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Os Cegos

A peça 'Os Cegos' de Maurice Maeterlinck retrata um grupo de cegos, homens e mulheres, que aguardam o retorno de um padre em uma floresta escura e sombria. Enquanto esperam, eles discutem suas inseguranças e a ausência do padre, revelando suas fragilidades e medos em um ambiente de solidão e desorientação. A atmosfera é marcada pela tensão e pela busca por compreensão em meio à escuridão e à incerteza.

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Bruno Bravo
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Os Cegos

A peça 'Os Cegos' de Maurice Maeterlinck retrata um grupo de cegos, homens e mulheres, que aguardam o retorno de um padre em uma floresta escura e sombria. Enquanto esperam, eles discutem suas inseguranças e a ausência do padre, revelando suas fragilidades e medos em um ambiente de solidão e desorientação. A atmosfera é marcada pela tensão e pela busca por compreensão em meio à escuridão e à incerteza.

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OS CEGOS

Maurice Maeterlink

Primeira versão
Tradução Bruno Bravo

Primeiros Sintomas
2026
OS CEGOS

Uma FLORESTA SETENTRIONAL muito antiga, de aspeto eterno sob um céu profundamente estrelado. – No meio,

e em direção ao fundo da noite, está sentado UM PADRE MUITO VELHO, envolto num GRANDE CAPOTE

PRETO. O busto e a cabeça, ligeiramente inclinados para trás e MORTALMENTE IMÓVEIS, apoiam-se no tronco

de um CARVALHO IMENSO E CAVERNOSO. O ROSTO É DE UMA PALIDEZ IMUTÁVEL DE CERA E OS

LÁBIOS ROXOS ESTÃO ENTREABERTOS. Os olhos mudos e fixos já não olham o lado visível da eternidade e

parecem ensanguentados por uma grande quantidade de dores imemoriais e de lágrimas. Os cabelos, de uma brancura

muito grave, caem em mechas espigadas e esparsas sobre o rosto, mais iluminado e mais cansado que tudo o que o cerca

no silêncio atento da morna floresta. As mãos macilentas estão rigidamente postas sobre as coxas. – À direita, SEIS

VELHOS CEGOS ESTÃO SENTADOS EM PEDRAS, TOCOS DE ÁRVORES E FOLHAS MORTAS. – À

esquerda, diante dos velhos, porém separadas deles por uma árvore arrancada e por PEDAÇOS DE ROCHA, estão

sentadas SEIS MULHERES, TAMBÉM CEGAS. Três delas rezam e se lamentam numa voz surda e ininterrupta. Uma

outra é muito velha. A quinta, em atitude de muda loucura, tem no colo UMA CRIANÇA PEQUENA, que dorme. A

SEXTA É DE UMA JUVENTUDE ESPLENDOROSA E SUA CABELEIRA INUNDA TODA A SUA PESSOA.

As cegas vestem, assim como os velhos, TRAJES AMPLOS, ESCUROS E SEMELHANTES. A maioria espera, com os

cotovelos sobre os joelhos e o rosto entre as mãos e todos parecem ter perdido o hábito do gesto inútil e não voltam mais

a cabeça a cada rumor abafado e inquieto da ilha. Grandes árvores fúnebres, teixos, salgueiros-chorões e ciprestes cobrem-

nos com suas sombras fiéis. Um tufo de longos asfódelos doentios floresce, não longe do padre, dentro da noite. ESTÁ

EXTRAORDINARIAMENTE ESCURO, APESAR DO LUAR QUE AQUI E ALI SE ESFORÇA PARA

AFASTAR POR UM MOMENTO AS TREVAS DAS FOLHAGENS.

PRIMEIRO CEGO DE NASCENÇA

Ele ainda não voltou?


SEGUNDO CEGO DE NASCENÇA

Acordaste-me!
TERCEIRO CEGO DE NASCENÇA

Eu também estava a dormir.


PRIMEIRO CEGO DE NASCENÇA

Ele ainda não voltou?

SEGUNDO CEGO DE NASCENÇA

Não oiço ninguém a chegar

2
TERCEIRO CEGO DE NASCENÇA

Já são horas de voltarmos para o asilo.

PRIMEIRO CEGO DE NASCENÇA

Era preciso saber onde estamos.


SEGUNDO CEGO DE NASCENÇA

Está frio desde que ele partiu.


O CEGO MAIS VELHO

Alguém sabe onde estamos?


A CEGA MAIS VELHA

Caminhámos muito tempo; devemos estar muito longe do asilo.


PRIMEIRO CEGO DE NASCENÇA

Ah! As mulheres estão à nossa frente?


A CEGA MAIS VELHA

Estamos sentadas à vossa frente.


PRIMEIRO CEGO DE NASCENÇA

Esperem, vou ter convosco.


ELE LEVANTA-SE E TATEIA

Onde estão? – Falem! para eu ouvir onde estão!

A CEGA MAIS VELHA

Aqui; estamos sentadas numas pedras.


PRIMEIRO CEGO DE NASCENÇA

ELE AVANÇA E CHOCA COM O TRONCO DE ÁRVORE E BOCADOS DE PEDRA.

Há qualquer coisa entre nós...


SEGUNDO CEGO DE NASCENÇA

É melhor que cada um fique no seu lugar!


TERCEIRO CEGO DE NASCENÇA

Onde estão sentadas? – Querem vir para junto de nós?


A CEGA MAIS VELHA

Não nos atrevemos a levantar!

3
TERCEIRO CEGO DE NASCENÇA

Porque é que ele nos separou?

PRIMEIRO CEGO DE NASCENÇA

Oiço preces, do lado das mulheres.


SEGUNDO CEGO DE NASCENÇA

Sim; as três velhas rezam.


PRIMEIRO CEGO DE NASCENÇA

Não é altura para rezas!


SEGUNDO CEGO DE NASCENÇA

Vão poder rezar daqui a pouco, no dormitório.


AS TRÊS VELHAS CONTINUAM AS SUAS ORAÇÕES

TERCEIRO CEGO DE NASCENÇA

Eu gostaria de saber ao lado de quem estou sentado.


SEGUNDO CEGO DE NASCENÇA

Acho que estou perto de ti.


ELES TATEIAM À SUA VOLTA.

TERCEIRO CEGO DE NASCENÇA

Não nos conseguimos tocar!


PRIMEIRO CEGO DE NASCENÇA

No entanto, não estamos longe um do outro.


TATEIA À SUA VOLTA E BATE COM SEU BASTÃO NO QUINTO CEGO, QUE GEME BAIXINHO.

Aquele que não consegue ouvir está entre nós dois.


SEGUNDO CEGO DE NASCENÇA

Não estou a ouvir toda a gente; éramos seis agora mesmo.

PRIMEIRO CEGO DE NASCENÇA

Começo a perceber. Vamos perguntar também às mulheres; precisamos de saber em

que pé é que estamos. Continuo a ouvir as três velhas a rezar; será que estão juntas?
A CEGA MAIS VELHA

Elas estão sentadas a meu lado, numa pedra.

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PRIMEIRO CEGO DE NASCENÇA

Eu estou sentado em cima de folhas mortas!

