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ACT04

O documento avalia as condições de competitividade dinâmica da cadeia brasileira do leite, utilizando a metodologia do Diamante Nacional de Porter. A análise revela que a cadeia enfrenta sérios desafios, incluindo lacunas de capacitação, baixa integração entre entidades públicas e a falta de políticas de suporte, resultando em condições insustentáveis de competitividade. O estudo destaca a necessidade de inovações e melhorias na estrutura e estratégias das empresas para superar esses obstáculos.

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ACT04

O documento avalia as condições de competitividade dinâmica da cadeia brasileira do leite, utilizando a metodologia do Diamante Nacional de Porter. A análise revela que a cadeia enfrenta sérios desafios, incluindo lacunas de capacitação, baixa integração entre entidades públicas e a falta de políticas de suporte, resultando em condições insustentáveis de competitividade. O estudo destaca a necessidade de inovações e melhorias na estrutura e estratégias das empresas para superar esses obstáculos.

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Avaliação das Condições de Competitividade Dinâmica da Cadeia Brasileira do Leite

Autores: Elizabeth Loiola e Juvêncio Braga de Lima

Resumo:
Este trabalho foi desenvolvido com o objetivo de avaliar as condições de
competitividade dinâmica da cadeia brasileira do leite. A análise diagnóstica, empreendida
com base na metodologia do Diamante Nacional de Porter (1990), demonstrou que tal cadeia
não apresenta condições sustentáveis de competitividade. Embora fatores limitantes do
desempenho competitivo manifestem-se em todos os atributos do Diamante, a força dos
problemas experimentados pelo elo pecuário da cadeia, as lacunas de capacitação das
empresas, o foco quase exclusivo das estratégias das empresas do elo transformador em
questões técnico-operacionais, a situação de fragilidade e baixo nível de integração das
entidades públicas de pesquisa, extensão e fiscalização e a inexistência de políticas de suporte
à competitividade do elo pecuário podem ser alinhados como os principais fatores que
obstaculizam o caminho empresarial no sentido de conquistar condições sustentáveis de
competitividade.

1. Introdução
O objetivo deste trabalho é avaliar as condições de competitividade dinâmica da
cadeia do leite no Brasil. O conceito de competitividade dinâmica está relacionado à
capacidade, sustentável ao longo do tempo, das empresas manterem e ou ampliarem suas
posições mercadológicas.
Essa competitividade é condicionada por fatores internos e externos às firmas. Assim,
infere-se que na base da preservação dessas posições está um contínuo processo de criação de
vantagens competitivas, pressupondo-se um vigoroso esforço endógeno de geração e
incorporação de inovações.
A compreensão do processo de inovação como endógeno à função de produção tem
que estar refletida no modelo de análise adotado (Nelson, 1987). Isto é, o modelo tem que,
não só permitir a apreensão das especificidades das estruturas de mercado, das condutas e
desempenhos das firmas, suas relações de reciprocidade e tendências a transformações, como,
sobretudo, desnudar os vínculos entre o padrão concorrencial e o panorama de inovações em
cada setor.
Além disso, deve permitir evidenciar os fatores exógenos à indústria que condicionam
a competitividade da mesma. Só assim permitirá identificar as fontes de vantagens
competitivas, pondo em destaque os pontos fortes e fracos da indústria em análise,
viabilizando, no mínimo, o alinhamento de medidas corretivas e/ou de reforço. Esses são os
méritos do modelo adotado neste trabalho, baseado nas idéias de Porter (1990).
Este trabalho foi estruturado como se segue. A introdução consigna uma visão geral
da problemática enfocada e a apresentação de sua estrutura. No marco referencial, a discussão
teórica, que norteou a interpretação dos dados foi desenvolvida. Capítulo específico reúne os
resultados do diagnóstico competitivo, realizado de acordo com a metodologia do Diamante
Nacional de Porter. No item de conclusões, estão apresentadas, de forma resumida, as
principais inferências sobre as condições de competitividade da cadeia do leite no Brasil.

2. Marco Referencial
Para analisar as condições de competitividade dinâmica das indústrias de um país,
Porter(1990) cunhou o conceito de Diamante Nacional (Diamond of National Advantage). O
Diamante Nacional compreende o conjunto de atributos que consubstancia o ambiente no
qual as empresas surgem e que promove, ou impede, a criação de vantagens competitivas.
2

Esses atributos são de quatro tipos: as condições dos fatores; as condições da demanda; a
existência de indústrias relacionadas e de suporte; as estratégias das firmas, a estrutura e a
rivalidade.
Quanto ao primeiro atributo, o autor assinala que as nações têm a capacidade de criar
fatores de produção, sobretudo aqueles, hoje, estratégicos para a competitividade, tais como
força-de-trabalho qualificada e base científica e tecnológica. Dessa forma, Porter (1990)
transmite a visão atualizada de que as vantagens competitivas são históricas: elas mudam ao
longo tempo e, portanto, são objeto de produção social. Conseqüentemente, tendo em vista a
competitividade das nações, o estoque de fatores em um determinado momento tem a
importância sobrepujada pela eficiência e a taxa com que esses fatores podem ser criados,
aperfeiçoados e distribuídos.
Além disso, a abundância de matéria-prima e força-de-trabalho já não constitui uma
vantagem de relêvo. Os fatores mais importantes são os de natureza especializada, cuja
criação envolve a aplicação de volumosos investimentos. Infere-se, assim, que um fator só é
fonte de vantagem competitiva se é especializado, ou seja, se atende a necessidades
específicas de uma indústria.
Ao mesmo tempo, o que seria visto dentro da perspectiva de competitividade estática
como uma desvantagem - a ausência de fatores básicos - pode se transformar, no bojo do
modelo dinâmico de Porter, em uma vantagem competitiva na medida em que induza firmas
a inovarem. Para tanto, os requisitos são: a sintonia das firmas com as tendências do mercado
internacional e a verificação do conjunto de atributos do Diamante Nacional.
Os segundo e terceiro elementos do Diamante Nacional - as condições da demanda e a
existência de indústrias relacionadas que funcionem como suporte reforçam a escolha do
modelo de Porter para o desenvolvimento deste trabalho, porque destacam elementos
estratégicos para a competitividade em função da emergência do novo paradigma técnico-
econômico. O argumento que justifica a análise da demanda é o de que as nações são mais
competitivas nas indústrias em que os compradores domésticos são mais exigentes,
demandando a melhoria sistemática da qualidade dos produtos.
Observa-se, a partir disso, que a qualidade do produto expressa-se em nível de
correspondência entre características intrínsecas ao produto e as expectativas dos
consumidores, dando conta, dos novos padrões de best practice anunciados por Perez (1989).
Ao lado disso, a existência de fornecedores locais competitivos internacionalmente, ao
viabilizar o fornecimento ágil e eficiente de insumos, concorre também para atribuir
competitividade sustentada à indústria, mostrando-se coerente com os novos padrões de best
practice referidos.
O quarto atributo dá conta do modelo de gerenciamento das firmas, suas estratégias e
especificidades da estrutura de mercado, focalizando a análise sobre as condições que
regeram a criação, organização e a gestão das empresas, a natureza da rivalidade no mercado
interno e as estratégias competitivas, enquanto veículos de criação de vantagens competitivas.
Porter (1990) considera que não há sistema gerencial que seja universalmente
apropriado. O requisito demandado é que os modelos gerenciais potencializem o alcance dos
novos padrões de conduta das firmas, definidos em termos de agilidade, flexibilidade,
integração e proximidade com clientes e fornecedores.
Outro aspecto referenciado ao quarto atributo, e talvez o mais polêmico de todos, é o
da situação da rivalidade do setor em foco. Quanto a esta, Porter (1990) afirma que “a
presença de uma forte concorrência no mercado doméstico estimula persistentemente a
criação de vantagens competitivas” (Porter, 1990, p. 82) e que “entre todos os pontos do
diamante este é o mais importante, devido ao seu grande poder de gerar efeitos sobre os
outros” (Porter, 1990, p. 82).
Considera-se que em Porter, a expressão aceitar e aprimorar a concorrência local não
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implica a renúncia à possibilidade de construção de barreiras à entrada, porque a sua


