panos toscos, uma
criança chorava, órfã de um mundo que nunca a quis inteira.
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Pecado número 2
As carruagens pararam em frente ao campo aberto, cercado
por árvores altas e uma brisa fresca que agitava os lençóis
estendidos entre as tendas. A grama, ainda úmida do orvalho
da manhã, brilhava sob o sol nascente.
Aurora desceu com o livro ainda nas mãos, os olhos atentos a
tudo ao redor. Não queria perder nenhum detalhe. Estavam
longe do convento pela primeira vez em anos — e aquilo, para
ela, soava como um prelúdio de liberdade.
Frida esticou os braços e respirou fundo.
— Ahh... cheira a aventura!
— Cheira a cavalo molhado e mato, respondeu Aurora,
franzindo o nariz.
Mas mesmo sua expressão cética não escondia o brilho sutil
nos olhos. Ela queria estar ali. Pela primeira vez em muito
tempo, queria estar em algum lugar.
— Atenção meninas, gritou a irmã Margaret. Vamos organizar
os dormitórios! Lembrem-se: oração antes do jantar, e o novo
padre será apresentado à noite na fogueira sagrada.
Aurora torceu o lábio com desdém. Fogueira sagrada? Que
belo teatro. Mas ela sabia que precisava ser paciente.
Mais tarde, enquanto ajudava Frida a organizar seus pertences
na tenda, ouviu as outras meninas comentando:
— Ouvi dizer que o novo padre é muito jovem... e bonito!
— Será? Dizem que ele já passou por várias igrejas da região.
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Sempre se destacava.
Aurora apenas escutava. O nome dele ainda não havia sido
dito. Mas o que realmente a intrigava era o motivo de alguém
tão jovem estar assumindo um convento tão isolado... e o que
teria acontecido na misteriosa “reunião dos coroinhas” antes da
morte de Jason.
Quando o céu começou a escurecer, a fogueira foi acesa no
centro do acampamento. Todos se reuniram. As freiras ficaram
mais próximas ao altar improvisado de madeira, e os jovens
sentaram-se em bancos de feno ao redor do fogo.
Aurora e Frida estavam lado a lado. O calor da chama refletia
no rosto da ruiva, iluminando seus olhos azuis intensos como o
oceano profundo.
— Ele está vindo, sussurrou Frida, apontando discretamente
com o queixo.
Do outro lado da clareira, um homem se aproximava. Usava
vestes escuras, mas leves, com uma cruz de ferro simples
pendurada no pescoço. Caminhava com firmeza, cabeça
erguida, olhar calmo e atento. Era alto, moreno e aparentava
ter não mais que trinta anos.
Ele parou diante da fogueira, fez o sinal da cruz e então falou
com uma voz suave, porém firme:
— Boa noite, filhos de Deus. Sou o padre Samuel, e é um
prazer conhecer todos vocês. Espero que este retiro traga luz,
clareza e fé aos seus corações... e talvez respostas àqueles
que as procuram.
Aurora sentiu um arrepio. Havia algo estranho na maneira
como ele dissera respostas. Como se soubesse. Como se a
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estivesse encarando diretamente.
Ela desviou o olhar rapidamente.
Frida, ao seu lado, sussurrou animada:
— Bonito, né?
— Cuidado, ele é mais esperto do que parece, respondeu
Aurora em voz baixa.
Naquela noite, ela não dormiu.
Ficou em sua cama improvisada, ouvindo o som dos grilos e o
farfalhar das folhas. Pensando em Samuel. No diário
escondido. Na dor antiga que ainda pulsava em seu corpo.
Ela não era mais criança. E agora, estava fora do convento.
Não era mais preciso silêncio. A verdade... talvez estivesse
perto demais.
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Ninguém respondeu, como sempre. O silêncio da igreja era
ensurdecedor. A única companhia era o eco da própria dor, e
aquilo era insuportável.
— Eu te odeio... — disse ela, agora em voz alta. — O Deus que
eu conheci nunca existiu. Porque se existisse, teria me livrado,
me protegido. Eu era só uma criança!
A raiva tomou conta.
— Onde você estava quando me bateram? Quando me tiraram
a voz? Quando me fizeram acreditar que a verdade era
pecado?
Ela se levantou num impulso, as mãos trêmulas, os olhos
inundados, o peito arfando. Não sabia se chorava por tristeza
ou por frustração. Mas, naquele momento, não sentia medo.
Sentia uma coragem amarga, como veneno.
— O que eu estou fazendo aqui ainda?! Por que continuo vindo
até você como se fosse receber alguma resposta?
— Garota, o que está fazendo aqui? O que está falando?
Quanta blasfêmia sai da sua boca... Nunca te doutrinaram, não,
garota?
A voz masculina soou firme e seca. Aurora se virou
bruscamente. O homem que estava à porta da igreja era jovem,
talvez com pouco mais de vinte anos, vestia roupas clericais
simples, mas limpas, e o olhar que lançava sobre ela era
severo, mas não cruel.
Ela recuou instintivamente, os olhos arregalados, sem saber
quem era — ou do que ele era capaz.
— Quem é você? — perguntou, com a voz baixa e firme,
mesmo assustada.
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— Sou o novo padre designado à Igreja Sesiom. Vim ver se o
templo estava pronto para a vigília de amanhã. Não esperava
encontrar... — ele deu uma breve pausa, observando-a —
...alguém questionando o Criador em voz alta.
Aurora o observava atentamente. Os cabelos castanhos
escuros estavam presos em um coque discreto, e seus olhos
eram claros, mas inexpressivos. Havia algo nele que não era
como os outros. Sua presença não a lembrava do antigo padre
— ao contrário, ela sentiu algo novo... incômodo, mas curioso.
— Se veio me repreender, pode voltar. — disse ela, erguendo o
queixo. — Já ouvi sermão demais por uma vida inteira.
— Não vim repreender ninguém. — respondeu ele com calma,
caminhando até o altar. — Só acho estranho alguém tão jovem
carregar tamanha raiva dentro de si.
Aurora estreitou os olhos.
— Não é raiva. É a verdade. Só que ela dói, e vocês têm medo
dela.
— Então você acha que sabe a verdade? — Ele a encarou,
agora mais de perto. — Acha que entende por que sofre?
— Entendo que não sou cega como as outras. E talvez seja por
isso que me punem.
Ele assentiu, cruzando os braços.
— Isso é mais perigoso do que imagina... mas também pode
ser o começo de algo maior.
Aurora piscou, surpresa com a resposta. Esperava julgamento,
castigo, ou ao menos uma ameaça. Mas as palavras dele...
pareciam esconder outro sentido.
— Quem é você de verdade?
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— Alguém que também já se perguntou o que fazia aqui. E
talvez, garota... talvez eu possa te ajudar a descobrir a resposta
que está procurando.
Aurora hesitou.
Por um instante, não se sentiu sozinha.
— Quem é você? O que está dizendo? — a voz de Aurora
falhou enquanto recuava, os olhos fixos naquela figura que
agora parecia muito menos um homem... e muito mais um
perigo.
Ela deu mais um passo para trás até sentir algo firme bater
contra suas costas. Era um altar de madeira, rústico e escuro,
com velas acesas nas quatro pontas, lançando sombras
dançantes pelas paredes. A cera escorria como lágrimas
congeladas.
— Como você ousa falar assim com seu Deus, garota? — a
voz dele soou como um trovão seco. — Você precisa ser...
doutrinada.
Aurora mal teve tempo de reagir. Num movimento cruel e
preciso, ele a agarrou pelo braço, empurrou-a contra o altar e
arrancou a cinta da própria cintura. Com uma brutalidade fria,
ergueu seu vestido, expondo-a ao ar gelado e à vergonha.
— NÃO! — gritou ela, desesperada.
Mas o som se perdeu no nada. Lá, tão longe das cabanas,
entre as árvores e o silêncio da mata, ninguém ouviria. Nem
mesmo os gritos mais dolorosos.
O primeiro golpe cortou o ar como uma lâmina. E veio o
segundo. E o terceiro. Aurora gritava, contorcia-se, mas era
inútil. Cada pancada queimava sua pele, mas o que mais doía
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era a lembrança: já estivera ali antes, naquele lugar de abuso,
embora com outro rosto, outro nome. A mesma violência.
"De novo... não de novo..." pensava.
Com os olhos marejados, fitou a imagem de Cristo acima do
altar. A vela mais próxima tremia, como se até o fogo tivesse
medo.
— Seu desgraçado... — sua voz, trêmula, carregava fúria. —
Como permite isso? Como se diz divindade se não protege os
inocentes? EU TE ODEIO!
O "padre" parou por um breve instante, respirando pesado,
como se as palavras dela fossem mais cortantes do que seus
golpes.
— Perdoa ela, Senhor... — murmurou, quase num sussurro
macabro. — Ela não sabe o que diz... ainda é só uma criança...
Não a condene...
Mas ele voltou a bater. E a cada golpe, algo dentro de Aurora
morria — mas algo novo nascia também. Uma raiva antiga,
sufocada por orações e culpa, começava a se erguer como
uma tempestade.
— Você... não se sente vergonha? — cuspiu, com os olhos
brilhando de lágrimas e fogo. — Espancar uma jovem? Isso
não é fé. É masoquismo. É doença.
Ele hesitou, mas não parou.
— E o que eles dirão, hein? Os outros? Quando souberem o
que você fez? Quando souberem que um homem de Deus... se
atreveu a tocar uma jovem assim diante da imagem do próprio
Cristo?
Agora sim ele parou. A cinta caiu. O rosto dele perdeu cor.
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Aurora riu. Uma risada fraca, entrecortada por soluços e dor,
mas viva. Resistente.
— Está com medo agora, padre?
— Insolente! — ele rosnou. — Acha mesmo que alguém vai
acreditar em você?
— Vamos ver... — ela sussurrou, os lábios partidos. —
Continue. Vamos ver em quem vão acreditar no final.
Foi então que ele a agarrou com ainda mais força, torcendo
seus braços para trás. O altar rangeu. Aurora travou. O ar ficou
mais pesado, como se o próprio tempo segurasse a respiração.
E naquele instante, ela soube.
Algo havia mudado.
Aquele lugar já não era mais só um templo profanado.
Era um campo de batalha.
E o inferno estava só começando.
— Você quer ter o que falar, garota? — a voz dele ecoou,
grave, arrastada, estranha.
Não era mais o tom do padre.
Era algo mais profundo. Mais sombrio.
Aurora congelou.
Aquela presença que a prendia ao altar, que a pressionava com
força bruta, não era mais o homem de batina que a flagelava
por blasfêmia. A voz que saía de sua garganta agora era como
se carregasse outra alma — ou nenhuma. Um vazio revestido
de ódio.
Ele apertava seus braços com força desumana. O altar rangeu
sob o peso dos corpos, as velas tremeluziram, ameaçando se
apagar. Aurora tentava se debater, mas o medo travava seus
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músculos. Seu coração batia tão alto que mal ouvia seus
próprios pensamentos.
— P-por favor... pare... — sua voz saiu baixa, engasgada. —
Eu te imploro...
A súplica veio do fundo de sua alma. Não era mais raiva, nem
provocação. Era pânico puro. Terror verdadeiro.
— Tão fraca... tão tola... — a criatura sussurrou, agora com a
boca tão próxima que ela podia sentir o hálito quente e pútrido.
— Sempre esperando que alguém venha te salvar...
Aurora mordeu o lábio até sangrar.
Ela sabia: aquele que falava... não era mais um homem.
E mesmo sem compreender o que exatamente habitava o
corpo diante dela, seu instinto gritava: corra, lute, fuja... ou
morra.
Mas ela não podia se mexer.
E agora, as velas começavam a apagar, uma por uma.
— Você acha que agora vai adiantar alguma coisa clamar? —
A voz dele cortou o silêncio com frieza. — Seu Deus não
existe... não foi isso que você mesma disse?
Aurora sentiu as palavras se cravarem em sua mente como
pregos. O suor frio escorria por sua nuca. A dor nos braços,
presos e forçados contra o altar, era nada comparado àquilo
que ela sentia por dentro: um medo antigo, primal, que não
encontrava nome — só desespero.
Ela se debatia, movida por puro instinto. Os joelhos batiam na
madeira, os dedos arranhavam o chão, e mesmo sabendo que
suas forças eram inúteis contra ele, ela lutava. Porque o que
vinha a seguir era impensável. Era o fim.
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— Por favor... por favor, pare... — sua voz vinha falha,
entrecortada de soluços, abafada pelo terror.
Mas ele não respondeu com palavras. A resposta veio em um
golpe brutal, que lançou sua cabeça contra o altar com
violência. A luz se apagou.
O mundo mergulhou em silêncio.
O tempo deixou de existir. Não havia som, nem forma. Apenas
a presença de algo sobre ela. Algo pesado. Algo que a
esmagava.
Quando Aurora voltou a si, não sabia quanto tempo havia se
passado. As velas ainda ardiam nas bordas do altar, mas o
mundo parecia estranho, enevoado. A dor vinha em ondas,
uma aflição nova, invasiva, incompreensível.
Tentou gritar, mas sua garganta só produziu um lamento rouco.
Ele ainda estava ali.
E então veio o grito — um grito rasgado, como se sua alma
escapasse por entre os dentes. O corpo dela se curvava, os
músculos em choque, o sangue se misturando ao suor e às
lágrimas.
— N-não... por favor... — ela chorava como nunca antes.
Cada movimento era uma tortura. Ela sentia ele dentro dela,
algo que nunca tinha sentido uma dor, um rompimento, um ato
que jamais havia ouvido falar. O altar — outrora símbolo de fé
— agora se tornara um instrumento de humilhação.
Aurora não era mais dona de si. Cada batida do coração era
um protesto inútil, cada estocada era um grito de sua alma,
cada tentativa de se mover resultava em mais dor. O corpo
estava despedaçado, mas a alma... a alma já estava se
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desfazendo.
Ela tentou rezar. As palavras de sua infância vieram à mente
como um reflexo. Mas morreram antes de sair da boca.
Um tapa atravessou seu rosto com força, e ali, naquele
momento, algo dentro dela quebrou.
Ela parou de lutar.
Não porque aceitou.
Mas porque não tinha mais forças.
Tudo virou vazio. Ela se ausentou de si mesma. Era como estar
enterrada viva dentro do próprio corpo.
Era assim que terminava?
Ele se afastou, e Aurora caiu sobre o altar, o rosto suado
colado à madeira fria, sem som, sem lágrima, sem voz. Cada
segundo era uma eternidade.
Do outro lado do altar, ele ajeitava as vestes como se estivesse
saindo de uma oração. Como se não tivesse acabado de
destruir uma alma.
Ela ainda tremia, suja, nua de toda dignidade, e sentia o
sangue escorrer como lembrança de que ainda estava viva.
Mas talvez... preferisse não estar.
— Agora você entende — disse ele com uma calma hedionda.
— Era isso que faltava. Agora está pronta para se arrepender.
Ela não respondeu.
Porque naquele momento, algo novo nascia dentro dela. Algo
amargo, venenoso. Não era mais fé. Não era mais dúvida. Era
uma fúria fria, crescente.
Era ódio.
Não como o sentimento cego e impulsivo, mas como uma
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semente sombria que criava raízes no fundo do peito, onde
antes havia apenas esperança.
Ela ficou de joelhos.
E mesmo sem conseguir rezar... jurou que sobreviveria.
Nem que fosse só para destruí-lo.
Nos instantes seguintes, tudo foi silêncio. O “padre” se afastou
com passos pesados. Ela ainda ouvia sua respiração, ou talvez
fosse a própria. Já não distinguia.
Quando conseguiu se erguer, as pernas fraquejaram. Mas ela
se agarrou ao altar e ficou de pé, como quem se recusa a cair
diante da própria ruína. Seus dedos escorregavam pelo sangue
seco que já manchava a madeira. Seu sangue.
Caminhou cambaleando até o canto da capela. Vestiu-se com
pressa, as mãos tremendo, a cabeça latejando. Ao se virar para
o altar uma última vez, viu a imagem de Cristo pendurada. A
vela abaixo dele ainda tremeluzia.
— Você viu... tudo — murmurou. — E não fez... nada.
Sua voz saiu fraca, mas firme.
Era sua última oração.
Ou sua primeira blasfêmia.
Aurora saiu da capela como uma sombra de si mesma.
O vento da noite cortava sua pele, e o frio da floresta pareceu
mais acolhedor do que qualquer presença humana. Ela não
sabia para onde ir. Só sabia que precisava sair dali.
Precisava respirar. Precisava existir. Mesmo quebrada, mesmo
vazia.
Atravessou os arbustos, as pernas arranhadas pelos galhos,
até encontrar o lago. Caiu de joelhos na beira da água,
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lavando-se com desespero. Tentava apagar tudo. Mas o corpo
não esquecia. Nem a alma.
Ela ficou ali até os dedos enrugarem, até o sangue se dissolver
na água, até sentir que ao menos a sujeira visível havia sumido.
O resto, sabia, não sairia jamais.
Voltou ao acampamento em silêncio, esgueirando-se pelas
sombras como um animal ferido.
Entrou na barraca sem fazer barulho. Frida dormia, e Aurora se
encolheu na própria cama, os olhos arregalados, as mãos
cobrindo a boca para conter os soluços.
O mundo havia mudado.
E ela... também.
Mas no fundo de tudo, sob a dor, sob o pavor, algo havia sido
aceso.
E era isso que a manteria viva.
Tudo estava distorcido.
As sombras dançavam nas paredes como espectros de um
inferno silencioso. Aurora estava ali, mas não estava. Sentia o
corpo pesar, a mente embaralhada, como se flutuasse num mar
de lembranças partidas, fragmentos de uma noite que preferia
esquecer… mas que insistiam em queimá-la por dentro.
Era um pesadelo. Só podia ser.
A cera derretida escorria lenta das velas ao redor, pingando no
chão de pedra como sangue coagulado. O altar diante dela era
um espectro profanado. As imagens sagradas — Cristo
crucificado, santos e mártires — pareciam deformadas à
meia-luz, com olhos ocos que a observavam em silêncio.
E ela… estava ali de novo.
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Presente. Presa.
Os dedos dele. O peso sobre seu corpo. A voz que agora
ecoava em sua mente como um trovão:
— Você acha que agora vai adiantar alguma coisa clamar? Seu
Deus não existe... não foi isso que você mesma disse?
Aurora gritava, mas não havia som. Sua boca se abria num
silêncio sufocante. A dor era real demais para ser ignorada,
mas seu corpo não respondia como deveria. Tentava se mexer,
tentava fugir, mas os membros pesavam como chumbo.
Tudo se repetia. Cada detalhe. Cada invasão. Cada instante de
horror.
Seu corpo relembrava, mesmo que sua alma suplicasse para
esquecer.
A madeira fria do altar. As mãos em seus cabelos. As palavras
murmuradas com crueldade. O cheiro. O gosto da cera, do
sangue, da sujeira. As lágrimas.
E então… a risada.
— Muito prazer, minha jovem — ele disse. — Me chame de
Hêlel. Foi muito bom te corromper.
Hêlel.
A palavra explodiu dentro de Aurora como um raio. Um nome.
Não era o padre. Não mais. Não havia mais fingimento, nem
véu, nem batina. Aquele que a destruíra não era humano. Era
algo que se alimentava de dor, de fé quebrada, de inocência
violada.