TERCEIRO CEGO DE NASCENÇA

E a cega bonita, onde está?


A CEGA MAIS VELHA

Junto das que rezam.


SEGUNDO CEGO DE NASCENÇA

Onde está a louca com o seu filho?

A JOVEM CEGA

Ele está a dormir; não o acordem!


PRIMEIRO CEGO DE NASCENÇA

Ah! Estás tão longe de nós! Achei que estavas à minha frente.
TERCEIRO CEGO DE NASCENÇA

Sabemos, mais ou menos, tudo o que é preciso saber; vamos conversar um pouco,

enquanto esperamos que o padre volte.


A CEGA MAIS VELHA

Ele disse-nos para o esperarmos em silêncio.


TERCEIRO CEGO DE NASCENÇA

Não estamos numa igreja.


A CEGA MAIS VELHA

Você não sabe onde estamos.


TERCEIRO CEGO DE NASCENÇA

Tenho medo quando não falo.


SEGUNDO CEGO DE NASCENÇA

Sabes para onde foi o padre?


TERCEIRO CEGO DE NASCENÇA

Estou a achar demasiado longa a sua ausência.

5
PRIMEIRO CEGO DE NASCENÇA

O padre está demasiado velho. Parece que ele próprio também já não vê há algum

tempo. E não quer admitir, com medo que outros lhe tome lugar; mas eu desconfio

que ele praticamente já não vê nada. Precisamos de outro guia: ele já não nos ouve,

e nós somos muito numerosos. Na casa, só ele e as três religiosas é que veem; e são

todos mais velhos do que nós! – Tenho certeza de que ele se desviou do caminho e

fez com que a gente se perdesse e agora está a tentar encontrar o caminho. Onde é

que ele foi? – Ele não tem o direito de nos largar aqui...
A CEGA MAIS VELHA

Ele foi para muito longe; acho que foi isso que disse às mulheres.
PRIMEIRO CEGO DE NASCENÇA

Ele agora só fala com as mulheres? E nós, já não existimos? Temos de nos queixar!
O CEGO MAIS VELHO

E vais-te queixar a quem?


PRIMEIRO CEGO DE NASCENÇA

Não sei ainda; veremos; veremos. Mas onde foi ele, afinal? Vou perguntar às

mulheres.
A CEGA MAIS VELHA

Ele estava cansado de andar tanato tempo. Acho que se sentou por um momento no

meio de nós. Ele tem estado muito triste e muito fraco há vários dias. Anda com

medo, desde que o médico morreu. Está sozinho. Quase não fala. Não sei o que

aconteceu. Queria mesmo sair hoje, a qualquer custo. Disse que queria ver a Ilha

uma última vez, o sol, antes do inverno. O inverno vai ser muito longo e muito

frio, ao que parece. E o gelo já começa a vir do Norte. Ele também estava muito

inquieto; dizem que as tempestades dos últimos dias encheram o rio e que todos os

diques estão instáveis. Também disse que o mar o apavora; parece que o mar se agita

sem razão, e que as falésias da Ilha já não são suficientemente altas. Ele queria ver;

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mas não nos disse o que viu. – Neste momento, acho que foi buscar pão e água para

a louca. Disse que era preciso ir muito longe... temos de esperar.


A JOVEM CEGA

Ele pegou-me nas mãos, quando se foi embora, e as suas mãos tremiam como se

estivesse com medo. Depois beijou-me...


PRIMEIRO CEGO DE NASCENÇA

Oh! Oh!
A JOVEM CEGA

Perguntei o que tinha acontecido. Ele disse-me que não sabia. Disse-me que o reino

dos velhos ia acabar, talvez...

PRIMEIRO CEGO DE NASCENÇA

O que é que ele quis dizer ao dizer com isso?


A JOVEM CEGA

Não percebi. Disse-me que ia em direção ao grande farol.


PRIMEIRO CEGO DE NASCENÇA

Há um farol?
A JOVEM CEGA

Há, no norte da Ilha. Acho que não estamos longe. Ele disse que via a luz do farol

mesmo daqui, através folhas. Nunca como hoje me pareceu tão triste, e acho que já

chora há vários dias. Não sei porquê, também chorei, sem o ver. Não o ouvi partir.

Não lhe fiz perguntas. Percebi que ele sorriu de um modo muito sério; percebi que

ele fechou os olhos e que desejava ficar em silêncio…


PRIMEIRO CEGO DE NASCENÇA

Ele não nos disse nada disso!


A JOVEM CEGA

Vocês não ouvem quando ele fala!


A CEGA MAIS VELHA

Vocês resmungam/murmuram todos quando ele fala!

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SEGUNDO CEGO DE NASCENÇA

Ele limitou-se a dizer “Boa noite” quando se foi embora.

TERCEIRO CEGO DE NASCENÇA

Já deve ser bem tarde.


PRIMEIRO CEGO DE NASCENÇA

Ele disse “Boa noite” duas ou três vezes quando se foi embora, como se fosse dormir.

Percebi que ele olhava para mim quando disse: “Boa noite, boa noite!” – A voz

muda quando se olha para alguém fixamente.


O QUINTO CEGO

Tende piedade daqueles que não veem!


PRIMEIRO CEGO DE NASCENÇA

Quem é que está a dizer disparates?


SEGUNDO CEGO DE NASCENÇA

Acho que é aquele que não ouve.


PRIMEIRO CEGO DE NASCENÇA

Cala a boca! – não são horas de mendigar!

TERCEIRO CEGO DE NASCENÇA

Onde foi ele buscar o pão e a água?


A CEGA MAIS VELHA

Foi em direção ao mar.


TERCEIRO CEGO DE NASCENÇA

Não se vai assim em direção ao mar, com aquela idade.

SEGUNDO CEGO DE NASCENÇA

Nós estamos perto do mar?


A VELHA CEGA

Estamos; parem de falar um momento; assim conseguirão ouvir.


MURMÚRIO DE MAR PRÓXIMO E MUITO CALMO CONTRA AS FALÉSIAS

SEGUNDO CEGO DE NASCENÇA

Só ouço as três velhas a rezar!

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A CEGA MAIS VELHA

Oiçam, conseguem ouvi-lo através das suas orações.

SEGUNDO CEGO DE NASCENÇA

Sim, ouço alguma coisa não muito longe de nós.


O CEGO MAIS VELHO

O mar estava a dormir; parece que agora despertou.


PRIMEIRO CEGO DE NASCENÇA

Ele não fez bem em nos trazer para aqui; não gosto de ouvir este barulho.
O CEGO MAIS VELHO

Sabem bem que a Ilha não é grande e que se ouve tudo assim que se sai do asilo.
SEGUNDO CEGO DE NASCENÇA

Eu nunca o tinha ouvido.


TERCEIRO CEGO DE NASCENÇA

Parece que está muito próximo de nós hoje; não gosto de ouvi-lo tão de perto.
SEGUNDO CEGO DE NASCENÇA

Eu também não; aliás, nós não pedimos para sair do asilo.


