ESTRATÉGIAS PARA A INSTITUCIONALIZAÇÃO DE PROSPECÇÃO DE
DEMANDAS TECNOLÓGICAS NA EMBRAPA
Autores: Antônio Maria Gomes de Castro, Suzana Maria Valle Lima & Antônio de Freitas
Filho
Resumo
Os conhecimentos e ferramentas para a prospecção tecnológica ainda são limitados, embora
haja grande interesse em ampliá-los. A pesquisa agropecuária brasileira e a Embrapa tem
especial interesse no assunto pela importância para a operação do modelo de P&D e seu
sistema de programação. A determinação de demandas tecnológicas é um campo recente de
pesquisa. A sua importância tem aumentado na mesma proporção do crescimento das
expectativas da sociedade por resultados que possam justificar os investimentos públicos e
privados em ciência e tecnologia (C&T) e em pesquisa e desenvolvimento (P&D). Este
trabalho examina a questão da prospecção tecnológica no Sistema Nacional de Pesquisa
Agropecuária (SNPA), sob a ótica da sua institucionalização, apresentando os primórdios
desse esforço, o seu estado atual e suas perspectivas. Apresenta e discute a questão
conceitual e metodológica da prospecção tecnológica aplicada ao SNPA, destacando
abordagens adotadas por outras instituições de P&D. Analisa ainda os esforços orientados
à internalização deste procedimento no SNPA. Embora os resultados conseguidos até o
momento possam ser aperfeiçoados, o principal produto começou a ser obtido: a mudança
na postura dos pesquisadores do SNPA, despertando-se a consciência do papel estratégico
da C&T no agronegócio e para o bem-estar da sociedade como um todo.
1. Antecedentes
No início da década de 90, as técnicas de prospecção tecnológica foram
incorporadas ao processo de tomada de decisões da Embrapa e o planejamento estratégico
foi utilizado como instrumento para promover ajustes organizacionais que se faziam
necessários (Johnson et al., 1991). Em decorrência do processo de planejamento
estratégico, a missão institucional da Embrapa foi estabelecida, explicitando a sua vocação
para a produção de conhecimento e tecnologia aplicados, em benefício de toda a sociedade.
Durante o planejamento estratégico da instituição, uma das questões discutidas para
tornar realidade a missão da Empresa foi o Modelo de P&D da Embrapa. Este modelo está
detalhado no trabalho de Castro et al. (1992). Com a consolidação das mudanças
organizacionais, foi realizada a revisão do sistema de planejamento da Embrapa. No bojo
dessa revisão, foi criado o Sistema Embrapa de Planejamento, o SEP (Goedert et al., 1995).
Uma das características fundamentais desse sistema é a eleição da demanda da clientela do
centro de P&D por conhecimentos, produtos e serviços como referencial de decisão sobre o
quê pesquisar e a consequente introdução de uma sistemática para caracterizar e priorizar
essas demandas (Castro et al., 1994; Castro et al., 1996).
Em síntese, cresceu a aceitação e a internalização do modelo de demanda, exigindo,
implicitamente, a adoção do enfoque de P&D, em que a pesquisa e o desenvolvimento são
etapas integrantes e inseparáveis de um único processo. Um modelo simplificado de P&D
foi proposto e discutido com as equipes da Embrapa (Castro et al., 1992). A partir desse, o
processo de P&D teve início com a identificação das demandas do mercado, as quais
1
devem orientar a elaboração da proposta de oferta de soluções tecnológicas - projeto de
P&D e seus resultados - que, uma vez desenvolvidas, são validadas e oferecidas a
segmentos de mercado demandante.
O exercício do enfoque de P&D tem auxiliado a integração entre os órgãos de
pesquisa do SNPA e os segmentos do negócio agrícola. Contudo, a sua aplicação plena tem
trazido novos desafios para a gestão de P&D, entre os quais pode-se destacar a necessidade
de aperfeiçoamento do processo de prospecção das demandas tecnológicas.
Desde o início da implantação do SEP, ficou patente que as dificuldades para
operacionalizar o Modelo de P&D proposto eram de dupla natureza: a) as relacionadas
com a cultura organizacional, em alguns casos afeita à operação em regime de modelo
“por oferta”; b) as relacionadas à inexistência de referências conceituais e de instrumentos
adequados para qualificar e quantificar a clientela da pesquisa e suas demandas
prospectivas.