terapèutica para as empresas manterem um padrão sustentado de competitividade é a de busca
permanente de superação de suas próprias vantagens competitivas. Este modus operandi está
claramente associado às estruturas de mercado oligopolizadas ou tendentes à oligopolização.
A análise dos atributos do Diamante Nacional de Porter (1990) foi enriquecido com
considerações sobre o papel do Estado no jogo competitivo da cadeia brasileira do leite. Isso
porque, em primeiro lugar, a percepção adotada neste trabalho, é a de que o Estado é um
elemento intrínseco à dinâmica do sistema capitalista. E, em segundo, no caso da cadeia do
leite no Brasil, as evidências históricas revelam que ao Estado coube desempenhar um papel
estratégico, desenvolvendo P&D de modo próprio, apoiando as atividades de P&D das
firmas, ajustando e acionando um conjunto de regulamentos com vistas à incentivar a
efetivação de práticas que asseguram o padrão de qualidade dos produtos ou influenciando os
níveis de demanda, através de programas oficiais de distribuição de leite à população carente,
dentre outros. Aqui, entende-se o poder institucional consubstanciado no conjunto de
mecanismos reguladores e interventores na concorrência capitalista, próprio da esfera estatal.

3 - O Diamante Nacional da Cadeia do Leite no Brasil


3.1. Estrutura, Estratégia e Rivalidade
Em 1992, o PIB lácteo brasileiro foi da ordem de US$ 5,5 bilhões, o que representou
15% do PIB da agropecuária e 1,3% do PIB brasileiro. Desse total, 4,1 bilhões, ou 73%,
foram gerados na economia formal, com o leite pasteurizado respondendo por US$ 1,6
bilhões e os derivados do leite (leite em pó, leite longa vida, creme de leite, leite condensado,
yogurtes, bebidas lácteas, etc.) por US$ 2,5 bilhões ou 44% do total. O mercado informal do
leite, por sua vez, contribuiu com US$ 1,4 bilhão, ou seja, com 26% do PIB lácteo, embora
em termos de volume movimentado sua representação sobre o total de leite produzido no
Brasil seja maior - 30 e 40%.
Os efeitos da estabilização da economia, pós Plano Real, foram muito benéficos para a
economia leiteira que, em 1996, movimentou R$ 7 bilhões e empregou cerca de 1,8 milhões
de pessoas. Alterando o perfil de consumo de leite no Brasil, maior produtor da América
Latina, o Plano Real provocou um aumento de 40% na demanda, enquanto a produção
cresceu apenas 25%. Impulsionado pelo desempenho dos leite longa vida e pelas bebidas
lácteas, o consumo per capita saltou para 140 litros/ano. (Ribas, 1997).
Do total de leite recebido pelas empresas em 1995, 48% destinaram-se à
industrialização, 31% à pasteurização e 21% ao resfriamento. (Anuário Estatístico, 1996).
Minas Gerais é o Estado maior produtor responsável por cerca de 32% de produção
nacional de leite e 28% da de laticínios, conta com 28,6% do total de unidades cooperativas
de produção de leite em pó, com igual proporção de unidades de produção de leite em pó
pertencentes a empresas privadas nacionais e com 44% do total de unidades vinculadas a
multinacionais. Isso significa que, em Minas Gerais, estão concentradas 36,4% da capacidade
brasileira de produção de leite em pó. Quanto à produção de queijo, Minas Gerais foi
responsável por quase 70% da produção nacional, em 1990 (Sebrae, 1995).
Embora concentrada regionalmente, a rede de produção dentro de cada região ainda é
muito dispersa. As grandes distâncias percorridas entre as fazendas e os postos de recepção e
resfriamento , ou das fazendas às usinas regionais (o chamado primeiro percurso), e também
entre esses postos ou usinas regionais até os entrepostos nas grandes cidades implica um custo
de transporte elevado, o que concorre para reduzir a competitividade do produto doméstico.
(Leite e Derivados, nov/dez/1993).
Ao lado da concentração regional, outras marcas distintivas da indústria de leite no
Brasil são a heterogeneidade e relativo atraso tecnológico de suas unidades de produção e a
concentração empresarial. Na verdade, embora existam, oficialmente, milhares de unidades
4

produtivas, a indústria de leite e seus derivados no Brasil é altamente oligopolizada. Poucas


empresas atendem expressivas faixas do mercado nacional. A concentração empresarial pode
ser demonstrada a partir de diferentes perspectivas. Grupos variando de 7 a 10 empresas são
responsáveis por captarem entre 85 a 96% do total de leite em 5 grandes capitais do País
(Quadro nº 1).
QUADRO Nº 1
Número de Empresas de Laticínio e Participação na Recepção de Leite no Estado
Estados Número de Participação % no Estado
Empresas
Minas Gerais 10 96
São Paulo 10 94
Rio Grande do Sul 7 92
Rio de Janeiro 10 85
Goiás/Distrito Federal 7 85
Fonte: Dados Básicos - Revista Leite B, ano 9, nº 99, janeiro/1995

Por outro lado, as seis maiores empresas de laticínios do Brasil foram responsáveis
por 42,34 % de todo o leite captado no País em 1994 (Quadro nº 2). Desse conjunto, a Nestlé,
multinacional suíça, é a maior empresa tanto em termos de capacidade de captação, como em
faturamento. Segue-se a ela, a Parmalat, outra multinacional. Os terceiro, quarto e quinto
lugares são ocupados por empresas cooperativas (Quadro nº 3).

