HIBRIDAÇÃO LITERÁRIA NO ROMANCE O QUINZE:
NATURALISMO E MODERNISMO
LITERARY HYBRIDIZATION IN THE NOVEL O QUINZE:
NATURALISM AND MODERNISM
Ana Raquel Alves da Silva1
ORCID: [Link]
Jéssica Thais Loiola Soares2
ORCID: [Link]
Enviado em: 03/02/2025
Aceito em: 10/03/2025
Publicado em: 18/06/2025
Resumo: O romance O Quinze, de Rachel de Queiroz, faz parte da segunda geração
modernista do Brasil e tem como referência a grande seca de 1915, representando a miséria e
a marca da desigualdade social que se fez presente no período em questão. Na obra
mencionada, é nítida a presença de elementos característicos da literatura naturalista
brasileira, a saber: abordagem de problemas sociais, descrição minuciosa da miséria e do
ambiente, determinismo e representação objetiva da realidade, características essas que
compõem a sociedade e os romances naturalistas do final do século XIX. Neste artigo,
buscaremos encontrar tais elementos naturalistas em O Quinze, tomando como base a Teoria
da Residualidade, formulada por Roberto Pontes (1999), segundo a qual em toda cultura há
elementos remanescentes de tempos e espaços anteriores. A referida teoria trabalha com os
seguintes conceitos operacionais: resíduo, mentalidade, imaginário, hibridação cultural e
cristalização, a fim de apontar e explicar a relação existente entre culturas distantes no tempo
e no espaço. Neste trabalho, buscaremos analisar a obra mencionada a partir da hibridação dos
períodos literários, buscando as semelhanças tanto culturais quanto sociais do Naturalismo
presentes residualmente em O Quinze. Assim, constataremos que os períodos literários não
são completamente independentes, mas que possuem relações uns com os outros mesmo em
tempos e espaços distintos.
Palavras-chave: O Quinze. Hibridação literária. Residualidade. Naturalismo.
1 Professora da Educação Básica. Graduada em Letras pelo Instituto Federal do Ceará – IFCE. Pós-
Graduanda em Língua Portuguesa e Literatura Brasileira pela Faculdade FaSouza. E-mail:
raquelalvess113@[Link].
2 Professora de Ensino Básico, Técnico e Tecnológico do Instituto Federal do Ceará – IFCE. Mestra e
Doutora em Letras pela Universidade Federal do Ceará – UFC. E-mail: [Link]@[Link].
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Macapá, v. 11, n. 1, 2025.
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Abstract: The novel O Quinze, by Rachel de Queiroz, is part of the second modernist
generation in Brazil and has as its reference the great drought of 1915, representing the misery
and the mark of social inequality that was present in the period in question. In the
aforementioned work, the presence of characteristic elements of Brazilian naturalist literature
is clear, namely: approach to social problems, detailed description of poverty and the
environment, determinism and objective representation of reality, characteristics that make
up society and the naturalist novels of Brazil. end of the 19th century. In this article, we will
seek to find such naturalistic elements in O Quinze, based on the Theory of Residuality,
formulated by Roberto Pontes (1999), according to which in every culture there are elements
remaining from previous times and spaces. This theory works with the following operational
concepts: residue, mentality, imaginary, cultural hybridization and crystallization, in order to
point out and explain the relationship between cultures distant in time and space. In this work,
we will seek to analyze the mentioned work based on the hybridization of literary periods,
looking for both cultural and social similarities of Naturalism residually present in O Quinze.
Thus, we will see that literary periods are not completely independent, but that they have
relationships with each other even in different times and spaces.
Keywords: O Quinze. Residuality. Literary hybridization. Naturalism.
Introdução
O romance O Quinze, de Rachel de Queiroz, foi publicado em 1930 e faz parte
da segunda geração modernista, tendo como referência a grande seca de 1915,
representando a miséria e a marca da desigualdade social contida no período em
questão.
Na obra mencionada, é nítida a ocorrência de elementos característicos do
Naturalismo brasileiro, a saber: problemas da realidade social, descrição minuciosa da
miséria e do ambiente, determinismo e representação objetiva da realidade. Neste
artigo, buscaremos encontrar tais elementos naturalistas no romance O Quinze,
tomando como base a Teoria da Residualidade (Pontes, 1999), segundo a qual todas as
culturas contêm elementos remanescentes de outros tempos e espaços.