O SEP foi concebido para superar os entraves antecipados, visando uma
programação de P&D orientada por demandas da clientela. A estratégia de prospecção de
demandas tecnológicas foi desenvolvida, fundamentando-se em três vertentes: na teoria e
enfoque sistêmicos; na visão prospectiva; nos conceitos de mercados segmentados, de
mercados de tecnologia, de insumos e de produtos. Desenvolveu-se, também, uma forma
de classificar as demandas pela sua natureza tecnológica ou não tecnológica. A visão de
mercado deve ser ampla, abrangendo todos os seus segmentos, desde o consumidor final
até o fornecedor de insumos.
A prospecção tecnológica deve identificar segmentos da clientela e caracterizar as
suas demandas, tendo como referência a missão institucional do centro de P&D. Os
trabalhos existentes até o presente com esta finalidade, no âmbito da pesquisa agropecuária,
tem sido denominados de “tipologia de produtor”. Apresentam, entretanto, a limitação de
focar o problema de forma parcial, concentrando a análise apenas no produtor rural e não
em todos os segmentos sociais relevantes para o negócio agrícola, com os quais o produtor
está interelacionado e dos quais é quase sempre dependente.
Por isso, a prospecção tecnológica é facilitada pelo uso dos conceitos e técnicas de
segmentação de mercado, similares às utilizadas para estudos de marketing em geral. De
fato, pode-se incluir em um mercado de tecnologias, as necessidades e aspirações
relacionadas à tecnologia - as demandas - dos diversos componentes da cadeia produtiva.
Estas demandas constituem-se nas referências para a geração de projetos no centro de
P&D. Estes, por sua vez, geram novas tecnologias, produtos e serviços, que são ofertados
aos componentes do mercado de tecnologia, completando-se o ciclo.
Dessa forma, o mercado de tecnologia pode ser definido como “o encontro da oferta
de tecnologias de um centro de P&D com as demandas dos diversos componentes da(s)
cadeia(s) produtiva(s) que lhe é(são) pertinente(s)”.
2. A Questão Metodológica
A preocupação da Embrapa em refinar os instrumentos desenvolvidos inicialmente
pelo SEP, permitindo dispor de metodologia apropriada para detectar demandas
tecnológicas, tornou-se de essencial importância ao SNPA, como foi apontado no item 2. A
nova proposta, resultando em uma referência metodológica e uma nova estratégia,
representou um resultado deste esforço (Castro et al. 1995)
2
Esta nova abordagem, em síntese, extrapola os limites da propriedade agrícola, da
disciplinaridade, da homogeneidade dos mercados consumidor e de tecnologia, do
horizonte imediatista do curto/médio prazos, incorporando estes conceitos na
caracterização e priorização de demandas que orientam a seleção de projetos de P&D.
[Link] Conceituais
Os principais fundamentos conceituais adotados para a prospecção de demandas
foram: o enfoque de sistemas, a segmentação do mercado de tecnologias e de consumo e a
visão prospectiva das demandas. Tais fundamentos conceituais são detalhados a seguir.
2.1.1. Visão Sistêmica
Um sistema é, na definição de Sppeding (1975), “um conjunto de componentes
interativos”. A caracterização de um sistema (ou sua análise) inicia-se com o
estabelecimento de seus objetivos, seguida da definição de seus limites, subsistemas
componentes e contexto externo. Ao definir limites e hierarquias, estabelecem-se as
interações de seus subsistemas componentes, mensuram-se suas entradas e saídas e
respectivos desempenhos intermediários (subsistemas) e final (sistema).
A agricultura como um todo compreende componentes e processos interligados que
propiciam a oferta de produtos aos seus consumidores finais, através da transformação de
insumos pelos seus componentes. Este conjunto de processos e instituições ligadas por
objetivos comuns constitui um sistema que, por sua vez, engloba outros sistemas menores,
ou subsistemas. O sistema maior é o chamado negócio agrícola, agronegócio ou
“agribusiness”.
O agronegócio compõe-se de cadeias produtivas, e estas possuem entre seus
componentes os sistemas produtivos que operam em diferentes ecossistemas ou sistemas
naturais. Operando como contexto, existe um conglomerado de instituições de apoio,
composto de instituições de crédito, pesquisa, assistência técnica, entre outras, e um aparato
legal e normativo, exercendo forte influência no desempenho do agronegócio.
Consequentemente, a pesquisa agropecuária pode também ser caracterizada como
um processo de apoio ao desenvolvimento do negócio agrícola, sendo importante
compreender, sistematicamente, não só o que ocorre nos limites das propriedades rurais
mas todos os sistemas em que a produção agropecuária se insere, inclusive o do processo
de avanço do conhecimento científico - a cadeia do conhecimento.
