Educação Física no Brasil
Georgia Maria Ferro Benetti
Educação Física no Brasil
Introdução
A Educação Física é uma prática social e, portanto, constrói-se no contexto histórico-
cultural em que está inserida. Não existe por si só, mas toma forma na disputa e nas
tensões entre as exigências e a condições da vida cotidiana, os momentos políticos, as
questões de saúde pública e outros aspectos da vida em sociedade que se relacionem
ao movimento humano.
Neste conteúdo, estudaremos alguns aspectos associados à construção da
Educação Física escolar brasileira, com a finalidade de que você aprenda os aspectos
constitutivos da sua futura área de atuação profissional e compreenda como essas
origens, que remontam há vários séculos, influenciam no momento atual da disciplina.
Vamos juntos?
Objetivos da Aprendizagem
Ao final deste conteúdo, esperamos que você seja capaz de:
• analisar transformações sócio-históricas da Educação Física na Modernidade;
• relacionar a Educação Física à industrialização e à urbanização das civilizações
ocidentais;
• compreender as bases filosóficas da Educação Física na Idade Moderna;
• reconhecer a Educação Física como um campo de saber de influência
multidisciplinar.
2
O Que é estudar história da Educação Física?
Podemos iniciar este tópico e seu conteúdo com outras perguntas. É mesmo
necessário estudar a história da Educação Física durante a formação inicial? Qual é a
aplicabilidade desses conteúdos na atuação profissional? (MELO, 1997).
A resposta para esses questionamentos passa pela compreensão da função da
formação inicial para a atuação profissional, que se dá durante a graduação. Entende-
se que a função da formação inicial é prover conhecimentos técnicos aplicáveis, mas,
também, proporcionar uma sólida formação teórica.
Atenção
O conhecimento teórico é fundamental para que o futuro
profissional possa interpretar o presente e desenvolver
autonomia para construir e para reconstruir sua ação profissional,
conforme novas demandas e novas conjunturas sociais surjam
e se modifiquem.
O conhecimento da História é um dos que proporciona compreensão da realidade
social. Devemos ter em conta que a realidade social se altera com o passar do
tempo. Então, o que aprendemos hoje como passível de aplicação imediata pode
ficar rapidamente obsoleto, como já ficaram práticas de movimento que adotávamos
no passado.
3
Figura 1 – Esgrima.
Fonte: Correio da Manhã (1936).
A perspectiva histórica nos dá possibilidades de olhar para trás e de seguir para o
futuro. Conhecer a história da Educação Física nos dá a vantagem de não partir do
zero para atuar na área. Isso quer dizer que, por meio da teoria, já conhecemos as
relações em sociedade e no esporte que se deram ao longo dos tempos.
Curiosidade
Uma imagem pode promover tanto um aprendizado quanto um
conjunto de palavras bem articulado. Algumas situações são mais
bem compreendidas pela imagem do que por uma descrição.
Acesse este link e navegue pela galeria de fotos “Esportes”, do
Arquivo Nacional, para desenvolver seus conhecimentos sobre a
história da Educação Física no Brasil.
Esse conhecimento nos tornará mais capazes de realizar análises e escolhas
profissionais acertadas. O passado nos ajuda a avaliar o que funcionou bem e o que
poderia ter sido feito de modo diferente; e a manter o que consideramos positivo,
buscando melhorar os pontos que precisam ser aperfeiçoados.
4
Figura 2 – Equipe feminina de Remo nos anos 1940.
Fonte: Correio da Manhã (1940).
Se soubermos que trabalhar a Educação Física escolar com foco na performance
esportiva se distancia dos objetivos educacionais da atualidade, não seguiremos
com essa abordagem, certo? A performance esportiva depende de características
biológicas que poucos possuem e é focada em desempenho, em ranqueamento. É uma
necessidade do contexto do esporte de rendimento, e sua adoção, como tendência
pedagógica, teve a consequência de excluir muitos alunos, provocando frustração e
desinteresse por desenvolver um estilo de vida ativo.
Figura 3 – Atleta de alto nível.
Fonte: Plataforma Deduca (2020).
