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Disturbed Man

O narrador reflete sobre suas visões perturbadoras e sua luta interna com a sanidade, enquanto narra sua trajetória desde o México até a Itália, onde se envolve com a máfia. Ele descreve sua ascensão no crime, motivada pela necessidade de sustentar sua esposa, Mireya, e a transformação de sua moralidade ao longo do tempo. A relação com seu chefe, Diavolo, se torna tensa quando este faz insinuações inapropriadas sobre sua vida pessoal.

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Disturbed Man

O narrador reflete sobre suas visões perturbadoras e sua luta interna com a sanidade, enquanto narra sua trajetória desde o México até a Itália, onde se envolve com a máfia. Ele descreve sua ascensão no crime, motivada pela necessidade de sustentar sua esposa, Mireya, e a transformação de sua moralidade ao longo do tempo. A relação com seu chefe, Diavolo, se torna tensa quando este faz insinuações inapropriadas sobre sua vida pessoal.

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Eu já não me lembro mais quando foi que comecei a ver coisas.


É sempre a mesma figura alta de olhos pálidos, sem
sobrancelhas e nariz, que me perturba. Seu corpo negro parece já estar
impregnado nas minhas pupilas, seu sorriso largo e seus dentes claros já
aparecem em meus sonhos...
Eu o vejo lá, rindo de mim enquanto se esconde nas paredes.
Quando algo chega a este ponto, o que se faz?
.....
Me interno?
Talvez.
Eu não sei se tenho alguma doença mental para ver se o meu
caso se adequa, mas caso eu vá em um hospital e confesse a minha
situação, iriam me pôr para fazer uma.
E no fim, além da minha esposa, quem iria acreditar em mim?
Minha mãe, caso estivesse viva, me chamaria de louco e me
mandaria rezar.
Meu pai, caso também estivesse vivo, provavelmente me
espancaria e me levaria à igreja.
Diria que a minha “fé”... está pouca.
Fé.
Do latim, fide.
Quando uma pessoa acredita fortemente em algo que não se tem
certeza absoluta; ela tem fé em seu ser.
Para ter fé, se deve trabalhar a sua conexão com o místico ou
seja lá o que for, eu suponho.
Pelo menos foi assim que me disseram antes.
.....
Me diga.
Você me acha louco?
.....
Tudo bem.
Então, por favor, me deixe pelo menos tentar te explicar como
tudo chegou a esse ponto.
Contar como eu me tornei o homem que sou.
Como eu, sozinho, montei uma das máfias mais importantes do
nosso planeta.
Colocar para fora, de uma vez por todas, as atrocidades que fiz
durante minha ascensão.
Contar tudo o que fez o meu peito, inevitavelmente, se esvair de
afeto e sobrecarregar de culpa.
...Eu posso?
1
Contarei até onde a minha memória me permite lembrar.
.....
Ainda bem novo, eu me casei com a Mireya, a única mulher que
eu amo em todo o mundo.
Fizemos uma festa simples por conta da nossa condição
financeira, mas ainda assim foi o dia mais feliz da minha vida.
Eram tempos bem conturbados onde nós morávamos, o México,
e por isso mesmo nossa condição estava ruim.
Eu trabalhava como um condenado. De manhã até o início da
noite, fazia trabalho pesado e esgotava o meu corpo ao máximo, e
quando chegava em minha casa não podia comer muito para reabastecer
minhas energias, pois ainda tinha o dia de amanhã.
Mas, chegou a um ponto que eu me recusei a continuar vivendo
assim
Cansado e agora casado, decidi juntar dinheiro para uma
mudança e fui buscar novas oportunidades em outro país com a minha
esposa.
Itália.
País que, na época, estava recém-unificado, mas ainda era
melhor do que o México.
A comida era melhor, as oportunidades eram melhores.
Acho que não consigo me imaginar tendo ido para outro país.
Porém, em todo bem deve haver um mal...
Itália, mesmo sendo um país maravilhoso é bem famosa por
conta das suas máfias e, sendo eu um homem necessitando de dinheiro,
não demorou muito para que rumores chegassem aos meus ouvidos.
.....
Durante um trabalho de meio período que arrumei em um
estabelecimento para pagar os custos da casa cujo morava, sempre via
homens usando ternos caros — suponho — perto dos potes da calçada.
Como mencionei, já havia ouvido falar sobre, mas ainda estava
curioso. Então, com o pouco de italiano que sabia na época, questionei
ao meu chefe:
“O que esses homens fazem aí, parados, todos os dias?”
“Aqueles ali? Ah, bem...” — ele deu um suspiro antes de
prosseguir — “...Podemos dizer que cuidam dos estabelecimentos ao
redor. Sabe, Ramón, a polícia aqui costuma não trabalhar muito bem,
então o que resta para nós é pagar esses caras para que possam nos
proteger de ladrões ou coisas do tipo.”
“Hmm...”
Proteger?
Eu ainda não havia ouvido sobre isso.
Então eles roubam, traficam e matam; mas também protegem?
E recebem por tudo isso?
Dios mío...
Naquele momento, uma lâmpada acendeu em minha cabeça e
uma ambição enorme cresceu em meu peito.
“Eu poderia ir tentar falar com um para ver se consigo fazer o
mesmo...” — pensei impulsivamente.
Mas, no fim, decidi não ir.
“Não sei... vai que eu digo algo errado e eles me matam por
algum motivo.”
Eu devo ter pensado algo assim na hora.
Que covarde eu era.
.....
De qualquer forma, eu não irei reclamar, quem sabe eu não teria
morrido mesmo?
Além do mais, nem sequer foi necessário eu tentar me
comunicar com eles.
Certo dia durante o meu trabalho, quando olhava para a estrada e
fazia um curto contato visual com os homens, percebi que eles estavam
olhando para o estabelecimento com bem mais frequência e, no fundo,
algo me dizia que me observavam.
Passou-se um tempo assim, com contatos visuais curtos e
disfarçados. Mas, quando já estávamos quase para fechar pelo dia, os
homens — eram dois se não me engano, ou três — começaram a vir em
direção ao estabelecimento.
Claro, eu estremeci um pouco.
Acho que qualquer um teria essa reação.
...
Não é?
Enfim.
Eles entraram no estabelecimento e vieram logo em direção a
mim.
Não havia um espelho por perto, mas tenho certeza que minha
expressão facial não tinha ficado bonita.
E então, com as mãos nos bolsos, um deles dirigiu palavras a
mim:
“Você não é daqui, né?”
“N-Não...”
Ainda me pergunto como ele sabia.
“...Qual é o seu nome?”
“Ramón.”
“Ramón o quê?”
“Ramón... Javier, Sánchez. Ramón Javier Sánchez.”
“Da onde você veio, Ramón?”
“México.”
“Oh. Certo, entendo...” — ele inclinou um pouco a cabeça para
o lado — “De que cidade veio?”
“Sou de Sinaloa.”
“E o que fazia lá?”
“Eu era artesão, como sou aqui, também montava móveis...
Várias coisas.”
“Então quer dizer que você era um faz tudo, é isso?”
“...”
Consenti com a cabeça.
“Hmm.”
Tirando a mão direita do bolso, ele a levou para o meu braço e a
subiu até o meu bíceps, o apertando.
“De fato, acho que esses braços são de alguém que faz trabalhos
pesados.”
Franzi meu cenho de surpresa ao sentir o toque dele que,
querendo ou não, não era fraco.
“E suas pernas?” — soltando meu braço, ele pôs a mão no bolso
novamente — “Seus joelhos são saudáveis? Sente dificuldade em se
agachar?”
“Não, não sinto.”
Eu esqueci de mencionar, mas o meu porte físico podia e pode
ser considerado como muito bom...
Sou alto, tenho músculos resistentes e sou magro, esse tipo de
coisa.
Eu não gosto muito de falar sobre isso. Sempre que falo sinto
que estou me gabando ou algo assim.
“Bom.” — o homem, passando a me encarar, sorriu sem mostrar
os dentes — “Você gosta de trabalhar aqui?”
Antes de responder, dei uma olhada para os lados apenas para
conferir se o meu chefe estava ou não por perto.
“Não, não gosto.”
“Por que não?”
“Me faz lembrar do meu passado, no México.”
“Entendo.”
Você consegue me entender, não é?
Se eu saí de um país com objetivo de seguir uma nova vida, por
que ficaria feliz fazendo coisas que eram comuns em minha antiga
rotina? De qualquer forma, não reclamo, foi aquele trabalho que me
permitiu pagar as costas e tudo mais...
Pelo menos até aquele momento.
“E esposa, Ramón, você tem?”