2.1.2. Visão Prospectiva
A oferta adequada de tecnologias à clientela requer a antecipação de suas
necessidades e aspirações futuras. Trata-se de desenvolver visão prospectiva utilizando-se
os métodos correspondentes (Johnson & Marcovitch, 1994) . A análise prospectiva é o
conjunto de conceitos e técnicas para a previsão de comportamento de variáveis sócio-
econômicas, políticas, culturais e tecnológicas. Um tipo especial de análise prospectiva, a
prospecção tecnológica, objetiva identificar demandas atuais, potenciais e futuras, do
mercado de tecnologias de um centro de P&D.
A previsão tradicional constrói o futuro à imagem do passado, enquanto a análise
prospectiva focaliza futuros com possibilidades alternativas de serem diferentes do
passado. É importante destacar que a visão prospectiva objetiva orientar a tomada de
decisões presentes, tendo como premissa a existência de turbulências que provocam
3
modificação de tendências do comportamento de variáveis - os fatores críticos -
consideradas relevantes.
2.1.3. Visão de Mercado
O mercado pode ser entendido como um conjunto de indivíduos e empresas que
apresentam interesse, renda e acesso a produtos disponíveis. Embora esta definição tenha
caráter amplo, pode ser aplicada ao “produto” do centro de P&D, a tecnologia. O potencial
de adoção de tecnologia depende do interesse que desperte entre os adotantes. É necessário
que a renda do adotante seja compatível com a tecnologia proposta e que o mesmo seja
posto em contato com a tecnologia, tendo acesso à informação e aos insumos associados a
sua adoção.
Mas, em última instância, será o mercado consumidor final que irá determinar as
características dos produtos a serem oferecidos. Essas preferências afetam os demais
componentes da cadeia produtiva, inclusive os sistemas produtivos e correspondentes
sistemas naturais. Desta forma, o mercado consumidor torna-se fonte primária das
demandas para o mercado de tecnologia de um centro de P&D.
Outro conceito importante é o de segmentação, que divide esses mercados em
conjuntos homogêneos, de forma que qualquer um possa ser selecionado como mercado-
alvo, atingível por um “marketing “ distinto e adequado as suas características comuns. A
segmentação de mercado é fundamental porque não é possível uma organização ser
eficiente se não for capaz de distinguir as necessidades e aspirações de vários segmentos de
seu mercado, especialmente se o produto pode (e deve) ser apresentado em múltiplas
formas como é o caso da tecnologia.
2.1.4. Demandas Tecnológicas
As demandas tecnológicas da pesquisa agropecuária podem ser definidas em função
dos sistemas que lhes dão origem e classificadas em três tipos básicos: Demandas tipo I
para problemas dependentes de ações de adaptação/ difusão de tecnologias; Demandas tipo
II para problemas necessitando de ações de geração de tecnologias; Demandas tipo III para
problemas não dependentes de solução tecnológica, ligados a fatores conjunturais, infra-
estrutura de apoio, etc. mas com impacto indireto nos resultados da pesquisa.
No caso das cadeias e sistemas produtivos, as demandas são necessidades de
conhecimentos e tecnologias, visando reduzir o impacto de limitações identificadas nos
componentes da cadeia produtiva, para a melhoria da qualidade de seus produtos, eficiência
produtiva, competitividade, sustentabilidade e equidade de benefícios entre os seus
componentes.
Em sistema natural, as demandas são necessidades de conhecimentos e tecnologias,
visando reduzir o impacto de limitações identificados nos componentes dos sistemas
naturais para melhoria da sua qualidade e sustentabilidade.
A gestão de C&T abrange os campos da pesquisa aplicada, da pesquisa básica,
pesquisa estratégica e pesquisa adaptativa (Castro et al., 1992). Destas, a pesquisa básica é
a que oferece maiores dificuldades para a prospecção, pela sua maior vinculação com o
avanço do conhecimento, de grande imprevisibilidade.
O processo produtivo agropecuário e florestal deve ter seu desempenho orientado e
aferido por um conjunto de critérios. De forma geral, os principais marcos de referência
4
para valorar demandas de P&D podem considerar como critérios: competitividade,
eficiência, sustentabilidade, qualidade e/ou equidade (Castro et al., 1996).
2.2. Bases Metodológicas
Para constituir-se num guia metodológico orientador da prospecção de demandas
de P&D nas diversas unidades do SNPA, foi produzido um documento (Castro et al.,
1995), com conceitos e instrumentos aplicáveis a esta finalidade.
A base comum das etapas na metodologia são as mesmas dos elementos
necessários à caracterização de um sistema: a) explicitação de objetivos e limites do
sistema; b) caracterização do contexto ou ambiente externo do sistema; c) definição de
componentes do sistema e seus respectivos fluxos ou interações; d) especificação dos
insumos, produtos saídos e de pontos de estrangulamento, considerados críticos ou
relevantes ao desempenho do sistema.
