A CONSTITUIÇÃO DA REPÚBLICA DE MOÇAMBIQUE E O DIREITO
INTERNACIONAL PÚBLICO
1. Introdução
A relação entre o Direito Constitucional e o Direito Internacional Público (DIPu) tornou-
se cada vez mais estreita no contexto contemporâneo, especialmente com o
fortalecimento da globalização, da cooperação entre Estados e da proteção dos direitos
humanos. A Constituição da República de Moçambique (CRM) não é uma norma isolada,
mas integra-se num sistema jurídico mais amplo, no qual o Direito Internacional exerce
um papel relevante na orientação e limitação da atuação do Estado.
Moçambique, enquanto Estado soberano e membro da comunidade internacional,
reconhece a importância do Direito Internacional Público na regulação das suas relações
externas, bem como na incorporação de normas internacionais no seu ordenamento
jurídico interno. Assim, compreender o conceito, o objeto, os sujeitos, as fontes do DIPu
e a sua relação com a Constituição moçambicana é essencial para interpretar corretamente
o sistema jurídico nacional
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2. Conceito e objeto do Direito Internacional Público
O Direito Internacional Público pode ser definido como o conjunto de normas jurídicas
que regula as relações entre sujeitos de Direito Internacional, especialmente os Estados e
organizações internacionais, bem como estabelece princípios e regras aplicáveis na
convivência da comunidade internacional.
Segundo Shaw (2017), o Direito Internacional Público é o sistema de regras e princípios
que governa as relações entre Estados e outros atores internacionais, tendo como base o
consentimento dos Estados e a necessidade de manter a ordem internacional.
O objeto do DIPu consiste essencialmente em:
Regular as relações entre Estados soberanos;
Estabelecer normas de cooperação internacional;
Proteger os direitos humanos no plano internacional;
Promover a paz e segurança internacionais;
Regular questões globais como comércio, meio ambiente, direito do mar e conflitos
armados.
Assim, o DIPu não se limita apenas aos Estados, mas também abrange a proteção de
interesses comuns da humanidade.
3. Sujeitos do Direito Internacional Público
Tradicionalmente, o principal sujeito do Direito Internacional Público é o Estado.
Contudo, a evolução do sistema internacional ampliou essa noção, reconhecendo outros
sujeitos.
3.1 Estados
Os Estados são sujeitos primários do DIPu, possuindo soberania, personalidade
jurídica internacional plena e capacidade de celebrar tratados, estabelecer relações
diplomáticas e participar em organizações internacionais.
3.2 Organizações internacionais
As organizações internacionais, como a Organização das Nações Unidas (ONU), a
União Africana (UA) e outras entidades regionais, também são sujeitos do DIPu, com
personalidade jurídica própria derivada dos Estados que as constituem.
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3.3 Indivíduos
Os indivíduos passaram a ser considerados sujeitos limitados do Direito Internacional,
especialmente no âmbito dos direitos humanos e do direito penal internacional.
Atualmente, os indivíduos podem ser responsabilizados por crimes internacionais, como
genocídio e crimes de guerra, perante tribunais internacionais.
[Link] sujeitos
Incluem-se ainda:
Empresas multinacionais (com participação indireta);
Movimentos de libertação nacional;
A Santa Sé, em casos específicos.
4. A Constituição da República de Moçambique e o Direito Internacional
Público
A Constituição da República de Moçambique estabelece a base jurídica para a inserção
do país no sistema internacional. O artigo 17 da CRM determina que a República de
Moçambique estabelece relações de amizade e cooperação com outros Estados com base
nos princípios de respeito pela soberania, igualdade dos Estados, não ingerência e respeito
pelos direitos humanos (Constituição da República de Moçambique, 2004/2018).
Além disso, a Constituição reconhece a validade dos tratados internacionais ratificados
pelo Estado moçambicano, o que demonstra uma postura de abertura ao Direito
Internacional. Assim, os tratados internacionais devidamente aprovados e ratificados
passam a integrar o ordenamento jurídico interno.
