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O capítulo de João Feres Júnior analisa a formação e consolidação dos Latin American Studies (LAS) nos Estados Unidos, destacando a influência da teoria da modernização e os interesses políticos da Guerra Fria. Feres Júnior critica como o conceito de 'América Latina' foi construído por meio de oposições assimétricas que refletiam relações de poder entre o Norte e o Sul. A análise revela que a institucionalização dos LAS foi um projeto político-ideológico, não uma investigação desinteressada da realidade do continente.

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O capítulo de João Feres Júnior analisa a formação e consolidação dos Latin American Studies (LAS) nos Estados Unidos, destacando a influência da teoria da modernização e os interesses políticos da Guerra Fria. Feres Júnior critica como o conceito de 'América Latina' foi construído por meio de oposições assimétricas que refletiam relações de poder entre o Norte e o Sul. A análise revela que a institucionalização dos LAS foi um projeto político-ideológico, não uma investigação desinteressada da realidade do continente.

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A Consolidação dos Latin American Studies sob o Imperativo da

Modernização
Uma leitura a partir de João Feres Júnior

1. Introdução
O capítulo terceiro da obra A História do Conceito de América Latina, de João Feres
Júnior, dedica-se a investigar como o campo acadêmico conhecido como Latin American
Studies (LAS) se constituiu e se consolidou nos Estados Unidos ao longo do século XX. A
análise parte de uma premissa metodológica central: não é possível falar em 'América Latina'
como conceito científico antes da consolidação profissional e institucional desse campo de
estudos. A tese de Feres Júnior é que essa consolidação ocorreu sob a influência
determinante da teoria da modernização, cujos pressupostos ideológicos estavam
profundamente imbricados com os imperativos da política externa norte-americana durante
a Guerra Fria.

O texto articula duas dimensões analíticas complementares: de um lado, reconstrói o


contexto histórico-institucional do surgimento dos LAS; de outro, examina os fundamentos
epistemológicos e políticos da teoria da modernização que orientou o campo em seu período
formativo. O resultado é uma crítica refinada que revela como o conceito sociocientífico de
'América Latina' foi construído a partir de oposições assimétricas que serviam a interesses
geopolíticos específicos.

2. A Pré-história dos Latin American Studies e o Problema do Presentismo


Antes de analisar a consolidação propriamente dita dos LAS, Feres Júnior enfrenta
um problema historiográfico recorrente: a tendência de alguns autores a projetar a existência
do campo para períodos anteriores à sua efetiva constituição. Essa operação, que o autor
denomina 'duplo presentismo', consiste em atribuir tanto o conceito quanto a prática
institucional do presente a circunstâncias passadas nas quais eles simplesmente não existiam.

Embora alguns pesquisadores, como Berger e Johnson, identifiquem os rudimentos


dos LAS no final do século XIX ou início do século XX, Feres Júnior demonstra que o
número de trabalhos acadêmicos sobre os países ao sul dos Estados Unidos publicados antes
da virada do século era mínimo e, nesses textos, o próprio conceito de 'América Latina'
sequer era empregado. Ademais, os poucos trabalhos existentes não eram produzidos por
especialistas acadêmicos, mas por funcionários do governo, militares e diletantes, e eram
voltados para públicos não acadêmicos.

A fundação da Hispanic American Historical Review (HAHR) em 1918 constitui um


marco simbólico relevante, pois foi o primeiro periódico norte-americano dedicado ao
estudo do continente. Contudo, sua análise revela as limitações desse proto-campo: a
produção era dominada pela história diplomática centrada na perspectiva norte-americana,
carecia de elaboração teórica sobre a América Latina como unidade e, de modo sintomático,
não publicou um único artigo com o termo 'Latin America' em seu título desde sua fundação
até 1940. O próprio debate sobre a denominação do periódico — Hispanic, Ibero-American
ou Latin American — evidencia a recepção ainda irregular do conceito no início do século
XX.

Para Feres Júnior, um campo científico só existe como tal quando dotado de uma
rede institucional sustentada: especialistas profissionais, currículos universitários, centros de
pesquisa, periódicos, associações, conferências e estruturas de financiamento. Essa rede
inexistia antes da Segunda Guerra Mundial.

3. A Guerra Fria como Motor de Consolidação Institucional


A expansão sem precedentes do poder norte-americano no pós-Segunda Guerra
Mundial criou uma demanda crescente por conhecimento especializado sobre outras regiões
do mundo. Com o início imediato da Guerra Fria, essa demanda foi intensificada,
estimulando o florescimento dos chamados 'estudos de área' nas universidades americanas,
financiados por recursos públicos e privados. Do início da década de 1950 ao início da de
1960, o número de programas de estudos de área nos Estados Unidos mais que triplicou,
passando de 29 para mais de cem.