“...”
Baixei minhas pálpebras em desconfiança.
“Por que quer saber?”
“Curiosidade, apenas.”
Deixei escapar uma leve risada antes de responder — “Sinto
muito, mas isso não é da sua conta.”
“Oh?” — ele arregalou um pouco os olhos — “Tudo bem, tudo
bem. Nem todos gostam de falar sobre quem ama mesmo.” — desceu o
olhar para minha mão esquerda — “Mas você mesmo já diz tudo com
essa aliança no dedo.”
“De qualquer forma, eu posso ajudar com alguma coisa?”
“Eu tenho uma proposta para você, Ramón.”
“...”
Me mantive em silêncio, cruzando os braços.
“Eu quero que largue esse seu trabalho imundo e venha para a
minha ‘organização’, lá você será bem pago e, com toda certeza, poderá
dar uma vida melhor para a sua esposa. Só de observar o seu corpo sei
que você será de grande utilidade para nós, sempre é de diversas
formas. A única coisa que você precisa é de um pouco de treinamento,
roupas novas, equipamentos adequados e, claro...” — ele tirou a mão
esquerda do bolso e a aproximou do meu quadril, pondo dinheiro agora
em meu bolso — “...um pouco de incentivo.”
Honestamente, até aquele momento, eu não havia visto alguém
tirando uma quantia tão grande dinheiro do bolso.
Ainda mais colocando em meu bolso.
“Você tem até amanhã para me dar uma resposta. Vá para casa,
reflita, compre algo bom para comer com a sua esposa e, antes de
dormir, já tenha se decidido. Caso sua resposta seja positiva, nós
estaremos aqui amanhã, no mesmo lugar e com alta expectativa em
você.” — ele pôs a mão esquerda em meu ombro, o apertando
levemente — “Claro, eu especialmente.”
Abriu um sorriso para mim, curvou levemente a cabeça, virou-se
de costas e saiu da mecânica com seus passos leves, quase inaudíveis.
.....
Pensando bem agora, o nome desse homem combinava com ele.
Naquele momento, senti como se tivesse feito um pacto com o
diabo. Todas aquelas palavras que passaram pelos meus ouvidos,
cautelosamente, foram como sussurros de almas condenadas que
almejavam para que eu me juntasse a elas.
Os olhos dele... Na verdade, ele... me cheirava tão mal quando
carniça.
Do último fio de cabelo da cabeça até às unhas dos pés dele,
aquele homem era mau.
Mas eu não consegui perceber...
Eu me deixei levar pelo canto do diabo, assim como os ratos se
deixaram levar pela flauta mágica do Flautista de Hamelin.
Talvez, se eu não fosse tão ganancioso, as coisas não haveriam
acabado assim.
.....
Rapidamente enfiei minha mão no bolso, peguei o dinheiro e
passei a contar.
100.
200.
300.
400, 500...
...600.
700...
...800, 900, 1000.
1000 liras.
Em meu... bolso?
O que isso pagaria?
O aluguel, as contas... a comida também, poderia comprar
roupas sob medida... presentes para a Mireya...
...
Eu não pude me impedir de sorrir.
Na época, eu morava por parte da antiga ilha de Sicília, que já
era famosa por conta da máfia Cosa Nostra que se originou lá.
O nome do homem com quem falei era Diavolo.
Ele tinha o objetivo de ascender ainda mais a sua própria máfia,
mas sem uma base familiar. Ou seja, ele iria recrutar o máximo de
pessoas possível para fazer serviços ao mesmo.
Acho que não preciso dizer que fazer algo assim é pedir para
não ter progresso.
Máfias não são nada sem base familiar, sem uma real confiança.
Pegue pessoas fortes na rua, treine elas, as faça trabalhar para
você e veja o que acontece em seguida.
Inicialmente, eu trabalhei nos esquemas dele como um
“limpador”. Facilitando o termo: eu matava opositores. Opositores
seriam pessoas que devem dinheiro, pessoas de máfias rivais, pessoas
que perturbam a paz local...
Bem, ameaças em geral.
A primeira vez em que peguei em uma arma e puxei o gatilho
foi durante esses trabalhos. Com os meus alvos iniciais foi difícil de
completar o serviço.
Admito...
Eu não tinha coragem.
Às vezes...
Às vezes recebia ordens para ser mais violento com os meus
alvos, com o objetivo de “deixar recados”.
Ser mais violento para deixar os outros com medo.
Um aviso para não mexerem com a nossa máfia.
“Se mexer conosco, é isso o que irá acontecer.”
Algo assim.
.....
Isso tudo foi muito difícil para mim.
Pode parecer surpreendente, mas eu não sou puxado para a
violência. Por mim, todos viveriam em paz e harmonia, sem ter de
disputar nada.
Porém, eu fui me acostumando a cada alvo que me aparecia.
Tudo na vida é costume, afinal.
Eu já não vomitava após matar alguém.
Já não sentia tanto remorso...
Quando eu via a quantia de dinheiro que ganhava ao matar, me
sentia ainda mais disposto.
Ah, e sobre a Mireya...
Inicialmente, eu não a contei sobre o tipo de emprego que teria
depois de me demitir do antes mencionado estabelecimento. Apenas
criei coragem para dizer a ela sobre tudo o que andei fazendo após o
meu... sexto serviço?
Por aí.
Ela não se mostrou muito agradada quando confessei, mas
parece que foi aceitando bem conforme o passar do tempo.
....
Eu espero.
Pelo menos ela aparentava gostar do nosso novo lar, dos nossos
novos costumes, das novas roupas.
No fim, eu sempre trabalhei exatamente por isso.
Sempre quis ver a minha esposa de fato feliz, comigo.
E assim foi indo, indo e indo.
Cada serviço que eu recebia, eu fazia, ganhava o meu dinheiro e
esperava o próximo.
Comecei a gostar da coisa.
E enquanto as coisas iam, iam e iam...
Eu fui ascendendo, ascendendo e ascendendo na máfia do
Diavolo que, após um ou dois anos terem se passado, estava razoável.
Ele passou a confiar tanto em mim que, na cabeça conturbado do
mesmo, eu era como um irmão.
Não estou dizendo por achismo, ele mesmo disse.
Já eu, honestamente, não gostava dele.
Eu odiava ele.
Ele e aquela aparência demoníaca que o mesmo tinha.
Mesmo dizendo coisas tão doces, algo dentro de mim sempre
dizia: “Não confie.”
E assim se fez.
Mas, certo dia, ele acabou se passando.
Estava bêbado de cerveja, sentado na cadeira do escritório dele,
e eu estava de guarda.
Sabe quanta merda pode sair da boca de alguém bêbado, não?
Eu já havia apresentado a Mireya a ele, assim como todo homem
educado deve fazer. Não havia notado nenhuma ousadia por parte dele
antes, mas minha opinião mudaria partindo daquele momento.
O diabo questionou-me:
“Ainda está casado, Ramón?”
“Estou sim.” — eu respondi em um tom de desgosto.
Ah, e é bom mencionar que quem bebe em excesso me enoja.
“É mesmo? Que ótimo, que ótimo. E fazem sexo quantas vezes
por semana? É algo importante em um casamento.”
“...Não entendi onde você quer chegar.”
“E o que não entendeu? Você ouviu bem o que eu disse.” — ele
dirigiu o olhar a mim — “Você e a sua esposa, Mireya se estou bem
lembrado, fazem sexo quantas vezes por semana?”
“Eu não vou responder isso.”
“Ah, vamos lá. Eu sou o seu irmão, não? Qual é o problema em
me contar, hein?”
Meu irmão?
Hah.
“...É uma quantia considerável.”
“Que bom, que bom!”
Eu usava um sobretudo marrom, se não me engano.
“E estão aceitando mais alguém na brincadeira? Quando vi a sua
esposa eu achei ela uma maravilha, sabe? E você também não é nada
mau de aparência.” — ele questionou com um sorriso nojento no rosto.
“Talvez.” — coloquei minhas mãos dentro do meu sobretudo
antes de responder.
“Que ótima notícia. Eu irei me lembrar disso.” — levantou-se da
cadeira no qual estava — “Fique aqui, ouviu? Eu apenas vou ao
banheiro.”
E saiu do cômodo.
.....
Agora, nem se eu escrevesse as palavras mais feias que sei, não
conseguiria descrever com precisão o quão estressado estava naquele
momento.
Mas, algo que eu aprendi desde pequeno foi a controlar as
minhas emoções.
.....
Você sabe o que é cicuta?
Se sim, ótimo.
Se não, apenas saiba que é uma planta bastante perigosa e que,
em mãos erradas, pode gerar problemas.