QUADRO Nº 2
Distribuição Percentual da Recepção de Leite no Brasil em 1993/94
Empresas de laticínios 1993 1994
Nestlé 11,40 11,14
Paulista 9,57 9,47
Parmalat 6,44 7,71
Itambé 5,54 5,38
CCGL 4,67 5,74
Grupo Vigor 4,09 3,90
Subtotal 41,72 42,34
Outras empresas 58,28 57,66
Total 100,00 100,00
Fonte: Dados Básicos - Revista Leite B, ano 9, no 104, junho/1995, p.25.

QUADRO Nº 3
Maiores Empresas por Faturamento
Empresa Em milhões de US$ Var.
1993 1994 %
1 - Nestlé 1.873 2.100 12,1
2 - Parmalat 515 750 45,6
3 - Paulista (1) 480 510 6,3
4 - Itambé 370 440 18,9
5 - CCGL 300 350 16,7
6 - Grupo Vigor 190 228 20,0
(1) Sistema Integrado Paulista
Fonte: Dados Básicos - Revista Leite B, ano 9, no 104, junho/1995, p.25.

A heterogeneidade tecnológica reflete-se, por sua vez, na convivência entre um


conjunto mais moderno de fábricas, no qual encontram-se diferentes gerações tecnológicas, e
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unidades artesanais, especializadas na fabricação de queijos e manteiga. Quanto ao atraso


tecnológico, estima-se que a indústria brasileira de leite e laticínios conviva com um grau de
defasagem em relação à fronteira do setor de cerca de 10 anos (ECIB, 1993), apresentando
um índice médio de atualização tecnológica de apenas 14% em relação ao padrão dos Países
líderes do setor (Megido, 1993). De fato, atuando em mercados protegidos, a indústria do
leite no Brasil defasou-se tecnologicamente, mostrando-se fragilizada para fazer face ao
acirramento competitivo da década de 90.
A despeito de uma certa retomada de investimentos na década de 90, o volume de
recursos canalizados para pesquisa e desenvolvimento é, ainda, muito reduzido. Em verdade,
a indústria brasileira não apresenta tradição em pesquisa e desenvolvimento, restringindo-se,
quase que totalmente, à realização de inovações incrementais de processos e produtos,
limitadas essas últimas a ações de adaptação de produtos e mercados e incorporação de
inovaçòes no plano das embalagens.
Os níveis de concentração e de internacionalização da indústria do leite no Brasil têm
aumentado como reflexo de um vigoroso movimento de aquisição de empresas nacionais
pelas multinacionais do setor. A Parmalat destaca-se por ter empreendido o maior número de
aquisições. Em segundo lugar, posicioná-se a Nestlé.
A indústria de leite e laticínio no Brasil é fortemente segmentada como no mundo. Por
isso, a análise de suas características estruturais deve ser desenvolvida, também, por cada tipo
de segmento. A segmentação da indústria e as características dos principais segmentos
constam do Quadro no 4, apresentado a seguir.
QUADRO Nº 4
PRINCIPAIS SEGMENTOS
SEGMENTOS
CARACTERÍSTICAS I II III
- Leite em pó e longa vida e - Iogurtes - Leite C
condensado - Sobremesas lácteas
PRODUTOS - Creme de leite - Queijos finos e
- Manteiga tradicionais
- Queijos populares
- Diferenciação reduzida - Diferenciação elrvada - Proximidade
PRINCIPAIS (Qualitativa) - Produção em consumidor
multiplantas
PARÂMETROS - Produção em multiplantas - Quase-integração - Rede de
COMPETITIVOS - Quase-integração - Rede de distribuição distribuição
- Rede de distribuição nacional
- Publicidade restrita - Publicidade elevada
MERCADOS - Regional ou nacional - Nacional -Local e regional
TAMANHO DOS -Regional ou nacional - Nacional -Local e regional
EMPREENDIMENTO
S
TENDÊNCIA - Concentração - Concentração - Pulverização
- Internacionalização - Redução relativa
Fonte: Carta da CPE Nº 14, 1992.

Entre 1995/1984, a produção de leite fluido no Brasil subiu quase 26%. A análise da
produção por tipo de leite, em igual período, mostra que apenas os leites tipo A e longa vida
apresentaram uma evolução positiva. A produção de leite longa vida foi a que mais cresceu -
910% - e a de leite tipo C a que mais caiu - 12,30%. (Anualpec, 1997).
Embora existissem na cadeia de leite fluido dos tipos A, B e C milhares de produtores,
as estruturas de mercado do elo industrial do complexo primam pela concentração, com trinta
6

e seis empresas comandando o mercado. Dentre os líderes do setor, incluem-se grupos


internacionais como Nestlé, Bongrain Gerard e Standard Brands e empreendimentos
nacionais como a Cooperativa de Laticínios do Paraná e a Companhia Paulista de Leite.
Continuando a análise desagregada por tipo de leite, observa-se que a produção de
leite pasteurizado é dominada pelas cooperativas de produtores (Farina, 1992). Já a produção
de leite longa vida é liderada pelas empresas multinacionais, como a Parmalat, que vem
aumentando, gradativamente, a sua participação no mercado. Em 1993, essa participação era
de 19,7%, saltando para 35,4%, em 1994, segundo dados do Instituto de Pesquisa Nielsen,
divulgados pela Gazeta Mercantil em 04/09/1995.
Desde 1993, as empresas produtoras de leite longa vida desenvolvem uma expressiva
estratégia de diversificação da produção, com vistas a otimizar a utilização de suas instalações
industriais e suas extensas redes de distribuição. Assim, reproduzindo tendência mundial,
investem na fabricação de produtos que se destinam a outros mercados que não os correntes, a
exemplo da produção de suco - especialmente de laranja - para consumo final. A Parmalat, a
Avaré e a Nestlé são as líderes dessas iniciativas no mercado doméstico (Gazeta Mercantil,
26/04/95).
No subsegmento de leite em pó, constituído por quase 50 unidades de produção,
pertencentes a 30 empresas, as multinacionais detêm em torno 47% de capacidade de
produção instalada. As cooperativas possuem perto de 31% do mesmo total. (Quadro nº 5).
Os atributos competitivos chave são a escala de produção e rede de distribuição ramificada.
QUADRO Nº 5
Indústria de Leite em pó no Brasil
Capacidade Instalada nominal - Em mil litros de leite/dia.
Empresas 1983 1993 Emp/Total 1993%
Cooperativas 3.200 3.810 30,90
Não cooperativas 1.820 2.230 18,09
Estatais 520 520 4,22
Multinacionais 4.690 5.770 46,79
TOTAL 10.280 12.330 100,00
Fonte: MARA/SNPA, 1994.

