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TLM Ii

O documento analisa obras fundamentais da literatura mundial, como 'Flores do Mal' de Baudelaire e 'Fausto' de Goethe, destacando suas contribuições para a modernidade e a crítica social. A obra de Baudelaire é vista como uma reflexão sobre a dualidade da condição humana e a relação entre poesia e pintura, enquanto 'Fausto' explora a busca pelo conhecimento e a dualidade entre o ser humano e o divino. O texto também menciona a marginalidade dos poetas e a evolução da arte e da literatura no século XIX.

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TLM Ii

O documento analisa obras fundamentais da literatura mundial, como 'Flores do Mal' de Baudelaire e 'Fausto' de Goethe, destacando suas contribuições para a modernidade e a crítica social. A obra de Baudelaire é vista como uma reflexão sobre a dualidade da condição humana e a relação entre poesia e pintura, enquanto 'Fausto' explora a busca pelo conhecimento e a dualidade entre o ser humano e o divino. O texto também menciona a marginalidade dos poetas e a evolução da arte e da literatura no século XIX.

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TEXTOS DA LITERATURA MUNDIAL II

1. Flores do Mal, Baudelaire. Fundamental para compreender não só a poesia como a arte do séc. XX. Foi
primeiramente crítico de pintura. Modernidade Baudelairina: o pintor da vida moderna. A poética da cidade
(ligando-se com Joyce).

2. Fausto, de Goethe - leitura sequencial (ler dedicatória e, pelo menos a primeira cena intitulado “Noite”)
Sturm und Drang & Klassik.

3. Portrait of the Artist as a Young Man, de Joyce. Modernidade literária: âmbitos de representação.

4. Cem Anos de Solidão, Gabriel Garcia Márquéz.

Flores do Mal e O Spleen de Paris de Baudelaire (1821-1867)

Walt Whitman, Folhas de Erva, 1855 (ou Folhas de Relva) (pensar na tradução dos títulos para o português.
Relva como algo contido, Erva como daninha): exaltação da natureza, individualidade, espírito
democrático…
Flores do Mal, 1857. (OXIMORO)
Olhar estas duas obras como a diferença entre o espírito Americano vs. Europeu.
No mínimo, esta coincidência temporal, diz-nos que estavam reunidas as condições (e a necessidade) que os
poetas produzissem algo novo, mesmo nas suas diferenças (natureza/cidade).

Um cético e pessimista em relação à evolução humana, pois esta está marcada por forças antagónicas. Um
profunda consciência das contradições. A modernidade ambivalente de Baudelaire: poeticamente o grande
moderno (modernidade estética), mas do ponto de vista social é conservador, resistente e cético
(modernidade civilizacional). Revolve as tensões humanas, vê além do visível.

“O poeta é um visionário.” — Rimabud

Baudelaire e a pintura (ler o poema VI Os Faróis). Pintura nos salões e os textos de Baudelaire (o salão de
1859 e respetivo texto).

Idade moderna vs. Modernidade (em termos estéticos)


Idade moderna, séc. XVI/XVII a expansão europeia, saída da idade média. Descartes (1596-1650) na
filosofia. A razão como elemento fundamental do ser-se humano.
Modernidade, segunda metade do séc. XIX.

Baudelaire afirma que a maior faculdade humana não é a razão, mas a imaginação. (A MÁSCARA.
Poder ser outro.)

Poesia e Artes Visuais: os poetas não se limitam a descrever uma obra de arte, não se limitam à poesia
ecfrástica ou à descrição de pinturas. É, antes, uma reflexão sobre a pintura e sobre o pintor.

“Para um povo novo, uma arte nova” — Victor Hugo.


A necessidade de uma nova forma de arte por se ter alterado a base da sociedade devido à revolução
francesa. O poeta como um génio. A passagem do romantismo para o ?

Chateaubriand e Lamartine como exemplos de poetas românticos franceses, toda a poesia muito associada ao
campo.

