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ACT02

O documento discute a relação entre a difusão de tecnologia, mudanças organizacionais e o crescimento da produtividade, com foco no Paradoxo de Solow. A análise inclui uma revisão da literatura sobre a tecnologia da informação e sua influência na produtividade, além de situar o debate atual no Brasil sobre o crescimento da produtividade em comparação com experiências internacionais. O autor conclui com observações sobre políticas públicas em relação às novas tecnologias.

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ACT02

O documento discute a relação entre a difusão de tecnologia, mudanças organizacionais e o crescimento da produtividade, com foco no Paradoxo de Solow. A análise inclui uma revisão da literatura sobre a tecnologia da informação e sua influência na produtividade, além de situar o debate atual no Brasil sobre o crescimento da produtividade em comparação com experiências internacionais. O autor conclui com observações sobre políticas públicas em relação às novas tecnologias.

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1

O PARADOXO DE SOLOW E O DEBATE SOBRE TECNOLOGIA E


PRODUTIVIDADE NO BRASIL

Autor: Francisco Lima C. Teixeira

RESUMO

O trabalho tem por objetivo discutir a relação entre difusão de tecnologia, mudanças
organizacionais e crescimento da produtividade. Para tanto, apresenta uma revisão bibliográfica
da teoria e de estudos empíricos sobre a relação entre difusão da tecnologia da informação (IT) e
crescimento da produtividade, com destaque para o Paradoxo de Solow. Adota uma abordagem
que procura explicar o Paradoxo a partir dos processos de difusão e aprendizagem das inovações
tecnológicas e organizacionais. Em seguida, trata de situar o problema dentro da atual polêmica
estabelecida no Brasil em torno do crescimento da produtividade, relacionando-a com a
experiência internacional. Por último, apresenta, nas conclusões, observações a respeito de
políticas públicas frente às novas tecnologias.

Introdução

Desde que, em 1987, Robert Solow, prêmio Nobel de economia, cunhou a famosa
frase “Vê-se computadores em toda parte, menos nas estatísticas de produtividade”, 1 que o
chamado Paradoxo de Solow passou a ser um tema de pesquisa bastante concorrido nos Estados
Unidos e Europa. Pesquisas sobre o Paradoxo de Solow enquadram-se, porém, em uma linha
mais ampla, perseguida pelos economistas desde a década de setenta, que tenta entender e
explicar a vertiginosa queda no crescimento da produtividade nos países desenvolvidos, a partir
do início daquela década. De fato, os dados apresentados na Tabela 1 não deixam dúvidas sobre a
descontinuidade de um padrão de crescimento que vinha desde o pós-guerra e que era
interpretado como a causa fundamental para a recuperação fenomenal das economias capitalistas,
após aquele conflito. É importante lembrar que, desde o trabalho seminal de Solow (1956), que
os economistas, que trabalham com a função de produção agregada da tradição neoclássica,
imputam ao famoso residual2 boa parte do desenvolvimento econômico.
O Paradoxo de Solow, no entanto, adiciona um novo enigma ao problema. Ora, se a
produtividade é a medida fundamental da contribuição da tecnologia para a expansão econômica,
como ela pode declinar justamente durante um período em que a mudança tecnológica,
capitaneada pela microeletrônica, havia, aparentemente, se acelerado? Independente da resposta
que possa ser dada, a conseqüência desse fenômeno, acreditam os economistas, é que, desde a
metade dos anos setenta, o aumento do desemprego, na Europa, e das desigualdades salariais, nos
EUA, estariam correlacionados com o declínio no crescimento da produtividade (ver, por
exemplo, Baily e Chakrabarti, 1988).

1
Em inglês: “We see computers everywhere except in the productivity stastics”. Essa frase consta de um artigo
publicado no New York Times Book Review, de 12 de julho de 1987, denominado “We’d Better Watch Out”
2
O residual, decoberto inicialmente pelo próprio Solow (1956), refere-se à parcela do crescimento econômico que
não pode ser explicado por adições nos fatores da função de produção neo-clássica (trabalho e capital).
2

Esse é um tema que está, no momento, sendo debatido publicamente no Brasil. A


partir de 1990, após uma década de estagnação, a produtividade voltou a crescer de forma
bastante expressiva, apesar das taxas de investimentos (formação bruta de capital) anuais terem
se mantido em patamares reduzidos. A polêmica refere-se não apenas às causas do crescimento
da produtividade na década de noventa, mas também se elas seriam sustentáveis, dado o quadro
econômico e empresarial do país. Vale a pena lembrar que, de acordo com o pensamento
econômico vigente, o crescimento da produtividade, alimentado pelos investimentos em novos e
mais avançados sistemas produtivos, está na base que sustenta todo processo de
desenvolvimento. A restruturação empresarial em curso, acoplada a investimentos em
equipamentos de base microeletrônica, estaria conduzindo o país a uma nova era de
desenvolvimento baseada no crescimento expressivo da produtividade?
O presente artigo tem por objetivo discutir a relação entre difusão de tecnologia,
mudanças organizacionais e crescimento da produtividade. Para tanto, apresenta uma revisão
bibliográfica da teoria e de estudos empíricos sobre a relação entre difusão da tecnologia da
informação (IT) e crescimento da produtividade, com destaque para o Paradoxo de Solow. Adota
uma abordagem que procura explicar o Paradoxo a partir dos processos de difusão e
aprendizagem das inovações tecnológicas e organizacionais. Em seguida, trata de situar o
problema dentro da atual polêmica estabelecida no Brasil em torno do crescimento da
produtividade, relacionando-a com a experiência internacional. Por último, apresenta, nas
conclusões, observações a respeito de políticas públicas frente às novas tecnologias.