5
O conhecimento histórico nos permite uma prática profissional fundamentada
em ética e em escolhas conscientes. Algumas opções que foram feitas no
passado tiveram usos políticos e consequências práticas na vida das pessoas,
as quais podemos conhecer previamente à nossa experiência, de maneira a optar
se queremos segui-las ou não; e se nos ajudam a cumprir nossos objetivos.
Além disso, o conhecimento histórico, mesmo que não tivesse aplicabilidade,
é um direito nosso. Temos direito a conhecer, e isso vale para o que é aplicável e
para o que não é aplicável. Conhecimento é patrimônio, e o conhecimento das
tradições relacionadas à cultura corporal de movimento é um valor que deveríamos
querer acessar.
Figura 4 – Atletas de Natação no ano de 1936.
Fonte: Correio da Manhã (1936).
Uma história ou várias histórias?
Conforme Melo (1997) afirma, o desenvolvimento dos estudos históricos da Educação
Física no Brasil pode ser divididos em três fases.
6
Primeira fase:
é uma fase inicial, em que foram realizados os primeiros estudos, ainda bem
rudimentares.
Segunda fase:
observam-se uma aproximação aos estudos históricos realizados em outras
áreas e o levantamento de informações qualitativas e quantitativas.
Terceira fase:
apresenta-se marcada por uma mudança nas características dos estudos
realizados na segunda fase, com abordagem crítica desses estudos.
Todas essas fases tiveram em comum a intenção de compreender como se constituiu
a Educação Física e de oferecer argumentos para as necessidades de mudança que
se observavam nesse campo de saber.
De acordo com Castelani Filho (1998), a produção teórica acerca da história da
Educação Física no Brasil está marcada por uma espécie de senso comum e se
orienta para o reporte à época imperial e aos primeiros anos da República, vinculando
a Educação Física às instituições militares.
7
Figura 5 – Exército Imperial Brasileiro.
Fonte: Orléans (1885).
O autor Lino Castelani Filho atribui esse fato ao prestígio da obra deixada por Inezil
Penna Marinho, que deu foco à relação entre Educação Física e instituições militares.
Como as publicações de Inezil foram, por muito tempo, uma das principais fontes de
consulta para quem trata do tema, sua percepção ganhou status de verdade dos fatos,
mas, em suas elaborações teóricas, Castelani Filho e outros autores tomam outros
caminhos para analisar a história da Educação Física.
Curiosidade
Para ampliar seus conhecimentos sobre a produção acadêmico-
científica sobre a história da Educação Física no Brasil, você pode
começar sua pesquisa neste link, com uma lista de textos publicada
no site [Link] (GENOVEZ E MELO, 1998).
Os trabalhos de Castelani Filho marcaram, de fato, a literatura sobre história da Educação
Física no Brasil, tanto que, anos depois, Paiva (2004) defende que nossa produção
acadêmica em história da Educação Física cresceu, a partir de 1989, em quantidade e
em qualidade; e cita, como principais referências, os textos de Castellani Filho (1988) e
de Ghiraldelli Júnior (1988).
8
Paiva (2004) ressalta a importância de se evitar produzir sensos comuns na história da
Educação Física brasileira, mas, entendendo que é preciso objetivar esse conhecimento
histórico, propõe a seguinte síntese provisória.
Polissemia:
Educação Física e História da Educação Física são expressões e campos do
saber com múltiplos significados. não há consenso que permita uniformizá-los
ou defini-los permanentemente.
Institucionalização:
os anos 1930 e o Estado Novo são marcos da institucionalização da Educação
Física em território brasileiro.
Higienismo:
a tendência higienista, ainda que de modo tardio em relação à da Europa, ganha
força em terras brasileiras nos anos 1930 e marca a história da Educação Física
como campo de práticas e de saberes fortemente influenciado por instituições
médicas, militares e pedagógicas; devido à medicalização das práticas de
movimento, o higienismo dá à Educação Física uma perspectiva científica.
Esportivismo:
entre o final do século XIX e o início do XX, o esportivismo se soma ao higienismo
e, também, mostra-se como um forte integrante da construção da história da
Educação Física no Brasil.
