A NU ARI O DE JURISPRUDÊNCIA 269
PRO CESSO No. 335
C olisão e en ca lh e. A b a tim e n to d e q u e re s u lto u ficar o n a vio situ a d o
n o s e to r o b s c u r o d o farol. O m issã o das p rovid ên cia s aconselhadas na
p rá tica da n a vegação e segu ra n ça d o navio. C ond en ação dos p ilo to s d e
q u a rto .
Vistos, relatados e discutidos os presentes autos em que são partes, a Procuradoria
junto a êste Tribunal e com o indiciados o capitão de longo curso Benedito Barbosa Camilo,
o primeiro pilôto M oacir Freire e o segundo pilóto Caetano da M ota Mendonça.
Deixando o pôrto de Vitória às 11 horas d o dia 17 de outubro último, com destino
ao R io de Janeiro, o vapor Ita im b é , de propriedade e armação da Compania Nacional
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de Navegação Costeira, navegou sem novidades até às 2 horas e 20 minutos d o dia 18,
momento em que colidiu com os rochedos situados ao norte do farol de Cabo Frio, so
frendo avarias no casco e carregamento.
Encalhado sôbre os ditos rochedos, com a proa grandemente avariada, safou-se
o navio, decorridos alguns minutos, com auxílio das próprias máquinas; a sondagem-
procedida nos porões acusou 17 pés dágua no porão N o. 1, estando os demais estanques.
Depuseram no inquérito regulamentar os indiciados e o marinheiro do leme; na
instrução foram ouvidos os mesmos indiciados, procedendo-se, a requerimento d o segundo,
à sua acarecção com o segundo pilôto.
Defenderam-se e alegaram afinal as partes; ju n to aos autos encontram-se: comu
nicações do acidente, extratos do “ diário de navegação” e de “ máquinas” , cópia d o re
gistro de compensação dagulha, elementos fotográficos, cópias d o registro e vistorias
periódicas d o navio; inquérito administrativo procedido pelo armador e, por ordem do
Tribunal, o “ diário náutico” , o livro registro de arimutes e o registro da compensação
dagulha após os reparos no casco do navio.
A fls. 27 e 29 está o auto de exame pericial descrevendo detalhadamente as avarias
sofridas pelo vapor, sem a respectiva avaliação dos danos.
Concluiu o inquérito na Capitania dos Portos pela culpa d o capitão e dos dois pilotos.
T udo bem examinado:
Constata-se que está provado nos autos, pelas retificações feitas pelos depoentes na
instrução, que o capitão se recolhera ao seu camarote às 21 horas da véspera, depois de
dar instruções necessárias para a boa navegação, inclusive soltando àquela hora o rumo
dagulha 246°, para demandar com segurança o farol de Cabo Frio; era o tempo bom com
céu estrelado e horizonte com boa visibilidade. Instruções foram dadas ao primeiro pilóto
no sentido de, às 24 horas, ao terminar o serviço, permanecer no passadiço juntamente
com o segundo pilôto, oficial de quarto, afim de orientar a navegação; recomendou o
capitão ainda, que ao ser divisada a luz do farol de C abo Frio, à 0 hora e 22 minutos
aproximadamente, se navegasse deixando-a 5 graus aberta por boreste e, quando na
proximidade do Cabo, fôsse chamado para retificar a marcha d o navio e mudar de rumo
para chegar ao pôrto do R io de Janeiro ao amanhecer d o dia. (deps. de fls. e fls.).
Verifica-se pelo exame da carta de navegação, que o rumo verdadeiro traçado na
posição — 246* dagulha padrão era rumo bem traçado e em navegação segura para de
mandar e passar Cabo Frio na distância de 3 milhas. N ão foi entretanto a luz do farol a
divisada pelos pilotos de serviço à hora prevista (Oh. 20m.), embora o primeiro pilôto
declarasse que a avistara na linha do horizonte, à estimada distância de 17 milhas, o
segundo pilôto avaliando essa distância em 8 milhas, isto já à 0 hora e 40 minutos, m o
mento em que o primeiro pilôto resolveu alterar o rumo para 270 graus dagulha padrão.