Tabela 1: Crescimento da produtividade do setor privado


(percentual médio anual)

Países Produtividade total Produtividade do Produtividade do


dos fatores trabalho capital
Pré 1974 1980 Pré 1974 1980- Pré 1974 1980
1973 - - 1973 - 1990 197 - -
1979 1990 1979 3 1979 1990
EUA 1,5 -0,4 0,2 2,1 0,0 0,6 0,1 -1,3 -0,7
Japão 4,6 0,9 1,6 8,0 2,9 2,9 -3,0 -3,5 -1,4
Alemanha 2,5 1,7 1,0 4,4 3,0 1,7 -1,4 -1,0 -0,5
França 3,8 1,6 1,5 5,3 2,9 2,4 0,9 -1,0 -0,2
Itália 4,1 1,9 1,2 6,1 2,8 1,9 0,4 0,3 -0,1
Reino Unido 2,5 0,5 1,6 3,6 1,5 2,1 -0,3 -1,6 0,4
Canadá 2,0 0,8 0,1 2,8 1,5 1,2 0,6 -0,5 -1,8
Média
ponderada da 2,7 0,5 0,8 4,3 1,5 1,6 -0,8 -1,8 -0,8
OECD (1)
Fonte: OECD (1996)
(1) Inclui, além dos países do G 7, listados na tabela, Áustria, Bélgica, Dinamarca,
Finlândia, Grécia, Islândia, Irlanda, Países Baixos, Noruega, Portugal, Espanha, Suécia,
Austrália e Nova Zelândia.
3

As explicações para o paradoxo de Solow

As explicações para o Paradoxo não são consensuais, nem definitivas. Elas podem ser
agrupadas em quatro grandes categorias.
Em primeiro lugar, não se pode desprezar as variáveis macroeconômicas que
impactam no aumento da produção e da produtividade. Os números mostram um declínio no
crescimento da produtividade a partir do início dos setenta, em comparação com os vinte e cinco
anos anteriores. O pós-guerra foi um período caracterizado pelo sucesso das políticas de cunho
keynesianas, que asseguraram uma relativa estabilidade macroeconômica nos principais países
capitalistas. A manutenção dessa estabilidade começa a apresentar problemas no fim dos anos
sessenta. Porém, é a partir de 1973, com o advento de choques resultantes de aumentos rápidos e
significativos nos preços relativos, notadamente de algumas commodities estratégicas, que o
mundo ocidental entra em uma trajetória de turbulências. A década de oitenta é marcada por
profundas flutuações financeira e monetária, em um quadro que, muitos consideram, de demanda
saturada. O resultado é que declinam as taxas de investimento e de formação de capital humano,
o que teria reduzido a capacidade das empresas explorarem o potencial das novas tecnologias
(Bell, Chesnais e Wienert, 1992). Contudo, mesmo considerando que a deterioração do ambiente
econômico tenha tido importantes efeitos sobre o crescimento da produtividade, não se pode
relacionar o fenômeno apenas às variáveis de natureza macro, como argumenta Lindbeck (1992).
Esse argumento torna-se mais forte quando se analisa o comportamento da produtividade nos
anos noventa, época de relativa estabilidade e crescimento, o que será feito mais adiante.
Outra linha de interpretação do Paradoxo de Solow refere-se à questões de ordem
quantitativa, perseguida por economistas que adotam o referencial neoclássico e que trabalham
com funções de produção agregadas.
O primeiro argumento dentro desta linha está relacionado com a idéia de
convergência (catching-up), derivada da própria teoria de crescimento dos neoclássicos.
Segundo esse raciocínio, existiriam oportunidades adicionais para o crescimento da produtividade
quando um país está operando em níveis menores do que os registrados nos países líderes. Isso
porque o processo de difusão de tecnologias, originárias dos países líderes, ofereceria
oportunidades para a rápida introdução de novos sistemas produtivos, via renovação e expansão
de capital, assim como para a modernização organizacional. Além disso, o processo de
crescimento econômico, alimentado pelos novos investimentos e tecnologias, tende a elevar a
produtividade dos trabalhadores ocupados em atividades de baixo desempenho, a exemplo da
agricultura e pequeno comércio, através do aumento do emprego nas atividades modernas
(Abramovitz, 1992).
De acordo com a idéia da convergência, o Paradoxo de Solow seria explicado pelo
fato do processo de catch-up dos países europeus e do Japão, em relação aos Estados Unidos, ter
se esgotado. O problema com essa explicação é bastante claro: ela até poderia explicar o
decréscimo no crescimento da produtividade nos outros países, mas não no próprio EUA onde,
como mostra a Tabela 1, foi bastante acentuado. Além disso, Baumol, Nelson e Wolff (1994)
acentuam que, para os países mais prósperos, desde a metade da década de setenta, observa-se
uma tendência à divergência no crescimento da produtividade, apesar do residual continuar
convergindo.
4