Sob a ótica de análise proposta, os pontos de estrangulamento, ou fatores críticos ao
desempenho, atuais, potenciais e futuros, constituem-se demandas de P&D, que passam a
orientar a programação de pesquisa.
2.3. Priorização de Demandas e de Projetos de P&D
Em comparação com metodologias disponíveis para prospecção de demandas, as
metodologias para a priorização e alocação de recursos são mais abundantes. As primeiras
iniciativas, no setor agropecuário, são as de Arnon (1968); Kaldor (1971); Schuh, (1972);
Ruttan (1982). Os modelos desenvolvidos procuravam fornecer informações aos gerentes
de P&D para um julgamento válido e consistente sobre prioridades, especialmente em
termos de produtos. Não se referiam diretamente às demandas da clientela de P&D.
Um dos pontos comuns à maioria destes autores é a abordagem macroeconômica do
problema. As principais variáveis consideradas são a importância econômica relativa dos
produtos ou disciplinas objeto da pesquisa e custos de sua geração. São utilizados desde o
método de escores, análise de benefício-custo até modelagem e simulação.
Recentemente, a partir de iniciativa do ISNAR (International Service for the
National Agricultural Research) foi desenvolvido o software “Dream (Dynamic Research
Evaluation Program), segundo Alston et al.(1995), para priorização de demandas e projetos
de P&D. Baseia-se em método de escores, excedente econômico e método de congruência,
isoladamente ou combinados. Foi realizada uma adaptação deste “software”, em uma
parceria internacional, capitaneada pelo ISNAR e participações do IICA, BID (Banco
Interamericano de Desenvolvimento) e da Embrapa, produzindo-se o “Dreamsur”
(Procisur, 1997). Esse aplicativo incorpora o conceito de cadeias produtivas e promove
avanço considerável em relação a ferramentas anteriormente disponíveis.
3. Implantação do Processo no SNPA
Uma série de razões tem dificultado a implementação prática de modelos mais
formais de prospecção de demandas tecnológicas e de priorização “ex-ante” na pesquisa.
Contant & Bottomley (1988) apontam as seguintes: 1) A tradição, no seio da comunidade
científica, de deixar exclusivamente ao pesquisador a responsabilidade da escolha de o quê
pesquisar; 2) A fragmentação da estrutura da pesquisa entre setor público e privado torna
difícil a construção de um conjunto único de prioridades; 3) As forças de mercado,
determinando as linhas de P&D a serem seguidas pelo setor privado, impõem viéses nas
5
prioridades para aquelas atividades mais lucrativas; 4) A crença de que o setor público deve
ser responsável pela geração de ciência básica e o setor privado pela P&D, contribui para o
viés no estabelecimento de demandas e prioridades, à medida que é difícil prever o impacto
a ser gerado pelo conhecimento básico; 5) Nos países em desenvolvimento, o limitado
conhecimento dos métodos de identificação de prioridades e a descrença dos pesquisadores
de que seu uso possa trazer algum benefício, têm reduzido a plena utilização de processos
formais de decisão com tais finalidades.
Nos próximos itens, são relatados os principais referenciais da recente implantação
da identificação e priorização de demandas, como um mecanismo de gestão de P&D no
SNPA.
3.1. Criação do SEP: Processo de Identificação e Priorização de Demandas
Para implementar as estratégias elaboradas no Plano Diretor da Embrapa, foi
concebido um novo sistema de planejamento, o Sistema EMBRAPA de Planejamento, o
SEP. Como uma das características fundamentais deste sistema, destaca-se a eleição da
demanda da clientela do centro de P&D por conhecimentos, produtos e serviços, como
referencial de decisão sobre o quê pesquisar.
Outro ponto marcante deste sistema é que todo o processo de caracterização e
priorização de demandas foi desenhado para ocorrer em momento e espaço diferentes do
processo de oferta de soluções, ou projetos de P&D, conforme mencionado anteriormente.
Esta separação tem a finalidade de possibilitar o livre exame dos problemas e das suas
prioridades, reduzindo o possível viés disciplinar.
A metodologia de levantamento e caracterização vem sendo sistematicamente
desenvolvida pela Embrapa nestes dois momentos. Primeiro, a questão foi tratada durante o
planejamento estratégico. Posteriormente, foram produzidos metodologia e estratégia de
prospecção tecnológica, incorporando no processo novos conceitos e técnicas. Assim, com
a questão estratégica e metodológica esboçadas no SEP, o próximo passo foi investir em
motivação e capacitação, visando uma maior disseminação da prospecção de demandas no
SNPA.
