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DENGUE

O documento aborda a Dengue, uma doença infecciosa causada pelo vírus do gênero Flavivirus, transmitido pelo mosquito Aedes. O estudo visa atualizar informações sobre a epidemiologia, fisiopatologia, diagnóstico, prevenção e tratamento da Dengue, destacando a importância do controle do vetor e os impactos socioeconômicos da doença. A pesquisa foi realizada em diversas bases de dados e inclui uma análise detalhada dos sorotipos do vírus, suas manifestações clínicas e as estratégias de diagnóstico.
Direitos autorais
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DENGUE

O documento aborda a Dengue, uma doença infecciosa causada pelo vírus do gênero Flavivirus, transmitido pelo mosquito Aedes. O estudo visa atualizar informações sobre a epidemiologia, fisiopatologia, diagnóstico, prevenção e tratamento da Dengue, destacando a importância do controle do vetor e os impactos socioeconômicos da doença. A pesquisa foi realizada em diversas bases de dados e inclui uma análise detalhada dos sorotipos do vírus, suas manifestações clínicas e as estratégias de diagnóstico.
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INTRODUÇÃO

A Dengue é uma arbovirose que dá origem a doença infecciosa


emergente causada pelo vírus pertencente ao gênero Flavivirus e
transmitida por meio da picada do mosquito pertencente ao gênero
Aedes. O vírus possui quatro tipos presentes no Brasil: DEN-1, DEN-2,
DEN-3, DEN-4. A infecção pelo vírus da dengue causa uma doença
com um variado espectro clínico, apresentando desde formas brandas
a quadros clínicos graves, em alguns casos com manifestações
hemorrágicas. O Aedes é o principal vetor do vírus no país, tratando-
se de um mosquito com hábitos diurnos, antropofílico e
essencialmente urbano, que se desenvolve principalmente em
depósitos de água. A principal medida de controle da doença é o
combate ao vetor.(1)

Este estudo tem como objetivo a atualização dos dados da arbovirose


Dengue, sua fisiopatologia, diagnóstico, prevenção e tratamento.

METODOLOGIA

Com a intenção de atualizar os estudos publicados em bases de


dados sobre a Dengue e seus avanços, seguiram-se as seguintes
etapas: recorte do tema, definição dos descritores e das bases de
dados para busca; estabelecimento dos critérios para seleção da
amostra; avaliação do resultado da busca.

Para levantamento, foram consultadas as bases LILACS – Literatura


Latino-americana e do Caribe em Ciências da Saúde, SciELO –
Scientific Eletronic Librari Online, PubMed – Public Medline e Revista
de Patologia Tropical.
Na base de dados LILACS, PubMed, SciELO e Revista de Patologia
Tropical utilizaram-se os descritores em Português com resultado
também em Inglês: “dengue” and “epidemiologia” and
“fisiopatologia” and “diagnóstico” and “tratamento”. Foram utilizados
como filtro: artigo completo, publicação no idioma Português dos
últimos cinco anos. Os descritores utilizados para a busca no LILACS,
PubMed e no SciELO estavam de acordo os Descritores em Ciências
da Saúde (DeCS).

Foram excluídos artigos repetidos, incompletos, os que não tinham


relação com o tema e os que não estavam disponíveis em formato
eletrônico. Por fim, foi elaborado um quadro sinóptico para sintetizar e
organizar os dados dos artigos selecionados, apresentando um
panorama geral das publicações.

DESENVOLVIMENTO

Agente etiológico

O Arbovirus (vírus transmitido por artrópodes) constitui o maior grupo


conhecido de vírus, apresenta o genoma constituído de ácido
ribonucleico (RNA) e é mantido na natureza por meio de transmissão
biológica entre hospedeiros vertebrados susceptíveis e artrópodes
hematófagos, ou por transmissão de artrópode para artrópode
através da via transovariana.(1)

O vírus da dengue é um arbovírus do gênero Flavivirus e pertencente


à família Flaviviridae. Apresenta quatro sorotipos denominados DEN-
1, DEN-2, DEN-3, DEN-4. No Brasil já foram registrados os quatro
tipos. Ao que tudo indica, o DEN-3 é o tipo mais virulento, seguido
pelo DEN-2, DEN-4 e DEN-1.
O tipo 1 é o mais explosivo dos quatro, ou seja, causa grandes
epidemias em curto prazo e alcança milhares de pessoas
rapidamente. As epidemias geralmente ocorrem no verão, durante ou
imediatamente após períodos chuvosos.(2)

