Os Cegos
Os Cegos
Maurice Maeterlink
Primeira versão
Tradução Bruno Bravo
Primeiros Sintomas
2026
OS CEGOS
Uma FLORESTA SETENTRIONAL muito antiga, de aspeto eterno sob um céu profundamente estrelado. – No meio,
e em direção ao fundo da noite, está sentado UM PADRE MUITO VELHO, envolto num GRANDE CAPOTE
PRETO. O busto e a cabeça, ligeiramente inclinados para trás e MORTALMENTE IMÓVEIS, apoiam-se no tronco
LÁBIOS ROXOS ESTÃO ENTREABERTOS. Os olhos mudos e fixos já não olham o lado visível da eternidade e
parecem ensanguentados por uma grande quantidade de dores imemoriais e de lágrimas. Os cabelos, de uma brancura
muito grave, caem em mechas espigadas e esparsas sobre o rosto, mais iluminado e mais cansado que tudo o que o cerca
no silêncio atento da morna floresta. As mãos macilentas estão rigidamente postas sobre as coxas. – À direita, SEIS
esquerda, diante dos velhos, porém separadas deles por uma árvore arrancada e por PEDAÇOS DE ROCHA, estão
sentadas SEIS MULHERES, TAMBÉM CEGAS. Três delas rezam e se lamentam numa voz surda e ininterrupta. Uma
outra é muito velha. A quinta, em atitude de muda loucura, tem no colo UMA CRIANÇA PEQUENA, que dorme. A
SEXTA É DE UMA JUVENTUDE ESPLENDOROSA E SUA CABELEIRA INUNDA TODA A SUA PESSOA.
As cegas vestem, assim como os velhos, TRAJES AMPLOS, ESCUROS E SEMELHANTES. A maioria espera, com os
cotovelos sobre os joelhos e o rosto entre as mãos e todos parecem ter perdido o hábito do gesto inútil e não voltam mais
a cabeça a cada rumor abafado e inquieto da ilha. Grandes árvores fúnebres, teixos, salgueiros-chorões e ciprestes cobrem-
nos com suas sombras fiéis. Um tufo de longos asfódelos doentios floresce, não longe do padre, dentro da noite. ESTÁ
Acordaste-me!
TERCEIRO CEGO DE NASCENÇA
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TERCEIRO CEGO DE NASCENÇA
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TERCEIRO CEGO DE NASCENÇA
que pé é que estamos. Continuo a ouvir as três velhas a rezar; será que estão juntas?
A CEGA MAIS VELHA
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PRIMEIRO CEGO DE NASCENÇA
A JOVEM CEGA
Ah! Estás tão longe de nós! Achei que estavas à minha frente.
TERCEIRO CEGO DE NASCENÇA
Sabemos, mais ou menos, tudo o que é preciso saber; vamos conversar um pouco,
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PRIMEIRO CEGO DE NASCENÇA
O padre está demasiado velho. Parece que ele próprio também já não vê há algum
tempo. E não quer admitir, com medo que outros lhe tome lugar; mas eu desconfio
que ele praticamente já não vê nada. Precisamos de outro guia: ele já não nos ouve,
e nós somos muito numerosos. Na casa, só ele e as três religiosas é que veem; e são
todos mais velhos do que nós! – Tenho certeza de que ele se desviou do caminho e
fez com que a gente se perdesse e agora está a tentar encontrar o caminho. Onde é
que ele foi? – Ele não tem o direito de nos largar aqui...
A CEGA MAIS VELHA
Ele foi para muito longe; acho que foi isso que disse às mulheres.
PRIMEIRO CEGO DE NASCENÇA
Ele agora só fala com as mulheres? E nós, já não existimos? Temos de nos queixar!
O CEGO MAIS VELHO
Não sei ainda; veremos; veremos. Mas onde foi ele, afinal? Vou perguntar às
mulheres.