No entanto, até o advento da Revolução Cubana em 1959, a América Latina era


considerada razoavelmente segura em relação às ameaças de expansão comunista, o que se
refletia na baixa prioridade atribuída à região na agenda da política externa americana. Entre
1945 e 1955, a América Latina recebeu apenas 2% dos recursos norte-americanos
despendidos em ajuda externa não-militar. Esse desinteresse político tinha reflexo direto nos
meios acadêmicos: enquanto em 1951 as teses sobre América Latina representavam 30% de
todos os doutorados defendidos nos estudos de área, em 1961 essa proporção havia caído
para 18%.
A Revolução Cubana operou como o evento catalisador que precipitou a
consolidação definitiva dos LAS. Em 1959, o American Council of Learned Societies e o
Social Science Research Council criaram o Committee on Latin American Studies, com o
objetivo explícito de planejar desenvolvimentos acadêmicos e financiar pesquisas sobre a
região. O número de cursos universitários sobre a América Latina praticamente dobrou entre
1958 e 1969, e o espectro disciplinar se ampliou significativamente — os cursos de
sociologia chegaram a quadruplicar. Em 1966, foram fundados simultaneamente a Latin
American Studies Association (LASA) e a revista Latin America Research Review, marcos
decisivos da consolidação profissional e institucional do campo.

Feres Júnior destaca que essa correlação entre interesses políticos e produção
acadêmica não era acidental, mas estrutural. Como o próprio presidente Kennedy deixou
claro em seu discurso de março de 1962, o apoio a programas de desenvolvimento nas
regiões pobres do mundo era percebido como vital para os interesses estratégicos dos
Estados Unidos — uma forma de deter o avanço do comunismo menos custosa do que o
poderio militar.

4. O Paradigma Dominante: a Teoria da Modernização


Qual foi o enfoque dominante no momento do desabrochar dos Latin American
Studies, por volta de 1959? A literatura secundária apresenta uma resposta consensual: a
teoria da modernização (Foster-Carter, 1976; Rahl, 1976; Cardoso, 1977; Berger, 1995;
Klarén, 1996). Feres Júnior aceita provisoriamente essa distinção do próprio campo para
então submetê-la à crítica.

A teoria da modernização emergiu no contexto do cientificismo que varreu as


ciências sociais norte-americanas no pós-guerra, movimento denominado 'revolução
behavioral'. Os behavioralistas rejeitaram as abordagens anteriores baseadas no estudo
formal de leis e constituições, adotando a perspectiva científica como valor central: a
convicção de que a teoria confiável deve ser apoiada por dados empíricos verificáveis e,
idealmente, falsificáveis. Paradoxalmente, esse cientificismo foi acompanhado por
declarações de neutralidade valorativa que, combinadas com uma leitura superficial da
epistemologia weberiana, permitiram aos cientistas sociais alegarem impermeabilidade a
valores culturais e políticos — ao mesmo tempo em que se tornavam cada vez mais
envolvidos com programas governamentais.
No plano substantivo, a teoria da modernização surgiu como tentativa de produzir
um discurso sociocientífico para tratar da agenda da política externa da Guerra Fria. Seu
tema central era o problema do desenvolvimento e do subdesenvolvimento no Terceiro
Mundo. Truman havia antecipado sua agenda uma década antes, ao descrever o mundo em
termos de oposições binárias: próspero versus miserável, moderno versus primitivo e
estagnado. Os teóricos da modernização adotaram essa mesma estrutura de oposições
assimétricas, substituindo apenas os termos mais agressivos por outros de aparência
científica: 'primitivo' tornou-se 'tradicional', 'estagnado' passou a ser 'pré-moderno'.

5. As Oposições Assimétricas: Moderno, Tradicional e o Lugar da América Latina


O núcleo analítico da crítica de Feres Júnior à teoria da modernização reside na
identificação de suas oposições assimétricas. O mundo é dividido em duas metades: a
moderna, representada pelos Estados Unidos e demais países anglo-saxônicos e germânicos,
e o resto. Essa divisão é simultaneamente temporal (moderno versus tradicional),
socioeconômica (próspero versus miserável) e cultural (ocidental versus não-ocidental).

A dimensão cultural da teoria apoiava-se em uma leitura seletiva de Max Weber. Os


teóricos da modernização tendiam a equiparar a narrativa histórica weberiana sobre o
nascimento do espírito do capitalismo ao advento da própria modernidade, tornando o
protestantismo a causa permanente da modernidade. Consequentemente, todos os não-
protestantes eram relegados a uma condição de 'tradicionalismo'. Autores como Millikan
chegaram a equiparar explicitamente modernização e ocidentalização, enquanto David
Lerner identificava modernização com americanização.

O conceito de 'tradicional' na teoria da modernização, como demonstra Feres Júnior,


não se refere a qualquer formação cultural, histórica ou socioeconômica específica: ele é
definido apenas em oposição assimétrica à modernidade. Essa ausência de positividade
transforma o 'tradicional' em mero defeito ontológico — uma condição de não ser moderno.
As sociedades tradicionais são caracterizadas como estáticas, governadas pelo poder
hierárquico hereditário, sob o domínio dos costumes em lugar da lei, incapazes de mudar
sem a intervenção dos poderes ocidentais.