Terceiro cego de nascença

Nunca tínhamos vindo até aqui; não era preciso trazer-nos para tão longe.
A CEGA MAIS VELHA

O tempo estava muito bonito esta manhã; ele quis que aproveitássemos os últimos

dias de sol, antes de nos fechar o inverno todo no asilo.


PRIMEIRO CEGO DE NASCENÇA

Mas eu prefiro ficar no asilo!


A CEGA MAIS VELHA

Ele também nos disse que seria bom conhecermos um pouco a pequena ilha onde

vivemos. Ele próprio nunca a percorreu toda; há uma montanha onde ninguém

subiu, vales que ninguém desceu, e grutas onde ninguém entrou. Ele disse, por fim,

que não se deve esperar o sol sempre debaixo das abóbadas do dormitório; queria-

nos levar até à beira-mar. Foi para lá sozinho.

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O CEGO MAIS VELHO

Ele tem razão; é preciso pensar em viver.

PRIMEIRO CEGO DE NASCENÇA

Mas não há nada para ver aqui fora!


SEGUNDO CEGO DE NASCENÇA

Estamos ao sol agora?


TERCEIRO CEGO DE NASCENÇA

Ainda há sol?
O SEXTO CEGO

Não creio; parece-me que já é muito tarde.


SEGUNDO CEGO DE NASCENÇA

Que horas são?


OS OUTROS CEGOS

Não sei. – Ninguém sabe.


SEGUNDO CEGO DE NASCENÇA

Ainda está claro!


PARA O SEXTO CEGO.

Onde estás? – Olha; tu que ainda vês um pouco, diz-nos!

O SEXTO CEGO

Acho que está muito escuro; quando faz sol, eu vejo uma linha azul por baixo das

pálpebras; vi uma há muito tempo; mas agora, não vejo nada.


PRIMEIRO CEGO DE NASCENÇA

Eu sei que é tarde quando fico com fome; e eu estou com fome.
TERCEIRO CEGO DE NASCENÇA

Mas olhem para o céu, talvez vejam alguma coisa!


TODOS LEVANTAM A CABEÇA EM DIREÇÃO AO CÉU, COM EXCEÇÃO DOS TRÊS CEGOS DE NASCENÇA, QUE

CONTINUAM A OLHAR PARA O CHÃO.

O SEXTO CEGO

Não sei se estamos ao ar livre.

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PRIMEIRO CEGO DE NASCENÇA

A voz ressoa como se estivéssemos numa gruta.

O CEGO MAIS VELHO

Acho que ressoa assim porque é de noite.


A JOVEM CEGA

Parece que sinto o luar nas minhas mãos.


A CEGA MAIS VELHA

Acho que há estrelas; eu ouço-as.


A JOVEM CEGA

Eu também.
PRIMEIRO CEGO DE NASCENÇA

Não ouço barulho nenhum.


SEGUNDO CEGO DE NASCENÇA

Só ouço o barulho/som da nossa respiração.


O CEGO MAIS VELHO

Acho que as mulheres têm razão.


PRIMEIRO CEGO DE NASCENÇA

Nunca ouvi as estrelas.


OS DOIS OUTROS CEGOS DE NASCENÇA

Nós também não.


UMA REVOADA DE PÁSSAROS NOTURNOS PENETRA DE REPENTE POR ENTRE AS FOLHAGENS.

SEGUNDO CEGO DE NASCENÇA

Escutem! escutem! – O que é isto acima de nós? – Vocês estão a ouvir?


O CEGO MAIS VELHO

Alguma coisa passou entre nós e o céu!

O SEXTO CEGO

Há qualquer coisa que se agita acima das nossas cabeças, mas não conseguimos

alcançá-la.

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PRIMEIRO CEGO DE NASCENÇA

Não conheço a natureza deste barulho. – Gostava de voltar para o asilo.

SEGUNDO CEGO DE NASCENÇA

Era preciso saber onde estamos!


O SEXTO CEGO

Tentei levantar-me; só há espinhos à minha volta; já não me atrevo de estender as

mãos.
TERCEIRO CEGO DE NASCENÇA

Era preciso saber onde estamos!

O CEGO MAIS VELHO

Não é possível saber!


O SEXTO CEGO

Devemos estar muito longe de casa, não reconheço nenhum barulho.


TERCEIRO CEGO DE NASCENÇA

Há muto tempo que sinto o cheiro de folhas mortas!


O SEXTO CEGO

Há algum de nós que já tenha visto a Ilha no passado e que nos possa dizer onde

estamos?
A CEGA MAIS VELHA

Já éramos todos cegos quando chegámos aqui.


PRIMEIRO CEGO DE NASCENÇA

Nunca vimos nada.

SEGUNDO CEGO DE NASCENÇA

Não nos vamos preocupar inutilmente; ele voltará em breve; vamos esperar mais

um pouco, mas, de futuro, não saímos mais com ele.


O CEGO MAIS VELHO

Não podemos sair sozinhos.


PRIMEIRO CEGO DE NASCENÇA

Não sairemos mais; eu prefiro não sair.

12
SEGUNDO CEGO DE NASCENÇA

Não tínhamos vontade de sair, ninguém lhe pediu isso.

A CEGA MAIS VELHA

Era dia de festa na Ilha; nós saímos sempre nos dias de festa.
TERCEIRO CEGO DE NASCENÇA

Ele veio bater-me no ombro quando eu ainda dormia, e disse-me “levanta-se,

levante-se, está na hora, o sol já se levantou” – A sério? Eu não reparei. Nunca vi o

sol.
O CEGO MAIS VELHO

Eu vi o sol quando era muito jovem.


A CEGA MAIS VELHA

Eu também; há muito tempo; quando era criança; mas já quase não lembro.
TERCEIRO CEGO DE NASCENÇA

Por que ele quer que a gente saia sempre que faz sol? Que diferença é que isso faz?

Quando passeio nunca sei se é meio-dia ou meia-noite.


O SEXTO CEGO

Eu prefiro sair ao meio-dia; pressinto claridades intensas; os meus olhos fazem um

grande esforço para se abrirem.


TERCEIRO CEGO DE NASCENÇA

Eu prefiro ficar no refeitório, junto à lareira; o lume estava bem forte esta manhã...
SEGUNDO CEGO DE NASCENÇA

Ele podia levar-nos para o sol do pátio; lá as muralhas protegem-nos; não podemos

sair, não há nada a temer quando a porta está fechada; – e eu fecho-a sempre. –

Porque é que me tocaste no cotovelo esquerdo?


PRIMEIRO CEGO DE NASCENÇA

Não te toquei; daqui não consigo alcançar-te.

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SEGUNDO CEGO DE NASCENÇA

Estou a dizer-te que alguém me tocou no cotovelo.

PRIMEIRO CEGO DE NASCENÇA

Não foi nenhum de nós.


SEGUNDO CEGO DE NASCENÇA

Quero ir-me embora!


A CEGA MAIS VELHA

Meu Deus! meu Deus! Digam-nos, então, onde estamos!


PRIMEIRO CEGO DE NASCENÇA

Não podemos esperar eternamente!


AO LONGE RESSOAM, MUITO LENTAS, DOZE BADALADAS DE UM RELÓGIO.

