A teoria das relações sociais de sexo: um quadro de análise...
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O MODELO POLICIAL PROFISSIONAL E A
FORMAÇÃO PROFISSIONAL DO FUTURO
POLICIAL NAS ACADEMIAS DE POLÍCIA DO
ESTADO DO RIO DE JANEIRO1
Paula Poncioni*
Resumo: No Brasil, um exame da questão da segurança pública revela
que, pelo menos desde meados dos anos 70, há um crescimento
contínuo da criminalidade e da violência, principalmente nas regiões
metropolitanas e periferias das grandes cidades do País, e que o
sistema judiciário e, em particular, a polícia tem se mostrado ineficaz
para o enfrentamento da questão. Neste cenário, um dos temas
freqüentemente levantados por estudiosos da área de segurança,
por formuladores de políticas públicas, por autoridades de governo
e pelos próprios policiais é a necessidade de profissionalizar a polícia
brasileira como um recurso para capacitá-la para o desempenho mais
eficiente, mais responsável e mais efetivo na condução da ordem e
segurança públicas. O objetivo principal deste trabalho é analisar o
modelo de polícia profissional presente no ensino e treinamento
profissional desenvolvido nas academias de polícia, civil e militar, e
suas conseqüências para a formação do futuro policial, com vistas
ao desempenho das atividades policiais cotidianas. A análise aqui
proposta baseia-se, fundamentalmente, na documentação relativa
aos currículos dos cursos de formação profissional básica ministrados
pelos centros de ensino e treinamento profissional – civil e militar –
do Estado do Rio de Janeiro: a Academia Estadual Sylvio Terra
(ACADEPOL); o Centro de Formação e Aperfeiçoamento de Praças
31 de Voluntários (CFAP); e a Academia de Polícia D. João VI (APM
D. João VI).
* Professora adjunta do Departamento de Política Social e Serviço Social Aplicado da
Escola de Serviço Social da Universidade Federal do Rio de Janeiro; doutora em
Sociologia. E-mail: pponcioni@[Link]
Artigo recebido em 7 jul. 2005; aprovado em 21 nov. 2005.
Sociedade
Sociedade ee Estado,
Estado, Brasília,
Brasília, v.v. 20,
20, n.
n. 3, 585-610, set./dez. 2005
3 p. 561-584,
586 Paula Poncioni
Introdução
No Brasil, um exame, ainda que superficial, da questão da
segurança pública revela que, pelo menos desde meados dos anos
70, há um crescimento contínuo da criminalidade e da violência,
principalmente nas regiões metropolitanas e periferias das grandes
cidades do país, e que o sistema judiciário, e, em particular, a polícia
tem se mostrado ineficaz para o enfrentamento da questão.
Especialmente nas áreas urbanas do país, a sensação de medo
e insegurança – objetiva e subjetiva – tem sido experimentada como
um grave problema público devido à expectativa de que qualquer
pessoa pode se tornar vítima de crime em qualquer ponto das cidades
e em qualquer momento de sua vida cotidiana.
Neste cenário caótico de insegurança, um dos temas
freqüentemente levantados por estudiosos da área de segurança, por
formuladores de políticas públicas, por autoridades de governo e pelos
próprios policiais é a necessidade de profissionalizar a polícia brasileira
como um recurso para capacitá-la para o desempenho mais eficiente,
mais responsável e mais efetivo na condução da ordem e segurança
públicas.
Não obstante nas últimas duas décadas terem se verificado
inovações na área da formação profissional, poucas iniciativas
lograram sucesso no sentido de implementar mudanças efetivas nas
práticas e procedimentos dominantes, inscritos em um padrão de
desempenho que se traduz não só na ineficácia dos resultados obtidos
para o enfrentamento da questão, mas que se reveste de aspectos
suplementares relacionados, fundamentalmente, à forma de atuação
predominantemente violenta e arbitrária da polícia, permanecendo
como desafio à sociedade contemporânea brasileira. Salvo raríssimas
exceções, as propostas para reformulação da formação profissional
da polícia no país, não incorporaram o debate sobre o modelo
profissional a ser adotado pela polícia e as metodologias práticas de
intervenção para a realização das tarefas cotidianas envolvendo a
manutenção da ordem e segurança públicas.
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O modelo policial profissional e a formação profissional do futuro... 587
Particularmente, no Estado do Rio de Janeiro, constata-se que
a urgência de respostas imediatas às demandas e pressões para maior
segurança tem sido o fio condutor para a implementação de propostas
variadas, muitas vezes divergentes entre si, para a área de segurança
pública, em particular para a formação profissional, em ambas
organizações policiais, sem que, até o momento, tenham sido
alcançadas mudanças mais efetivas, de longo e duradouro espectro
no manejo das questões relativas ao controle do crime mais eficaz e
responsável.2
Neste sentido, entende-se que é de fundamental importância
para as intervenções que visem à efetividade do trabalho policial,
considerar o exame dos modelos policiais profissionais existentes,
suas premissas para a conduta policial, os objetivos visados, os meios
utilizados para alcançá-los e as conseqüências para o exercício da
atividade policial na contemporaneidade.
O objetivo principal deste trabalho é analisar o modelo de polícia
profissional presente no ensino e treinamento profissional desenvolvido
nas academias de polícia, civil e militar, e suas conseqüências para a
formação do futuro policial, com vistas ao desempenho das atividades
policiais cotidianas na sociedade brasileira de hoje.
A análise aqui proposta baseia-se, essencialmente, na
documentação relativa aos currículos dos cursos de formação
profissional básica ministrados pelos centros de ensino e treinamento
profissional – civil e militar – do Estado do Rio de Janeiro: a Academia
Estadual Sylvio Terra (ACADEPOL), onde são realizados o
recrutamento, a seleção, a formação, a especialização, e o
aperfeiçoamento profissional de policiais civis – agentes policiais e
delegados de polícia; o Centro de Formação e Aperfeiçoamento de
Praças 31 de Voluntários (CFAP), responsável pela formação e
aperfeiçoamento profissional de praças; e a Academia de Polícia D.