No último decênio, ocorreram mudanças significativas nesse segmento. Com a


implantação de unidades produtoras em áreas mais distantes dos maiores centros
consumidores, motivada pela busca de matéria-prima mais barata, a indústria interiorizou-se.
Com a acentuação do movimento de aquisição de unidades produtivas pertencentes a
empresas privadas nacionais e cooperativas, a indústria aumentou seu nível de concentração
e, simultaneamente, desnacionalizou-se.
É grande o índice de capacidade ociosa da indústria de leite em pó no Brasil, como
pode ser comprovado pela simples confrontação da capacidade instalada e de produção no
período de 1983/1992. Considerando-se o ano de 1983 como base, observa-se um nível de
produção decrescente na maioria dos anos da série estudada. As melhores performances
foram alcançadas em 1988 (109%) e 1992 (106%). Historicamente, o índice de ociosidade da
indústria de leite em pó no Brasil vem girando em torno de 58%. (MARA/SNPA, 1994).
Esse elevado índice de capacidade ociosa pode ser explicado por dois fatores. O
primeiro deles vincula-se às opções estratégicas típicas das empresas do setor, que operam
com capacidade ociosa planejada, para poderem responder rapidamente ao crescimento da
demanda. Trata-se, portanto, de uma estratégia de crescimento de longo prazo. A
sazonalidade da produção de leite in natura associada às indivisibilidades técnicas da
indústria compõem a outra ordem de fatores que explica a ociosidade. De fato, a capacidade
7

do sistema de produção das unidades industriais é também planejada tendo em conta a oferta
de leite que se verifica na safra. Na entressafra, no entanto, o nível de oferta cai
significativamente, o que afeta o percentual de utilização da capacidade instalada ao longo do
ano.
No subsegmento de produção de leite em pó, a liderança disparada é da Nestlé,
multinacional suíça. Essa empresa, com sua marca Ninho, abocanhou 70% do mercado
consumidor doméstico, em 1992, ficando a marca Itambé, da Cooperativa Central de
Laticínios de Minas Gerais, segunda colocada, com o distante registro de 16%. Em 1994, a
participação da Nestlé caiu para 50%, apesar de todos os esforços de marketing, que
envolveram investimentos de US$ 6 milhões. Apesar da perda de market-share, a
multinacional suíça continua líder, não só com o leite em pó, mas também com o leite
desnatado (50%), creme de leite (48%) e leite condensado (54%). (Gazeta Mercantil,
05/09/95)
O segmento produtor de achocolatados, sobremesas lácteas e yogurtes não foge à
regra de concentração e da expressiva participação de empresas multinacionais. No primeiro
deles, mais uma vez, o destaque coube à Nestlé, que conquistou 65% do consumo total em
1991. Na área de produção de yogurte, as preferências dos consumidores estiveram, quase
que totalmente, dirigidas para 3 grandes marcas, sendo as duas primeiras citadas pertencentes
a multinacionais e a última a uma cooperativa: Danone-Gervais (LPC); Chambourcy (Nestlé)
e Paulista (Cia Paulista de Leite).
Também recentemente, algumas empresas desse último segmento adotaram estratégias
de diversificação, passando a incluir, em suas linhas, a produção de sucos pasteurizados, a
exemplo da Danone. Essa empresa, em parceria com a Citrovita, lançou no mercado, no
segundo semestre de 1995, o suco de laranja Danone em embalagens de um litro. (Gazeta
Mercantil, 17/08/95)
A produção total de queijos, em 1992, foi da ordem de 189.140 ton, dividindo-se entre
queijos comuns, cujo volume de produção representou quase 97% do total, e queijos
especiais. Entre 1983/1992, a produção total de queijos cresceu em torno de 15%. Os queijos
comuns ou commodities registraram um crescimento da ordem de 13%. Os queijos especiais,
por sua vez, experimentaram um esplêndido crescimento - 85%, cujos reflexos sobre as taxas
de crescimento do setor como um todo foram minimizados pela pouca expressão da produção
desse tipo de queijo no total.
No segmento de queijos, novamente, um número restrito de produtores domina o
mercado, apesar de existirem quinhentos e vinte fabricantes registrados. Os grandes
empreendimentos operam, inclusive, no espaço mercadológico de queijos populares (prato e
minas), atendendo a demanda dos grandes centros metropolitanos. (Pesquisa Direta, 1995)
Com base na análise desenvolvida neste tópico, pode-se dizer que os principais
problemas da indústria de laticínios brasileira em nível de estrutura, estratégia e rivalidade
são:
a) a pulverização, ainda excessiva, de unidades empresariais, embora já existam sinais
de reversão desse quadro. Quanto a essa reversão, é importante frisar que o avanço da
concentração vem se dando em detrimento das empresas nacionais;
b) o expressivo nível de desatualização tecnológica do Parque Produtivo Nacional,
quando comparado com os países líderes;
c) a defasagem em termos de capacitação das empresas que operam no País, tendo em
vista as best practices das líderes como pode ser inferido do baixo nível de investimento em
Pesquisa e Desenvolvimento. Nesse quadro, a rivalidade entre as empresas focaliza o preço e
não a inovação.
3.2 - Demanda
O Estado brasileiro sempre desempenhou um papel ativo no mercado de leite, seja
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enquanto instância de regulamentação dos preços praticados e de proteção do mercado