O segundo argumento, dentro da linha quantitativa, levanta a possibilidade de


existirem erros de mensuração dos índices de produtividade. A hipótese, levantada por Baily e
Gordon (1988), por exemplo, é que a produção, o numerador dos cálculos de produtividade, não
estaria sendo medida corretamente devido, principalmente, às dificuldades para desenvolver
deflatores de preços precisos - em função do processo inflacionário errático - e ajustados às
mudanças na qualidade e preços dos novos produtos.
Após extensivo trabalho empírico, Baily e Gordon (1988), utilizando dados
agregados dos setores industriais e de serviços dos EUA, chegaram à conclusão que, apesar de
problemas de mensuração existirem, principalmente no setor de serviços, eles não são capazes de
explicar o fenômeno do decréscimo nos índices de produtividade. O computador estaria sendo
difundido com grande velocidade na economia americana e teria tido um impacto significativo na
maneira como os negócios são conduzidos. Porém, os setores onde computadores e outros
equipamentos eletrônicos estão sendo usados estariam experimentando importantes decréscimos
no crescimento da produtividade. O trabalho de Gordon (1993) estende essas mesmas conclusões
para todo o período de 1972 a 1991, tanto para produtividade do trabalho como para a
produtividade total dos fatores.
Ainda relacionado a problemas de mensuração, levanta-se o argumento da qualidade.
A idéia é que os computadores e equipamentos relacionados poderiam estar oferecendo serviços
de valor para os consumidores – melhor qualidade, variedade, serviços, agilidade e velocidade de
resposta - mas que não são mensurados pelas estatísticas oficiais. Isso porque os deflatores
utilizados para medir os gastos dos consumidores seriam incapazes de incorporar mudanças na
natureza dos produtos e serviços, tornadas possíveis pelo uso da tecnologia da informação
(Brynjolfsson, 1993).
Existiriam três problemas com esse argumento. Primeiro, quando se mensura o
decréscimo no crescimento da produtividade, compara-se o período iniciado no início dos setenta
com aquele do pós-guerra. Ora, é de conhecimento geral que o imediato pós-guerra foi um
período de intensas mudanças tecnológicas, decorrentes de um conjunto de inovações nas áreas
da indústria química-petroquímica, eletro-eletrônica e metal-mecânica (Freeman, 1992). Essas
inovações também provocaram mudanças substanciais na qualidade dos produtos e serviços.
Então, se os métodos de mensuração da produtividade não são adequados para as inovações
decorrentes da tecnologia da informação, por que seriam adequados para as inovações do pós-
guerra? Pressupondo a pertinência dessa questão, também poder-se-ia indagar até que ponto a
difusão da tecnologia da informação conforma um período de intensa mudança tecnológica.
Poucos duvidam, entretanto, do potencial revolucionário da IT. Tão pouco os gastos em P&D,
principal indicador do esforço voltado para inovação tecnológica, revelam decréscimo nas
últimas décadas (OECD, 1996).
O segundo problema relaciona-se ao conceito de qualidade que se tem em mente,
quando se levanta o argumento. Hoje, é praticamente consenso que, do ponto de vista da
competição por mercados, a qualidade de produtos e serviços evolui de acordo com as
necessidades dos clientes e não pela definição técnica de novas especificações. Em sendo assim,
os sistemas produtivos baseados em novas tecnologias (inclusive organizacionais) deveriam ser
capazes de atender aos requisitos de mercado e aumentar a produtividade. Esse seria o caso, por
exemplo, do sistema de produção da Toyota na indústria automobilística. A diversificação da
produção, incluindo produtos de melhor qualidade, é uma estratégia para ganhar mercados. Se a
estratégia funciona, ela deve aparecer no aumento da produção e, portanto, da produtividade.
5

O último problema diz respeito ao questionamento que se faz quanto à melhoria na


qualidade dos produtos e serviços. Vários indicadores mostram que a qualidade dos serviços tem
decrescido e não aumentado. Por outro lado, questiona-se as vantagens, do ponto de vista do
consumidor, de se dispor de uma grande variedade de produtos irrelevantes, a exemplo de goma
de mascar (Brynjolfsson, 1993). Além disso, para que esse argumento pudesse explicar o
Paradoxo de Solow, haveria de se provar que as melhorias de qualidade atuais são mais
significativas do que as do pós-guerra.
Uma outra abordagem ao problema da quantificação dos impactos da tecnologia da
informação na produtividade é apresentada por Oliner e Sichel (1994). Trabalhando do ponto de
vista da função de produção agregada neoclássica, os autores detectam a rápida difusão da
tecnologia da informação, alimentada, em grande parte, pela queda vertiginosa dos preços. Duas
observações sobre esse trabalho são importantes. Primeiro, além do conceito de “participação real
no estoque líquido de capital”, utiliza-se o conceito de “a participação nominal no estoque líquido
de capital”. De acordo com Oliner e Sichel (1994), o conceito de “participação nominal” não
sofre os efeitos de não se computar a queda dramática nos preços dos equipamentos de IT, após o
ano base escolhido para deflacionar os valores e, portanto, evita superestimar o peso da IT nos
investimentos e no estoque de capital. Segundo, a categoria “computadores e outros
equipamentos de processamento de informações”, utilizada pelos autores, engloba, além de
computadores e periféricos, equipamentos de escritório e de contabilidade, equipamentos de
comunicação, instrumentação científica e máquinas copiadoras. Essa categoria amplia bastante o
conceito tradicional de IT, que considera apenas computadores e periféricos. Com base em
números que são, aparentemente, mais precisos, Oliner e Sichel (1994) chegam à conclusão que o
Paradoxo de Solow seria simplesmente uma falsa questão, uma vez que a contribuição da IT para
o aumento da produtividade não poderia ser significativa, dado que a sua participação no estoque
de capital produtivo é, ainda, muito pequena e não deverá crescer muito nos próximos anos.
Muito embora Oliner e Sichel (1994) apresentem uma persuasiva explicação para o
Paradoxo, algumas objeções, no entanto, podem ser levantadas. Em primeiro lugar, mesmo
expandindo os elementos que compõem a categoria IT – o que, por si, já aumenta
consideravelmente a sua participação no estoque de capital – os autores, declaradamente, não
tentam quantificar os impactos daquilo que eles chamam de “revolução microeletrônica como um
todo”. Caso isso seja feito, a fatia da high-tech no estoque de capital pode chegar a 25%, como
mostrado em Roach (1991). Nesse caso, não se pode dizer que essa fatia é pequena para,
potencialmente, ter um impacto tão insignificante no crescimento da produção. Por outro lado,
considerando-se o peso da microeletrônica a partir dos setores consumidores de semicondutores,
os dados apresentados por Flamm (1996) mostram que os setores considerados por Oliner e
Sichel (1995) representavam menos de 60% do mercado total de chips, em 1987.
Em segundo lugar, mesmo considerando apenas os elementos da categoria IT usados
por Oliner e Sichel (1994), deve-se atentar para o fato que o problema do baixo crescimento da
produtividade é particularmente agudo no setor de serviços, onde a maioria dos equipamentos de
IT são utilizados. Com efeito, até 1970, o crescimento da produtividade na área de serviços
acompanhou o do setor manufatureiro, mas, desde então, as tendências vêem divergindo
consideravelmente, como pode ser visto na Tabela 2. A questão é que, de acordo com Roach
(1991), o setor de serviços possui mais de 85% da base instalada de IT, nos EUA, quando se
considera as categorias usadas por Oliner e Sichel. Esses números levaram Roach a concluir que
os investimentos massivos em IT não contribuíram para a melhoria da produtividade, pelo
contrário, tornaram o setor de serviços americano menos lucrativo e menos competitivo.
6