A referida teoria trabalha com os seguintes conceitos operacionais: resíduo,
mentalidade, hibridação cultural e cristalização, a fim de apontar e explicar a relação
existente entre culturas distantes no tempo e no espaço. Assim, a partir da presença de
constantes resíduos do Naturalismo, verificaremos que os períodos literários não são
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completamente independentes, mas que possuem imbricações culturais, temporais e
espaciais.
Ao estudarmos a obra de Rachel de Queiroz, classificada como modernista,
observamos claramente a presença da temática social por fatores que são
característicos da realidade nordestina. Entretanto, a maneira como a miséria, a fome
e a situação crítica das personagens são descritas em O Quinze remete imediatamente
ao Naturalismo, uma vez que o romance apresenta uma descrição minuciosa do
ambiente e das personagens, num cenário de total pobreza e escassez de recursos
durante o período de seca. Cabe ressaltar que essa realidade das personagens não se
limita ao período de seca descrito na obra, visto que, por serem descritos como uma
família de classe baixa é perceptível que essa realidade existe para além da situação de
seca. Assim, percebemos que os períodos literários em questão – referimo-nos ao
Naturalismo e ao Modernismo, mas o princípio do entrecruzamento cultural, artístico
e literário estende-se aos demais estilos de época – se distanciam apenas na relação
temporal, mas aproximam-se e mesclam-se na tessitura da obra.
Rachel de Queiroz nasceu em Fortaleza, capital do Ceará, em 17 de novembro
de 1910 e foi a primeira mulher a ingressar na Academia Brasileira de Letras. Escreveu
com expressividade acerca da vida sofrida do povo nordestino. Tendo presenciado a
terrível seca de 1915, a autora escreveu sobre os horrores desta em seu romance O
Quinze. Os livros Memorial de Maria Moura, As Três Marias, Caminho de Pedras e O
Galo de Ouro também fazem parte da sua produção literária, que é capaz de provocar
no leitor uma mudança em seu senso crítico e uma visão absolutamente nova a respeito
da realidade vivida no Nordeste brasileiro. Além disso, Rachel de Queiroz escreveu
mais de duas mil crônicas, sendo considerada uma cronista emérita pelos leitores e
estudiosos da Literatura. A autora faleceu em 4 de novembro de 2003, deixando uma
enorme herança literária e cultural ao povo brasileiro.
Embora O Quinze seja visto como um romance ficcional que busca aludir a uma
das maiores secas do estado do Ceará, ocorrida em 1915, a obra é composta por uma
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fonte de lembranças da autora, que presenciou esse período de miséria e emigrou, em
1917, para o Rio de Janeiro.
Teoria da Residualidade
A Teoria da Residualidade foi sistematizada por Roberto Pontes (1999) e se
fundamenta no princípio de que nada na Literatura é original, pois todo elemento
presente numa cultura carrega vestígios de culturas anteriores, afinal, como afirma o
teórico em questão: “Na cultura e na literatura nada há de original; tudo remanesce;
logo, tudo é residual” (Pontes, 2012, p. 392). A fim de realizar tal estudo comparativo
entre obras, estéticas literárias, tempos, espaços e culturas distintos, a teoria utiliza-se
de alguns conceitos operacionais, sendo os principais: resíduo, mentalidade,
hibridação cultural e cristalização.
O resíduo é o elemento que remanesce de outro tempo e espaço, podendo sofrer
alterações, mas mantendo-se semelhante em essência. Já a mentalidade e o imaginário
referem-se ao modo de pensar e agir de uma determinada sociedade, às imagens
mentais guardadas, à maneira como os fatos eram pensados, às formas de sentir de um
determinado povo num dado momento histórico. Sendo assim, a mentalidade diz
respeito aos “arquivos mentais” de um povo, cujos vestígios – os resíduos –
permaneceram em outra cultura.
Por conseguinte, a hibridação cultural se refere à imbricação que ocorre entre
as culturas no decorrer do tempo, à medida que elas entram em contato entre si e
influenciam-se mutuamente.