Eu tinha um fornecedor de venenos na época e sempre andava
com algum em minhas roupas, e a cicuta estava em meu sobretudo
naquela situação.
Mas que ótima oportunidade eu encontrei, não?
Admitindo para você, eu já pretendia fazer algo assim desde que
aquele diabo começou a me usar não só para matar, mas sim para tudo.
Então eu tirei um pequeno frasco de um dos bolsos do meu
sobretudo, me aproximei da mesa cujo o diabo trabalhava e peguei o
copo onde ele bebia sua tão sagrada cerveja.
Outra coisa...
Italiano bebendo cerveja?
Que vergonhoso, não acha?
De qualquer forma...
Abri o frasco e, sem pensar duas vezes, derramei todo o veneno
que foi extraído da cicuta.
Fechei o fresco, guardei novamente no sobretudo e esperei até
que o diabo voltasse.
A cicuta tem um veneno que faz efeito em até 30 minutos, então
eu tinha que planejar como incapacitar o diabo até dar esse tempo.
Mas não seria difícil, afinal ele já estava bêbado.
O veneno faz com que quem consume sinta tontura, queimação
na boca, náusea e vômito, fraqueza muscular e dificuldade para falar.
Entretanto, o principal é que, caso seja ingerido em grande quantidade,
causa paralisia respiratória.
Então, ele voltou e sentou-se de volta em sua cadeira sem
demora, pegando o copo e dando um grande gole.
Ali eu percebi que ele estava entupido mesmo de álcool. A
cicuta tem um cheiro muito forte, podre, parecido com o cheiro de ratos.
Ele ter dado um gole assim tão naturalmente me surpreendeu.
Cof, cof!
Ele tossiu com uma das mãos na boca.
“Ei, ei... Por que o gosto mudou?!” — franzindo o cenho, passou
a olhar para o copo — “Será que esquentou demais?”
Filho da puta burro.
“Você demorou um pouco, não acha?”
“É... É verdade.”
E o diabinho continuou bebendo, bebendo e bebendo do copo.
Em certo momento, ele passou a reclamar de mal estar.
“R-Ramón...” — chamou por mim gaguejando.
“Sim?”
“Estou me sentindo meio tonto, enjoado, eu não sei...” —
deitando a cabeça sobre a mesa, ele disse — “Eu vou dormir um pouco.
Me a-acorde caso fique tarde.”
Ao ver a cabeça dele baixando, não pude me impedir de sorrir.
“Claro, chefe. Durma o quanto for necessário.”
Tomando cuidado para não pisar forte no chão, me dirigi até a
porta e a tranquei rodando a chave duas vezes; em seguida, coloquei um
dos meus ouvidos nela e tentei ouvir um pouco da movimentação fora
do escritório.
Estava tudo calmo, aparentemente.
Voltei para perto do diabo e posicionei-me atrás da cadeira dele.
Fiquei lá, aguardando ter o privilégio de ouvir a sua respiração
se esvaindo lentamente.
Confesso a você, eu gostaria de ter dado uma morte pior a ele.
Querendo ou não ele ainda pôde morrer pacificamente, em seu
sono, enquanto todas as pessoas cujo ele me mandou tirar a vida
tiveram mortes dolorosas.
Que injustiça...
Mas bem, não importa mais.
Então passaram-se em torno de 15 minutos, vamos dizer assim.
Eu já não ouvia mais a sua respiração pesada, então decidi
checar a pulsação dele pelo pescoço.
Nada.
A cicuta de fato é bem poderosa, no fim das contas.
.....
Quer saber uma qualidade minha?
Minha caligrafia.
Nessa máfia que falo sobre, já fui designado para forjar
assinaturas de pessoas importantes, como juízes.
Levando em conta isso, decidi como iria sair impune da
situação. Afinal, caso descobrissem que matei aquele diabo, eu era um
homem condenado à morte.
Na mesa haviam alguns documentos para ele ler e cartas que
estavam sendo escritas.
Peguei uma carta, não lembro o que tinha, mas o que importava
era o manuscrito do diabo.
Procurei na mesa um papel em branco e uma pena de ganso para
escrever; os peguei e, usando de referência a carta, passei a escrever.
Ali eu me senti como Deus, decidindo e escrevendo o destino
dos que conheço.
Fico feliz em ter escrito uma tragédia para ele.
“Queridos membros de nossa também querida máfia...
Venho aqui pôr para fora os meus sentimentos para vocês,
mesmo sabendo que devo ser uma referência de força e resistência para
todos os membros.
Desde quando decidi que tentaria criar toda essa organização,
coloquei todo meu coração no projeto e se duvidar todo o meu ser nele.
Mas, hoje, eu admito que cansei.
Toda vez que vejo documentos, dinheiro, sangue, é como se a
minha cabeça fosse explodir.
Admito, passei a ter remorso do que faço aqui.
Foram tantos que matei, tantos que fiz sofrer. Agora, eu acho
que é a minha vez de partir disso tudo.
Talvez assim não venham a ter mais coisas ruins com os que
estão ao meu redor.
Beberei veneno, assim morrerei, e do meu próprio veneno.
Peço que não façam um funeral público, pois agora digo que
nunca gostei de toda essa exposição que passei. Já que os meus pais
não se encontram mais neste mundo, façam o meu funeral perto de
vocês, apenas com membros da máfia.
Também afirmo com as minhas palavras, escrevendo aqui, que
todas as posses da nossa organização devem-se ser passadas para o
meu mais fiel parceiro e irmão, Ramón Javier, sendo ele agora chefe
da nossa máfia. Peço que respeitem ele assim como o respeitei e os
respeitei, fazendo das vontades dele suas prioridades e do seu
semblante admirável o espelho de vocês.
Sei que todos gostam do Ramón, então também sei que a minha
escolha será respeitada.
Eu agradeço por tudo o que me proporcionaram, agora irei me
encontrar com os antigos que sacrificaram as vidas por nós.

De seu querido chefe, Diavolo.”


Hah...
Depois de ter escrito a carta, a deixei ao lado do diabo junto da
pena e guardei a que usei de referência.
Destranquei a porta e, pondo a cabeça para fora do cômodo,
conferi se haviam pessoas por perto.
Estando livre, sai e fui beber algo com os outros membros.
Se me perguntavam sobre o diabo, dizia que ele pediu para ficar
sozinho pois iria tirar um cochilo.
Porém, quanto mais o tempo passava esse tal “cochilo” começou
a levantar suspeitas.
Então eu voltei fui lá, achei o corpo e tive que fingir surpresa.
Ah, mas que estupidez...
Ainda assim, no fim deu tudo certo.
Eu, Ramón Javier, finalmente tornei-me chefe de uma máfia.
Coisa essa que eu já cobiçava durante um tempo, como mencionei
antes.
Em certo ponto, tive que contar para minha esposa, Mireya...
Não preciso dizer que ela não gostou muito dos meus métodos.
Mesmo assim, não liguei muito para isso.
Partindo desse momento, os Sánchez iriam ascender.
Acho que a esse ponto você já sabe que eu não gosto de me
gabar, não é? Bem, a partir de agora, terei que me gabar um pouco
mesmo não querendo.
Inicialmente, quando o suposto suicídio do Diavolo ocorreu,
apenas consegui conquistar os membros com lábia e carisma.
Eu, sozinho, consegui suprir o vazio que eles sentiram ao saber
do ocorrido.
Eu, sozinho, fui atrás de serviços para eles fazerem.
Eu, sozinho, consegui unir mais e mais eles.
Eu, sozinho, recrutei mais pessoas.
Eu, sozinho, superei boa parte das outras máfias da época.
Eu, sozinho, arrecadei bastante dinheiro para a organização.
Diferente do Diavolo, eu não só ordenava, mas também
trabalhava.
Mas isso de “sozinho” foi só até certo ponto.
Nesse mundo cheio de crimes famílias e máfias têm de formar
alianças, pois se ficarem sozinhas por muito tempo começam a ficar
fracas comparando às outras.
Eu, já tendo desenvolvido certo nome no âmbito, comecei a ser
convidado para festas onde ocorriam encontros entre chefes das mais
diversas organizações.
Nunca fui uma pessoa sociável mas, caso eu não frequentasse
essas festas, não teria conhecido uma pessoa.
Uma pessoa que, durante muito tempo, foi importante para mim.
Que ajudou minha família a crescer.
E uma pessoa que, inevitavelmente, eu também ajudei.
Em uma dessas festas eu conheci Nikolai Ivanovich, um russo
que estava com sua máfia em ascensão e precisava de alianças assim
como eu.