doméstico em relação à concorrência externa, seja como agente fiscalizador da qualidade dos
produtos comercializados, ou seja como estimulador da demanda efetiva, através de
programas de merenda escolar e de reforço alimentar. O Governo chegou a comprar quase
25% de todo o leite pasteurizado pela indústria nacional. (Leite e Derivados, n o 12,
set/out/93). No início da década de 90, no entanto, o mercado de laticínios experimentou uma
verdadeira revolução no plano institucional em função de mudanças nas políticas públicas
gerais e específicas.
Nesse novo contexto, o governo estabeleceu uma vigorosa política de combate à
inflação, que vem repercutindo favorávelmente sobre o consumo de leite e seus derivados.
Paralelamente, abandonou sua histórica política de controle dos preços do leite. Além disso,
desativou ou reduziu drasticamente as metas dos programas de merenda escolar e de reforço
alimentar, o que impactou, dessa vez negativamente, sobre os níveis históricos de consumo.
Por último, simultaneamente à consolidação do bloco regional do Mercosul, adotou uma
ampla política de abertura do mercado interno, o que gerou, também, impactos
particularmente significativos sobre o mercado de laticínios.
Essas expressivas mudanças no ambiente institucional atingiram um mercado da
ordem de 16 bilhões de litros de leite em 1995, segmentado, na razão de quase 1:2, entre um
estrato formal e um estrato informal - que se desenvolveu e desenvolve à revelia da
regulamentação estatal e cuja existência é uma das causas do fraco desempenho competitivo
da cadeia de leite no Brasil.
Os dados relativos à demanda primária de leite pasteurizado indicam que os pequenos
negócios, especialmente as padarias, representam, ainda, o principal canal de distribuição
desses produtos. Em São Paulo, por exemplo, esse último canal distribuiu 71% do leite
pasteurizado, em 1995. Em segundo lugar, comparecem as redes de supermercados e em
terceiro lugar as unidades de venda domiciliar. Ainda em São Paulo, esses dois canais
responderam por 17% e 12% do total do leite consumido no mesmo ano já citado. (Leite B,
ano 8, nº 94, ago/94).
Já com relação aos queijos, as grandes redes de supermercados constituem o canal de
varejo mais importante, com as lojas de grande porte (mais de 10 checkouts) concentrando a
distribuição. Essas grandes redes estabelecem relação direta com a indústria. Apesar desse
comportamento geral, há casos particulares, como os dos queijos commodities, em cuja
distribuição a rede de atacadistas desempenha um papel importante. (ABIQ, 1994).
O mercado brasileiro de leite e seus derivados caracteriza-se, também, pelo baixo
poder aquisitivo da grande maioria de seus membros e pela preponderância de consumidores
negligentes quanto à marca e qualidade (Balde Branco, 1995). O baixo nível de sofisticação
da demanda doméstica pode ser inferido pela prevalência no mercado de produtos de pouco
valor agregado.
Especificamente em relação ao mercado brasileiro de leite fluido, registrou-se, em
1990, um inexpressivo nível de consumo per capita - 58 l/hab/ano, quando o consumo
recomendado pela Organização Mundial de Saúde (OMS) é de 216 l/hab/ano. Em função
disso, o Brasil classificou-se em 28º lugar no ranking mundial de consumo per capita de leite
fluido. (Leite B, no 78, citado por Zoocal, 1994). Impulsionado pelo desempenho do leite
longa vida e das bebidas lácteas, o consumo saltou, em 1996, para 140 litros/habitante/ano.
Ainda assim, o nível de consumo per capita no Brasil situou-se em torno de 64% do nível
recomendado pela OMS (Ribas, 1997).
Esse mercado compreende a comercialização e distribuição de cinco tipos de leite. O
leite tipo C, o mais barato de todos e de menor qualidade, é o mais vendido. Apesar disso,
esse tipo de leite vem perdendo mercado.
Associado à imagem de produto de qualidade superior, o leite tipo A vem se
9

destacando como o de mais alta rentabilidade para o produtor, embora os seus níveis de
consumo venham apresentando um crescimento relativamente fraco. Seus mercados são
regionalizados e algumas das marcas mais vendidas são: Forty (empresa regional), Parmalat
(multinacional), Xandó (empresa regional) e de Granja (empresa regional). (Alimentos e
Tecnologia, 1994).
O consumo de leite B apresenta um crescimento estável, com a taxa histórica
situando-se em torno de 6% a. a. Atualmente, no entanto, o mercado dá sinais evidentes de
saturação. (Alimentos e Tecnologia, 1994)
O mercado de leite longa vida, por sua vez, tem demonstrado um elevado dinamismo,
registrando entre 1990/95 a taxa de crescimento de 30% a.a. (Jank et al, 1995). Em 1992,
existiam 23 marcas disputando o mercado, pertencentes a 18 empresas. A líder de mercado é
a Parmalat, multinacional italiana. (Alimentos e Tecnologia, 1994).
Ao lado do desenvolvimento do mercado de leite longa vida, outra novidade no Brasil
é o desempenho das bebidas lácteas, que já representam 15% do consumo de produtos de
leite. A Parmalat foi a primeira empresa a investir nesse produto no mercado brasileiro,
posicionando-se como líder com a embalagem tamanho família. As Danone, Nestlé e Lacta
(empresa nacional de Cruzeiro do Oeste no Paraná) também atuam com força nesse
segmento (Leite B, ano 8, nº 94, ago/94).
Quanto ao mercado de queijo, pesquisa realizada pela Associação Brasileira de
Indústrias de Queijos (ABIQ) comprovou que, em geral, os consumidores brasileiros
preferem os produtos mais baratos, frescos e suaves. Além disso, esses consumidores usam o
queijo, essencialmente, como complemento alimentar, revelam um relativo desinteresse
gastronômico e apresentam um baixíssimo nível de consumo per capita - 1,6 kg/hab/ano -
quando comparado com consumidores de outros países (Leite B, ano 10, nº 115, maio/96).
O Mercado brasileiro de queijos comuns está estimado em torno de 227 mil toneladas,
em 1995. Nesse mercado, prevalecem os tipo mussarela, prato, minas-frescal e requeijão
cremoso. Já o mercado de queijos finos corresponde a pouco mais de 5% do estrato anterior,
situando-se em torno de 12.000 toneladas também em 1995. Nesse último estrato de mercado,
os destaques são: o Provolone, o Reino/Edam e o Estebe.
Em síntese, observa-se que, na década de 90, as vendas de leite pasteurizado tipos A e
B, de queijos e de leite em pó ficaram relativamente estagnadas. A disputa no mercado se deu
entre o leite tipo C, os produtos lácteos importados e o leite longa vida. Nessa disputa, o leite
tipo C perdeu expressiva fatia de mercado e as importações de leite em pó e o consumo de
leite longa vida cresceram, significativamente. (Jank et al, 1995).
Caracterizado pelo baixo nível de consumo per capita e formado,
preponderantemente, por consumidores pouco exigentes, o mercado de leite e seus derivados
no Brasil não tem funcionado como fonte de estímulos à modernização da cadeia de
produção. Essa é uma conclusão inexorável, tendo em vista as informações mercadológicas
apresentadas até aqui. Apesar de parecer inexorável, no entanto, esse panorama pode ser
efetivamente alterado por ação dos agentes econômicos de cadeia do leite, dado que os
produtos do leite apresentam uma elevada elasticidade renda de demanda. Em função dessa
característica particular dos produtos em foco, melhoras no nível de distribuição de renda no
Brasil provocarão uma reação mais do que equivalente nos índices de consumo per capita.
Logicamente, o simples aumento de demanda não é fator nem suficiente, nem
principal para assegurar a aquisição de condição de competitividade sustentada ao parque
industrial nacional. Como observa Porter (1990), o nível de sofisticação da demanda é o
elemento mais importante para tal fim. No entanto, trabalha-se, neste caso, com a hipótese
adicional de que níveis elevados de consumo são acompanhados por refinamentos nas
exigências dos consumidores.
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3.3 - Indústrias Relacionadas e de Suporte