O vírus da dengue é transmitido por mosquitos fêmeas da espécie


Aedes aegypti e, em menor grau, Aedes albopictus. A transmissão da
dengue ocorre principalmente em áreas temperadas e tropicais de
alcance do vetor, com variações locais influenciadas pela chuva,
temperatura e urbanização rápida e não planejada das cidades.(3)

A fonte de infecção e o hospedeiro vertebrado é a espécie humana. O


ciclo de transmissão do vírus da dengue começa quando o mosquito
pica uma pessoa infectada. Dentro do Aedes, o vírus multiplica-se no
intestino médio do inseto e, com o tempo, passa para outros órgãos,
chegando finalmente às glândulas salivares, de onde sairá para a
corrente sanguínea da pessoa picada. Assim que penetra na corrente
sanguínea, o vírus passa a se multiplicar em órgãos específicos, como
o baço, o fígado e os tecidos linfáticos. Esse período é conhecido
como incubação e dura de quatro a sete dias. Após, o vírus volta a
circular na corrente sanguínea. Pouco depois ocorrem os primeiros
sintomas.(2)

O vírus replica-se também nas células sanguíneas, como o


macrófago, e atinge a medula óssea, comprometendo a produção de
plaquetas. Durante a multiplicação viral, formam-se substâncias que
agridem as paredes dos vasos sanguíneos, provocando uma perda de
líquido (plasma). Quando isso ocorre muito rapidamente, aliado à
diminuição de plaquetas, podem ocorrer sérios distúrbios no sistema
circulatório, como hemorragias e queda da pressão arterial (choque).
Com pouco plasma, o sangue fica mais denso, dificultando as trocas
gasosas com o pulmão, o que pode gerar uma deficiência respiratória
aguda.(2)

EPIDEMIOLOGIA
A dengue é considerada a mais importante doença por arbovírus, pois
mais da metade da população mundial vive em países endêmicos de
dengue. Uma estimativa global sugere que cerca de 50 a 200 milhões
de casos de dengue ocorram anualmente, culminando em cerca de 20
mil mortes.(4)

A carga de casos e o número de países que relataram surtos de


dengue aumentaram dez vezes nos últimos trinta anos. Atualmente, a
doença é encontrada em pelo menos cem países tropicais e
subtropicais, incluindo os países da África, Sudeste Asiático, Pacífico
Ocidental, Américas, Caribe e no Mediterrâneo Oriental.(5)

Os fatores determinantes para a expansão atualmente observada da


dengue são multifatoriais e incluem evolução do vírus; fatores
socioeconômicos, como crescimento populacional, recursos
econômicos limitados e a urbanização; aquecimento global; assim
como viagens e comércio globais.(6)

O ônus econômico da dengue é alto, sendo os custos mundiais em


tratamento médico, vigilância, controle de vetores e produtividade
perdida estimados em aproximadamente 39 bilhões de dólares por
ano. O custo da doença nas Américas é medido anualmente entre 1 e
4 bilhões de dólares.(7)

Os primeiros surtos de dengue notificados datam de 1779 e 1780, na


Ásia, África e América do Norte.(8) Entretanto, há relatos de uma
epidemia compatível com esta doença em uma enciclopédia chinesa
datada de 265-420 DC.(8)

Uma segunda pandemia semelhante à dengue durou de 1823 a 1916,


passando da África para a Índia, para a Oceania e para as Américas. A
Segunda Guerra Mundial trouxe mudanças ecológicas, demográficas e
epidemiológicas que permitiram que o vetor atingisse altas
densidades, facilitando a dispersão de sorotipos de DENV (dengue
vírus) entre diversas regiões geográficas.(9)

Provavelmente o vírus chegou ao Brasil no período colonial trazido da


África pelos escravos. Há referências de epidemias de dengue desde
1916, em São Paulo, e em 1923 no Rio de Janeiro.(10)