E foi disso que nossa relação nasceu, que nosso laço se
fortificou e, no fim de tudo...
...que ocorreu nossa decadência.
Me pergunto.
Se eu não houvesse o conhecido...
Se ele não houvesse ferido meus sentimentos...
Minha vida seria a mesma que levo hoje?
2
Nikolai foi o meu melhor amigo.
Pelo menos eu o considerei assim por bastante tempo.
Desde o dia em que negociei com ele em uma festa, passei a
achar ele um homem esplêndido, em todos os quesitos.
Suponho que a Mireya também tenha pensado o mesmo, já que
também a apresentei a ele.
Diferente do tal diabo, Nikolai era um homem mais calado.
Falava quando necessário e com quem achasse necessário.
Mesmo assim...
Sinto que quando falava comigo, ele se abria mais do que com
os outros conhecidos.
Posso estar ficando louco? Sim, mas não importa.
.....
Eu tenho pensado nele com mais frequência recentemente, então
suponho que as minhas lembranças também estejam frescas.
Tentarei dar o máximo de detalhes sobre a nossa história.
.....
Depois de termos nos conhecido nas festas, começamos a
frequentar as residências um do outro tendo como objetivo fazer
negociações que beneficiassem ambas das nossas organizações.
É bom destacar que a esse ponto os Sánchez já estavam até que
bem desenvolvidos. Com as posses que “foram passadas” a mim, eu
criei a minha própria organização e convenci os soldados que estavam
na do falecido a virem para ela.
E funcionou.
Mas, ainda tendo essa boa quantia de soldados, eu fazia várias
coisas sozinho.
Nunca fui de...
Ficar parado?
Eu não sei.
.....
De qualquer forma.
Nikolai costumava vir mais a minha residência do que eu
costumava ir a dele.
Chuto que seria por conta do tamanho da minha residência.
Naquela época, eu já havia comprado bons terrenos e já havia pagado
para construir minha residência em um deles.
Mesmo que eu pensasse bastante em como descrever ela, eu não
conseguiria. Seria suficiente dizer que é grande?
Bem, enorme?
Olha...
Foi feita para suportar em torno de 15 pessoas morando, e a
parte do morando é importante, pois a residência também era o ponto
de descanso dos soldados pelo dia.
Não minto, ficar sozinho com a Mireya pela parte da noite é
assustador.
Na verdade, sozinho entre aspas, já que sempre pago uma boa
quantia de soldados para ficarem em todas as entradas.
Mas, dentro mesmo, é horrível.
Acho que isso vai ir se consertando ao passar dos anos, nas
futuras gerações.
Bem, prosseguindo...
Diferente dos Sánchez, a organização do Nikolai — que
chamaremos de Bratva — estava em seu pequeno início. Sempre que
ele me pedia por ajuda era algo como dinheiro ou alguns soldados
emprestados.
Eu nunca recusei.
Assim como ele também nunca recusava quando eu pedia.
Falando de mim, eu no máximo pedia apoio em planejamentos
de coisas maiores, como contrabandos ou problemas com o exército.
E assim foi seguindo a nossa relação.
Eu nunca suspeitei de nada vindo dele.
Talvez por conta do fato dele sempre não ter falado muito, como
mencionei antes.
Eu também posso ter ficado meio cego
Querendo ou não, eu estava passando pela minha primeira
amizade que não era superficial.
.....
Acha que eu estou exagerando?
É, talvez sim.
Depois de tudo o que aconteceu, tenho certeza que esse
sentimento pertenceu e ainda pertence somente a mim.
.....
Conforme o tempo passou, eu vi Nikolai crescer o olho para
diversas coisas.
Seu semblante, que antes era humilde, passou a tornar-se mais
ganancioso.
Agora ele queria tomar mais terras, destruir mais organizações
de pequeno porte, queria tudo para si e somente para si...
Em certo momento, eu passei a me preocupar.
Eu tentei ajudá-lo.
Tentei fazer com que os seus antigos objetivos voltassem.
Fazer com que aquele Nikolai voltasse.
Mesmo ele sendo indiferente, seco, mal-humorado... seria
melhor do que ter o Nikolai ganancioso como meu amigo.
E foi daí que comecei a perceber que ele estava cada vez mais e
mais se afastando de mim.
Houve um tempo que passamos meses sem trocar ao menos uma
carta, coisa essa que nunca havia acontecido antes durante toda nossa
amizade.
Então comecei a ser notificado por alguns guardas meus...
Nikolai estava fazendo negociações com máfias que tinham uma
má fama no ramo.
Agora, eu gostaria de explicar uma coisa para você sobre a área
cujo trabalho.
Mesmo máfias sendo organizações criminosas, existem aquelas
que são mais criminosas do que outras, entende?
Certas máfias não aceitam fazer serviços específicos, ou seja,
serviços cujo o cliente comanda tudo.
Coisas assim costumam ser um problema, principalmente por
gerar má fama. O comum para que serviços assim aconteçam é a
vingança, quando o cliente está com uma raiva imensa do alvo e quer
que ele sofra de uma maneira não-convencional.
Mas, existem as que aceitam.
Por dinheiro.
Quando uma máfia faz tudo por dinheiro, ela é identificada
como uma “organização sem dignidade”.
Porém, não tendo dignidade, ela tem dinheiro.
No fim, sempre foi assim...
Mulheres vendem a sua dignidade quando necessitam de
dinheiro, servindo de deleito para homens frustrados.
Homens vendem a sua mão de obra quando necessitam de
dinheiro, construindo coisas para outros homens.
Perder seu respeito, sua honra...
Isso significa ter dinheiro.
Nikolai, ao ter firmado uma aliança com uma máfia cujo a fama
era péssima apenas por dinheiro, perdeu a sua dignidade.
.....
No momento em que eu soube disso, não me surpreendi.
Já havia visto tantas coisas, passado por tantas coisas...
Era só mais um colega de trabalho que havia sido corrompido
pelo dinheiro e por ambição.
.....
Pelo menos eu queria ter pensado assim.
Sim, eu me surpreendi.
E fiquei triste.
Fiquei triste ao ver o meu melhor amigo ser dominado daquele
jeito.
Fiquei triste pelo meu contato com ele ter diminuído tão
drasticamente e tão repentinamente.
Senti saudades das conversas...
Se me permite destacar, saiba que eu sempre prezei mais pela
minha esposa e minha família do que pelo dinheiro.
Nenhuma nota poderia ultrapassar o amor que sinto pela minha
esposa.
Já vi tantos homens sendo levados para o caminho da ganância,
mas nunca consegui de fato compreender como isso funciona.
Por que isso acontece?
Seria a falta de dinheiro na infância? Se sim, não é um bom
motivo. Eu também passei por isso e mantive minha forma de pensar
forte a todo momento.
Poder? Bem, não... Poder se adquire com uma boa dignidade,
não com dinheiro.
Dinheiro apenas serve para acumular e, no fim de sua vida, ser
distribuído para a sua família.
Dinheiro compra o momento, não o eterno...
Mesmo que no fim eu não acredite em eternidade.
Mas, se caso a eternidade de fato exista, eu gostaria de passar ela
ao lado da minha família.
Talvez seja a falta de amor. Afinal, Nikolai não tinha esposa.
Acho que ele nem sequer se interessava.
.....
Ainda com essa tamanha frustração, eu gostaria que tudo tivesse
ficado por isso mesmo.
Que ele me esquecesse, assim como eu estava tentando o
esquecer.
Que nossa relação fosse esquecida...
.....
Antes fosse.
.....
Em um dia chuvoso, com neve caindo sem parar, fui chamado
para uma a sós conversa com o meu soldado e informante mais fiel.
Felizmente, eu tenho memórias claras de como foi essa
conversa, então posso contar com certeza de que não estou errado.
Bem, como eu poderia não ter memórias?
“Obrigado por ter me disponibilizado um pouco do seu tempo
que já é curto, Don Ramón.” — ele disse com um sorriso escondido no
canto de sua boca.
“Não agradeça por isso.” — eu cruzei os meus braços — “Posso
saber o que te incomoda?”
“Tentarei ser breve...”
Ele tirou um papel do bolso.
“Ontem à noite, recebi uma mensagem que foi enviada dos
Bianchi por mediação de um dos seus informantes...” — ele entregou o
papel em minhas mãos — “Gostaria que lesse isto enquanto conto para
você.”
Sem hesitar, passei a ler o papel — que na verdade era uma
carta.
