ACT04
ACT04
Resumo:
Este trabalho foi desenvolvido com o objetivo de avaliar as condições de
competitividade dinâmica da cadeia brasileira do leite. A análise diagnóstica, empreendida
com base na metodologia do Diamante Nacional de Porter (1990), demonstrou que tal cadeia
não apresenta condições sustentáveis de competitividade. Embora fatores limitantes do
desempenho competitivo manifestem-se em todos os atributos do Diamante, a força dos
problemas experimentados pelo elo pecuário da cadeia, as lacunas de capacitação das
empresas, o foco quase exclusivo das estratégias das empresas do elo transformador em
questões técnico-operacionais, a situação de fragilidade e baixo nível de integração das
entidades públicas de pesquisa, extensão e fiscalização e a inexistência de políticas de suporte
à competitividade do elo pecuário podem ser alinhados como os principais fatores que
obstaculizam o caminho empresarial no sentido de conquistar condições sustentáveis de
competitividade.
1. Introdução
O objetivo deste trabalho é avaliar as condições de competitividade dinâmica da
cadeia do leite no Brasil. O conceito de competitividade dinâmica está relacionado à
capacidade, sustentável ao longo do tempo, das empresas manterem e ou ampliarem suas
posições mercadológicas.
Essa competitividade é condicionada por fatores internos e externos às firmas. Assim,
infere-se que na base da preservação dessas posições está um contínuo processo de criação de
vantagens competitivas, pressupondo-se um vigoroso esforço endógeno de geração e
incorporação de inovações.
A compreensão do processo de inovação como endógeno à função de produção tem
que estar refletida no modelo de análise adotado (Nelson, 1987). Isto é, o modelo tem que,
não só permitir a apreensão das especificidades das estruturas de mercado, das condutas e
desempenhos das firmas, suas relações de reciprocidade e tendências a transformações, como,
sobretudo, desnudar os vínculos entre o padrão concorrencial e o panorama de inovações em
cada setor.
Além disso, deve permitir evidenciar os fatores exógenos à indústria que condicionam
a competitividade da mesma. Só assim permitirá identificar as fontes de vantagens
competitivas, pondo em destaque os pontos fortes e fracos da indústria em análise,
viabilizando, no mínimo, o alinhamento de medidas corretivas e/ou de reforço. Esses são os
méritos do modelo adotado neste trabalho, baseado nas idéias de Porter (1990).
Este trabalho foi estruturado como se segue. A introdução consigna uma visão geral
da problemática enfocada e a apresentação de sua estrutura. No marco referencial, a discussão
teórica, que norteou a interpretação dos dados foi desenvolvida. Capítulo específico reúne os
resultados do diagnóstico competitivo, realizado de acordo com a metodologia do Diamante
Nacional de Porter. No item de conclusões, estão apresentadas, de forma resumida, as
principais inferências sobre as condições de competitividade da cadeia do leite no Brasil.
2. Marco Referencial
Para analisar as condições de competitividade dinâmica das indústrias de um país,
Porter(1990) cunhou o conceito de Diamante Nacional (Diamond of National Advantage). O
Diamante Nacional compreende o conjunto de atributos que consubstancia o ambiente no
qual as empresas surgem e que promove, ou impede, a criação de vantagens competitivas.
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Esses atributos são de quatro tipos: as condições dos fatores; as condições da demanda; a
existência de indústrias relacionadas e de suporte; as estratégias das firmas, a estrutura e a
rivalidade.
Quanto ao primeiro atributo, o autor assinala que as nações têm a capacidade de criar
fatores de produção, sobretudo aqueles, hoje, estratégicos para a competitividade, tais como
força-de-trabalho qualificada e base científica e tecnológica. Dessa forma, Porter (1990)
transmite a visão atualizada de que as vantagens competitivas são históricas: elas mudam ao
longo tempo e, portanto, são objeto de produção social. Conseqüentemente, tendo em vista a
competitividade das nações, o estoque de fatores em um determinado momento tem a
importância sobrepujada pela eficiência e a taxa com que esses fatores podem ser criados,
aperfeiçoados e distribuídos.
Além disso, a abundância de matéria-prima e força-de-trabalho já não constitui uma
vantagem de relêvo. Os fatores mais importantes são os de natureza especializada, cuja
criação envolve a aplicação de volumosos investimentos. Infere-se, assim, que um fator só é
fonte de vantagem competitiva se é especializado, ou seja, se atende a necessidades
específicas de uma indústria.