No entanto, a primeira epidemia documentada clínica e


laboratorialmente ocorreu no início da década de 1980 quando foram
isolados os sorotipos DENV1 e DENV4 em Roraima.(11)

Após um silêncio epidemiológico, uma epidemia de grandes


proporções assolou a cidade do Rio de Janeiro em 1986 devido ao
ressurgimento do DENV-1 nesta cidade. A força de transmissão do
vírus da dengue foi tão intensa que, de acordo com estimativas, mais
de 60 mil casos foram notificados em 1987. Somente nesse período a
doença recebeu a devida atenção.(12)

A partir de 1994, a circulação do vírus se expandiu para mais de


seiscentos municípios distribuídos em 18 estados do Brasil, com um
progressivo aumento da incidência da doença na população.(13)

Nas últimas duas décadas, o país viveu quatro grandes epidemias


associadas à alternância do sorotipo viral predominante: DENV-1,
DENV-3, DENV-2, e DENV-4, em 1998, 2002, 2008 e 2010,
respectivamente.(14)

Em 2001, houve a introdução do DENV-3 pelo Rio de Janeiro, sendo


este vírus responsável pela epidemia de 2002, no qual foram
notificados aproximadamente 800 mil casos da doença. Entre 2000 e
2007, o Brasil foi responsável por 60% dos casos relatados de dengue
no mundo.(15)

Em 2010, a epidemia de dengue no Brasil atingiu 21 estados (Rio


Grande do Sul, Santa Catarina, Paraná, Rio de Janeiro, São Paulo,
Minas Gerais, Bahia, Espírito Santo, Mato Grosso, Mato Grosso do Sul,
Tocantins, Acre, Pará, Roraima, Goiás, Rondônia, Pernambuco,
Alagoas, Rio Grande do Norte, Piauí e Ceará) devido à circulação
simultânea de todos os sorotipos, com o ressurgimento do DENV-4 na
região norte, após uma ausência de 28 anos.(15)

Em 2015 foram registrados 1.649.008 casos de dengue no país. A


região sudeste teve o maior número de casos notificados (1.026.226
casos, 62,20%), seguida das regiões nordeste (311.519 casos,
18,9%), centro-oeste (220.966 casos, 13,4%), sul (56.187 casos,
3,4%) e norte (34.110 casos, 2,1%).(14)

De acordo com dados do boletim epidemiológico divulgado pela


Secretaria de Vigilância em Saúde, no período de 31/12/2017 a
20/01/2018, foram registrados 9.399 casos prováveis de dengue no
país. Nesse período, a região sudeste apresentou o maior número de
casos prováveis (4.066 casos; 43,3%) em relação ao total do país. Em
seguida aparecem as regiões centro-oeste (2.481 casos; 26,4%),
norte (1.056 casos; 11,2%), nordeste (914 casos; 9,7%) e sul (882
casos; 9,4%).

Fisiopatologia

A introdução de um sorotipo do vírus da dengue confere imunidade


contra um vírus do mesmo sorotipo. Esses anticorpos facilitam a ação
dos outros sorotipos, de modo que a doença se comporta de maneira
agressiva. Isto ocorre devido aos anticorpos capazes de entrar nos
monócitos através da ligação do fragmento cristalizável (Fc) da
imunoglobulina e do receptor Fc celular. As epidemias de dengue
hemorrágica foram relatadas na ausência de anticorpos contra outros
sorotipos. Interleucinas e mediadores químicos produzidos por
linfócitos T e monócitos infectados podem causar extravasamento de
fluido.(16)
A susceptibilidade ao vírus da dengue é universal e a sua
manifestação clínica varia desde infecções assintomáticas,
oligossintomáticas e sintomáticas, que se subdividem em dois eixos:
quadros clássicos, com denominação estabelecida, como Dengue
clássica (DC), e os quadros graves, classificados em três eixos, como:
Dengue com complicação (DCC), febre hemorrágica da Dengue (FHD)
e a síndrome de choque da Dengue (SCD).(17)