Por fim, a cristalização se trata da adaptação pela qual passa o resíduo durante
os processos de hibridação cultural. É essa capacidade adaptativa que possibilita a
sobrevivência de um elemento do passado num momento posterior. Todavia, embora
revestido de uma nova roupagem, o resíduo mantém-se essencialmente o mesmo.
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Roberto Pontes reúne na seguinte explanação os principais conceitos da Teoria
da Residualidade:
O resíduo consiste no principal elemento atualizador da produção cultural. Parece
ser de lei na ordem da cultura que nada dispõe de originalidade e tudo deriva de
um resto. Não se pode pensar em lápis, se antes não for pensada a madeira com
que se fabrica o bastão e a pedra mineral de onde se extrai o grafite. Tudo deixa o
seu resíduo no reino complexo da cultura. O próprio lápis, exaurido, apontado
inúmeras vezes, chegado ao seu fim, ainda deixa um resíduo, o traço negro ou
colorido no papel, que é outro resíduo em operação na natureza. E as letras ou
figuras são o resíduo que impregnam as mentes e formam as mentalidades ao longo
de um processo de cognição. E este ato de conhecer termina explodindo em palavra
oral ou escrita, em invenção plástica, sonora, rítmica, enfim, numa produção
qualquer de caráter cultural. O resíduo, pois, se mantém numa permanente
latência, em constante possibilidade de uso, de forma a poder ser atualizado ou
cristalizado a qualquer momento, não se sabe quando nem por quê. (Pontes, 2004,
p. 9)
Assim, constatamos que os estudos residuais têm grande relevância nos meios
cultural e literário, pois, assim como na cultura, nada na literatura é original; tudo é
residual. As estéticas literárias possuem elos entre si, carregando resquícios de outros
momentos históricos. Estudar os períodos literários de forma residual também é
descobrir que as obras podem apresentar múltiplas relações, as quais podemos
investigar por intermédio da Teoria da Residualidade.
A hibridação literária está patente em O Quinze, dado que dois períodos
literários se cruzam dentro de uma obra de cunho social – ponto em questão nos dois
períodos – e fornecem uma análise social realista das causas, consequências e a
realidade humana vivenciada no período de seca que, consequentemente, traz
sofrimento e dor às personagens, fazendo com que estas busquem meios de
sobrevivência, recorrendo ao êxodo.
Naturalismo e Modernismo
O Naturalismo foi um movimento literário surgido em meados do século XIX,
na França, e logo chegou à sociedade brasileira. Tendo um aspecto mais sociológico,
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aconteceu simultaneamente ao Realismo, no entanto, apesar de ambos tratarem da
sociedade de maneira realista, possuem objetivos e visões diferentes frente aos
problemas sociais abordados na época. O Realismo surgiu no Brasil na segunda metade
do século XIX, com a publicação de Memórias Póstumas de Brás Cubas, de Machado
de Assis, com o objetivo de analisar crítica e psicologicamente a sociedade. O
Naturalismo, por sua vez, também se detinha na análise social, porém numa
perspectiva biológica, tratando das classes mais pobres da sociedade, aquelas que não
frequentavam teatros e óperas nem tinham um estilo de vida burguês e enfrentavam
sérios problemas sociais, como a fome, a miséria e a desigualdade social.
Nesse período, a sociedade capitalista é marcada pela exploração do trabalho do
pobre, com extensas jornadas, além de participação política restrita às classes sociais
privilegiadas, por meio da democracia censitária (Viana, 2003). Daí, o Naturalismo se
propõe justamente a representar o modo de vida miserável de uma parcela da
sociedade que vivia embaixo dos prédios e hotéis de luxo, limpando a sujeira deixada
pelos burgueses após uma noite de gozo.
As principais características do Naturalismo no Brasil são: descrição minuciosa
de ambientes e personagens, abordagem de temas sociais, análise biológica da
sociedade e construção de um retrato objetivo desta – arsenal que tornava possível
analisar de forma científica e patológica os temas a que se propunha. A obra que marca
o início do Naturalismo no Brasil é O Mulato, de Aluísio Azevedo, romance que sofreu
muitas críticas, sobretudo porque se distancia daquele velho ideal romântico segundo
o qual o bem sempre prevalece e também porque desmascara alguns malfeitos da
sociedade, em especial, a burguesa.