Havendo desaparecido aquela luz à 1 hora e 5 minutos, segundo afirmação dos dois
últimos indiciados, mandou o mesmo pilôto que o navio seguisse ao rumo dagulha 225
graus (S. 45° W .), abrindo da costa, rumo em que navegou durante 10 minutos (dep. do
primeiro pilôto a fls.), quando foi o rumo novamente alterado para 246 graus dagulha
padrão, seguido pelo navio até o,m om ento da colisão.
Esses os fatos provados nos autos, analisados todos os elementos que estes contêm
e traçada com o foi por êste Tribunal tôda a derrota seguida pelo navio desde a barra da
Vitória até o local do encalhe. As deficiências d o "diário Yiáutico” , falho de indicações
e dados essenciais que justificam sua existência, foram supridas por outros elementos
e pelas diligências que éstc Tribunal achou necessário promover.
E assim, d o exposto:
Considerando que, o tempo era bom e regular a visibilidade na ocasião em que de
veria ser avistada a luz do farol de Cabo Frio, conforme se conclue dos depoimentos dos
dois últimos indiciados e d o marinheiro do leme (dep. de fls.), pois lhes foi possível divisar
os lampejos do farol (? ) a 17 milhas (sic) e mesmo conhecer e identificar um navio que
passara em regular distância (o inglês Safcor);
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Considerando que foram as mais disparatadas, por injustificáveis, as mudanças de
rumo feitas, pois o simples divisar de uma luz à 0 hora e 43 minutos, levou o primeiro
pilôto a alterar o rumo para 270 graus dagulha padrão, sem atender à marcha do navio
e distância navegada, com o se com maior atenção e cautela, não lhe fôsse possível identi
ficar a luz do farol, inconfundível nos seus possantes lampejos, luz essa que d esa p arecen d o
inexplicavelmente à 1 hora e 5 minutos levou-o a afoitamente alterar o rumo para 225
graus da agulha padrão (S. 45° W . ), afaàtando-se agora da costa e, em seguida, 10 ou
15 minutos após, voltar a navegar aos 246 graus da agulha, rumo inicial:
Considerando que o simples fato de não divisar a luz do farol, à 0 hora e 20 ininutos,
devia trazer-lhe à mente estar o navio afastado da linha de navegação projetada, e assim,
dentro da zona indicada nas cartas com o sendo a do setor obscuro. Predominando no
local os ventos do quadrante SE e nele impelindo as correntes o navio na direção da costa
iC osfas d o Brasil, l . a parte — Publ. 1934) e, circunstância não desprezível, tendo em
consideração que a linha traçada para a navegação a partir de São Tomé era próxima
e paralela ao raio que limita o arco de visibilidade, tudo aliado à marcha que desenvolvia
o navio a partir da última posição bem determinada (través do farol de São Tomé na
distância de 12,5 milhas) — essas as circunstâncias, sem dúvida, que faziam presumir
estar o navio navegando no referido setor e assim ensacado;
Considerando que a mudança operada nas condições do tempo, como alegam os dois
últimos indiciados, e o fato de não ser divisada a luz do farol no momento previsto (luz
essa que era pa^a ser avistada no máximo a 30 milhas), eram fatore3 suficientes para
que os pilotos de quarto apelassem para os bons ofícios do capitão, chamando-o ao passa-
diço, conforme instruções que receberam (dep. de fls. e fls.). Em vez dessa providências,
as medidas tomadas foram as de fazer as seguidas mudanças de rumo, dentro da hesitação
confessada em matéria de distâncias de luzes divisadas, mudanças essas feitas sem o
menor ponto seguro de referência, nessa situação de insegurança prosseguindo o navio
d u ra n te cêrc^a d e 2 h ora s a c o n ta r d o m o m e n t o em q u e a lu z devia ser reco n h ecid a ;
Considerando que êsses fatos caracterizam a imprudência e a imperícia do primeiro
pilôto que dirigia a navegação e a omissão culposa do segundo nenhuma medida tomando
para obviar a ação daquele, que agia à revelia do capitão e contra as disposições regula-
mentares, alterando o rumo que trazia o navio:
E ainda:
Considerando que, quanto à responsabilidade do capitão, esta não se divisa nos autos