Ao mesmo tempo, o que seria visto dentro da perspectiva de competitividade estática
como uma desvantagem - a ausência de fatores básicos - pode se transformar, no bojo do
modelo dinâmico de Porter, em uma vantagem competitiva na medida em que induza firmas
a inovarem. Para tanto, os requisitos são: a sintonia das firmas com as tendências do mercado
internacional e a verificação do conjunto de atributos do Diamante Nacional.
Os segundo e terceiro elementos do Diamante Nacional - as condições da demanda e a
existência de indústrias relacionadas que funcionem como suporte reforçam a escolha do
modelo de Porter para o desenvolvimento deste trabalho, porque destacam elementos
estratégicos para a competitividade em função da emergência do novo paradigma técnico-
econômico. O argumento que justifica a análise da demanda é o de que as nações são mais
competitivas nas indústrias em que os compradores domésticos são mais exigentes,
demandando a melhoria sistemática da qualidade dos produtos.
Observa-se, a partir disso, que a qualidade do produto expressa-se em nível de
correspondência entre características intrínsecas ao produto e as expectativas dos
consumidores, dando conta, dos novos padrões de best practice anunciados por Perez (1989).
Ao lado disso, a existência de fornecedores locais competitivos internacionalmente, ao
viabilizar o fornecimento ágil e eficiente de insumos, concorre também para atribuir
competitividade sustentada à indústria, mostrando-se coerente com os novos padrões de best
practice referidos.
O quarto atributo dá conta do modelo de gerenciamento das firmas, suas estratégias e
especificidades da estrutura de mercado, focalizando a análise sobre as condições que
regeram a criação, organização e a gestão das empresas, a natureza da rivalidade no mercado
interno e as estratégias competitivas, enquanto veículos de criação de vantagens competitivas.
Porter (1990) considera que não há sistema gerencial que seja universalmente
apropriado. O requisito demandado é que os modelos gerenciais potencializem o alcance dos
novos padrões de conduta das firmas, definidos em termos de agilidade, flexibilidade,
integração e proximidade com clientes e fornecedores.
Outro aspecto referenciado ao quarto atributo, e talvez o mais polêmico de todos, é o
da situação da rivalidade do setor em foco. Quanto a esta, Porter (1990) afirma que “a
presença de uma forte concorrência no mercado doméstico estimula persistentemente a
criação de vantagens competitivas” (Porter, 1990, p. 82) e que “entre todos os pontos do
diamante este é o mais importante, devido ao seu grande poder de gerar efeitos sobre os
outros” (Porter, 1990, p. 82).
Considera-se que em Porter, a expressão aceitar e aprimorar a concorrência local não
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Por outro lado, as seis maiores empresas de laticínios do Brasil foram responsáveis
por 42,34 % de todo o leite captado no País em 1994 (Quadro nº 2). Desse conjunto, a Nestlé,
multinacional suíça, é a maior empresa tanto em termos de capacidade de captação, como em
faturamento. Segue-se a ela, a Parmalat, outra multinacional. Os terceiro, quarto e quinto
lugares são ocupados por empresas cooperativas (Quadro nº 3).
QUADRO Nº 2
Distribuição Percentual da Recepção de Leite no Brasil em 1993/94
Empresas de laticínios 1993 1994
Nestlé 11,40 11,14
Paulista 9,57 9,47
Parmalat 6,44 7,71
Itambé 5,54 5,38
CCGL 4,67 5,74
Grupo Vigor 4,09 3,90
Subtotal 41,72 42,34
Outras empresas 58,28 57,66
Total 100,00 100,00
Fonte: Dados Básicos - Revista Leite B, ano 9, no 104, junho/1995, p.25.
QUADRO Nº 3
Maiores Empresas por Faturamento
Empresa Em milhões de US$ Var.
1993 1994 %
1 - Nestlé 1.873 2.100 12,1
2 - Parmalat 515 750 45,6
3 - Paulista (1) 480 510 6,3
4 - Itambé 370 440 18,9
5 - CCGL 300 350 16,7
6 - Grupo Vigor 190 228 20,0
(1) Sistema Integrado Paulista
Fonte: Dados Básicos - Revista Leite B, ano 9, no 104, junho/1995, p.25.