A crítica feroz à burguesia: o progresso, lucro, a moral. (Os burgueses não estão interessados em apoiar os
artistas e desaparece o mecenato.) Há uma mudança com a difusão da imprensa. Há um imediatismo entre a
literatura/criação e a sua leitura. Começa a lidar-se também com a fama e sucesso algo imediato. Os poetas
que não se encaixam nisto, tornam-se marginais e surge a ideia do “poeta maldito”.

Poesia da modernidade (estética ou literária): ligação entre a poesia e a crítica. Uma poesia que reflete sobre
si mesma, pensa o que é ser poeta, o que é ser poesia. A poesia com uma dimensão auto-reflexiva.
Os Faróis, de Baudelaire, distingue-se da poesia ecfrástico (uma descrição mais ou menos detalhada de uma
obra) por escrever e imaginar um mundo pictórico dos pintores e suas obras de forma mais generalista.
O poeta dobra-se em crítico e estabelece a ponte com outra expressão artística, no caso com a pintura. Isto
são traços fundamentais quer para a obra de Baudelaire, quer para a posteridade.

O que em mim sente, está pensando.


— Fernando Pessoa

O(s) poeta(s) maldito(s), por estarem contra os valores sociais, morais e estéticos da maioria, e optarem por
ficar à margem. A marginalidade moral, estética e social. Contribuem, estes poetas, para encaminhar a
sociedade àquilo que é essencial, como o desenvolvimento do espírito criativo e crítico. Reina a imaginação
e não é subordinada aos valores regentes porque está para além daquilo que se vê e não obedece à
racionalidade. O poeta vem duma tradição clássica, ligada à religião, e constrói o seu discurso ao desmontar
as ideias concebidas.

(Formal) - Hemistíquios são as duas metades de um verso divididas por uma pausa central. Por excelência o
verso alexandrino e a 6º sílaba cortada.

É possível extrair beleza do Mal. O Bom, o Belo e a Verdade (desde as nossas origens clássicas) como um
triângulo fechado. Baudelaire põe isso em causa.
Hibridez de géneros vem já da modernidade no século XIX.
A subalternidade nas sociedade contemporâneas, a dessacralização.

O poeta a querer ser, também ele, um pintor. Os artistas (escritores, poetas, pintores…) confrontam-se com
uma vida e uma emergência de outras expressões e outras formas de ver e conhecer o mundo que vêm de
outras áreas cientificas. Existe, então um ajustamento com as outras artes. Por exemplo, o poeta ou o pintor,
com o surgimento da fotografia, tem de ponderar “então o que é que nós fazemos?”. A pintura deixa de poder
ser aquilo que era. Isto leva, então, a uma reflexão sobre a sua prática.
Ao poeta não sabe ser um historiador, o poeta narra aquilo que podia ter acontecido. É da ordem da
possibilidade.

Baudelaire afirma que a arte deve extrair o eterno do circunstancial.

Prestar atenção à exotopia.


Um Cadáver (pág.81) memento mori

Pensar a Mulher como intercâmbiavel com a Poesia.

Pensar nos aspetos comuns entre o poeta em Baudelaire e a personagem de O Retrato do Artista Quando
Jovem.

Pensar sobre a relação entre uma poesia, uma arte, que ficou conhecida no séc XIX como a arte pela arte
(uma poesia que não estava interessada em envolver-se noutras questões que não estivessem ligadas à arte) e
o realismo/naturalismo.
Baudelaire junta as duas tendências.
1857 (data da primeira edição de Les Fleurs du Mal) - A defesa de Flaubert (talvez um dos percursores do
realismo) e do seu Madame Bovary (1856). (“A Madame Bovary sou eu” — disse Flaubert em sua defesa.)