porquanto foi correto o rumo a navegar, tendo ademais dado as ordens necessárias para
ser chamado asãim que divisada a luz respectiva, ordens essas que, nas circunstâncias,
são as regularmente dadas, sua atitude e pronta ação ao chegar ao passadiço, momentos
antes da colisão, sendo as que salvaram o navio;
[Link] competia ao primeiro pilôto, oficial no passadiço, de acórdo com
as ordens do comandante, tomar as medidas aconselhadas pela mais rudimentar prudência,
qual procurar conhecer desde logo a real posição do navio e, na falta de elementos para
tal, chamar o capitão; quanto ao segundo pilôto, seu dever, embora ordenado receber
ordens do primeiro pilôto, era ter qualquer iniciativa em defesa do navio, chamando o
mesmo capitão e, desde que verificou êrro e hesitação no procedimento do primeiro pilôto,
não devia consentir que êste fizesse as mudanças de rumo à revelia do mesmo capitão,
conforme confessou, não chamando êste último per lhe haver dito o primeiro pilôto que
“ tinha conciência d o que estava fazendo” (sic). Omisso foi êle assim no cumprimento
do seu dever;
Considerando o mais que dos autos consta:
Acordam os juizes do Tribunal Marítimo Administrativo considerar como culposa
a colisão acima, ocorrida nas circunstâncias e com as conseqüências desentas, e que teve
com o causa determinante navegar o navio fóra da zona de visibilidade do farol, isto é,
dentro do setor obscuro fixado nas cartas, posição essa a que foi levado pelo abatimento
produzido pelas correntes loca:s e ventos: omissão culposa em corrigir a posição e tomar
outras medidas de segurança: imperícia na navegação com as disparatadas mudanças
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de rumo. Pelo que resolvem considerar com o responsáveis pelo acidente os pilotos M oacir
Freire e Caetano da M ota Mendonça, o primeiro com o incurso nas letras “ c ” e **f” do
art. 61 do decreto N o. 24. 585 de 1934 e o segundo com o incurso na letra “ i” do mesmo
decreto, impondo-lhes, respectivamente, as penas de 9 e 6 meses de suspensão de funções
e custas proporcionais, e isentar de culpa o capitão Benedito Barbosa Camilo. P .I.C .R .
Custas na fórma da lei.
R io de Janeiro, sala das sessões do Tribunal Marítimo Administrativo, aos 21 de
julho de 1939— D ario P aes L e m e d e C astro, vice-almirante, presidente; Joã o S to ll
G on ça lves, relator; C arlos L. B d e M iranda, F rancisco J osé da R och a , R a u l R o m êo
A n tu n e s B raga.
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(Embargos)
Julgados im p r o ce d e n te s . R esp on sa b ilid a d es d o o ficia l d e q u a r to ; q u a is
seja m .
Vistos, relatados e discutidos os presentes autos em que é embargante o segundo
pilôto Caetano da M ota Mendonça, e embargada a Procuradoria junto ao Tribunal.
O Tribunal Marítimo Administrativo, por acórdão de 21 de julho de 1939, decidiu
considerar culposa a colisão do paquete brasileiro Ita im b é com os rochedos da costa de
Cabo Frio, ocorrido na madrugada do dia 17 de outubro de 1938, nas circunstâncias e
com as conseqüências descritas nos autos, tendo com o causa determinante navegar o
navio fóra da zona de visibilidade do faról de Cabo Frio, isto é, dentro do setor obscuro
fixado nas cartas de navegação, posição esta a que foi levado pelo abatimento produzido
pelas correntes marítimas e ventos na região; omissão culposa em corrigir a posição e
tomar outras medidas de segurança; imperícia na navegação com as disparatadas mu
danças de rumo. Pelo que considerou responsáveis pelo acidente os pilotos Moacir Freire
e Caetano da M ota M endonça, o primeiro com o incurso nas letras c e / d o art. 61 do
decreto No. 24. 585 de 5 de julho de 1934, e o segundo com o incurso na letra i do mesmo
artigo, impondo-lhes, respectivamente, as penas de 9 e 6 meses de suspensão de funções
e custas proporcionais, isentando de culpa o capitão Benedito Barbosa Camilo, do pa
quete Ita im b é .