João VI (APM D. João VI), onde é realizado o curso de formação
profissional de oficiais.
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Premissas e conseqüências de um modelo policial profissional
na formação profissional do futuro policial para o desempenho
das atividades cotidianas
Na organização policial, geralmente, a primeira etapa da
socialização do futuro policial se dá através da academia de polícia,
onde se opera formalmente a socialização secundária dos “novatos”,
com a introdução de conhecimentos e habilidades técnicas. A segunda
etapa se realiza nos locais e nas posições designadas para o policial
trabalhar, e a aprendizagem ocorre, privilegiadamente, a partir da
realidade cotidiana da organização policial.3
Nas academias de polícia, usualmente, o conteúdo de um
processo formal de socialização profissional para “moldar” os futuros
policiais inclui a seleção de certas matérias teóricas e práticas e de
determinados eventos sobre outros, uma posição estilizada para as
atividades rotineiras do cargo a ser ocupado, e algumas idéias da
conveniência de um elenco de respostas comportamentais para
situações periódicas no mundo do trabalho.
Nesta perspectiva, os programas de ensino e treinamento
profissional dos policiais nas academias de polícia exemplificam uma
das estratégias fundamentais de transmissão de idéias, conhecimentos
e práticas de uma dada visão do papel, da missão, do mandato e da
ação deste campo profissional, que necessariamente envolve a
transmissão de valores, crenças e pressupostos sobre este campo
específico e que é revelada, particularmente, nas diretrizes teóricas
e metodológicas dos currículos dos cursos oferecidos para a
socialização do novo membro, em um contexto sócio-histórico
determinado.
Portanto, destaca-se a importância da formação profissional
básica realizada nas academias de polícia para a construção da
identidade profissional, fundamentalmente, como uma etapa que faz
considerável diferença para a vida profissional do policial, não apenas
dada a importância da experiência de formação do membro na
aquisição formal dos valores e normas próprias da profissão e das
competências e das habilidades para o campo de trabalho, mas
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também na aquisição dos valores e crenças acerca da profissão,
consubstanciados em uma base de conhecimento e de cultura comum
sobre o que é ser policial em um determinado modelo de polícia
profissional.
Na literatura especializada produzida pelas ciências sociais,
pode-se encontrar uma enorme quantidade de modelos atribuídos à
polícia: modelo “paramilitar”, “burocrático-militar”, modelo de
aplicação da lei (“law enforcement”), modelo de “serviço”, modelo
de “polícia comunitária” (“community policing”), entre outros.
Vale salientar que não há modelos policiais puros,
unidimensionais, como também não há práticas policiais genuínas e
que envolvam uma só dimensão. Um modelo constitui um quadro de
referência analítico, que apresenta um conjunto coeso de argumentos
acerca do papel, das funções e da missão da polícia, da filosofia de
trabalho, da política administrativa adotada e das estratégias e táticas
operacionais concebidas pela organização para moldar o
comportamento policial numa determinada sociedade, num dado
momento histórico.
No percurso da história da polícia, evidencia-se, sobremaneira,
que os aspectos vinculados à burocratização e à militarização, com
excessivo realce no comportamento profissional e legalista dos
policiais, permearam a construção de um determinado modelo policial
profissional, que ainda hoje serve de base para a estrutura policial
nas sociedades democráticas ocidentais, orientando a organização
da polícia, os seus princípios e métodos, desde a aplicação do
treinamento, englobando desde a filosofia, a terminologia, a literatura
organizacional até o estilo de policiamento, envolvendo táticas e
estratégias, o equipamento utilizado nas operações de policiamento,
etc.
É importante reconhecer que esse modelo policial profissional,
proveniente das reformas da polícia que ocorrem no final do século
XIX e durante a primeira metade do século XX, é uma resposta
inovadora para os problemas que precederam sua montagem e a sua
peculiaridade reside no entrelaçamento de dois modelos de polícia –
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o burocrático-militar e o de aplicação da lei. De modo geral, sua
implementação traz consigo a expectativa dos reformadores de torná-
la mais disciplinada, menos discricionária nas suas operações, menos
politizada e mais profissional.
De acordo com esse modelo, o policial é um aplicador imparcial
da lei, relacionando-se com os cidadãos profissionalmente, em
condições neutras e distantes, cabendo-lhe cumprir os deveres oficiais,
seguindo os procedimentos rotinizados, independentemente de
inclinações pessoais e a despeito das necessidades do público não
enquadradas pela lei. As atividades que deslocam a polícia para
resolver outros tipos de problemas da comunidade, e requerem outros
tipos de resposta, são identificados como “assistência social”, e são
objeto de desprezo – “garbage calls” (Moore, 1992, p. 115). Toda
ação policial deve ser explicada por meio da referência à legalidade
e os policiais são encorajados a controlar situações comuns como se
fossem questões de aplicação da lei, ao invés de manutenção de
ordem. Com a ênfase no controle do crime, os policiais são
pressionados a “produzir” prisões e multas, sendo esperado que façam
seu trabalho usando a lei para punir aqueles compreendidos como
merecedores.
Nesse modelo, a organização policial espera por um crime, a
ser notificado por alguém, para ativar seu trabalho, em resposta ao
que é demandado como serviço. Em conseqüência, a polícia se
estrutura como uma “máquina de reação” forte (Fielding, 1996, p.
44), que utiliza regras e procedimentos estipulados por critérios
próprios, uma vez ativada pelo público, em uma perspectiva claramente
reativa.