A CEGA MAIS VELHA

Ai! Estamos tão longe do asilo!


O CEGO MAIS VELHO

É meia-noite!
SEGUNDO CEGO DE NASCENÇA

É meio-dia! – Alguém sabe? – Falem!


O SEXTO CEGO

Não sei, mas acho que estamos no escuro.


PRIMEIRO CEGO DE NASCENÇA

Já não sei onde estou; dormimos demasiado tempo!


SEGUNDO CEGO DE NASCENÇA

Estou com fome!


OS OUTROS CEGOS

Estamos com fome e com sede!

SEGUNDO CEGO DE NASCENÇA

Há muito tempo que estamos aqui?

A CEGA MAIS VELHA

Tenho a impressão de estar aqui há séculos!

14
O SEXTO CEGO

Começo a perceber onde estamos.

TERCEIRO CEGO DE NASCENÇA

Devíamos caminhar na direção do relógio que bateu a meia-noite.


SUBITAMENTE, TODOS OS PÁSSAROS NOTURNOS SE ALVOROÇAM-SE NA ESCURIDÃO.

PRIMEIRO CEGO DE NASCENÇA

Estão a ouvir? Estão a ouvir?


SEGUNDO CEGO DE NASCENÇA

Não estamos sozinhos aqui!...


TERCEIRO CEGO DE NASCENÇA

Há muito tempo que eu suspeito de qualquer coisa: alguém nos está a ouvir. – Ele

voltou?

PRIMEIRO CEGO DE NASCENÇA

Não sei o que é; está por cima de nós.


SEGUNDO CEGO DE NASCENÇA

Os outros não ouviram nada? Vocês não nunca falam!


O CEGO MAIS VELHO

Ainda estamos à escuta.


A JOVEM CEGA

Ouço o bater de asas à minha volta!


A CEGA MAIS VELHA

Meu Deus! Meu Deus! Diz-nos, então, onde estamos!


O SEXTO CEGO

Começo a perceber onde estamos... O asilo fica do outro lado do rio grande;

atravessámos a ponte velha. Ele conduziu-nos para o norte da Ilha. Não estamos

longe do rio, e talvez se consiga ouvi-lo se o escutarmos por um momento... Temos

de ir até à beira d’água se ele não voltar... Ali passam grandes navios, dia e noite, e

os marinheiros hão-de ver-nos na margem. É possível que estejamos na floresta que

cerca o farol; mas não sei o caminho para sair daqui... Alguém me quer acompanhar?

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PRIMEIRO CEGO DE NASCENÇA

Fiquemos sentados! – Vamos esperar, vamos esperar; – não sabemos para onde corre

o rio e há pântanos à volta do asilo; vamos esperar, vamos esperar... Ele vai voltar;

ele tem de voltar!


O SEXTO CEGO

Alguém sabe por onde viemos parar aqui? Ele explicou-nos enquanto

caminhávamos.
PRIMEIRO CEGO DE NASCENÇA

Não prestei atenção.


O SEXTO CEGO

Alguém o ouviu?
TERCEIRO CEGO DE NASCENÇA

É preciso ouvi-lo daqui para a frente.


O SEXTO CEGO

Algum de nós nasceu na Ilha?


O cego mais velho

Sabe muito bem que viemos de outro lugar.


A CEGA MAIS VELHA

Do outro lado do mar.


PRIMEIRO CEGO DE NASCENÇA

Eu achei que ia morrer, durante a travessia.


SEGUNDO CEGO DE NASCENÇA

Eu também; – viemos juntos.


TERCEIRO CEGO DE NASCENÇA

Somos os três da mesma paróquia.


PRIMEIRO CEGO DE NASCENÇA

Dizem que dá para vê-la daqui, num dia claro; em direção ao norte. – Não tem

torre.

16
TERCEIRO CEGO DE NASCENÇA

Chegámos aqui por acaso.

A CEGA MAIS VELHA

Eu venho de outro lado...


SEGUNDO CEGO DE NASCENÇA

De onde?
A CEGA MAIS VELHA

Já não ouso pensar nisso... Já não lembro de quase nada... Já foi há demasiado tempo

...fazia mais frio lá do que aqui...

A JOVEM CEGA

Já eu venho de muito longe...


PRIMEIRO CEGO DE NASCENÇA

Ai sim, de onde?
A JOVEM CEGA

Não lhe sei dizer. Como é que eu posso explicar? – É muito longe daqui; para além

dos mares. Venho de um grande país.... Só conseguiria mostrá-lo por meio de

gestos; mas nós já não vemos... vagueei demasiado tempo... Mas vi o sol e a água e

o fogo, vi montanhas, rostos e flores estranhas... não há nada semelhante nesta Ilha;

aqui é demasiado escuro e demasiado e frio. Já não reconheço o seu perfume desde

que deixei de os ver.…, mas vi os meus pais e minhas irmãs... Eu era muito criança

naquela época para saber onde estava.... ainda brincava à beira-mar... Mas lembro-

me de ter visto!... Um dia, vi a neve do alto de uma montanha.... Começava a

distinguir aqueles que serão infelizes...


PRIMEIRO CEGO DE NASCENÇA

O que quer dizer com isso?

A JOVEM CEGA

Às vezes ainda os distingo pela voz.... Tenho memórias que ficam mais nítidas

quando não penso nelas

17
PRIMEIRO CEGO DE NASCENÇA

Eu não tenho memórias...


UM VOO DE AVES MIGRATÓRIAS MUITO GRANDES PASSA COM ALARIDO POR CIMA DAS FOLHAGENS.

O CEGO MAIS VELHO

Está a passar outra coisa no céu!


SEGUNDO CEGO DE NASCENÇA

Porque é que vieste para cá?


O CEGO MAIS VELHO

A quem estás a perguntar isso?


SEGUNDO CEGO DE NASCENÇA

À nossa jovem irmã.


A JOVEM CEGA

Disseram-me que ele me podia curar. Ele disse-me que um dia eu voltaria a ver e

que depois poderia deixar a Ilha...


PRIMEIRO CEGO DE NASCENÇA

Todos nós gostaríamos de deixar a Ilha!


SEGUNDO CEGO DE NASCENÇA

Ficaremos aqui para sempre!


TERCEIRO CEGO DE NASCENÇA

Ele está demasiado velho; já não tem tempo para nos curar!
A JOVEM CEGA

As minhas pálpebras estão fechadas, mas sinto que os meus olhos estão vivos...
PRIMEIRO CEGO DE NASCENÇA

As minhas são abertas.


SEGUNDO CEGO DE NASCENÇA

Eu durmo de olhos abertos.


TERCEIRO CEGO DE NASCENÇA

Não falemos dos nossos olhos!

18
SEGUNDO CEGO DE NASCENÇA

Não estás aqui há muito tempo, pois não?

O CEGO MAIS VELHO

Uma noite ouvi, durante as orações, do lado das mulheres uma voz que eu não

conhecia e percebi, pela sua voz, que era muito jovem... teria gostado de ter visto,

enquanto te ouvia...
PRIMEIRO CEGO DE NASCENÇA

Não percebi nada.