No plano temporal, a teoria da modernização apresenta-se como uma versão


secularizada da soteriologia cristã: no longo prazo, todas as sociedades humanas alcançarão
a condição moderna. Essa teleologia encontra sua confirmação terrena no anseio dos povos
'subdesenvolvidos' pelos bens e confortos 'modernos'. A modernização carrega, assim, o
apelo moral de um ato de redenção inevitável e benéfica — o que legitima a intervenção
externa como uma missão civilizatória.

A América Latina era situada pela teoria da modernização como o exemplo


paradigmático do 'tradicional' no hemisfério ocidental: marcada pelo catolicismo ibérico,
pelo corporativismo político, pelo latifúndio e pela ausência de uma ética protestante do
trabalho, ela era percebida como obstáculo à modernização capitalista e, portanto, vulnerável
à sedução comunista. Reduzir essa vulnerabilidade era o objetivo da Aliança para o
Progresso — programa explicitamente concebido para promover a rápida modernização da
América Latina sob tutela norte-americana.

6. A Simbiose Institucional entre Teoria e Política


Um dos aspectos mais originais da análise de Feres Júnior é a demonstração
minuciosa da simbiose institucional entre os teóricos da modernização e o aparato
governamental norte-americano. Essa relação não era periférica ou circunstancial, mas
estruturava o próprio campo acadêmico em seu período formativo.

O Center for International Studies do Massachusetts Institute of Technology constitui


o exemplo mais emblemático. Financiado simultaneamente pela Ford Foundation e pela
CIA, o Centro promovia a colaboração entre sociólogos, cientistas políticos e economistas
com o objetivo explícito de subsidiar a política externa dos EUA. Seu principal produto
intelectual foi Walt Whitman Rostow, cujo livro The Stages of Economic Growth (1960)
tornou-se o texto mais influente da teoria da modernização. Segundo Lincoln Gordon,
membro da administração Kennedy, nos anos 1960 o pensamento nos círculos acadêmicos
e nos oficiais foi profundamente influenciado por Rostow. Não por acaso, em 1961, tanto
Rostow quanto Millikan ingressaram na administração Kennedy.

A interpenetração entre ciências sociais, imperativos políticos e propaganda


manifesta-se de maneira especialmente reveladora na obra The Emerging Nations (1961),
organizada por Millikan e Blackmer. Trata-se de uma coletânea de teóricos da modernização
proeminentes que foi encomendada pelo governo norte-americano para ser transmitida pela
Voz da América a ouvintes de países subdesenvolvidos e comunistas. Em 1967, obra similar
— Modernization: the Dynamics of Growth —, com contribuições de vinte e cinco
especialistas das mais ilustres universidades americanas, foi igualmente produzida para
transmissões da Voz da América.

No caso específico da América Latina, o envolvimento dos teóricos da modernização


na definição de políticas expressou-se na Latin American Task Force (LATF), grupo
consultivo reunido por Kennedy com o objetivo de elaborar políticas para deter o progresso
do comunismo no Hemisfério Ocidental. A LATF foi responsável pelo planejamento e
implantação da Aliança para o Progresso. Outros programas governamentais como o Peace
Corps, a USAID e o controverso Project Camelot completavam o arsenal de intervenção
modernizante.

Essa simbiose não se restringia às cúpulas do campo. As biografias profissionais


impressas nos capítulos dos livros coletivos da época — repletas de referências a cargos em
órgãos governamentais, consultorias para a CIA, Banco Mundial e Departamento de Estado
— tornam público o envolvimento como um valor acadêmico legítimo, não como
constrangimento. A modernização disseminava-se, assim, não apenas como abordagem
teórica, mas como uma atitude acadêmica que celebrava a união entre 'ciência' e
comprometimento político.

7. Considerações Finais
A análise empreendida por Feres Júnior no Capítulo 3 de A História do Conceito de
América Latina revela que a consolidação dos Latin American Studies foi simultaneamente
um processo de institucionalização acadêmica e um projeto político-ideológico. O conceito
sociocientífico de 'América Latina' não emergiu de uma investigação desinteressada sobre a
realidade do continente, mas foi construído sob o imperativo da contenção do comunismo
durante a Guerra Fria.

A teoria da modernização que orientou o campo em seu período formativo operava


por meio de oposições assimétricas — moderno/tradicional, ocidental/não-ocidental,
desenvolvido/subdesenvolvido — que projetavam sobre a América Latina uma condição de
déficit ontológico em relação ao modelo norte-americano. Esse diagnóstico legitimava, por
sua vez, a tutela e a intervenção externas como formas de acelerar uma modernização
percebida como inevitável e desejável.

A contribuição central de Feres Júnior está em mostrar que o conceito científico de


'América Latina' não é um reflexo neutro de uma realidade geográfica ou cultural
preexistente, mas o produto de um processo histórico específico, atravessado por relações
de poder assimétricas entre o Norte e o Sul do continente americano. Compreender a
genealogia desse conceito é condição necessária para avaliar criticamente as categorias com
as quais as ciências sociais ainda hoje pensam a região.

Referência
FERES JÚNIOR, João. A história do conceito de América Latina nos Estados Unidos. Bauru:
EDUSC, 2005.

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