A CEGA MAIS VELHA
Ele estava cansado de andar tanato tempo. Acho que se sentou por um momento no
meio de nós. Ele tem estado muito triste e muito fraco há vários dias. Anda com
medo, desde que o médico morreu. Está sozinho. Quase não fala. Não sei o que
aconteceu. Queria mesmo sair hoje, a qualquer custo. Disse que queria ver a Ilha
uma última vez, o sol, antes do inverno. O inverno vai ser muito longo e muito
frio, ao que parece. E o gelo já começa a vir do Norte. Ele também estava muito
inquieto; dizem que as tempestades dos últimos dias encheram o rio e que todos os
diques estão instáveis. Também disse que o mar o apavora; parece que o mar se agita
sem razão, e que as falésias da Ilha já não são suficientemente altas. Ele queria ver;
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mas não nos disse o que viu. – Neste momento, acho que foi buscar pão e água para
Ele pegou-me nas mãos, quando se foi embora, e as suas mãos tremiam como se
Oh! Oh!
A JOVEM CEGA
Perguntei o que tinha acontecido. Ele disse-me que não sabia. Disse-me que o reino
Há um farol?
A JOVEM CEGA
Há, no norte da Ilha. Acho que não estamos longe. Ele disse que via a luz do farol
mesmo daqui, através folhas. Nunca como hoje me pareceu tão triste, e acho que já
chora há vários dias. Não sei porquê, também chorei, sem o ver. Não o ouvi partir.
Não lhe fiz perguntas. Percebi que ele sorriu de um modo muito sério; percebi que
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SEGUNDO CEGO DE NASCENÇA
Ele disse “Boa noite” duas ou três vezes quando se foi embora, como se fosse dormir.
Percebi que ele olhava para mim quando disse: “Boa noite, boa noite!” – A voz
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A CEGA MAIS VELHA
Ele não fez bem em nos trazer para aqui; não gosto de ouvir este barulho.
O CEGO MAIS VELHO
Sabem bem que a Ilha não é grande e que se ouve tudo assim que se sai do asilo.
SEGUNDO CEGO DE NASCENÇA
Parece que está muito próximo de nós hoje; não gosto de ouvi-lo tão de perto.
SEGUNDO CEGO DE NASCENÇA
Nunca tínhamos vindo até aqui; não era preciso trazer-nos para tão longe.
A CEGA MAIS VELHA
O tempo estava muito bonito esta manhã; ele quis que aproveitássemos os últimos
Ele também nos disse que seria bom conhecermos um pouco a pequena ilha onde
vivemos. Ele próprio nunca a percorreu toda; há uma montanha onde ninguém
subiu, vales que ninguém desceu, e grutas onde ninguém entrou. Ele disse, por fim,
que não se deve esperar o sol sempre debaixo das abóbadas do dormitório; queria-
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O CEGO MAIS VELHO
Ainda há sol?
O SEXTO CEGO
O SEXTO CEGO
Acho que está muito escuro; quando faz sol, eu vejo uma linha azul por baixo das
Eu sei que é tarde quando fico com fome; e eu estou com fome.
TERCEIRO CEGO DE NASCENÇA
O SEXTO CEGO
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PRIMEIRO CEGO DE NASCENÇA
Eu também.
PRIMEIRO CEGO DE NASCENÇA
O SEXTO CEGO
Há qualquer coisa que se agita acima das nossas cabeças, mas não conseguimos
alcançá-la.
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PRIMEIRO CEGO DE NASCENÇA
mãos.
TERCEIRO CEGO DE NASCENÇA
Há algum de nós que já tenha visto a Ilha no passado e que nos possa dizer onde
estamos?
A CEGA MAIS VELHA
Não nos vamos preocupar inutilmente; ele voltará em breve; vamos esperar mais
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SEGUNDO CEGO DE NASCENÇA
Era dia de festa na Ilha; nós saímos sempre nos dias de festa.
TERCEIRO CEGO DE NASCENÇA
sol.
O CEGO MAIS VELHO
Eu também; há muito tempo; quando era criança; mas já quase não lembro.
TERCEIRO CEGO DE NASCENÇA
Por que ele quer que a gente saia sempre que faz sol? Que diferença é que isso faz?
Eu prefiro ficar no refeitório, junto à lareira; o lume estava bem forte esta manhã...