A Dengue clássica é de evolução habitualmente benigna, sua


sintomatologia é variável, pois dependerá do sorotipo e do paciente,
contudo, existem manifestações mais comuns que pouco se
modificam. Nos primeiros dias, a febre inicia-se de forma abrupta,
com temperatura entre 30 º C e 40º C, acompanhada ou não de
calafrios e sudorese, cedendo no sexto dia. Cefaleia intensa, dor
retro-orbitária, mialgia generalizada, podendo ser localizada
principalmente em região lombar, artralgia, náuseas, vômitos,
hiporexia e cólicas abdominais, acompanhadas de diarreia são outros
sintomas comumente encontrados. A duração desses sintomas pode
ser de três a cinco dias.(17)

O exantema da dengue surge por volta do terceiro ou quarto dia da


doença, sendo mais comum nas extremidades, podendo apresentar-
se em todo o corpo. Mostra-se característico da doença o prurido
intenso na fase de remissão do exantema. A dor abdominal no
hipocôndrio direito, raramente acompanhada de hepatomegalia,
ocorre em pequena parcela dos casos.(17)

Na Dengue hemorrágica, sua característica principal não são as


hemorragias e, sim, a alteração da permeabilidade vascular, que se
torna aumentada, levando à hemoconcentração pela saída de plasma
para os tecidos, podendo evoluir para o choque hipovolêmico não
hemorrágico.

A presença de plaquetopenia também é outra característica dessa


forma clínica da Dengue. As hemorragias, quando ocorrem,
acometem a pele, tecidos subcutâneos, trato gastrintestinal e, em
geral, são de pequeno volume.(17)
A presença de plaquetopenia e hemoconcentração caracteriza a
Dengue hemorrágica. As manifestações clínicas iniciais são
indistinguíveis daquelas da forma clássica, podendo ocorrer ou não
manifestações hemorrágicas, eventualmente intensas. Na época em
que começa a desaparecer a febre podem surgir plaquetopenia e
hemoconcentração. Ambas são mais frequentes em indivíduos
experimentando uma segunda infecção, mas também podem ocorrer
nos primoinfectados. Contudo, alguns indivíduos podem ser
infectados pelo vírus da Dengue e não apresentarem sinais (Quadro
1) e sintomas, devido à baixa virulência do vírus ou às condições do
sistema imunológico, sendo denominado como forma assintomática.
(17)

Sinais de Alarme

Diagnóstico

O diagnóstico envolve critérios clínico-laboratoriais com investigação


da propagação da doença na região da qual advêm os pacientes com
suspeita de dengue. As alterações laboratoriais serão apresentadas
sob dois aspectos: os exames inespecíficos e específicos. Os exames
específicos são feitos pelo isolamento do agente ou pela sorologia,
teste de proteínas não estruturais e determinações de anticorpos ou
antígenos específicos. Os exames inespecíficos incluem hemograma,
velocidade de hemossedimentação (VHS) coagulograma, e exame das
enzimas hepáticas, sendo que os dois últimos são realizados na
suspeita de Dengue hemorrágica.(10)
Exames específicos

Ö Antígeno NS1 (Proteína Não-Estrutural do Vírus da Dengue 1).

Uma alternativa para o diagnóstico precoce consiste na pesquisa do


Antígeno NS1. A NS1 é uma glicoproteína não estrutural de 46 kDa
presente em grandes concentrações na amostra de pacientes
infectados.(18) Pode ser detectada do primeiro ao nono dia após o
surgimento dos sintomas. O teste é feito por meio de
imunocromatografia em amostras de sangue total, plasma ou soro.
(10)

Ö Isolamento Viral

Quatro sistemas de isolamento têm sido usados para vírus da


dengue; inoculação intracerebral de camundongos recém-nascidos, o
uso de culturas de células de mamíferos (padrão ouro), inoculação
intratorácica de mosquitos adultos e o uso de culturas de mosquitos.
(10)

Apesar de ser o padrão ouro para identificação de infecção por


dengue, não é prática no diagnóstico de rotina, porque essa técnica
requer um longo tempo de incubação (7 a 12 dias) para o cultivo e
confirmação do vírus, o baixo nível de título de vírus no soro ou no
sangue não é adequado para cultura, o intervalo de tempo ideal para
cultivar o vírus é limitado (0-7 dias após o início dos sintomas), pois o
DENV é detectável apenas durante a fase aguda da infecção antes do
desenvolvimento da resposta de anticorpos específicos da dengue.(5)
Ö Testes sorológicos

