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O documento analisa a responsabilidade civil do Estado em situações de catástrofes naturais em Portugal, destacando a importância da atuação preventiva da Administração Pública para proteger cidadãos e bens. A responsabilização do Estado deve ser tanto corretiva quanto preventiva, incentivando melhorias nos serviços públicos e mitigação de riscos. Além disso, o texto propõe a necessidade de reformas legislativas e a adoção de boas práticas internacionais para fortalecer a proteção civil e a resposta a desastres.

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O documento analisa a responsabilidade civil do Estado em situações de catástrofes naturais em Portugal, destacando a importância da atuação preventiva da Administração Pública para proteger cidadãos e bens. A responsabilização do Estado deve ser tanto corretiva quanto preventiva, incentivando melhorias nos serviços públicos e mitigação de riscos. Além disso, o texto propõe a necessidade de reformas legislativas e a adoção de boas práticas internacionais para fortalecer a proteção civil e a resposta a desastres.

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Quando o Estado Falha: Responsabilidade Civil e o

Custo da Inação em Catástrofes Naturais

Introdução Histórica
Desde o início do século XX, a jurisprudência portuguesa tem evoluído progressivamente na
responsabilização do Estado por danos causados a particulares, especialmente em contextos de
calamidades naturais. A legislação e a doutrina pretende para conciliar proteção dos cidadãos,
prevenção de riscos e a consolidação do Estado de Direito, simultaneamente.

A proteção pública em situações de desastre


Entre 2010 e 2022, Portugal registou mais de 20 mil incêndios florestais e cerca de 1.500
inundações urbanas, com prejuízos que ultrapassam centenas de milhões de euros.
A responsabilidade civil do Estado por omissão em catástrofes naturais evidencia a função
central da Administração Pública: satisfazer necessidades coletivas fundamentais (segurança,
cultura, bem-estar económico e social). A proteção de pessoas e bens perante riscos previsíveis
exige uma resposta estatal eficaz, implementada por serviços organizados, como bombeiros e
proteção civil. Quando a Administração falha nesse dever, surge a necessidade de
responsabilização, assegurando a tutela dos direitos dos cidadãos e o reforço do Estado de
Direito.
A meu ver, esta obrigação não deve ser encarada apenas como formal ou reativa; a atuação
preventiva é essencial para reduzir danos e salvar vidas, refletindo a importância de um Estado
proativo.