“De acordo com a mensagem, o Don dos Bianchi compareceu a
uma reunião de negócios cujo Nikolai estava. Além dele, também
estava o líder de uma organização que tem um histórico grande de
problemas no ramo. Lá foram discutidos diversos assuntos, mas ao fim
da reunião foi achado esta carta, escondida em baixo de um prato, e o
setor de gestão dos Bianchi acharam que poderia ser do seu interesse.”
A cada mais palavras eu lia, mais não conseguia acreditar.
“Sim, sim... Mais informações?” — eu questionei com uma das
minhas mãos tampando a boca.
“Os Bianchi disseram que gostariam de uma resposta sua
envolvendo ao que foi descoberto, e que prestariam todo o apoio
possível a depender de sua escolha, Don Ramón.”
“...Ah é?”
“Sim, senhor.” — ele afirmou, também consentindo com a
cabeça.
“Entendo.”
Ao terminar de ler, amassei a carta por impulso e a coloquei
dentro de um dos bolsos da calça que usava.
“Obrigado, Pierre. Se eu soubesse que era algo tão importante
assim, teria atendido ao seu pedido ontem mesmo.” — falei sorrindo
para ele.
“Disponha, senhor.” — curvou um pouco a cabeça e pôs a mão
no peito.
“Pierre...”
“Sim?”
“Leve um café até a minha mesa, por favor.”
“Claro, não irá demorar.” — virou-se para a porta do cômodo, a
abriu e saiu.
“...”
Eu fechei os meus olhos, levei ambas as mãos ao rosto.
“Era só o que me faltava...” — disse curvando o corpo para
frente como se estivesse me alongando.
.....
Meu dia teria sido bem mais tranquilo caso eu não tivesse lido
aquela carta.
Mas foi melhor assim.
Acho que, se não fosse por Pierre, tudo teria sido muito tarde.
.....
Ah, claro...
Eu te direi o que estava na carta.
“A minha parte dos preparativos está pronta.
Com o tempo e o dinheiro que me foi dado, pude adquirir mais
soldados e armamentos para o meu lado. Todos têm uma ótima mira e
estão prontos para o que der e vier.
Agora, espero apenas a sua confirmação.
Torço com todas as minhas forças para que o jantar e reunião
que vamos ter possa ajudar os seus pensamentos a se abrirem e que,
quando estiver lendo essa carta em sua adorável residência, esteja
confortável e com o corpo bem relaxado.
Peço que escreva de volta para mim assim que possível e espero
que essa seja a nossa última troca antes do evento ocorrer.
Lembre-se, temos no máximo uma semana para fazer acontecer.
Garanto que, assim que os Sánchez caírem e confiscarmos todos
os bens deles, tudo será bem repartido entre nossas organizações.
Vamos dar um fim no bom samaritano que o Ramón é e na
bruxa que é a esposa dele, Mireya.
Minhas expectativas estão grandes, então peço que não me
decepcione.
De seu fiel companheiro, Nikolai Ivanovich.”
.....
Acredita nisso?
Retomando ao momento que eu lia...
A cada palavra escrita com aquela caligrafia ruim dele que eu
lia, mais vontade de socar aquele rosto sínico dele eu sentia.
Pensar que ele também já havia escrito assim para mim... Talvez
de uma forma até mais doce.
Como chamam pessoas assim?
“Falsas?”
Eu não sei.
Se sim, finalmente percebi que ele foi falso comigo.
.....
Conforme o tempo passou, mais e mais informações foram
chegando a mim e, com isso, também fui percebendo como ele era
estúpido.
Ele planejava invadir a minha residência, com inúmeros
soldados, em um horário em que não houvessem muitos seguranças ao
meu serviço.
.....?
Sabe.
Eu posso ser um pouco idiota às vezes, mas eu nunca tive a
proeza de ser burro.
Por no máximo um dia na semana, eu deixo os meus seguranças
ficarem dentro da casa e não fora dela.
Eu suponho que tenha sido isso o que eles acharam que seria o
“horário em que não houvessem muitos seguranças ao meu serviço.”
Além do mais...
Que máfia de compara aos Sánchez quando o assunto são os
recursos?
Nenhuma.
E se as boas gestões continuarem nas próximas gerações, vai
continuar desse jeito.
De qualquer forma.
Não havia como eles fazerem alguma coisa caso eu agisse
primeiro, correto? E, sem querer me gabar, emboscadas sempre foram o
meu ponto forte.
Então, com a ajuda dos Bianchi, fiz uma emboscada na
residência de Nikolai. Pelo contexto das cartas e das informações que
obtive, quem planejou a maioria das coisas foi ele, então neutralizar o
mesmo seria o certo a se fazer.
Nikolai era tão desligado que fazer ele perder a consciência foi
como tirar doce de criança.
Quando todos os soldados dele foram rendidos, o levei para o
porão da residência e o prendi em uma cadeira.
Até aquele momento, nenhuma morte havia corrido.
.....
E relaxe, eu também tenho boas memórias desse dia.
Não teria como esquecer.
.....
Abrindo os olhos lentamente, como se houvesse acabado de
voltar a vida, Nikolai retomou a sua consciência.
Inevitavelmente ele olhou para frente, onde eu estava, sentado
em uma cadeira com os cotovelos sobre os joelhos.
“Finalmente acordou. Estava com sono? Ficou inconsciente por
bastante tempo.” — eu questionei.
“Acho que sim...” — ele respondeu com o cenho franzido — “O
que é isso tudo, Ramón?”
“Oh?”
“...O quê?”
“Sou eu quem deveria estar perguntando isso.” — inclinando
levemente a minha cabeça para o lado, dei uma pausa — “...O que é
isso tudo, Nikolai?”
“O quê? Não faço ideia do que fala, então não consigo
responder.”
Coloquei a mão dentro de um dos bolsos da calça que eu usava e
tirei um pedaço de papel — a carta antes mencionada.
Eu guardei.
Rapidamente desamassei o papel.
Cof, cof.
Limpei a minha garganta, comecei a ler em voz alta para ele.
Sem perder uma única palavra, sem gaguejar, eu recitei.
.....
“[...] ‘Minhas expectativas estão grandes, então não me
decepcione. De seu fiel companheiro...” — em uma pausa, balancei a
cabeça para os lados em negação — “...Nikolai Ivanovich.’”
Apoiei minhas costas sobre o encosto da cadeira em que eu
sentava, descansei a mão que segurava a carta sobre a minha coxa e o
encarei com frustração.
“Agora que já sabe, responda.”
“Responder o que exatamente, Ramón?” — levantando as
sobrancelhas, ele questionou — “Você sabe ler. É exatamente o que está
escrito.”
“Huh?” — franzi o meu cenho e levei minha cabeça um pouco
para frente — “Então não vai me dar uma explicação? Motivo? Seja lá
o que for?”
“E no que vai adiantar eu te dar um motivo, Ramón?”
“Vai me fazer entender ‘o que é isso tudo’.”
“Ou seja, vai te fazer se sentir melhor?”
“Talvez, eu não sei.”
“Então eu não direi nada.” — ele deu uma pausa — “...Se sentiu
bem acertando minha cabeça por trás enquanto eu estava distraído?”
“Honestamente, sim.”
“E por que não bateu com força, então?”
“...O que quer dizer?”
“Minha cabeça não dói.”
“Não? Bem, eu apliquei a quantidade de força necessária para te
apagar e somente isso.” — curvei o meu corpo para frente, apoiei um
dos meus cotovelos sobre minha coxa e descansei minha cabeça sobre
meu punho — “...Também acertei o local mais efetivo para isso.”
“Resumindo...”
“Hm?”
“...Não queria que eu sentisse dor, correto?”
“O que eu ganharia fazendo você sentir dor, Nikolai?”
“Poderia aliviar o seu estresse.”
“O meu estresse, é?”
“Sim, o seu estresse. Ou vai me dizer que não está estressado
comigo, Ramón? Se sim, que adorável da sua parte.”
“Sim, eu estou estressado.”
“...Então?”
Honestamente, eu estava começando a ficar confuso com as
voltas que ele estava dando na conversa.
“Então o quê, infeliz?”
“Por que não me fez sentir dor?”
“Eu repito a minha pergunta: o que eu ganharia fazendo você
sentir dor? Se também repetir a sua resposta, eu digo que não tenho
interesse em aliviar o meu estresse. Estresse some com o tempo. Tudo
some com o tempo, assim eu imagino.” — seguidamente, cocei a minha
cabeça rapidamente — “Eu te faço sentir dor, meu estresse alivia. Mas e
daí? Que resposta eu tenho? Consegui entender o motivo verdadeiro de
estarmos aqui?”
“Hah...” — ele riu como se tivesse deixado escapar.
“...Qual é a graça?”
“Sempre isso, não?”
“...”