O Brasil é o sétimo produtor mundial de leite e possui o terceiro maior rebanho do
mundo, mas ocupa o centésimo sexto lugar em produtividade. Na América do Sul, ele é o
País de menor produtividade, registrando em torno de 13% e 25% das marcas argentinas e
uruguaias, respectivamente (Megido, 1993). A simples confrontação desses dados é suficiente
para indicar que o País enfrenta graves problemas na área de produção pecuária.
As causas da baixa produtividade verificada estão relacionadas com a prevalência, na
produção agropecuária, de empreendimentos de escalas pequenas, com baixo nível de
especialização e baseados em técnicas arcaicas de criação de gado. Em geral, os rebanhos
dessas propriedades não denotam aptidão genética para produção de leite. A segmentação dos
produtores pecuaristas, no Brasil, consta do Quadro nº 6.
11

QUADRO Nº 6
SEGMENTOS PRODUTORES DE PECUÁRIA BOVINA NO BRASIL.
SEGMENTOS CARACTERÍSTICAS
I Produtor de Subsistência Pequeno volume de produção; Baixa qualidade e Produtividade
II Produtor não Especializado Produz extensivamente leite, carne e/ou alguma cultura
permanente ou temporária; Baixa qualidade e produtividade
III Produtor Especializado Produção intensiva; Especializado na produção de leite ou
carne;
Maior produtividade e qualidade
Fonte: Elaborado a partir de informações da Carta da CPE Nº 14, 1992.

Vale ressaltar, em relação às características apontadas no Quadro Nº 8 que, mesmo no


último segmento, o de produtores especializados, a produtividade registrada ainda é baixa, se
comparada aos padrões dos países de pecuária mais desenvolvida. Ainda aí, predomina a
utilização de métodos de criação pouco atualizados, apesar da natureza intensiva da atividade,
o que faz com que o rendimento médio por vaca leiteira não ultrapasse três litros por dia no
Brasil (Pesquisa Direta, 1995).
De uma maneira geral, essa cadeia produtiva padece de muitos problemas
competitivos. Na opinião de Farina (1992), o sistema agroindustrial do leite exemplifica o
caso em que o estágio de transformação não provocou mudanças sobre sua retaguarda
produtiva.
Nessa cadeia, verifica-se uma falta de integração entre pecuária e indústria. Em
decorrência, a produção pecuária não conta, de maneira expressiva, com o suporte da
assistência técnica da indústria, o que resulta em um produto final no setor primário de baixa
qualidade. Além disso, a pouca importância da sistemática de quase-integração entre os dois
elos dessa cadeia concorre, também, para a conformação de um padrão de relação conflituada
e, de roldão, gera, freqüentemente, problemas de abastecimento de matéria-prima para a
indústria.
Um dos grandes entraves à modernização da pecuária leiteira brasileira tem sido,
reconhecidamente, o nível histórico de preços praticado pela indústria de laticínios, cuja
sistemática inspirou-se no modelo americano, o qual não incorpora mecanismos de
transferência de lucros intracadeia produtiva. A adoção dessa sistemática beneficiou,
sobremaneira, no passado, a indústria, que adquiria a matéria-prima a preços tabelados e
deprimidos para transformá-la em derivados cujos preços, por seu turno, não estavam, em
alguns casos, sujeitos ao controle governamental. Mesmo com a suspensão da política
governamental de controle de preços, a produção leiteira ainda se ressente do nível de preços
praticado pela indústria, permanecendo portanto, de uma maneira geral, o mesmo impasse
(Pesquisa Direta, 1995).
Em função desse e de outros problemas, muito embora existam no País mais de dois
milhões de propriedades leiteiras, apenas em torno de seis mil empreendimentos prepararam-
se para produzir leites tipos A e B, respondendo por pouco mais de 5% da produção de leite
do País. Nos EUA, onde os produtores caracterizam-se, em média, por ostentar padrões
modernos de operação, a quase totalidade dos pecuaristas voltados para criação de rebanho
leiteiro obtém leites tipos A e B. Estima-se que, se 50% dos produtores brasileiros adotassem
o perfil de produção americano, a pressão exercida por eles sobre o mercado doméstico teria
capacidade de reverter a política de preços praticada na ponta do complexo (Globo Rural,
1991).
As dificuldades experimentadas pela pecuária leiteira brasileira não impediram,
todavia, o surgimento de verdadeiros bolsões de modernidade em algumas regiões do País,
como as bacias leiteiras de São Paulo, do Sul de Minas Gerais e na região Sul, todas
12

localizadas nos estados mais ricos da Federação. A formação desses bolsões deu-se, em parte,
via adoção, por parcela dos pecuaristas regionais, de estratégias de crescimento de seus
negócios similares às da indústria.
Entretanto, para que o movimento de verticalização da pecuária, com ênfase na
produção de leite de primeira qualidade, pudesse ser generalizado com êxito, o mercado
consumidor interno teria de ser mais representativo. A ampliação do mercado doméstico,
todavia, não parece ser objetivo possível de concretização, pelo menos, no médio prazo, tendo
em vista a elevada concentração de renda e o baixo poder aquisitivo da maioria dos salários
pagos no País.
Mas nem só problemas estruturais e internos às firmas estão por trás dos inexpressivos
índices de desempenho da atividade leiteira no Brasil. Também fatores sistêmicos concorrem
para a conformação do quadro traçado. O sistema de eletrificação rural é de pequena
abrangência, privando as fazendas da possibilidade de adotar métodos de conservação e
refrigeração do leite produzido. Adicionalmente, a precariedade da rede de estradas vicinais e
a baixa qualidade da mão-de-obra rural ampliam o conjunto de fatores que limitam o
desempenho competitivo da atividade pecuária no País e do elo industrial da cadeia.