E naquele instante, ela viu.
O rosto dele se distorceu à sua frente. Os olhos negros como
carvão em brasa. A boca retorcida num sorriso de triunfo. E,
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por um instante, a sombra dele projetada na parede parecia ter
chifres. Era como se tudo o que Aurora temia tivesse ganhado
forma — carne, dentes, nome.
Hêlel.
— Muito prazer, minha jovem — ele disse com a voz arrastada,
como um sussurro vindo do abismo. — Me chame de Hêlel. Foi
muito bom te corromper.
Aquela frase ficou suspensa no ar.
Aurora acordou com um sobressalto.
O corpo suado, os lençóis presos entre seus dedos como se
tentasse se segurar à realidade. O coração disparado, os olhos
arregalados. Estava deitada em sua barraca. O som da floresta
ao longe. O vento balançando a lona. E Frida... Frida dormia a
poucos passos, virada de costas, em um sono tranquilo.
Aurora levou uma mão trêmula ao peito. Ainda sentia a dor. O
gosto da humilhação. O sangue, o altar, o nome...
Hêlel.
Ela levou as mãos ao rosto e chorou silenciosamente. As
lágrimas escorreram como se carregassem o resto de sua
alma. A realidade ainda parecia um eco do pesadelo.
Ou teria sido tudo real?
Ela olhou para si. Suas roupas estavam postas, mas
desalinhadas. Suas coxas ardiam. Seu ventre pulsava em dor.
E seu espírito... esse estava em ruínas.
Com esforço, encolheu-se no canto da barraca, tentando não
fazer barulho. Apertou os joelhos contra o peito, como se o
próprio corpo pudesse protegê-la do que já havia sido feito.
Na escuridão, envolta em silêncio e medo, Aurora não ousou
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fechar os olhos.
Porque agora ela sabia: o verdadeiro inferno... começa quando
você acorda.
Ela não sabia quanto tempo havia passado. O corpo
permanecia encolhido, e os soluços vinham entrecortados
como punhaladas no silêncio abafado da barraca. Tentava
abafar o som com a manta, sufocando os próprios lamentos
como se o mundo não tivesse mais espaço para a sua dor.
Mas dentro dela, tudo era um grito.
As imagens vinham em rajadas. As mãos frias. O altar
manchado. A voz demoníaca pronunciando aquele nome. A
sensação de ter sido quebrada por dentro — pedaço por
pedaço — até não restar mais nada além do vazio.
Ela não sabia mais quem era.
A garota que havia desafiado o falso padre. A que ousara
erguer os olhos e dizer que Deus a abandonara. Onde estava
ela agora? Havia sumido sob a sujeira e o medo. O que restava
era só Aurora... ferida... suja... silenciada.
— Muito prazer, minha jovem... Me chame de Hêlel...
A frase se repetia como um feitiço envenenado, como se
estivesse tatuada na sua pele, como se o próprio nome
estivesse gravado em sua alma como uma queimadura. Hêlel.
O som carregava algo profano, algo que não pertencia a este
mundo. Ela sentia isso em cada fibra de seu ser. Ele não era só
um homem. Não era apenas um monstro. Era algo... pior.
Aurora tremeu novamente.
O terror que sentira não havia se dissipado com o despertar.
Ainda a envolvia como um manto escuro. Cada vez que
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piscava, o altar voltava. Cada vez que respirava fundo, o cheiro
do sangue e da cera queimada retornava.
Ela queria esquecer.
Mas não conseguia.
Tentou levantar-se. Suas pernas falharam no primeiro impulso,
então se arrastou até um cantinho da barraca, onde o chão era
de terra batida. Ali, abraçou a si mesma, esfregando os braços
como se pudesse remover uma camada invisível de imundície
que insistia em grudar em sua pele.
Respirou fundo. Duas, três vezes. Seu corpo doía por inteiro,
mas não era o físico que mais pesava.
Era a alma.
Sentia-se usada, violada... arrancada de si. Nada daquilo era
sonho. A realidade era mais cruel que qualquer pesadelo. E o
nome... o nome ainda ecoava.
"Hêlel."
Ela então olhou para o teto da barraca, para o pedaço escuro
de lona iluminado fracamente pela lua. Perguntava-se se ainda
havia céu lá fora. Se Deus, em algum lugar, havia assistido ao
que fora feito com ela. E se sim... por que?
— Você viu... — sussurrou entre os dentes. — E não fez nada...
A voz saiu rouca, quebrada. Uma prece amarga, uma acusação
silenciosa que cortava mais do que qualquer faca.
Não havia resposta.
Nem haveria.
A única coisa que sentia crescer agora dentro de si não era fé.
Não era força. Não era esperança.
Era um tipo novo de dor. Fria. Metálica. Um broto escuro
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nascido do fundo de seu ventre e que subia até o peito como
uma trepadeira venenosa.
Ódio.
Um ódio que queimava em silêncio, que pulsava sem pressa,
mas firme, tomando forma.
Ela poderia não ter forças agora. Poderia estar quebrada,
sozinha, suja.
Mas não esquecia.
Nunca esqueceria.
Hêlel havia plantado algo nela. Algo que ele achava que era
submissão. Mas se enganava. Aquilo que nascia agora... era
uma promessa.
Uma promessa muda.
Uma semente de vingança.
Ela fechou os olhos, tentando conter o tremor do corpo. Seu
rosto ainda estava úmido, os olhos pesados de choro e
exaustão. Mas mesmo assim, ela não dormia. O sono havia se
tornado um inimigo.
Dormir era ceder espaço para que ele voltasse. Para que o
altar voltasse. Para que tudo se repetisse.
Então ela permaneceu ali.
Viva.
Silenciosa.
E pela primeira vez... vazia.
Mas dentro do vazio, algo crescia.
E quando chegasse a hora certa, Aurora sabia que não se
calaria de novo.
Não importava quem ou o que fosse Hêlel.
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Ela sobreviveria.
E o faria se lembrar de cada maldito segundo.
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Quando acordou, assim que o sol nasceu, Aurora mal
conseguia abrir os olhos. Sua cabeça latejava, e seu corpo
parecia ter sido atropelado por uma tempestade. As pálpebras
pesavam como pedra, e seus músculos estavam rígidos, como
se o próprio tempo tivesse congelado nela. O cobertor ainda a
envolvia, mas não trazia nenhum conforto. Era apenas um
tecido abafado que a fazia suar, como se prendesse nela os
últimos vestígios do pesadelo — se é que podia chamá-lo
assim.
Ela piscou devagar e só então percebeu que fora acordada
pela voz alegre demais de Frida.
— Aurora, acorda! Já está claro, temos que ir tomar o café da
manhã. A freira Margaret está esperando a gente lá fora! —
disse a amiga, sacudindo-a de leve.
Aurora forçou o corpo a se erguer. Os ossos estalavam, os
músculos imploravam por descanso. O rosto parecia carregado
com areia. Esfregou os olhos, percebendo o quão inchados
estavam. Devia ter chorado a noite inteira sem nem notar. Na
verdade, nem se lembrava de quando o sono veio — ou se
realmente dormira. Talvez tenha apenas desmaiado do
cansaço. Um cansaço da alma.
Frida não parecia perceber nada fora do normal. Continuava
falando sem parar, em um tom leve, fazendo perguntas em
sequência.
— Você está bem? Dormiu mal? Teve pesadelo? Está com
35
febre? Por que está com essa cara? Aurora? Aurora?
Ela mal conseguia acompanhar. O som da voz da amiga
parecia distante, abafado, como se falasse debaixo d’água.
Mas Aurora sabia que precisava dar alguma resposta. Não
podia levantar suspeitas. Ninguém podia saber o que havia
acontecido na noite anterior. Ninguém.
Forçou um sorriso de canto de boca. Um sorriso que não tinha
vida, mas foi o melhor que conseguiu.
— Estou bem... só cansada. — Sua voz saiu baixa, arranhada.
Frida franziu o cenho, desconfiada, mas logo sorriu também.
— Ah, você precisa de comida! Comida resolve tudo, você vai
ver.
Aurora assentiu, fingindo. Seu estômago estava embrulhado,
mas não pela fome.
— Pode ir na frente, Frida. Eu só vou me arrumar... já encontro
vocês.
Frida hesitou por um instante, mas acabou concordando.
Inclinou-se, deu um abraço leve em Aurora e saiu da cabana,
correndo em direção à freira Margaret, que as aguardava do
lado de fora.
Assim que a porta se fechou, o silêncio caiu pesado. Aurora
permaneceu sentada na cama por alguns segundos, os olhos
fixos no chão de madeira rústica. Inspirou fundo e passou as
mãos pelo rosto, tentando afastar os vestígios da noite anterior.
Mas não havia nada que pudesse apagar o que sentia.
Levantou-se devagar, ainda com as mesmas roupas do dia
anterior. A bainha da saia estava suja, o tecido amassado, o
cheiro ainda era familiar: fumaça, terra, suor... e outra coisa que
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ela se recusava a nomear.
Passou as mãos pelo cabelo, embaraçado e oleoso, e o
prendeu num coque alto, mais por hábito do que por vaidade.
Depois se olhou de relance num espelho rachado ao lado da
cama. A imagem que viu não era sua. Os olhos estavam
fundos, escuros. O rosto, pálido e inchado. Aquela não era a
garota que conhecia. Era outra. Uma que havia morrido na
noite passada, no altar da maldade, sob o corpo de um monstro
que se dizia servo de Deus.
Virou-se de costas para a entrada da cabana e levou as mãos
ao próprio corpo, hesitante. Primeiro tocou o pescoço, depois
os ombros... e finalmente o ventre. Sua pele arrepiou
instantaneamente. Não era dor. Era a memória. Uma memória
que seu corpo parecia carregar em cada poro.
Tocou os lábios com os dedos. Ainda conseguia sentir o gosto
metálico, o nojo, o desespero que a invadira enquanto era
forçada. O nome dele ecoava em sua mente como uma
maldição: Hêlel.
"Muito prazer, minha jovem... me chame de Hêlel... foi muito
bom te corromper..."
Ela se encolheu com o pensamento. Um arrepio gelado
percorreu sua espinha. Aquelas palavras ficariam com ela para
sempre.
Inspirou fundo. Precisava se controlar. Precisava... parecer
normal. Ninguém podia saber. Se contasse, quem acreditaria?
Ele era um padre. Ela era só... uma jovem rebelde, marcada
por questionar a fé, por se opor à igreja. Quem ouviria sua
versão? Quem a defenderia?
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E, além disso... havia algo mais. Algo que crescia dentro dela.
Algo que não tinha nome ainda. Uma raiva. Um desejo de...
justiça? Não. Justiça era um nome bonito demais. Ela queria
algo mais sombrio. Queria que ele sentisse.
Cada toque. Cada palavra. Cada segundo de terror.
Queria que ele pagasse.
Mas não agora. Não ainda. Agora, ela precisava sobreviver.
Respirou fundo mais uma vez, arrumou os ombros e esticou as
roupas. Caminhou até a bacia com água fria no canto da
cabana, molhou o rosto e o pescoço. A água gelada fez o corpo
estremecer, mas também ajudou a acalmar a mente.
Quando se olhou novamente no espelho, o rosto ainda estava
abatido. Mas os olhos... os olhos não tremiam mais. Eles
estavam firmes. Frios.
Era isso.
Ela não seria mais Aurora, a que chorava.
Seria Aurora, a que lembrava.
E um dia, isso bastaria.
Aurora vestiu-se com movimentos lentos, calculados, como se
cada dobra do tecido sobre sua pele servisse de armadura.
Escolheu um de seus vestidos típicos, simples, mas elegante, e
amarrou um lenço branco nos cabelos, deixando-os soltos,
caindo em ondas escuras pelas costas. Queria parecer como
sempre foi — a Aurora de antes — mas já não havia volta.
Aquela de ontem havia sido enterrada sob as sombras de uma
noite que não terminava dentro dela.
Parou diante da porta da cabana. Respirou fundo. O ar da
manhã era fresco, mas não o suficiente para acalmar o fogo de
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angústia que queimava sob sua pele. Forçou um sorriso. Um
sorriso vazio, bem treinado. Um disfarce. E então, com passos
contidos, cruzou a soleira.
O som das vozes logo a guiou. O murmúrio crescia à medida
que se aproximava da clareira onde o café da manhã era
servido. Pessoas riam, conversavam, cumprimentavam-se
como se o mundo estivesse em paz. Aurora sabia que era sua
hora de entrar na cena. Mais uma vez, o papel da jovem
educada, piedosa e serena.
Assim que os primeiros olhares recaíram sobre ela, o falatório
vacilou. Ela sentiu. Como lâminas invisíveis, os olhares a
cortaram por inteiro. Mas seguiu. Os olhos castanhos firmes, o
corpo ereto, o sorriso falso, intocado. Caminhou com leveza,
como se os passos não pesassem.
Foi então que o viu.
Ele.
Sentado entre os anciãos e as freiras, com a batina impecável,
mãos cruzadas sobre a mesa, postura de santo. O novo padre,
aquele que ocuparia o posto da igreja da aldeia.
Aurora congelou.
Seu coração socou o peito com tanta força que por um
segundo ela achou que fosse cair. O mundo pareceu girar em
círculos opacos. O som sumiu. E tudo o que restou foi o rosto
dele. Um rosto conhecido demais. Um pesadelo acordado.
Não. Não podia ser.
Ela piscou, forçando os olhos. O rosto parecia o mesmo, mas
algo estava diferente. Menos sombra nos olhos. Um leve
tremor na boca. Um novo olhar que quase fingia
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arrependimento.
Mas era ele.
Aurora desviou o olhar como quem se queima no fogo.
Encontrou Frida, sentada mais à frente, acenando com um
sorriso gentil, chamando-a para perto. Ela se obrigou a reagir, a
continuar respirando, caminhando, fingindo.
Sentou-se ao lado da amiga. Sorriu para todos à mesa. Um
gesto automático. Eles voltaram a conversar como se nada
tivesse acontecido.
Mas Aurora... Aurora estava em guerra por dentro.
A colher de sopa nas mãos tremia. O pão no prato parecia de
pedra. Ela fingia escutar as histórias das freiras, ria em
momentos apropriados, mas não ouvia nada de verdade. Sua
mente estava ocupada demais tentando entender o que via. O
homem que a violentou estava ali. Sentado com o olhar calmo
de um servo de Deus.
Ela apertou as mãos sob a mesa, as unhas cravando na palma.
Seu corpo inteiro reagia à presença dele. Cada músculo
tensionado, cada nervo à flor da pele.
Ele a olhou.
Por um segundo, seus olhos se encontraram.
E naquele instante, Aurora soube.
Ele sabia que ela se lembrava.
Ele sabia que ela o reconhecia.
E ainda assim, sustentava o olhar. Sem culpa. Sem vergonha.
Com a frieza calculada de quem se sente invencível.
Frida comentou algo, encostando o ombro no dela, e Aurora
assentiu com a cabeça sem nem entender o que havia sido
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dito. Ela queria vomitar. Queria fugir. Queria gritar. Mas ficou
ali. Firme. Silenciosa.
— Está tudo bem com você? — sussurrou Frida, inclinando-se
levemente.
Aurora virou-se e forçou mais um sorriso, os olhos ainda
brilhando de lágrimas contidas.
— Só não dormi bem — respondeu, a voz fraca, mas
controlada. — Um daqueles pesadelos ruins.
Frida segurou sua mão sob a mesa, apertando levemente.
— Vai passar — disse, com a doçura de quem nem sonhava
com a verdade.
Aurora desejou acreditar. Mas o olhar dele ainda a queimava. O
som da sua voz ecoava na memória como ácido.
"Muito prazer, minha jovem. Me chame de Hêlel. Foi muito bom
te corromper."
A frase cortava seu espírito como uma lâmina invisível. E ela
sabia. Aquele homem estava longe de ser apenas um agressor.
Ele era algo mais. Algo pior. Um mal que andava com a
máscara da fé.
E estava livre.
Ela precisava pensar. Precisava encontrar um jeito de expor a
verdade. Mas como? Ninguém acreditaria nela. A palavra de
uma menina contra a de um padre recém-chegado?
Mas ela não podia ficar em silêncio.
Não mais.
Era notável que meus olhos estavam inchados, muitos não
poderiam ter reparado por estarem longe, ou talvez pela
claridade do sol, mas por sua pele ser branca, era notável
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qualquer marca diferente que aparecesse na garota, a sorte é
que o lugar aonde sua cabeça bateu era tampada tanto pelo
lenço que estava em seu cabelo, quanto por seu propio cabelo.
ela não respondeu nada a frida deixando-a completamente
amparada, ela respirou fundo e reparou que o padre a olhava,
será que ele se lembra do que veio a acontecer na noite
anterior? Era a dúvida que se mantinha permanente em sua
cabeça
-Crianças, esse é o padre kai, ele vai ficar para ocupar o lugar
do padre Jason em nossa igreja se apresentem a ele
formalmente
Droga, ela sabia que isso não iria ser nem um pouco bom, a
chance que ela tinha para mudar vai ser essa agora, ela não
suporta o fato que talvez seu pensamento esteja certo, talvez
aquilo realmente aconteceu, a porque justo com ela? Porque
com ela isso acontecia.
Ela não conseguia por um segundo tirar aquilo da cabeça,
depois da apresentação e do café da manhã, ela tentou sair de
lá na surdina, para que ninguém a visse, porém no meio do
caminho o padre a parou e ela congelou olhando em seus
olhos, ela não sabia oque dizer, então ele a puxou pelo braço
mais ela conseguiu se soltar e saiu de lá correndo, ela não
suportava o fato de que ele foi quem a corrompeu, ela
precisava tirar a história a limpo porém, não poderia chegar
perto dele, ela não queria aquele cara de modo algum perto de
si, aquilo a perturbava.
Chegando na cabando ela desabou em planto, se sentando no
chão que era forrado por madeiras da mesma textura das
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paredes, ela se derramou em lágrimas naquela tarde que pra
ela nada importava, será que ela estava certa ou errada, será
que Deus realmente existia e algum dia a ajudaria? Mas ela
tinha blasfemado diante de seu altar, será ela ainda tinha
perdão?
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O sol ainda mal havia se levantado no horizonte de Aray, mas o
padre Kai já estava desperto, sentado no banco mais afastado
da igreja, com os olhos fixos na cruz à frente. O incenso
queimava lentamente, como se quisesse purificar algo que nem
mesmo a fumaça sagrada ousava alcançar. Seus dedos
entrelaçados se apertavam como se tentassem impedir o
descontrole dos próprios pensamentos.
A imagem da garota... Aurora.
Ela o encarou naquela manhã com olhos que tremiam. O
desconforto no olhar dela era quase palpável. Kai havia tentado
se aproximar, mas foi rejeitado com uma fúria que o
surpreendeu. Ela correu como se estivesse fugindo do próprio
inferno. Aquilo não era apenas medo. Era trauma.
Mas trauma de quê? O que exatamente tinha acontecido
naquela noite?
Ele fechou os olhos.
Recordava-se de tê-la encontrado diante do altar, sua voz
carregada de ira e blasfêmia. Aquilo o enfureceu. Como alguém
podia profanar a casa de Deus daquele jeito? Lembrava-se de
sentir uma presença... como se fosse tomado por algo maior.