Entre 1995/1984, a produção de leite fluido no Brasil subiu quase 26%. A análise da
produção por tipo de leite, em igual período, mostra que apenas os leites tipo A e longa vida
apresentaram uma evolução positiva. A produção de leite longa vida foi a que mais cresceu -
910% - e a de leite tipo C a que mais caiu - 12,30%. (Anualpec, 1997).
Embora existissem na cadeia de leite fluido dos tipos A, B e C milhares de produtores,
as estruturas de mercado do elo industrial do complexo primam pela concentração, com trinta
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do sistema de produção das unidades industriais é também planejada tendo em conta a oferta
de leite que se verifica na safra. Na entressafra, no entanto, o nível de oferta cai
significativamente, o que afeta o percentual de utilização da capacidade instalada ao longo do
ano.
No subsegmento de produção de leite em pó, a liderança disparada é da Nestlé,
multinacional suíça. Essa empresa, com sua marca Ninho, abocanhou 70% do mercado
consumidor doméstico, em 1992, ficando a marca Itambé, da Cooperativa Central de
Laticínios de Minas Gerais, segunda colocada, com o distante registro de 16%. Em 1994, a
participação da Nestlé caiu para 50%, apesar de todos os esforços de marketing, que
envolveram investimentos de US$ 6 milhões. Apesar da perda de market-share, a
multinacional suíça continua líder, não só com o leite em pó, mas também com o leite
desnatado (50%), creme de leite (48%) e leite condensado (54%). (Gazeta Mercantil,
05/09/95)
O segmento produtor de achocolatados, sobremesas lácteas e yogurtes não foge à
regra de concentração e da expressiva participação de empresas multinacionais. No primeiro
deles, mais uma vez, o destaque coube à Nestlé, que conquistou 65% do consumo total em
1991. Na área de produção de yogurte, as preferências dos consumidores estiveram, quase
que totalmente, dirigidas para 3 grandes marcas, sendo as duas primeiras citadas pertencentes
a multinacionais e a última a uma cooperativa: Danone-Gervais (LPC); Chambourcy (Nestlé)
e Paulista (Cia Paulista de Leite).
Também recentemente, algumas empresas desse último segmento adotaram estratégias
de diversificação, passando a incluir, em suas linhas, a produção de sucos pasteurizados, a
exemplo da Danone. Essa empresa, em parceria com a Citrovita, lançou no mercado, no
segundo semestre de 1995, o suco de laranja Danone em embalagens de um litro. (Gazeta
Mercantil, 17/08/95)
A produção total de queijos, em 1992, foi da ordem de 189.140 ton, dividindo-se entre
queijos comuns, cujo volume de produção representou quase 97% do total, e queijos
especiais. Entre 1983/1992, a produção total de queijos cresceu em torno de 15%. Os queijos
comuns ou commodities registraram um crescimento da ordem de 13%. Os queijos especiais,
por sua vez, experimentaram um esplêndido crescimento - 85%, cujos reflexos sobre as taxas
de crescimento do setor como um todo foram minimizados pela pouca expressão da produção
desse tipo de queijo no total.
No segmento de queijos, novamente, um número restrito de produtores domina o
mercado, apesar de existirem quinhentos e vinte fabricantes registrados. Os grandes
empreendimentos operam, inclusive, no espaço mercadológico de queijos populares (prato e
minas), atendendo a demanda dos grandes centros metropolitanos. (Pesquisa Direta, 1995)
Com base na análise desenvolvida neste tópico, pode-se dizer que os principais
problemas da indústria de laticínios brasileira em nível de estrutura, estratégia e rivalidade
são:
a) a pulverização, ainda excessiva, de unidades empresariais, embora já existam sinais
de reversão desse quadro. Quanto a essa reversão, é importante frisar que o avanço da
concentração vem se dando em detrimento das empresas nacionais;
b) o expressivo nível de desatualização tecnológica do Parque Produtivo Nacional,
quando comparado com os países líderes;
c) a defasagem em termos de capacitação das empresas que operam no País, tendo em
vista as best practices das líderes como pode ser inferido do baixo nível de investimento em
Pesquisa e Desenvolvimento. Nesse quadro, a rivalidade entre as empresas focaliza o preço e
não a inovação.