SEGUNDO CEGO DE NASCENÇA
Ele podia levar-nos para o sol do pátio; lá as muralhas protegem-nos; não podemos
sair, não há nada a temer quando a porta está fechada; – e eu fecho-a sempre. –
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SEGUNDO CEGO DE NASCENÇA
É meia-noite!
SEGUNDO CEGO DE NASCENÇA
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O SEXTO CEGO
Há muito tempo que eu suspeito de qualquer coisa: alguém nos está a ouvir. – Ele
voltou?
Começo a perceber onde estamos... O asilo fica do outro lado do rio grande;
atravessámos a ponte velha. Ele conduziu-nos para o norte da Ilha. Não estamos
de ir até à beira d’água se ele não voltar... Ali passam grandes navios, dia e noite, e
cerca o farol; mas não sei o caminho para sair daqui... Alguém me quer acompanhar?
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PRIMEIRO CEGO DE NASCENÇA
Fiquemos sentados! – Vamos esperar, vamos esperar; – não sabemos para onde corre
o rio e há pântanos à volta do asilo; vamos esperar, vamos esperar... Ele vai voltar;
Alguém sabe por onde viemos parar aqui? Ele explicou-nos enquanto
caminhávamos.
PRIMEIRO CEGO DE NASCENÇA
Alguém o ouviu?
TERCEIRO CEGO DE NASCENÇA
Dizem que dá para vê-la daqui, num dia claro; em direção ao norte. – Não tem
torre.
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TERCEIRO CEGO DE NASCENÇA
De onde?
A CEGA MAIS VELHA
Já não ouso pensar nisso... Já não lembro de quase nada... Já foi há demasiado tempo
A JOVEM CEGA
Ai sim, de onde?
A JOVEM CEGA
Não lhe sei dizer. Como é que eu posso explicar? – É muito longe daqui; para além
gestos; mas nós já não vemos... vagueei demasiado tempo... Mas vi o sol e a água e
o fogo, vi montanhas, rostos e flores estranhas... não há nada semelhante nesta Ilha;
aqui é demasiado escuro e demasiado e frio. Já não reconheço o seu perfume desde
que deixei de os ver.…, mas vi os meus pais e minhas irmãs... Eu era muito criança
naquela época para saber onde estava.... ainda brincava à beira-mar... Mas lembro-
A JOVEM CEGA
Às vezes ainda os distingo pela voz.... Tenho memórias que ficam mais nítidas
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PRIMEIRO CEGO DE NASCENÇA
Disseram-me que ele me podia curar. Ele disse-me que um dia eu voltaria a ver e
Ele está demasiado velho; já não tem tempo para nos curar!
A JOVEM CEGA
As minhas pálpebras estão fechadas, mas sinto que os meus olhos estão vivos...
PRIMEIRO CEGO DE NASCENÇA
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SEGUNDO CEGO DE NASCENÇA
Uma noite ouvi, durante as orações, do lado das mulheres uma voz que eu não
conhecia e percebi, pela sua voz, que era muito jovem... teria gostado de ter visto,
enquanto te ouvia...
PRIMEIRO CEGO DE NASCENÇA
Dizem que és linda como uma mulher que vem de muito longe!
A JOVEM CEGA
Eu nunca me vi.
O CEGO MAIS VELHO
Nós nunca vimos uns aos outros. Fazemos perguntas e respondemos; vivemos
juntos; estamos sempre juntos, mas não sabemos o que somos!... Por mais que nos
Nós nunca vimos a casa onde vivemos; por mais que tateemos as paredes e as janelas;
Dizem que é um castelo antigo, muito sombrio e miserável, onde nunca entra luz,
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O SEXTO CEGO
Quando guardo o rebanho, nos arredores do asilo, as ovelhas voltam sozinhas para
casa, quando veem, ao cair da noite, a luz da torre... – Guiado por elas, nunca me
Há anos e anos que estamos juntos, e nunca nos vimos! É como se estivéssemos
O QUINTO CEGO.
O QUINTO CEGO.
audição…
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O CEGO MAIS VELHO.
Não sabemos.
O QUINTO CEGO
Parece-me que estamos muito distantes uns dos outros.... Vamos aproximarmo-nos
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SEGUNDO CEGO DE NASCENÇA
Ela não fala desde que teve o filho.... Parece estar sempre com medo...