Com o gradual aumento do crime violento na maior parte das
grandes cidades dos países das democracias ocidentais, o discurso
do “controle do crime” é progressivamente substituído pelo da “guerra
contra o crime”, fortalecendo no imaginário do público e da polícia a
idéia do perigo iminente e da necessidade de mobilização máxima de
esforços para derrotar aquilo que provoca tal circunstância.
Neste contexto, a adoção de um estilo militar de organização
não se dá por acaso, mas retrata a tentativa de estruturar um arranjo
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organizacional que possa mobilizar os indivíduos para reagir, dentro
de uma maneira aderente e disciplinada, a fim de responder
imediatamente às situações apresentadas. Nesta espécie de missão
de combate contra o crime, o modelo de prontidão militar mostra-se
como aquele capaz, por excelência, para complementar de maneira,
supostamente mais eficiente a ação da polícia, com vistas a controlar
o crime.
A esse modelo de polícia profissional que reforça os aspectos
legalistas do trabalho policial, em um arranjo burocrático-militar, com
ênfase no controle do crime, como a alternativa primordial para lidar
com o assunto de segurança pública, denominei de “modelo de polícia
profissional tradicional” (Poncioni, 2004).
A polícia, orientada principalmente para o controle do crime,
com forte apelo ao “combate ao crime”, tem a grande vantagem de
fornecer o que é percebido amplamente pelo público e pelos próprios
policiais como a missão das instituições policiais. No entanto, a ênfase
no controle do crime conduz ao descuido de outras demandas e
interesses; ademais, esta concepção baseada em uma estratégia
exclusivamente reativa, mostra-se ser menos efetiva que o prometido
com relação ao controle do crime em geral e, em pelo menos alguns
crimes particulares, o seu fracasso é amplamente indicado na
literatura.4 Além disso, como argumenta Fairchild (1984), a idéia de
“lei e ordem” compreende não somente o cumprimento de lei, mas
também a manutenção da ordem em situações diversas de
intranqüilidade civil ou de catástrofe. Acrescente-se, ainda, que muitos
estudos sociológicos de língua anglo-saxã têm revelado uma
multiplicidade de tarefas exercidas no trabalho diário do policial que
nem sempre estão relacionadas ao atendimento a problemas
estritamente legais ou penais, revelando um cotidiano que tem pouco,
ou quase nada, a ver com os aspectos propagados em torno da restrita
idéia do trabalho policial vinculado apenas ao cumprimento da lei.
Assim, é possível inferir que a despeito do incontestável avanço
que significou a organização do trabalho policial sob os auspícios
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desse modelo policial profissional, são várias as conseqüências
indesejáveis decorrentes dos princípios emanados pelo modelo.5
No que diz respeito, especificamente, à formação profissional
do policial, pode-se apontar uma primeira importante conseqüência
resultante do modelo profissional em foco – o descompasso entre o
conhecimento adquirido para o desempenho do trabalho policial nos
bancos das academias e a realidade na qual se realiza o trabalho
cotidiano da polícia. De um lado, dentro da organização, principalmente
no período de treinamento, transmite-se a idéia do trabalho policial
baseado essencialmente no controle do crime e no cumprimento da
lei, com ênfase na importância de sua adesão às regras e
procedimentos da organização para o controle do crime nos limites
da lei. Além disso, neste contexto, ele experimenta uma enorme
restrição com relação à tomada de decisão nas atividades concernentes
ao dia-a-dia da organização. De outro, fora da organização, ele se
defronta com uma grande diversidade de situações com relação às
quais tem de tomar constantemente decisões que não estão
necessariamente de acordo com as diretrizes, procedimentos, ordens
gerais, ou mesmo com os processos formais da legalidade, mas têm
por objetivo fundamentalmente a aplicação eficiente de certas leis e
regras para a manutenção da ordem, muito mais do que o respeito
integral à legalidade ou às regras estabelecidas pela organização.6
Deste modo, a formação e treinamento profissional fornecidos
nas academias de polícia, quase sempre atados rigorosamente aos
aspectos normativo-legais do trabalho, acabam sendo simplistas e
irreais, levando o indivíduo a descartar o que foi ensinado na academia
nesta fase de socialização.7
Na história recente, a partir dos anos 70, em diferentes
contextos nacionais, o reconhecimento de algumas das limitações
deste modelo, dotou o profissionalismo entre as polícias de uma nova
direção, com a adoção de um novo tipo de modelo de polícia
profissional que enfatiza o serviço público, a discrição do policial
informada por alto nível de educação e treinamento, e a ligação mais
estreita entre a polícia e a comunidade.
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Verifica-se que as mudanças propostas para a polícia são
pensadas tanto em termos da posição do policial na organização
moldada sob o modelo quasi-militar – com sua insistência no
cerceamento de discrição, falta de recompensas para iniciativas
individuais fora dos rígidos parâmetros de disciplina e hierarquia, e
impessoalidade em geral – quanto em termos da necessidade de
diminuir o isolamento da polícia em relação ao público.
Ressalta-se, porém, que este deslocamento do profissionalismo
na polícia não pode ser tomado como homogêneo em suas premissas,
como também não pode ser generalizado para todos os países
ocidentais como, por exemplo, o Brasil.
No caso brasileiro, a formação profissional sob os auspícios
do modelo policial profissional desenvolvido nas academias de polícia
mostra-se particularmente problemático, não apenas pela ineficácia
das atividades para reduzir o crescimento da criminalidade e da
violência, o que Levy (1997) chamou de “crise do modelo liberal de
organização policial”, mas reveste-se de contornos peculiares, que
insinuam extensos obstáculos para o estabelecimento das bases do
que denomino o “modelo de polícia profissional novo”, identificado
com as premissas mencionadas acima.