Formação profissional e renovação:
entre os anos 1970 e 1980, a Educação Física se renova. Vários profissionais
têm acesso à formação em nível de pós-graduação, inclusive fora do país, e a
área se diversifica com o surgimento de várias tendências renovadoras.
9
Figura 6 – Dança do folclore brasileiro - Lundu.
Fonte: Rugendas (1835).
Diante das breves reflexões e dos exemplos que expusemos, podemos entender que
fazer a história da Educação Física não significa nem listar a sucessão de fatos no
tempo nem inventariar métodos e técnicas conforme foram cronologicamente criados,
adotados e abandonados.
Fazer uma história da Educação Física é um ato atravessado por relações de poder
que envolvem questões sociais, culturais, científicas e políticas (SOARES, 2017). O
conhecimento histórico não é nem único nem permanente; e não deve ser tomado
como a verdade dos fatos. Trata-se mais de uma versão plausível dos fatos que é
produzida com o requerido rigor.
Os Pioneiros nos estudos da história da educação
física no Brasil: Rui Barbosa e Fernando de Azevedo
nos anos 1930, órgãos governamentais do Estado Novo e políticos como Fernando
de Azevedo resgataram o ideário de algumas personalidades que produziram
orientações marcantes para a Educação Física no Brasil na época do Império,
como Rui Barbosa.
10
Figura 7 – Rui Barbosa.
Fonte: Fitz Gerald (1919).
Esse movimento será explicado com mais detalhes no tópico que trata do início do
período republicano. Aqui, iremos nos concentrar em compreender o que esses dois
políticos defendiam para a Educação Física que deixou seus nomes marcados na
história; e como suas ideias reverberaram na sociedade da época.
No fim dos anos 1880, Rui Barbosa apresentou à Câmara dos Deputados dois
pareceres que tratavam da Educação no Brasil nos quais contemplava, também, a
Educação Física.
Curiosidade
O primeiro parecer foi apresentado no ano de 1882 e se chamava
“Reforma do Ensino Secundário e Superior” (BARBOSA, 1942, v.
IX, t. I). O segundo foi redigido no ano seguinte, com o título de
“Reforma do Ensino Primário e Várias Instituições Complementares
da Instrução Pública” (BARBOSA, 1947, v. X, t. I ao IV).
Nos documentos, ele propôs a inclusão da Educação Física como disciplina do Ensino
Primário, em conjunto com Ciências e com Desenho, com a intenção de promover um
avanço nos programas pedagógicos, que passariam do foco literário para o científico.
11
Atenção
Rui Barbosa se baseou nas mudanças sociais que aconteciam na
Europa, continente em que a Educação Física se tornava obrigatória
nas escolas. Mas suas ideias não tiveram aderência ampla, pois havia
empecilhos histórico-culturais que barravam a sua implementação,
como veremos no tópico que trata do período imperial.
Mesmo assim, alguns movimentos de modificação, no campo da Educação Física,
continuaram acontecendo na sociedade. As aulas de Educação Física que existiam
naquela época eram ministradas por militares, e sequer havia escolas de formação de
professores civis.
Bem mais tarde, as ideias de Rui Barbosa são retomadas. Com a Reforma do Ensino
do Distrito Federal realizada por Fernando de Azevedo em 1928, foi proposta a criação
de uma escola de formação de professores civis de Educação Física (MARINHO,
1941), e se iniciou um movimento que alguns veem como o início da desmilitarização
da Educação Física no Brasil.
Alguns autores contestam que a iniciativa de Fernando Azevedo tenha tido êxito
como estratégia de desmilitarização. A escola que propôs não foi criada, embora civis
tenham sido aceitos como estudantes de escolas militares de formação de instrutores
de Educação Física.
Figura 8 – Turma de professores civis formados na Escola
de Educação Física do Exercito
Fonte: Revista de Educação Física (1933) apud (Corrêa, 2013, p. 195).
12
Mas a questão da influência militar sobre a Educação Física escolar brasileira
permanece controversa. Há estudos que veem as propostas de Fernando de Azevedo
como uma extensão do projeto de militarização da Educação Física que se implementou
dos anos 1930 até os anos 1940.