3.2. Motivação e Capacitação das Equipes
3.2.1. Eventos Realizados
A implantação do modelo de P&D, orientado por demandas da clientela, exige
grande esforço, por se tratar de mudança da cultura organizacional. É, em última instância,
a busca do aumento da interação entre pesquisadores e sua clientela, o mercado de
tecnologia. Há necessidade de desenvolver intensas ações de motivação e capacitação, para
introduzir mudanças desta ordem.
O SEP foi implantado em 1993, precedido por um período de internalização dos
seus conceitos e mecanismos, realizado através de 68 seminários, com 16 horas de duração
cada. Praticamente, todos os pesquisadores do SNPA, cerca de 4000 à época, participaram
desses eventos.
Uma das dificuldades práticas encontradas nesse processo foi a de identificar e
agregar demandas. A despeito da análise do ambiente externo, realizada durante a
elaboração dos planos estratégicos, não houve uniformidade de resultados na caracterização
dos problemas (demandas atuais e potenciais), entre os principais segmentos da clientela
dos centros de P&D. Dificuldades dessa ordem são comuns, como relata Hawkins (1994 e
6
1995) em relação à idêntica experiência no Centro Internacional para Pesquisa
Agropecuária (ICRA).
Em 1995, dispondo de referência metodológica validada, iniciou-se a fase seguinte
da implantação do processo de prospecção de demandas, compreendendo ações de:
motivação e capacitação de pesquisadores do SNPA; a promoção de projetos para
realização de estudos de prospecção de demandas nos Conselhos Regionais e unidades do
SNPA; e prestação de assessoria a sua execução.
A fase de motivação e capacitação em prospecção de demandas foi realizada
inicialmente por cinco seminários regionais, e dois seminários nacionais. Nos seminários
regionais participaram pesquisadores e extensionistas das regiões Norte, Nordeste, Centro-
Oeste, Sudeste e Sul, respectivamente. Nos dois seminários nacionais, participaram
pesquisadores de nove empresas estaduais (OEPA) diretamente responsáveis por estudos de
prospecção em seus estados e gerentes de pesquisa da Embrapa.
Totalizando 220 participantes, os referidos seminários constaram de pauta teórica e
prática, compreendendo: a) conceitos sobre enfoque sistêmico, visão prospectiva e
segmentação de mercados da clientela de P&D; b) metodologias de prospecção de
demandas aplicadas à cadeias produtivas, sistemas produtivos, sistemas naturais e cadeias
do conhecimento; c) exercícios em grupo para utilização da metodologia proposta; d)
planejamento de projetos e subprojetos de estudos prospectivos de demandas no SNPA.
Além desses treinamentos iniciais, foram realizados, no período 1995-97, eventos
de capacitação, por solicitação de outras instituições do SNPA, destacando-se: Secretaria
da Agricultura e Abastecimento de São Paulo, Coordenação de Pesquisa Agropecuária;
Secretaria da Agricultura do Paraná, Instituto Agronômico do Paraná (IAPAR) e Empresa
de Assistência Técnica e Extensão Rural do Paraná (EMATER-PR); Secretaria da
Agricultura do Distrito Federal, EMATER-DF, Secretaria de Assuntos Estratégicos da
Presidência da República e Fundação Estadual de Pesquisa Agropecuária do Rio Grande do
Sul (FEPAGRO-RS). Foram realizados cursos formais de 40 a 56 horas cada, atingindo um
total aproximado de 300 participantes.
Outras oportunidades de divulgação da proposta metodológica incluíram seminários
internos, participação em reuniões e eventos correlatos. Tais atividades deixam um saldo
adicional de cerca de 350 horas de treinamento, atingindo 700 profissionais do setor
público, dentro e fora do SNPA.
3.2.2. Avaliação dos Eventos
O SEP, o enfoque sistêmico de P&D e o processo de caracterização e priorização de
demandas foram avaliados pelos pesquisadores e por gerentes de P&D do SNPA. Durante
os mencionados 68 seminários iniciais realizados, foram aplicados questionários a 74
gerentes de P&D, a 800 pesquisadores da EMBRAPA e a 365 pesquisadores das OEPA.
Foi solicitada a opinião dos participantes, em escala crescente de notas de um a seis (um,
significando a completa discordância e seis, a completa concordância).
Os resultados mostram que os avaliadores consideram ser o modelo de demanda e
os enfoques de P&D e de sistemas instrumentos válidos para aumentar a eficiência da
pesquisa agropecuária e para melhoria de relacionamento com a clientela, através do
atendimento das suas demandas (média cinco, em ambas as questões). O SEP, no qual se
inclui o processo de demanda apresentado neste capítulo, foi entendido nos seus
7
fundamentos e considerado como um instrumento para racionalizar os processos de
pesquisa (média cinco).