Uma raiva que ele acreditava ser santa. Um ímpeto de corrigir.
De doutrinar.
Foi apenas isso?
A dúvida o corroía.
Ele precisava entender.
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Quinze anos antes...
Kai ainda lembrava do cheiro de fumaça. Era o dia do seu sexto
aniversário. A missa havia sido linda, e seus pais haviam
cantado com entusiasmo, como sempre faziam. Era um
domingo claro em Haon, com os sinos da igreja tocando em
festa.
Mas ao voltarem para casa, o mundo desabou.
Ninguém soube explicar como começou. Um clarão, depois as
chamas. Em minutos, a casa inteira estava tomada pelo fogo.
Os gritos da mãe ainda ecoavam em sua mente. O braço do pai
tentando protegê-lo, empurrando-o pela janela.
Kai sobreviveu.
Mas não havia mais ninguém.
Esperava que a vila o acolhesse, que o padre o abraçasse, que
os vizinhos o levassem para casa por uma noite sequer.
Mas não.
Chamaram-no de amaldiçoado. “O Filho do Mal”, diziam alguns.
“Trouxe fogo no dia do Senhor.” Nem mesmo a igreja o quis.
Kai batia na porta todos os dias, e todos os dias era mandado
embora.
Foi assim que passou a viver nas ruas.
Dormia onde podia. Se escondia do frio, da chuva e da
crueldade dos adultos. Às vezes, implorava por restos de pão.
Outras vezes, apanhava só por existir. E em noites mais
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difíceis, apenas chorava, sem saber se veria o dia seguinte.
Quatro anos se passaram.
Aos dez anos, Kai decidiu que aquilo não podia mais ser tudo.
Deixou Haon, com o corpo magro e o coração endurecido.
Caminhou por dias até chegar à cidade de Aray — mais limpa,
mais viva, mais estranha. Ali ninguém o conhecia. Era apenas
um menino sujo entre tantos outros que o mundo esquecia.
Mas foi nessa cidade que algo mudou.
Entrou na igreja como um pedido de socorro silencioso.
Sentou-se em um dos bancos e ficou ali por horas. E então, um
coroinha se aproximou.
— Você está perdido? — perguntou o garoto.
Kai apenas assentiu.
E o menino estendeu a mão.
Foi levado até o sacerdote, alimentado, lavado, e, pela primeira
vez em anos, olhado com bondade. Não perguntaram de onde
ele vinha nem o que havia feito. Apenas o acolheram.
Desde então, a igreja passou a ser tudo.
Seu abrigo. Seu lar. Sua identidade.
Aprendeu cada versículo, cada rito, cada doutrina. Absorvia
tudo com fervor, como se fosse a única forma de se manter
vivo. Ser bom. Ser obediente. Ser útil.
Ele havia prometido a si mesmo que jamais seria rejeitado de
novo.
No presente...
Kai abriu os olhos, puxando o ar como se voltasse de um
mergulho profundo. Levantou-se do banco, cruzou os braços
atrás das costas e caminhou lentamente pelo corredor da
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igreja.
Lembrava-se de Aurora em frente ao altar. Das palavras que
disse. Das acusações contra Deus. Era inadmissível. Mas será
que ele passou dos limites? Será que sua “doutrinação” havia
cruzado uma linha sagrada?
Ele precisava saber.
Foi até o refeitório, mas ela não estava lá. Um dos jovens disse
que Aurora havia voltado para a cabana.
Kai hesitou.
Mas foi mesmo assim.
Ao chegar à porta, bateu duas vezes.
Nada.
Abriu devagar. Ela estava sentada no chão, os olhos
vermelhos, o corpo encolhido. A garota tremeu ao vê-lo, e ele
sentiu uma fisgada no peito.
— Aurora... — disse baixo, quase em súplica. — Eu só quero
entender o que houve. Não me lembro de tudo com clareza...
mas... você parecia com medo hoje. Medo de mim.
Ela não respondeu.
Apenas o olhou como se encarasse o próprio pesadelo.
— Você... blasfemou diante do altar — continuou, a voz mais
fraca. — Eu lembro disso. Mas depois... depois não sei. Fui
tomado por algo. Senti que precisava... corrigir.
A garota engoliu seco, afastando-se.
Ele não a seguiu.
Apenas abaixou o olhar, como se buscasse respostas no chão
de madeira.
— Eu nunca quis te machucar. Nunca.
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E saiu.
Mas no fundo... ele não tinha certeza se isso era verdade.
Ele ainda sentia o cheiro do incenso queimado e da cera
derretida. A luz trêmula das velas parecia zombar de sua
confusão. Kai olhou ao redor da igreja em silêncio absoluto. O
altar, que sempre representara a ordem, a fé e o divino, agora
estava manchado. Sangue. Pingos escuros ainda marcavam os
vincos da madeira. A mente dele girava, como se estivesse
sendo puxada para um abismo sem fundo.
O que havia acontecido ali?
Tudo o que conseguia lembrar era da jovem ajoelhada,
blasfemando diante da imagem de Cristo. A raiva, o calor
percorrendo seu corpo, e então... o vazio. O tempo apagado.
Apenas sombras. E agora, o altar sujo. As roupas
desalinhadas. A sensação de que algo terrível havia
acontecido, algo que fugia de sua consciência. Algo que o
apavorava.
Ele se ajoelhou. Limpou o altar com água e panos que
encontrou na sacristia. Cada movimento seu era preciso, quase
obsessivo. Não podia deixar vestígios. Não podia levantar
dúvidas. As mãos tremiam, mas ele não parava.
Kai não entendia. Mas no fundo, havia um sussurro incômodo.
Como se algo dentro dele estivesse escondendo a verdade.
Frida
Frida caminhava pelos arredores do alojamento, os olhos
atentos, o coração pesado. Sabia que Aurora não estava bem.
Desde o momento em que a vira na mesa do café da manhã,
com os olhos inchados e o sorriso falso, soube que algo havia
51
quebrado dentro da amiga.
E isso a incomodava. A feria.
Aurora era sua irmã de alma. Estavam juntas desde crianças.
Ela sempre fora arredia, desconfiada, reservada — mas Frida
aprendera a decifrar seus silêncios. E aquele silêncio de
agora... era diferente. Era escuro. Cheio de dor.
Depois de vasculhar a entrada da capela, o refeitório e até o
campo de treino, Frida decidiu voltar ao dormitório. A porta da
cabana rangeu suavemente ao abrir. E lá estava Aurora,
encolhida no canto do quarto, chorando de forma quase muda.
Seus ombros tremiam como se carregassem o mundo.
Frida não disse nada no início. Caminhou até ela e a abraçou
por trás, apertando-a com ternura.
— Aurora? O que houve? Você sabe que pode confiar em
mim...
Nenhuma resposta. Apenas o choro.
Ela sentia o coração da amiga disparado contra o próprio peito.
Aquilo a assustava. Era como segurar algo que estava se
desfazendo diante de seus olhos. Mas ainda assim, se manteve
firme. Porque Aurora precisava dela.
— Eu estou aqui com você sempre, Aurora. Quando estiver
bem... vamos conversar, tá bom?
As lágrimas de Aurora molhavam sua túnica. Frida apenas a
envolveu mais forte. Sua mente rodava entre hipóteses,
temores e lembranças. Já vira Aurora ferida antes, mas nada
como aquilo. Nada que a fizesse tremer daquele jeito.
Levantou-se devagar, foi até sua cama e pegou algo
embrulhado em um pedaço de linho. Era uma correntinha de
52
prata com um pequeno medalhão. Um presente antigo que
guardava para momentos especiais.
— Quero que fique com isso por enquanto. Só até você se
sentir mais forte.
Entregou nas mãos da amiga com um sorriso triste. Sabia que
não podia forçar nada agora.
— Daqui a uma hora eu volto, e então você vai me contar tudo.
Eu prometo que vou entender, tá?
Saiu da cabana em silêncio. Do lado de fora, o céu começava a
escurecer e o ar ganhava a brisa da noite. O cheiro da lenha
queimando vinha de longe, misturado com as vozes alegres
das crianças no campo. Um contraste cruel com o que deixara
lá dentro.
Do outro lado do acampamento, Kai sentia o peso da dúvida.
Tentava encontrar uma forma de se aproximar da jovem.
Precisava de respostas, precisava saber se o que sentia era só
paranoia... ou culpa.
Por um instante, passou diante da cabana das meninas, mas
não teve coragem de bater novamente. Algo em seu instinto
dizia que era cedo demais.
Ele voltou ao altar, agora limpo. Ajoelhou-se e fechou os olhos,
tentando rezar. Mas sua oração era interrompida por imagens
confusas: o rosto de Aurora, a dor nos olhos dela, o sangue.
Seu peito se apertava.
— Senhor... se algo saiu de mim naquela noite... se fui tomado
por algo que não compreendo... me mostre. Me tire isso do
peito...
Mas não veio resposta.
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Apenas o silêncio da igreja, e o peso de um pecado que talvez fosse seu, mesmo
que não se lembrasse dele.
54
-Droga, nunca estive tão cansada quando estou agora
Lembrei do conteúdo que frida havia me entregue antes de sair
do quarto, sou muito grata a ela; oque frida havia entregado
finalmente consegui visualizar, no momento em que ela me
entregou eu nao estava conseguindo nem ao menos entender
oque ela estava a me dizer; quando peguei na mão era uma
carta, estavam amassada e em um papel um pouco
desgastado, mas ainda estava legível, oque era bom, eu irei
conseguir ler, abri a mesma e então finalmente pude entender
sobre oque era o conteúdo na carta; eu realmente pude ver que
tinha uma ótima amiga; a tempos atrás antes dela ter essa ideia
maluca de se tornar uma freira, ela estava me ajudando a
descobrir quem era minha mãe, a ideia por incrível que parece
foi dela, ela pensava que eu estava triste por ser uma das
únicas crianças a nunca ter visto os pais uma vez na vida, de
certa forma ela não estava errada mais eu não ligava muito
para esse fato, para mim era impossível eu consegui alguma
coisa, e então se viravam noites nas escondidas tentando
achar alguma coisa legível sobre minha mãe e por dias nunca
encontramos nada, oque de certa forma era muitk frustante, até
um dia finalmente acharmos algo, aqui fez minha cabeça
exprodir e eu finalmente me animar com o fato de que eu
realmente teria esperança de saber quem e minha mae, não
era muito valioso oque tinhamos achada, mas ajudaria muito e
poderíamos usar como ponto de partida, um nome, um único
nome e uma descrição que nos deixou estagnadas, ficamos
nos duas sem reação nenhuma sobre aquilo mas nao
desistimos, não entendemos o porquê mas continuamos vendo
55
se encontrávamos mais alguma coisa, porém foi em vão e
naquela noite graças a nossa distração quase fomos pegas,
mas frida era muito esperta e conseguimos gracas a ela
escapar dem ninguem suspeita de nada, ou pelo menos era
oque pensavamos, mas, a informação que tivemos foi muito útil
no decorrer da nossa investigação, realmente era um ponto de
partida, a maioria das coisas a ser feita foi por frida, que
naquela época era o terror do internato e mesmo assim
conseguia passar batido, oque me deixava muito triste muitas
vezes olhando pro teto sem saber oque fazer para ajuda-la
Até que certa noite, depois de um tempo insistindo muito para
não ir, mas também depois de tanto trabalho que tivemos para
conseguir, frida estava determinada a se encontrar com alguém
para pegar uma susposta pista de quem era minha mãe, eu
estava com muito medo de alguma coisa acontecer com frida
pois não conhecemos a pessoa cujo nos daria informação e
como era muito arriscado sair nos duas, frida disse que iria, ela
era mais rápida e também sabia bem se esconder, dizia que iria
ficar tudo bem, mas eu não acreditei, foi impossível segura-la e
dizer não para ela então depois de muito insistir ela conseguiu
sair, ela iria ao encontro de um homen da cidade, que disse
que passaria uma informação útil, não se identificou ou ao
menos deu pista do que era, mais naquela noite tudo mudou,
foi frustrante, chorei por noites me culpando do que havia
acontecido, mais nunca fiquei sabendo se ela realmente
conseguiu as informações que iriamos ter sobre minha mãe,
até hoje, 3 anos após o ocorrido, o dia que lamento até hoje e
tento trazer-la de volta para mim
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-Obrigado frida, eu te devi uma
Falei comigo mesmo após ler a carta, feliz por saber oque havia
acontecido, ainda tinha muitos furos naquela história, mas
aquilo foi o suficiente para mim, agora eu teria que ir um ponto
de partida, infelizme nao trazeria frida comigo; era oque eu
precisava, era uma carta de minha mãe, "Mérida" e uma carta
escrita no castelo de Sesiom a 16 anos atrás
Eu não poderia deixar de sentir um certo medo, era inevitável, eu ainda era humana,
ainda tinha sentimentos afinal de contas, mas, eu já estava cansada de ser a vítima,
de sempre depender de outras pessoas para conseguir fazer algo, eu não deixaria
isso em pune, da mesma forma que eu paguei eles iriam levar oque mereciam,
porem não deixaria frida sozinha, eu não poderia abandona-la depois de saber de
tudo que passamos juntas, depois de ela se entregar no meu lugar, sendo que ela foi
a única que esteve comigo apenas dessa loucura toda, ela nunca me abandonou, eu
teria que fazer algo aqui, perto dela, para poder protegê-la, porque se souberem que
ela me ajudou não sei oque podem fazer com ela, e não irei permitir que toquem em
um só fio de cabelo dela
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O peso da carta ainda pairava sobre meus ombros. Meus
dedos tremiam enquanto segurava o papel desgastado, e cada
palavra gravada por Mérida parecia uma faca girando devagar
em meu peito. "Disputada por dois mundos." Como ela pôde
simplesmente jogar isso como se fosse uma frase qualquer?
Como pôde me deixar com mais perguntas do que respostas?
Eu precisava de ar. Me levantei, as pernas vacilantes, e fui até
a bacia com a água que Frida havia deixado para minha
higiene mais cedo. Molhei o rosto, tentando afastar o inchaço
ao redor dos olhos e a sensação de derrota que me marcava.
Não podia continuar assim. Não agora. Havia algo a ser feito,
algo a ser descoberto. E eu estava sozinha com isso.
Guardei a carta com cuidado entre meus pertences mais
íntimos, em um local onde nem mesmo as freiras ousariam
mexer, apesar de sua constante lembrança de que "Deus está
vendo tudo". Ali, ela estaria segura. Ainda faltava ler a segunda
carta, mas agora eu precisava respirar. Sair. Pensar.
Quando abri a porta do quarto, dei de cara com Frida. Levei um
leve susto - ela estava com uma expressão séria, quase tensa.
Não disse nada, apenas segurou meu braço com firmeza e me
puxou de volta para dentro. Quase tropecei, mas fui andando
para trás, sem resistência. Frida me soltou, cruzou os braços e
se sentou na cama, me encarando.
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- Vai me dizer o que está acontecendo? - ela perguntou, com a
voz firme.
- Eu... - hesitei - Eu li uma das cartas. É da minha mãe. Ela se
chamava Mérida.
Os olhos de Frida brilharam por um instante.
- Mérida...? Então era verdade. Você realmente conseguiu.
Assenti lentamente, sentando na cama oposta.
- Mas a carta não diz quase nada. Ela fala como se eu
estivesse sendo disputada por dois mundos. Que meu pai foi
um bom homem. Que tudo o que estou passando não era para
ter acontecido. E... que me ama. Mas não explica nada, Frida.
Não diz quem eram essas pessoas. Não diz por que me
abandonou.
Frida abaixou o olhar, os ombros pesados.
- Talvez ela estivesse com medo. Talvez achasse que, dizendo
pouco, te protegeria mais.
- Proteger? Eu cresci sem saber quem eu era! Sem ter uma
resposta sequer! - exclamei, sentindo a raiva escorrer junto
com o choro preso na garganta. - E agora, tudo o que eu tenho
são meias palavras, e essa maldita frase: "disputada por dois
mundos". O que isso significa?
Frida suspirou, depois se levantou e foi até a pequena mesa do
quarto. Mexeu em uma das gavetas e tirou um papel dobrado.
- Antes de decidir virar freira, eu continuei investigando. Mesmo
depois do que aconteceu aquela noite... - sua voz falhou, mas
ela continuou. - Eu nunca parei, Aurora. Achei que devia isso a
você. E... encontrei isso escondido entre os registros do
mosteiro.
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Peguei o papel com cuidado. Era um pedaço de pergaminho,
velho e esmaecido, mas nele havia um símbolo. Um círculo
dividido por uma linha ondulada. De um lado, a imagem de uma
estrela de oito pontas. Do outro, uma chama invertida.
- Isso... já vi esse símbolo antes. Em um livro antigo que uma
noviça escondia. Disseram que era heresia.
Frida assentiu.
- Dizem que representa os dois reinos antigos: Lux e Umbra. A
luz e a escuridão. Segundo algumas lendas, existiam seres que
carregavam ambas as essências. Eram temidos, caçados... ou
usados como armas.
Senti um arrepio percorrer minha espinha.
- Você acha que...?
- Eu acho que você é mais importante do que pensa. E que
alguém está tentando garantir que você nunca descubra por
quê.
Ficamos em silêncio. O quarto parecia pequeno demais para
conter tudo aquilo. Meus olhos ardiam, e o nome da minha mãe
queimava na minha mente como um enigma maldito. Mérida.
Que segredos você levou consigo?
Frida me observava, como se soubesse o que eu estava
pensando.
- Vamos encontrar a verdade. Juntas.
Assenti, sentindo uma centelha se reacender em mim. Pela
primeira vez, não me sentia completamente sozinha.
Talvez ainda houvesse um caminho. E mesmo que ele fosse
sombrio, eu o percorreria. Pela minha mãe. Por mim. Por tudo o
que foi tirado de nós.
60
“Eu não sei se esta carta irá chegar um dia a você. Não sei se
estarei contigo até lá. Mas saiba, minha filha, seu pai foi um
bom homem. Talvez você esteja passando por coisas que não
mereça e eu te peço perdão por isso. Talvez esteja com uma
vida boa, e eu fico feliz por isso. Nunca abaixe sua cabeça,
filha. Você é disputada por dois mundos — mundos dos quais
você nunca deveria fazer parte. Um dia, se puder, me perdoe
pelos meus erros. Pois, independente de tudo, o que virá a
acontecer nunca deveria ter chegado a este ponto.”
Com amor, sua mãe, Mérida.
Li e reli aquelas palavras tantas vezes que o papel quase se
desfez em minhas mãos trêmulas. A caligrafia era suave,
inclinada, e mesmo com o tempo parecendo ter deixado sua
marca, era impossível não sentir a presença dela ali. Mérida.
Minha mãe. A mulher que me carregou por nove meses, a
mulher que me abandonou — ou me protegeu, eu ainda não
sabia — havia finalmente falado comigo. Mas o que ela dizia...
não era suficiente. Era como uma chave para uma porta que eu
não sabia onde estava. Um enigma com peças faltando.
"Disputada por dois mundos."