A versão “carioca” do modelo policial profissional e a
formação profissional do policial nas academias de polícia8
A pesquisa desenvolvida junto à Polícia Civil e à Polícia Militar
do Estado do Rio de Janeiro9 destaca a especificidade que envolve a
polícia brasileira, traduzida na duplicidade das polícias para o
desempenho das funções de manutenção da ordem e aplicação da
lei. Neste sentido, pode-se afirmar que a organização policial civil e a
organização policial militar constituem-se dois universos distintos, no
que diz respeito às funções, às estruturas organizacionais, aos sistemas
de carreira, e à formação profissional.
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No entanto, o estudo salienta, ainda, que, apesar de
incomparáveis em determinados aspectos, como os acima
mencionados, a Polícia Civil e a Polícia Militar podem ser equiparadas
no que tange à alocação de meios governamentais para dotar de
melhores recursos humanos a polícia do Estado.
Verificam-se fragilidades comuns no processo de socialização
do futuro policial, uma vez enfocados alguns indicadores objetivos
concebidos como essenciais para qualificar uma polícia como
profissionalizada, como, por exemplo, um rigoroso sistema de
recrutamento e seleção de recursos humanos, ou mesmo a
estruturação dos cursos de formação profissional.
A pesquisa realizada nos centros de ensino e treinamento
profissional da Polícia Civil e da Polícia Militar do Estado do Rio de
Janeiro indica que os tipos de conhecimentos aprendidos durante o
período de formação profissional incluem as várias dimensões de
conhecimento da cultura organizacional, de conhecimento técnico
básico e de procedimentos rotineiros do “fazer profissional”, com
ênfases diferenciadas para cada nível hierárquico.
O estudo aponta, porém, que entre a organização policial civil
e a organização policial militar há dramáticas variações no processo
de formação de seus membros, relacionadas, em especial, ao grau
de intensidade conferido ao ensino e treinamento profissional básico
dos recém-admitidos.
Neste sentido, observa-se a profunda distinção entre aquele
que planeja e aquele que executa, permeando todo o cotidiano da
organização policial, afetando por inteiro o funcionamento e a
estruturação da formação profissional do policial.
O aspecto mais visível desta concepção de organização do
trabalho manifesta-se no interior da organização policial militar,
residindo na rígida divisão que separa hierarquicamente o ambiente
organizacional pelas funções, responsabilidades e papéis conferidos
aos Oficiais, preparados para exercerem as atividades de
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planejamento, e aquelas atribuídas aos Praças, preparados para a
execução das atividades planejadas.
Esta distinção está também presente na organização policial
civil, consistindo, fundamentalmente, na divisão que separa
hierarquicamente as funções, competências e atribuições funcionais
relacionadas às atividades de planejamento conferidas aos Delegados
de Polícia e aquelas designadas às atividades de execução atribuídas
aos Agentes Policiais. No entanto, uma observação empírica, ainda
que superficial, indica que, na organização policial civil, esta separação
não se traduz com a mesma força e intensidade como no interior da
organização policial militar, que mantém uma rígida hierarquia e
disciplina no ambiente organizacional da corporação.
O exame dos currículos dos centros de ensino e treinamento
profissional básico das duas corporações revela que: por um lado, há
entre as polícias, uma grande variação no conteúdo das disciplinas
dos cursos, estrutura e extensão dos programas de treinamento básico
policial; por outro lado, não há muita diferenciação no conteúdo
simbólico do “fazer profissional” do policial, reforçando a reprodução
do “modelo policial profissional tradicional” no processo de forma-
ção do futuro policial em ambas as corporações.
A predominância do “modelo policial profissional tradicional”
no conteúdo do processo de formação profissional do futuro policial
encontra-se consubstanciado em uma concepção do trabalho
policial que enfatiza o comportamento legalista dos policiais em um
arranjo burocrático-militar que influencia a cultura, a filosofia de
trabalho, a política administrativa, o treinamento, as operações, táticas
e estratégias policiais.
Nesta perspectiva, pode-se inferir que a concepção presente
nos currículos acerca do trabalho policial – civil e militar – baseia-se
essencialmente no controle do crime e na aplicação da lei, com ênfase
na importância de sua adesão a regras e procedimentos da
organização, negligenciando o enfoque da interação com o cidadão
através da negociação de conflitos para o desenvolvimento das tarefas
relacionadas à manutenção da ordem, que são demandadas
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cotidianamente à polícia, e que são desconsideradas, na sua quase
totalidade, nos conteúdos programáticos dos cursos em questão.
Portanto, no que diz respeito ao “fazer profissional”, evidencia-
se a dificuldade dos cursos de formação profissional básica em
abranger a amplitude das atribuições da polícia relacionada à realidade
complexa e contingente do trabalho policial para a manutenção da
ordem, prevenção e repressão do crime na sociedade.
Há que ressaltar, ainda, que somada às deficiências de preparo
nos cursos de formação profissional básica em ambas as organizações,
observa-se a falta de regularidade para a realização dos cursos para
o aprimoramento profissional ao longo da carreira do policial.10
Vale a pena destacar, igualmente, que esses cursos não
alcançam a totalidade dos membros das referidas corporações, pois
privilegiam em sua quase totalidade os postos de comando ou direção,
alcançando de forma muito incipiente os postos hierárquicos inferiores
das organizações policiais.11
Acrescente-se, também, que tanto a Polícia Militar quanto a
Polícia Civil não possuem um corpo de docentes inteiramente dedicado
ao ensino. Os professores12 dos cursos de formação profissional
básica, oferecidos por ambas organizações policiais são,
majoritariamente, policiais advindos da própria Corporação, os quais,
além de acumularem a atividade docente com outras atividades
próprias ao cargo prioritariamente exercido na corporação, não
possuem necessariamente uma formação pedagógica adaptada à
função. Além disso, para os professores advindos da Corporação
não há remuneração pelo desenvolvimento da atividade de ensino.