A partir de 1993, começaram a surgir reportagens e estudos esperançosos quanto à


reversão da tendência de baixo crescimento da produtividade dos anos setenta e oitenta. Com a
estabilidade, principalmente nos EUA, os fatores macroeconômicos estariam controlados. Além
disso, um movimento de restruturação empresarial havia se formado e os investimentos em IT
continuavam aumentando. Entretanto, analisando os dados até 1995, Oliner (1995) não encontrou
evidências para sustentar o otimismo. Utilizando o método de “ponderação em cadeia”, em lugar
do método usual de “ponderação fixa” 3, para o cálculo da produção, o autor conclui que, de 1990
a 1995 , o crescimento médio da produtividade do trabalho, nos EUA, foi de 1,3% e da
produtividade total dos fatores de apenas 0,3%. Utilizando o mesmo método para o período 1960-
73, os números são 3,0 e 2,1%, respectivamente. A “revolução microeletrônica”, tão comentada
por tantos autores, não estaria, ainda, provocando efeitos positivos significativos no crescimento
da produtividade, pelo menos do ponto de vista dos economistas.

Tabela 2: Crescimento médio anual da produtividade agregada,


1948-1993, períodos selecionados (EUA, % por ano)

Medida 1948-73 1973-87 1987-93


Produtividade do Trabalho
. manufatura 2,82 2,52 2,45
. serviços 2,32 0,25 0,21
Produtividade total dos fatores
. manufatura 2,03 1,68 1,87
. serviços 1,55 -0,30 -0,08
Fonte: Baily e Gordon (1988) – 1948-87 - e Gordon (1993) - 1987-93.

A polêmica em torno dos problemas quantitativos do crescimento da produtividade


revela, entre outras coisas, as limitações da abordagem da função de produção neoclássica para
lidar com o tema. Em primeiro lugar, existe uma questão técnica. Acredita-se que a produtividade
total dos fatores é uma medida mais adequada para interpretar o Paradoxo do que a produtividade
do trabalho. Porém, como comenta Triplett (1994), ao se utilizar a metodologia para cálculo do
crescimento da produção, a produtividade total dos fatores se comporta como uma constante,
pois é estimada a partir da produtividade do trabalho. Por outro lado, de acordo com Nelson
(1996), não faz sentido tentar separar, quantitativamente, a contribuição de cada fator para o
crescimento econômico e da produtividade, como se não houvesse interação e
complementaridade entre eles.
Outro problema sério com a abordagem da função de produção diz respeito à sua
própria utilidade para explicar um fenômeno como o Paradoxo de Solow. As medidas de
produtividade agregadas, englobando toda a economia ou grandes setores, como o manufatureiro,
apesar de indicarem tendências gerais, não são capazes de expressar o que acontece no lado real
do problema: o nível microeconômico. O Paradoxo seria, em última instância, uma questão que
diz respeito à difusão de tecnologia. A difusão é um processo que está afeto a decisões gerenciais,
3
Correspode em, em inglês , a “chain-weighted”e “fixed-weighted”. O método do “fixed-weighted” utiliza um ano
base (1987, no caso dos EUA) para deflacionar os preços, quando o PIB é calculado. O “chain-weighted” calcula o
crescimento do PIB, em um dado ano, através da média geométrica das mudanças produzidas por dois índices com
ponderação fíxa, que usam os preços do ano corrente e do ano anterior como pesos. Acredita-se que o “chain-
wighted’é mais adequado, pois consegue anular o efeito da queda dos preços dos bens de alta tecnologia.
7

informadas pelas circunstâncias particulares do ambiente competitivo e das restrições técnicas.


Disso resulta que, no mundo real, existe uma enorme variedade na produtividade das empresas,
das plantas, das células de produção e essa variedade não é captada - pelo contrário, é
conceitualmente excluída - da abordagem da função de produção neoclássica: Essa parece ser a
opinião mesmo de economistas que trabalham com o paradigma neoclássico, como Mairesse e
Grilliches (1990).