SEGUNDO CEGO DE NASCENÇA

Ele nunca nos avisou.


O SEXTO CEGO

Dizem que és linda como uma mulher que vem de muito longe!
A JOVEM CEGA

Eu nunca me vi.
O CEGO MAIS VELHO

Nós nunca vimos uns aos outros. Fazemos perguntas e respondemos; vivemos

juntos; estamos sempre juntos, mas não sabemos o que somos!... Por mais que nos

toquemos com as duas mãos, os olhos sabem mais do que as mãos...


O SEXTO CEGO

Eu às vezes vejo as vossas sombras, quando estão ao sol.


O CEGO MAIS VELHO

Nós nunca vimos a casa onde vivemos; por mais que tateemos as paredes e as janelas;

não sabemos onde vivemos!...

A CEGA MAIS VELHA

Dizem que é um castelo antigo, muito sombrio e miserável, onde nunca entra luz,

a não ser na torre onde fica o quarto do padre.

PRIMEIRO CEGO DE NASCENÇA

Aqueles que não veem não precisam de luz.

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O SEXTO CEGO

Quando guardo o rebanho, nos arredores do asilo, as ovelhas voltam sozinhas para

casa, quando veem, ao cair da noite, a luz da torre... – Guiado por elas, nunca me

fizeram perder o caminho.


O CEGO MAIS VELHO

Há anos e anos que estamos juntos, e nunca nos vimos! É como se estivéssemos

sempre sozinhos!... É preciso ver para amar...


A CEGA MAIS VELHA

Eu às vezes sonho que vejo...


O CEGO MAIS VELHO

Já eu só vejo quando sonho.


PRIMEIRO CEGO DE NASCENÇA

Normalmente, só sonho à meia-noite.


SEGUNDO CEGO DE NASCIMENTO

Podemos sonhar com o quê, quando as mãos estão imóveis?


UMA RAJADA DE VENTO SACODE A FLORESTA E AS FOLHAS CAEM EM MASSAS ESCURAS.

O QUINTO CEGO.

Quem é que me tocou nas mãos?


PRIMEIRO CEGO DE NASCIMENTO.

Está a cair alguma coisa à nossa volta!


O CEGO MAIS VELHO.

Vem de cima; não sei o que é…


O QUINTO CEGO.

Quem é que me tocou nas mãos? – Eu estava a dormir: deixem-me dormir!


O CEGO MAIS VELHO.

Ninguém te tocou nas mãos.

O QUINTO CEGO.

Quem é que me agarrou as mãos? Respondam em voz alta, tenho dificuldades de

audição…

20
O CEGO MAIS VELHO.

Não sabemos.

O QUINTO CEGO

Alguém nos veio avisar?


PRIMEIRO CEGO DE NASCENÇA

É inútil responder; ele não ouve nada.


TERCEIRO CEGO DE NASCENÇA

É preciso admitir que os surdos são muito infelizes!


O CEGO MAIS VELHO

Estou cansado de ficar sentado!


O SEXTO CEGO

Estou cansado de ficar aqui!


SEGUNDO CEGO DE NASCENÇA

Parece-me que estamos muito distantes uns dos outros.... Vamos aproximarmo-nos

um pouco; – está a ficar frio...


TERCEIRO CEGO DE NASCENÇA

Não tenho coragem de me levantar! É melhor cada um continuar onde está.


O CEGO MAIS VELHO

Não sabemos o que pode haver entre nós.


O SEXTO CEGO

Acho que tenho as minhas duas mãos ensanguentadas; gostaria de me levantar.


TERCEIRO CEGO DE NASCENÇA

Estou a ouvi-lo a inclinar-se na minha direção.


A CEGA LOUCA ESFREGA COM VIOLÊNCIA OS OLHOS, GEMENDO E VOLTA-SE OBSTINADAMENTE NA

DIREÇÃO DO PADRE IMÓVEL.

PRIMEIRO CEGO DE NASCENÇA

Oiço, ainda, outro barulho...

A CEGA MAIS VELHA

Acho que é a nossa pobre irmã que esfrega os olhos.

21
SEGUNDO CEGO DE NASCENÇA

Ela não faz outra coisa; ouço-a todas as noites.

TERCEIRO CEGO DE NASCENÇA

Ela é louca; nunca fala.


A CEGA MAIS VELHA

Ela não fala desde que teve o filho.... Parece estar sempre com medo...
O CEGO MAIS VELHO

Vocês não têm medo, aqui?


PRIMEIRO CEGO DE NASCENÇA

Você quem?
O CEGO MAIS VELHO

Vocês todos!
A CEGA MAIS VELHA

Sim, temos medo, sim!


A JOVEM CEGA

Há muito tempo que temos medo!


PRIMEIRO CEGO DE NASCENÇA

\ Por que nos pergunta isso?


O CEGO MAIS VELHO

Não sei porquê!... há qualquer coisa que não compreendo, parece-me ouvir um

choro, de repente, entre nós!...


PRIMEIRO CEGO DE NASCENÇA

Não é preciso ter medo; acho que é a louca...


O CEGO MAIS VELHO

Há mais outra coisa.... Tenho certeza de que há mais outra coisa... Não é só disso

que eu tenho medo...


A CEGA MAIS VELHA

Ela chora sempre quando vai amamentar o seu filho.

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PRIMEIRO CEGO DE NASCENÇA

Só ela é que chora assim!

A CEGA MAIS VELHA

Dizem que ela ainda vê, às vezes...


PRIMEIRO CEGO DE NASCENÇA

Não se ouve os outros chorar...


O CEGO MAIS VELHO

É preciso ver para chorar...


A JOVEM CEGA

Sinto um cheiro de flores à nossa volta...


PRIMEIRO CEGO DE NASCENÇA

Só sinto o cheiro da terra!


A JOVEM CEGA

Há flores, há flores à nossa volta!


SEGUNDO CEGO DE NASCENÇA

Só sinto o cheiro da terra!


A CEGA MAIS VELHA

Senti o cheiro de flores com o vento...


TERCEIRO CEGO DE NASCENÇA

Só sinto o cheiro da terra!


O CEGO MAIS VELHO

Acho que elas têm razão.


O SEXTO CEGO

Onde estão elas? – Vou colhê-las/apanhá-las


A JOVEM CEGA

À sua direita, levante-se.


O SEXTO CEGO LEVANTA-SE LENTAMENTE E AVANÇA À APALPADELAS, CHOCANDO COM MOITAS E

ÁRVORES, EM DIREÇÃO AOS ASFÓDELOS QUE QUEBRA E ESMAGA AO PASSAR.

A JOVEM CEGA

Estou a ouvi-lo a partir os caules verdes! Pare! Pare!

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PRIMEIRO CEGO DE NASCENÇA

Não te preocupes com as flores, pensa antes no regresso!

O SEXTO CEGO

Já não me atrevo a voltar para trás!


A JOVEM CEGA

Não é preciso voltar! – Espere.


ELA LEVANTA-SE

Ai! A terra está tão fria! Vou congelar!