Para esses policiais há, de fato, um acréscimo na sua carga horária
de trabalho; objetivamente, o maior bônus para esses policiais é a
pontuação para progressão na carreira.13
A análise dos currículos dos cursos de formação profissional
da Polícia Civil do Estado do Rio de Janeiro (PCERJ)14 revela que a
formação profissional básica das carreiras estudadas – agentes de
policia estadual de investigação e prevenção criminais15 e autoridade
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policial 16 – apresenta um certo equilíbrio entre os conteúdos
programáticos e a carga horária dos cursos, predominando os diversos
aspectos referentes às atribuições constitucionais da polícia judiciária,
enfocando o conhecimento técnico básico do “fazer profissional” do
policial civil, com forte ênfase no Direito Penal e nos procedimentos
de rotina desenvolvidos nas Delegacias de Polícia.
Verifica-se, porém, a ausência de disciplinas voltadas para o
preparo do policial na competência interpessoal, seja na relação
interpares no ambiente organizacional, seja na interação com o público
usuário das Delegacias de Polícia.
Pode-se inferir, portanto, que a formação profissional retratada
nos currículos examinados demonstra uma concepção do trabalho
policial numa perspectiva exclusivamente legalista, sugerindo que as
atividades desenvolvidas pelo policial civil se restringem ao trato
meramente técnico de execução plena da lei. Por conseguinte, tal
como está organizada, essa formação negligencia a interação
interpares e com o público como uma preocupação principal da
prestação de serviço junto às diversas questões que emergem no
cotidiano das Delegacias de Polícia.
A análise dos currículos dos diferentes cursos de formação
profissional da Polícia Militar do Estado do Rio de Janeiro (PMERJ)
evidencia, primeiramente, que há uma profunda variação na formação
profissional básica dos policiais militares – praças17 e oficiais18 – no
que se refere aos conteúdos programáticos e à carga horária entre
si, mantendo diferenças substanciais na concepção e no preparo dos
indivíduos para exercerem a função policial, com uma distinção clara
entre aquele que é preparado para o planejamento e aquele que é
preparado para execução.
O exame realizado indica, ainda, por um lado, que esses cursos
conferem ao futuro policial militar – praça e oficial – um perfil
eminentemente dirigido para o policiamento geral ostensivo, com
ênfase na preparação física do policial, sugerindo, assim, uma
concepção de controle do crime, na qual são exigidas força física e
virilidade, em detrimento de uma outra noção que enfoca a
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administração de conflitos e o relacionamento direto com o cidadão.
Por outro lado, a análise aponta uma séria deficiência na área da
atividade preventiva, com enfoque na negociação de conflitos e no
relacionamento direto com o cidadão, retratada no baixo índice de
disciplinas da área das ciências humanas e sociais no total da carga
horária destinada às disciplinas curriculares do Curso.
Chama a atenção, também, a predominância da formação
jurídica presente, principalmente, no currículo do Curso de Formação
de Oficiais Policiais Militares, denotando uma noção da atividade
policial que privilegia, de maneira acentuada, o uso da lei criminal
para controle do crime, omitindo, em boa parte, a aplicação de
conhecimentos e qualificação requeridos para a administração das
variadas situações concernentes à manutenção da ordem, com relação
às quais o policial precisa tomar constantemente decisões que
escapam ao tratamento meramente jurídico, requerendo a aplicação
de conhecimentos e habilidades relacionados às ciências humanas
para o manejo adequado de conflitos diversos nas relações
interpessoais.
Com respeito ao preparo profissional do policial militar para o
desempenho das diferentes e conflitantes funções – função civil de
policiamento e função militar de força auxiliar e reserva do Exército –,
pode-se inferir que a presença das idéias e valores do militarismo na
Polícia Militar do Estado do Rio de Janeiro (PMERJ) relaciona-se
menos com a concepção militarizada sobre a missão da polícia e as
estratégias operacionais utilizadas para a consecução de seus
objetivos, referindo-se mais nitidamente à conservação da forma
organizativa adotada pela corporação, rigidamente estruturada com
base na hierarquia e na disciplina.
Neste sentido, ressalta-se a participação bastante limitada de
disciplinas vinculadas ao ensino militar nos conteúdos programáticos
dos currículos oficiais dos centros de formação e treinamento da
PMERJ para o preparo do futuro policial.
Porém, se por um lado se observa a pouca participação das
disciplinas de ensino militar nos cursos de formação profissional da
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Polícia Militar, pode-se verificar, por outro lado, que as disciplinas
contidas nos diferentes currículos estão baseadas em uma concepção
de segurança pública, segundo a qual o policiamento ostensivo está
dirigido para o controle do crime, pela via do confronto, havendo
necessidade de intervenções do “policial combatente” para a
manutenção da ordem e repressão ao crime.
Verifica-se que a identificação com o militarismo pode ser
encontrada mais acentuadamente no estilo de comportamento dos
policiais militares, principalmente daqueles lotados nas unidades
operacionais especiais da Corporação, como o Batalhão de
Operações Especiais (BOPE), mas é também claramente identificável
no estilo de comportamento dos policiais militares que fazem o
policiamento ostensivo nas ruas, em luta na “guerra contra o crime”.
Entretanto, de maneira análoga, esse estilo de comportamento pode
ser encontrado nos policiais civis lotados nas unidades especializadas
da corporação, como, por exemplo, a Coordenadoria de Recursos
Especiais (CORE), com estratégias de ação muito próximas às das
unidades operacionais especiais da Polícia Militar, o que pode ser
identificado na chamada “tiragem”, cuja atividade compreende
também o “trabalho de rua”. Note-se, ainda, que os discursos e
atitudes relacionados à “guerra contra o crime” podem ser
identificados, igualmente entre os policiais lotados nas atividades
internas das Delegacias Policiais distritais e dos quartéis da Polícia
Militar.19
Observa-se, pois, a existência de uma importante dimensão do
“mundo policial” – a dimensão cultural – que expressa as crenças,
os preconceitos e os estereótipos produzidos no interior da organização
policial, mas também fora dela, sobre a “missão” da polícia – o combate
ao crime – manifestando-se no comportamento e atitudes do policial
com relação às experiências concretas e diárias do seu trabalho.