Difusão e aprendizado tecnológico e organizacional

Uma outra abordagem para entender o Paradoxo de Solow é sugerida por David
(1990). Esse autor compara a difusão da tecnologia da informação, nesse fim de século, com o
que aconteceu cem anos atrás com o motor elétrico. O seu argumento é que inovações
tecnológicas básicas, como o dínamo e a IT, levam tempo para se difundir pela economia, em
parte porque, de início, não é economicamente vantajoso substituir as velhas tecnologias. Além
disso, para que haja um impacto importante na produtividade agregada, torna-se necessário que o
processo de difusão esteja bastante adiantado: David estima que os efeitos do motor elétrico só se
tornaram visíveis a partir de 1920, quando mais da metade das fábricas haviam sido eletrificadas.
Mas, mais importante do ponto de vista deste trabalho, é que, de acordo com David
(1990), aplicações realmente revolucionárias das novas tecnologias requerem um período de
aprendizagem que não foi, no caso do motor elétrico, curto. Essa aprendizagem diz respeito não
apenas às questões técnicas das inovações, mas também às mudanças organizacionais
necessárias para que elas possam impactar significativamente na produtividade dos fatores. No
caso do motor elétrico, o período de difusão e aprendizagem durou quase quarenta anos e
envolveu mudanças radicais nos meios utilizados para planejar e gerenciar as fábricas. Paul
David considera a possibilidade de que, com a microeletrônica, esse período seja menor. Porém,
ele considera também a possibilidade de que esteja havendo um forte componente inercial na
evolução de organizações, no sentido de se adequarem a formas de produção intensivas em
informação.
A hipótese de David (1990) direciona a tentativa de entender o Paradoxo de Solow
para um outro caminho. Ao invés de procurar explicações com base em quantificações baseadas
na função de produção agregada – que podem, no máximo, indicar a extensão do problema - o
estudo do processo de difusão e aprendizagem associados às novas tecnologias, a partir de
variáveis organizacionais e institucionais, seria um caminho mais promissor. Nessa linha, a
proposta de que a emergência da IT teria o potencial para conformar um novo “paradigma
técnico-econômico”, poderia ser um ponto de partida.
O conceito de paradigma técnico-econômico enfatiza as relações entre mudanças
tecnológicas, organizacionais e institucionais no processo de difusão de inovações básicas,
revolucionárias. A relação dessas mudanças com o crescimento da produtividade, no longo prazo,
é, para Freeman (1992), muito clara. O potencial de crescimento da produtividade é, inicialmente,
detectado em um número reduzido de setores. Daí, o processo de difusão se espalha por toda a
economia. Mas, como esse processo exige mudanças nas instituições, organizações, infra-
estrutura, qualificações profissionais e equipamentos, existiria um inevitável período de
adaptação estrutural (aprendizado). Portanto, a explicação de um fenômeno macroeconômico –
crescimento da produtividade agregada – só seria possível a partir de variáveis microeconômicas
– difusão de inovações nas empresas – em consonância com a hipótese schumpeteriana (Dosi,
Giannetti e Toninelli, 1992).
8

A postulação da tese evolucionista fornece suporte para a quarta, e última, categoria


explicativa do Paradoxo de Solow. Como mostra Brynjolfsson (1993), vários autores sustentam
que, ao nível da firma, a IT não estaria trazendo os retornos esperados. De fato, Farbey, Targett e
Land (1995) são enfáticos ao apontarem as limitações das análises tradicionais de custos e
benefícios quando aplicadas a investimentos em IT. Mesmo assim, os investimentos são feitos
porque os que tomam as decisões estariam enfrentando dificuldades para quantificar os seus
benefícios. Segundo Johnson (1992), muitas vezes as firmas não são capazes de estimar
claramente as expectativas de lucros advindos de uma inovação, mas consideram a sua adoção
uma necessidade para a sobrevivência. No caso da IT, uma vaga percepção da importância de se
adquirir flexibilidade organizacional estaria por trás dos investimentos. De acordo com essa
interpretação, a produtividade não estaria crescendo porque a capacidade gerencial ainda não é
adequada aos requisitos organizacionais do novo paradigma técnico-econômico.
Consequentemente, existiria uma diferença significativa entre o potencial para o incremento da
produtividade e o que está sendo efetivamente obtido no nível das firmas e da indústria. Essa
seria a base do Paradoxo de Solow, que se refletiria no nível agregado.
Neste ponto, uma questão, levantada por Lindbeck (1992), torna-se inevitável: até
que ponto o conceito de paradigma técnico-econômico é operacional do ponto de vista empírico?
Caso se queira trabalhar com generalizações, essa questão pode se constituir num problema.
Porém, independente das possibilidades de generalizações – mesmo porque o estudo da difusão,
tal como proposto pelos evolucionistas parte do pressuposto de que esse processo é específico de
setores, mercados, países e mesmo regiões – uma análise mais aprofundada nos níveis da firma,
conjunto de firmas ou setores permitiria aprofundar o conhecimento sobre o que ocorre com a
produtividade na dimensão agregada. Quais seriam, então, as micro-evidências disponíveis?
A revisão dos estudos microeconômicos feita por Brynjolfsson (1993), apresenta um
quadro contraditório. Na indústria manufatureira, estudo feito por Loveman (1994), por exemplo,
apresenta as conclusões de uma pesquisa, que teve como base 60 unidades de negócios de
empresas americanas e da Europa Ocidental. O resultado principal é que, para essa amostra, a IT
teve pequeno, se algum, impacto marginal na produção ou produtividade do trabalho, enquanto
todos os outros insumos, incluindo bens-de-capital tradicionais, tiveram impactos positivos e
significativos na produção e na produtividade da mão-de-obra.
Já estudo feito pelo próprio Brynjolfsson e Hitt (1993), com 380 grandes empresas,
entre 1987 e 1991, usando essencialmente a mesma metodologia de Loveman (regressões de
mínimos quadrados utilizando parâmetros da função de produção), encontrou resultados
diferentes. O retorno sobre o investimento de capital em IT foi de 50% por ano e o retorno de
gastos com pessoal de sistemas de informação havia sido também muito alto.
O setor de serviços apresenta problemas mais agudos de mensuração dos resultados
dos investimentos em IT do que o manufatureiro. Por isso, as conclusões dos estudos empíricos
nesse setor são anda mais contraditórias. Por exemplo, na amostra das empresas de serviços do
estudo de Brynjolfsson e Hitt (1993), obteve-se um retorno de 60% por ano sobre os
investimentos em IT. Já o trabalho de Roach (1991) mostra que, enquanto houve um vasto
aumento do capital de IT por trabalhador, desde 1962 até 1989, a produção por trabalhador do
setor de serviços decresceu, no mesmo período. Por outro lado, estudo qualitativo feito por
Clemens (1991), com cinco empresas de diferentes sub-setores da área de serviços, revelou que
os resultados dependem da estratégia utilizada nos investimentos em IT, assim como da natureza
dos recursos e qualificações empregados.
9