Cinco testes sorológicos têm sido empregados para o diagnóstico da


infecção por dengue;

Inibição da hemaglutinação (HI)

Fixação de complemento (FC)

Teste de neutralização (NT)

Imunoglobulina M (IgM)

Ensaio imunoenzimático de captura da imunoglobulina Me


imunoglobulina G ELISA indireta.(20) Parte superior do formulário

A principal limitação dessas técnicas é a alta reatividade cruzada


observada não só entre os quatro sorotipos da dengue, mas também
em relação a outros Flavivírus como o vírus do Nilo Ocidental, vírus da
febre amarela, da encefalite japonesa e da encefalite de St. Louis.(4)

Exames inespecíficos

Hemograma

Na dengue hemorrágica, o número de neutrófilos se eleva no quinto


dia de febre, podendo ocorrer até neutrofilia e granulações tóxicas, a
contagem de linfócitos também se eleva, com presença de linfócitos
atípicos, imunócitos e plasmócitos em número significativo (5% a
10%). Entretanto, na dengue clássica, já no segundo dia de febre,
observa-se leucograma com leucopenia e neutropenia, podendo
chegar a 2 mil e a 4 mil leucócitos com apenas 20%-40% de
neutrófilos no quarto ou quinto dia. Raros plasmócitos e linfócitos
atípicos são encontrados.(10)
Coagulograma

Observa-se diminuição de fibrinogênio, protrombina, fator VIII, fator


XII, antitrombina III e aumento dos produtos de degradação do
fibrinogênio.(20)

Funções plaquetárias prejudicadas e baixos níveis de complemento


(C3 em particular) também são documentados. Aumento nos tempos
de protrombina, tromboplastina parcial.(20)

Velocidade de hemossedimentação

A velocidade de hemossedimentação está aumentada na dengue,


mas ela também pode estar aumentada nos processos infecciosos,
inflamatórios e neoplásicos.(10)

Outros

Em casos graves, ocorre disfunção hepática com a elevação dos


níveis de alanina e aspartato aminotransferase.(21)

Anormalidades eletrolíticas, acidose metabólica e hipoalbuminemia


são frequentemente observadas. Durante choque prolongado há
acidose metabólica.(10)

TRATAMENTO, PREVENÇÃO E CONTROLE


A dengue pode apresentar-se na forma clássica (febre “quebra
ossos”) e na forma grave (febre hemorrágica da dengue-FHD), que
necessita de maiores cuidados nos leitos de observação ou
internação. A dengue grave inicia-se com os mesmo sintomas da
dengue clássica, e na defervescência da febre surgem os sinais de
alarme. Geralmente, os sinais de alarme (dores abdominais fortes e
contínuas, vômitos persistentes, pele pálida, fria e úmida,
sangramento pelo nariz, boca e gengivas, sonolência, agitação e
confusão mental (principalmente em crianças), sede excessiva e boca
seca, pulso rápido e fraco, dificuldade respiratória, perda de
consciência) ocorrem entre o terceiro e o quinto dia, período chamado
crítico para a doença. Não existe tratamento específico contra o vírus
dessa doença, faz-se apenas o tratamento com hidratação e
medicação sintomática. Em alguns casos, é necessário internação
para hidratação endovenosa, e nos casos graves, tratamento na UTI.
Pacientes com dengue ou suspeita de dengue devem evitar
medicamentos à base de ácido acetilsalicílico (aspirina), clopidogrel
(antiplaquetário) ou os que contenham a substância associada. Esses
medicamentos têm efeitos anticoagulantes (varfarina) e podem
causar sangramentos. Outros anti-inflamatórios não hormonais (diclo-
fenaco, ibuprofeno, cetoprofeno, piroxicam, nimesulida e outros)
também devem ser evitados. O uso destas medicações pode
aumentar o risco de sangramentos. O paracetamol e a dipirona são os
medicamentos de escolha para o alívio dos sintomas de dor e febre
devido ao seu perfil de segurança, sendo recomendado tanto pelo
Ministério da Saúde como pela Organização Mundial da Saúde.(22)