Educação Física no Brasil Colônia (1500-1822)
A Educação Física, no período colonial, fica marcada pela divisão entre o mundo de
movimento dos colonizadores e o das tribos indígenas que habitavam o Brasil. Os
indígenas tinham estilo de vida ativo e modos de vida integrados à natureza, e suas
necessidades de sobrevivência envolviam o esforço físico, a corrida, o nado, a caça e
a pesca.
Além disso, contavam com uma rica e diversificada cultura, que era composta por
danças e por jogos próprios. Essa cultura foi bastante destruída pelos colonizadores,
que se obstinaram em impor os valores cristãos e não aceitaram a influência indígena
em seus hábitos de movimento.
Figura 9 – Desembarque de Pedro Alvarez Cabral.
Fonte: Silva (1922).
Na famosa carta que Pero Vaz de Caminha escreveu quando descobriu o Brasil, ele
descreve um pouco da cultura de movimento dos indígenas que aqui encontrou.
13
“[D]epois de acabada a missa, assentados nós à pregação, levantaram-se
muitos deles, tangeram corno ou buzina, e começaram a saltar e dançar
um pedaço. E alguns deles se metiam em almadias -- duas ou três que
aí tinham -- as quais não são feitas como as que eu já vi; somente são
três traves, atadas entre si. E ali se metiam quatro ou cinco, ou esses que
queriam não se afastando quase nada da terra, senão enquanto podiam
tomar pé. (...) Além do rio, andavam muitos deles dançando e folgando,
uns diante dos outros, sem se tomarem pelas mãos. E faziam-no bem.
Passou-se então além do rio Diogo Dias, almoxarife que foi de Sacavém,
que é homem gracioso e de prazer; e levou consigo um gaiteiro nosso com
sua gaita. E meteu-se com eles a dançar, tomando-os pelas mãos; e eles
folgavam e riam, e andavam com ele muito bem ao som da gaita. Depois
de dançarem, fez-lhes ali, andando no chão, muitas voltas ligeiras, e salto
real, de que eles se espantavam e riam e folgavam muito. E conquanto
com aquilo muito os segurou e afagou, tomavam logo uma esquiveza
como de animais monteses, e foram-se para cima”. (CAMINHA, 2019).
O Brasil colônia foi uma sociedade escravagista, e a cultura africana deixou
marcas fortes na cultura de movimento brasileira. Dos africanos, incorporamos
vários movimentos de dança e, também, a capoeira, uma luta disfarçada de dança,
criação dos negros que habitavam as terras brasileiras para combater sua condição
de escravizados.
Figura 10 – Capoeira.
Fonte: Plataforma Deduca (2020).
14
Além da capoeira, há diferentes manifestações da cultura popular, modalidades de
dança e, até mesmo, o carnaval que sofreram influência dos africanos trazidos para
o Brasil durante a época do império. Algumas manifestações folclóricas carregam,
também, marcas das tradições indígenas.
Educação Física no Brasil Império (1822 A 1889)
As informações sobre as práticas corporais no Brasil Império são esparsas. Não havia
muitas produções teóricas a respeito do tema, mas algumas fontes desse período se
tornaram importantes e acabam por ser retomadas por vários autores que se propõem
a contar uma história da Educação Física. É o caso do “Tratado de Educação Física e
Moral dos meninos”, elaborado por Joaquim Antônio Serpa, em 1823, que colocava a
Educação como responsável pela saúde do corpo e pela cultura do espírito. Também
apresentava duas categorias de exercícios físicos, os que exercitavam o corpo e os
que exercitavam a memória.
Outro período muito marcante da época do Império foi o da Reforma Couto Ferraz,
que ocorreu no ano de 1851 e tornou obrigatória a Educação Física nas escolas
do município da Corte. É considerado o início da Educação Física escolar no
Brasil. Apesar da força de lei, a reforma Couto Ferraz não encontrou muita adesão.
Seus postulados não foram bem recebidos pela sociedade, e acabou não sendo
amplamente implementada.
Figura 11 – Luiz Pereira de Couto Ferraz, o Barão do Bom Retiro.
Fonte: Wikipédia (2019).