“Espanquemos os pobres" p.221


“Os olhos dos pobres” p. 147
“A sopa e as nuvens” p. 207
(Procurar no Spleen de Paris mais exemplos deste anticlimax que marca o contraste entre a arte pela arte e o
realismo)

“O SONHO PARISIENSE”, “DESTRUIÇÃO”, “O VINHO” e “EMBRIAGAI-VOS”

Encontrar paralelos entre a poesia de Cesário Verde e de Baudelaire. (Ambos tocados pela mesma questão:
qual é a função do poeta na idade moderna? Como apontar para outras imagens da realidade?)
“The Man of the Crowd”, de Poe e “Le Fou”, de Baudelaire. Ler, comparar.

Sim, ser vadio e pedinte, como eu sou,


Não é ser vadio e pedinte, o que é corrente:
É ser isolado na alma, e isso é que é ser vadio,
É ter que pedir aos dias que passem, e nos deixem, e isso é que é ser pedinte.

— Álvaro de Campos

(“A poesia não se faz de ideias, faz-se de palavras.” — Mallaremé a Degas.)

Importante para compreender as mudanças na poesia e nas artes desde os finais do séc. XIX porque congrega
em si um conjunto de questões que outros poetas, outros artistas, vão depois trabalhar. Nomeadamente os
poetas do inicio do séc. XX (as vanguardas, os modernistas, os surrealistas). Muitas vezes através da
provocação sobre os seus valores morais e estéticos. Este é um caminho que foi sendo preparado desde o
romantismo até à modernidade do inicio do século XX. A marginalidade das vanguardas, o seu empenho em
se colocar à margem, é fruto da Conceição do artista como ser maldito e que podemos encontrar já em
Baudelaire.
É um autor que nos permite fazer diálogo com poetas que o sucedem algumas décadas (como é o caso de
Cesário Verde e Álvaro de Campos, ou mesmo poetas como Al Berto).

Como comentar um poema:


- saber situar um poema numa determinada secção. (Construção do livro, organização.) Ser coerente com
uma perspetiva de poesia em que é dada importância à sua organização, à sua forma.
- Circunscrevermo-nos às palavras. Poemas são construção, são palavras (como disse Mallarmé). Só a partir
daí interpretar.
- Os poemas que iniciam ou terminam um livro ou uma secção.
- Dar atenção ao título.
- A forma do poema (ex.: soneto).
- Atentar a forma vs. conteúdo (ex.: “Destruição” de Flores do Mal)
- Atentar as maiúsculas (ex.: Demónio, Tédio, Deus, Arte, Destruição.)

***

Fausto I, de Goethe (1749-1832)

Johann W. Goethe, Confederação Germânica.


“O fim que nós temos, é o fim que nós escolhemos.”

Quatro movimentos
Aufklarung: Iluminismo (abertura para a luz); 1720-1800. A razão como motor do progresso.
Essencialmente burguês. Sublinha também a igualdade (todos somos dotados de razão independentemente
das origens). Contestação do absolutismo.
Empfindsamkeit: “Sentimentalismo”; 1740-1780. Emancipação e convivência do sentimento a par com a
razão. Ordem, Deus, Empirismo e Racionalismo, Sociedade e (micro-)Política.
Sturm und Drang: Tempestade e Ímpeto; 1770-1785. Rebelião contra as convenções, autoridade, poder da
corte, normas dogmáticas da igreja, imposições da moral sexual, etc. praticada por jovens (kaftkerle).
Liberdade e Igualdade intensificadas e tornadas em ponto essencial do movimento. Pensa-se muito na
liberdade do eu. Sentimentalismo (mais sombrio: violentos, primitivos). Fantasia. Panteísmo (não há
diferença entre Deus e o Universo). Titanismo.
Klassik: Classicismo; 1786-1805. (Somos indivíduos, não maiores do que deus)

Tido, para alguns, como uma continuidade, para outros, como submovimentos dentro do Iluminismo.