Deste modo, a presença de idéias e valores do militarismo na
organização policial deve ser buscada, principalmente, na cultura
policial como parte expressiva do conjunto de crenças, valores,
reflexões e modos pelos quais a polícia acomoda as exigências e
Sociedade e Estado, Brasília, v. 20, n. 3 p. 585-610, set./dez. 2005
600 Paula Poncioni
demandas da burocracia policial e da sociedade, com vistas a garantir
um desempenho “eficiente” da ação policial, em uma perspectiva
que dá ênfase ao uso da força e da dominação como meios apropriados
para resolver problemas de manutenção da ordem e segurança
públicas. Pode-se argumentar que é forjado um padrão de
comportamento que legitima simbolicamente o trabalho policial à vista
de todos e afirma a identidade do policial como um “soldado-
guerreiro”, encorajando ações agressivas para fazer face à missão
que lhe foi designada.
A formação do policial orientada fundamentalmente para o
controle do crime, com forte apelo ao “combate ao crime”, tem a
grande vantagem de fornecer o que é percebido amplamente pelo
público e pelos próprios policiais como a missão das instituições
policiais. Nesta perspectiva, evidencia-se que o ethos guerreiro é
paulatinamente sedimentado na identidade profissional do policial como
um importante requisito para que o policial possa, “com sucesso”,
realizar a árdua missão do “combate real” à criminalidade.
Muito embora a reprodução da concepção do trabalho policial
no “modelo policial profissional tradicional” não seja exclusiva da
polícia brasileira, haja vista que, tradicionalmente, a polícia foi
organizada dentro do modelo profissional “burocrático-militar” e
permaneça em muitos países com este formato, o grau e tipo de
ênfase militar e/ou legalista encontrada na polícia variam amplamente
de país a país e, sob determinadas circunstâncias, dentro dos
contextos nacionais particulares. Variações são observadas, na ênfase
dada aos papéis de repressão e coerção, de prevenção de crime, de
serviço social, ou de polícia política, refletindo modelos de
representação do “mundo policial” e do “mundo social” relacionados
às condições sócio-históricas em que a organização policial foi criada
e se desenvolveu.
Considerações finais
A pesquisa realizada nos centros de ensino e treinamento
profissional da Polícia Civil e da Polícia Militar do Estado do Rio de
Sociedade e Estado, Brasília, v. 20, n. 3, p. 585-610, set./dez. 2005
O modelo policial profissional e a formação profissional do futuro... 601
Janeiro revela a permanência do denominado “modelo profissional
policial tradicional”, no conteúdo do processo formal de socialização
profissional do futuro policial consubstanciado em uma concepção
do trabalho policial profissional que enfatiza o comportamento legalista
dos policiais em um arranjo burocrático-militar que influencia a cultura,
a filosofia de trabalho, a política administrativa, o treinamento, as
operações, táticas e estratégias policiais.
Os currículos dos cursos de formação profissional para os
futuros policiais revelam uma ênfase excessiva no controle do crime
em uma estratégia exclusivamente reativa da polícia, e dirigida
principalmente para o confronto, apontando deficiências na área da
atividade preventiva, com enfoque na negociação de conflitos e no
relacionamento direto com o cidadão; evidencia-se, igualmente, uma
clara negligência no preparo do policial – civil e militar – para o trato
de outras demandas e interesses da população que não estejam
restritas apenas ao cumprimento de lei, mas que dizem respeito à
manutenção de ordem pública pela via da negociação.
Merece destaque, além das deficiências de preparo nos cursos
de formação profissional básica para as diferentes carreiras na Polícia
Civil e na Polícia Militar, a falta de regularidade para a realização dos
cursos para o aprimoramento profissional ao longo da carreira do
policial.
Apesar de, no Brasil, e particularmente no Rio de Janeiro, terem
sido realizadas algumas experiências, ao longo das duas últimas
décadas, na área de formação profissional da polícia, não foi ainda
consolidada uma ampla agenda de reformas para a área de segurança
pública e, em especial, um projeto educacional que propicie não
somente resultados palpáveis em face das demandas para uma política
de policiamento, mas também que coloque em obra valores que
satisfaçam interesses de longo e duradouro espectro institucional e
societário, vinculados a um modelo de polícia profissional de tipo
“novo”.
Sociedade e Estado, Brasília, v. 20, n. 3 p. 585-610, set./dez. 2005
602 Paula Poncioni
No caso brasileiro, pode-se constatar que, até o momento, não
houve um amplo e sistemático debate sobre a “profissão” policial,
nem, tampouco, sobre modelos profissionais que possam nortear uma
nova concepção do “fazer policial” para o desempenho mais eficaz,
mais responsável e mais efetivo na condução da ordem e segurança
públicas no contexto da sociedade brasileira contemporânea.
Freqüentemente, as propostas para reformar a polícia têm sobreposto
princípios de modelos profissionais, por vezes incompatíveis entre si,
sem que se tenha uma extensa e profunda análise das condições
internas e externas para a superação do modelo profissional em vigor
e para a implementação bem-sucedida de um novo modelo de polícia
profissional.