No primeiro capítulo de O Mulato já é notável uma descrição vívida do
ambiente, como podemos observar no excerto que se segue:
Era um dia abafadiço e aborrecido. A pobre cidade de São Luís do Maranhão
parecia entorpecida pelo calor. Quase que se não podia sair à rua: as pedras
escaldavam; as vidraças e os lampiões faiscavam ao sol como enormes diamantes,
as paredes tinham reverberações de prata polida; as folhas das árvores nem se
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mexiam; as carroças d’água passavam ruidosamente a todo o instante, abalando os
prédios; e os aguadeiros, em mangas de camisa e pernas arregaçadas, invadiam
sem-cerimônia as casas para encher as banheiras e os potes. Em certos pontos não
se encontrava viva alma na rua; tudo estava concentrado, adormecido; só os pretos
faziam as compras para o jantar ou andavam no ganho. (Azevedo, 2004, p. 1)
Ademais, o trecho lido revela que “só os pretos andavam na rua”, mostrando
que apenas os mais pobres estavam trabalhando naquele sol escaldante, enquanto os
mais abastados estariam, talvez, descansando sobre suas riquezas. É evidente,
portanto, a abordagem do modo de vida das classes econômica e socialmente
desfavorecidas, seguindo a perspectiva naturalista, além da denúncia do racismo
frequentemente flagrado na época.
Neste trecho, ainda do capítulo 1 de O Mulato, veremos mais uma descrição do
ambiente, ainda mais intensa que a anterior:
De um casebre miserável, de porta e janela, ouviam-se gemer os armadores
enferrujados de uma rede e uma voz tísica e aflautada, de mulher, cantar em falsete
a “gentil Carolina era bela”; do outro lado da praça, uma preta velha, vergada por
imenso tabuleiro de madeira, sujo, seboso, cheio de sangue e coberto por uma
nuvem de moscas, apregoava em tom muito arrastado e melancólico: “Fígado, rins
e coração!’’ Era uma vendedeira de fatos de boi. As crianças nuas, com as perninhas
tortas pelo costume de cavalgar as ilhargas maternas, as cabeças avermelhadas
pelo sol, a pele crestada os ventrezinhos amarelentos e crescidos, corriam e
guinchavam, empinando papagaios de papel. Um ou outro branco, levado pela
necessidade de sair, atravessava a rua, suado, vermelho, afogueado, à sombra de
um enorme chapéu-de-sol. (Azevedo, 2004, p. 1)
A partir desses trechos, verificamos que o objetivo maior do Naturalismo é
abordar uma sociedade esquecida e frágil, diferentemente do Realismo, que se
preocupou, sobretudo, em analisar a sociedade burguesa novecentista.
Por conseguinte, outra relevante característica naturalista é o determinismo,
segundo o qual o ser humano é definido pelo meio em que vive (ambiente), sua raça
(genética) e o momento histórico (tempo).
De acordo com Flor (2015), os principais críticos literários do período foram:
Sílvio Romero, José Veríssimo e Araripe Júnior. O primeiro afirmava que o termo
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“Naturalismo” poderia ser utilizado para toda manifestação literária que se opusesse
ao Romantismo. Para Veríssimo, o Naturalismo brasileiro foi simplesmente uma
imitação do Naturalismo francês, tendo o autor criticado as descrições minuciosas e as
obscenidades presentes nas obras da época, bem como a linguagem considerada pouco
literária. Por outro lado, Araripe Júnior defendia que o Naturalismo brasileiro jamais
seria uma ramificação do Naturalismo francês, uma vez que, dentro de outra cultura e
outra sociedade, o Naturalismo já não teria mais como ser o mesmo.
De toda maneira, o Naturalismo se mostrou o retrato de uma parcela da
sociedade que era injustiçada. Assim, intentamos encontrar resíduos desses elementos
ora mencionados no romance O Quinze, de Rachel de Queiroz, obra-prima da segunda
geração do Modernismo brasileiro, período que também representou uma sociedade
esquecida e injustiçada que, no interior no Nordeste brasileiro, buscava sobrevivência
numa desastrosa seca.