1ª fase de Goethe: Sturm um Drang


2ª fase de Goethe: Weimarer Klassik (1786-1805). Um grande foco na antiguidade clássica. A ideia da
beleza e da virtude greco-latina. Figuras da mitologia (como Prometeu). Harmonia e Equilíbrio (entre forma
e conteúdo, sensatez e ímpeto, etc.). Perfeição e Humanidade (titãs são os deuses e são eles que são perfeitos.
Nunca nos devemos igualar a um Deus, mas podemos, sim, tentar ser perfeitos, como um Deus, mas
lembrando sempre que somos humanos).
- instalação de Goethe em Weimar (1776)
- Viagem a Itália (1786-88)
- Amizade entre Goethe e Schiller (1788)
- Revolução Francesa (1789)
A figura de Fausto
- Johann Georg Justus (ca. 1480 — ca. 1540
- Alegado astrólogo, alquimista, médico…
- Prática de magias
- Morte não-natural
- Pacto com o diabo - Luther
Matéria de Fausto (faustiana)
Fausto, no sentido lato: vida fausta; fausta notícia. Sentido restrito: matéria de Fausto.

Matéria:
Fausto, Metistófeles e Margarida
Pacto com o diabo
(Busca pelo conhecimento)

Temas relevantes:
Busca pelo conhecimento e a verdade
Divisão humana - dualidade e contradição
Redenção, salvação e liberdade do destino
Conflito

Urfaust (1769-1775) ou Pré-Fausto ou Fausto 0


Faust - Ein Fragment (1786 1790)
Faust I (1796): estudaremos “Drama do conhecimento” e “Tragédia de Margarida”
Faust II (1825-1831)

Tipologia e hermenêutica: tenta associar personagens entre textos (por exemplo o I e II testamento, Eva e
Virgem Maria - Ave). Isto dá-nos pistas para a leitura. Tal acontece no prólogo do céu com o “Livro de Jó”.
Fausto será o antítipo de Jó.

Wagner é discípulo de Fausto

Pó: morte ou nascimento. Vimos do pó e ao pó voltamos.

Sede do conhecimento vs. O sentimento é tudo!


Ser Deus vs. Ser homem
Exposição:
Dedicatória: “figuras fugidias”, os pensamentos do autor, dedica a obra a ele próprio, ao seu esforço e ideias.
Prelúdio: um espécie de didascálias, anuncia que a obra vai ter um pouco dos três personagens.
Prólogo: uma preparação para a obra. Começa aqui a diegese.

Noite: Fausto quer saber tudo, mas nao o encontra nos livros, invoca um espírito e não o encontra, e no signo
na terra igualmente. termina com o tempo da Páscoa a se aproximar (morte e ressurreição: uma preparação
temática. No caso, prepara a nova vida de Fausto que se consagra com o pacto com o diabo).

O pacto é que Fausto se rende se Mefistofeles lhe mostrar algo de transcendente que faça Fausto dizer “Fica,
tu que és belo”.

Mefistofeles como indiciador (a ideia é que Fausto exerça o seu livre arbítrio):
Pacto, conhecimento, prazeres mundanos, poção da juventude, Margarida…

Primeira parte (Gelehrtentragödie / tragédia do conhecimento) da Noite até à Cozinha da Bruxa, temas
e motivos:
Dualidade; Conhecimento; Limite; Noite; Bebida; Cães; Cósmico e transcendente; Corpo alma

Porque é uma tragédia (do conhecimento)? Pelo pacto com o diabo, a morte da alma.

Drama aberto vs. Drama Fechado (de Volker Klotz) relaciona-se com a linearidade da narrativa.
Drama aberto, que é o caso da primeira parte de Fausto (tragédia do conhecimento)
Acção: Plural e sem casualidade
Tempo: Dispersão e predomínio do momento
Espaço: Ausência de unidade e com carga semântica
Figuras:Grande numero de figuras
Linguagem: Diferentes tipos de linguagem (por oposição a, por exemplo, uma linguagem sempre erudita)
Drama fechado, que é o caso da segunda parte (bürgerliche Trauerspiel /tragédia burguesa; tragédia de
Margarida), ou drama aristotélico.