Avaliações realizadas pelos participantes em relação aos seminários e cursos de
demandas, indicaram também um bom entendimento e aceitação dos conceitos veiculados
nos eventos. Consideraram que o conteúdo representava um avanço, demonstrando
interesse em desenvolver estudos prospectivos de demandas, tendo como referência o
manual metodológico proposto.
3.3. Estudos de Prospecção Tecnológica e seus Resultados
As atividades de capacitação realizadas não esgotaram as necessidades de apoio
para a execução de estudos prospectivos de demanda, embora os conceitos e instrumentos
transmitidos habilitassem seus participantes a iniciá-los, tanto ao nível regional como ao
nível estadual. Com esse objetivo, foram apresentados e aprovados projetos no SEP,
abrangendo estudos utilizando a metodologia proposta .
Analisando-se o Programa Anual da Pesquisa e Desenvolvimento da Agropecuária
(PRONAPA) de 1996 e 1997, relacionaram-se mais de 60 projetos e subprojetos do SEP
em andamento no SNPA sobre prospecção de demandas. Pode-se contabilizar no momento,
cerca de trinta estudos em finalização sobre cadeias produtivas, sistemas naturais e cadeia
do conhecimento, como resultados dos esforços de caracterização de demandas pelo SNPA.
O estágio de evolução desses trabalhos foi variável, dependendo do grau de
motivação institucional (e das equipes) em relação ao tema. As dificuldades sentidas
referiram-se a predominante abordagem conferida ao segmento da produção rural e à
ênfase dada mais à análise diagnóstica que à prognóstica. Estes entraves sugerem algumas
conclusões preliminares.
Se de um lado, nem todos os produtos obtidos puderam oferecer uma base de
informação adequada e de qualidade para orientar a programação de P&D e o
desenvolvimento do negócio agrícola, por outro, a massa crítica formada, a experiência e o
material acumulados foram ampliados, criando-se condições para promover maior
eficiência, eficácia e qualidade da P&D no SNPA.
Além desses resultados obtidos na realização desses estudos, contabiliza-se o
surgimento de outras iniciativas paralelas e complementares no próprio SNPA. Há pressão
para formação de base de dados e sistemas de informação sobre comportamento dos
indicadores do agronegócio, incluindo desde estatísticas de mercados (internacional e
doméstico), preços, produção, rendimento, consumo, etc., e até para o desenvolvimento de
estudos específicos sobre segmentação do setor produtivo, respectivos custos, coeficientes
técnicos e padrões tecnológicos.
A busca de resposta às simples perguntas “o quê pesquisar?” e “como alocar
recursos?”, desencadeou uma série de resultados que extrapolam as finalidades inicialmente
pretendidas. Nem todas as respostas foram obtidas ainda, mas foi percebido o rumo a ser
seguido na busca de soluções que possam garantir a sustentabilidade institucional do
SNPA.
4. Perspectivas da Prospecção tecnológica no SNPA
4.1. Avanços Metodológicos
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Quando se observa as dificuldades encontradas por algumas das equipes que vem
desenvolvendo estudos prospectivos no SNPA, utilizando a metodologia de prospecção de
demandas proposta (Castro et al., 1995), observa-se que alguns de seus procedimentos ou
características formais poderiam ser alterados, para melhorar a validade do método.
Tais pontos para aperfeiçoamento são os seguintes: a) metodologia para priorização
de fatores críticos e demandas; b) mensuração de indicadores sociais e de sustentabilidade
ambiental; c) técnica diagnóstica para cadeias do conhecimento; d) alternativas para análise
prognóstica.
No que se refere à priorização de fatores críticos e demandas, são necessários
procedimentos que possam mensurar, de modo mais consistente, a sua relevância para todo
o sistema sendo analisado, e cada um dos seus subsistemas componentes ou segmentos
representados. Uma análise desta natureza poderia considerar, por exemplo, a hierarquia e
precedência desses fatores críticos identificados, considerando relações de causa-efeito e
interdependência entre os mesmos, de modo a selecionar os que tivessem potencialmente
maior impacto sobre o desempenho do sistema.
Quanto à mensuração de indicadores sociais e de sustentabilidade ambiental, é
conhecida a dificuldade nesta área. Recentes esforços neste sentido estão sendo
desenvolvidos dentro e fora do SNPA - como, por exemplo, no Centro Nacional de
Pesquisa de Monitoramento e Avaliação do Impacto Ambiental (CNPMA) (Quirino et al.,
Quirino, 1997) e pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (IPEA), este com
resultados preliminares de indicadores sociais por municípios brasileiros ainda não
divulgados.