Verifica-se a aproximação ao “modelo de polícia profissional
novo” somente em meados da última década, em alguns Estados da
Federação, com ênfases diferenciadas e com uma certa fragilidade
na consecução de mudanças na organização e no funcionamento da
polícia.20
A pesquisa realizada nos centros de ensino e treinamento das
polícias civil e militar indica o caráter descontínuo e fragmentário
das propostas para a reforma da polícia e, especialmente, para a
formação profissional do policial, orientada em grande parte pela
urgência de respostas imediatas às demandas e pressões para maior
segurança.
A formação profissional de policiais civis e militares “cariocas”
retrata um somatório de atos pontuais, isoladamente considerados,
traduzindo-se em resultados imediatos que visam atender a uma
determinada demanda pública, diferentemente dos atos que fundam
as políticas públicas que buscam não apenas atingir objetivos e produzir
resultados palpáveis, mas colocar em ação valores e satisfazer
interesses mais amplos, de longo e duradouro espectro para a
sociedade.21
Neste sentido, pode-se inferir que, até o momento, as academias
de polícia não contam com a provisão das ferramentas necessárias –
Sociedade e Estado, Brasília, v. 20, n. 3, p. 585-610, set./dez. 2005
O modelo policial profissional e a formação profissional do futuro... 603
recursos humanos e materiais – para a adoção de novas e diferentes
estratégias que produzam uma mudança e mobilidade para o grupo
ocupacional como um todo, em direção a um profissionalismo de tipo
“novo”, que possa nortear uma nova concepção do “fazer policial”
para um desempenho mais eficaz, mais responsável e mais efetivo
na condução da ordem e segurança públicas no contexto da sociedade
brasileira contemporânea.
A formação profissional desenvolvida nas academias de polícia
examinadas, encontra-se premida pelas demandas para dar respostas
imediatas contra o crime e baseada em um determinado modelo
profissional de polícia que reforça a identidade policial com uma
cultura de controle do crime associada a convicções, valores e práticas
que repousam no “combate”, tem renovado os “velhos” princípios
básicos do “fazer” policial, em contraste a um novo profissionalismo
difundido em grande parte do mundo ocidental, em que o serviço
público, o alto nível de educação policial e a busca de uma relação
mais estreita entre a polícia e a comunidade são dimensões
consideradas fundamentais para a construção de uma nova identidade
profissional do policial afinada com as exigências do mundo
contemporâneo.
Notas
1 Originalmente preparado para apresentação no GT: Violência,
Criminalidade e Segurança, do XII Congresso Brasileiro de Sociologia,
realizado em Belo Horizonte (MG), de 31 de maio a 3 de junho de 2005.
Nesta versão, introduzi modificações.
2 Nesta perspectiva, vale a pena salientar o esforço que o Instituto de
Segurança Pública – RIOSEGURANÇA, da Secretaria de Estado de
Segurança Pública do Estado do Rio de Janeiro, vem fazendo no sentido
de implementar dentro da política estadual de segurança pública, um
programa de formação profissional para policiais. Com base na proposta
para educação policial proveniente do documento sobre as diretrizes
curriculares para a formação dos profissionais da área de segurança
disponibilizado pela Secretaria Nacional de Segurança Pública (SENASP)
o Instituto de Segurança Pública elaborou o “Currículo Integrado de
Sociedade e Estado, Brasília, v. 20, n. 3 p. 585-610, set./dez. 2005
604 Paula Poncioni
Formação Policial do Estado do Rio de Janeiro”, com vistas a
compatibilizar os currículos da Academia de Polícia Civil e das Escolas
da Polícia Militar formadoras de Delegados de Polícia e Oficiais da Polícia
Militar, e demais integrantes das carreiras.
3 No caso da Polícia Civil, esta segunda etapa da socialização se dá
privilegiadamente nas delegacias de polícia, e no caso da Polícia Militar
nas unidades operacionais da corporação, notadamente nas ruas das
cidades.
4 Fielding (1996) dá especial destaque ao fracasso deste tipo de abordagem
em pelo menos duas áreas em que a polícia não pode contar com a
sensibilidade pública: os crimes contra as mulheres, particularmente o
manejo de investigações de estupro e de violência doméstica, e as
agressões com motivações raciais.
5 Várias são as conseqüências desse modelo policial profissional seja do
ponto de vista do lugar do policial na organização, seja em termos da
relação da polícia com o público. Neste texto privilegiou-se a análise das
conseqüências desse modelo profissional na formação profissional do
futuro policial. Outros aspectos como o isolamento da organização
policial, o não-reconhecimento oficial do trabalho policial desenvolvido
no exercício das atividades cotidianas em atendimento a situações que
não se limitam ao âmbito criminal, entre outras foram abordadas no artigo
que elaborei, intitulado O modelo de polícia profissional e a formação do
futuro policial: um debate necessário na sociedade brasileira
contemporânea, submetido, em abril de 2005, à Revista Brasileira de
Ciências Sociais para publicação.
6 Na literatura estrangeira, consultar a propósito: Skolnick (1966), Reiss
(1971), Manning (1977), Black (1980), Cain (1992), Reiner (1992), Bayley
(1994) e Wilson (1994). Na literatura nacional consultar a respeito, Kant
de Lima (1994), Mota (1995) e Muniz (1999).
7 Vários estudos empíricos apontam a “desilusão” do policial ao defrontar
o conhecimento fornecido pela Academia sobre o trabalho policial e a
prática cotidiana do trabalho policial. Ver a respeito: Reiner (1992), Cordner
(1978), Chan (1999, 2001).
8 Vale ressaltar que, não obstante a análise aqui apresentada esteja referida
à formação profissional do policial desenvolvida pelos centros de ensino
e treinamento do estado do Rio de Janeiro, uma breve investigação
junto aos programas dos cursos de formação profissional de diversas
academias de polícia em diferentes Estados da Federação permite inferir
Sociedade e Estado, Brasília, v. 20, n. 3, p. 585-610, set./dez. 2005
O modelo policial profissional e a formação profissional do futuro... 605
que o modelo policial profissional “tradicional” é amplamente adotado
para a formação do futuro policial, não se constituindo, portanto, uma
peculiaridade exclusiva da polícia do Estado do Rio de Janeiro, repetindo-
se, com poucas exceções, em todos os Estados do País.