AVANÇA SEM HESITAÇÃO EM DIREÇÃO AOS ASFÓDELOS ESTRANHOS E PÁLIDOS, MAS É IMPEDIDA

PELA ÁRVORE DERRUBADA E PELOS PEDAÇOS DE PEDRA PRÓXIMOS DAS FLORES.

Elas estão aqui! – Não consigo alcançá-las; elas estão ao seu lado.
O SEXTO CEGO

Acho que estou a apanhá-las.


ELE COLHE, APALPANDO, AS FLORES QUE FORAM POUPADAS E AS OFERECE À JOVEM; OS PÁSSAROS

NOTURNOS VOAM PARA LONGE

A JOVEM CEGA

Acho que vi estas flores antigamente... Já não sei o nome delas... ai, mas estão tão

doentes, e o caule está tão mole! Quase que não as reconheço.... Acho que é a flor

dos mortos...
TRANÇA OS ASFÓDELOS NO SEU CABELO.

O CEGO MAIS VELHO

Estou a ouvir o barulho do teu cabelo.


A JOVEM CEGA

São as flores.
O CEGO MAIS VELHO

Não te veremos.
A JOVEM CEGA

Eu também não me verei.... Estou com frio.

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NESSE MOMENTO, O VENTO LEVANTA-SE NA FLORESTA, E O MAR RUGE, REPENTINA E VIOLENTAMENTE,

CONTRA AS FALÉSIAS MUITO PRÓXIMAS.

PRIMEIRO CEGO DE NASCENÇA

Trovões!
SEGUNDO CEGO DE NASCENÇA

Acho que se está a formar uma tempestade.

A CEGA MAIS VELHA

Acho que é o mar.

TERCEIRO CEGO DE NASCENÇA

O mar? O mar? Mas está apenas a dois passos de nós! – Está muito perto! Eu

ouço por todos os lados! Deve ser outra coisa!


A JOVEM CEGA

Ouço o barulho das ondas aos meus pés.


PRIMEIRO CEGO DE NASCENÇA

Acho que é o vento nas folhas secas.


O CEGO MAIS VELHO

Acho que as mulheres têm razão.


TERCEIRO CEGO DE NASCENÇA

Vai chegar até aqui!


PRIMEIRO CEGO DE NASCENÇA

O vento vem de onde?


SEGUNDO CEGO DE NASCENÇA

Vem do mar.
O CEGO MAIS VELHO

Vem sempre do mar; o mar rodeia-nos por todos os lados. Não pode vir de mais

lado nenhum.
PRIMEIRO CEGO DE NASCENÇA

Vamos parar de pensar no mar!

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SEGUNDO CEGO DE NASCENÇA

Mas temos de pensar no mar, já que vai chegar até nós!

PRIMEIRO CEGO DE NASCENÇA

Não sabemos se é o mar...


SEGUNDO CEGO DE NASCENÇA

Ouço as ondas como se pudesse mergulhar nelas as duas mãos! Não podemos

continuar aqui! As ondas talvez já estejam à nossa volta!


O CEGO MAIS VELHO

E vamos para onde?

SEGUNDO CEGO DE NASCENÇA

Para qualquer lado! Para qualquer lado! Não quero ouvir mais o barulho destas

águas! Vamos embora! Vamos embora!


TERCEIRO CEGO DE NASCENÇA

Parece que estou a ouvir uma coisa. Escutem!


OUVE-SE UM RUÍDO DE PASSOS APRESSADOS E DISTANTES, SOBRE AS FOLHAS SECAS.

PRIMEIRO CEGO DE NASCENÇA

Alguma coisa está-se a aproximar!


SEGUNDO CEGO DE NASCENÇA

É ele que está a chegar! Está a chegar! voltou!

TERCEIRO CEGO DE NASCENÇA

Ele vem com passos curtos e rápidos, como uma criança!...


SEGUNDO CEGO DE NASCENÇA

Não o censuremos, hoje.


A CEGA MAIS VELHA

Não parecem passos de um homem!


UM ENORME CÃO ENTRA NA FLORESTA E PASSA DIANTE DOS CEGOS. – SILÊNCIO

PRIMEIRO CEGO DE NASCENÇA

Quem está aí? – Quem vem lá? Tenha piedade de nós, estamos à espera há tanto

tempo!

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O CÃO PARA E VEM POUSAR AS PATAS DIANTEIRAS NOS JOELHOS DO CEGO.

Ah! Ah! O que é isto em cima dos meus joelhos? Oque é?... É um animal? – Acho

que é um cão... ah! ah! É o cão! É o cão do asilo! Vem cá! vem cá!
OS OUTROS CEGOS

Aqui! Aqui!
PRIMEIRO CEGO DE NASCENÇA

Ele libertar-nos! Seguiu o nosso rasto até aqui. Ele lambe-me as mãos como se não

me visse há séculos!
OS OUTROS CEGOS

Aqui! aqui!
O CEGO MAIS VELHO

Será que vem alguém atrás dele?


PRIMEIRO CEGO DE NASCENÇA

Não, não, ele está sozinho. – Não ouço ninguém a aproximar-se. Não precisamos

de outro guia; melhor guia do que ele não há. Ele vai conduzir-nos onde quisermos;

ele obedecerá...
A CEGA MAIS VELHA

Não me arrisco a segui-lo.


A JOVEM CEGA

Nem eu.

PRIMEIRO CEGO DE NASCENÇA

Por que não? Ele vê melhor que nós.


SEGUNDO CEGO DE NASCENÇA

Não deem ouvidos às mulheres!


TERCEIRO CEGO DE NASCENÇA

Alguma coisa mudou no céu: estou a respirar melhor; o ar está puro agora...
A CEGA MAIS VELHA

É o vento do mar que passa à nossa volta.

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O SEXTO CEGO

Parece-me que vai clarear; acho que o sol vai nascer....

A CEGA MAIS VELHA

Acho que está a ficar mais frio...


PRIMEIRO CEGO DE NASCENÇA

Vamos encontrar o caminho. Ele está a arrastar-me.… está a arrastar-me. Está louco

de alegria! – Já não consigo segurá-lo!... Sigam-me! Sigam-me! Vamos voltar para

casa!...
ELE LEVANTA-SE, ARRASTADO PELO CÃO QUE O LEVA PARA JUNTO DO PADRE IMÓVEL, E PARA

OS OUTROS CEGOS

Onde estás? Onde estás? – para onde vais? – tem cuidado!


PRIMEIRO CEGO DE NASCENÇA

Esperem! esperem! Não me sigam ainda; eu volto...


ELE PARA.

O que se passa? Ah! ah! Toquei nalguma coisa muito fria!

SEGUNDO CEGO DE NASCENÇA

O que estás a dizer? Mal conseguimos ouvir a tua voz.

PRIMEIRO CEGO DE NASCENÇA

Toquei!... Acho que toquei num rosto!


TERCEIRO CEGO DE NASCENÇA

O que é que estás a dizer? – Já quase não te compreendemos. O que se passa? –

Onde estás? Já estás assim tão longe?