15
Lima (2012) relata que os pais ficaram contrariados em pensar que seus filhos
usariam o tempo que passavam na escola para realizar atividades de caráter não
intelectual. Isso era de se esperar, tendo em vista que a concepção racionalista
predominava na sociedade daquela época; e que o trabalho e o esforço físicos
eram tidos como atividades que deveriam ser realizadas pelos estratos sociais
considerados inferiores.
Além disso, a regra não valia, equivalentemente, para meninos e para meninas. No
caso destas, a prática era facultativa. Naquela época, havia um forte preconceito
em relação à prática de atividades físicas por mulheres. Já para os meninos, era
tolerada, excepcionalmente, no contexto do treinamento militar, que envolvia a
prática de ginástica.
Outro ponto importante foi a ação de Rui Barbosa, em 1880, de emitir parecer sobre
o projeto 224 – Reforma Leôncio de Carvalho, Decreto nº 7.247, de 19 de abril de
1879, da Instrução Pública –, defendendo a adoção da prática de ginástica pelas
escolas; e, também, que os professores de ginástica adquirissem status equivalente
aos dos mestres das outras disciplinas, visto que, até aquele momento, a ginástica era
ministrada, nas escolas, por militares de carreira.
Assim como ocorreu com a reforma Couto Ferraz, as mudanças propostas por Rui
Barbosa não foram adotadas no território nacional e tiveram adesão apenas nas
escolas militares e em algumas escolas do Rio de Janeiro.
Educação Física no Brasil República (1890 A 1946)
Conforme Castelani Filho (1998) sustenta, a prática sistemática de atividades de
movimento ganhou contornos especiais com a urbanização e com a industrialização.
A partir do fim do século XIX e do início do século XX, começa a ser vista como
uma necessidade dos grupamentos urbanos civilizados; e a enfrentar aspectos
contraditórios das condições históricas e sociais.
16
Curiosidade
• Com a invenção do cinema, foi possível fazer registros
filmados das práticas corporais. Para ver como funcionava
uma sessão de ginástica para mulheres de acordo com o
método alemão, acesse este link.
• Para conhecer, em detalhes, os métodos ginásticos e suas
interfaces com a Educação Física brasileira, você pode
recorrer a uma pesquisa nas obras de Carmem Lúcia Soares.
Clique sobre os títulos e inicie a leitura.
• Educação Física: raízes européias e Brasil e,
• Imagens a educação no corpo: um estudo a partir da
ginástica francesa no século XIX
Alguns autores dizem que, no período inicial do Brasil República, a Educação Física
teve duas fases bem distintas. A primeira se estendeu de 1889 até a revolução de 1930.
Durante esse período, por volta dos anos 1920, outros estados brasileiros seguem o
exemplo do Rio de Janeiro e, aproveitando a realização de reformas educacionais,
incluem a Educação Física nos currículos escolares com o nome de ginástica.
No período seguinte, a Educação Física passa a ser de interesse político e ganha
destaque nas preocupações do governo. Nos anos 1929, sob influência do movimento
da Escola Nova, passa a ser considerada importante para a formação integral do ser
humano.
Os escritos de Rui Barbosa são, novamente, evocados nas décadas de 1930 e de 1940,
e personalidades como Gustavo Capanema e Fernando Azevedo os selecionam para
tratar de reforma no ensino brasileiro.
17
Curiosidade
Nessa época, um órgão instituído pelo Estado Novo, a Divisão de
Educação Física, que era coordenado por um oficial militar, retoma
os textos de Rui Barbosa; promove uma homenagem póstuma, em
que o chama de um dos “pioneiros da Educação Física no Brasil”; e
destaca a importância desses documentos para o desenvolvimento
dos princípios higienistas e o caráter de formação moral que os
orientava.
Isso aconteceu porque, tantos anos depois, a prática da ginástica como parte das
atividades escolares permanecia em discussão, ainda que tivesse se tornado
obrigatória por ato da constituição de 1937. A seguir, veremos uma explicação
sintética dos métodos ginásticos que foram comparados por Fernando de Azevedo
nos pareceres em que defendia a prática dessa modalidade de atividade física.