Tragédia burguesa:
Personagem: individuo; vida privada; nova antropologia de personagens: sensíveis, virtuosas, bondosas,
heróicas.
Valores: louvor à razão; igualdade; realização pessoal
Finalidade: provocar tempo e piedade que deverão ser convertidos em disposição para virtude
Drama aristotélico:
Unidade de ação:
1. Contexto social, cosmos, …
2. Hamartia: pecado ou culpa (um ato que tem uma certa dimensão criminosa; pode ser contra a sociedade,
lei, homens, natureza… o personagem desfia as leis); Hubris: orgulho exagerado, arrogância.
3. Anagnorisis: reconhecimento ou percepção (o momento em que o protagonista compreende a verdade da
situação)
4. Peripeteia: reviravolta ou o reverso da fortuna/sorte (em geral, na tragédia grega, a queda do herói).
5. Catástrofe, castigo.

Fausto vê o seu amor como eterno, verdadeiro, espiritual, transcendente. Já mefistofeles vê-o como
momentâneo, superficial, físico. O amor de Margarida é infantil, idílico, idealizado, desatinado, sem paz…

Exposição (Rua, p.122),


Intensificação (de À Tardinha até O Jardim de Marta)
Clímax, queda/retardamento, catástrofe. (Pensar nisto como um triângulo, sendo que clímax é o vertice
superior).
Queda/Retardamento
Catástrofe
Clímax

Intensificação Queda/Retardamento

Exposição Catástrofe

Entre Noite (primeira) e o Jardim de Marta estamos na intensificação, dividida em duas partes:
1 - Noite (caixa de jóias), Passeio (plano fechado), Casa da Vizinha (caixa jóias e Marta), Rua (reflexão)
2 - Jardim (paixão de ambos), Um Caramanchão, Floresta e Caverna (paixão de fausto), O Quarto de
Margarida (paixão de Gretchen), O Jardim de Marta (chegado do clímax)
Quedas:
1ª queda - Gravidez (Na Fonte, Muralha da Cidade);
2ª queda - Morte de Valentim (Noite);
3ª queda - Morte da mãe (Catedral) que se dá pelo líquido que Margarida dá à mãe (frasco).

Estruturas narrativas:
Funções: cardinais (uma cena que é necessária, fundamental, nuclear, para o avanço da história; catálises
(partes para avançar com a história, preenchimento)
Índices: índices (toda a informação que está velada, que é necessário ser descodificada); informações
(elementos que servem para identificar, situar no tempo/espaço/ação: quem, como quando, onde, porquê?)
Teoria de Roland Barthes

Na Fonte e Muralha da Cidade (índices porque percebemos o clímax através de Bárbara — penitência,
abandono, gravidez - e a morte do filho a partir de Mater dolorosa)

Salvar Gretchen é a única forma de redenção de Fausto.

Catástrofe: Cárcere
A culpa de Margarida: Paixão, Luxúria, Perda da Virgindade, Morte das três gerações, Reconhecimento do
mal (Religião de Fausto cf. 3415-3458; Reconhecimento de Mefistófeles cf. 3471-3475; Frasco cf.
3514-3520)

“Ser é agir!”

Retrato do Artista Quando Jovem, de James Joyce, publicado fascicularmente em 1914-15

O impacto de Joyce nas literaturas do mundo deve-se, em muito, à ruptura, a um desígnio confrontacional
aos modelos criativos que se tinha consolidado ao longo do século que o precedeu: 1) a revolução
romântica e 2) a consolidação do romance como instância maior de uma ficção narrativa cuja
centralizado histórica nos hábitos de leitura se afirma decisivamente com o triunfo social, económico e
politico de culturas de classe média.

1. Revolução romântica
Em geral, favorecendo formas artísticas que desafiam o sentido de decorum (ou adequação) que prevalecia
em sensibilidades literárias anteriores (em especial as de cariz neoclássico). Desenvolvendo-se com base em
Laos ostensivos entre linguagem e emoção.
“The epic depicts the event that develops from the past, the drama depicts the action that extends to the
future, the lyrics depicts the feeling that is enclosed within the present” — Johannes Paul Ricther.