A prevenção é basicamente acabar com o mosquito, mantendo o


domicílio sempre limpo, eliminando os possíveis criadouros. Roupas
que minimizem a exposição da pele durante o dia, quando os
mosquitos são mais ativos, proporcionam proteção às picadas e
podem, principalmente, ser utilizadas durante os surtos. Repelentes e
inseticidas de acordo com as instruções no rótulo, os inseticidas
servem para eliminar as formas imaturas e adultas do mosquito. Os
inseticidas “naturais” à base de citronela, andiroba e óleo de cravo,
entre outros, não possuem comprovação de eficácia nem a aprovação
pela Anvisa, até o momento. Portanto, todos os produtos anunciados
como “naturais” comumente comercializados como velas, odorizantes
de ambientes, limpadores e os incensos, que indicam propriedades
repelentes de insetos, não estão aprovados pela Agência e não
possuem eficácia comprovada. A prevenção da dengue apresenta-se
muito ligada às práticas campanhistas/higienistas, voltadas para o
combate ao vetor. Duas alternativas complementares de controle de
Aedes aegypti, desenvolvidas em âmbito global, estão atualmente em
estudo no país: a substituição das populações naturais por outras com
a bactéria intracelular Wolbachia, que tem o potencial de reduzir a
capacidade de transmissão do vírus da dengue pelo mosquito; e a
utilização de mosquitos machos transgênicos estéreis que, ao
copularem com as fêmeas, geram prole inviável.(23) O controle desta
doença tipicamente urbana é bastante complexo, envolvendo, além
do setor saúde, fatores como infraestrutura das cidades, transporte
de pessoas e cargas, o meio ambiente, entre outros.(24)

Para que tudo isso ocorra de maneira positiva tem que haver a
participação da população, pois o mosquito Aedes aegypti é nosso
inquilino, aumentando ainda mais a nossa responsabilidade na
prevenção dessa epidemia. Com a lei nº 13.301, de 27 de junho de
2016 em vigor, os agentes de combate a endemias que trabalham no
combate ao Aedes aegypti têm poder para realizar entrada forçada
em imóveis públicos e particulares abandonados, ou com ausência de
pessoas que possam permitir o acesso ao local, ou no caso de recusa
de acesso. Isso contribui bastante para diminuição dos focos de
mosquitos transmissores.

CONSIDERAÇÕES FINAIS

Conforme verificado na literatura, a arbovirose Dengue não sofreu


poucas mudanças na sua forma de transmissão e tratamento, a
prevenção da arbovirose pode ocorrer pela introdução da vacina
tetravalente contra os quatro tipos da dengue – DENV-1, DENV-2.
DENV-3, DENV-4, uma realidade ainda distante, pois um único
sorotipo confere imunidade homotípica de longa duração para esse
sorotipo em particular. Contudo, a imunidade a outros sorotipos é de
curta duração.(26)
Foi observada a introdução de um quinto vírus – DENV-5 silvestre, no
qual será inevitável o contágio humano se não for compreendida a
interação entre linhagens silvestres e populações humanas para
elucidar a forma de transmissão e controle da mesma.(26)

Portanto, mesmo que os programas de vacinação que usam a vacina


tetravalente atual sejam capazes de controlar a dengue por um curto
período de tempo, a perspectiva de longo prazo de erradicação da
doença pode não ser viável devido à existência de reservatórios
silvestres de DENV-5 nas copas das selvas.(26)

O desenvolvimento da vacina contra a dengue deve ser visto apenas


como um complemento a outras medidas de saúde pública, como
controle de vetores, participação da comunidade e vontade política.
(25)

Pois já se sabe que o Aedes aegypti adulto já foi encontrado em


altitudes elevadas e larvas em água poluída, por isso a prevenção é a
melhor forma de controle.(17

O mosquito Aedes aegypti faz parte da história e vem se


espalhando pelo mundo desde o período das colonizações

O mosquito transmissor da dengue é originário do Egito, na


África, e vem se espalhando pelas regiões tropicais e subtropicais do
planeta desde o século 16, período das Grandes Navegações. Admite-
se que o vetor foi introduzido no Novo Mundo, no período colonial, por
meio de navios que traficavam escravos. Ele foi descrito
cientificamente pela primeira vez em 1762, quando foi denominado
Culex aegypti. O nome definitivo – Aedes aegypti – foi estabelecido
em 1818, após a descrição do gênero Aedes. Relatos da Organização
Pan-Americana de Saúde (OPAS) mostram que a primeira epidemia de
dengue no continente americano ocorreu no Peru, no início do século
19, com surtos no Caribe, Estados Unidos, Colômbia e Venezuela.