Por sua vez, o Modernismo rompe com o conceito clássico de literatura,
trazendo aos palcos e às obras um conceito e estilo próprios da sociedade brasileira, o
que, em princípio, provoca um choque à sociedade já acostumada com as inspirações
europeias. Alfredo Bosi define o Modernismo como um código novo, que rompe com
todos os códigos anteriores. E esse código busca se aprofundar na realidade brasileira,
investigando-a, entendendo-a:
Se por Modernismo entende-se algo mais que um conjunto de experiências de
linguagens; se a literatura que se escreveu sob o seu signo representou também
uma crítica global às estruturas mentais das velhas gerações e um esforço de
penetrar mais fundo na realidade brasileira, então houve, no primeiro vintênio,
exemplos probantes de inconformismo cultural… (Bosi, 1997, p. 375)
Ao estudarmos as estéticas literárias, deparamo-nos com realidades diferentes
e culturas distintas, uma vez que Literatura, História e sociedade mantêm uma relação
intrínseca entre si. Tratam-se de modos diversos de enxergar, analisar e – muitas vezes
– criticar o mundo. O Modernismo, por exemplo, sobretudo na prosa de sua segunda
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geração, objetivou representar o sofrimento dos retirantes nordestinos em meio a uma
terra seca e repleta de disparidades econômico-sociais.
As manifestações literárias modernistas representam fiel e criticamente um
período de grande abalo socioeconômico em algumas regiões do Brasil, de forma que
a ficção passa a fazer uma denúncia social, surgindo um novo Naturalismo, como
assevera Alfredo Bosi, em História Concisa da Literatura Brasileira:
O modernismo, e num plano histórico mais geral, os abalos que sofreu a vida
brasileira em torno de 1930 (a crise cafeeira, a Revolução, o acelerado declínio do
Nordeste, as fendas nas estruturas locais) condicionaram novos estilos ficcionais
marcados pela rudeza, pela captação direta dos fatos, enfim por uma retomada do
naturalismo, bastante funcional no plano da narração-documento que então
prevaleceria. (Bosi, 1997, p. 438)
O “novo Naturalismo” se trata de uma espécie de Neorrealismo, como ocorreu
claramente também na literatura portuguesa, a exemplo do romance Gaibéus, de Alves
Redol, em que a denúncia da miséria econômica, intelectual e espiritual é levada ao
grau extremo da reflexão humana. No Brasil, vários autores abordam esse tipo de
crítica social, a saber: Graciliano Ramos, José Lins do Rego, Rachel de Queiroz, dentre
outros. Como bem explica Santos:
O Romance de 30 brasileiro e os Neo-Realismo português e angolano exemplificam
o que foi anteriormente referido, isto é, os fatos sociais direcionam a produção
literária. Tanto a segunda geração modernista brasileira quanto os neo-realistas
portugueses - e na esteira o Neo-Realismo angolano – buscaram denunciar a
exploração que sofriam os trabalhadores da região rural. Como forma de
intensificarem sua denúncia, colocaram esse grupos sociais flagelados como
personagens principais de suas tramas. O pioneirismo coube aos modernistas
brasileiros, que voltaram o seu olhar para as camadas desfavorecidas e optaram
por não ficarem indiferentes aos fatos. Nesse processo de divulgação da realidade,
acabaram por influenciar os modernistas portugueses, os quais também sentiram
a necessidade de desvendar o verdadeiro Portugal para os portugueses. (Santos,
2008, p. 30-31)
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Nesse período, a escritora Rachel de Queiroz produziu uma das obras mais
marcantes da Literatura Brasileira, O Quinze, romance baseado numa das piores secas
da história do Ceará – a seca de 1915.
Resíduos naturalistas em O Quinze
A referida obra deu vida a personagens que nos causam grande impacto humano
e psicológico, como Chico Bento, seu filho mais velho e sua esposa. No decorrer da
história, deparamo-nos com acontecimentos que nos levam a uma análise profunda,
afinal, até que ponto as dificuldades sociais motivam as pessoas a fazerem e tomarem
atitudes que podem prejudicar suas próprias vidas? Em O Quinze, podemos analisar
as razões, as circunstâncias e o momento que induziram as personagens a decisões
extremas.
Assim, partiremos agora para uma análise residual da obra, baseando-nos nos
conceitos operacionais da Teoria da Residualidade e nos resíduos do Naturalismo
presentes no romance em questão, demonstrando que uma determinada cultura pode
conter elementos de outra, num processo de hibridação literária e, portanto, cultural.