Em regra, uma relação de implicação próxima entre sujeito empírico e sujeito poético; exploração
autobiográfica das condições definidoras de quem diz “eu” no poema. Conflito interior; perplexidade e auto-
divisão.

Calendário Positivista pela secularização.


A identidade autoral de Joyce não se limita a uma só língua: poliglossia.

2. Consolidação do romance como instância maior

Duas condições falaciosas que se desenvolveram em relação ao romance:


(i) ostensivo “realismo”, a pretensão de propor representações “imediatas” do real e da experiência.
Transparência representacional.
(ii) A ambição totalizaste face à caridade e diversidade da experiência humana.

Através de intelectuais como Descartes e Locke, criou-se a convicção de que a verdade é uma descoberto dos
sentidos e é individual. O mesmo se dá no romance: uma ambição, enquanto instancia da ficção narrativa, da
apreensão individual do real e da experiência. Parafraseando Ian Watt, em The Rise of the Novel, a verdade
face à experiência individual é sempre única e, por isso, nova, original.
Pois o romance foi a forma que deixou de assentar em ações/temas recolhidos da mitologia, da historiografia
e tradição literária prévia.
Reflete-se isto, naturalmente, na caracterização de personagens, que se demarcam do típico, das personagens
tipo. A forma romanesca, também aqui, se afirma pela individualidade, unicidade. A personagem passa a
conter um conjunto de possibilidades em ser-se humano, uma individualização única. Particular people in
particular circumstances — Watt
Há também, relativamente ao espaço e ao contexto, uma preocupação de singularidade. A particularização de
contextos, de locais para acção, que acompanha a particularização de personagens e a sua incidentalidade na
ação da narrativa. [Joyce, exagerando as formas dos autores que o antecederam, acaba satirizando a própria
forma. Por exemplo, descrições ostensivas de um cheiro ou de uma tabuleta de uma loja. É como se dissesse,
olhe, leitor, veja como eu sei o que se deu antes de mim. Veja também como é ridículo fazê-lo tão
ostensivamente.]

As publicações fasciculares respondiam ora a preocupações político-sociais, ora estéticas, ora, no caso de
Joyce, ambas.

Nacionalismo (católico) Irlandês vs. Unionismo (protestante) Irlandês


Parnell, no entanto, era protestante mas nacionalista. Por isso, por ser nacionalista, Dedalus e Casey
apoiavam-no. Há uma indignação, da parte destes personagens, sobre a forma como a igreja católica se
insurgiu contra Parnell (porque é moralista, a igreja, por causa do adultério de Parnell, e pelo facto do líder
mais influente do nacionalismo irlandês ser protestante…)

Upbringing vs Education

Prestar atenção à justaposição do urbano e do rural, no romance. Sobretudo, a santidade atribuída ao


rural. Também as menções a textos urbanos feitas por Stephen.

Momentos de libertação das repressões de Stephen. Vontade de ir embora, libertação pessoal e intelectual
(da Irlanda)

Cem Anos de Solidão, de Gabriel García Márquez (Gabo), 1967

Publicado pela primeira vez na Argentina, apesar de ele ser colombiano e de o ter escrito no México (entre
1965 e 1966, em 18 meses).
[Link]

Estudou Direito, mas, na década de 40, começou a sua carreira de jornalismo. Ao escrever para El
espectador, começa a publicar os seus primeiros contos.
Trava amizade com o grupo de Barraquilla e insere-o no romance.
Em 1943, muda-se para Bogotá por precisar de dinheiro. Cidade cinzenta, cheia de homens, todos de negro e
chapéu, não havia mulheres.

Eventos mais relevantes infancia e juventude e a influencia do universo literário:


Um povo desconhecido do mundo, pequeno, Aracataca. United Fruit Company, muitos estrangeiros. Luta de
galo. Êxodo dos pais. Guerra dos conservadores s e liberais (avô de Márquez). Superstição, avó.