Pretende-se a refórma da decisão proferida, sendo alegadas para isso, as seguintes
principais razões:
“ — que embora fôsse o embargante o oficial de quarto, também se encontrava
no passadiço o primeiro pilôto Moacir Freire, que, por ordem d o comandante
e por ser o oficial de maior confiança, deveria auxiliá-lo até avistar o faról de
Cabo Frio;
— que a responsabilidade d o acidente é imputada ao mesmo primeiro pilôto,
por haver ordenado as mudanças de rumo que concorreram para o evento;
— que só não se verificou o naufrágio do navio porque o embargante ordenou
“ máquina atrás tôda fórça” ;
-— que o desastre teria sido evitado se o referido primeiro pilôto se houvesse
com maior prudência e senso de responsabilidade ou se tivesse chamado o co
mandante ao passadiço para se inteirar da situação;
— que o embargante apenas recebia ordens do primeiro pilôto e que, conse
qüentemente, nenhuma responsabilidade tem no acidente.”
Nenhuma destas alegações^ procede para infirmar a decisão embargada, porque:
A) De acôrdo com as leis, regulamentos e a tradição, são, em resumo, deveres
principais do oficial de quarto no passadiço de um navio em regime de navegação:
apresentar-se na ponte de comando em estado de perfeita integridade física e.
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sômente depois de perfeitamente identificado com as condiçôcs existentes, as
sumirá o serviço, recebendo-o do oficial a quem substitue;
tomar conhecimento d o rumo verdadeiro da derrota, rumo pela agulha padrão
e correspondente na agulha de govêrno, verificando se os rumos estão registrados
no quadro da casa do leme;
receber as instruções verbais deixadas pelo comandante ou as que constem do
livro de ordens;
identificar os faróis à vista, indagar quais os faróis que deverão ser avistados e
a hora provável, em que deverão aparecer;
consultar na carta de navegação o rumo traçado, posição estimada, distância
à costa ou baixios mais próximos, situação dos navios à vista em referência ao
seu;
conhecer o estado do tempo e do mar, indicações do odômetro, marcha do navio,
rotação das máquinas, caldeiras em atividade, correntes reinantes e seu pro
vável efeito sôbre a derrota;
verificar a escrituração do quarto feita pelo seu antecessor e se tudo está con
forme ao que lhe foi dito;
à noite, examinar a luz dos faróis de navegação, se os homens de vigia estão em
seus postos e instruídos para comunicar o que notarem no navio e no mar;
verificar a orientação dos ventiladores e extratores de ar dos porões e compar
timentos;
conferir a correspondência do rumo seguido pelo timoneiro com o que indica a
agulha padrão;
nunca passar o serviço ao seu substituto sem que esteja rendido o quarto dos ti
moneiros, devendo estes sempre que entreguem o serviço, avisar ao oficial de
quarto, o rumo que deram a governar. Tôdas as marcações de faróis e pontos
de terra ou luminosos serão feitas pela agulha padrão, devendo ser anotada a
indicação do odômetro no momento;
fazer marcações para determinar a distância a que o navio terá os faróis ou pontos
da costa, pelo través, de tudo dando conhecimento ao comandante;
fazer azimutes para determinação da variação da agulha assim como os cálculos
necessários à determinação da posição do navio, sempre que se oferecer oportu
nidade. Qualquer dúvida que tiver ou anormalidade que verificar, deve ser
levada imediatamente ao conhecimento do capitão, devendo pedir sua presença
no passadiço, para inteirar-se da situação, podendo mesmo parar as máquinas
se julgar necessária esta providência à segurança do navio;
levar ao conhecimento do capitão tôda a mudança do tempo, chuva, neve,
cerração, nevoeiro, fumaça, assim também grande número dc navios nas pro
ximidades;
nunca afastar-se de seu pôsto no passadiço, a não ser em caso de absoluta neces
sidade, sem que tenha ordem do comandante, que designará outro oficial para
substituí-lo.
usar de sua habilidade e melhores conhecimentos profissionais para auxiliar o
comandante, sempre que a ocasião se ofereça, demonstrando ser um bom e ze
loso oficial.