ESCOLA ALEMÃ
A ginástica é praticada com finalidades
nacionalistas, ligada à consolidação da unidade
nacional alemã que estava em andamento. A
Alemanha desejava criar um senso de população
constituída por homens e por mulheres saudáveis,
de constituição forte e robusta. Tinha base
científica, e Guts Muths e Ludvig Jahn foram
precursores dos seus métodos, com base nas
idéias dos pedagogos Rousseau, Pestalozzi e
Basedow.
18
ESCOLA SUECA
Criada com finalidades nacionalistas, higienistas
e morais, pretendia formar bons operários e bons
soldados, indivíduos fortes e livres de vícios,
principalmente o alcoolismo. Seu idealizador
foi Pehr Enrich Ling, que concebeu um método
pautado em ciência e com quatro possíveis
aplicações: pedagógica, militar, médica ou
ortopédica e estética. Rui Barbosa e Fernando de
Azevedo foram personalidades que estimularam a
prática da ginástica Sueca no Brasil.
ESCOLA FRANCESA
O método francês foi proposto por Francisco de
Amoros de Odeaño, com inspiração em ideias
de pedagogos como Rousseau, Condorcet e
Lepelletier. Na França, a ginástica era vista como
necessária para a educação humana global. Tinha
menos orientação militarista, mas, também, foi
influenciada pelas ideias patrióticas e pela base
científica do método alemão. Assim como Ling,
criou subdivisões para a ginástica: civil e industrial,
militar, médica e cênica ou funambulesca. O Brasil
se interessou pela vertente civil, que chegou a se
disseminar no território nacional.
Nesse período, a Educação Física era trabalhada com base nos métodos ginásticos
europeus e, nos anos 1930, sofreu forte influência das tendências eugenistas, que,
rapidamente, cederam espaço às higienistas, com a finalidade de promover a saúde
e de combater os males que se apresentavam como consequências da urbanização.
19
Curiosidade
Glossário
O eugenismo surge com base nas teorias de Charles Galton
de que a capacidade intelectual é uma herança genética. A
partir dela, vários países adotam estratégias para promover
o desenvolvimento das nações com base na melhoria da raça,
ou seja, na eliminação dos considerados mais débeis e de sua
descendência.
A tendência higienista perdurou por mais tempo do que as outras e foi se renovando.
Hoje, podemos considerar que é precursora das abordagens que relacionam a
Educação Física à saúde.
20
Conclusão
Neste conteúdo, você conheceu alguns acontecimentos marcantes, alguns fatos
importantes e algumas personalidades proeminentes na construção da Educação
Física escolar brasileira.
O estudo da história da Educação Física e a compreensão de alguns processos pelos
quais passou até ganhar os currículos escolares são fundamentais para a análise e
para a compreensão do momento atual dessa disciplina.
Este estudo deve se dar a partir de fontes diversas e, de preferência, que tragam
fatos, interpretações e abordagens diferentes do mesmo momento histórico. Visões
contraditórias não devem nos levar a uma confusão, pois, na história, não há certo
ou errado, mas interpretações possíveis com base em dados, em documentos e
em fatos.
Desde o início da colonização pelos portugueses até meados do século XX, a Educação
Física esteve fortemente ligada às instituições militares, e isso marcou a formação
profissional, as práticas pedagógicas e os usos políticos que foram feitos dela.
21
Referências
ARQUIVO Nacional. Esportes. Flickr, [S. d.]. Disponível em: [Link]
photos/arquivonacionalbrasil/albums/72157684424505254. Acesso em: 03 maio
2020.
BARBOSA, R. Reforma do Ensino Secundário e Superior. Rio de Janeiro: Ministério da
Educação e Saúde/Imprensa Nacional, 1942.
______. Reforma do Ensino Primário e Várias Instituições Complementares da Instrução
Pública. Rio de Janeiro: Ministério da Educação e Saúde/Imprensa Nacional. 1946.
CASTELLANI FILHO, L. Educação Física no Brasil: a história que não se conta. Papirus
Editora, 1988.
CAMINHA, P. V. A carta de Pero Vaz de Caminha. Editora Vozes, 2019.
MELO, V. A. Porque devemos estudar História da Educação Física/Esportes nos cursos
de graduação?. Motriz, v. 3, n. 1, p. 56-61, 1997. Disponível em: [Link]
br/ib/efisica/motriz/03n1/[Link]. Acesso em: 03 maio 2020.