Essa frase não saía da minha cabeça. Que mundos eram
esses? Céu e inferno? Realidade e ilusão? Humanos e
criaturas do abismo? Minha mente já não conseguia discernir
entre o simbólico e o literal. Será que minha mãe falava em
metáforas ou... ela realmente sabia de tudo? Sabia do que
estava acontecendo comigo agora? Ela viu isso acontecer
antes? Teria sido isso que a fez se afastar?
— Droga... — murmurei, jogando a carta sobre a cama.
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Frida parecia tão determinada quanto eu em descobrir a
verdade, mas agora... agora tudo estava diferente. Eu
precisava protegê-la. Mais do que nunca. Ela era a única coisa
que eu ainda tinha. A única pessoa que havia ficado. Mesmo
sem entender, mesmo sem saber, ela sempre esteve lá. Como
podia retribuir isso sem colocá-la em risco?
— Tem mais. — falei, com a voz falha. — Outra carta.
— O quê?
Fui até minha pequena caixa escondida sob as roupas e tirei de
lá o segundo envelope. Estava bem mais desgastado que o
primeiro, como se tivesse enfrentado uma travessia. Frida se
aproximou, e nos sentamos juntas na beirada da cama.
— Essa... essa parece ter sido escrita pouco antes de ela
morrer... ou desaparecer. Eu não sei. — acrescentei, olhando
para o papel amarelado.
Abri a carta com cuidado. A tinta estava desbotada, mas ainda
legível. As palavras de Mérida naquela segunda mensagem
eram diferentes. Mais urgentes, mais desesperadas. Ela falava
de um nome que me fez estremecer:
"Hêlel."
Dizia que ele viria. Que o tempo não perdoava. Que a
promessa feita quando eu ainda estava em seu ventre havia
finalmente chegado ao prazo. Que ele viria me buscar. Que ele
não me queria morta, mas devota.
Eu me encolhi. Sentia o sangue gelar nas veias.
— Não pode ser... — murmurei. — Ele...
— Quem é Hêlel? — Frida perguntou, apreensiva.
Levantei os olhos para ela, mas não consegui responder de
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imediato. Aquela frase dita em meu pesadelo voltou como um
soco no estômago:
"Muito prazer, minha jovem. Me chame de Hêlel. Foi muito bom
te corromper."
Kai. O padre. A presença que me fazia encolher os ombros
mesmo quando me olhava com aparente bondade. O homem
que não lembrava o que havia feito. Mas eu lembrava. E agora
tudo fazia sentido. Ele era o receptáculo. O escolhido. Hêlel
estava nele. E eu... era o prêmio.
Minha respiração ficou pesada. Frida segurou minha mão com
força.
— Você está tremendo... Aurora, fala comigo, por favor.
— Não posso. Ainda não. — falei com os olhos marejados. —
Mas eu vou descobrir tudo. E vou acabar com isso, Frida. Por
você. Pela minha mãe. Por mim.
Ela me abraçou. Forte. E naquele abraço, por um momento, eu
não era a promessa, nem a filha da bruxa, nem a vítima. Eu era
só Aurora. E aquilo foi suficiente.
Mas eu sabia que não duraria. Algo viria. E eu precisava estar
pronta.
Frida se levantou e veio até mim, ainda sem dizer uma palavra.
Seus passos eram silenciosos, mas carregavam um peso que
eu não conseguia identificar. Quando seus braços me
envolveram num abraço inesperado, confesso que fui pega de
surpresa. Frida não era do tipo que demonstrava afeto com
facilidade, principalmente depois de tudo que havia passado.
Mas ali, naquele instante, havia algo diferente. Sincero. Quente.
Fechei os olhos por um segundo e retribuí o gesto, deixando
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que meus ombros relaxassem pela primeira vez em horas.
Senti o cheiro suave dos cabelos dela, uma mistura de sabão e
algo que me lembrava infância. Era reconfortante. Mas também
breve.
Me afastei devagar, como quem solta um segredo ao vento.
Caminhei até minha cama, sentando-me com as mãos
entrelaçadas, os dedos inquietos. Minha cabeça era um
turbilhão - sentimentos, memórias, perguntas que se
entrelaçavam e me deixavam sem chão. Mas no meio de tudo
isso, havia Frida. A única âncora que me mantinha de pé. Eu
não podia dizer a verdade ainda, mas precisava confiar nela.
Era a única esperança que me restava.
- Muito obrigada. - sussurrei, sem conseguir encará-la por muito
tempo. - Desde quando está com ela?
Frida sentou-se à minha frente, os joelhos quase tocando os
meus. A expressão em seu rosto já não carregava aquele frio
cortante de minutos atrás. Havia suavidade, quase um brilho
nos olhos. A velha Frida. Aquela que sorria mesmo em meio ao
caos, que transformava cada pequeno mistério em uma
aventura. A que eu sempre admirei.
Ela jogou uma mecha do cabelo loiro para trás da orelha,
afastando-a do rosto como se precisasse abrir espaço para o
que viria.
- Desde aquela vez que me pegaram... - disse, com a voz
baixa, mas firme. - Eu consegui o que queríamos. Eu só não
tinha conseguido voltar. E tem mais do que apenas aquelas
cartas.
Fiquei paralisada. Senti como se o tempo tivesse parado por
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um segundo. Tudo o que eu acreditava sobre aquela noite,
tudo o que me afastei de pensar durante esses anos... estava
errado?
- O quê? - perguntei, quase sem voz.
Frida deu um meio sorriso, mas ele não alcançou os olhos.
Estavam pesados, como se carregassem muito mais do que eu
poderia imaginar.
- Eu tinha que sumir. Eles estavam atrás de mim. Descobriram
que eu estava tentando descobrir sobre sua mãe... sobre o que
houve com ela... e sobre você. - ela suspirou, olhando para o
chão por um instante. - Eu me escondi, Aurora. Entrei para a
ordem como última opção. Sabia que aqui ninguém me
procuraria. Mas... nunca deixei de investigar.
- Você está me dizendo que passou três anos escondendo isso
de mim?
- Eu não podia contar. Não naquela época. Nem mesmo agora,
se não fosse pela carta. - ela me olhou de novo, os olhos mais
sérios. - Mas agora você precisa saber.
Eu não sabia se me sentia traída ou grata. Era estranho. Parte
de mim queria gritar, sacudi-la, perguntar o porquê do silêncio.
Mas outra parte... entendia. Ela se expôs por mim. Se colocou
em risco quando eu mesma já havia desistido.
- Frida... - comecei, hesitando. - Por que agora? Por que não
me contar antes?
- Porque agora você está pronta. - disse ela com convicção. -
Antes, você só queria esquecer. Se eu dissesse algo, você iria
se afastar de vez. Mas agora... você está sentindo o chamado,
não está?
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Engoli em seco.
- Chamado?
- Aurora, você acha mesmo que essas cartas são simples
coincidências? Que tudo isso que está vivendo é aleatório?
Sua mãe te deixou pistas. A primeira carta era só o começo.
Mas ela não confiava em ninguém... exceto em uma pessoa. E
foi com essa pessoa que eu falei naquela noite.
Eu me inclinei, atenta.
- Quem?
- O nome dele era Athel. Ele era um dos antigos conselheiros
de sua mãe. Morava em uma vila afastada, perto das colinas
que cercam Sesiom. Ele me entregou mais do que cartas. Me
deu um caderno. E me disse que, se você um dia estivesse
pronta, eu deveria te entregar.
Meu coração quase saiu pela boca.
- Você ainda tem isso?
Frida assentiu e se levantou. Foi até o fundo do quarto, abriu
um compartimento falso na parede de madeira atrás de um
velho armário e retirou de lá um embrulho de tecido amarrado
com tiras de couro.
- Está tudo aqui. - disse, entregando o embrulho em minhas
mãos. - Mas não leia agora. Você precisa estar calma. Precisa
estar preparada.
Olhei para o embrulho como se fosse feito de fogo. Era leve,
mas parecia carregar o peso de todo o meu passado. E, talvez,
do meu futuro.
- Você confia em mim, Frida?
Ela sorriu, e dessa vez, seus olhos brilharam de verdade.
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- Sempre confiei. Agora é você quem precisa confiar em si
mesma.
Abracei aquele caderno como se fosse minha última chance. E
talvez fosse. Havia algo em mim que dizia que, ao abrir aquelas
páginas, minha vida nunca mais seria a mesma.
E mesmo assim... eu queria abrir.
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Ainda sentada diante de Frida, eu tentava assimilar suas
palavras. "Tem mais do que apenas aquelas cartas". Aquilo
martelava na minha mente como um sino que anuncia algo
inevitável. Frida parecia hesitante, mas ao mesmo tempo
determinada. Seus olhos procuravam os meus em busca de
coragem — ou talvez aprovação. E então, sem dizer uma
palavra, ela se levantou e foi até sua mochila, escondida sob o
colchão improvisado no canto da cabana.
Ela voltou com um caderno pequeno e envelhecido. As pontas
estavam desgastadas, e a capa de couro já não tinha mais cor
definida. Meus olhos se fixaram nele como se aquele objeto
respirasse. Frida o entregou devagar, como quem entrega uma
relíquia sagrada. Eu segurei com cuidado, sentindo o peso —
não o físico, mas o emocional, o espiritual.
— Está tudo aí. As anotações da sua mãe... o que
conseguimos juntar… e o que ela mesma escreveu. Eu guardei
porque senti que um dia você precisaria disso. E acho que esse
dia chegou.
Minhas mãos tremiam quando abri a primeira página. Uma letra
firme e caprichada preenchia as linhas. Era uma caligrafia
marcada pelo tempo, mas cheia de emoção. Comecei a ler em
voz baixa, quase num sussurro, como se alguém pudesse ouvir
o que era secreto demais para ser dito em voz alta.
---
“Para minha filha,
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Se você está lendo isso, é porque o tempo finalmente cobrou o
que escondi por tantos anos. Você deve estar confusa, talvez
até com raiva de mim — e tem todo direito. Tudo que fiz foi
para te proteger, mesmo quando isso significou te abandonar.
Meu nome é Mérida, e sou mais do que apenas a mulher que te
deu a vida. Sou filha do limiar entre dois mundos.”
Minha respiração se prendeu no peito. Senti Frida se aproximar
e sentar ao meu lado, mas não consegui olhar para ela. Meus
olhos estavam fixos naquelas palavras como se fossem a única
coisa que existia no mundo.
---
“Você foi prometida ainda no ventre, antes mesmo de eu saber
da sua existência. O nome dele... você deve conhecê-lo. Ele se
esconde atrás de rostos humanos, manipula com suavidade,
como uma névoa escura. Seu nome antigo era Hêlel.
Sim, minha filha, você foi prometida a um demônio.”
Um calafrio me percorreu a espinha. Meu coração batia tão
forte que pensei que Frida poderia ouvi-lo. Um aperto tomou
conta da minha garganta, mas continuei lendo, mesmo que
meu corpo implorasse para parar.
---
“Eu não sabia. Fui tola. Quando descobri, já era tarde demais.
O preço pelo pacto da minha linhagem já havia sido selado. Ele
não queria apenas a mim... ele queria minha descendência.
Queria você.
Fugi. Fui caçada. E por fim, deixei você onde imaginei que
estaria segura — longe de mim. Mas o sangue, filha... o sangue
sempre encontra o sangue.”
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Fechei os olhos por um momento. Tudo fazia sentido agora. O
medo que me acompanhava desde pequena. Os sonhos. As
vozes. As sombras. E o olhar do falso padre... agora eu sabia.
Eu era um alvo desde sempre.
Frida colocou a mão sobre a minha, apertando com suavidade.
Não disse nada, mas sua presença era um pilar que me
mantinha de pé naquele mar de revelações.
---
“Se chegou até aqui, saiba que não está sozinha. Há aqueles
que querem te proteger. Há outros que querem te usar.
Entre eles, estará alguém dividido.
O receptáculo. Ele não saberá quem é. Não saberá o que
carrega. Mas terá poder para salvar... ou destruir.
Você precisa fazer a escolha. Não com ódio. Com verdade.
Encontre o espelho de Sesiom.
Lá você verá quem você é.
Lá você saberá quem ele é.
E o que fazer a seguir.”
Minha voz falhou ao terminar a leitura. Fechei o caderno com
delicadeza, como se estivesse encerrando um feitiço antigo. O
nome... Sesiom. De novo ele surgia. Primeiro na carta, agora
aqui. Era o elo que ligava tudo.
— O espelho... Frida, você já ouviu falar disso?
— Sesiom? É... uma lenda antiga daqui. As freiras falam como
se fosse só uma história para assustar as crianças, mas… —
ela hesitou — há uma sala trancada no subsolo do convento.
Nenhuma de nós pode entrar. Dizem que é lá que estão
guardadas as “relíquias profanas”. Já pensei nisso antes, mas
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nunca tive coragem de tentar.
— Então é pra lá que eu vou — respondi sem pensar. A
certeza me queimava por dentro como uma chama que
finalmente encontrou oxigênio.
— Não sozinha — Frida respondeu. — Se for, eu vou com
você. Sempre estive com você, Aurora. Não vai ser agora que
vou te deixar.
Sorri pela primeira vez em dias. Um sorriso pequeno, cansado,
mas sincero. Aquilo não era só minha história. Era nossa. Era o
começo do fim… ou do verdadeiro começo.
Depois de ler o caderno, o silêncio tomou conta da cabana.
Frida e eu estávamos sentadas lado a lado, com os olhos
vagos e os pensamentos pesados. Era como se o mundo
tivesse parado por um instante, nos permitindo assimilar as
verdades antigas que agora nos pertenciam.
Eu segurava o caderno com ambas as mãos, como se aquilo
fosse tudo o que restava da minha mãe — e, de certa forma,
era mesmo. As palavras dela estavam frescas na minha mente,
rodando como um redemoinho sem fim. Eu precisava de
tempo. Precisava de ar.
Foi quando escutamos uma batida leve na porta da cabana.
Três toques ritmados. Frida se levantou de imediato, como se o
gesto a despertasse de um transe. Ela abriu a porta, revelando
uma das meninas do acampamento, Sofia, com as bochechas
coradas pelo sol e um sorriso no rosto.
— Ei, vocês estão vivas aí dentro? A comida está pronta, se
não vierem logo, o padre vai comer tudo! — disse com um tom
divertido.
71
Frida soltou uma risada leve, como se estivesse finalmente
voltando à realidade. Eu apenas forcei um sorriso e me levantei
devagar, guardando o caderno dentro da mochila com o
mesmo cuidado de quem enterra um tesouro.
— Já estamos indo — respondeu Frida, antes de se virar para
mim e estender a mão. — Vamos, Aurora. Só por hoje... vamos
fingir que o mundo não está desmoronando.
Assenti em silêncio e aceitei sua mão. A brisa do lado de fora
era morna, e o cheiro de lenha queimando se misturava ao de
comida recém-feita. O acampamento vibrava com sons comuns
— risadas, vozes misturadas, pratos sendo organizados em
cima de tábuas improvisadas.
Nos sentamos juntas num dos bancos de madeira próximos à
fogueira. O almoço era simples: pão rústico, um ensopado
quente de legumes e raízes, e um pedaço pequeno de carne
salgada. Depois de dias de comida seca, aquilo parecia um
banquete. Frida se serviu primeiro e logo me passou a tigela. A
cada colherada, sentia a tensão do peito se dissolver um
pouco.
Ao nosso redor, o clima era leve. As crianças corriam entre as
cabanas improvisadas, os adultos trocavam histórias e
cochichos, e algumas freiras organizavam os cobertores que
seriam usados à noite. Era estranho, mas reconfortante. Eu
quase conseguia esquecer o peso de tudo que carregava.
— Me conta uma coisa — disse Frida, entre uma colherada e
outra — se você tivesse nascido em outro lugar... o que você
acha que teria feito da vida?
Pisquei algumas vezes, surpresa pela pergunta. Pensei por um
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instante.
— Acho que teria sido pintora. Ou escritora. Talvez alguém que
ficasse sozinha em uma cabana perto do mar, escrevendo
sobre coisas que não existem — respondi, rindo fraco. — E
você?
— Eu? — Ela fez uma careta. — Talvez arqueóloga. Sempre
gostei de enfiar o nariz onde não devia. Ou ladra de artefatos
mágicos... estilo aquelas heroínas dos contos antigos.
Rimos juntas, e pela primeira vez em muito tempo, o som da
minha risada não me soou estranho. Era como um fragmento
de mim que tinha sido esquecido.
Depois do almoço, todos ajudaram a limpar. Eu e Frida
recolhemos os pratos usados e os levamos até o pequeno
riacho que cruzava o acampamento. Lavamos tudo com água
fria, rindo das tentativas atrapalhadas de alguns meninos que
insistiam em transformar a tarefa em guerra de lama.
Mais tarde, as atividades se espalharam pelo terreno. Algumas
meninas mais novas costuravam pedaços de pano para
reforçar tendas. Outros acendiam lanternas improvisadas com
óleo. O sol já começava a se inclinar no céu, colorindo tudo
com um tom âmbar que deixava a floresta ao redor dourada,
quase mágica.
Frida me puxou pela mão e fomos até uma clareira onde
algumas pessoas jogavam um jogo com pedras, parecido com
damas. Sentamos na grama e observamos, trocando
comentários baixos e rindo como duas crianças escondidas
atrás de um segredo.
Por algumas horas, eu me permiti esquecer o caderno, as
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cartas, os pesadelos. Me permiti ser apenas Aurora — uma
jovem tentando existir no mundo.
Quando a noite chegou, as fogueiras foram acesas novamente.
As freiras conduziram uma pequena oração, mas desta vez,
nem Frida nem eu participamos. Sentamos ao longe,
observando o céu escurecer e as estrelas surgirem lentamente.
— Ficar aqui... é tão fácil esquecer o que está lá fora, né? —
murmurei, abraçando meus joelhos.
— É. Mas não dá pra fugir pra sempre, Aurora. Por isso temos
esses três dias. Pra nos preparar. Quando voltarmos, não vai
haver mais tempo pra dúvidas.
Assenti, sabendo que ela tinha razão. Mas, por agora, por hoje,
aquele instante de normalidade era tudo o que eu precisava. E
amanhã… bem, amanhã eu encararia o que fosse.
O segundo dia amanheceu silencioso. Nenhuma palavra foi
trocada entre mim e Frida até que o sol já estivesse alto, como
se o peso do caderno ainda estivesse pairando no ar, mesmo
guardado dentro da minha mochila, como um segredo em
estado de hibernação.
Levantei antes dela. Fiquei observando o movimento no
acampamento através da abertura da tenda. Era estranho ver
tanta normalidade num lugar onde todos, de alguma forma,
estavam fugindo de algo. Crianças brincavam de empurrar
pedras na lama, freiras caminhavam com cestas de frutas
secas, e algumas mulheres costuravam pedaços de lona como
se aquilo fosse parte de uma vida que sempre conheceram.
No entanto, para mim, nada mais parecia normal.
Durante esse segundo dia, nos mantivemos ocupadas
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ajudando os outros. Frida costurou junto com as freiras
enquanto eu organizei provisões com um senhor chamado
Miguel — um homem calado, mas que sorria com os olhos
sempre que encontrava comigo. Alguém me disse que ele
havia perdido a esposa e dois filhos anos atrás e desde então
vivia ajudando todos que encontrava.