4. Condição dos Fatores


4.1. Elementares
O Brasil é um país de dimensão continental, caracterizado pela diversidade edafo-
climática. Tal característica pode ser vista como uma vantagem competitiva ou, ao contrário,
como uma desvantagem. Ela é desvantagem porque não permite uma distribuição mais
homogênea da atividade agropecuária ao longo do território nacional. A vantagem deriva do
potencial de especialização produtiva vinculado a cada bio-clima, o que, no conjunto, pode
levar a um quadro produtivo diversificado.
Do ponto de vista da cadeia do leite, as zonas de terra mais favoráveis concentram-se
no Sudeste e Sul do País. De um ponto de vista nacional, portanto, pode-se dizer que nessas
regiões as condições edafo-climáticas são fontes de vantagem competitiva para a cadeia do
leite, notadamente de seu elo agropecuário.
Entretanto, em uma era de economia globalizada, a avaliação das condições de
competitividade e dos fatores que as influenciam, nem mesmo aqueles de natureza elementar,
não pode se restringir aos limites do País. Muito importante, também, é a comparação com os
principais concorrentes.
Em comparação com a Argentina, país mais homogêneo em termos de condições
edafo-climáticas, a bio-diversidade do Brasil parece concorrer para minimizar as condições de
competitividade de sua pecuária leiteira. Além disso, as terras argentinas são mais férteis, o
que assegura um excelente nível de alimentação para o gado com relativamente menos
investimento. (MARA/SNPA, 1994)
Também em termos de mão-de-obra diretamente empregada no processo produtivo,
tanto no elo primário, como no industrial, , as condições nacionais não são as mais
promissoras na atualidade. As transformações em curso na dinâmica competitiva da cadeia do
leite vêm indicando a necessidade progressiva de incorporação de um contingente de
trabalhadores dotados de novas qualificações. No campo, a especialização das propriedades
tem sido acompanhada de um maior nível de tecnificação, a qual demanda níveis maiores de
escolarização da mão-de-obra de produção. Igual demanda por maior escolarização está
associada à elevação das exigências de qualidade por parte dos clientes. Na indústria, a
digitalização dos processos produtivos aponta na direção, também, de um novo perfil do
trabalhador.
Para atender essas novas demandas do mercado de trabalho, os desafios a serem
enfrentados pelo Brasil são inúmeros. Isso porque o pré-requisito para a nova formação é que
13

os candidatos apresentem formação escolar, no mínimo, básica. Essa condição, no entanto,


não é atendida pela maioria dos trabalhadores alocados no campo e por parte significativa dos
trabalhadores alocados na indústria em geral e na de laticínios, em particular. Depoimento
prestado pelo Sr. Waldir Ferreira Bastos, presidente da Cooperativa Central de Laticínios,
confirma tal avaliação. Segundo ele, o despreparo do trabalhador rural, ao lado de outros
fatores, lidera a relação das causas pelas quais o produtor perde dinheiro. (Leite e Derivados,
nº 12 - set/out/1993).
Quanto a esse fator elementar específico, a comparação entre Brasil e Argentina
mostra uma situação também desfavorável em relação ao primeiro país citado, apesar do
Brasil possuir um parque industrial mais desenvolvido e, consequentemente, uma força-de-
trabalho, em tese, mais especializada. A desvantagem do Brasil parece derivar do fato de
contar com uma classe trabalhadora com baixo nível de escolarização, o que, segundo os
estudiosos do assunto, dificulta a aquisição de conceitos e normas de trabalho mais flexíveis e
polivalentes, isto é, mais atualizados. Essa desvantagem tende a se ampliar, inclusive quando
a comparação passa a ser feita entre o Brasil e os países do Primeiro Mundo.
4.2. Não especializados:
Embora contando com uma extensa rede de rodovias primárias, a conservação dessa
rede encontra-se em estado lastimável. Na verdade, a crise fiscal e financeira vivenciada pelo
Estado no Brasil inviabilizou a canalização de recursos para manutenção da malha rodoviária
nos últimos seis anos. A esse fato, acrescentam-se as deficiências em termos de extensão e
qualidade das estradas vicinais para completar um quadro absolutamente desfavorável ao
desempenho competitivo da cadeia do leite no Brasil. As deficiências apresentadas pelas
rodovias, sobretudo da malha de estradas vicinais, explicam, ao lado de outros fatores como
legislação pública e escassez de recursos de investimento, o atraso na adoção de sistema de
coleta de leite a granel pela indústria de laticínios no Brasil.
As deficiências do sistema de telefonia e de energia são mais sentidas em nível das
unidades rurais. Os problemas da rede de energia rural, inclusive, são responsáveis, em parte,
por perdas e por queda na qualidade dos produtos, principalmente nas áreas mais distantes das
grandes zonas produtoras, sobretudo na Região Nordeste do País.
A análise do sistema bancário mostra um quadro paradoxal. De um lado, é consensual
a opinião de que a inexistência de linhas de crédito especiais para a atividade agrícola, em
geral, e para a pecuária do leite, em particular, e as elevadas taxas de juros são fatores que
prejudicam o desenvolvimento dessa atividade. Situação similar vivencia a indústria de
laticínios, muito embora o porte e a força das unidades concorram para minimizar esse
problema, recorrendo, por exemplo, a fontes externas de financiamento ou beneficiando-se do
aporte de recursos da matriz, no caso das multinacionais. Mas por outro lado, existe um
movimento de reestruturação muito pronunciado nas instituições financeiras no Brasil, sendo
um dos seus resultados a abertura de carteiras e serviços especializados para cada tipo de
negócio.
4.3. Fatores Complexos
A demanda da cadeia do leite por mão-de-obra de nível técnico e universitário não é
satisfatoriamente atendida pelas instituições de ensino no Brasil. O problema não se refere a
quantidade. Pelo contrário, em termos de quantidade, parece haver uma oferta maior do que a
procura. O problema tem a ver com a qualidade da formação dessa mão-de-obra, embora já
existam centros de excelência, como as unidades de Tecnologia dos Alimentos das
Universidades de Viçosa e de Campinas, que estão contribuindo para superar esse problema.
Existem, também, centros de formação e especialização da mão-de-obra tanto para a
indústria de alimentos como para as unidades pecuárias. Esses centros pertencem ao Serviço
Nacional da Indústria - Senai e ao Senar, órgãos ligados à classe empresarial. Tanto o Senai
como o Senar estão atravessando um expressivo processo de avaliação de suas atuações com
14