“Você é muito certinho, Ramón. Demais.” — Nikolai bocejou ao
dizer — “Sempre buscando razão em tudo, buscando respostas... que pé
no saco.”
“E qual é o problema nisso?” — questionei por curiosidade.
Nunca havia visto ele dizer tais coisas de mim.
“Que vida você pretende aproveitar pensando tanto assim? Que
tipo de deleito você pretende ter?”
“Uma vida ao lado da minha esposa, pacífica e com coisas
simples para aproveitar...”
“Só?”
“Não fale como se fosse pouco, é o suficiente para mim. Eu não
preciso de mais, nada mais.”
“E é exatamente por isso que você é um pé no saco...” — ele
suspirou fundo, dando uma pausa — “...Você quer um motivo, não?
Então aqui está: é porque você é limitado demais. Sempre foi, Ramón.
Desde o momento em que vi a forma que trabalhava e como você é
conservador, percebi isso. Só mata se haver um bom motivo, só
empresta soldados por uma boa causa, só dá dinheiro para proteção...
Que tipo de benefício pode sair de alguém assim?”
“...”
Permaneci em silêncio, ouvindo cuidadosamente. Notei que ele
estava começando a ficar alterado...
Mas tão rápido assim?
“Depois disso, comecei a refletir. Por que infernos eu sequer
aceitei fazer uma aliança com você? O que eu vi em você? Não faz
sentido algum. Nunca fez e nunca vai fazer sentido. Me pergunto o que
você fez antes para ter conseguido ascender tão rápido assim...”
Ao ouvir as palavras dele, passei a resmungar para mim mesmo.
“...Você matou? Roubou? Ameaçou? O que fez, Ramón? Sério,
estou curioso.”
“...”
Hesitei em responder.
“...Eu tive sorte, Nikolai. Apenas.”
“Sorte, é?”
Ele riu alto com um tom de deboche.
“E que sorte teve, então!”
Suspirou fundo, sorriu sem mostrar os dentes.
“Queria eu ter tido essa sorte, Ramón. Queria eu ter o seu
dinheiro, suas posses...”
Ainda me mantive em silêncio, agora com uma expressão
cabisbaixa.
“...Ei, Ramón.”
“Diga.”
“A Mireya, sua esposa... Ela é católica, não?”
“Bem, sim. Desde que a conheço.”
“Ela lê a bíblia para você? Ou pelo menos te ensina algumas
coisas. Será que você tem uma fé tão grande quanto a dela? Eu nunca
soube sobre isso.”
“Se eu tivesse uma fé tão grande quanto a dela, já teria me
tornado um anjo. Mas, eu sei de algumas coisas.”
“Poderia me dizer qual é o terceiro pecado capital?”
Eu me coloquei para pensar um pouco.
“...Inveja?”
“Inveja...” — ele desviou o olhar — “...Sim, inveja.”
Percebi que Nikolai tentou forçar as cordas que amarravam os
seus pulsos atrás da cadeira.
“Então eu acho que mereço ir para o inferno, Ramón.”
“Ah, você acha? Eu tenho certeza.”
Ao dizer, eu engoli seco e pisquei repetidamente algumas vezes.
“...Por que não me disse essas coisas antes, Nikolai?”
“...Não tive coragem.”
“Coragem?”
“Durante todos esses anos, mantive uma aliança com uma das
maiores máfias que conheço. Comparando com a minha, é
simplesmente outro mundo. Acha que eu teria coragem de dizer essas
coisas a você?”
“Hm.”
Não pude me impedir de sorrir.
“De fato, Nikolai, assim como eu pensei...” — eu fechei os meus
olhos — “...Você não me conhece, e acho que nem sequer tentou me
conhecer.”
Abri os meus olhos e passei a encarar ele.
“Diga-me, sequer teve interesse em saber sobre mim? Você
poderia ter questionado qualquer coisa; e qualquer coisa eu
responderia.”
“Então eu posso questionar uma coisa agora?”
“...Vá em frente.”
“A data da minha morte já está marcada, não está?”
“...Sim.”
“Que bom.”
“...”
“...”
Durante alguns poucos segundos, um silêncio constrangedor
tomou conta do ambiente.
“...Honestamente, quando eu estava perdendo a minha
consciência, pensei que não iria acordar mais. Eu estava pronto para
morrer ali mesmo.”
“Ah é?”
“É sim.”
“Eu não mato ninguém pelas costas, Nikolai. Se for para matar
você, eu prefiro ver o seu rosto e prefiro que veja o meu também.”
“É algum tipo de código de honra?”
“Não exatamente. É só para quem eu matar conseguir lembrar
do meu rosto e ter o direito de me assombrar quando se tornarem
espíritos vingativos.”
“Você gostaria que eu te assombrasse?”
“Não, eu não gostaria que ninguém me assombrasse. Faço isso
apenas porque acho justo. Eu tiro a vida de alguém, e ela tira a minha
paz.”
“Entendo. Você sempre foi justo, não?”
“Sempre tentei ser justo ao máximo, pelo menos...”
“Funciona.”
“Ah é? Bom saber disso.”
“...Para a última conversa da minha vida, isso está muito
calmo.”
Nikolai inclinou a cabeça para o lado, sorrindo um pouco.
“Quando acordei, pensei que você iria fazer coisas horríveis
comigo. Fico aliviado que não tenha se concretizado.”
Eu desviei o olhar.
“...Eu não conseguiria.”
“Não exagere. É claro que conseguiria.”
“Não ponha palavras na minha boca, por favor. Ao te ouvir
dizendo isso, agora tenho certeza que você não me conhece.” — joguei
a carta cujo eu ainda segurava no chão — “...Estou pensando se
realmente vale a pena fazer isso.”
“Isso o quê, Ramón?”
“Tirar a sua vida.”
“...Mas é claro que vale, eu iria te matar! E a sua esposa
também.” — ele exclamou com um certo tom de indignação na voz.
“Eu sei, eu sei...” — levei uma das minhas mãos para a minha
testa — “...Ainda assim, eu não consigo.”
“Você nem sequer tentou. Eu estou na sua frente, Ramón.
Vulnerável. Garanto que não terá outra oportunidade como essa.”
“Será mesmo?”
“Eu garanto.”
“Hm...”
“...”
Nikolai passou a me encarar.
“...Por favor?”
Eu o encarei de volta.
“Por favor, Ramón... Realize esse meu sonho.”
“...Do que você está falando?”
“Me mate, Ramón.”
Ele disse como se fosse a última súplica que pudesse fazer em
sua vida.
“...Realize o sonho do seu maior fã.”
“...”
“Eu me sinto bem com isso, de verdade...” — sorrindo sem
mostrar os dentes, ele afirmou — “...Me dê esse privilégio.”
.....
Mentiroso.
“Você mente, Nikolai.”
“Não! É verdade!” — ele exclamou com uma expressão de
desagrado no rosto — “Eu apenas precisava da sua confirmação.
Precisava que confirmasse que minha morte estava certa...” — desviou
o olhar — “...Sendo eu um pecador, seja o mediador e me faça ir para
onde mereço. Me faça pagar por toda a inveja que senti...”
Nikolai voltou o seu olhar para mim e, pela primeira vez, eu o vi
lacrimejar.
“...do meu ídolo (de você).”
.....
Eu já não conseguia distinguir o que era verdade ou mentira.
Eu deveria acreditar em quem planejava matar a mim e a minha
esposa?
Deveria acreditar em quem planejava desfazer tudo o que
construí durante anos?
Mas, ainda assim... algo, no fundo da minha alma, me fazia
lembrar do quanto eu me sentia bem com ele ao meu lado.
Os olhos dele, naquele momento, não eram de um mentiroso.
Ele realmente desejava a morte?
Morte essa vinda por minha causa?
E então eu entendi.
Entendi os motivos dele.
Entendi o motivo dele sempre ter se demonstrado fechado em
minha volta.
Entendi o motivo dele sempre ter me respeitado tanto.
Entendi o motivo dele sempre ter me olhado com neutralidade.
Nikolai não soube como se portar na frente de seu ídolo (em
minha frente), não soube como superar ele (me superar), não soube
como controlar sua inveja por ele (por mim) e, no fim, falhou em matá-
lo (em me matar).
“Lembra que há uns minutos atrás me perguntei o que vi em
você? Então, saiba que vi muitas coisas. Coisas que não pude ter, não
tenho e nunca poderei ter.”
Eu me levantei da cadeira.
“Obrigado, Ramón...”
Coloquei minha mão direita na cintura, peguei o meu revólver...
“...por ter me ensinado o que é a inveja.”
...Eu puxei a trava, apontei em direção a ele.