Do mesmo modo, a falta de conhecimento sistematizado sobre o “fazer científico”,
quando se caminha na direção da pesquisa de natureza mais básica - caso das cadeias de
conhecimento - pode ser facilmente percebida. A aplicação de análise de processos e
subprocessos envolvidos na atividade científica, considerando o “estado-da-arte” em cada
grande área de conhecimento, parece ser uma trilha promissora para desenvolvimento
metodológico para o estudo de cadeias de conhecimento no SNPA.
Quanto à análise prognóstica, esta tem sido uma grande dificuldade enfrentada pelas
equipes que vem realizando estudos prospectivos no SNPA. Os seguintes fatores
determinantes poderiam ser alinhados: a) o desconforto sentido pela maioria destas equipes
em manejar questões relativas ao futuro, quando toda a sua formação de pesquisa foi
orientada no sentido de entender e explicar o comportamento passado e presente dos
fenômenos sob análise, com caráter predominantemente quantitativo e disciplinarmente
focalizado; b) falta de treinamento e capacitação na aplicação de técnicas prognósticas; c)
grande esforço e tempo envolvidos na aplicação da técnica Delphi, enfatizada na
abordagem proposta pela Embrapa para a realização de análises exploratórias do futuro.
Os dois primeiros determinantes descritos, são mais adequadamente resolvidos
através de motivação e capacitação. Quanto ao último fator, este pode ser equacionado se
forem desenvolvidas metodologias alternativas para análise prognóstica, por especialistas
em prospecção da Embrapa ou por seus pares. Este deve ser um objetivo a perseguir,
embora se reconheça a dificuldade de substituir uma abordagem metodológica com a
qualidade e rapidez de resultados da técnica Delphi, especialmente considerando os
recursos oferecidos pela informática para estabelecer consenso entre respondentes (Twiss,
1992).
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Há, pelo menos, uma questão para a qual a abordagem metodológica atual ainda
não oferece respostas: é a necessidade de um contínuo monitoramento tecnológico do
sistema analisado, após o término de um estudo prospectivo. Esta questão será discutida
com maior detalhe na última seção deste tópico.
Todos os pontos de avanço metodológico discutidos devem ser buscados através de
estratégias desenhadas especialmente para este fim - por exemplo, realização de
“workshops” periódicos de avaliação e revisão metodológica. Os eventos de capacitação e
motivação para estudos de prospecção de demandas constituem excelente oportunidade
para questionar e melhorar a abordagem metodológica proposta.
4.2. Motivação e Capacitação
Desde 1994, houve um grande esforço em motivar e capacitar as equipes do SNPA
para a realização de estudos de prospecção de demandas. Apesar disto, estes estudos ainda
estão aquém, em quantidade, do que seria necessário para orientar o rumo da pesquisa
nesse sistema.
Assim, o momento atual caracteriza-se pela necessidade de um investimento firme e
decidido, tanto na motivação como na capacitação de equipes de estudos prospectivos.
Motivação e capacitação não podem estar dissociadas da complexidade, dedicação e
criatividade envolvidas neste tipo de trabalho. Enquanto a motivação deve dirigir-se à
lógica existente entre a sustentabilidade de organizações de P&D e à prospecção
tecnológica, a capacitação deve abordar os diversos aspectos e possibilidades envolvidos na
solução de um problema da complexidade como o da identificação de demandas e
prioridades tecnológicas.
A estratégia de motivação não será bem sucedida se a alta direção e gerências
intermediárias das instituições de P&D não estiverem decididamente apoiando o esforço de
realização de estudos prospectivos. Uma posição clara dos dirigentes e gerentes constitui
condição sine qua non para iniciar qualquer nova tentativa de motivação no SNPA.
A estratégia de capacitação deve orientar-se para o ensino de adultos (“aprender
fazendo”), com ênfase na criação de soluções (não completamente conhecidas) para o
estudo de cadeias e sistemas produtivos, naturais ou do conhecimento. A capacitação
deverá ser parte de um processo de condução de estudos prospectivos, devendo prever
momentos de capacitação formal e momentos de avaliação de avanços nos estudos
executados.
Empenho especial deverá ser dado à capacitação em técnicas prognósticas, como já
destacado. A capacitação formal nestas técnicas também deverá respeitar o momento de
desenvolvimento dos estudos prospectivos, para garantir máxima motivação das equipes
envolvidas.