O argumento de Brynjolfsson (1993), de que retornos positivos de investimentos em


IT são encontrados na medida em que os estudos são mais recentes e as bases de dados mais
amplas e confiáveis, parece que não é confirmado por trabalho lançado recentemente por
Strassman (1997). Em pesquisa com 183 firmas em vários setores, o autor concluiu que empresas
com os maiores percentuais do orçamentos dedicados à IT têm mais do dobro de possibilidades
de estarem entre as menos produtivas da amostra. As com menores orçamentos têm o dobro de
possibilidades de estarem entre as mais produtivas. Embora não sejam evidências definitivas,
esse trabalho reacende o debate em torno dos benefícios empresariais advindos dos investimentos
em IT. De qualquer forma, por enquanto, não se pode afirmar que existe uma relação clara entre
investimentos em IT e desempenho das empresas, conforme sustentado por Galliers (1995):
A polêmica em torno da difusão de novas tecnologias e crescimento da produtividade
levanta alguns pontos que podem ser valiosos para o debate que se instalou no Brasil em torno da
sua nova fase de crescimento. Essa é próxima tarefa desse trabalho, antes que suas conclusões
possam ser apresentadas.

O debate sobre produtividade no brasil

O debate em torno do crescimento da produtividade na economia brasileira ganhou


nova dimensão no ano passado (1987), inclusive na imprensa, com a divulgação de um artigo de
autoria de Gustavo Franco (1996), então Diretor do Banco Central. A idéia central desse artigo é
a de que, depois da era de substituição de importações e da “década perdida”, a nova fase de
desenvolvimento do país, alicerçada pela estabilização monetária proporcionada pelo Plano Real,
será baseada no crescimento acelerado da produtividade, fruto do dinamismo tecnológico
decorrente da abertura comercial. Para esse autor, o novo “modelo de desenvolvimento”
conseguirá compatibilizar crescimento econômico, estabilidade monetária e distribuição de renda,
rompendo com a conhecida “teoria do bolo”.
Ao que tudo indica, no Brasil, o papel da produtividade para o desenvolvimento
econômico foi redescoberto devido às suas altas taxas de crescimento, no setor industrial, após
1991. Como indica a Tabela 3, de 1991 a 96, a taxa de crescimento médio da produtividade na
indústria foi de 6,9%, sem dúvida um montante expressivo, principalmente quando se compara
aos números da década de 80. Esses números devem ser vistos com cautela, dadas as limitações
no cálculo da produtividade no Brasil. Além de não se calcular a produtividade do capital, mesmo
a do trabalho apresenta problemas: os números são calculados em termos de quantidade
produzida por trabalhador empregado, e não pelo valor agregado na produção, o que pode
superestimar os valores encontrados para a produtividade, sobretudo em época de abertura
econômica e aumento das importações.
Porém, esse tema já havia sido debatido anteriormente no país. Boa parte do período
de substituição de importações foi caracterizado por altas taxas relativas de crescimento da
produtividade, uma vez que as taxas de investimentos eram altas e que as transferências de
tecnologias para instalação do parque fabril representavam grandes avanços em relação às
técnicas de produção preexistentes no país. Essa afirmação encontra suporte no trabalho de
Bonelli (1976), para a década de 60, quando a taxa anual de crescimento do “resíduo” da
indústria – medida correspondente à produtividade total dos fatores (PTF) – foi de 3,5% ao ano,
em média. Já na década de setenta, o crescimento da PTF industrial declina para 2,6%, quando
medida pela produção, ou 1,5%, quando medida pelo valor agregado (Pinheiro, 1990). Mesmo
assim, esses números são significativos quando comparados aos dos Estados Unidos, por
10

exemplo, cujo crescimento da PTF da indústria, de 1973 a 1979, foi de 0,52% ao ano, em média
(Baily e Gordon, 1988). A manutenção dessa estratégia de catch-up, no entanto, já havia se
mostrado inexeqüível desde o fim da década de setenta. Ademais, com a internacionalização da
economia, o crescimento da produtividade dependeria da dinamização provocada pelo processo
de difusão de tecnologias, com intensa aprendizagem, via novos investimentos produtivos. Esse
processo pressupõe a existência de capacitação para introduzir inovações próprias, mesmo que
incrementais e localizadas.