3.2 - Demanda
O Estado brasileiro sempre desempenhou um papel ativo no mercado de leite, seja
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destacando como o de mais alta rentabilidade para o produtor, embora os seus níveis de
consumo venham apresentando um crescimento relativamente fraco. Seus mercados são
regionalizados e algumas das marcas mais vendidas são: Forty (empresa regional), Parmalat
(multinacional), Xandó (empresa regional) e de Granja (empresa regional). (Alimentos e
Tecnologia, 1994).
O consumo de leite B apresenta um crescimento estável, com a taxa histórica
situando-se em torno de 6% a. a. Atualmente, no entanto, o mercado dá sinais evidentes de
saturação. (Alimentos e Tecnologia, 1994)
O mercado de leite longa vida, por sua vez, tem demonstrado um elevado dinamismo,
registrando entre 1990/95 a taxa de crescimento de 30% a.a. (Jank et al, 1995). Em 1992,
existiam 23 marcas disputando o mercado, pertencentes a 18 empresas. A líder de mercado é
a Parmalat, multinacional italiana. (Alimentos e Tecnologia, 1994).
Ao lado do desenvolvimento do mercado de leite longa vida, outra novidade no Brasil
é o desempenho das bebidas lácteas, que já representam 15% do consumo de produtos de
leite. A Parmalat foi a primeira empresa a investir nesse produto no mercado brasileiro,
posicionando-se como líder com a embalagem tamanho família. As Danone, Nestlé e Lacta
(empresa nacional de Cruzeiro do Oeste no Paraná) também atuam com força nesse
segmento (Leite B, ano 8, nº 94, ago/94).
Quanto ao mercado de queijo, pesquisa realizada pela Associação Brasileira de
Indústrias de Queijos (ABIQ) comprovou que, em geral, os consumidores brasileiros
preferem os produtos mais baratos, frescos e suaves. Além disso, esses consumidores usam o
queijo, essencialmente, como complemento alimentar, revelam um relativo desinteresse
gastronômico e apresentam um baixíssimo nível de consumo per capita - 1,6 kg/hab/ano -
quando comparado com consumidores de outros países (Leite B, ano 10, nº 115, maio/96).
O Mercado brasileiro de queijos comuns está estimado em torno de 227 mil toneladas,
em 1995. Nesse mercado, prevalecem os tipo mussarela, prato, minas-frescal e requeijão
cremoso. Já o mercado de queijos finos corresponde a pouco mais de 5% do estrato anterior,
situando-se em torno de 12.000 toneladas também em 1995. Nesse último estrato de mercado,
os destaques são: o Provolone, o Reino/Edam e o Estebe.
Em síntese, observa-se que, na década de 90, as vendas de leite pasteurizado tipos A e
B, de queijos e de leite em pó ficaram relativamente estagnadas. A disputa no mercado se deu
entre o leite tipo C, os produtos lácteos importados e o leite longa vida. Nessa disputa, o leite
tipo C perdeu expressiva fatia de mercado e as importações de leite em pó e o consumo de
leite longa vida cresceram, significativamente. (Jank et al, 1995).
Caracterizado pelo baixo nível de consumo per capita e formado,
preponderantemente, por consumidores pouco exigentes, o mercado de leite e seus derivados
no Brasil não tem funcionado como fonte de estímulos à modernização da cadeia de
produção. Essa é uma conclusão inexorável, tendo em vista as informações mercadológicas
apresentadas até aqui. Apesar de parecer inexorável, no entanto, esse panorama pode ser
efetivamente alterado por ação dos agentes econômicos de cadeia do leite, dado que os
produtos do leite apresentam uma elevada elasticidade renda de demanda. Em função dessa
característica particular dos produtos em foco, melhoras no nível de distribuição de renda no
Brasil provocarão uma reação mais do que equivalente nos índices de consumo per capita.
Logicamente, o simples aumento de demanda não é fator nem suficiente, nem
principal para assegurar a aquisição de condição de competitividade sustentada ao parque
industrial nacional. Como observa Porter (1990), o nível de sofisticação da demanda é o
elemento mais importante para tal fim. No entanto, trabalha-se, neste caso, com a hipótese
adicional de que níveis elevados de consumo são acompanhados por refinamentos nas
exigências dos consumidores.