4.3. Usos de Resultados
Os estudos de prospecção tecnológica, realizados pelas diversas equipes do SNPA,
tem identificado demandas tecnológicas e não-tecnológicas. À medida em que o
conhecimento sobre cada sistema avança, as equipes se deparam com a necessidade de
propor e implementar medidas para superar os obstáculos identificados ao bom
desempenho do sistema, isto é, para atender as demandas identificadas.
Assim, verifica-se que, antes mesmo da conclusão de estudos para identificação de
demandas, tem sido usual que as equipes iniciem a identificação, proposição, negociação e
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implementação de intervenções junto aos sistemas analisados. Pode-se observar também
que, mais do que a demandas tecnológicas, estas intervenções tem se dirigido também - e
muitas vezes com maior efeito imediato - à solução de demandas não-tecnológicas,
causando impacto em componentes isolados e na própria coordenação do sistema analisado
(especialmente no caso de cadeias produtivas).
Os objetivos dos estudos prospectivos tem um papel determinante na maneira como
esta preocupação com a intervenção é incorporada pela equipe. Assim, estudos cujo
principal foco está restrito a identificação de demandas tecnológicas parecem mais tímidos
na proposição de intervenções para a solução de demandas não-tecnológicas. Estudos cujo
foco é mais ampliado - e que, mais do que identificar demandas tecnológicas, buscam
também subsidiar, de algum modo, a política agrícola - embutem, desde a sua concepção e
realização, mecanismos para articulação dos diversos atores sociais envolvidos, como uma
garantia de seu comprometimento com as intervenções necessárias aos problemas
identificados. Este é o caso, por exemplo, dos estudos prospectivos que vêm sendo
realizados pelo Estado do Paraná, sob patrocínio da Secretaria de Agricultura do Estado, a
coordenação do IAPAR e participação da EMATER-PR e outras instituições privadas,
inclusive universidades.
As intervenções propostas vão desde a reformulação de toda a programação de
pesquisa (caso do Centro Nacional de Pesquisa de Uva e Vinho da Embrapa), à
reestruturação de elos na cadeia (caso da cadeia produtiva do caju no Nordeste, que
reestruturou o segmento de equipamentos), à criação de fóruns políticos de negociação
entre elos da cadeia (caso da cadeia produtiva da seda, no Paraná).
O envolvimento dos diversos atores sociais, vinculados a cada uma destas
intervenções tem sido assegurado, via os seguintes mecanismos: a) co-responsabilidade na
condução dos próprios estudos prospectivos; b) negociação da intervenção e adoção de
medidas aprovadas por consenso com estes atores.
Torna-se evidente, pelos exemplos já conhecidos de estudos prospectivos, que as
estratégias de intervenção com base em seus resultados seriam melhor planejadas e
conduzidas se estivessem também baseadas em conhecimento sistematizado sobre
negociação e intervenção. Assim, a abordagem proposta deve caminhar nesta direção,
incluindo uma abordagem genérica para a condução de esforços de intervenção.
Além disso, deve ser iniciada a discussão de alguns pontos polêmicos, com relação
a intervenções nos sistemas analisados. Pelo menos dois destes pontos podem ser
antecipados: a) problemas éticos no envolvimento de componentes de sistemas analisados
ainda durante seu estudo, determinados por viéses possíveis dos representantes destes
componentes; b) papel da pesquisa na articulação de intervenções com base no uso de
resultados de estudos prospectivos.
4.4. Monitoramento Tecnológico
Outra preocupação futura dos órgãos de P&D, responsáveis pelos estudos
prospectivos, consiste na realização sistemática de avaliações para monitoramento de
mudanças e rupturas no desempenho dos sistemas, após a realização da análise prospectiva.
Assim, se tais estudos identificam demandas (tecnológicas e não tecnológicas) que
devem ser atendidas, por meio de intervenções de diversas naturezas, pode-se prever que
estas mesmas intervenções irão condicionar alterações nas prioridades e demandas
inicialmente identificadas. Isto significa dizer que a matriz de prioridades e demandas
11
necessita também ser constantemente ajustada, à medida em que estas demandas forem
sendo atendidas.
Além disto, estas intervenções também podem causar mudanças não totalmente
antecipadas, na própria dinâmica do sistema, dentro e entre componentes, alterando assim
sua própria articulação. De novo, metodologias para monitoramento tecnológico devem
garantir que as alterações na relação dinâmica entre os componentes do sistema sejam
corretamente acompanhadas e identificadas.
Finalmente, podem ocorrer rupturas, no desempenho destes sistemas, como
resultado de mudanças tecnológicas, entrada de novos atores no sistema, mudanças no
ambiente institucional, etc. Tais rupturas devem também ser acompanhadas e identificadas
por uma metodologia de monitoramento tecnológico, mantendo-se constantemente
atualizada a massa de informação relevante.
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