26 meses até chegarem a Macondo. Uma terra sem passado, desenhada por José Arcadio. Sol para todos.
José Arcadio e Úrsula expulsos de Rioacha (como Adão e Eva). “Ovos pré-históricos”. As coisas ainda não
tinham nome. Referência, durante a expedição, ao Êxodo. Há também uma referência ao sonho de Jacob. Da
mesma forma que o nome Macondo aparece a José Arcadio em sonho.
Estrutura interna (ciclos):

1º ciclo (tempo mítico): capítulos 1 a 3


- chegada da família e fundação de Macondo.

2º ciclo (tempo histórico): capítulos 4 a 9


- as guerras civis e a guerra do Mil dias nas quais participa o coronel Aureliano Buendía.

3º ciclo (tempo histórico): capítulos 10 a 16


- prosperidade social e económica de Macondo (chegada do comboio e da United Fruit Company)

4º ciclo (tempo mítico): capítulos 17 a 20:


- início da decadência de Macondo e dos Buendía, que vai in crescendo, até que um furacão apocalíptico
arrasa com tudo.

- Aureliano é simultaneamente um personagem solitário e introvertido como é valente, destemido e violento.


- Aureliano não é um herói. Aureliano é uma personagem absolutamente falhada.
- Tantos anos de luta revelaram-se inúteis, chegando o armistício a ser comparado a uma traição. De que
valeu tanta guerra, tantas mortes, para se ceder assim, com um acordo de cedências?
- Aureliano, como todas as personagens, é solitário e leva uma vida falhada. O mesmo se dá com Úrsula que
é talvez um dos exemplos maiores (também pela sua longevidade) da solidão, do falhanço, da miséria e do
ridículo. Talvez o ponto da vida de Aureliano que se distingue da dos outros personagens, é a sua tentava de
suicídio: perdeu todas as batalhas e, quando finalmente se rendeu, quando quis acabar com a guerra, quis
acabar consigo também e nem aí lhe foi concedido o direito, por mão do destino, de sua morte.

“Desnaturalização do real e a naturalização do maravilhoso.” (Dito por crítico brasileiro); disse-se a


propósito do episódio icónico de Remedios, la bella.
Construção do tempo em Cem anos de solidão

Mário Vargas Llosa divide o tratamento do tempo em dois planos:

— Vertical: - tempo linear / cronológico;


- tempo cíclico / em espiral;
- tempo circular / mítico (Génese e Apocalipse)

— Horizontal - matéria narrativa - trama: - real objetivo (histórico, o que de facto se passou)
- o real imaginário (episódios mágicos)

Vertical:
Tempo linear: A família e Macondo progridem e regridem em simultâneo, como um jogo de espelhos. Os
caminhos de ferro, a United Fruit Company, greve e massacre, por exemplo, deram-se de facto na Colombia.
Tempo cíclico: Insistência na ideia de que o tempo dá constantemente voltas sobre si próprio, de estagnação,
apesar de todas as mudanças. (Repetição dos nomes e padrões comportamentais - predestinação. Ciclo de
relações incestuosas.
Tempo circular: diretamente relacionado com o tempo mítico e com a profecia escrita de Melquíades (pecado
original/castigo final). Decifração dos manuscritos.

En el momento en que las piezas encajan, la novela se desintegra. — Mário Vargas Llosa

Outras temporalidades:
- o tempo detido: no quarto de Melquíades na casa dos Buendía, onde permanece o fantasma do taumaturgo,
é sempre março e segunda feira.
- o tempo depois da morte: segue o seu curso normal. Não há uma fronteira clara. (Prudencio Aguilar
continua a envelhecer e a sentir dor depois da morte. Melquíades teme a morte definitiva, que o persegue
após a primeira. A fragrância de Remedios, la bella continua a atormentar as suas vítimas mortais. Arcadio (o
Papa) tem evocações eróticas com a sua tia-avó Amaranta depois de morrer.
- o tempo biográfico do autor: referência aos amigos intelectuais de Aureliano Babilonia, cujos nomes e
descrição são uma clara homenagem ao Grupo de Barranquilla, entre os quais se incluis o próprio GGM;
referência a Mercedes Barcha.