Os trechos de O Quinze que analisaremos neste artigo terão como base a representação
literária da miséria, do êxodo e da desigualdade social, dentre outras características
híbridas encontradas na obra queiroziana.
A partir do excerto seguinte, podemos observar como se encontrava o cenário
do Nordeste durante o período de seca. Atentemos para as descrições minuciosas no
trecho que se segue: “[...] Lá no céu, sozinho, rutilante, espalhava sobre a terra cinzenta
e seca uma luz que era como fogo” (Queiroz, 2012, p. 14). Percebemos que a terra
estava seca e o sol ardia como fogo. Essas descrições vívidas do ambiente ocorrem por
toda a narrativa, caracterizando pessoas, animais e situações.
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Durante a caminhada de Chico Bento com destino à Fortaleza, também nos
deparamos com descrições minuciosas acerca da miséria, de forma semelhante ao
estilo da estética naturalista, como podemos depreender da citação a seguir:
Chico Bento olhou dolorosamente a mulher. O cabelo, em falripas sujas, como que
gasto, acabado, caía, por cima do rosto, envesgando os olhos, roçando na boca. A
pele, empretecida como uma casca, pregueava nos braços e nos peitos que o casaco
e a camisa rasgada cobriam. (Queiroz, 2012, p. 39)
Consoante o trecho lido, verificamos a maneira como a narradora apresenta a
personagem Cordulina, mulher do vaqueiro Chico Bento. Naquele momento, eles
viviam numa situação de extrema miséria, que é nitidamente expressa pelas descrições
presentes no romance, mostrando o estado de decadência física e social das
personagens. Cordulina representa a mulher tradicional daquele tempo, a mãe de
família que se dedica a cuidar dos filhos, da casa e do marido. Mesmo suja, com a pele
ressecada do sol e as vestes em decadência, sua preocupação não lhe permitia soltar
jamais o filho mais novo, como observamos ao longo do enredo.
De forma semelhante, o Naturalismo também evidenciava esse tipo de situação
na sociedade periférica, conforme podemos verificar no exemplo seguinte, retirado do
romance O Cortiço, do escritor naturalista Aluísio Azevedo:
Daí a pouco, em volta das bicas era um zunzum crescente; uma aglomeração
tumultuosa de machos e fêmeas. Uns, após outros, lavavam a cara,
incomodamente, debaixo do fio de água que escorria da altura de uns cinco palmos.
O chão inundava-se. As mulheres precisavam já prender as saias entre as coxas
para não as molhar; via-se-lhes a tostada nudez dos braços e do pescoço, que elas
despiam, suspendendo o cabelo todo para o alto do casco; os homens, esses não se
preocupavam em não molhar o pelo, ao contrário metiam a cabeça bem debaixo da
água e esfregavam com força as ventas e as barbas, fossando e fungando contra as
palmas da mão. As portas das latrinas não descansavam, era um abrir e fechar de
cada instante, um entrar e sair sem tréguas. Não se demoravam lá dentro e vinham
ainda amarrando as calças ou as saias; as crianças não se davam ao trabalho de lá
ir, despachavam-se ali mesmo, no capinzal dos fundos, por detrás da estalagem ou
no recanto das hortas. (Azevedo, 2019, p. 36)
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Em diálogo residual com o excerto da obra de Azevedo, em O Quinze, Chico
Bento e sua família se deparam na viagem com um grupo de retirantes que estão
comendo carne podre devido à fome intensa e cruel: “Toda descarnada, formando um
grande bloco sangrento, era uma festa para os urubus vê-la, lá de cima, lá da frieza
mesquinha das nuvens” (Queiroz, 2012, p. 28).