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QUADRO Nº 6
SEGMENTOS PRODUTORES DE PECUÁRIA BOVINA NO BRASIL.
SEGMENTOS CARACTERÍSTICAS
I Produtor de Subsistência Pequeno volume de produção; Baixa qualidade e Produtividade
II Produtor não Especializado Produz extensivamente leite, carne e/ou alguma cultura
permanente ou temporária; Baixa qualidade e produtividade
III Produtor Especializado Produção intensiva; Especializado na produção de leite ou
carne;
Maior produtividade e qualidade
Fonte: Elaborado a partir de informações da Carta da CPE Nº 14, 1992.
localizadas nos estados mais ricos da Federação. A formação desses bolsões deu-se, em parte,
via adoção, por parcela dos pecuaristas regionais, de estratégias de crescimento de seus
negócios similares às da indústria.
Entretanto, para que o movimento de verticalização da pecuária, com ênfase na
produção de leite de primeira qualidade, pudesse ser generalizado com êxito, o mercado
consumidor interno teria de ser mais representativo. A ampliação do mercado doméstico,
todavia, não parece ser objetivo possível de concretização, pelo menos, no médio prazo, tendo
em vista a elevada concentração de renda e o baixo poder aquisitivo da maioria dos salários
pagos no País.
Mas nem só problemas estruturais e internos às firmas estão por trás dos inexpressivos
índices de desempenho da atividade leiteira no Brasil. Também fatores sistêmicos concorrem
para a conformação do quadro traçado. O sistema de eletrificação rural é de pequena
abrangência, privando as fazendas da possibilidade de adotar métodos de conservação e
refrigeração do leite produzido. Adicionalmente, a precariedade da rede de estradas vicinais e
a baixa qualidade da mão-de-obra rural ampliam o conjunto de fatores que limitam o
desempenho competitivo da atividade pecuária no País e do elo industrial da cadeia.
vistas a adequar a oferta de serviços às novas exigências da clientela. Isso tem envolvido,
inclusive, repensar profundamente a natureza, o conteúdo programático e a metodologia dos
cursos oferecidos por essas organizações.
O sistema de portos do Brasil não é competitivo, situando-se como um dos mais caros
do mundo. Por isso, no bojo do processo de modernização do Estado brasileiro, a questão dos
portos tem sido tratada com prioridade. As medidas já implementadas, que abrem espaço para
a maior participação dos capitais privados e promovem uma relativa flexibilização das
normas aplicáveis ao trabalho do porto, parecem ainda não ter repercutido sobre o custo do
serviço, pelo menos na proporção necessária e desejada para torná-los competitivos.
A escassez de capital de risco de uma maneira geral é um dos maiores problemas do
Brasil. Aliás, esse é um problema estrutural, que tem se agravado, na medida em que crescem
as necessidades de capital produtivo e, simultaneamente, os fluxos de capital produtivo
realizam-se, preponderantemente, entre os países avançados, a despeito da progressiva
importância das regiões emergentes. Segundo alguns estudos, essas últimas regiões tendem a
se converter nos núcleos mais dinâmicos do mercado mundial e de acumulação internacional
de capital (Dabat, 1994). No conjunto de regiões emergentes, a América Latina, ressalta-se,
mostra-se menos atrativa aos capitais externos que a Ásia Oriental. No caso do Brasil, em
especial, parece que o grande fluxo de capitais externos é mais de natureza especulativa do
que produtiva. A despeito desse quadro geral pouco animador, a indústria de laticínios parece
estar vivenciando uma situação particular: ela tem recebido a injeção de capitais de risco dos
grandes grupos do setor, a exemplo da Parmalat e da R. Nabisco, que têm empreendido um
vigoroso processo de aquisição de empresas nacionais. Embora esse processo, em princípio,
signifique apenas a mudança de propriedade dos ativos, à efetivação da posse, segue-se, em
alguns casos, a realização de investimentos em modernização das instalações.
4.4. Especializados
Existem alguns centros no País com grande experiência acumulada na área de P&D
em laticínios. O principal desses centros é o Instituto de Laticínios Cândido Tostes, em Juiz
de Fora, Minas Gerais. Além de desenvolver pesquisas tanto na área de alimentos a base de
leite, como de processo, fermentos e fluxos industriais, esse Centro promove o treinamento de
pessoal, tanto de nível técnico como superior.