O dever da Administração Pública


A Administração Pública, em sentido material, abrange atividades de gestão e execução
destinadas ao bem-estar coletivo. Entre essas atividades está a obrigação de prevenção e
resposta perante catástrofes naturais. A omissão estatal, seja por ausência de fiscalização,
planeamento, manutenção de infraestruturas ou preparação de meios, configura falha no
cumprimento de um dever legalmente imposto, abrindo caminho à responsabilidade civil.
“A responsabilização objetiva do Estado em situações de catástrofe deve ser interpretada
de forma a assegurar proteção efetiva aos cidadãos.” – Lebre de Freitas
Esta máxima evidencia que a responsabilidade do Estado não é apenas uma formalidade
jurídica: é um instrumento de proteção social e de consolidação do Estado de Direito,
garantindo que os direitos fundamentais sejam efetivamente tutelados.
A prevenção de incêndios florestais ou a manutenção de sistemas de drenagem urbana não são
facultativas: constituem deveres que visam proteger a comunidade e os bens públicos e
privados. A responsabilidade civil cumpre função corretiva e preventiva, incentivando
melhorias estruturais e políticas públicas de mitigação de riscos.
Desta forma, a responsabilização do Estado deveria sempre vir acompanhada de medidas de
melhoria do serviço, evitando a repetição da omissão.
A Administração Pública, em sentido material, abrange todas as atividades de gestão, execução
e coordenação destinadas ao bem-estar coletivo. Estas atividades não se limitam à mera
execução de políticas, mas incluem planeamento estratégico, prevenção de riscos, fiscalização
de infraestruturas e coordenação de serviços públicos essenciais. Entre estas responsabilidades,
destaca-se a obrigação de prevenção e resposta perante catástrofes naturais, como incêndios
florestais, inundações e deslizamentos de terra. A omissão estatal, seja por falta de fiscalização,
ausência de planeamento, manutenção insuficiente de infraestruturas ou preparação inadequada
de meios, configura falha no cumprimento de um dever legalmente imposto, abrindo caminho à
responsabilidade civil do Estado, que pode ser objetiva ou subjetiva, dependendo da gravidade e
da natureza da omissão.
Entre os deveres preventivos da Administração Pública destacam-se a prevenção de incêndios
florestais, com limpeza de matas, criação de faixas de contenção e vigilância constante em
períodos de risco elevado; a gestão de drenagem urbana, com inspeção e manutenção de canais,
bueiros e sistemas de escoamento; o planeamento urbano seguro, com regulamentação da
ocupação do solo em zonas de risco e fiscalização de construções irregulares; e a preparação de
meios de emergência, incluindo a capacitação de bombeiros, planeamento de rotas de evacuação
e coordenação com forças policiais e serviços de proteção civil. Estes deveres não são
facultativos, mas obrigatórios e essenciais para proteger vidas humanas, bens públicos e
privados, e reduzir os impactos econômicos e sociais de catástrofes naturais.
A responsabilidade civil do Estado cumpre uma dupla função: corretiva, ao indenizar as vítimas
pelos danos sofridos em razão da omissão administrativa, e preventiva, ao criar um incentivo
institucional para que a Administração adote políticas e medidas estruturais que minimizem
riscos futuros. Por exemplo, se uma autarquia não limpa canais de drenagem e ocorre uma
inundação, a responsabilização civil objetiva não só compensa os prejudicados, mas também
pressiona a Administração a adotar medidas preventivas permanentes, evitando reincidência.
Além disso, a responsabilização do Estado deveria sempre vir acompanhada de medidas de
melhoria contínua do serviço público, como revisão periódica de planos de prevenção e
contingência, auditorias e inspeções independentes sobre manutenção de infraestruturas,
capacitação técnica de agentes públicos em gestão de riscos e implementação de sistemas de
alerta e monitoramento avançados, incluindo tecnologias digitais para antecipação de desastres.
Dessa forma, a responsabilização civil deixa de ser apenas reativa, transformando-se em um
instrumento de modernização administrativa e prevenção social.
O dever da Administração Pública possui também uma dimensão ética indissociável do seu
papel legal. Cada omissão não é apenas uma falha administrativa; representa a negativa à
proteção de direitos fundamentais, podendo resultar em perdas de vidas e danos irreparáveis à
comunidade. A atuação preventiva e eficaz da Administração Pública não protege apenas os
indivíduos diretamente afetados, mas fortalece a confiança da sociedade no Estado, legitima o
poder público e consolida o contrato social, garantindo que a coletividade confie na capacidade
do Estado de cumprir suas funções essenciais.
A prevenção de incêndios florestais ou a manutenção de sistemas de drenagem urbana não são,
portanto, facultativas, constituindo deveres que visam proteger a comunidade e os bens públicos
e privados. A responsabilidade civil cumpre, assim, uma função corretiva e preventiva,
incentivando melhorias estruturais e políticas públicas de mitigação de riscos. Desta forma, a
responsabilização do Estado deveria sempre vir acompanhada de medidas de melhoria do
serviço, evitando a repetitividade da omissão e fortalecendo a resiliência coletiva frente a
catástrofes naturais.

Responsabilidade objetiva, subjetiva e funcionamento anormal do


serviço na tabela:
Tipo de responsabilidade Elemento Necessário

Objetiva (o Estado responde Nexo causal - Relação direta entre a omissão e


independentemente de culpa, quando o o dano sofrido (ex: falha estrutural em
serviço público funciona de forma anormal e prevenção de incêndios florestais.)
causa dano.)

Subjetiva (exige prova de dolo ou Culpa/Negligência (ex: atraso de agente na


negligência de um agente público.) resposta a inundação urbana.)

Jurisprudência portuguesa
relevante

• TC, Acórdão Nº 154/2007: Aplicação da responsabilidade objetiva do Estado


em prejuízos causados por medidas ilegais.
• TCAS, 151/12.9BEFUN, 23/06/2022: Entidade pública responsabilizada por
falha preventiva simples em inundação urbana.
• TCAN, 12/03/2021: Autarquia responsabilizada por omissão na conservação de
vias públicas.
• Incêndios de Pedrógão Grande, 2017: Falhas sistémicas analisadas à luz do
funcionamento anormal do serviço.

Exemplos hipotéticos
1. Uma autarquia não limpa um canal de drenagem antes da época das chuvas. A
inundação ocorre. A responsabilidade civil objetiva pode ser acionada devido à omissão na
manutenção preventiva.
2. Um bombeiro não recebe instruções claras sobre um alerta de incêndio florestal,
levando a um atraso na resposta. Se o dano decorre diretamente da falha, aplica-se a
responsabilidade subjetiva por negligência.