“Quem sabe, daqui a alguns anos, não possamos nos encontrar
novamente.”
Nikolai sorriu sem mostrar os dentes, com os olhos fechados...
Eu puxei o gatilho.
BANG!
.....
Eu o acertei uma vez, entre os olhos dele.
O corpo dele congelou, a voz se esvaiu.
O sangue começou a escorrer da perfuração na cabeça dele.
O sangue descia, descia e, assim que uma gota pingou na camisa
cujo ele usava, senti uma gota d’água sair do meu olho.
A gota desceu, desceu e do meu rosto caiu.
Pling.
Ao ouvir o barulho da gota se chocando no chão de madeira,
meu corpo passou a tremer.
E então, minha mão direita começou a subir involuntariamente.
Ela subia, subia...
Até que o cano do revólver chegou até a lateral da minha
cabeça.
Eu reuni as minhas forças e usei parte dela para fechar os meus
olhos intensamente.
Minha mão já estava no gatilho, eu o puxei...
Mas havia esquecido de puxar a trava novamente.
3
Quando criança, eu sentia bastante medo do escuro.
Minha família não havia dinheiro para comprar muitas velas,
então acabávamos por ficar no escuro grande parte das vezes.
À noite, quando me deitava para dormir, às vezes eu ouvia vozes
baixas sussurrando o meu nome. Geralmente essas vozes apareciam
quando eu fazia algo de errado ou que me fazia sentir arrependimento.
Pelo o que consigo me lembrar, essas vozes se pareciam bastante
com as dos meus pais. Às vezes com a da minha mãe, às vezes com a
do meu pai...
Por isso, eu sempre não temia em ir em direção ao escuro
quando as ouvia.
Quase sempre que eu ia esbarrava em um deles, mas às vezes eu
não encontrava absolutamente nada.
Eu ouvia, caminhava até a voz, não encontrava nada e me perdia
do caminho do meu quarto. Então eu ficava lá de pé, no meio da
escuridão, esperando algum dos meus pais acordarem e me guiarem
novamente até o meu quarto.
Às vezes até tinha que esperar amanhecer.
Houveram casos onde mesmo no escuro eu continuava a ouvir a
voz.
E eu seguia, indo cada vez mais e mais para o escuro.
Me perdia, esbarrava em alguns móveis.
Lembro que um dia eu esbarrei em algo de vidro. Acabei me
cortando feio nesse dia.
Tenho a cicatriz até hoje.
.....
Acho que foi a partir desses eventos que eu comecei a evitar me
envolver em muitas brigas ou quaisquer coisas que poderiam me fazer
sentir culpado.
Eu me tornei um bom samaritano.
Ajudando as pessoas, eu me sentia bem e não ouvia mais as
vozes.
Dormia pacificamente, todas as noites, sem preocupações...
E assim se foi até que eu fizesse a minha mudança para a Itália.
Consequentemente, até que eu entrasse para a organização do
Diavolo.
Eu diria facilmente que, dentre todos os períodos da minha vida,
foi nesse onde eu mais matei pessoas.
A cada semana, eu tirava a vida de no mínimo três pessoas.
Matei homens, mulheres, crianças... mas não me orgulho disso.
Pelo contrário, se eu pudesse apagar esse meu passado, eu faria
sem nem pensar duas vezes.
Ainda mais as minhas memórias.
.....
Acho que nunca contei, mas eu sou um homem que costuma
sonhar muito. Não no sentido de ambição, mas sim no do sono.
Se eu dormir uma noite inteira sem sonhar com algo, é um
milagre.
E... durante os tempos onde prestei serviços ao Diavolo, meus
sonhos passaram a se tornar pesadelos.
Eu sonhava com quem matava, no mesmo dia.
Se eu matasse um homem, sonharia com ele ao dormir.
Se eu matasse uma mulher, sonharia com ela ao dormir.
E, se eu matasse uma criança, sonharia com ela ao dormir.
Um sonho em específico acabou me marcando bastante.
.....
Meu dever foi matar uma família constituída de marido, esposa
e uma filha pequena de aproximadamente seis anos. Na época eles
haviam pegado dinheiro emprestado para pagar algumas coisas, mas
não conseguiram devolver a quantia no prazo estipulado.
O sonho se passava na casa deles, onde fiz o serviço. Diferente
de como deixei o local, agora havia mais sangue do que o normal por
todo o lugar. No chão, nas paredes, até mesmo no teto havia sangue.
Ao dar mais passos adentrando a casa, eu vi os corpos dos
membros da família, juntos, sentados encostados em uma das paredes.
O marido, na esquerda. A criança, no centro. A esposa, na
direita.
O marido vestia um terno casual, como se houvesse acabado de
chegar do seu trabalho.
A criança, uma menina branca como neve, vestia uma camisola
quase transparente.
Já a esposa vestia uma lingerie e usava uma maquiagem mal
feita.
Eu encarava a cena com o meu revólver na mão e o corpo
completamente ensanguentado, mais do que o necessário.
Mesmo sendo um sonho, pude sentir um fedor horrível de
putrefação preencher completamente as minhas narinas.
E então, de dentro da boca da esposa, saíram duas centopeias e
elas se enfiaram na lingerie que a mulher usava. Seguidamente, ainda de
dentro da boca dela, começou a sair um líquido branco...
Algo parecido com sêmen.
Logo após o líquido começar a sair, o corpo da mulher deu um
espasmo e os olhos dela se abriram.
Ela me encarou com os olhos bem abertos, passou a se
levantar...
“Eu vou trabalhar até conseguir o dinheiro.” — ela afirmou
enquanto ainda me encarava.
Ao terminar sua fala, pude ver o pescoço dela passar a virar trás
lentamente. Ouvi cada osso sendo partido, vi a pele do pescoço ser
esticada, ouvi a carne sendo rasgada...
Puff!
O corpo dela foi ao chão como se tivesse derretido, agora
totalmente falecido — ou novamente falecido.
Ao observar o corpo dela, levei ambas as minhas até a boca e
ameacei vomitar.
Gulp!
Senti algo viscoso e amargo subir pela minha garganta
rapidamente, como se o meu estômago tivesse apenas recusado algo que
comi.
Bleergh!
Então eu vomitei.
Assim como a mulher, saiu da minha boca um líquido branco...
Algo parecido com sêmen.
E eu gorfei algumas vezes esse mesmo líquido, até que o chão
sob meus pés passasse a ficar sujo de sêmen ao invés de sangue.
Ainda salivando bastante por conta do vômito, vi o corpo
ensanguentado da menina também dar um espasmo.
Diferente da mãe, o corpo dela levantou-se em um piscar de
olhos, como se tivesse teleportado para ficar de pé.
Abriu-se as pálpebras, passou a me encarar com os pequenos e
redondos olhos que tinha.
Lentamente entortou um pouco a cabeça para o lado...
Então abriu a boca e pôs uma língua de tamanho impressionante
para fora, diria que facilmente mede mais do que um palmo da minha
mão.
Deslizando pela língua, diversas moedas de outros saíram de
dentro dela.
Tlin, tlin, tlin!
O barulho das moedas batendo contra o chão ficava cada vez
mais intenso.
Tlintlintlintlintlintlin!
E a quantidade de moedas dobrava, triplicava...
Então eu pisquei rapidamente e, ao abrir os meus olhos, as
moedas no chão sumiram. A menina já não tinha a língua para fora.
Ainda sem ter tirado os olhos dela, percebi que hematomas
passaram a surgir no corpo da mesma.
No pescoço, nos braços, no rosto, nos pés...
“Eu vou trabalhar até conseguir o dinheiro...” — ela falou em
um tom aproximo de ser um sussurro.
Novamente eu pisquei, afinal era o meu único “poder” naquela
situação.
Abrindo os olhos, o corpo da menina havia voltado para sua
antiga posição. Estava sentada no chão, encostada na parede.
Já o homem, o marido...
Ele não fez nada. Ou melhor, nada aconteceu com o corpo dele.
Sinto que ele não tinha guardado nenhum rancor.
Eu conhecia um pouco esse homem, por sinal. Ele trabalhava
como um condenado... sempre estava cansado.
Quem sabe a morte não tenha conseguido fazer ele finalmente
descansar um pouco.
Ainda assim, não havia acabado.
Eu ainda sentia aquele cheiro podre e enjoativo, exalando dos
corpos em minha frente e das minhas costas...
...Das minhas costas?
.....
Ao ouvir um suspiro profundo vindo das minhas costas, eu me
virei rapidamente para trás.
Havia a entrada aberta do cômodo e, me observando da parede
apenas com a cabeça à mostra, espreitando-se, me vi.