O CEGO MAIS VELHO
Você quem?
O CEGO MAIS VELHO
Vocês todos!
A CEGA MAIS VELHA
Não sei porquê!... há qualquer coisa que não compreendo, parece-me ouvir um
Há mais outra coisa.... Tenho certeza de que há mais outra coisa... Não é só disso
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PRIMEIRO CEGO DE NASCENÇA
A JOVEM CEGA
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PRIMEIRO CEGO DE NASCENÇA
O SEXTO CEGO
Elas estão aqui! – Não consigo alcançá-las; elas estão ao seu lado.
O SEXTO CEGO
A JOVEM CEGA
Acho que vi estas flores antigamente... Já não sei o nome delas... ai, mas estão tão
doentes, e o caule está tão mole! Quase que não as reconheço.... Acho que é a flor
dos mortos...
TRANÇA OS ASFÓDELOS NO SEU CABELO.
São as flores.
O CEGO MAIS VELHO
Não te veremos.
A JOVEM CEGA
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NESSE MOMENTO, O VENTO LEVANTA-SE NA FLORESTA, E O MAR RUGE, REPENTINA E VIOLENTAMENTE,
Trovões!
SEGUNDO CEGO DE NASCENÇA
O mar? O mar? Mas está apenas a dois passos de nós! – Está muito perto! Eu
Vem do mar.
O CEGO MAIS VELHO
Vem sempre do mar; o mar rodeia-nos por todos os lados. Não pode vir de mais
lado nenhum.
PRIMEIRO CEGO DE NASCENÇA
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SEGUNDO CEGO DE NASCENÇA
Ouço as ondas como se pudesse mergulhar nelas as duas mãos! Não podemos
Para qualquer lado! Para qualquer lado! Não quero ouvir mais o barulho destas
Quem está aí? – Quem vem lá? Tenha piedade de nós, estamos à espera há tanto
tempo!
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O CÃO PARA E VEM POUSAR AS PATAS DIANTEIRAS NOS JOELHOS DO CEGO.
Ah! Ah! O que é isto em cima dos meus joelhos? Oque é?... É um animal? – Acho
que é um cão... ah! ah! É o cão! É o cão do asilo! Vem cá! vem cá!
OS OUTROS CEGOS
Aqui! Aqui!
PRIMEIRO CEGO DE NASCENÇA
Ele libertar-nos! Seguiu o nosso rasto até aqui. Ele lambe-me as mãos como se não
me visse há séculos!
OS OUTROS CEGOS
Aqui! aqui!
O CEGO MAIS VELHO
Não, não, ele está sozinho. – Não ouço ninguém a aproximar-se. Não precisamos
de outro guia; melhor guia do que ele não há. Ele vai conduzir-nos onde quisermos;
ele obedecerá...
A CEGA MAIS VELHA
Nem eu.
Alguma coisa mudou no céu: estou a respirar melhor; o ar está puro agora...
A CEGA MAIS VELHA
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O SEXTO CEGO
Vamos encontrar o caminho. Ele está a arrastar-me.… está a arrastar-me. Está louco
casa!...
ELE LEVANTA-SE, ARRASTADO PELO CÃO QUE O LEVA PARA JUNTO DO PADRE IMÓVEL, E PARA
OS OUTROS CEGOS
Ah! ah! ah! – ainda não sei o que é isto... – Há um morto entre nós!
OS OUTROS CEGOS
Está um morto entre nós, digo-vos! ah! ah! toquei o rosto de um morto! – Vocês
estão sentados ao lado de um morto! Um de nós deve ter morrido de repente! Mas
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falem depressa, para eu saber, afinal, quem está vivo! E então? Respondam,
Já não distingo as vossas vozes!... falam todos do mesmo modo! Com a voz tremida!
TERCEIRO CEGO DE NASCENÇA
O QUINTO CEGO
O SEXTO CEGO
Acho.... Acho que é o padre! – Ele está de pé! Venham! venham! venham!
SEGUNDO CEGO DE NASCENÇA
Vamos ver!...