Limitações da responsabilidade civil


As principais limitações no regime de responsabilidade civil do Estado por omissão em
catástrofes naturais evidenciam desafios estruturais, legais e operacionais que não podem ser
ignorados. Em primeiro lugar, a dificuldade probatória constitui um obstáculo central.
Demonstrar a existência de uma omissão concreta em serviços altamente complexos ou
descentralizados, como os sistemas de proteção civil, os corpos de bombeiros municipais, as
unidades de proteção ambiental ou entidades de gestão florestal, é frequentemente um processo
moroso, tecnicamente exigente e oneroso. Cada nível administrativo pode ter responsabilidades
parcialmente sobrepostas, tornando difícil identificar com precisão qual órgão falhou e em que
medida tal falha contribuiu para o dano. Além disso, a natureza imprevisível e dinâmica das
catástrofes naturais, incluindo incêndios florestais, inundações e tempestades extremas, dificulta
ainda mais a demonstração de nexo causal direto entre a omissão administrativa e o prejuízo
sofrido pelas vítimas.
A estas dificuldades soma-se o impacto dos limites financeiros e estruturais do Estado. Recursos
orçamentais escassos, deficiências de infraestruturas e insuficiência de meios humanos
especializados condicionam fortemente a capacidade de prevenção, coordenação e resposta
imediata em cenários de grande escala. Por exemplo, em períodos de seca prolongada, a
capacidade dos serviços de proteção civil e bombeiros de realizar patrulhas, vigilância e
operações de contenção simultâneas pode ser limitada, o que aumenta o risco de falhas e torna a
responsabilização civil ainda mais complexa, pois nem toda omissão decorre de negligência;
parte pode ser consequência da limitação objetiva de recursos.
Há um potencial conflito entre a necessidade de responsabilização e a autonomia administrativa.
Embora a responsabilização civil seja essencial para garantir proteção aos cidadãos, uma
intervenção judicial demasiado ampla pode interferir com a discricionariedade técnica da
Administração, prejudicando decisões estratégicas que dependem de avaliação especializada.
Por exemplo, um tribunal que imponha padrões rígidos de prevenção pode limitar a
flexibilidade operacional de uma equipa de bombeiros ou de gestores municipais, criando um
dilema entre cumprimento legal e eficiência prática.
Além disso, persistem lacunas legislativas quanto à distinção entre responsabilidade objetiva e
subjetiva. Em contextos de risco natural elevado, essa fronteira muitas vezes não está
claramente definida, gerando incerteza jurídica e divergência em decisões jurisprudenciais. Em
alguns casos, tribunais entendem que a omissão deve ser analisada sob a ótica da
responsabilidade objetiva, mesmo sem comprovação de culpa direta, enquanto outros insistem
na demonstração de dolo ou negligência específica de agentes públicos. Essa indefinição
contribui para a insegurança jurídica, prejudica a previsibilidade e dificulta a formulação de
políticas públicas consistentes de mitigação de riscos.
Outro ponto relevante é a limitação na avaliação de risco e na implementação de medidas
preventivas estruturais. A ausência de padrões claros de prevenção e de monitoramento
contínuo aumenta a vulnerabilidade dos cidadãos, e ao mesmo tempo, complica a
responsabilização do Estado, pois torna-se necessário comprovar que a Administração deixou de
agir diante de riscos conhecidos e objetivamente previsíveis. Isso exige não apenas perícia
técnica detalhada, mas também registos administrativos precisos, planos de contingência
atualizados e sistemas de alerta integrados, elementos que ainda estão insuficientemente
desenvolvidos em muitos contextos.
Por fim, essas limitações evidenciam a urgência de reformas legislativas e de reestruturação das
políticas públicas, de modo a criar um regime de responsabilidade civil mais eficaz, coerente e
adaptado à realidade das catástrofes contemporâneas. Tais reformas poderiam incluir a definição
clara das responsabilidades de cada órgão público, a padronização de protocolos de prevenção e
resposta, a criação de fundos de compensação específicos para vítimas de omissões estatais,
além do fortalecimento de mecanismos de fiscalização, auditoria e transparência. A
implementação de tecnologia avançada para monitoramento de riscos e a capacitação contínua
de agentes públicos também se mostram indispensáveis, permitindo que a responsabilização
civil funcione não apenas como reparação posterior, mas como um instrumento de prevenção e
melhoria contínua do serviço público.
Em síntese, as limitações atuais refletem a complexidade inerente à gestão de riscos em
sociedades modernas, destacando a necessidade de equilibrar proteção jurídica aos cidadãos
com eficiência operacional e autonomia administrativa. Somente por meio de ajustes
legislativos, aprimoramento institucional e integração tecnológica será possível garantir um
regime de responsabilidade civil do Estado que seja justo, previsível e capaz de responder
adequadamente aos desafios impostos pelas catástrofes naturais.