vistas a adequar a oferta de serviços às novas exigências da clientela. Isso tem envolvido,
inclusive, repensar profundamente a natureza, o conteúdo programático e a metodologia dos
cursos oferecidos por essas organizações.
O sistema de portos do Brasil não é competitivo, situando-se como um dos mais caros
do mundo. Por isso, no bojo do processo de modernização do Estado brasileiro, a questão dos
portos tem sido tratada com prioridade. As medidas já implementadas, que abrem espaço para
a maior participação dos capitais privados e promovem uma relativa flexibilização das
normas aplicáveis ao trabalho do porto, parecem ainda não ter repercutido sobre o custo do
serviço, pelo menos na proporção necessária e desejada para torná-los competitivos.
A escassez de capital de risco de uma maneira geral é um dos maiores problemas do
Brasil. Aliás, esse é um problema estrutural, que tem se agravado, na medida em que crescem
as necessidades de capital produtivo e, simultaneamente, os fluxos de capital produtivo
realizam-se, preponderantemente, entre os países avançados, a despeito da progressiva
importância das regiões emergentes. Segundo alguns estudos, essas últimas regiões tendem a
se converter nos núcleos mais dinâmicos do mercado mundial e de acumulação internacional
de capital (Dabat, 1994). No conjunto de regiões emergentes, a América Latina, ressalta-se,
mostra-se menos atrativa aos capitais externos que a Ásia Oriental. No caso do Brasil, em
especial, parece que o grande fluxo de capitais externos é mais de natureza especulativa do
que produtiva. A despeito desse quadro geral pouco animador, a indústria de laticínios parece
estar vivenciando uma situação particular: ela tem recebido a injeção de capitais de risco dos
grandes grupos do setor, a exemplo da Parmalat e da R. Nabisco, que têm empreendido um
vigoroso processo de aquisição de empresas nacionais. Embora esse processo, em princípio,
signifique apenas a mudança de propriedade dos ativos, à efetivação da posse, segue-se, em
alguns casos, a realização de investimentos em modernização das instalações.
4.4. Especializados
Existem alguns centros no País com grande experiência acumulada na área de P&D
em laticínios. O principal desses centros é o Instituto de Laticínios Cândido Tostes, em Juiz
de Fora, Minas Gerais. Além de desenvolver pesquisas tanto na área de alimentos a base de
leite, como de processo, fermentos e fluxos industriais, esse Centro promove o treinamento de
pessoal, tanto de nível técnico como superior.
Outras instituições de renome na área são: a Universidade Federal de Viçosa, através
de seu Departamento de Tecnologia de Alimentos; a Faculdade de Engenharia de Alimentos
da Universidade Estadual de Campinas e o Instituto de Tecnologia de Alimentos, ambos em
Campinas - São Paulo. Tanto a Universidade de Viçosa como a Faculdade de Campinas
oferecem cursos de mestrado e doutorado na área de ciência, tecnologia e engenharia de
alimentos. Na área da produção primária, cumpre papel destacado a Empresa Brasileira de
Pesquisa Agropecuária, através de suas unidades especializadas (MARA/SNPA, 1994).
Embora reconheça-se que tanto a universidade brasileira como o sistema Embrapa têm
contribuído para o avanço da cadeia do leite no Brasil, não se pode deixar de mencionar que a
contribuição desses agentes corre o risco de vir a ser eliminada, em função da crise
vivenciada pelo País. O Estado brasileiro, paulatinamente, reduz os fundos públicos
destinados à manutenção de universidades e centros de pesquisa. O resultado mais imediato
dessa ação é o esvaziamento dessas instituições, a perda de seus quadros mais competentes, a
suspensão de projetos de pesquisa, enfim, o sucateamento de uma infra-estrutura cara e
especializada. No longo prazo, tal iniciativa poderá levar à erosão de um cluster de
capacitação que tem contribuído, de forma insofismável, para a melhoria das condições de
competitividade sustentada da cadeia do leite no Brasil, em especial nas regiões Sul e
Sudeste.

5. Conclusões
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A análise desenvolvida até aqui, com base no Diamante Nacional de Porter (1990),
revelou que a cadeia brasileira do leite não apresenta condições sustentáveis de
competitividade. Múltiplas são as causas de tal situação.
Em nível do primeiro atributo do Diamante, observou-se que as fragilidades
competitivas da cadeia vinculam-se à existência, ainda, de um expressivo número de
produtores de pequeno porte empresarial, muito embora o mercado seja liderado por filiais
das maiores empresas do segmento no mundo. Adicionalmente, a expressiva desatualização
tecnológica das plantas industriais, inclusive de algumas unidades pertencentes às
multinacionais líderes no mercado interno, é outro fator que concorre para a situação
diagnosticada. Por último, registra-se que o foco na capacitação das empresas permitiu inferir
que mesmo as líderes nacionais não estão bem posicionadas nas curvas de aprendizado
setoriais e que as estratégias ora dominantes não indicam uma reversão desse quadro, no
médio prazo.
Também no plano da demanda, segundo atributo do Diamante Nacional, a análise
desenvolvida não mostrou um quadro muito promissor. Os níveis existentes de pressão
competitiva são baixos, seja porque o consumo per capita é inexpressivo em comparação com
os registrados nos países desenvolvidos, seja porque os consumidores são pouco exigentes,
priorizando entre os atributos de compra o preço do produto, seja porque os produtos mais
vendidos são de baixo valor agregado.
Novos fatores restritivos à conquista de competitividade dinâmica pela indústria
brasileira de laticínios emergiram, por fim, da análise dos terceiro e quarto atributos do
Diamante Nacional. Focalizando estritamente o elo de produção de leite cru, a análise
diagnóstica desenvolvida sobre o terceiro atributo ressaltou a falta de integração entre os elos
primário e transformador, a baixa produtividade e qualidade da produção leiteira e a grande
desatualização tecnológica dos produtores médios, como os principais fatores que concorriam
para reduzir o fôlego competitivo da cadeia brasileira de leite. Em relação à análise do quarto
atributo, foi destacada a existência de problemas tanto em nível dos fatores elementares e
não-especializados, como no plano dos fatores especializados e complexos.

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