LEVANTAM-SE TODOS, COM EXCEÇÃO DA LOUCA E DO QUINTO CEGO, E AVANÇAM, APALPANDO, EM
DIREÇÃO AO MORTO.
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Meu Deus! meu Deus! O que vai ser de nós?
A CEGA MAIS VELHA
– Vamos tentar... Talvez ele nos possa levar de volta para o asilo
TERCEIRO CEGO DE NASCENÇA
Ah! como ele era velho!... É a primeira vez que toco no seu rosto...
TATEANDO O CADÁVER.
Meu Deus! meu Deus! Nunca imaginei uma coisa destas!... nada disso!... Ele estava
doente há tanto tempo... Deve ter-se sentido mal hoje!... – Ele não se queixava... só nos
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apertava as mãos, era assim que se queixava... Nem sempre se compreende... Nunca se
Ouvi-o falar em voz baixa ao ir-se embora.... Acho que falou com a nossa jovem
queriam sentar-se nas pedras da estrada, para comer; murmuraram o dia todo… Eu
Não sabíamos de nada... Nós nunca o vimos... Quando é que alguma vez soubemos
alguma coisa por trás dos nossos pobres olhos mortos?... Ele nunca se queixou...
Agora é tarde demais... Já vi três morrerem..., mas nunca desta maneira!... Agora, é
a nossa vez...
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SEGUNDO CEGO DE NASCENÇA
Nós podemos ficar à espera ao lado de um morto!... Não podemos morrer aqui no
escuro.
TERCEIRO CEGO DE NASCENÇA
Vamos ficar juntos; não nos afastemos uns dos outros; vamos dar as mãos; vamos
sentar-nos todos nesta pedra… Onde estão os outros…. Venham cá! Venham!
Venham!
O CEGO MAIS VELHO
Onde estás?
TERCEIRO CEGO DE NASCENÇA
Aqui, estou aqui. Estamos todos juntos? – Aproximem-se mais de mim. – Onde
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TERCEIRO CEGO DE NASCENÇA
A JOVEM CEGA
Estava a pôr as mãos nos meus olhos; pensei que de repente ia ver...
PRIMEIRO CEGO DE NASCENÇA
Quem?
A CEGA MAIS VELHA.
Não sei.
PRIMEIRO CEGO DE NASCENÇA
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TERCEIRO CEGO DE NASCENÇA
Está frio!
O CEGO MAIS VELHO
Quem é que está a tremer assim? Faz-nos tremer a todos em cima da pedra.
SEGUNDO CEGO DE NASCENÇA
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A CEGA MAIS VELHA
A JOVEM CEGA.
É o vento: escutem!
O TERCEIRO CEGO DE NASCENÇA.
A JOVEM CEGA.
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PRIMEIRO CEGO DE NASCIMENTO.
Oh! Oh! O que é isto que cai tão frio sobre as minhas mãos?
SEXTO CEGO.
Está a nevar.
PRIMEIRO CEGO.
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A criança está a chorar!
A JOVEM CEGA.
Ele vê! Ele vê! Ele deve estar a ver alguma coisa, já que chora!
ELA PEGA NA CRIANÇA NOS BRAÇOS E AVANÇA NA DIREÇÃO DE ONDE PARECE VIR O BARULHO DOS
Cuidado!
A JOVEM CEGA.
Oh! Ele chora tanto! – O que se passa! – Não chores. Não tenhas medo; não há
nada a temer, estamos aqui; estamos à tua volta. – O que vês? – Não tenhas medo.
É uma mulher?
O CEGO MAIS VELHO.
A JOVEM CEGA.
Estou a ouvi-las, estou a ouvi-las quase ao nosso lado! Ouçam! Ouçam! – O que
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A CEGA MAIS VELHA.
Ele continua a seguir o som dos passos! – Olhem! Olhem! Quando o viro, ele vira-
se para ver… Ele vê! Ele vê! Ele vê! – Ele deve estar a ver alguma coisa estranha!…
A CEGA MAIS VELHA
AVANÇA
Afastem-se, afastem-se.
ELA LEVANTA A CRIANÇA ACIMA DO GRUPO DE CEGOS.
Os passos pararam.
A CEGA MAIS VELHA.
FIM
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