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Medieval

O documento analisa as mudanças técnicas na agricultura medieval, destacando a transição do feudalismo e a crise de abastecimento que afetou a vida urbana após o domínio romano. A agricultura medieval se estruturou em três tipos de domínio fundiário, refletindo a relação entre senhores feudais e camponeses, e a necessidade de inovações para superar a crise. O texto conclui que a superação dessa crise dependia de mudanças estruturais nas relações de produção e na organização política e econômica.
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Medieval

O documento analisa as mudanças técnicas na agricultura medieval, destacando a transição do feudalismo e a crise de abastecimento que afetou a vida urbana após o domínio romano. A agricultura medieval se estruturou em três tipos de domínio fundiário, refletindo a relação entre senhores feudais e camponeses, e a necessidade de inovações para superar a crise. O texto conclui que a superação dessa crise dependia de mudanças estruturais nas relações de produção e na organização política e econômica.
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Sandra Costa – Espaço Agrário 1

O FUNDO HISTÓRICO DAS MUDANÇAS TÉCNICAS

OCORRIDAS NA AGRICULTURA MEDIEVAL

! Durante o domínio romano, e enquanto duraram os reinados

germânicos que o sucederam, as cidades da Europa Ocidental

expandiram-se, mesmo em meio às várias crises de

abastecimento com origem na insuficiente produção de

alimentos e na instabilidade política. Isto decorria de uma

função muito especial: constituírem-se em local onde se

realizavam múltiplas operações de comércio. Atuavam,

simultaneamente, como mercados terminais e como

entrepostos nas grandes rotas de intercâmbio.

! Sediavam feiras regionais e desempenhavam um papel de

extrema relevância na integração econômica e política, em

uma época em que os meios de transporte eram precários,

requerendo muitos estágios entre a origem e o destino final

das mercadorias.

! Com a invasão do Ocidente pelos sarracenos, no século VII,

muitos destes fluxos de comércio que iam do Norte da África

ao Norte da Europa foram interrompidos, provocando o


Sandra Costa – Espaço Agrário 2

desaparecimento das trocas de longo curso, o que fez parte

da Europa permanecer isolada e dependente do auto-

abastecimento, no que se refere tanto aos produtos agrícolas

como aos artesanais.

! A conseqüência maior da ruptura destas rotas foi a regressão

da vida urbana. As cidades perderam sua importância

econômica e política e se despovoaram. Criavam-se, assim, as

condições para o surgimento de uma nova ordem econômica,

que se convencionou denominar FEUDALISMO, a partir do

século XIX, pelo uso generalizado do serviço foreiro, por um

campesinato mantido subjulgado.

! Uma característica básica do feudalismo foi um certo grau de

fechamento, pois grande parte do que era consumido tinha

origem na produção das terras sob os diferentes domínios ou

nos gineceus, tendas de artesanatos das aldeias. O

intercâmbio comercial existia, mas era voltado,

principalmente, para aquisição de produtos de difícil ou

impossível produção local. Entre estes, estavam os minérios,

especiarias, sedas, algodão etc. (Loyon, 1992, p.99 e 145). O

centro dinâmico do feudalismo passou a ser a aldeia, que


Sandra Costa – Espaço Agrário 3

reproduzia, de modo incompleto e em escala menor,

algumas das funções da cidade que lhe precedeu. As aldeias

não tinham o mesmo nível de organização das cidades e nem

exerciam um papel de centros polarizadores nas redes que

integravam o Ocidente.

! A desfavorecer a vida urbana estavam as formas de

organização política que sucederam ao centralizado Império

Romano. Eram ineficientes no controle do território e na

manutenção da unidade, que era mais formal do que real, como

no caso do Domínio Carolíngio. Entretanto, o maior problema

para a continuidade da vida urbana era a incapacidade da

agricultura de gerar excedentes suficientes.

! Em realidade, a crise de abastecimento já vinha se agravando

desde o fim do domínio de Roma e sua explicação não se dava

unicamente em decorrência da baixa disponibilidade de servos

para lavrar a terra.

! O padrão precedente de organização da produção agrícola,

baseado na escravidão, já demonstrara, muito antes, o seu

esgotamento. Ainda mesmo durante o Império Romano, em


Sandra Costa – Espaço Agrário 4

decorrência do absenteísmo dos proprietários e das revoltas

escravas, o modelo da grande propriedade utilizadora do

trabalho compulsório agonizava.

! Com a instabilidade política do fim da República - o que

obrigava a maioria dos patrícios a se deslocar para Roma,

entregando a gestão do estabelecimento agrícola aos escravos

-, houve uma desorganização da agricultura no antigo império,

motivando o seguinte comentário de Lucio Moderato

Columella, autor da De Re Rustica, obra que deu maior

contribuição ao pensamento agronômico na Antigüidade

Clássica: "rem rusticam pessimo cuique servorum,

velutcarnifici, noscae dedimus..." (confiamos a agricultura

de forma ultrajante aos piores dos nossos escravos, quase

uma canificina), apud Rosa (1883, p.167).