Perspetiva comparativa internacional


A comparação internacional é essencial para compreender como outros países estruturam
a responsabilidade civil do Estado, o poder de polícia e a prevenção de catástrofes
naturais. A análise de regimes estrangeiros permite identificar boas práticas, lacunas e
oportunidades de adaptação no contexto português.
França – Plan de Prévention des Risques (PPR)
A França possui um sistema detalhado de prevenção de riscos naturais denominado Plan de
Prévention des Risques (PPR). Trata-se de um conjunto de normas e mapas de risco que
identificam áreas vulneráveis a inundações, incêndios florestais, movimentos de terra e
terremotos.
 Características principais:
o Planos obrigatórios para municípios situados em zonas de risco.
o Regulação de uso do solo: construção proibida ou condicionada em áreas de
alta vulnerabilidade.
o Fundo de indemnização estatal para vítimas de desastres naturais, assegurando
rápida compensação.
o Participação comunitária: população local é consultada em cada fase do
planejamento.
 Impacto:
o Redução significativa de danos materiais em inundações e incêndios.
o Responsabilização clara do Estado quando falhas na prevenção ocorrem.
o Incentivo à cultura de prevenção entre cidadãos, empresas e autoridades locais.
Era possível, em Portugal: Implementar mapas de risco vinculativos, obrigatoriedade de
planos municipais de prevenção e fundos compensatórios para vítimas de catástrofes.
Espanha – Sistema Nacional de Protección Civil
A Espanha organiza a proteção civil em nível nacional, com coordenação entre governo
central, comunidades autónomas e municípios. O sistema combina prevenção, gestão de
emergências e participação cidadã.
 Estrutura:
o Dirección General de Protección Civil y Emergencias: órgão central
responsável por coordenação e normativos.
o Planes Especiales de Emergencia: regulam atuação frente a riscos específicos
(inundações, incêndios, terremotos).
o Alertas precoces via aplicativos e sistemas de SMS, integrados com serviços de
emergência locais.
 Boas práticas:
o Treinamento anual de bombeiros e voluntários civis.
o Campanhas educativas para população sobre comportamento seguro em
emergências.
o Responsabilidade clara das autoridades locais e regionais; omissões graves
podem gerar responsabilização legal.
Lição para Portugal: Fortalecer coordenação centralizada com capacidade de intervenção
rápida e integração de alertas precoces à população, além de consolidar normas obrigatórias
para municípios.

Itália – Protezione Civile


A Itália possui uma das estruturas mais avançadas para prevenção e resposta a catástrofes
naturais, com foco em sismos, inundações e erupções vulcânicas.
 Características principais:
o Sistema federal com coordenação nacional, regional e municipal.
o Uso intensivo de tecnologia e monitorização sísmica, sensores de nível de
água e drones.
o Protocolos claros de evacuação e comunicação de risco.
o Participação de voluntariado civil altamente organizado, incluindo formação em
primeiros socorros e resgate.
 Resultados:
o Redução de mortes em eventos sísmicos através de evacuações rápidas.
o Estrutura clara de responsabilidade civil e penal para gestores públicos em caso
de negligência.
Portugal poderia adotar: os protocolos de evacuação detalhados, integrar tecnologia de
monitorização e valorizar voluntariado e participação cidadã.

Alemanha – Bundesamt für Bevölkerungsschutz und Katastrophenhilfe (BBK)