Outras instituições de renome na área são: a Universidade Federal de Viçosa, através
de seu Departamento de Tecnologia de Alimentos; a Faculdade de Engenharia de Alimentos
da Universidade Estadual de Campinas e o Instituto de Tecnologia de Alimentos, ambos em
Campinas - São Paulo. Tanto a Universidade de Viçosa como a Faculdade de Campinas
oferecem cursos de mestrado e doutorado na área de ciência, tecnologia e engenharia de
alimentos. Na área da produção primária, cumpre papel destacado a Empresa Brasileira de
Pesquisa Agropecuária, através de suas unidades especializadas (MARA/SNPA, 1994).
Embora reconheça-se que tanto a universidade brasileira como o sistema Embrapa têm
contribuído para o avanço da cadeia do leite no Brasil, não se pode deixar de mencionar que a
contribuição desses agentes corre o risco de vir a ser eliminada, em função da crise
vivenciada pelo País. O Estado brasileiro, paulatinamente, reduz os fundos públicos
destinados à manutenção de universidades e centros de pesquisa. O resultado mais imediato
dessa ação é o esvaziamento dessas instituições, a perda de seus quadros mais competentes, a
suspensão de projetos de pesquisa, enfim, o sucateamento de uma infra-estrutura cara e
especializada. No longo prazo, tal iniciativa poderá levar à erosão de um cluster de
capacitação que tem contribuído, de forma insofismável, para a melhoria das condições de
competitividade sustentada da cadeia do leite no Brasil, em especial nas regiões Sul e
Sudeste.
5. Conclusões
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A análise desenvolvida até aqui, com base no Diamante Nacional de Porter (1990),
revelou que a cadeia brasileira do leite não apresenta condições sustentáveis de
competitividade. Múltiplas são as causas de tal situação.
Em nível do primeiro atributo do Diamante, observou-se que as fragilidades
competitivas da cadeia vinculam-se à existência, ainda, de um expressivo número de
produtores de pequeno porte empresarial, muito embora o mercado seja liderado por filiais
das maiores empresas do segmento no mundo. Adicionalmente, a expressiva desatualização
tecnológica das plantas industriais, inclusive de algumas unidades pertencentes às
multinacionais líderes no mercado interno, é outro fator que concorre para a situação
diagnosticada. Por último, registra-se que o foco na capacitação das empresas permitiu inferir
que mesmo as líderes nacionais não estão bem posicionadas nas curvas de aprendizado
setoriais e que as estratégias ora dominantes não indicam uma reversão desse quadro, no
médio prazo.
Também no plano da demanda, segundo atributo do Diamante Nacional, a análise
desenvolvida não mostrou um quadro muito promissor. Os níveis existentes de pressão
competitiva são baixos, seja porque o consumo per capita é inexpressivo em comparação com
os registrados nos países desenvolvidos, seja porque os consumidores são pouco exigentes,
priorizando entre os atributos de compra o preço do produto, seja porque os produtos mais
vendidos são de baixo valor agregado.
Novos fatores restritivos à conquista de competitividade dinâmica pela indústria
brasileira de laticínios emergiram, por fim, da análise dos terceiro e quarto atributos do
Diamante Nacional. Focalizando estritamente o elo de produção de leite cru, a análise
diagnóstica desenvolvida sobre o terceiro atributo ressaltou a falta de integração entre os elos
primário e transformador, a baixa produtividade e qualidade da produção leiteira e a grande
desatualização tecnológica dos produtores médios, como os principais fatores que concorriam
para reduzir o fôlego competitivo da cadeia brasileira de leite. Em relação à análise do quarto
atributo, foi destacada a existência de problemas tanto em nível dos fatores elementares e
não-especializados, como no plano dos fatores especializados e complexos.
6 - Referências Bibliográficas:
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BALDE Branco; “Mudanças na exploração e no mercado de leite”, ano XXXI, no
368, junho/1995
CARTA da CPE nº 14. “Leite e Laticínios, Uma Proposta para a Bahia”. CPE,
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FARINA, E. “O Sistema Agroindustrial de Alimento no Brasil, Relatório Final,
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FNP Consultoria e Comércio, “Anuário da Pecuária Brasileira - Anualpec”, São
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GAZETA Mercantil, 05/09/1995
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