— Às vezes, ajudar os outros é a única maneira de seguir em
frente — ele me disse enquanto empilhávamos sacos de
farinha.
Essas palavras ficaram ressoando na minha mente pelo resto
do dia.
Naquela noite, Frida e eu não falamos muito. Nos sentamos
próximas à fogueira, ouvindo uma mulher cantarolar uma
canção antiga em latim. A melodia era tão melancólica que
parecia contar a história de cada alma cansada que dormia sob
aquelas tendas. Frida encostou a cabeça no meu ombro e, por
um instante, nos tornamos parte da canção também.
No terceiro dia, os sorrisos começaram a desaparecer dos
rostos ao nosso redor. Era como se o acampamento inteiro
soubesse que o tempo estava acabando. Os olhares se
tornaram mais rápidos, os gestos mais cautelosos. Até o riso
das crianças parecia abafado.
— Está chegando a hora, não está? — perguntei a Frida,
enquanto tomávamos água ao lado do riacho.
Ela assentiu devagar, olhando para a correnteza como se
pudesse ver as respostas escondidas entre as pedras.
— Temos que sair amanhã ao nascer do sol. Precisamos ir até
as Montanhas de Kaela. É onde fica o Espelho de Sesiom.
75
— Você tem certeza disso?
Ela tirou do bolso um papel amarelado, quase ilegível de tão
antigo. Era um mapa rabiscado à mão, com marcas vermelhas
e símbolos que eu não compreendia. Ela apenas apontou para
um ponto que se escondia atrás de uma dobra do papel.
— Minha avó falava sobre esse lugar. Ela dizia que tudo
começou lá. A queda, os portais, os nomes que não devem ser
ditos. Se houver respostas, elas estarão ali.
Ficamos em silêncio. A tarde caiu como uma névoa espessa,
arrastando consigo o último suspiro de tranquilidade que o
acampamento tinha a oferecer. Frida me disse que naquela
noite teríamos uma última fogueira de despedida — uma
tradição entre os que passavam por ali antes de seguirem
viagem.
E assim aconteceu.
Todos se reuniram. As freiras cantaram em coro, alguns
tocaram flautas rudimentares, e até Miguel tentou contar uma
piada. Rimos, não pela piada, mas pelo esforço.
Frida me segurou pela mão, e eu senti sua palma suada. Ela
estava nervosa, e isso só aumentava meu próprio receio. Mas
ao mesmo tempo, havia uma certeza estranha no fundo dos
seus olhos — como se ela já tivesse aceitado o que nos
esperava.
Quando fomos dormir, o céu estava limpo, e as estrelas
pareciam nos vigiar.
Deitei na tenda, virada para o lado, sentindo o caderno dentro
da mochila como um coração batendo distante. Pensei em
Mérida. Em quem ela foi de verdade. Em tudo o que ela
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carregou sozinha. Tentei lembrar de sua voz, de seu toque, de
qualquer memória que ainda restasse viva em mim… mas só
encontrei fragmentos.
— Aurora — ouvi Frida sussurrar, com a voz embargada. — Se
algo acontecer comigo lá… se eu não voltar…
— Cale a boca — interrompi, sem me virar. — Não vai
acontecer nada. Você vai voltar. A gente vai voltar.
— Tá, mas se...
— Não quero promessas tristes, Frida. Só me prometa que vai
lutar até o fim.
Ela não respondeu. Mas senti sua mão tocar meu ombro. Fiquei
assim por horas, com os olhos abertos, ouvindo as batidas do
meu próprio coração e o som de alguém chorando baixinho em
outra tenda.
Naquela noite, sonhei com a minha mãe. Ela estava sentada
em uma pedra, ao lado de um espelho d’água, com os cabelos
soltos e os pés descalços. Ela não dizia nada, mas me olhava
como se já soubesse de tudo.
Acordei com o som das corujas se calando e dos primeiros
passos da alvorada ecoando entre as árvores.
Era hora de partir.
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O sol ainda mal tinha nascido quando deixamos o
acampamento. Não houve discursos, nem despedidas
emocionadas. Apenas acenos discretos e olhares que diziam
mais do que qualquer palavra. O caminho de volta ao internato
parecia mais longo do que quando o deixamos. Talvez porque
agora, eu sabia o que nos esperava.
Frida caminhava ao meu lado, mais calada do que o habitual. A
única coisa que a traía eram seus dedos, sempre se mexendo
— às vezes trançando os próprios cabelos, às vezes apertando
o cordão que levava no pescoço. Havia uma urgência
silenciosa no ar, como se algo nos empurrasse para frente,
sem permitir hesitação.
As trilhas estavam cobertas por folhas secas. O outono já se
fazia sentir com mais força. As árvores, antes exuberantes,
agora pareciam esqueletos observando nosso retorno.
Não trocamos mais do que três frases até que finalmente
avistamos os muros do internato.
Ele estava igual, e ao mesmo tempo, completamente diferente.
A estrutura ainda imponente, as janelas estreitas, os jardins
bem podados. Mas o que mais me assustava era como o lugar
parecia ignorar o tempo — como se nada tivesse acontecido,
como se eu ainda fosse a menina confusa que chegou ali pela
primeira vez, cheia de perguntas e cicatrizes mal curadas.
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Entramos discretamente pelo portão lateral, o mesmo que
usamos tantas vezes nas nossas fugas noturnas. Ninguém nos
viu. Ou, se viram, fingiram que não viram. O silêncio era uma
cortina conveniente que o internato sabia usar bem.
Subimos as escadas em silêncio e abrimos a porta do nosso
quarto. O cheiro de madeira envelhecida e sabão rústico ainda
pairava no ar. As camas estavam do mesmo jeito. Os lençóis,
esticados, como se nunca tivessem sido usados. O tempo ali
dentro era como uma pintura a óleo: estático, imutável.
Suspirei fundo e encostei a mochila na minha cama. Frida fez o
mesmo. Ficamos alguns segundos em pé, paradas, encarando
tudo como se estivéssemos vendo o quarto pela primeira vez.
— Parece... pequeno agora — ela murmurou.
Assenti, sem responder. Comecei a tirar minhas coisas da
mochila e dobrar as roupas sobre o colchão. Frida me imitava,
mas com menos pressa. Parecia hesitar em cada gesto, como
se cada peça tirada da mochila fosse mais uma certeza de que
estávamos realmente voltando.
Enquanto dobrava uma blusa, encontrei a carta da minha mãe
novamente. Aquela que eu já tinha lido tantas vezes que as
palavras quase pareciam ter se queimado na minha pele.
Coloquei-a com cuidado embaixo do travesseiro. Ao lado dela,
o caderno — o mesmo que ainda não tivemos coragem de abrir
por completo.
— Precisamos decidir o que fazer com isso — disse Frida,
apontando para o caderno.
— Eu sei... só... ainda não estou pronta.
Ela não insistiu. Apenas assentiu, com o olhar baixo, como se
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ela também ainda não estivesse.
O restante da arrumação foi feita em silêncio. As gavetas
ganharam novos segredos. Os armários foram preenchidos
com roupas e lembranças. E cada objeto colocado no lugar
parecia uma despedida de algo que nunca mais seríamos.
Sentei-me na cama, exausta. Frida, do outro lado, mexia nas
próprias coisas distraidamente. A janela deixava entrar a luz
suave da manhã. Lá fora, o pátio estava vazio, como se o
internato todo estivesse segurando o fôlego.
— Você acha que... tudo isso tem um fim? — perguntei.
Frida parou o que fazia e me encarou.
— Tem. Mas talvez não seja o fim que a gente quer. Talvez...
seja o fim que a gente precisa.
Essas palavras ficaram ecoando dentro de mim como um
sussurro incômodo.
Fomos interrompidas por uma batida leve na porta. Três
toques, depois silêncio. Um código. Um aviso. O coração bateu
forte no meu peito. Frida correu até a porta e a abriu só o
suficiente para ver quem estava.
— É só a irmã Lúcia — disse, aliviada. — Ela nos chamou para
o jantar. Disse que não devíamos ficar reclusas por muito
tempo.
Assenti, levantando com esforço. O corpo ainda doía da
viagem, mas era a mente que pesava mais. Coloquei a capa
escura por cima da roupa e seguimos para o refeitório.
A comida estava simples: sopa de batata e pão seco. Mas
aquilo bastava. Alguns rostos nos observaram discretamente.
Alguns com pena, outros com desconfiança. Nenhum deles
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ousou se aproximar. Frida pegou um pedaço de pão e me
empurrou metade como se fosse um gesto de reconciliação
com o mundo.
Comemos em silêncio.
Ao voltar para o quarto, o céu já estava tingido de um azul
profundo. As estrelas surgiam, tímidas, como se tivessem medo
do que viriam a presenciar.
Deitamos sem falar nada. O caderno estava ali, entre nós,
como um terceiro corpo, pulsando memórias que ainda não
tivemos coragem de encarar.
— Amanhã — sussurrei, já de olhos fechados. — A gente
começa amanhã.
Frida não respondeu. Mas senti sua mão tocar a minha, por
cima dos lençóis.
E assim, adormecemos. De volta ao lugar onde tudo começou.
Mas com a certeza de que estávamos prestes a descobrir onde
tudo realmente iria terminar.
O silêncio da noite pairava denso sobre o internato. As janelas
fechadas filtravam o luar, e os corredores estavam
mergulhados em penumbra, interrompida apenas por alguma
lamparina esquecida ou o ranger eventual das madeiras
antigas. Lá fora, o vento uivava de forma tímida, como se
respeitasse o peso que aquela casa guardava.
Padre Kai havia se instalado na ala reservada aos religiosos. O
antigo quarto de Jason agora tinha novas mãos rezando em
sua escrivaninha. Ele não dormia. Nunca dormia com facilidade
em um novo lugar. As paredes ainda lhe pareciam estranhas.
Os cheiros, os sons, a temperatura. Tudo era diferente. Tudo
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parecia carregado.
Sentado, ainda de batina, olhava para uma vela acesa à beira
da mesa. Seus pensamentos giravam em círculos, entre
memórias veladas e sensações que ele não sabia nomear.
Aurora. O olhar dela, mais cedo, ainda o perseguia. Tinha a
impressão de que havia muito por trás daquele silêncio. Uma
dor antiga. Um medo não confessado.
O som leve de passos interrompeu seus devaneios.
Não era o andar firme de uma freira em ronda, nem o tropeço
desajeitado de uma criança sonâmbula. Era algo hesitante.
Dolorido. Como se cada passada fosse feita com os pés
descalços sobre vidro.
Levantou-se devagar. A vela em mãos. Espiou o corredor.
Aurora.
Ela caminhava como quem não sabia se queria chegar a algum
lugar. O lenço havia escorregado um pouco da cabeça, e seus
cabelos caíam em desordem sobre os ombros. Usava uma
camisa de dormir simples, os braços cruzados, como se
tentasse se aquecer, mesmo sem frio.
Ela não o viu de imediato.
Apenas parou diante de uma janela, olhando o nada.
Kai observou por um instante, antes de se aproximar,
cauteloso, como quem teme espantar uma ave ferida.
— Aurora...?
Ela se virou, devagar. O olhar não trazia susto, mas cansaço.
Não disse nada.
Ele não insistiu. Apenas se aproximou um pouco mais,
mantendo a distância segura, a voz baixa, como se falasse a
82
um segredo.
— Não conseguiu dormir?
Ela balançou a cabeça, negando. Mas seus olhos diziam mais.
— Às vezes, o corpo se deita... mas a alma continua acordada.
As palavras flutuaram entre eles.
Ela o encarou por um tempo, como se estivesse ponderando
algo. Depois, como se tudo estivesse prestes a romper, ela
sussurrou:
— Eu queria que parasse.
— O quê?
— Tudo — disse, baixando os olhos. — Essa coisa que mora
aqui dentro. Esse... aperto. Essa lembrança. Eu queria
esquecer.
Kai a fitou, o rosto tomado por uma compaixão que não se
atrevia a ser piedade. Ele não sabia o que havia com ela. Não
sabia o que doía. Mas sabia reconhecer uma alma prestes a se
quebrar.
— Às vezes — respondeu, depois de um longo silêncio —
esquecer não é o que nos salva. É lembrar, mas lembrar com
força. Lembrar com voz. Com nome. Até que deixe de doer
tanto.
Aurora tremeu. Os olhos marejaram, mas ela não chorou.
— Eu... — ela tentou falar, mas a voz falhou. — Eu não
consigo. Tem algo... preso aqui. — Ela tocou o próprio peito,
como se tentasse arrancar dali.
Kai se aproximou mais um passo. Não tocou. Não invadiu.
Apenas ficou ali, diante dela, como se dissesse "estou aqui".
Aurora não resistiu. As lágrimas vieram, quentes, silenciosas.
83
Ela cobriu o rosto com as mãos, e o corpo cedeu, afundando
em si.
Kai, num impulso contido, apenas estendeu os braços devagar.
Não para segurá-la, mas para amparar o que restava.
Aurora se deixou cair. Não nos braços dele. Mas ao lado dele.
No chão frio do corredor, abraçada a si mesma, como uma
criança que não sabe mais onde é casa.
E ele, o padre que não compreendia todos os mistérios de Deus, sentou-se também.
Em silêncio. Ao lado dela. Com a vela entre os dois, como se a pequena chama
fosse tudo o que restava de luz naquela noite.
84
A resposta me dava calafrios: eu não sabia onde um começava
e o outro terminava. E o pior... talvez ele também não soubesse
o que habitava dentro de si.
E por isso, nada seria mais seguro do que manter essa coisa
— seja lá o que for — lá dentro. Escondida. Contida. Silenciosa.
— Acho melhor eu voltar pro meu quarto — murmurei, a voz
falha. Me escorei nas paredes para conseguir me levantar,
tentando disfarçar o tremor nas pernas.
Kai me olhou por um instante, como se ponderasse algo.
Talvez quisesse falar mais, perguntar, insistir. Mas não o fez.
— Tudo bem — respondeu simplesmente, com um leve aceno
de cabeça.
Me virei. Cada passo de volta ao quarto parecia pesar
toneladas, como se eu estivesse andando por dentro de um
sonho ruim. Meus sentidos estavam aguçados. Eu sabia que
logo começaria a ronda das freiras, e ser vista fora do quarto
seria um problema.
Mas então, no meio do corredor, algo mudou.
O ar ficou pesado. O calor noturno sumiu como se tivesse sido
sugado para longe. O chão rangeu de leve, mesmo sem que eu
me movesse. E um arrepio percorreu minha espinha.
Foi quando ouvi.
Uma voz. Familiar. Amedrontadora. Baixa como um sussurro,
mas nítida como um grito.
— Minha linda garotinha... o que acha que está fazendo?
Parei. Senti o sangue sumir do meu rosto. Aquela voz...
— Posso te dar um conselho? — ela continuou, com um tom
quase gentil, debochado. — Não saia do seu quarto esta noite.
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A não ser, é claro, que queira ver todos que você ama... morrer.
Meus olhos se encheram de lágrimas imediatamente. O
coração parecia querer escapar do peito. E o pior: eu não
conseguia me mover. Como se correntes invisíveis tivessem se
enroscado nas minhas pernas.
Fiquei ali, paralisada. E então, devagar, virei o rosto.
Nada.
O corredor estava vazio.
As sombras estavam imóveis. O silêncio de novo. Nenhuma
freira à vista. Nenhum padre. Nada.
Só eu... e o medo.
Com um esforço sobre-humano, recuei. Meus pés pareciam
afundar no chão a cada passo. Eu tremia inteira. Mas precisava
voltar. Precisava sair dali.
Chegando ao quarto, fechei a porta com pressa e me joguei
sobre a cama. Me cobri como uma criança que acredita que o
cobertor é escudo. E por um segundo desejei... desejei não
sentir mais nada.
Se eu não sentisse, não teria medo. Se não tivesse medo, não
haveria dor. E se não houvesse dor... talvez eu pudesse
esquecer.
Mas eu sabia. Sabia que Hêlel ainda estava ali. Em algum
lugar. Dentro dele. Dentro de mim. Na sombra do internato.
E ele não iria parar.
O sol ainda não havia vencido completamente a névoa suave
da manhã quando Frida entrou na cabana, empurrando a porta
com cuidado para não fazer barulho. Aurora dormia encolhida
sob os cobertores, os olhos fechados, mas o semblante
86
inquieto. Frida se aproximou devagar, tocando levemente o
ombro da amiga.
— Aurora... já está na hora. Vamos nos atrasar para a reza se
não levantarmos logo.
Aurora abriu os olhos devagar. Os cílios estavam pesados,
como se o sono tivesse sido uma batalha. Piscou algumas
vezes, tentando focar no rosto de Frida. Por um instante, não
respondeu. Só observou.
— Está tudo bem? — Frida perguntou, sorrindo gentilmente.
— Só estou cansada — murmurou Aurora, sentando-se com
esforço. — Acho que não dormi direito.
Frida não insistiu, mas o modo como olhou para Aurora
revelava que percebera algo a mais. Havia um vazio no olhar
da amiga, uma ausência silenciosa que não estava ali dias
atrás.
Ambas se levantaram e iniciaram a rotina da manhã. Lavaram
os rostos com a água fria da bacia de barro ao lado da janela,
escovaram os cabelos, ajustaram os lenços sobre as cabeças e
trocaram os vestidos pelas roupas do dia. Aurora fazia tudo
com movimentos automáticos, sem presença, como se seu
corpo apenas obedecesse aos hábitos, enquanto a mente
permanecia presa nas sombras da noite anterior.
Frida tentou conversar durante a higiene, puxando assuntos
leves — o novo padre, o retorno da Irmã Cunha, as flores do
jardim —, mas Aurora respondia com acenos vagos ou sorrisos
apressados, o pensamento sempre longe. O nome ecoava
como uma maldição silenciosa: Hêlel.
Enquanto caminhavam para o refeitório, o som dos sinos da
87
igreja chamou os fiéis para a oração da manhã. Aurora apertou
os braços ao redor do próprio corpo. As palavras ditas por
aquela voz invisível durante a noite ainda reverberavam dentro
dela como um eco cruel: "Não saia do seu quarto esta noite, a
não ser que queira ver todos que você ama morrer."
Elas se sentaram no refeitório entre as outras meninas e
freiras. O café da manhã era simples: pão escuro, frutas, leite
quente. Frida observava Aurora, que mal tocava na comida, os
olhos vidrados no vazio. Não era difícil perceber que algo
estava errado.
A oração veio em seguida. As vozes se uniam em uníssono,
formando um coral delicado, quase etéreo. Aurora murmurava
as palavras sem pensar nelas, repetindo por instinto. Sentia-se
como um corpo à deriva, fingindo que ainda pertencia àquela
rotina. Mas tudo parecia errado. O cheiro da madeira, o som da
reza, a presença das outras meninas — tudo ganhava um tom
estranho, como se ela estivesse presa em um lugar que já não
a reconhecia.
As tarefas da manhã seguiram com a mesma tonalidade opaca.
O sol se erguia no céu, iluminando os jardins, os corredores, os
pequenos afazeres cotidianos, mas nada alcançava a
escuridão que morava no peito de Aurora. Ela caminhava por
entre as demais com passos leves, sem se conectar de fato
com o ambiente. Frida permaneceu ao seu lado, como uma
sombra protetora, mas preocupada.