Horizontal:
O real imaginário:
O nível mágico. Exemplo disso são as habilidades de adivinhação de Pilar Ternera.
O nível milagroso. Exemplo disso é a cruz de cinza que ficou para sempre marcada nos dezassete Aurelianos.
Remete-nos a um credo religioso e católico.
O nível mítico-legendário. Exemplo disso é a referência ao coronel Lorenzo Gavilán, um personagem de La
muerte, de Artemio Cruz de Carlos Fuentes, que, por sua vez, estava baseada numa pessoa real.
O nível fantástico. Exemplo disso é o bebé com rabo de porco que põe termo à estirpe dos Buendía.

A solidão (uma força centrífuga, a solidão)

Tema principal da obra, junto com o tempo.


Característica inerente aos membros da família Buendía, especialmente do lado masculino da estirpe -
refletida em Macondo.
Todas as personagens tentam escapar à solidão em algum momento das suas vidas:
- Úrsula: recusa-se a envelhecer / abandona-se à demência senil.
- Coronel Aureliano: casa com Remedios / endurece-lhe a alma e isola-se.
- Amaranta: apaixona-se por Pietro Crespi. / vive em solidão auto-imposta.
- Meme e Mauricio / Aureliano Babilonia e Amaranta Ursula: Vivem amores verdadeiros e correspondidos /
mas no final acabam sós e tragicamente.

A natureza tem um papel fulcral na obra. Em certo momento é dito que o primeiro da estirpe está amarrado
a uma árvore e o último está a ser devorado pelas formigas: natureza como agente.
Outros exemplos:
- Quando Úrsula comer a ficar senil, as flores e as plantas confundem os aromas.
- Pássaros desorientados que batem contra as paredes aquando a morte da matriarca.
- Borboletas amarelas perseguem Mauricio Babilónia.
- Chuva de pequenas flores amarelas aquando da morte do patriarca.
- Dilúvio que dura vários anos e arrasa Macondo.

O progresso em Cem anos de solidão. Macondo funciona como um espelho da Colombia e a Colombia
como um espelho da América-Latina. Por exemplo, a chegada dos colonizadores.
- Aldeia pré-industrial: pequena comunidade de camponeses; igualdade económica e social e económica de
subsistência; os únicos sinais de progresso são os inventos dos ciganos.
- Primeira onda de imigrantes (árabes): vila com oficinas e lojas; oficina de ourivesaria de Aureliano e o
negócio de Úrsula.
- Chegada das primeiras autoridades políticas e religiosas: corregedor Apolinar Moscote, padre Nicanor
Reyna e a polícia; início das disputas políticas entre conservadores e liberais; afiliação de Aureliano
Buendía ao partido liberal, autonomização como coronel; guerras civis durante 20 anos.
- Instalação do modelo económico industrial: chegada das inovações tecnológicas (telefone, luz elétrica,
fábrica de gelo, comboio).
- Segunda onda de imigrantes (latino-americanos e “gringos”): criação da. Companhia bananeiras;
Macondo = cidade desenvolvida; levantamento da cidade paralela dos “gringos”; greve dos trabalhadores;
repressão.
- Desmantelamento das instalações da United Fruit Company: regressão paulatina do progresso e da
população; Macondo = aldeia habitada por meia dúzia de pessoas; no fim só Amaranta Úrsula e Aureliano
Babilonia.

Cem anos de solidão é uma crítica ao progresso e à modernidade e, nesse sentido, interpretam a destruição
final de Macondo como uma metáfora das consequências trágicas do progresso desmedido e não-sustentável.

Resumo narrativo.
A história tende a repetir-se. Mas, neste romance, não é dada às personagens uma segunda oportunidade. O
castigo é desproporcional: diferente do que se passa na Bíblia, em que quer o apocalipse quer o diluvio dão
origem a um recomeço, aqui, não é dada à família uma segunda oportunidade.

Espejo espejismo

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