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Capitulo 7

Lucas, um jovem tenente, assiste a uma apresentação de dança no Teatro São Pedro de Alcântara e se encanta com a bailarina Marietta. Ele encontra Marcos Carvalho, irmão de uma antiga conhecida, que lhe entrega um cartão com a fotografia de Ana, acompanhada de uma carta de seu irmão Gabriel, revelando que Ana sente saudades dele. A mensagem de amor de Ana provoca uma forte emoção em Lucas, que se sente isolado em meio à multidão aplaudindo.

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Capitulo 7

Lucas, um jovem tenente, assiste a uma apresentação de dança no Teatro São Pedro de Alcântara e se encanta com a bailarina Marietta. Ele encontra Marcos Carvalho, irmão de uma antiga conhecida, que lhe entrega um cartão com a fotografia de Ana, acompanhada de uma carta de seu irmão Gabriel, revelando que Ana sente saudades dele. A mensagem de amor de Ana provoca uma forte emoção em Lucas, que se sente isolado em meio à multidão aplaudindo.

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VII

Rio de Janeiro, 1861

(Três anos antes início da guerra)

Lucas tinha vinte e dois anos e já vivia a quatro no Rio de Janeiro.

Naquela noite, encontrava-se sentado entre o público elegante do Teatro São Pedro de
Alcântara, onde a elite da corte se reunia para assistir às apresentações mais
comentadas da Europa. Os grandes lustres de cristal espalhavam uma luz quente sobre
o salão, refletindo nos uniformes militares, nas joias discretas das damas e nas sedas
que sussurravam a cada movimento.

Mas Lucas mal percebia qualquer uma dessas coisas.

Seus olhos estavam presos ao palco.

Ali, movendo-se com uma leveza quase sobrenatural, dançava Marietta Baderna
Giannini. Cada gesto da bailarina parecia desafiar a gravidade. Seus pés mal tocavam o
chão, como se o ar fosse suficiente para sustentá-la.

Havia beleza em seus movimentos.

Mas também havia tristeza.

Era como se cada passo carregasse uma história silenciosa.

Lucas acompanhava cada giro com atenção quase reverente, o corpo inclinado
levemente para frente, como se temesse perder o menor detalhe.

Foi então que alguém ocupou o assento vazio ao seu lado.

O rapaz era loiro, de olhos azuis muito claros. Tinha traços delicados, quase juvenis, e
por alguns instantes permaneceu tão silencioso quanto Lucas, observando o palco.

Então murmurou, quase para si mesmo:

— La Sylphide…

Lucas virou o rosto.

— O que disse?
O jovem continuou olhando para a bailarina.

— É a obra que Marietta está dançando.

Lucas repetiu em voz baixa, experimentando o som estrangeiro das palavras.

— La Sylphide…

Havia algo elegante naquela pronúncia.

Ele inclinou-se um pouco mais para frente, concentrando-se ainda mais nos
movimentos da bailarina.

— Interessante.

O rapaz prosseguiu:

— A história fala de um amor impossível. Entre um homem e um espírito da floresta…


uma sílfide.

Lucas observou o palco mais uma vez.

Os movimentos de Marietta pareciam agora ainda mais carregados de significado.

— Amor impossível… — murmurou ele. — Isso explica o sentimento que ela transmite.

O jovem sorriu discretamente.

— Marietta é extraordinária. Uma pena que retorne à Europa no próximo ano. Talvez para
a Itália.

Lucas lançou-lhe um olhar curioso.

— Parece que você a conhece bem.

Finalmente o rapaz voltou o rosto para ele.

— Permita-me apresentar-me. Marcos Carvalho, ao seu dispor.

Estendeu a mão.

Lucas apertou-a com firmeza.

— Lucas.

Por um instante, Marcos o observou em silêncio.


Seus olhos desceram discretamente pelo uniforme militar.

— Pelas botas… — comentou pensativo.


— Pelas esporas…
— E pelo sabre.

Seus olhos brilharam com um leve divertimento.

— Tenente da cavalaria?

Lucas arqueou levemente uma sobrancelha.

— Bem observador… senhor Carvalho.

Marcos fez um gesto despreocupado.

— Apenas Marcos. Não precisamos de tanta formalidade entre nós.

Lucas o encarou por um instante, como se tentasse decifrar algo que escapava à
memória.