Tabela 3: Brasil: evolução de indicadores selecionados: 1986-1994


(ano anterior = 100)

Anos Produtividade Investimento Crescimento


do trabalho (% do PIB) (% do PIB))

1986 98.1 18,7 7,6


1987 99.3 17,8 3,5
1988 100.6 17,0 0,0
1989 105.8 16,5 3,2
1990 98.0 15,8 -4.4
1991 108.0 15.1 1,2
1992 106.1 14,5 -0,7
1993 110.1 5.0 4,8
1994 110.4 16,5 5,8
1995 128,3 17,6 4,2
1996 146,3 16,1 2,8
Fonte: Ferraz, Kupfer e Haguenauer (1966) e Rodrigues (1977)

Mas quais seriam as fontes de crescimento da produtividade no Brasil na década de


noventa?. O estudo de Maria Cecília Rodrigues (1997) apresenta uma análise bem fundamentada.
Para ela, o crescimento da produtividade no início da década (1991-93) é marcado por um
massivo processo de downsizing, uma vez que esse crescimento é acompanhado por um
decréscimo na produção e no emprego. Já no período de 1993-95, ela é acompanhada pelo
crescimento da produção com uma relativa estabilização dos níveis de emprego. Em 1995-96,
houve uma nova onda de downsinzing reestruturante, embora menor que a da era Collor. Nesse
processo, a terceirização desempenhou um papel mais importante no setor de serviços do que na
indústria, muito embora a indústria automobilística, por exemplo, tenha se notabilizado pela
substituição, por importações, dos seus insumos.
O que fica claro, tanto no trabalho de Maria Cecília Rodrigues quanto da análise da
Tabela 4, é que o crescimento da produtividade na década de noventa não esteve associado à
expansão das taxas de investimentos, pelo menos para a indústria como um todo. O crescimento
da produtividade teve como principais fontes a adoção de estratégias empresariais
contracionistas, apoiadas em técnicas gerenciais no estilo da qualidade total, e o uso mais
intensivo da mão-de-obra, ocupando a capacidade ociosa herdada do período anterior, de baixo
crescimento. O aumento recente das importações de bens de capital, mesmo que indique uma
11

aceleração na difusão de equipamentos de base microeletrônica, não significa uma expansão da


capacidade produtiva, uma vez que a produção interna desses equipamentos vem diminuindo
(Teixeira e Ferraz, 1997).
Além disso, a julgar pela experiência americana, a utilização de downsizing e
terceirização, enquanto medidas para aumentar a produtividade, tem alcance limitado. De acordo
com os resultados de pesquisa conduzida por Baily, Bartelsman e Haltiwanger (1994), firmas que
fizeram downsizing tiveram aumento de produtividade 65% das vezes. Porém, em um número
significativo de empresas, o downsizing não produziu aumento de eficiência.
Por outro lado, a execução de downsizings geralmente cria resistências à introdução
de inovações gerenciais entre os empregados sobreviventes que, além de conviverem com uma
carga redobrada de trabalho, perdem a confiança na empresa por medo de serem os próximos
demitidos (Ichniowski, et al 1996). Deve-se notar, ainda, que torna-se difícil avaliar o impacto de
downsizings na produtividade quando não se pode ter informação de como ela se comportaria
caso não ocorresse a restruturação. De qualquer forma, parece que o mercado de ações americano
já se deu conta do problema: pesquisas indicam que, recentemente, as ações de empresas que
anunciam downsizings tiveram, em média, um declínio, outras variáveis mantendo-se constantes
(Oliner,1995). Aparentemente, o mercado está apostando no crescimento da lucratividade através
do aumento da produção e não pela simples redução dos custos.
Caso a ortodoxia da teoria econômica seja abandonada, pode-se pressupor que as
fontes de crescimento da produtividade são afetadas pelo ambiente econômico e pelas instituições
políticas e sociais que estão relacionadas com a promoção do desenvolvimento. De fato, a análise
dos estudos sobre o fenômeno da convergência da produtividade, em perspectivas histórica e
comparativa, levou Baumol, Nelson e Wolff (1994) a concluírem que as forças que levam à
divergência estão relacionadas com características nacionais e institucionais que afetam as
capacitações tecnológica e social. Nesse sentido, o trabalho de Nelson (1996), descrevendo
comparativamente diversos “sistemas nacionais de inovação”, é esclarecedor. Muito embora não
exista um receituário único e testado de políticas públicas voltadas para a inovação e o
aprendizado, muitas medidas foram bem sucedidas em diferentes países em diferentes épocas.
Essas políticas podem ter o efeito, inclusive, de influenciarem estratégias empresariais voltadas
para mudanças tecnológicas e gerenciais adequadas aos requisitos do novo paradigma. Esse
argumento é particularmente relevante para o caso brasileiro, cuja recente reestruturação
empresarial tem sido acompanhada pela difusão da Gerência pela Qualidade Total e certificação
pela ISO 9000. A julgar pela experiência de outros países, muito ainda terá que ser feito nesse
terreno das inovações gerenciais.