Foi só depois das obrigações, já quase ao final da manhã, que
Frida tomou uma decisão.
— Vamos para a biblioteca? — sugeriu, com a voz calma. —
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Precisamos começar aquele relatório das Escrituras.
Aurora hesitou, mas assentiu.
As duas caminharam até o velho edifício de pedra onde
funcionava a biblioteca do internato. O lugar era silencioso,
iluminado por janelas altas que deixavam a luz dançar sobre as
mesas de madeira. O cheiro de papel antigo e cera de velas
enchia o ar, e as estantes altas pareciam tocar o teto.
Sentaram-se em uma mesa mais ao fundo. Frida abriu um dos
livros sagrados, mas nem sequer fingiu que começaria a leitura.
— Aurora — disse, enfim, com os olhos firmes nos dela —, o
que está acontecendo?
Aurora não respondeu de imediato. Seus dedos passavam
pelas bordas do livro sem vê-lo de verdade. O silêncio entre
elas se estendeu até que Frida tocou sua mão.
— Você está distante. Assustada. Não se alimentou direito, não
sorri mais. E ontem à noite... eu fui até sua cama, e você não
estava lá. Só voltou depois de muito tempo. Eu te vi.
Aurora sentiu o estômago afundar. Pensou em negar. Pensou
em fingir. Mas a voz de Hêlel voltava à sua mente, ameaçando,
sufocando.
— Eu... — ela começou, a voz tremendo. — Eu saí, sim. Eu
não conseguia dormir. Fui caminhar.
Frida apertou seus dedos.
— E encontrou o padre?
Aurora assentiu com a cabeça.
— Sim. Eu... me encontrei com ele. Mas não como você está
pensando. Eu não queria... eu não queria conversar com ele.
Só... aconteceu.
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Frida esperou. Não interrompeu.
— Eu me senti... protegida por ele. Como se estivesse tudo
bem por alguns minutos. Mas depois... quando me afastei...
aquela coisa voltou. Aquela presença. Aquela voz.
Frida franziu o cenho.
— Que voz?
Aurora mordeu os lábios. Seus olhos se encheram de lágrimas,
mas ela respirou fundo antes de prosseguir.
— Ele me disse... aquela coisa, aquela voz... me disse para
não sair do quarto. Disse que, se eu saísse, todos que eu amo
iriam morrer.
Frida ficou em silêncio por um longo tempo. Seus olhos
buscaram os de Aurora, tentando entender o que ela não
conseguia colocar em palavras.
— Você acha que... isso foi real?
— Eu não sei. — Aurora respondeu num sussurro. — Mas
parecia real. Eu ouvi. Eu senti. O frio... a escuridão... tudo
voltou. E quando olhei para trás, não havia mais ninguém.
Frida engoliu em seco, visivelmente abalada.
— Aurora... o que quer que seja isso... você não está sozinha.
Entende? Eu estou aqui. Você precisa me contar tudo. Desde o
início.
Aurora abaixou os olhos.
Ela sabia. Era hora de rasgar o silêncio.
E a biblioteca, com seus livros calados e a luz suave da manhã, seria o primeiro altar
onde a verdade seria finalmente dita.
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A tarde caía sobre Sesiom com um céu estranho — opaco,
como se o próprio sol hesitasse em brilhar. As nuvens pesadas
não anunciavam chuva, mas algo diferente… denso, elétrico,
como um presságio. Aurora caminhava sozinha pela trilha que
levava ao velho mirante, um lugar esquecido entre as árvores,
cercado por pedras cobertas de musgo e histórias enterradas.
Seus passos eram lentos, arrastados. Cada músculo doía, mas
era como se fosse o corpo de outra pessoa. Ela sentia a pele,
os ossos, o coração — mas tudo parecia distante. O mundo ao
redor se tornara uma moldura esmaecida de um quadro que
não lhe pertencia.
E então veio o sussurro.
Fraco, como um sopro de vento em meio às folhas secas. Mas
ela ouviu. Vinha de dentro. Do mesmo lugar onde antes havia
fé.
— Lembra… — murmurou a voz.
Aurora parou.
A respiração travou no peito. O sussurro não era externo, mas
ecoava como se nascesse do fundo de sua memória. Ou de
algo ainda mais profundo.
— Lembra quem você é.
O chão tremeu levemente sob seus pés. Ela olhou ao redor,
mas não havia ninguém. Apenas árvores imóveis e silêncio. O
vento cessara. Os pássaros se calaram.
91
Ela se ajoelhou entre as pedras, apoiando as mãos na terra
fria. Estava prestes a chorar de novo — mas algo a impediu.
Uma sensação diferente tomou conta do corpo. Era calor. Um
calor que brotava da palma das mãos e subia pelos braços,
espalhando-se como sangue novo.
Aurora arfou.
Debaixo de suas mãos, a terra começou a escurecer. Umidade
emergia como se suas lágrimas tivessem sido absorvidas pelo
chão e devolvidas em forma de vida.
As pedras ao redor estremeceram. Uma delas — a maior,
fendida ao meio — começou a se mover, lentamente, como se
despertasse de um sono de séculos. Um som grave, surdo,
ressoou do subsolo.
Aurora recuou, assustada, mas não correu. Algo a mantinha ali.
Um fio invisível a prendia àquele momento.
O vento voltou a soprar — mas agora vinha em espirais,
girando ao redor dela, levantando folhas, gravetos, poeira. E no
centro daquele redemoinho, ela permanecia firme, como o eixo
de uma tempestade.
E então, pela primeira vez, ela ouviu a si mesma.
Não a garota quebrada. Não a filha da herege. Não a vítima.
Mas uma voz que parecia carregar séculos de história em um
único sopro.
— Aquele que te feriu conhece o nome das trevas... mas você
carrega o nome da luz esquecida.
Aurora sentiu os olhos arderem. Tentou piscar, mas quando os
abriu novamente, viu o mundo com outra cor. As árvores
tinham um contorno dourado. As pedras sussurravam
92
memórias. A terra parecia viva sob seus pés.
E em sua pele… as veias pulsavam com uma energia que não
era humana.
Ela caiu de joelhos de novo, ofegante.
O redemoinho cessou.
As folhas pousaram.
Mas a pedra fendida permanecia aberta… revelando, no centro,
um brilho fraco. Uma marca entalhada na rocha — a mesma
que ela vira no diário antigo de M. A.
Aurora estendeu a mão.
E ao tocar o símbolo, uma dor lancinante atravessou sua
palma.
Gritou.
Mas não de medo — de revelação.
Uma marca começou a surgir ali, na carne: delicada, circular,
como um sol invertido. Como um selo antigo.
Ela caiu de costas na terra, os olhos vidrados no céu
escurecido.
O poder havia despertado.
E não haveria mais como escondê-lo.
93
Não era mais o padre Kai que respirava ali, ajoelhado à sombra
do antigo altar de pedra. Era algo mais fundo. Algo que
observava o mundo por detrás dos olhos humanos, como se o
corpo fosse apenas um traje... uma máscara de carne.
Ele sentira.
O tremor.
O chamado.
O poder.
Levantou-se lentamente, como se cada movimento obedecesse
a uma ordem ancestral. Os olhos, antes castanhos, estavam
mais escuros agora — quase negros. A batina se movia com o
vento, mas o ar ao redor dele estava parado. Silencioso.
Hêlel caminhou pela trilha como se soubesse exatamente onde
ir. Não hesitou. A floresta parecia abrir caminho sob seus
passos, como se também temesse o que se aproximava. A
cada passo, sentia a vibração crescer — uma pulsação rítmica,
viva, nas entranhas da terra.
— Ela despertou... — sussurrou, com um sorriso lento, torcido.
As árvores se tornaram mais densas, os galhos mais curvados.
E então ele a viu.
Aurora.
Deitada entre pedras ancestrais, o corpo ainda arfando, os
olhos semicerrados, a pele suja de terra... e algo mais. O
símbolo em sua mão ainda pulsava em brasa, vermelho vivo,
como se tivesse sido entalhado pelas chamas do próprio
inferno — ou pelo sangue da terra.
Hêlel parou a poucos metros.
Observou.
94
Não com luxúria, não com piedade. Mas com reverência. Como
se estivesse diante de algo sagrado... ou perigoso demais para
ser tocado.
— Então... era isso que escondiam de você. — disse, quase
em tom de oração. — A filha do fogo antigo. A herança que os
santos quiseram enterrar.
Aurora ouviu a voz.
A mesma.
Abriu os olhos com esforço. O céu atrás dele estava cinza, mas
a sombra que ele projetava parecia mais escura do que
qualquer nuvem.
Ela tentou se erguer, mas as pernas fraquejaram.
Hêlel não se aproximou mais.
— Você sente, não sente? Correndo em suas veias.
Queimando. Crescendo.
Ela não respondeu. Apenas levou a mão marcada até o peito,
protegendo-se instintivamente.
— Esse símbolo... — ele apontou, os olhos brilhando. — É
mais antigo que qualquer cruz. Mais antigo que qualquer
escritura que conhecemos. E agora... está em você.
Aurora forçou-se a sentar, trêmula.
— Fique longe... — sua voz saiu rouca, mas firme.
Ele sorriu. Aquele sorriso que já a havia ferido. Mas havia algo
diferente agora. Ele não era mais o predador diante da presa
indefesa. Havia respeito... e temor.
— Sabe o que está acontecendo com você, Aurora? Sabe o
que significa essa marca?
Ela não respondeu.
95
— Significa que, por mais que tenham tentado apagar sua
linhagem, ela sobreviveu. E você é a chave. O selo foi aberto.
O poder desperto. E agora... nem o céu poderá detê-la.
Aurora se levantou com dificuldade.
A mão ainda ardia. Mas os olhos estavam diferentes.
Menos medo.
Mais consciência.
— Se o que você teme... é o que está em mim — disse ela,
com um tom gélido — então você escolheu a pessoa errada
para corromper.
Hêlel deu um passo à frente — e parou.
Algo o impedia.
O símbolo em sua mão brilhou com mais força. Um calor
invisível irrompeu ao redor dela, como um escudo instintivo. A
terra tremeu levemente sob seus pés. As pedras vibraram.
Ele arregalou os olhos. Recuou.
— Isso... não devia estar acontecendo ainda...
Aurora estreitou os olhos.
— E ainda assim, está.
Hêlel recuou mais um passo. Pela primeira vez, o predador
pareceu inseguro.
— A marca reagiu à minha presença. Isso significa que você já
está... ligada a mim. — disse, quase em sussurro. — E quando
a conexão se completar... nem você escapará.
Aurora apenas o encarou, agora firme, mesmo com o corpo
ferido.
— Eu não quero escapar. Eu quero destruir.
— Você não deveria ter saído esta noite... — disse Hêlel, a voz
96
grave como o estalar de galhos secos na floresta. — Foi um
erro. Um erro grave.
Aurora se mantinha de pé com dificuldade, a mão ainda
marcada ardendo contra o peito. O símbolo brilhava como
brasa viva, mas era ela quem queimava por dentro.
— Por quê? — murmurou, os olhos fixos nos dele. — O que
você é?
Hêlel avançou um passo. O ar ao redor dele parecia se dobrar,
mais denso, como se o próprio tempo parasse para ouvi-lo.
— Você é fruto de uma linhagem antiga, Aurora. A linhagem do
fogo. — Sua voz se tornava quase hipnótica. — Cada mulher
nascida sob esse sangue carrega em si o eco do poder
primordial. Bruxas... sim. Mas não como os homens pintam nos
sermões. Verdadeiras guardiãs dos elementos. Videntes.
Criadoras. Filhas da terra e do caos.
Aurora sentiu o coração gelar.
— Bruxas...?
— A cada três gerações, uma filha desperta com a chama mais
pura. E a essa, é destinado um papel maior. Uma promessa.
Um pacto. Desde o ventre... — Ele ergueu o queixo, os olhos
faiscando. — Uma esposa para mim.
Ela cambaleou para trás.
— Você é um... demônio.
— Fui um homem. — disse Hêlel, sem hesitação. — Fui um
mago. O mais poderoso do meu tempo. Temido por reis,
adorado por impérios. Mas meu poder... foi longe demais.
Rasguei véus que não deviam ser tocados. Mergulhei onde até
os deuses se recusavam a olhar. E por isso... fui condenado.
97
Fui lançado no abismo. Transformado.
Ele se aproximou mais, o tom quase reverente.
— Mas antes disso, eu amei. E ela era como você. Uma filha
da linhagem. A filha do fogo. Minha rainha... minha esposa. Foi
morta por caçadores, por padres sedentos de sangue, quando
souberam que seu coração pertencia ao “inimigo”. E eu...
desde então... observei. Aguardei. Rezei no inferno para que
uma nova filha surgisse.
— E você acha... que sou ela? — sussurrou Aurora, trêmula.
— Você é mais. — respondeu Hêlel. — É o retorno. A centelha
reacendida. E foi prometida a mim, Aurora. Desde antes de
nascer. O pacto foi selado no sangue da sua mãe.
Aurora ficou em silêncio. O nome da mãe pesava como pedra
em seu peito.
Hêlel sorriu, como quem saboreia um segredo antigo.
— Mérida era poderosa. Mais do que qualquer uma da
linhagem em séculos. Mas o mundo a corrompeu. O ouro, os
palácios, os títulos. O capitalismo da nova corte sufocou seu
poder. Ela se escondeu. Guardou o fogo. Viveu como uma
dama... mas era uma bruxa. E, no fim, tentou cumprir o pacto.
Ele se calou por um instante, como se lamentasse.
— Mas o marido dela descobriu. O lorde Herwin. Achou os
escritos, os rituais. Descobriu que ela havia me oferecido a
filha. E por amor... por amor, ele não a condenou como bruxa.
Sabia que a fogueira seria o destino de quem carrega meu
nome. Então a acusou de adultério. Inventou a mentira. Disse
que a viu com outro homem.
Aurora recuou, os olhos marejados.
98
— Ele a matou... para salvá-la?
— Matou sua honra. Deixou que morresse como pecadora —
mas não como herege. Preferiu a vergonha ao sacrifício. Um
gesto de amor… e covardia.
Aurora caiu de joelhos.
O mundo parecia ruir ao redor. Nada do que sabia era verdade.
Nem o amor, nem o luto, nem o próprio nascimento.
Hêlel se ajoelhou diante dela, sem tocá-la.
— E eu... eu acompanhei todas vocês. Cada geração. Estive ao
lado da sua bisavó quando ela se afogou num poço para fugir
dos inquisidores. Assisti sua avó enlouquecer sozinha num
convento. E vi Mérida... forte, linda, poderosa. Mas fraca diante
do medo.
Ele estendeu a mão, mas não tocou.
— Você, Aurora... é diferente. Você sobreviveu ao altar.
Sobreviveu ao esquecimento. Sobreviveu a mim.
Ela ergueu os olhos.
— Eu... não sou sua.
— Ainda não. — sussurrou Hêlel. — Mas o fogo dentro de
você... já é.
99
O mundo girava.
Não era mais a floresta diante de Aurora. Não era mais a
presença maligna de Hêlel. Era o escuro, o profundo, o silêncio.
Ela sentiu o chão sumir sob os pés, como se tivesse sido
tragada pela própria marca em sua palma. O corpo tombou
lentamente entre as raízes e as folhas, e quando os olhos se
fecharam, não foi o sono que veio — foi algo muito mais antigo.
No abismo de sua consciência, uma luz vermelha acendeu-se.
Não era calorosa. Era viva, flamejante, feroz. Aurora estava em
pé, nua de dor, envolta por névoa e fogo. À sua frente, uma
mulher surgia das chamas. Alta, esguia, olhos dourados como
brasa viva, cabelos longos como noite em combustão.
Seu corpo era envolvido por um manto translúcido feito de
fumaça e símbolos. O símbolo em sua mão era o mesmo de
Aurora, mas queimava como tatuagem viva sobre o peito.
Ela sorriu com tristeza.
— Eu sou aquela de quem ele falou — disse a mulher, sua voz
reverberando como trovão contido. — A primeira filha do fogo.
A que o amou. A que morreu por isso.
Aurora tentou falar, mas sua boca não se abria. O sonho — ou
a visão — a impedia de interferir.
— Meu nome foi perdido com o tempo. Esquecido entre as
cinzas da caçada. Mas minha alma permaneceu… esperando.
O que fizemos juntos, Hêlel e eu, foi real. Verdadeiro. Mas
também perigoso. Porque o amor entre a luz e a sombra gera
100
poder. E poder… atrai destruição.
A mulher se aproximou de Aurora. Seu toque não doía, mas
fazia a pele vibrar.
— Você é meu reflexo. A continuação daquilo que fui. O fogo te
escolheu. E agora, o ciclo se repete.
Aurora queria fugir, mas estava presa.
— Escute — disse a mulher, colocando a mão sobre o peito de
Aurora. — Dentro de você não há apenas medo. Há memória.
Há sangue antigo. Há poder bruto. Você pode se perder… ou
pode queimar até as raízes da mentira.
As chamas ao redor se expandiram, e uma nova figura surgiu:
Mérida.
Vestida de branco, com os cabelos emaranhados como os da
mulher que foi arrastada para a morte. Mas seus olhos estavam
vivos. Cheios de dor. E de amor.
— Minha filha… — disse ela, a voz trêmula. — Você me ouviu
enfim.
Aurora caiu de joelhos. As lágrimas escorriam dos olhos, mas
não havia som. Só emoção, crua.
— Perdoe-me — sussurrou Mérida. — Eu te entreguei antes
mesmo de te conhecer. O pacto foi antigo. Eu... não tinha
escolha. Mas tentei. Juro que tentei quebrar. Escondi você.
Fingi ser fraca. Deixei que pensassem que fui adúltera, que fui
desonrada… porque o verdadeiro crime me queimaria viva.
Ela se ajoelhou diante da filha. Pegou seu rosto entre as mãos
etéreas.
— Não fui forte o bastante para enfrentar o fogo. Mas você é.
Você tem algo que nem eu, nem a primeira, nem nenhuma
101
antes teve: fúria e consciência.
Aurora ergueu os olhos. O símbolo em sua mão brilhava agora
com tons dourados, como se a própria linhagem estivesse
despertando em resposta àquelas visões.
— Acredite em Frida — disse Mérida. — Ela é sua âncora. Sua
irmã de alma. A única que pode impedir que você se perca.
— E leia a carta — completou a primeira filha. — O livro. Tudo
já foi escrito. A verdade foi enterrada para que você pudesse
desenterrá-la.
As duas mulheres estenderam as mãos.
E então… o mundo se desfez em cinzas.
Aurora acordou com um engasgo.
O teto de lona da barraca tremia suavemente. Lá fora, o som
de pássaros e vento. A realidade voltava como um tapa frio. Ela
respirava com dificuldade, o corpo suado, os olhos ardendo.
— Aurora! — A voz de Frida cortou o ar com urgência.
Aurora virou a cabeça devagar e a viu: ajoelhada ao seu lado,
os olhos arregalados, os cabelos loiros desalinhados. Havia
alívio e raiva no rosto da amiga.
— Pelo amor de Deus, o que aconteceu?! Você sumiu da
barraca no meio da madrugada! Nós prometemos! Você jurou
que não ia arriscar de novo! — Frida falava rápido, entre
soluços e raiva contida. — Eu acordei e você não estava!