PRIMEIRO CEGO DE NASCENÇA

Ah! ah! ah! – ainda não sei o que é isto... – Há um morto entre nós!
OS OUTROS CEGOS

Um morto entre nós? Onde estás? Onde estás?


PRIMEIRO CEGO DE NASCENÇA

Está um morto entre nós, digo-vos! ah! ah! toquei o rosto de um morto! – Vocês

estão sentados ao lado de um morto! Um de nós deve ter morrido de repente! Mas

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falem depressa, para eu saber, afinal, quem está vivo! E então? Respondam,

respondam todos juntos!


OS CEGOS RESPONDEM UM A SEGUIR AO OUTRO, COM EXCEÇÃO DA CEGA LOUCA E DO CEGO SURDO; AS

TRÊS VELHAS INTERROMPERAM AS ORAÇÕES.

PRIMEIRO CEGO DE NASCENÇA

Já não distingo as vossas vozes!... falam todos do mesmo modo! Com a voz tremida!
TERCEIRO CEGO DE NASCENÇA

Dois não responderam... Onde estão?


TOCA COM SEU BASTÃO NO QUINTO CEGO.

O QUINTO CEGO

Ai! ai! Eu estava a dormir; deixem-me dormir!

O SEXTO CEGO

Não é ele. – É a louca?


A CEGA MAIS VELHA

Ela está sentada a meu lado; oiço-a respirar.


PRIMEIRO CEGO DE NASCENÇA

Acho.... Acho que é o padre! – Ele está de pé! Venham! venham! venham!
SEGUNDO CEGO DE NASCENÇA

Ele está de pé? Então não está morto!


O CEGO MAIS VELHO

Onde é que ele está?


O SEXTO CEGO

Vamos ver!...
LEVANTAM-SE TODOS, COM EXCEÇÃO DA LOUCA E DO QUINTO CEGO, E AVANÇAM, APALPANDO, EM

DIREÇÃO AO MORTO.

SEGUNDO CEGO DE NASCENÇA

Está aqui? – É ele?


TERCEIRO CEGO DE NASCENÇA

É ele sim! Eu reconheço-o!


PRIMEIRO CEGO DE NASCENÇA

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Meu Deus! meu Deus! O que vai ser de nós?
A CEGA MAIS VELHA

Senhor padre! Senhor padre! – É o senhor? O que aconteceu? – O que se passa? –

Responda! – Estamos todos à sua volta...


O CEGO MAIS VELHO

Tragam água; talvez ele ainda esteja vivo...


SEGUNDO CEGO DE NASCENÇA

– Vamos tentar... Talvez ele nos possa levar de volta para o asilo
TERCEIRO CEGO DE NASCENÇA

É inútil; já não oiço o seu coração. Ele está gelado...


PRIMEIRO CEGO DE NASCENÇA

Morreu sem dizer nada.


TERCEIRO CEGO DE NASCENÇA

Podia ter-nos avisado.


SEGUNDO CEGO DE NASCENÇA

Ah! como ele era velho!... É a primeira vez que toco no seu rosto...

TERCEIRO CEGO DE NASCENÇA

TATEANDO O CADÁVER.

Ele é mais alto que nós!...


SEGUNDO CEGO DE NASCENÇA

Os olhos dele estão bem abertos; morreu com as mãos juntas...


PRIMEIRO CEGO DE NASCENÇA

Morreu, assim, sem sentido...


SEGUNDO CEGO DE NASCENÇA

Ele não está em pé, está sentado numa pedra...

A CEGA MAIS VELHA

Meu Deus! meu Deus! Nunca imaginei uma coisa destas!... nada disso!... Ele estava

doente há tanto tempo... Deve ter-se sentido mal hoje!... – Ele não se queixava... só nos

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apertava as mãos, era assim que se queixava... Nem sempre se compreende... Nunca se

compreende!... Vamos rezar; ajoelhem-se à sua volta...


AS MULHERES SE AJOELHAM-SE GEMENDO.

PRIMEIRO CEGO DE NASCENÇA

Não me atrevo a ajoelhar-me...


SEGUNDO CEGO DE NASCENÇA

Não se sabe o que está por baixo de nós...


TERCEIRO CEGO DE NASCENÇA

Ele estava doente?... Não nos disse nada...


SEGUNDO CEGO DE NASCENÇA

Ouvi-o falar em voz baixa ao ir-se embora.... Acho que falou com a nossa jovem

irmã; o que é que ele disse?


PRIMEIRO CEGO DE NASCENÇA

Ela não quer responder.


SEGUNDO CEGO DE NASCENÇA

Já não nos queres responder? Estás onde, afinal? – Fala!


A CEGA MAIS VELHA

Fizeram-no sofrer demasiado; fizeram-no morrer… Já não queriam avançar;

queriam sentar-se nas pedras da estrada, para comer; murmuraram o dia todo… Eu

ouvia-o suspirar… Ele perdeu a coragem…


PRIMEIRO CEGO DE NASCENÇA

Ele estava doente? Vocês sabiam?


O CEGO MAIS VELHO

Não sabíamos de nada... Nós nunca o vimos... Quando é que alguma vez soubemos

alguma coisa por trás dos nossos pobres olhos mortos?... Ele nunca se queixou...

Agora é tarde demais... Já vi três morrerem..., mas nunca desta maneira!... Agora, é

a nossa vez...

PRIMEIRO CEGO DE NASCENÇA

Não fui eu que o fiz sofrer. – Eu não disse nada...

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SEGUNDO CEGO DE NASCENÇA

Eu também não; nós seguimo-lo sem dizer nada...

TERCEIRO CEGO DE NASCENÇA

Ele morreu a ir buscar água para a louca...


PRIMEIRO CEGO DE NASCENÇA

O que vamos fazer agora? Para onde vamos?


TERCEIRO CEGO DE NASCENÇA

E o cão, onde está?


PRIMEIRO CEGO DE NASCENÇA

Aqui; não se quer afastar do morto.


TERCEIRO CEGO DE NASCENÇA

Levem o cão! Tirem-no daí! Tirem-no!


PRIMEIRO CEGO DE NASCENÇA

Ele não quer largar o morto!


SEGUNDO CEGO DE NASCENÇA

Nós podemos ficar à espera ao lado de um morto!... Não podemos morrer aqui no

escuro.
TERCEIRO CEGO DE NASCENÇA

Vamos ficar juntos; não nos afastemos uns dos outros; vamos dar as mãos; vamos

sentar-nos todos nesta pedra… Onde estão os outros…. Venham cá! Venham!

Venham!
O CEGO MAIS VELHO

Onde estás?
TERCEIRO CEGO DE NASCENÇA

Aqui, estou aqui. Estamos todos juntos? – Aproximem-se mais de mim. – Onde

estão as vossas mãos? – Está muito frio.


A JOVEM CEGA

Ai! Que mãos frias!

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TERCEIRO CEGO DE NASCENÇA

O que você estás a fazer?

A JOVEM CEGA

Estava a pôr as mãos nos meus olhos; pensei que de repente ia ver...
PRIMEIRO CEGO DE NASCENÇA

Quem chora assim?


A CEGA MAIS VELHA

É a louca. Está a soluçar.