9 Trata-se da pesquisa desenvolvida para a realização de minha tese de
doutorado, Tornar-se policial: a construção da identidade profissional
do policial no Estado do Rio de Janeiro, apresentada ao Departamento
de Sociologia da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da
Universidade de São Paulo, em março de 2004.
10 Muito embora a mobilidade dentro da carreira policial, civil e militar,
esteja sujeita à realização de cursos de aperfeiçoamento profissional,
esses cursos nem sempre são oferecidos por razões diversas. Neste
quadro, constitui-se exceção, o “Curso de Formação e Atualização do
Programa Delegacia Legal”, que é realizado regularmente para as
diferentes carreiras da Polícia Civil pelo Grupo Executivo do Programa
Delegacia Legal. Na Polícia Militar há uma maior regularidade na oferta
de cursos de aperfeiçoamento, mas o público-alvo é constituído em
grande parte por policiais que ocupam postos de comando ou direção
na corporação.
11 Ver a propósito, Sapori (2002).
12 Apesar de, na Polícia Militar, ser usado o termo “instrutor” para designar
o professor de uma disciplina, quando nos referirmos às duas corporações
utilizaremos preferencialmente o termo “professor”.
13 Na ocasião da realização de minha pesquisa de campo para a tese de
doutorado havia na Polícia Civil uma remuneração, custeada pela
Fundação de Apoio ao Ensino, Pesquisa e Desenvolvimento da Polícia
Civil (FAEPOL), para os policias civis que desenvolviam também a
atividade de ensino. Na Polícia Militar, não havia nenhuma remuneração
para os policiais da ativa que exerciam também a atividade de ensino nos
centros de ensino e treinamento profissional da Corporação.
14 Trata-se especialmente do “Curso de Formação Profissional para Inspetor
de Polícia de 6ª Classe” e o “Curso de Formação e Orientação Profissional
para o Cargo de Delegado de Polícia de 3ª Classe”, do Quadro Permanente
da Polícia Civil do Estado do Rio de Janeiro.
15 A classe de “agentes de policia estadual de investigação e prevenção
criminais” compreende as carreiras de Inspetor de Polícia, Oficial de
Sociedade e Estado, Brasília, v. 20, n. 3 p. 585-610, set./dez. 2005
606 Paula Poncioni
Cartório Policial e Investigador Policial (Quadro Permanente da Polícia
Civil do Estado do Rio de Janeiro).
16 A classe de “autoridade policial” á composta pela carreira de Delegado
de Polícia (Quadro Permanente da Polícia Civil do Estado do Rio de
Janeiro).
17 A carreira de “praças” corresponde às graduações de soldado, cabo,
sargento e subtenente (Quadro Permanente da Polícia Militar do Estado
do Rio de Janeiro).
18 A carreira de “oficiais” reúne os postos de capitão, major, tenente-coronel
e coronel (Quadro Permanente da Polícia Militar do Estado do Rio de
Janeiro).
19 Ver a respeito, Poncioni (2004).
20 Nesta perspectiva, destaca-se a implementação de diferentes programas
de policiamento envolvendo a Polícia Militar, entre os quais, o programa
baseado em policiamento comunitário, desenvolvido na década de 90
em algumas cidades do Brasil, tais como: a “polícia-cidadã” na Bahia, a
“polícia-comunitária” em Sergipe, a “polícia-interativa” no Espírito Santo.
No Rio de Janeiro, em particular, duas experiências podem ser destacadas:
o programa de policiamento comunitário da Polícia Militar e o Programa
Delegacia Legal, envolvendo policiais civis, que sugere um outro
“desenho” relacionado à concepção física e à forma de operação do
trabalho policial tradicional em delegacias de polícia.
21 Vale a pena ressaltar, mais uma vez, que apesar de se reconhecer que há
diferenças entre os Estados da Federação no que diz respeito à área de
segurança pública, as fragilidades no processo de formação profissional
do policial civil e militar apontadas acima não são exclusivas da polícia
carioca.
Abstract: The Professional Police Model and the Professional
Formation of the Future Policemen in the Police Academies of Rio
de Janeiro State
In Brazil, an exam of the public security question reveals that, at least
since the 1970s, there is a continuous growth of criminality and
violence, mainly in the metropolitan and peripherial areas of great
cities of the country, and that the judiciary system, and, in particular,
the police has been ineffectual at facing this subject. In this scenery,
one of the topics frequently pointed out by public security specialists,
Sociedade e Estado, Brasília, v. 20, n. 3, p. 585-610, set./dez. 2005
O modelo policial profissional e a formação profissional do futuro... 607
by public policy makers, by government authorities and even by the
policemen/women is the necessity to professionalize the Brazilian
police as a resource to qualify the force in a more efficient, responsible
and effective way to maintain order and public security. The main
goal of this work is to analyze the professional police model present
in professional training developed in police academies – civil and
military – and its consequences to the future policeman/woman
formation to perform police daily activities. The analysis of the
professional police formation is based on curricula accomplished by
Police Academies in Rio de Janeiro state, administered by Academia
Estadual Sylvio Terra (ACADEPOL), in which formation and
specialization courses are carried out in order to provide professional
improvement by Centro de Formação e Aperfeiçoamento de Praças
31 de Voluntários (CFAP), responsible for the formation and
professional development of the police force; and by Academia de
Polícia D. João VI (APM D. João VI), in which police command
courses are offered.
Key words: police, professionalism, democracy, crime, violence.
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