Procurei na clareira, na trilha... até pensei em chamar as
freiras, mas sabia que não adiantaria. Então voltei, e você...
você apareceu aqui de novo, toda suja, caída no chão como se
tivesse sido jogada pelos próprios demônios!
Aurora se sentou com dificuldade. O corpo ainda doía. A visão
102
estava embaçada. Mas ela se forçou a falar.
— Ele... me encontrou.
Frida congelou.
— Quem? O padre?
Aurora negou com a cabeça, a voz rouca:
— Hêlel.
Frida arregalou os olhos.
— Aurora... isso foi só um sonho. Um pesadelo. Você estava
dormindo no chão quando...
— Não. — Aurora segurou a mão da amiga. — Eu vi ele.
Fisicamente. Ele me seguiu até o antigo mirante. E ele… ele
me contou tudo.
Frida não falou. Apenas esperou.
— Eu sou da linhagem do fogo. Todas as mulheres da minha
família eram bruxas. Mas a cada três gerações, uma nasce
com o fogo desperto. E essa é prometida... a ele. Hêlel era um
mago poderoso. Tão poderoso que foi condenado ao inferno,
transformado. E antes de cair, ele amou uma das nossas. A
primeira filha. Ela morreu... e desde então ele nos persegue.
Frida levou a mão à boca, chocada.
— Ele disse... que minha mãe fez o pacto. Ofereceu a mim
ainda no ventre. Mas meu pai descobriu. E por amor, ao invés
de denunciá-la como bruxa, acusou-a de adultério. Ele preferiu
vê-la humilhada... do que queimada.
O silêncio caiu entre elas.
Aurora engoliu em seco.
— Frida... você lembra do livro?
A loira franziu o cenho, hesitante.
103
— O da biblioteca? O da capa com símbolo estranho?
— Sim. E da carta?
Frida assentiu, ainda atônita.
— Você leu, mas não entendeu tudo. Eu também não... até
agora. Mérida. Minha mãe. Ela escreveu aquele diário. Ela
deixou as pistas. Ela sabia. Sabia que isso ia acontecer.
Aurora se levantou, vacilante, e caminhou até o baú onde
guardavam seus pertences. Puxou de dentro o livro, envolto em
um tecido escuro, e a carta — com a caligrafia curvada e
trêmula de sua mãe.
— Eu preciso reler. — disse. — Preciso saber o que ela deixou
para mim.
Frida se aproximou lentamente.
— E se for verdade? — sussurrou. — E se ele... se esse Hêlel
ainda estiver aqui?
Aurora olhou para o símbolo em sua mão. A pele estava
marcada — não em brasa como antes, mas visível. Uma
cicatriz viva.
— Ele está. — respondeu. — E agora ele sabe... que eu
também estou desperta.
Aurora se sentou na cama rústica, ainda com os joelhos
trêmulos. Frida mantinha-se por perto, inquieta, andando de um
lado para o outro como quem teme o que está por vir, mas não
tem coragem de impedir.
A carta estava ali, entre os dedos delicados de Aurora. O papel
já amarelado pelo tempo, as bordas desgastadas, mas a
escrita permanecia viva, feita com uma tinta escura, quase
bordada em sangue. Cada traço da caligrafia curvada parecia
104
conter segredos gravados a ferro e fogo.
Aurora respirou fundo e começou a ler.
“Filha minha,
Se você está lendo isso… é porque o tempo chegou.
Você nunca foi como as outras. Você foi moldada em dor, como
todas nós. Mas em você há algo mais. Um fogo que nenhuma
reza pode apagar. Um chamado que nenhuma muralha pode
conter.
Eu tentei te proteger, tentei selar a linhagem. Mas o pacto é
mais antigo do que qualquer fé, mais forte do que qualquer
mãe. E eu… falhei.”
Aurora sentiu um arrepio subir pela espinha. As palavras
pareciam sussurradas do além, como se a própria Mérida
falasse ao seu ouvido. Ela continuou, a voz trêmula:
“Fomos bruxas antes mesmo de sabermos o que era magia. A
primeira de nós — a filha do fogo — uniu-se a um mago que
ousou tocar as esferas proibidas. Ele não era mau. Era faminto.
Um homem que amava demais e desejava mais do que o
mundo podia dar.
Quando os céus o rejeitaram, ele caiu. E conosco deixou uma
semente. Um laço. Um pacto que se repetiria, geração após
geração.
Ele foi chamado de Hêlel. Mas esse é apenas um nome entre
muitos. Ele é o que nasce quando o poder esquece de pedir
permissão.”
Frida se sentou ao lado dela, silenciosa. Pela primeira vez, ela
parecia acreditar. Não havia mais negação em seu olhar —
apenas temor.
105
“A cada três gerações, uma filha desperta com o sangue antigo
aceso. Essa filha… é prometida a ele. A noiva do demônio. A
ponte entre os mundos. A oferenda viva.
E você, Aurora… é essa filha.
Eu senti você se formar dentro de mim como uma estrela
incendiada. Cada prece que fiz não foi para que Deus te
salvasse — mas para que ele te esquecesse. Mas ele nunca
esquece. Hêlel observa. Hêlel escolhe.
Seu pai descobriu tarde demais. Encontrou os sigilos, as
anotações, os fragmentos da antiga profecia. Ele soube o que
eu tinha feito. Soube que, em troca de poder e proteção, eu
tinha oferecido você ainda em meu ventre.”
Aurora parou por um instante. As lágrimas começavam a arder
nos olhos, mas ela as conteve. A dor agora era necessária. Era
combustível.
“Ele me odiou. Mas me amou também. E por amor… preferiu
me acusar de adultério. Preferiu me entregar à vergonha… ao
invés de ao fogo.
Morri amaldiçoada, mas não queimada. Fui arrastada,
insultada, esquecida — mas você viveu. E isso era tudo que
importava.”
Nesse momento, as letras começaram a se embaralhar diante
de seus olhos. A cabeça de Aurora pesou, os dedos
afrouxaram. O mundo à sua volta se dissolveu em poeira. Frida
gritou seu nome, mas foi como um eco distante, sugado para o
fundo de um abismo.
Aurora caiu de lado, e o quarto desapareceu.
106
Estava de volta ao não-lugar. A escuridão do sonho, as cinzas
flutuantes. Mas agora era diferente. Mais claro. Como se
estivesse andando dentro da própria carta. Palavras se
acendiam ao seu redor como constelações feitas de memória.
À sua frente, outra mulher aguardava.
Era Mérida.
Mas não a mãe envergonhada e arrastada pela multidão. Não a
mulher de olhos desesperados, clamando por sua filha. Esta
era outra. A bruxa. A verdadeira. Seus cabelos ruivos ardiam
como chamas, os olhos verdes brilhavam como relâmpagos
sobre a água.
— Aurora. — disse ela, com firmeza.
A garota mal conseguia falar. Apenas assentiu, ofegante.
— Eu falhei com você — disse Mérida, aproximando-se. — Mas
você não vai falhar com as que ainda virão.
Atrás dela, figuras femininas surgiam na bruma. Mulheres de
todas as eras. Algumas com túnicas antigas, outras com coroas
de espinhos, outras com peles queimadas, mas olhos vivos.
Todas tinham o símbolo. Todas traziam fogo nos olhos.
— Essa… — Mérida apontou para as sombras — é a nossa
linhagem. O que os homens chamaram de maldição… é o que
nos faz eternas.
Aurora virou-se.
107
A primeira filha estava ali também. Silenciosa, etérea, mas
poderosa.
— Ele te quer porque você é a única que pode recusar. —
disse a primeira. — E se você recusar… se queimar o nome
dele com sua luz… o ciclo se quebra.
Mérida estendeu a mão. Em sua palma, o mesmo símbolo,
agora iluminado.
— Você precisa dominar isso. Precisa aceitar o que é. Só
assim pode virar contra ele a força que ele pensou possuir.
Aurora tentou falar, mas tudo sumiu.
108
Ela levantou a mão. A marca brilhava sutilmente sob a pele.
Frida não hesitou.
— Então vamos encontrar as respostas. Juntas.
E pela primeira vez, Aurora sentiu que não estava sozinha. Mas
o fogo dentro dela... esse, queimava mais alto.
109
O sino tocou três vezes, arrastando a melodia metálica pelas
paredes de pedra do internato. O som percorreu os corredores
como um chamado antigo, despertando as sombras do
convento para mais um domingo de rotina.
Aurora abriu os olhos lentamente. Já estava desperta havia
muito tempo, mas não se mexera. O corpo permanecera
imóvel, entre o calor dos lençóis e o silêncio profundo da
madrugada, como se quisesse prolongar a vigília, esconder-se
do peso do novo dia.
Na penumbra cinzenta do dormitório coletivo, todas as camas
estavam ocupadas por figuras femininas imóveis. As cortinas
finas tremulavam sob a brisa fria que entrava pelas janelas
entreabertas. O cheiro era de madeira velha, sabão barato e
um incenso antigo, quase imperceptível — como se a fé
também tivesse cheiro.
Aurora sentia a marca em sua mão latejar discretamente, como
se respirasse junto com ela. O sonho ainda queimava na
mente: Mérida, a primeira filha, as vozes… as chamas.
Mas agora havia passos no corredor.
A maçaneta girou com o rangido habitual. A porta se abriu e a
silhueta esguia de Irmã Tereza apareceu, envolta no hábito
escuro, os olhos duros sob o véu.
— Meninas, já é hora. Acordem para a oração. Depois da reza,
prepararemos o salão para a missa.
As outras começaram a se mover como engrenagens
110
enferrujadas de uma velha máquina: espreguiçavam-se,
bocejavam, sentavam-se nas camas. Frida foi a primeira a se
erguer, os cabelos loiros caindo nos ombros com desordem.
Lançou um olhar rápido a Aurora, que permaneceu deitada por
mais um instante, respirando fundo.
Irmã Tereza não esperou a resposta de ninguém. Sumiu tão
rápido quanto apareceu, deixando atrás de si apenas o som
dos seus passos apressados e a tensão de sempre.
Aurora se sentou. Os músculos ainda estavam doloridos. Não
havia tempo para se recuperar de tudo o que havia vivido — e
isso, no fundo, a apavorava. O mundo ao redor seguia normal,
metódico. Mas dentro dela, algo havia mudado
irreversivelmente.
Levantou-se com calma. O chão de pedra estava gelado sob os
pés. Junto às outras, dirigiu-se ao lavatório comum. A rotina
seguia: tirar o camisão de dormir, lavar o rosto e as mãos com
a água fria dos baldes, vestir a roupa de domingo — um vestido
escuro de algodão grosso, com gola alta e mangas longas.
Cada botão fechado era como um selo. Um lembrete do
silêncio forçado.
Frida se aproximou.
— Dormiu alguma coisa depois?
Aurora fez que sim, mas o olhar dizia o contrário.
— A carta... ainda ecoa.
Frida apertou os lábios, compreensiva. Não havia espaço ali
para confissões, mas o silêncio entre elas era um código.
Ambas sabiam o que era verdadeiro.
Às 7h em ponto, formaram fila no corredor. As jovens se
111
alinhavam em dois grupos, com as mãos cruzadas à frente do
corpo, os olhos baixos. Nenhuma palavra era permitida.
Apenas o som dos passos ritmados e o ranger discreto das
madeiras sob seus pés.
Descendo as escadas de pedra, passaram pelo refeitório vazio
e seguiram pelo claustro silencioso, até a entrada lateral da
capela.
A igreja interna do convento era simples, mas solene. As
paredes de pedra eram cobertas por tapeçarias vermelhas e
douradas. No centro, um altar rústico de madeira entalhada
dominava o espaço. Ao redor, bancos retos e frios. Velas
acesas tremulavam discretamente nos candelabros de ferro,
projetando sombras longas sobre os rostos das alunas.
Aurora se sentou na terceira fileira, com Frida ao lado. As
outras alunas tomaram seus lugares em silêncio. As irmãs do
convento formaram duas linhas à frente, próximas ao altar.
O órgão antigo começou a soar. Uma melodia lenta, arrastada,
que anunciava a entrada do novo padre.
Kai surgiu na porta central da capela.
Vestia a túnica preta com detalhes bordados em vinho escuro.
O rosto estava pálido, mas solene. Os olhos, fixos no altar.
Havia algo rígido em seus movimentos, como se cada passo
fosse cuidadosamente calculado — e talvez fosse.
Aurora sentiu o estômago revirar.
A presença dele era sufocante. Não como a de Hêlel — o
demônio era fogo, vertigem, fome. Kai era sombra contida. Um
homem que abrigava dentro de si algo que sequer
compreendia por completo.
112
Ela sabia agora que estavam ligados. A marca reagira a ele. E
a cada passo que ele dava em direção ao altar, o símbolo em
sua mão formigava, como se quisesse dizer: Ele está aqui.
Ainda está aqui.
O padre subiu os três degraus, beijou o crucifixo da frente do
altar e voltou-se para os presentes.
— Em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo... — começou,
a voz baixa, firme.
— Amém. — repetiram as vozes femininas em uníssono.
Aurora não respondeu.
Ela apenas o observava.
Kai estava com o semblante sereno. Mas suas mãos tremiam
levemente ao erguer o cálice. A homilia que seguiu era sobre
tentação e renúncia, mas Aurora ouvia cada palavra com uma
segunda camada. Quando ele falava de "chamas que nos
seduzem", ela via as chamas da filha do fogo. Quando ele dizia
"não abrir as portas do espírito aos encantos escuros", ela
sentia que falava dela.
Frida apertou levemente sua mão durante a leitura do
Evangelho. Aurora percebeu. Estava ofegante.
A missa seguiu com os ritos, ajoelhar, levantar, responder,
cantar. Mas para Aurora, tudo era eco. O templo parecia longe,
irreal, como se o mundo visível estivesse apenas sobreposto ao
verdadeiro, escondido sob véus que agora ela podia rasgar
com o olhar.
Ao final da celebração, Kai desceu os degraus e passou
lentamente entre as fileiras. Parou por um instante ao lado de
Aurora. Um segundo apenas. Mas nesse segundo, os olhos de
113
ambos se encontraram.
Kai hesitou. Aurora não.
Os olhos dela estavam frios.
E a marca brilhou.
Ele se afastou em silêncio.
O fogo dentro dela respondeu com intensidade, mas ela o
conteve. Por agora.
Ela não era mais só uma aluna. Era a herdeira de um pacto que
agora queimava nas sombras da fé.
A igreja estava quase vazia. As últimas alunas haviam saído,
conduzidas pelas freiras para a limpeza do refeitório e a
preparação das atividades da manhã. Frida já tinha saído com
um último olhar de preocupação, mas Aurora insistira em ficar
um pouco mais — "para rezar", foi o que disse.
Na verdade, ela só queria respirar.
A luz entrava em ângulos agudos pelos vitrais, tingindo o chão
com manchas coloridas que dançavam com a poeira suspensa
no ar. O altar silencioso parecia observar tudo com uma
paciência antiga. O banco onde ela sentava era frio e reto,
como todas as estruturas daquele lugar — feito para manter as
pessoas firmes, imóveis, obedientes.
Aurora estava ali, imóvel, mas nada dentro dela estava em paz.
A marca em sua mão pulsava com um leve calor, não ardente
como antes, mas contínuo, como se algo ao seu redor a
estivesse despertando.
Foi quando ela sentiu.
Um olhar.
Forte, firme, penetrante.
114
Ela ergueu os olhos devagar e o viu.
Um homem, parado na entrada lateral da igreja. Alto, com os
ombros largos e postura elegante, mas rígida. Vestia um manto
escuro de viagem, os cabelos castanho-escuros um pouco
bagunçados, os olhos cinzentos e severos. A luz das velas
projetava sua sombra pelas colunas, dando-lhe uma presença
quase espectral.
Ele não se moveu. Apenas a observava.
Aurora sentiu o corpo enrijecer. Algo nela reconheceu aquele
rosto — não por já tê-lo visto, mas por reconhecê-lo de dentro.
Como um reflexo distorcido de algo que corria no sangue.
O homem parecia petrificado. Seus olhos escorriam por cada
detalhe do rosto de Aurora: os contornos da mandíbula, o arco
das sobrancelhas, o modo como ela mantinha os ombros
erguidos mesmo em silêncio. E então... ele viu a marca.
A palma da mão dela estava apoiada sobre o banco, exposta à
luz. O símbolo antigo, gravado na carne como um selo
ancestral, brilhou discretamente sob o reflexo do vitral.
Os olhos do homem se arregalaram por um breve instante. Um
pensamento, uma lembrança, talvez um nome, cruzou sua
mente com violência.
Aurora, instintivamente, recuou o braço e cobriu a mão com o
vestido. Ela o encarou, tentando decifrá-lo.
— O senhor... — começou, mas não teve tempo de continuar.
O homem deu um passo para trás, como alguém que pisa
sobre um santuário sem permissão. Baixou os olhos
brevemente, como se tivesse tocado em algo sagrado — ou
perigoso demais para ser compreendido — e, sem dizer uma
115
única palavra, virou-se e sumiu pelas sombras da porta lateral.
Aurora ficou ali, com o coração martelando no peito. Aquilo não havia sido casual.
Aquele homem a conhecia. E ela sentia, como nunca antes, que estava diante de
algo maior que palavras.
123
O caminho até o escritório do padre foi percorrido em silêncio.
Os guardas acompanharam até a porta, onde ficaram de
sentinela, imóveis, como estátuas esculpidas na ordem de não
falhar. Apenas Alastor entrou junto com Herwin, acompanhando
os passos firmes e calculados do rei pelos corredores do
convento. Aurora vinha logo atrás, puxada pelo aperto sutil
porém irrecusável da mão do padre Kai, que não a soltara
desde o momento no pátio.
O ambiente do escritório era pequeno, austero. Uma estante
com volumes antigos, o crucifixo de madeira acima da porta, e
uma mesa larga, carregada de papéis, penas e o cálice usado
na missa. A luz era escassa, entrando apenas por uma janela
alta com vidro grosso, distorcendo os feixes do sol da manhã.
Herwin entrou primeiro e parou no centro do cômodo. Por um
instante, apenas respirou o ar abafado do lugar. Depois,
virou-se lentamente em direção à jovem.
Seus olhos cinzentos repousaram sobre Aurora com uma
intensidade que pesava.
Ela recuou meio passo.
Kai a observava, silencioso, mas atento.
Herwin aproximou-se sem pressa, os passos ressoando no
chão de pedra. Quando estava a apenas um braço de distância
dela, ergueu a mão e, com um gesto que poderia ser terno ou
124
autoritário — era difícil dizer — tocou levemente o rosto da
jovem.
— Noelly... — disse, como quem invoca um nome há muito
perdido.
Aurora piscou, confusa.
— O quê?
Padre Kai franziu o cenho.
— Perdão, Vossa Majestade... como disse que a chamou?
Herwin não respondeu de imediato. Os olhos ainda fixos no
rosto dela, percorrendo cada traço com um misto de surpresa e
reconhecimento. O polegar dele roçou o alto da bochecha dela,
como se testasse a realidade daquele momento.
— Noelly. — repetiu. — Era o nome que escolhi, há muito
tempo. Se um dia tivesse uma filha...