A Alemanha possui o BBK, responsável por proteção civil e mitigação de riscos. A abordagem
combina prevenção tecnológica, educação da população e legislação rigorosa.
 Principais ações:
o Sistemas de alerta automático via aplicativos e sirenes.
o Mapas digitais de risco natural disponíveis publicamente.
o Planos obrigatórios de preparação em escolas, hospitais e empresas.
o Cooperação com universidades para análise de dados e previsão de eventos.
 Impactos:
o Alta resiliência urbana frente a inundações e tempestades.
o Responsabilização clara do Estado quando falhas de prevenção resultam em
danos.
o Participação da população considerada crucial para eficácia do sistema.
Portugal deve então: Investir em educação cívica, mapas digitais de risco e integração de
universidades e centros de pesquisa para previsão e mitigação de catástrofes.
7.5 Síntese Comparativa e Aplicabilidade para Portugal
Ao analisar estes países, alguns padrões emergem:
1. Mapas de risco obrigatórios — ajudam na prevenção e restringem urbanização em
áreas vulneráveis.
2. Planos de emergência municipais e nacionais — coordenam respostas rápidas e
definem responsabilidades legais.
3. Fundos de compensação para vítimas — garantem reparação eficiente sem
sobrecarregar cidadãos.
4. Participação cidadã e educação cívica — populações informadas e treinadas reduzem
danos e fortalecem responsabilidade administrativa.
5. Tecnologia e monitorização — sensores, drones, IA e sistemas de alerta aumentam
capacidade preventiva.
6. Responsabilização clara do Estado — falhas graves na prevenção geram
responsabilização civil e penal.
Proposta para Portugal:
 Criar Planos Municipais e Nacionais de Prevenção com mapas de risco públicos.
 Estabelecer fundos de compensação para catástrofes naturais.
 Fortalecer educação cívica e participação comunitária.
 Investir em tecnologia de monitorização e alertas precoces.
 Garantir responsabilização objetiva do Estado em omissões graves, alinhando
legislação nacional às melhores práticas europeias.

O Papel do Cidadão na Proteção e Responsabilização Administrativa


A proteção coletiva não depende apenas do Estado. Educação cívica, planeamento urbano
participativo e cooperação com serviços públicos complementam a ação estatal, reduzindo
riscos e fortalecendo a responsabilização administrativa.
Embora o Estado detenha a principal responsabilidade pela proteção da comunidade, os
cidadãos desempenham um papel ativo e complementar.
Educação Cívica e Conscientização
 O cidadão informado entende melhor os riscos naturais e adota comportamentos
preventivos. Exemplificando: evitar queimadas, participar em campanhas de segurança
em cheias e incêndios.
Planeamento Urbano Participativo
 Os moradores e associações locais colaboram em audiências públicas, ajudando a
identificar áreas vulneráveis e sugerir medidas de prevenção.
Denúncia e Fiscalização Social
 Os cidadãos podem agir como vigias da legalidade, reportando omissões ou
irregularidades da Administração. um exemplo seria: falta de limpeza de canais ou
fiscalização insuficiente em áreas de risco.
Cooperação com Serviços Públicos
 A possibilidade de cooperação perpetua-se ao seguir orientações de evacuação, auxiliar
vizinhos, participar em brigadas comunitárias.
Responsabilização Indireta do Estado
 A atuação cidadã aumenta a pressão sobre a Administração, incentivando melhorias
preventivas e maior investimento em infraestrutura, como por exemplo: ações coletivas
ou pedidos de auditoria pública.
Ferramentas Modernas de Participação
 Algumas formas de colaborar podem ser através de: aplicações e plataformas digitais
permitem monitorar riscos, reportar problemas e receber alertas do Estado; a
participação em fóruns online de políticas públicas e em projetos de cidades
inteligentes.

Soluções
As soluções para reforçar a eficácia do regime de responsabilidade civil do Estado por
omissão passam por um conjunto de medidas estruturais e normativas. Em primeiro lugar,
impõe-se uma clarificação legislativa que defina, de forma inequívoca, os critérios de aplicação
da responsabilidade objetiva e subjetiva, reduzindo a incerteza jurídica que hoje persiste.
Paralelamente, a adoção de planos de prevenção obrigatórios, sujeitos a acompanhamento
judicial periódico, garantiria maior controlo externo e reforçaria a cultura de prevenção dentro
da Administração Pública. A isto deve acrescentar-se uma política de transparência e prestação
de contas sistemática após cada catástrofe, permitindo identificar falhas, responsabilidades e
necessidades de reforma. A integração formal de avaliações de risco e da respetiva afetação de
recursos financeiros é igualmente essencial para assegurar que a resposta do Estado corresponde
às exigências reais do território. Por fim, a promoção de educação cívica e de mecanismos de
colaboração entre cidadãos e Administração Pública reforça a resiliência coletiva, tornando a
prevenção e a gestão de catástrofes uma tarefa partilhada e mais eficaz.