! O desaparecimento do modelo de produção agrícola baseado

no trabalho compulsório - inicialmente escravo e

posteriormente servo e cuja falência já se tornara evidente

nos últimos séculos do Império Romano - dava-se, entretanto,

muito lentamente, o que só fazia agravar as condições de

abastecimento da população urbanizada.


Sandra Costa – Espaço Agrário 5

! Somente no século XII, generalizar-se-ia a idéia de que a

escravidão era não-ética, não-lucrativa e desnecessária

(Loyon, 1992, p.33). Contudo, não se pode atribuir

exclusivamente às relações de trabalho a crise mais geral que

se abateu sobre a agricultura nos primeiros séculos da Idade

Média.

! Concomitantemente ao problema da ausência no trabalho e da

falta de escravos e de servos, ocorria a falência do paradigma

agronômico até então dominante. O conhecimento em ciências

agrárias do mundo clássico não oferecia soluções para o

esgotamento das terras e o trabalho compulsório e não pago

bloqueava a emergência de inovações técnicas poupadoras de

força de trabalho.

! O estado da arte na agricultura referia-se ao conhecimento

sobre cultivo dos solos leves que circundam o Mediterrâneo,

os quais já apresentavam um claro quadro de baixa

fertilidade, no fim do Império Romano. De outra parte, não se

havia consolidado ainda qualquer teoria sobre como cultivar os


Sandra Costa – Espaço Agrário 6

solos pesados que se distribuem do norte da Itália em direção

ao norte da Europa.

! O esvaziamento das cidades e a incapacidade dos governantes

de manter uma organização política centralizada, sobretudo

depois do declínio da monarquia carolíngia, tinham como causa

principal, portanto, a crise da agricultura, crise esta cuja

superação só se daria com mudanças estruturais. Estas

deveriam englobar a descentralização política e econômica, a

recontratualização das relações de produção e a adoção de um

novo modelo de organização da produção agrícola, o qual,

mesmo sendo uma imposição histórica, dependia de interações

entre a base material da sociedade, a infra-estrutura, e a

base das idéias e mentalidades, a superestrutura, as quais não

tinham um momento certo para acontecer, condicionando-se

ao percurso histórico de cada região.

! O novo contrato implicaria em que a nobreza, detentora do

domínio das terras, aceitasse, a título de estímulo à produção,

a apropriação por produtores diretos de parte do excedente

gerado e que incentivasse os camponeses a adotar inovações

tecnológicas. Estas bases terminaram por condicionar a


Sandra Costa – Espaço Agrário 7

gênese do sistema de produção familiar medieval na Europa

Feudal, o qual nasce associando inovações instituídas nas

relações de trabalho - as quais objetivavam superar a crise de

abastecimento - com a incorporação de alguns legados em

termos de agricultura familiar, que pré-existiam em convívio

com o latifúndio escravista. Entre estes legados, estava a

divisão da superfície agricultável da terra, principalmente no

centro e norte da Itália, em centuriatio1. Esta herança do

Império Romano limitava a concentração da terra e ensejava o

aparecimento de imóveis menores.

! A agricultura medieval passa a se estruturar a partir das

mudanças em três tipos de domínio fundiário que, por sua vez,

ensejam três tipos de sistema de produção: 1) as terras de

uso do senhor feudal; 2) as terras de uso comunal, mas de

posse legitimada pelo senhor feudal; e 3) as terras dos

camponeses, oneradas ou não por corvéias e rendas e

herdadas pelo senhor feudal. Além destes três tipos, os

camponeses detinham uma pequena área cercada, próxima à

residência, destinada ao cultivo de frutas e legumes.


Sandra Costa – Espaço Agrário 8

! Na terra do senhor, desenvolvia-se uma

agricultura em escala maior na qual trabalhavam

os servos e, posteriormente, assalariados, que

não possuíam parcelas. Neste caso, toda a

produção dela resultante era do senhor feudal,

que cuidava da alimentação e das necessidades

dos produtores. As terras de uso comunal eram

pradarias, pântanos e florestas, onde os aldeões

mantinham seus animais para se proverem de lã,

carne, leite ou força animal convertida em

trabalho para tracionar arados e carroças.

Destas terras retiravam turfa e madeira para

suas necessidades energéticas e artesanais. As

terras dos camponeses eram destinadas às

lavouras, onde se praticava, basicamente, a

ceralicultura.
Sandra Costa – Espaço Agrário 9

! Este sistema - que na falta de melhor conceituação ensejou

uma sociedade definida por negação: não tribal e não

industrial -, à exceção as diferenças de região para região na

Europa, estava firmemente amparado no direito baseado nos

costumes de acesso à terra que veio se consolidando nos poros

e brechas deixados pela ocupação latifundiária do solo,

baseada na escravidão e na servidão (Mantoux, 1988, p.121).

Mesmo sofrendo modificações com o tempo, o modelo manteve

seus traços fundamentais até desaparecer por força de

amplas transformações que, no âmbito da política e da

economia, resultaram da Revolução Francesa e da Revolução

Industrial.

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