PRIMEIRO CEGO DE NASCENÇA

Ela não sabe a verdade?


O CEGO MAIS VELHO

Acho que vamos morrer aqui...


A CEGA MAIS VELHA

Talvez venha alguém...


O CEGO MAIS VELHO

Quem?
A CEGA MAIS VELHA.

Não sei.
PRIMEIRO CEGO DE NASCENÇA

Pensei que as religiosas poderiam sair do asilo...


A CEGA MAIS VELHA

Elas não saem à noite.


A JOVEM CEGA

Elas não saem nunca.


SEGUNDO CEGO DE NASCENÇA

Acho que os homens do grande farol vão ver-nos...


A CEGA MAIS VELHA

Eles nunca descem da torre.

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TERCEIRO CEGO DE NASCENÇA

Talvez nos vejam...

A CEGA MAIS VELHA

Eles só olham para o mar.


TERCEIRO CEGO DE NASCENÇA

Está frio!
O CEGO MAIS VELHO

Ouçam as folhas mortas; acho que tudo começa a congelar


A JOVEM CEGA

Ah! o chão está a ficar muito duro!


TERCEIRO CEGO DE NASCENÇA

Estou a ouvir, à minha esquerda, um barulho que não compreendo...


O CEGO MAIS VELHO

É o mar a gemer contra os rochedos.


TERCEIRO CEGO DE NASCENÇA

Julguei que fossem as mulheres.


A CEGA MAIS VELHA

Ouço o gelo a partir-se sob a rebentação das ondas.


PRIMEIRO CEGO DE NASCENÇA

Quem é que está a tremer assim? Faz-nos tremer a todos em cima da pedra.
SEGUNDO CEGO DE NASCENÇA

Já não consigo abrir as mãos.


O CEGO MAIS VELHO

Continuo a ouvir um barulho que não entendo...


PRIMEIRO CEGO DE NASCENÇA

Quem é que está a tremer assim? Faz a tremer a pedra!


O CEGO MAIS VELHO

Acho que é uma mulher.

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A CEGA MAIS VELHA

Acho que é a louca quem treme mais.

TERCEIRO CEGO DE NASCENÇA

Já não ouvimos a criança.


A CEGA MAIS VELHA

Acho que ainda está a mamar.


O CEGO MAIS VELHO

Só ela é capaz de ver onde estamos!


PRIMEIRO CEGO DE NASCENÇA

Oiço o vento do norte.


O SEXTO CEGO

Acho que já não há mais estrelas; vai nevar.


SEGUNDO CEGO.

Então estamos perdidos!


TERCEIRO CEGO DE NASCIMENTO.

Se algum de nós adormecer, temos de o acordar.


O CEGO MAIS VELHO.

Mas eu estou com sono!


UMA RAJADA DE VENTO FAZ RODOPIAR AS FOLHAS CAÍDAS.

A JOVEM CEGA.

Ouvem as folhas secas? – Acho que vem alguém na nossa direção!


O SEGUNDO CEGO DE NASCENÇA.

É o vento: escutem!
O TERCEIRO CEGO DE NASCENÇA.

Já não vem mais ninguém!


O CEGO MAIS VELHO.

Está a chegar o grande frio…

A JOVEM CEGA.

Ouço passos ao longe!

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PRIMEIRO CEGO DE NASCIMENTO.

Só ouço as folhas secas!


A JOVEM CEGA.

Ouço passos muito ao longe!

TERCEIRO CEGO DE NASCENÇA

Não vai chegar mais ninguém!


O SEGUNDO CEGO DE NASCENÇA.

Só ouço o vento do Norte!


A JOVEM CEGA.

Estou a dizer-vos que vem alguém na nossa direção!

A CEGA MAIS VELHA.

Ouço o barulho de passos muito lentos…


O CEGO MAIS VELHO.

Acho que as mulheres têm razão!


COMEÇA A NEVAR MUITO.

PRIMEIRO CEGO DE NASCENÇA.

Oh! Oh! O que é isto que cai tão frio sobre as minhas mãos?
SEXTO CEGO.

Está a nevar.
PRIMEIRO CEGO.

Vamos juntar-nos uns aos outros.


A JOVEM CEGA.

Não, mas ouçam! O som de passos!


A MULHER CEGA MUITO IDOSA.

Por amor de Deus, fiquem quietos por um instante.


A JOVEM CEGA.

Estão a aproximar-se! Estão a aproximar-se! Ouçam!


AQUI, O FILHO DA CEGA LOUCA COMEÇA A CHORAR DE REPENTE NA ESCURIDÃO.

O CEGO MAIS VELHO.

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A criança está a chorar!
A JOVEM CEGA.

Ele vê! Ele vê! Ele deve estar a ver alguma coisa, já que chora!
ELA PEGA NA CRIANÇA NOS BRAÇOS E AVANÇA NA DIREÇÃO DE ONDE PARECE VIR O BARULHO DOS

PASSOS; AS OUTRAS MULHERES SEGUEM-NA ANSIOSAMENTE E RODEIAM-NA.

Vou ao seu encontro!


O CEGO MAIS VELHO.

Cuidado!
A JOVEM CEGA.

Oh! Ele chora tanto! – O que se passa! – Não chores. Não tenhas medo; não há

nada a temer, estamos aqui; estamos à tua volta. – O que vês? – Não tenhas medo.

– Não chores assim! – O que vês! – Diz-me, o que vês?


A CEGA MAIS VELHA.

O som dos passos aproxima-se cada vez mais; ouçam! ouçam!


O CEGO MAIS VELHO.

Ouço o farfalhar de um vestido contra as folhas secas.


O SEXTO CEGO

É uma mulher?
O CEGO MAIS VELHO.

Será o som de passos?


O PRIMEIRO CEGO DE NASCIMENTO.

Talvez seja o mar nas folhas caídas?

A JOVEM CEGA.

Não, não! São passos! São passos! São passos!


A CEGA MAIS VELHA.

Vamos descobrir; ouçam as folhas secas.


A JOVEM CEGA.

Estou a ouvi-las, estou a ouvi-las quase ao nosso lado! Ouçam! Ouçam! – O que

vês? O que vês?

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A CEGA MAIS VELHA.

Para que lado é que ele olha?


A JOVEM CEGA.

Ele continua a seguir o som dos passos! – Olhem! Olhem! Quando o viro, ele vira-

se para ver… Ele vê! Ele vê! Ele vê! – Ele deve estar a ver alguma coisa estranha!…
A CEGA MAIS VELHA

AVANÇA

Levantem-no acima de nós, para que ele possa ver.


A JOVEM CEGA.

Afastem-se, afastem-se.
ELA LEVANTA A CRIANÇA ACIMA DO GRUPO DE CEGOS.

Os passos pararam.
A CEGA MAIS VELHA.

Eles estão aqui! Estão no meio de nós!…


A JOVEM CEGA.

Quem são vocês?


SILÊNCIO

A CEGA MAIS VELHA.

Tenham piedade de nós!


SILÊNCIO. – A CRIANÇA CHORA AINDA MAIS DESESPERADAMENTE

FIM

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