B )— O oficial de quarto no passadiço, na ausência, do comandante, é o seu repre
sentante, não estando, portanto, subordinado a qualquer outro oficial, quando
no exercício desta função.
De sua conciência no cumprimento de deveres, depende a segurança do navio
e vidas a bordo, além da responsabilidade sôbre o enorme valor que representa
a propriedade do navio e de tudo o que nele se encontra;
Da correção de sua atitude e do respeito às ordens recebidas, depende muito a
disciplina geral da tripulação.
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E ’ responsável pelas faltas dos que estiverem sob suas ordens, tendo pessoal
mente que responder perante o comandante por tudo o que se passa durante o
tempo em que está de serviço, pelo que deve exigir de todos o com pleto cum
primento dos deveres.
Quando julgar conveniente modificar o rumo do navio, comunicará imediata
mente ao comandante as razões que assim o exigem; se êste se opuser, desprezando
as suas observações, que em tal caso, deverá renovar-lhe na presença dos demais
oficiais, lançando o seu protesto no “ diário de navegação” o qual, deverá ser
por todos assinado e obedecerá às ordens do comandante, sôbre quem recairá
tôda a responsabilidade. C ódigo C o m ercia l B rasileiro, art. 539).
Por tôdas estas considerações verifica-se que são essencialmente necessárias
à vigilância absoluta do oficial de quarto, a conciência no exercício da profissão,
o critério nas atitudes e o senso de responsabilidade.
C) Está plenamente provado nos autos que não existia no passadiço do paquete
Ita im b é tôda a vigilância e prudência necessárias à segurança d o navio, por
parte daqueles que tinham responsabilidade pela sua navegação. O fato d o
faról não haver sido avistado no momento em que se esperava, em navio com
marcha segura de 13 */j nós, quando era conhecida de todos a faixa de obscuri
dade d o faról indicada nas cartas de navegação, levaria a prever que o navio se
encontrava navegando na região do setor obscurecido, devendo imediatamente
ser chamado o comandante para que viesse retificar a navegação. O oficial de
quarto e mais o seu auxiliar, desrespeitando ainda as ordens baixadas pelo ar
mador e, à revelia do mesmo comandante, hesitantes e em desacordo, ordenaram
várias mudanças do rumo, ocasionando o choque do paquete contra os rochedos
do Cabo Frio, e de que poderia ter resultado o naufrágio do navio com a perda
das 450 vidas que estavam a bordo. O comandante só foi chamado ao passadiço
no último momento, para assistir á colisão e tomar as providências que tornaram
possível a chegada do navio ao pórto do R io de Janeiro, sem maior perigo.
A acusação que o embargante faz ao primeiro pilôto foi também por êle obser
vada, pois com o oficial de quarto e responsável pela segurança do navio, de
veria exigir a presença do capitão no passadiço logo que, decorridos alguns ins
tantes do momento em que esperava o aparecimento d o faról de Cabo Frio,
êste não aparecia.
Nota-se ainda a falta de vigilância, porque o faról de M acaé teria sido avistado,
pois o tempo era bom, visibilidade suficiente, céu estrelado, mar tranqüilo; nenhuma
referência se fez a êle no “ diário de navegação” nem tampouco à ilha Ancora, da qual o
navio passára cêrca de 4 milhas distante e não consta ter sido vista, o que sempre acon
tece, mesmo à noite.
A terra alta que fórma o promontório do C abo Frio, só foi avistada quando muito
próxima, não havendo tempo de evitar o choque contra os rochedos, apesar das máquinas
trabalhando atrás tôda fôrça.
Estes são os motivos porque, por unanimidade de votos de seus juizes,
Acórda o Tribunal Marítimo Administrativo, receber os embargos e dêles tomar
conhecimento, para desprezando-os, manter a decisão embargada. P. I. C. R. Custas
na fórma da lei. *
R io de Janeiro, sala das sessões do Tribunal M arítim o Administrativo, aos 20 de
outubro de 1939.— D a n o Paes L e m e d e C astro, vice-almirante, presidente; F ra n cisco
J osé da R och a , relator; C arlos L. B. d e M ira n d a ; R a u l R o m êo A n tu n e s B ra g a ;
J oã o S to ll G o n ça lv es;
Fui presente: Carlos A m érico Brasil.