Conclusões

As abordagens econométricas baseadas na função de produção da tradição


neoclássica mostram-se insuficientes para explicar o Paradoxo de Solow. As quantificações
advindas desse tipo de abordagem podem ser úteis para tentar identificar grandes tendências e a
magnitude geral do problema. Mas, a teoria tradicional de crescimento econômico não consegue
explicar as causas que estimulam e impedem a expansão da produtividade em um contexto de
rápidas transformações tecnológicas. Sabe-se que o crescimento da produtividade e da produção é
estimulado pela interação de três variáveis principais: acumulação de capital, inovação
tecnológica e educação. Sabe-se, também, que, em épocas de intensas mudanças tecnológicas, a
realocação de recursos produtivos e a obsolescência do “capital relativo ao conhecimento” são
12

muito rápidas e não lineares. Em sendo assim, investimentos, tecnologia e educação devem ser
vistos como forças complementares, o que torna quase que sem sentido a tarefa de tentar dividir
os créditos relativos ao impacto de cada força no crescimento econômico e na produtividade a
partir da função de produção agregada.
Fora do âmbito da teoria econômica convencional, no entanto, o Paradoxo poderia ser
explicado enquanto uma fase de transição de paradigma tecno-econômico, quando um novo
regime tecnológico, organizacional e institucional estaria se consolidando. Esse complexo
processo de transição não é linear nem suave. Ele comporta incertezas, caminhos alternativos,
recessões e, portanto, comportamentos aparentemente paradoxais de variáveis macroeconômicas,
como a taxa de crescimento da produtividade agregada. Essa é uma linha explicativa comungada
por várias correntes teóricas a exemplo dos neo-schumpeterianos, regulacionistas ou sociólogos
preocupados com os movimentos de longo prazo do capitalismo (Castells, 1996).
Na presente transição paradigmática para um regime capitaneado pela
microeletrônica, ganha importância a difusão de inovações gerenciais e organizacionais, em
paralelo à difusão das inovações tecnológicas. Elas são imprescindíveis para que o potencial
revolucionário da tecnologia da informação possa ser transformado em aumentos de
produtividade, condição necessária, mesmo que insuficiente, para a melhoria dos níveis de
emprego, salários e condições de vida. O co-desenvolvimento de tecnologias, organizações e
mercados pressupõe, por sua vez, mudanças institucionais e no padrão de intervenção das
políticas públicas. Em sendo assim, parece lícito afirmar que as trajetórias de difusão das novas
tecnologias guarde relação com os diferentes contextos sociais e institucionais encontrados.
As evidências disponíveis a respeito das mudanças microeconômicas, em curso,
indicam que a constituição de um novo regime sociotécnico ainda é um processo em gestação. As
mudanças, em larga escala, de estilos gerenciais, padrões organizacionais, relações de trabalho e
correspondentes instituições ainda encontram barreiras consideráveis, principalmente de ordem
social. Essa constante interação entre tecnologia e sociedade tende a conformar diferentes
estruturas de aprendizado que, por sua vez, condicionam o processo de difusão e mudança
tecnológica. Consequentemente, não se pode pensar em mecanismos que conduzem à
convergência para um único padrão de desenvolvimento tecnológico e organizacional, como se
existisse uma inevitabilidade histórica.
A polêmica em torno do Paradoxo de Solow encerra algumas lições para o atual
momento da economia brasileira. Primeiro, o atual estágio de difusão das novas tecnologias ainda
apresenta oportunidades para países que encontram-se mais atrasados na adoção do novo regime.
Porém, não existe nenhuma razão plausível para se acreditar que as simples forças do mercado
serão suficientes para que um dado país possa aproveitar essas oportunidades. Em certas
circunstâncias, abertura comercial pode servir como um estímulo ao aumento da produtividade
por parte das empresas submetidas ao processo de competição internacional. Mas, se o objetivo,
como propõe Franco (1996), é que se estabeleça um novo “modelo de crescimento”, a simples
abertura não parece ser suficiente. Para além da polêmica em torno da política cambial, abertura
comercial, sem o paralelo fortalecimento da competitividade interna, pode resultar em perda de
mercado das exportações, principalmente de bens industriais de alto valor agregado, como é
corrente no caso brasileiro (Teixeira e Ferraz, 1997). Aumento dos investimentos, qualificação da
mão-de-obra e difusão, com intenso aprendizado, das novas tecnologias são os elementos básicos
de uma política voltada para integrar competitivamente nossa economia no mundo globalizado.
As experiências de outros países com a implementação de políticas públicas voltadas para o
13

fortalecimento do aprendizado de tecnologias de base microeletrônica parecem ser úteis para o


atual momento brasileiro.
No que se refere às inovações gerenciais, deve-se observar que a simples difusão da
Gerência pela Qualidade Total e certificação pela ISO 9000, como tem sido feitas no Brasil desde
o início da década, não garantem competitividade. Muito embora essas iniciativas possam
representar um avanço em relação à realidade gerencial brasileira, as mudanças organizacionais
necessárias são mais complexas do que a implantação de técnicas importadas. A tendência à
diferenciação dos modelos gerenciais requer um esforço de adaptação e desenvolvimento de
padrões alternativos, capazes de interagir com a realidade social e institucional específica. A
restruturação produtiva dos anos noventa tem sido ainda caracterizada pela execução de
downsizings que, mesmo possibilitando a sobrevivência no curto prazo, podem resultar em
situações de perda de mercado e desvalorização das empresas. Nesse terreno, também há muito
espaço para políticas públicas que estejam preocupadas com uma real reconversão produtiva em
torno das novas tecnologias já disponíveis. Afinal, o aprendizado tecnológico é um processo que
acontece em um meio social e que, portanto, não pode ser entendido ser levar em consideração os
contextos institucional e cultural específicos.

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