A respiração de Aurora vacilou. Ela recuou ligeiramente,
afastando-se do toque, mas sem coragem de fugir
completamente.
Kai interveio com um tom cortês, mas firme:
— A jovem se chama Aurora. É esse o nome pelo qual a
conhecemos desde que chegou aqui.
Herwin finalmente virou os olhos para o padre, com uma leve
inclinação de cabeça.
— E de onde ela veio, exatamente?
Kai hesitou.
— Foi acolhida por nós após ser encontrada desacordada perto
da floresta, alguns meses atrás. Nenhum documento, nenhum
registro... mas ela mostrou sinais de trauma. As freiras
cuidaram dela até sua recuperação.
125
Herwin olhou de volta para Aurora, e então deu um leve sorriso
— uma curva fria nos lábios finos.
— Quantos anos tem?
— Dezessete. — respondeu o padre, antes que ela pudesse
abrir a boca.
O rei cruzou os braços.
— Dezessete...
Deu uma volta pelo pequeno espaço, os olhos buscando algo
invisível no teto. Depois, falou como quem pensa alto:
— Dezessete anos desde o último escândalo que quase
queimou este reino. Desde que Mérida morreu com a acusação
de adultério. Uma mulher que... carregava algo a mais do que
beleza.
Aurora sentiu o estômago se contrair. O nome da mãe ainda
era uma ferida aberta.
Herwin voltou a se aproximar.
— Os olhos dela... — disse. — São como os meus. E o jeito
que se cala... como ela.
— Vossa Majestade... — Kai tentou conter o rumo da conversa,
mas Herwin o cortou com um gesto.
— Eu a observei de longe no pátio. E agora aqui, diante de
mim, não restam dúvidas. Esta garota é sangue meu. É minha
filha. E, como tal, pertence à Casa de Hawthorne.
As palavras caíram como lâminas no chão de pedra.
Aurora arregalou os olhos. O coração disparou como um
tambor em meio à batalha.
— Não... — sussurrou.
Foi quando sentiu. A aura.
126
Não como antes — não violenta, não dominadora — mas
pulsante. Presente. Familiar. Como um braço invisível
envolvendo-a por trás, como um escudo quente entre ela e
aquele homem.
Hêlel.
Kai sentiu também. Um estremecer sutil percorreu sua espinha.
Ele não viu nada, mas os pelos em sua nuca se eriçaram como
se um vento gélido tivesse atravessado o cômodo.
Aurora não pensou.
Se moveu por puro instinto.
E se escondeu atrás do padre Kai.
Foi um gesto pequeno, mas carregado de tudo.
Kai sentiu a mão dela segurar a manga de sua batina, e
quando se virou ligeiramente, viu os olhos dela cheios de medo
— mas não do rei em si.
Do que aquele momento representava.
Herwin ergueu a sobrancelha, mas não se moveu.
— Esconde-se... como uma bastarda assustada. — disse ele,
num tom de desprezo contido. — Esperava mais. Um pouco do
meu sangue nela, pelo menos.
Kai não se conteve.
— Ela não é propriedade de ninguém, Majestade.
Alastor, que até então permanecera calado, mexeu-se
discretamente ao ouvir o tom do padre.
Herwin o ignorou.
— Ela será levada comigo. Não vou permitir que o sangue real
permaneça esquecido entre freiras e velhas orações. Precisa
de instrução, de posição... de disciplina.
127
Aurora começou a recuar mais uma vez, mas antes que
pudesse se afastar, Kai segurou seu pulso. Não com força, mas
com proteção clara.
— Com todo respeito, Vossa Majestade — disse o padre,
encarando-o — isso não é algo a se decidir agora. Ela está sob
os cuidados da Igreja. E a Igreja ainda não reconheceu
nenhuma paternidade, nenhum direito.
Herwin apertou os lábios. Por um momento, seus olhos
cintilaram com o mesmo aço que empunhara nas batalhas
antigas.
Depois, apenas disse:
— Isso não é um pedido.
Kai sustentou o olhar.
Silêncio.
Foi Alastor quem interveio, baixando o tom da tensão:
— Vossa Majestade… talvez seja prudente deixar que os
ânimos se assentem. Há tempo para conversas. E papéis
podem ser providenciados. Oficialmente.
Herwin inspirou fundo, recuando dois passos.
— Muito bem. — disse, frio. — Mas voltarei. Com documentos.
E levarei o que é meu.
Com um último olhar para Aurora — mais de cálculo do que de
afeto — virou-se e saiu pela porta, seguido por Alastor.
Kai permaneceu imóvel.
Aurora tremia.
Mas ainda se escondia atrás dele.
128
Do lado de fora, as meninas se reuniam para a atividade da
tarde. A freira principal chamava os grupos. Nenhuma delas
sabia que o nome de Aurora havia sido marcado novamente —
não por bruxas, mas por reis.
E um fogo silencioso crescia no coração dela.
Não por medo.
Mas por preparação.
137
As atividades da tarde haviam terminado. O som das vassouras
sendo recolhidas, dos baldes despejando água, dos murmúrios
discretos das freiras chamando as meninas para o recolhimento
vespertino criava um fundo monótono — o tipo de rotina que
fingia normalidade mesmo quando tudo dentro de algumas
pessoas estava longe disso.
Aurora caminhava devagar pelos corredores, as mãos unidas
nas costas, os pensamentos fervilhando. O olhar dela não se
fixava em nada. Passava por paredes, quadros, santos
entalhados, como se procurasse algo entre as rachaduras. Algo
que respondesse.
Ela sentia o corpo estranho. Como se sua pele estivesse
revestida por uma segunda camada de silêncio, ou como se os
olhos que havia encarado naquela manhã — os de Herwin, os
de Hêlel — ainda estivessem colados nela.
Ao dobrar o último corredor do segundo andar, encontrou Frida,
sentada no parapeito largo da janela, com um livro fechado no
colo. A luz do fim de tarde projetava sombras longas,
alaranjadas, e por um instante Aurora pensou em fingir que não
a via. Mas era impossível esconder algo de Frida por muito
tempo. Seus olhos eram como agulhas: finos, penetrantes,
precisos.
— Finalmente sozinha? — perguntou Frida, sem olhar
138
diretamente para ela.
Aurora hesitou. Então assentiu, sentando-se ao lado da amiga
no parapeito.
Houve um momento de silêncio entre as duas. Frida folheava o
livro sem realmente lê-lo, e Aurora observava os azulejos
antigos do piso, rabiscando respostas mentais para perguntas
que ainda não tinham sido feitas.
— As meninas disseram que o rei veio aqui hoje. — disse Frida
por fim. — Que entrou com guardas, que ninguém pôde se
aproximar. Que você estava com o padre... e que os dois
sumiram com ele por um tempo.
Aurora passou a mão pelos cabelos, prendendo a respiração
por um segundo.
— É verdade.
— Ele te tocou?
Aurora virou o rosto bruscamente, surpresa com a pergunta
direta.
Frida a encarava agora. Os olhos azuis dela não tinham nada
de acusatórios — apenas curiosidade pura, crua, cheia de
medo e preocupação.
— Sim. — respondeu Aurora. — Me chamou por um nome que
nunca ouvi antes.
— Qual?
— Noelly.
Frida franziu o cenho.
— Nunca ouvi esse nome. Tem alguma coisa nos diários sobre
isso?
— Não. Pelo menos, não no que lemos até agora. Mas… —
139
Aurora suspirou — ele disse que era o nome que escolheria se
tivesse uma filha.
Frida apertou os lábios, pensativa.
— Então você acha que é verdade?
Aurora assentiu, o coração acelerando.
— Sim. Eu sou filha dele. De Herwin. A forma como me olhou...
como se estivesse vendo um reflexo. E o jeito que falou… não
havia dúvida. Ele me reconheceu.
Frida voltou a olhar pela janela, os cabelos tremendo levemente
sob o vento.
— E o padre? Ele te defendeu?
— Sim. Mas não foi só ele. — disse Aurora, encarando o
horizonte. — Foi também... o outro.
Frida virou-se de novo.
— Hêlel?
Aurora assentiu, e pela primeira vez, disse aquilo em voz alta
com total certeza:
— Ele estava ali. Dentro do padre. Mas de um jeito... diferente.
Não como antes. Ele... ele me puxou pra ele. Me envolveu.
Como se estivesse dizendo: “ninguém toca no que é meu”.
Frida empalideceu um pouco, os olhos arregalados.
— Ele te abraçou?
Aurora hesitou. E então assentiu.
— Foi estranho. Era ele… mas era também algo que me
acalmou. Algo… familiar. Me senti protegida. Só que também...
com medo.
Frida ficou em silêncio por longos segundos.
— Você não parece assustada. — disse por fim.
140
— Porque parte de mim já esperava. — respondeu Aurora. —
Como se eu tivesse sido moldada pra isso desde o nascimento.
Como se minha alma soubesse.
— E o rei? — Frida insistiu. — Por que os guardas recuaram?
Aurora olhou para as próprias mãos, fechando-as devagar.
— Eles viram. Viram o que ele se tornou. Mesmo com a
aparência do padre... os olhos mudaram. E aquilo fez todos
sentirem. Até o rei. Hêlel não é só uma ameaça. Ele é uma
presença que não pode ser ignorada. Ele carrega... um terror
ancestral.
Frida se encolheu levemente.
— Ele disse que você é dele?
— Sempre diz. — Aurora respondeu, amarga. — Mas agora é
mais do que palavras. É como se a própria realidade estivesse
ajustando tudo para cumprir esse pacto. E quanto mais eu
fujo… mais ele me encontra.
— Você não está sozinha. — disse Frida, firme.
Aurora olhou para ela. Os olhos da amiga estavam firmes
agora. Determinados.
— Eu estou aqui. — continuou. — Desde o primeiro dia. Desde
os pesadelos, o altar, a floresta… E se esse Hêlel acha que
pode te tomar, vai ter que passar por mim primeiro.
Aurora esboçou um sorriso fraco.
— Obrigada, Frida.
— Ainda não acabou. — disse Frida, levantando-se. — Ainda
tem o livro. Ainda tem a carta. Ainda tem mais coisas que a
gente não descobriu. Talvez até um jeito de quebrar o pacto.
— Ou de sobreviver a ele. — completou Aurora.
141
Ambas ficaram em silêncio novamente, lado a lado, diante da
janela onde a tarde começava a escurecer.
E naquele instante, embora o mundo lá fora ainda estivesse cheio de reis, pactos e
demônios antigos, havia entre elas algo mais forte que o medo: a verdade partilhada.
142
madeira molhada e o perfume quase apagado de flores secas
entre livros esquecidos. O teto baixo forçava a postura
inclinada. Candelabros antigos descansavam sobre suportes de
ferro retorcido, e livros, muitos deles em latim ou com letras
irreconhecíveis, estavam empilhados em estantes de pedra.
Frida fechou a porta com cuidado.
— Vamos começar pela sessão da linhagem. — sussurrou.
— E pelos livros com selos queimados. — completou Aurora,
andando diretamente para a estante dos fundos.
Elas já tinham estado ali antes, semanas atrás, quando
encontraram os primeiros escritos de Mérida. Mas agora
procuravam algo mais específico: algo que falasse do nome
“Noelly”, ou da origem do pacto com Hêlel. Talvez até algum
relato da primeira noiva — aquela que dera início a tudo.
Frida puxou uma escada de ferro antiga, subindo para os livros
mais altos. Aurora ficou abaixo, vasculhando volumes
encadernados com couro desgastado, uns com símbolos que
reagiam ao toque de sua marca.
— Aqui tem algo. — disse Frida, soprando a poeira de uma
capa com entalhes dourados. — “Das Três Linhagens e dos
Nomes Proibidos”. Parece promissor.
Ela desceu, entregando o livro para Aurora.
Era pesado, e as páginas rangiam ao serem abertas. A escrita
era em uma língua antiga, mas com muitas passagens
traduzidas para o latim e outras em uma caligrafia trêmula e
marginal — notas de algum estudioso anônimo.
Aurora passou os olhos por um trecho:
“Na terceira geração surgirá o fogo não domado, aquele
143
que carrega não apenas o selo, mas o nome oculto.
O nome verdadeiro é a chave do despertar.
E aquele que o pronunciar… será reconhecido pela chama.”
Ela olhou para Frida, o coração acelerando.
— O nome. Ele me chamou de Noelly. Será que…
— Que esse é seu nome verdadeiro? — completou Frida, com
os olhos arregalados.
— Ou o nome da chama. — murmurou Aurora. — O nome
que… ativa tudo.
Elas seguiram virando as páginas, as velas tremulando
discretamente. Do lado de fora, a noite parecia prender a
respiração.
— Aqui — disse Frida. — Tem uma descrição de símbolos.
Aurora se inclinou ao lado dela.
“A filha prometida carregará o selo de fogo. A marca não
se manifesta com a dor, mas com a aceitação.
E a aceitação traz o toque.
O toque desperta o vínculo.”
Aurora estremeceu.
— O toque… ele me tocou. Hêlel. O abraço. Foi isso.
Frida assentiu, inquieta.
— E o rei? Ele te tocou também.
— Sim. Mas foi diferente. Com ele, foi… domínio. Com Hêlel,
foi um vínculo.
— Mesmo que você tenha resistido?
Aurora fechou o livro.
— Eu não sei mais o que é resistência. Às vezes sinto que
estou me afundando devagar. Que tudo já foi escrito.
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Frida se aproximou mais.
— Então vamos reescrever. Ninguém merece ser prisioneira de
um nome.
Elas trocaram um olhar longo. A força da amizade entre elas
era como uma corrente silenciosa, forte demais para ser
quebrada mesmo por séculos de maldição.
Aurora caminhou até outra estante e passou os dedos pelas
lombadas. Um livro pequeno, encadernado em tecido preto,
pareceu vibrar sob seu toque.
Puxou-o.
Não havia título na capa. Só um símbolo bordado em linha
vermelha — o mesmo da sua marca.
Ela o abriu com cuidado.
Era um diário.
De alguém chamado Neriah.
A escrita era firme, carregada de emoção. Aurora começou a
ler em voz baixa:
“Fui a primeira, embora os homens digam que fui a última.
O selo foi feito em amor, não em guerra.
Hêlel me amou. Me protegeu. Morri por ele.
Mas agora ele busca outra. E nela, meu nome renascerá.
Noelly.”
As mãos de Aurora tremeram. Frida se aproximou rapidamente,
lendo sobre o ombro da amiga.
— O nome não é seu. — sussurrou Frida. — É dela. Da
primeira.
— E eu sou... ela? — perguntou Aurora, quase sem voz.
— Ou o reflexo. A nova portadora. — respondeu Frida, já
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mexendo em mais páginas. — Isso aqui muda tudo. O pacto
talvez não seja só com a linhagem… talvez seja com o nome.
Aurora sentou-se no chão, o diário no colo, a respiração
pesada.
O nome.
O toque.
A marca.
Tudo girava em torno da identidade que ela não escolheu —
mas que agora era ela.
Do lado de fora, o vento sibilava entre as pedras.
E uma página do diário virou sozinha.
Como se o passado sussurrasse:
Continue.
As velas tremularam de repente.
Não foi vento.
Não foi corrente de ar.
Foi como se o próprio cômodo respirasse, como se o silêncio
do lugar se contraísse — e então algo clicou.
Um som seco, rápido. De madeira ou ferro, vindo da parte mais
profunda da biblioteca.
Aurora e Frida congelaram. O diário de Neriah ainda estava
aberto sobre os joelhos de Aurora, a página virada pela força
de algo que nem os olhos nem o ar tinham denunciado.
Elas se entreolharam.
Frida sussurrou:
— Ouviu isso?
— Sim. — respondeu Aurora, ficando de pé com o diário em
mãos.
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Outro som.
Agora mais suave. Como o arrastar de algo... ou alguém.
Aurora fechou o diário com cuidado, guardando-o junto ao
volume anterior. Frida já começava a recolocar os livros nas
estantes com mãos trêmulas, embora tentasse manter a
compostura.
— Pode ser uma freira? — perguntou Frida, baixinho.
— Não. Nenhuma freira anda como isso.
— Como você sabe?
Aurora não respondeu.
Ela sabia.
Sabia porque a marca em sua mão havia começado a pulsar,
como se uma brasa oculta acordasse sob a pele. Não era dor,
era alerta. O mesmo tipo de vibração que sentira quando Hêlel
se manifestara… mas agora, mais sutil. Mais frio.
— Precisamos sair daqui. — disse Aurora.
Frida assentiu imediatamente.
Elas recolheram os livros mais relevantes e os esconderam
atrás de uma tábua solta da estante — um esconderijo
improvisado que já usavam há semanas. Em silêncio, abriram a
passagem secreta e saíram de volta para o corredor lateral,
empurrando a porta até ouvir o “clique” da madeira se
encaixando.
Caminharam em silêncio, os passos apressados mas contidos.
Faltavam poucos minutos para o início da patrulha noturna,
quando as freiras passavam de quarto em quarto para
confirmar a presença de todas as alunas. Perder esse
momento significava ser descobertas… e talvez muito mais.
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Ao dobrarem o corredor da escada principal, Frida parou de
súbito.
— A carta. — disse.
Aurora a encarou.
— A carta da minha mãe?
— Sim. Ela falava… do espelho. Que o espelho “guardava o
resto”. Que quando tudo começasse a se revelar, a resposta
estaria “além da moldura”.
Aurora levou a mão à cabeça, tentando se lembrar do texto
com clareza.
> “O espelho não reflete só o corpo, mas o tempo.
É nele que tua identidade se refaz.
Quando tudo parecer perdido, vá até o fim do corredor da ala
oeste.
Atrás da tapeçaria azul.
A moldura guarda mais do que vidro.”
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aquilo fez o corpo das meninas estremecerem, elas olharam
para trás no impulso sem nem pensar duas vezes, as garotas
então percebendo que não haviam nada atras delas além da
imensa escuridão e vazio respiraram fundo e rapidamente
tirando todo o ar de seus pulmões, então um clarão imenso
tomou conta do lugar elas congelaram sentindo uma força
imensa atras delas as puxando para trás oque fez elas
recuarem instantaneamente, quando se deparam com o
espelho ardendo em clarão no lugar aonde se viu o vidro
refletindo suas imagens, as garotas, sem, saber oque acontecia
saíram rapidamente da sala correndo no meio da madrugada
,ais antes que pudessem subir as escadas para poderem sair
do enorme calabouço se depararam com o padre kai que
estava andando pelo internato tentaram recuar, se esconder
mais era tarde, assim que viraram para voltar a enorme
escuridão eu agora se encontrava o calabouço escutaram uma
voz forte estridente vir da ponta da escada e arrepiar seus
corpos, no mesmo instante aurora olhou para Frida indicando
para que ela se escondesse e tentasse sair dali
-Frida, sai por favor, quem esta aqui não e p padre eu não
quero que nada aconteça com você eu preciso que você fuja
daqui
-pobre garota, oque fazia aqui para poder esta tão em choque
assim minha pequena Nely, é tão divertido vê-la nesse estado
eu... eu ate sinto um pingo de prazer por você - ainda com sua
mão no roto de aurora, ele começou a acariciar suas
bochechas oque fez com que aurora arregalasse seus olhos -
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calma minha amada não precisa ter medo de mim
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