Marcos percebeu.

— Sou o irmão mais novo de Teresa — explicou. — Se tirasse os olhos de Marietta por
um momento, teria percebido.

Por alguns segundos Lucas permaneceu em silêncio.

Então, de repente, algo se encaixou em sua memória.

Seus olhos se iluminaram.

— Marcos?…

Um sorriso surgiu em seu rosto.

— Não imaginava encontrar um rosto da infância aqui no Rio.

Marcos riu baixinho.

— Vim concluir meu doutorado em medicina aqui na corte.

Fez uma pausa antes de acrescentar:

— Seu irmão se formou no ano passado.

Aquelas palavras tocaram Lucas de maneira inesperada.


— Recebi uma carta dele… — disse. — Lamentei não poder estar presente.

Seus olhos voltaram brevemente ao palco.

— Então… já é médico.

Marcos levantou os olhos para o teto ricamente ornamentado do teatro.

— Doutor Gabriel não é apenas um médico.

Então voltou a encarar Lucas.

— Ele é um gênio.

Lucas sentiu um calor silencioso de orgulho crescer dentro do peito.

— E como está Teresa? Sua família… — perguntou.

Hesitou por um momento.

— E… você viu Ana?

Marcos soltou uma pequena risada.

— Eu sei que você não se importa nem um pouco com a família Carvalho…

Ele balançou a cabeça com divertimento.

— Mas sobre Ana… ela parece bem.

Fez uma pausa.

— Você sabe… eu nunca fui muito próximo de vocês. Diferente de Teresa, que visitava
Gabriel quase todos os dias.

Sua voz diminuiu um pouco.

— Eu tinha meus motivos para manter distância.

Então murmurou, quase inaudível:

— Ver Gabriel naquela época não me faria bem.

A música no palco cresceu naquele momento, cobrindo suas últimas palavras.

Lucas não ouviu.


— Eu entendo — respondeu simplesmente.

No palco, a apresentação chegava ao clímax. Marietta executou um último giro perfeito,


leve como uma folha ao vento.

O teatro inteiro levantou-se em aplausos.

Marcos levantou-se também.

— Conheço uma confeitaria a poucas ruas daqui. Poderíamos continuar a conversa.

Lucas sorriu, mas balançou a cabeça.

— Eu gostaria… mas temo que o quartel não compartilhe do mesmo entusiasmo.


Preciso estar lá antes do amanhecer.

Marcos assentiu.

— Compreendo.

Ele colocou a mão no bolso do casaco.

— Eu queria lhe entregar isto mais tarde… mas já que não pode me acompanhar…

Retirou um pequeno cartão.

— …entrego agora.

Lucas pegou o objeto.

— Um cartão?

— Uma carte de visite — explicou Marcos. — Pequenas fotografias coladas em cartão.


Tornaram-se bastante populares na Europa.

Ele sorriu.

— Gabriel queria que você ficasse com isso.

Lucas virou o cartão.

E por um instante o mundo pareceu parar.

Era Ana.
Seus cabelos estavam mais longos do que ele lembrava. Mais volumosos. O rosto havia
amadurecido, e havia em sua expressão uma serenidade que Lucas jamais tinha visto
antes.

Ela estava ainda mais bela.

Muito mais.

Preso ao cartão havia também uma carta dobrada.

As mãos de Lucas tremiam levemente ao abri-la.

A caligrafia era de Gabriel.

**“Irmão, guarde isto com sua vida.


Você não imagina o quanto foi difícil conseguir esse cartão para você.

Ana sente muito a sua falta.

Estou ensinando-a a ler e escrever.


Em breve você receberá cartas escritas por ela mesma.

Olhe atrás do cartão.”**

Lucas virou lentamente a fotografia.

No verso, escrito com letras ainda um pouco incertas, quase infantis, mas
perfeitamente legíveis, havia uma frase simples.

Uma frase capaz de quebrar seu coração e ao mesmo tempo aquecê-lo.

“EU AMO VOCÊ, LUCAS.”

Por alguns segundos, Lucas não conseguiu respirar.

O teatro continuava cheio.

As pessoas continuavam aplaudindo.

Mas para ele, naquele instante, o mundo inteiro havia desaparecido.

Restava apenas aquela pequena fotografia em suas mãos.

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