Ainda durante a trajetória da viagem de Chico Bento e sua família, outras
tragédias decorrentes da seca, da fome e da miséria acontecem, como depreendemos
do excerto seguinte: “A criança era só osso e pele: o relevo do ventre inchado formava
quase um aleijão naquela magreza, esticando o couro seco de defunto, empretecido e
malcheiroso.” (Queiroz, 2012, p. 35). O fragmento lido se refere à morte de um dos
filhos de Chico Bento, que, em meio à fome, come uma mandioca crua, que o faz sentir-
se mal e, depois, falecer. Assim, deparamo-nos com a representação literária de uma
família de baixa condição socioeconômica em busca da sobrevivência, como tantas
Brasil afora, que vivem à mercê da desigualdade e das injustiças sociais. O último
fragmento que utilizaremos como exemplo demonstra bem a situação miserável e
aterrorizante em que viviam os retirantes nordestinos, vítimas da disparidade social
no Brasil, tema infelizmente ainda tão atual: “Eles já estavam na ponte, magros,
encolhidos, apertados uns contra os outros, num grupo miserável e cheio de medo.”
(Queiroz, 2012, p. 63)
Todavia, nossa análise não tem como intuito demonstrar que O Quinze segue
fielmente todos os preceitos naturalistas, afinal, estamos tratando de uma nova época.
Assim como no Naturalismo as personagens eram animalizadas e representadas
segundo seus instintos menos “civilizados” (isto é, daquilo que era aceito pela
sociedade do período), em O Quinze as personagens são animalizadas porque recebem
tratamento humilhante que nem os bichos suportariam. Assim, verificamos a mesma
característica – animalização do ser humano – utilizada de formas diferentes nos
contextos naturalista e modernista. Logo, estamos falando de relações de hibridação
cultural e cristalização, e não apenas de mera continuidade sem transformações.
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Outro ponto de divergência entre o Naturalismo e o romance que estamos
abordando é a forma de representação da figura feminina. Em O Quinze, temos na
personagem Conceição, jovem professora da capital cearense, um símbolo da
liberdade, do feminismo, do comunismo, do progresso e, consequentemente, da
solução para os males sociais de então. Conceição é retratada de maneira fiel à
realidade, sem a idealização excessiva do Romantismo e sem a sexualização extrema
própria do Naturalismo.
Ademais, a linguagem do romance queiroziano, embora aguçada e ferina como
nos romances naturalistas, não apresenta a agressividade tão marcante do
Naturalismo, consoante assevera Cattapan:
[...] no enfoque, na forma, na linguagem, na estruturação do enredo, nos ideais
defendidos. Os romances nordestinos que abordavam a seca antes de O quinze
tinham ainda forte cunho naturalista, com preocupações cientificistas e linguagem
rebuscada, ainda sob nítida influência da obra de Euclides da Cunha, ou traziam
uma narração excessivamente dramática e artificial. O quinze introduz uma
linguagem simples e direta. A descrição da seca é feita de forma objetiva, com o
predomínio de substantivos sobre adjetivos e advérbios. A narrativa é enxuta,
prende-se ao essencial e dispensa o supérfluo. A narração é sóbria, sem apelar para
sentimentalismos românticos, nem para o brutalismo naturalista. O tom
dramático está na situação descrita, não nos artifícios do narrador. (Cattapan,
2012, p. 103)
Portanto, nossa abordagem acerca das relações residuais entre Naturalismo e O
Quinze não visa estabelecer uma continuidade simplória, mas compreender o
amálgama de mentalidades diversas presentes numa mesma obra literária, apontando
as remanescências e as divergências presentes ali e demonstrando, assim, a riqueza e
a complexidade presentes no romance de Rachel de Queiroz ora estudado.
Considerações finais
Diante das considerações e análises realizadas neste artigo, constatamos que os
distanciamentos espacial e temporal não impedem as relações híbridas entre as
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culturas, pois há elementos que possuem força para permanecer residualmente vívidos
a posteriori. O romance O Quinze, de Rachel de Queiroz, apresenta descrições
minuciosas do sofrimento físico e psicológico dos nordestinos pobres em seu êxodo,
descrições essas próprias do romance regionalista da segunda geração modernista,
mas também demasiadamente semelhantes ao modus operandi naturalista, numa
perspectiva residual, o que justifica o uso do termo “novo Naturalismo” pelo crítico
literário Alfredo Bosi, conforme expusemos anteriormente. Assim, este trabalho
comprovou que a cultura e a literatura devem ser estudadas sob uma ótica residual,
que possibilita a análise dos textos literários em suas estruturas mais profundas,
evidenciando as complexas relações culturais, históricas e sociais neles presentes.
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