Conclusão
O dever de proteção da comunidade diante de riscos naturais é inerente à missão da
Administração Pública. Quando essa missão é descumprida por omissão, o Estado deve assumir
a responsabilidade civil pelos danos produzidos.
Apesar do progresso, a insuficiência do sistema persiste em termos preventivos. A
responsabilização civil deve sempre vir acompanhada de políticas públicas robustas de
prevenção, fiscalização contínua, planeamento estratégico e educação cívica, assegurando
proteção efetiva e consolidando a confiança coletiva no Estado.
“A responsabilização civil por omissão não é apenas um mecanismo jurídico: é a ponte
entre o poder do Estado e a segurança da comunidade.”
Em síntese, o regime de responsabilidade civil do Estado por omissão em catástrofes naturais
assenta num dever fundamental: a obrigação constitucional e administrativa de proteger a
coletividade. Este regime articula-se através da responsabilidade objetiva e subjetiva, incluindo
a figura do funcionamento anormal do serviço, que permite imputar ao Estado falhas relevantes
na prevenção ou resposta a incêndios e inundações. Entre as omissões mais comuns encontram-
se deficiências na vigilância, ausência de planos operacionais eficazes, insuficiência de meios e
falhas na coordenação entre entidades públicas. A jurisprudência tem desempenhado um papel
decisivo ao ilustrar, na prática, como estes critérios são aplicados pelos tribunais, contribuindo
para delimitar a fronteira entre o risco natural inevitável e a verdadeira omissão ilícita. Por fim,
as principais recomendações convergem para a necessidade de reforçar a prevenção, assegurar
maior transparência administrativa, promover educação cívica e concretizar reformas
legislativas que clarifiquem e modernizem o regime vigente.

Bibliografia
Doutrina Portuguesa e Brasileira
 Carvalho Filho, José dos Santos. Curso de Direito Administrativo. 28.ª edição. São
Paulo: Editora Atlas, 2018.
 Lopes Meirelles, Hely. Direito Administrativo Brasileiro. 43.ª edição. São Paulo:
Malheiros, 2017.
 Menezes Cordeiro, António. Princípios Constitucionais da Administração Pública.
Lisboa: Almedina, 2016.
 Menezes Leitão, Luís. Controle Judicial da Administração Pública. Coimbra: Coimbra
Editora, 2015.
 Lebre de Freitas, José. Direito Administrativo. Coimbra: Almedina, 2020.
 Oliveira, Carlos. Responsabilidade Civil do Estado. Lisboa: Rei dos Livros, 2019.
 Celeste, Maria. A Responsabilidade da Administração Pública. Coimbra: Almedina,
2018.
 Silva, R., & Fernandes, L. Tecnologias de monitorização e proteção civil: experiências
internacionais, Revista de Administração Pública, 2021.
 Costa, M. IA e drones na Administração Pública: desafios e limites legais, Direito e
Tecnologia, 2022.
 Dias, F. Participação cidadã na gestão de riscos e prevenção de catástrofes, Revista
Lusófona de Estudos Públicos, 2020.
Legislação Portuguesa
 Constituição da República Portuguesa, 1976, atualizada.
 Lei n.º 105/2009, de 14 de setembro – Videovigilância.
 Lei n.º 34/2015, de 29 de abril – Proteção de dados / RGPD.
 Código Civil, arts. 493.º e seguintes.
 Lei n.º 67/2007, de 31 de dezembro – Responsabilidade civil do Estado.
Jurisprudência Portuguesa
 Tribunal Constitucional, Acórdão TC 154/2007.
 Tribunal Constitucional, Acórdão TC 673/2013.
 Supremo Tribunal Administrativo, Acórdão STA 580/2017.
 Tribunal de Contas, Acórdão TCAS 151/12.9BEFUN, 23/06/2022.
 Tribunal Constitucional Administrativo do Norte, Acórdão TCAN 12/03/2021.
 Relatórios sobre incêndios de Pedrógão Grande, 2017.
Jurisprudência e Leis Internacionais
 Tribunal de Justiça da União Europeia, Digital Rights Ireland, C-293/12 e C-594/12.
 França – Plan de Prévention des Risques.
 Espanha – Planes Especiales de Emergencia.
 Itália – Protezione Civile.
 Alemanha – Bundesamt für Bevölkerungsschutz und Katastrophenhilfe (BBK).
Artigos e Estudos Comparativos
 European Commission. Civil Protection and Disaster Risk Management in the EU,
2021.
 OECD. Disaster Risk Management and Public Sector Accountability, 2019.
 UNDRR. Global Assessment Report on Disaster Risk Reduction, 2020.

Inês Afonso - 71120


Turma B, St. 15

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