4.1 Princípio da receção do Direito Internacional
Moçambique adota um sistema de receção do Direito Internacional, o que significa que
normas internacionais podem ser incorporadas ao direito interno após ratificação. Este
princípio reforça a integração entre o direito interno e o direito internacional.
4.2 Proteção dos direitos humanos
A Constituição moçambicana incorpora princípios fundamentais do Direito Internacional
dos Direitos Humanos, como a dignidade da pessoa humana, igualdade e não
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discriminação. Estes princípios estão alinhados com instrumentos internacionais como a
Declaração Universal dos Direitos Humanos (ONU, 1948).
4.3 Cooperação internacional
A CRM incentiva a cooperação internacional em áreas como economia, cultura, ciência
e defesa da paz. Este princípio reflete o compromisso de Moçambique com o
multilateralismo e a integração internacional.
5. Fontes do Direito Internacional Público
As fontes do Direito Internacional Público são os meios pelos quais as normas
internacionais são criadas e reconhecidas. O artigo 38 do Estatuto da Corte Internacional
de Justiça é amplamente utilizado como referência para identificar essas fontes.
5.1 Tratados internacionais
Os tratados são acordos escritos celebrados entre Estados ou organizações internacionais
e constituem a principal fonte do DIPu. Exemplos incluem tratados de comércio, paz e
direitos humanos.
5.2 Costume internacional
O costume internacional resulta da prática geral e reiterada dos Estados acompanhada da
convicção de obrigatoriedade jurídica (opinio juris). É uma das fontes mais antigas do
Direito Internacional.
5.3 Princípios gerais do direito
São princípios reconhecidos pelas principais ordens jurídicas internas, como boa-fé,
igualdade e justiça, que também são aplicados no plano internacional.
[Link]ência e doutrina
Embora sejam fontes auxiliares, as decisões dos tribunais internacionais e os estudos de
juristas contribuem para a interpretação e desenvolvimento do DIPu.
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6. Relação entre o Direito Internacional Público e o Direito Constitucional
Moçambicano
A relação entre o Direito Internacional e o Direito Constitucional em Moçambique é
marcada pela complementaridade. A Constituição funciona como base normativa interna,
enquanto o Direito Internacional amplia a proteção jurídica e regula as relações externas
do Estado.
De acordo com Canotilho (2003), o constitucionalismo moderno não pode ser
compreendido sem a abertura ao Direito Internacional, especialmente no campo dos
direitos humanos.
Em Moçambique, essa relação manifesta-se:
Na incorporação de tratados internacionais no ordenamento interno;
Na proteção constitucional dos direitos humanos;
No respeito pelos princípios do Direito Internacional;
Na participação ativa em organizações internacionais.
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7. Conclusão
O Direito Internacional Público desempenha um papel fundamental na organização da
sociedade internacional contemporânea, regulando as relações entre Estados e outros
sujeitos internacionais. Em Moçambique, a Constituição da República estabelece uma
forte ligação com o Direito Internacional, promovendo a integração de normas
internacionais no ordenamento jurídico interno.
A análise do conceito, dos sujeitos, das fontes e da relação entre o DIPu e a Constituição
moçambicana demonstra que o Estado moçambicano adota uma postura aberta ao Direito
Internacional, especialmente no que diz respeito à proteção dos direitos humanos e à
cooperação internacional. Essa integração reforça a posição de Moçambique como
membro ativo da comunidade internacional.
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Referências Bibliográficas
Canotilho, J. J. G. (2003). Direito constitucional e teoria da constituição. Almedina.
Constituição da República de Moçambique. (2004, ver. 2018).
Organização das Nações Unidas. (1948). Declaração Universal dos Direitos Humanos.
Shaw, M. N. (2017). International law (8th ed.). Cambridge University Press.
Statute of the International Court of Justice. (1945).