No Brasil, os primeiros relatos de dengue datam do final do


século XIX, em Curitiba (PR), e do início do século XX, em Niterói (RJ).
No início do século XX, o mosquito já era um problema, mas não
por conta da dengue -- na época, a principal preocupação era a
transmissão da febre amarela. Em 1955, o Brasil erradicou o Aedes
aegypti como resultado de medidas para controle da febre amarela.
No final da década de 1960, o relaxamento das medidas adotadas
levou à reintrodução do vetor em território nacional. Hoje, o mosquito
é encontrado em todos os Estados brasileiros.

Segundo dados do Ministério da Saúde, a primeira ocorrência do


vírus no país, documentada clínica e laboratorialmente, aconteceu em
1981-1982, em Boa Vista (RR), causada pelos vírus DENV-1 e DENV-4.
Anos depois, em 1986, houve epidemias no Rio de Janeiro e em
algumas capitais do Nordeste. Desde então, a dengue vem ocorrendo
no Brasil de forma continuada.

Pesquisa de 1908 já descrevia características do A. aegypti

O verão de 1908 deixou a população carioca em alerta pelo


risco da febre amarela. Foi nesse contexto que Antonio Gonçalves
Peryassú, pesquisador do então Instituto Soroterápico Federal, que
ganharia o nome de Instituto Oswaldo Cruz (IOC) naquele mesmo
ano, fez descobertas sobre o ciclo de vida, os hábitos e a biologia do
A. aegypti. Seus estudos foram fundamentais para a erradicação do
mosquito em território nacional nas décadas seguintes e ainda hoje
norteiam as pesquisas sobre o controle do vetor.

Numa monografia com mais de 400 páginas, intitulada Os


Culicídeos do Brasil, o entomologista descreveu os hábitos do A.
aegypti e de uma série de outros mosquitos da mesma família,
apresentando aspectos nunca antes observados de sua biologia.
Durante dois anos, Peryassú realizou uma série de experimentos com
o A. aegypti. Seu estudo trouxe preciosas informações sobre aspectos
como a resistência à dessecação do ovo do mosquito, que pode ficar
até um ano sem contato com a água. Também fez observações
quanto à produtividade dos criadouros, questão ainda debatida na
atualidade, afirmando que, em geral, grandes reservatórios de água
são os focos mais produtivos do vetor.

Reprodução de imagem do livro


Os Anophelíneos do Brasil, de Antônio Peryassú

Diversas características do Aedes aegypti observadas pelo


pesquisador Antonio Peryassú (no centro, de paletó, durante trabalho
de campo) continuam sendo estudadas até hoje

Entre suas mais interessantes descobertas estão, também, a


relação do mosquito com a temperatura e a densidade populacional.
Ao realizar o primeiro levantamento detalhado da infestação do
mosquito no Rio de Janeiro, o pesquisador associou a maior presença
do A. aegypti ao aumento da densidade populacional de certas áreas
da cidade e também mostrou a similaridade entre o mapa da
concentração da população do inseto com o da ocorrência de casos
de febre amarela. Suas observações mostraram, ainda, que a queda
da temperatura ambiente para menos de 20oC interfere no
desenvolvimento e na reprodução do mosquito, que se reduzem
drasticamente, levando a uma redução dos casos.

As descobertas de Peryassú deram ainda mais força à


campanha movida pelo médico sanitarista Oswaldo Cruz para
eliminação do mosquito, que foi controlado na década de 1920 no Rio
de Janeiro e considerado erradicado do Brasil pouco mais de trinta
anos depois. A maioria dos pontos levantados em suas pesquisas
continua na agenda científica dos especialistas que hoje buscam
desenvolver estratégias de controle do mosquito transmissor da
dengue.

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