Meu rosto agora pálido, sem pupilas nos olhos e com uma corda
amarrada ao pescoço.
Vi os meus mesmos cabelos ondulados balançando um pouco
conforme a cabeça se mexia de uma forma desordenada, como se
estivesse me analisando.
Minhas pernas congelaram.
“Finis eius...”
Ao me ouvir falar — se é que posso chamar aquilo de “mim” —,
tentei dar um passo para trás, mas não consegui. Tentei fechar os olhos
e parar de encarar, mas não consegui.
“...prope est.”
Huhuhu.
“Eu” ri.
Então eu vi amarelo — vi a criatura sorrir. Vi aqueles dentes
amarelos como ouro se abrirem de uma forma desconcertante.
Eu forçava as minhas pernas, forçava mais e mais...
Até que consegui dar um passo para trás.
Tump!
Pisei forte no chão.
A criatura, ao ouvir o barulho, recolheu a cabeça rapidamente.
Minhas pernas voltaram ao normal, eu corri em direção a
entrada, olhei para os lados...
Nada.
E finalmente eu acordei.
Acordei mais calmo do que quando acordei dos outros pesadelos
que tive. A Mireya dormia ao meu lado, linda como sempre foi e é.
Mas eu ainda sentia o gosto amargo de sêmen em minha boca.
Ainda sentia o cheiro podre entrar pelas minhas narinas e subir
até o meu cérebro, perturbando o meu juízo.
Olhei para os lados.
Escuro, nada...
Me sentia observado das brechas do quarto, de dentro do
guarda-roupas.
Eu queria me levantar da cama, mas algo dentro de mim me
disse que era melhor não.
Senti que caso eu levantasse, voltar para a cama não iria mais.
Então obedeci os meus instintos e tentei voltar a dormir.
.....
Essa foi apenas uma das noites horríveis que tive dentre todas as
inúmeras outras, e eu sinto que isso nunca vai parar.
Ou pelo menos não tão cedo assim.
Mas, se eu fosse dizer os sonhos que mais me perturbam, são os
que me fazem lembrar daquele dia...
O dia em que matei meu melhor amigo.
Meus pesadelos com Nikolai são recorrentes.
Me lembro do que via, do barulho do disparo, do sangue dele
escorrendo... Ainda está tudo tão claro em minha mente que me assusta.
Todo sonho que tenho dele é essa mesma situação, a única
diferença é o número de disparos.
No primeiro sonho, atirei uma vez, assim como fiz no dia.
No segundo sonho, atirei duas vezes.
No terceiro sonho, atirei três vezes.
No quarto sonho, atirei quatro vezes.
E assim sucessivamente...
Eu já não sei mais até quando vou aguentar contar.
Mas sei que, caso eu esqueça por um tempo, o meu
subconsciente não vai permitir que essa memória simplesmente se
esvaia de mim.
Dessa forma continuará sendo, até o dia da minha morte.
.....
Ontem, eu tive uma experiência que está me perturbando até
agora. É um dos motivos de eu estar escrevendo isso, por sinal.
Preciso pôr para fora.
.....
Eu havia sonhado com uma vítima recente. Era um criminoso.
Ao acordar no meio da noite, decidi ir até a cozinha beber um
copo d’água. Desci as escadas com cuidado pois a casa estava bem
escura.
Eu não me incomodei com a falta de luz.
Então, na cozinha, enxergando apenas com a pouca luz da lua
que invadia pelas janelas, ouvi alguém me chamando.
“Ramón...”
.....
Mireya?
Eu pensei.
Bem, era a voz dela no momento.
“Querida?” — chamei por ela em voz alta — “...Não deveria
estar no quarto?”
“Ramón, venha aqui...”
A voz ecoou da escuridão.
Minha esposa me chamou, então eu fui sem hesitar...
Em passos lentos eu adentrei a escuridão.
“Mireya?” — chamei novamente por ela.
“...”
Dando mais um passo para frente eu percebi dois pontos brancos
brilhando no fundo da cozinha, como se fossem olhos.
Chamou a minha atenção, eu direcionei meu olhar...
Assim que a minha visão se ajustou, eu o vi.
Uma figura negra, alta e de corpo indefinido, olhando fixamente
para o meu rosto.
Não tinha pupilas, não tinha boca nem nariz.
Assim eu me lembro, talvez tenha sido por conta da escuridão.
Eu espero.
Sua voz é bonita...
Uma voz ecoou em minha cabeça.
Minhas pernas começaram a tremer, meus olhos não saiam do
ser que me encarava.
...Me dá ela?
Vi uma boca crescer na figura.
“Suas mãos... eu gosto.”
Pude ouvir claramente a minha voz saindo daquela coisa.
“Ra... món? Ramón... Huhuhu.”
Ela disse como se estivesse zombando de mim.
“Eu quero o seu cabelo... Eu quero seus olhos...”
Senti que a criatura estava de afastando, a vi indo para trás...
“O que é mais feio, eu ou você? O que é mais feio, você ou as
pessoas que matou? Feio... O que é feio? Me ensine. Ensine tudo. O
que é mais feio... você ou...”
Vi a sua boca crescer, dentes brancos como a neve aparecerem.
Ela sorriu para mim.
“Huhu.”
Eu tentei me afastar ou até mesmo apenas cair para trás, mas não
consegui.
Diante minhas ações, o sorriso da criatura se esvaiu.
“...Por quê?”
.....
Não consegui sequer abrir a boca.
Estava hipnotizado.
“Você apenas sente medo do escuro porque não sabe o que tem
nele...” — ela afirmou — “...Nunca teve realmente coragem de
descobrir o novo, se limita apenas ao que viveu e vive, não ao que
pode viver. Será que algum dia conseguirá esquecer do passado?”
Fui forçado a ouvir cada uma dessas palavras, calado, sem poder
tampar os meus ouvidos.
“Você sente medo do escuro, mas também ama a sua
escuridão. Ama mais do que a sua esposa. Ama mais do que o seu
filho que está por vir. Ama mais do que... qualquer coisa.”
A criatura curvou-se para frente lentamente, dobrando a
“coluna” de uma forma impressionante.
“Quantas sombras você já absorveu para si? Dezenas?
Centenas? Milhares?” — entortou a cabeça para o lado — “...Até
mesmo absorveu a sombra do seu melhor amigo. Vá acumulando, isso
mesmo; acumule mais sombras... Quanto mais sombras você
absorver, quanto mais se sujar de vermelho...”
Deu uma pausa a criatura, abrindo novamente um sorriso em
minha direção.
“...mais a sua escuridão vai crescer.”
Então eu pisquei.
Ao abrir os olhos, tudo em minha volta estava claro.
Eu franzi o cenho.
A criatura sumiu...
...Ficou de manhã de repente?
.....
4
“Minha escuridão”.
Depois de tanto refletir no que aquela... coisa me disse, eu
compreendi.
.....
Desde a minha infância até agora, a minha escuridão me
persegue.
Em forma de pesadelo, de medo, de passado.
Faz-me prender, congelar, tremer.
Conforme fui crescendo, não fiz nada para me clarear.
Apenas segui a continuar fazendo o que sempre fiz.
Alimentei a escuridão dentro de mim com cada culpa que
absorvia.
Cada sombra que absorvia.
A cada vida que absorvia...
...eu tomava a responsabilidade de quem sangrava por conta da
minha lâmina, das minhas balas, dos meus punhos.
Tomei as responsabilidades de um pai de família.
Tomei as responsabilidades de uma mãe.
Tomei as responsabilidades bobas de uma garotinha.
Tomei as responsabilidades do meu... melhor amigo.
No fim, eu não sou diferente de Nikolai.
Mesmo já tendo absorvido tanto, eu continuo a absorver cada
vez mais e mais. Todo dia, toda semana, mais e mais.
.....
Minha escuridão nunca vai sumir.
...Não até a minha morte chegar.
Essa é a minha resposta, é a verdade.
Ao ouvir as palavras daquela criatura, pude perceber quem eu
realmente sou.
Eu vou continuar absorvendo sombras e, caso eu pare, irei me
alimentar da minha própria sombra.
Minha escuridão é infinita.
Infinita.
Minhas memórias são infinitas e, agora com o meu filho estando
na barriga da minha esposa, sei que eu também serei infinito.
Mesmo que eu morra... alguém será como eu.
Alguém que durante muito tempo apenas absorveu e que poderá
apenas perceber que está se afundando em uma escuridão quando
compreender a si mesmo.
Oh, meu sucessor...
.....
Eu já estou quase totalmente preenchido.
Acredite...

Eu não irei durar muito tempo.

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