PAIVA, F. S. L. Notas para pensar a Educação Física a partir do conceito de campo.
Perspectiva, v. 22, n. 3, p. 51-82, 2004. Disponível em: [Link]
php/perspectiva/article/view/10337. Acesso em: 03 maio 2020.
GENOVEZ, P. F.; MELO, V. A. Bibliografia brasileira sobre história da Educação Física e
do esporte. Rio de Janeiro: Gama Filho, 1998.
KLISTENIA. Sessão de ginástica alemã - Calistenia. [S. d.]. (4m02s). Disponível em:
[Link] Acesso em: 03 maio 2020.
LIMA, R. R. Para compreender a história da Educação Fisica. Educação e Fronteiras,
v. 2, n. 5, p. 149-159, 2012. Disponível em: [Link]
article/download/2241/1277. Acesso em 03 maio 2020.
22
MAGALHÃES, C. H. F. Breve histórico da Educação Física e suas tendências atuais
a partir das identificações de algumas tendências de ideias e ideias de tendências.
Revista da Educação Física/UEM, Maringá, v. 16, n. 1, p. 91-102, jan./jul. 2005. Disponível
em:[Link]
Acesso em: 28 fev. 2020.
RAMOS, J. J. Os exercícios físicos na história e na arte. São Paulo: Ibrasa. 1982.
______. Imagens da educação no corpo: um estudo a partir da ginástica francesa no
século XIX. Campinas: Autores Associados, 1998.
SHIGUNOV NETO, A. História da educação brasileira: do período colonial ao predomínio
das políticas educacionais neoliberais. São Paulo: Salta, 2015.
SOARES, C. L. Educação Física: raízes européias e Brasil. Campinas: Autores
Associados, 1994.
______. Imagens a educação no corpo: um estudo a partir da ginástica francesa no
século XIX. Campinas: Autores Associados, 2013.
SOUZA NETO, S. et al. A formação do profissional de Educação Física no Brasil: uma
história sob a perspectiva da legislação federal no século XX. Rev. Bras. Cienc. Esporte,
Campinas, v. 25, n. 2, p. 113-128, jan. 2004. Disponível em: [Link]
br/[Link]/RBCE/article/download/230/232. Acesso em: 3 mai. 2020.
23
BOARINI, M. L.; YAMAMOTO, O. H. Higienismo e eugenia: discursos que não envelhecem.
Psicol. rev, v. 13, n. 1, p. 59-71, maio 2004. Disponível em: [Link]
org/portal/resource/pt/lil-418250. Acesso em: 13 maio 2020.
BRASIL. Senado Federal. Nova Lei do desporto Brasileiro: Lei n.º 8672, de 6 de julho
de 1993. Brasília, DF: Senado Federal, 1993.
DODÔ, A. M.; REIS, L. N. Século XIX e o Movimento Ginástico Europeu: o processo
de sistematização da ginástica. EFDeportes, Buenos Aires, v. 18, n. 190, mar. 2014.
Disponível em: [Link]
[Link]. Acesso em: 13 maio 2020.
FENSTERSEIFER, P. E. et al. Professoras de Educação Física: duas histórias um só
destino. Movimento, Porto Alegre, v. 13, n. 2, p. 13-35, maio/ago. 2007.
MAGALHÃES, C. H. F. Breve histórico da Educação Física e suas tendências atuais
a partir das identificações de algumas tendências de ideias e ideias de tendências.
Revista da Educação Física/UEM, Maringá, v. 16, n. 1, p. 91-102, jan./jul. 2005.
RUBIO, K. Jogos Olímpicos da Era Moderna: uma proposta de periodização. Rev. bras.
Educ. Fís. Esporte, São Paulo, v. 24, n. 1, p.55-68, jan./mar. 2010. Disponível em: https://
[Link]/pdf/rbefe/v24n1/[Link]. Acesso em: 13 maio 2020.
SOARES, C. L. Imagens da Educação no Corpo: Estudo a partir da ginástica francesa
no século XIX. 2ed. Campinas: Autores Associados, 2002.
24